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quarta-feira, 13 de junho de 2018

CAPRICÓRNIO (4)

          
ATLAS ( ARTUS QUELLINUS, SÉC.XVII )
Embora a história do titã Atlas seja muitas vezes, sob o ponto de vista astrológico, aproximada de temas taurinos em virtude de características de sua personalidade e destino (suportar a abóbada celeste nos ombros para que ela não desabe sobre a Terra), seu mito tem também, e talvez mais, estreita relação com o universo capricorniano. Da sua relação com Touro ficou, por exemplo, na anatomia humana, o nome da primeira vértebra cervical, atlas, que se articula com a região occipital do crânio e o sustenta. Em português, cervix (nuca, em latim) é toutiço, cachaço, nuca, pescoço. Cervicartrose é o nome de problemas (artrose) nessa região do corpo.   

A relação que encontro entre Atlas e Capricórnio está no seguinte fato: toda vez que aparece um mito que narra uma história de petrificação, de coagulação, sob o ponto de vista alquímico, é possível a meu ver evocar tal relação. É o caso de Atlas, filho de Jápeto e da oceânida Clímene, irmão de Prometeu, Epimeteu e Menécio, sobrinho de Cronos,  este figura máxima da segunda dinastia da mitologia grega. Lembro, a propósito, que atlante, na arquitetura grega, era uma figura ou a metade de uma figura humana, frequentemente masculina, que substitui ou decora um membro, isto é, cada uma das partes de uma obra ou de um todo arquitetônico.


HERÓDOTO
Quando de seu retorno do ocidente, aonde fora matar a Medusa, Perseu petrificou Atlas, mostrando-lhe a cabeça do monstro, a fim de puni-lo não só em virtude dos crimes por ele cometidos no seu passado (a luta contra os olímpicos, ou seja, a matéria que se atreveu a subjugar o espírito), como por sua atitude nada hospitaleira com relação a Hércules quando da execução por parte deste filho de Zeus de seu terceiro trabalho.   


GASTON   BACHELARD
Gaston Bachelard nos falou de um “complexo de Atlas” que, em termos astrológicos, é em última instância uma luta pela verticalidade. Bachelard associa a vértebra atlas ao término do movimento de todas as demais vértebras em direção da verticalidade, sendo o lugar dessa vértebra o ponto onde “o ser se revolta contra a sua sorte.” O complexo de Atlas é definido normalmente em termos psicológicos como uma tendência instintiva que alguém apresenta no sentido de acumular responsabilidades e tensões  nessa região do corpo, nos ombros, traduzida essa tendência, muitas vezes, pela expressão “carregar o mundo nas costas.” As tensões assim acumuladas costumam atingir o tônus do trapézio, o principal músculo que sustenta a cabeça. Daí, dores no pescoço, na nuca, na cabeça, bruxismo, tensão generalizada, enfim. Tudo isso provoca muitas vezes o esgotamento dos estoques de neurotransmissores cerebrais ocasionando estados, no geral, altamente depressivos.

Muitos capricornianos, como se sabe, costumam aderir a este complexo de Atlas sem perceber como isto acontece, vivenciando-o através de crises de responsabilidade, remorso, culpa, renúncia, fatalidade, destino etc. Não nos esqueçamos que Saturno, o planeta de Capricórnio, tanto é previsão, precaução, responsabilidade, seriedade, maturidade de espírito, vontade e reflexão como, além das características negativas acima mencionadas, é o astro que através do intelecto regula a utilização da memória, das funções inibidoras e que provoca o retardamento dos reflexos. Gaston Bachelard, lembro, pôs em evidência com muita propriedade a simbólica da petrificação, nela compreendida as imagens do rochedo, da montanha, do frio, do gelo, da neve e da própria terra.  

Todo capricorniano parece saber que a ameaça da petrificação sempre o ronda. É por isso que ele sabe que tem que se movimentar, se mexer, trabalhar, avançar. Parar, para muitos (a maioria ?) capricornianos, é mergulhar na depressão petrificadora. O tema alquímico da coagulatio é muito importante no universo capricorniano. Esta talvez a razão maior pela qual os do signo tenham a reputação de possuir “tão pouca imaginação”, ao contrário dos nativos de Câncer, o signo que a eles se opõe.

Neste sentido é que podemos dizer que o capricorniano superior se liga muito à imagem do rochedo e ao que dela podemos depreender simbolicamente. Com efeito, por causa de sua dureza, de sua fixidez, da sua permanência e da majestade de suas formas e, muitas vezes, das suas dimensões enormes, a pedra, o rochedo, a montanha, no caso, sempre impressionou os homens desde tempos pré-históricos. Por essa razão, em muitas culturas os rochedos e as montanhas foram transformados em objeto de culto, cujo vestígio pode ser encontrado nos dólmens, menires e pedras sagradas que se espalham por toda a terra. 


DÓLMENS - STONHENGE


FADAS
(M. TARRANT, 1888 - 1959)
Os dólmens são pedras enormes, dispostas verticalmente, agrupadas duas a duas (bilítico), três a três (trilítico) e assim por diante. Segundo alguns pesquisadores (embora haja muitas dúvidas), indicavam necrópoles. Muitos dólmens, ao evocar a forma de casas de pedra, eram conhecidos como residência de fadas e de korrigans (do bretão, korig, anão, pequeno ser), que dançavam nas noites de luar à sua volta. Sob o ponto de vista capricorniano, todavia, o que nos interessa são os menires, dos quais me ocupo a seguir. 


OS   KORRIGANS  -  CARTÃO   POSTAL
  
MENIRES DE CARNAC
A relação dos menires com Capricórnio se evidencia e reforça se soubermos que na origem o menir (men, pedra; hir, longa, na língua bretã) é um monumento megalítico, uma enorme pedra alongada, de altura variável (até cerca de 11 metros), fixada verticalmente no solo, juntamente com uma pedra deitada, sempre considerada como símbolo do renascimento do Sol ou do solstício de inverno. O menir representa também o mais antigo símbolo do andrógino (a junção
LINGAM  E  YONE
das duas pedras brutas), composto pelo princípio viril, a força ativa de um lado, e a matéria, princípio feminino, passivo, e gerador, de outro lado. Na Índia, são, respectivamente, Purusha (espírito) e Prakriti (matéria), ou o lingam e a yone, uma pedra colocada verticalmente dentro de um círculo na terra. Símbolos como este encontram-se em toda as primitivas civilizações.

Uma antiga tradição, atestada ainda no séc. XIX, na França e na Irlanda, ligava os menires a cultos de fecundidade e ao casamento de modo especial. Para obter um esposo, muitas jovens depositavam oferendas junto dessas pedras, ornando-as de guirlandas de flores. Para engravidar, muitas esposas, em razão da sua forma fálica, se esfregavam nessas pedras. Com o avanço do cristianismo no mundo celta, essas pedras começaram a ser chamadas de pedras do Diabo, lançando-se sobre elas toda espécie de descrédito no sentido de destruir o antigo culto que lhes era prestado. 

VIA   LÁCTEA
O esoterismo ismaelita usa o rochedo como um símbolo da condensação, na terra, da parte mais densa da matéria “decaída”, quando da rebelião dos anjos. Na antiguidade grega, os pitagóricos e platônicos antes e os neopitagóricos e neoplatônicos depois, estes últimos já no mundo greco-romano alexandrino, discutiram esta questão através das chamadas "portas do céu". Afirmavam eles, de um modo geral, que no zodíaco há duas portas, situadas nos dois pontos opostos em que a Via Láctea corta o círculo zodiacal e que limitam o curso do Sol. Um ponto está no trópico do verão, no signo de Câncer, sendo chamado de a “porta dos homens”, pela qual se dá a queda das almas na Terra. Outro ponto está no trópico hibernal, no signo de Capricórnio, ao qual dão o nome de “porta dos deuses”, pelo qual as almas fazem o seu retorno ao éter divino. 


HOMERO
Lembremos que Homero procurou simbolizar tudo isto com a alegoria da caverna de Ítaca ou das Ninfas, ideia retomada por Porfírio, que chamou o lugar de Espelho do Mundo, lugar de entrada das almas na Terra. Seduzidas pela enganadora atração da matéria, fala-nos Porfírio, as almas que para cá vieram perderam as suas asas. Chegando à referida caverna (signo de Câncer), nela encontram urnas e cântaros de pedra (a sema, prisão, dos órficos, na expressão soma sema, corpo, prisão da alma), uma metáfora dos corpos terrestres que deverão animar. Na sua caminhada, as almas, entre os signos de Câncer e de Leão, bebem da “taça de Dioniso”, também chamada de “taça do esquecimento” e de embriaguez pelo mundo sensível, ideias que muito nos lembram o conceito de Maya, dos hinduístas. 

Como resistência e obstinação, o rochedo é uma síntese das virtudes dos capricornianos superiores, muitas vezes inconsciente. O rochedo desafia qualquer tentativa de penetração, de apagamento do que foi gravado. É por esses motivos certamente que muitos escultores têm um modo de ser tão saturnizado, como Rodin, por
GOETHE NO CAMPO SAGRADO
( J. H. W. TISCHBEIN, 1751 - 1829 )
exemplo, escultores que como ele têm a paixão pelo material mais resistente, mais duro, granitos, mármores ou madeiras, pois só esse material é digno de seu desafio titânico. Lembro que foi um Virgo saturnizado, Goethe, que associou o granito à educação de uma vontade, não para torná-la inabalável, mas para fazê-la resistir aos golpes e às injúrias do destino. É evidente que ao nos envolvermos com estas questões sempre podemos ficar a um passo da pobreza despojada, do espaço contraído, reduzido a uma cela individual, ficarmos prisioneiros do frio, do gelo e da morte, perigos que sempre ameaçam os capricornianos.



CÍCERO
Há uma frase de Bachelard que, acredito, nos ajuda, e muito, a aumentar a nossa possibilidade de compreensão do signo de que tratamos. Num certo trecho de sua obra sobre o elemento terra ele afirma que o rochedo é um grande moralista. Isto é, o rochedo é um ser moral. A filosofia costuma definir a moral (palavra criada pelo capricorniano Cícero para traduzir do grego a palavra ethikos) como aquilo que concerne aos costumes, às regras de conduta admitidas numa época por uma determinada sociedade. Muitos dos melhores trabalhos sobre a Moral fazem parte do mundo capricorniano. 

Costumes, conduta, convivência, regras, limites, a Moral é certamente um saber capricorniano. Concretamente, a Moral deu origem no Direito à chamada “pessoa moral”, que tanto tem a ver astrologicamente com Libra como com Capricórnio. Enquanto a “pessoa física” está relacionada com o corpo humano como manifestação, uma individualidade biológica, uma função psicológica pela qual um indivíduo se considerada um eu, a “pessoa moral” se refere a esse indivíduo na medida em que ele possui qualidades que lhe permitem participar da sociedade segundo uma noção de valores, que é dada por símbolos como a balança e a régua. A primeira é o instrumento da avaliação, da pesagem, do julgamento, sendo a outra, por excelência, o instrumento da construção. É a régua que nos permite estabelecer o plano diretor dos edifícios, inclusive o social, e verificar quanto à exatidão da sua construção. 

Lembremos que a Moral tem por base aquilo que o tempo consagrou, o chamado direito consuetudinário (consuetudinarius, em latim, é o habitual, o costumeiro, o usual), o direito fundado nos costumes, na prática, e não nas leis escritas. Não foi por acaso que
CARTAS  PERSAS
Montesquieu (Charles-Louis de Secondat), um capricorniano-aquariano, apresentou na Academia de Ciências de Bordeaux trabalhos sobre Anatomia (glândulas renais), sobre Física (o eco, a transparência dos corpos e a lei da gravidade). Sua grande contribuição, entretanto, está no campo da Moral, nos trabalhos que escreveu sobre os costumes, os hábitos, a política e a religião, publicados, dentre outros, com títulos como O Espírito das Leis e As Cartas Persas.

Quando alguém se comporta moralmente, isto significa que este alguém, antes de pensarmos em leis, tem uma conduta que observa as regras admitidas numa determinada época, numa sociedade determinada. Um fato moral é desejável para uma determinada sociedade quando ele se situa no plano médio do conjunto de seus valores, permitindo a realização de uma vida social mais justa, mais humana. 

De um modo geral, a literatura produzida por capricornianos, inclusive a filosófica, privilegia as memórias, os diários, as máximas, a historiografia e a metafísica (La Rochefoucauld, Michelet, Saint-Simon, Maine de Biran etc.). Sempre uma ideia de
MOLIÈRE
( P. MIGNARD, CA.1658 )
ir ao fundo das coisas, às bases, para verificar como tudo se organiza a partir delas. Lembro que foi de um tipo capricorniano mercurizado como Molière que, no séc. XVII, vieram as melhores críticas aos costumes e à vida moral do ser humano de todos os tempos. Kepler, nome importante tanto na astronomia como na astrologia, é outro exemplo; ele nos deu, com as suas leis empíricas, uma descrição exata e coerente dos corpos celestes. Nas artes plásticas, a figura solitária e amargurada de Cézanne é outro exemplo, sempre nos atraindo pelo conjunto de sua obra, na qual se destaca a sua grande obsessão pictórica, o monte Saint Victoire, em Aix-en-Provence, tema de cerca de vinte telas. Se nos voltarmos para exemplos nossos, obrigatória a referência a dois escritores, um poeta, João Cabral de Melo Neto (A Educação pela Pedra), e um romancista, Graciliano Ramos (Vidas Secas), que fazem parte do mundo de Capricórnio. 

AS   GÓRGONAS
( 1902 , G.  KLIMT )
O motivo da petrificação, tão caro a Capricórnio, encontra uma de suas melhores ilustrações na história do herói Perseu. Este herói, como se sabe, destacou-se por ter vencido, com o auxílio dos deuses, um dos maiores monstros da mitologia grega, a Medusa, uma das três Górgonas (As Apavorantes), filhas dos monstros marinhos Forcis e Cetus. Ésteno e Euríale eram as outras duas irmãs da Medusa. Das três, a única realmente perigosa era está última; seu nome vem de um radical indo-europeu, med, que traduz uma ideia de medida, moderação. A Medusa, bem como suas irmãs, tinham a cabeça coberta de serpentes, presas de javali como dentes, mãos de bronze e asas de ouro. Quem trocasse olhares com a Medusa ficaria petrificado. Assim, ao vencê-la, Perseu venceu a petrificação. O tema da petrificação, alquimicamente, se liga à operação chamada coagulatio, cujo simbolismo pertence ao elemento terra. O símbolo maior da coagulatio é, como se sabe, o chumbo, metal de Saturno, de Capricórnio, pois, associado a ideias de depressão, peso, gravidade, limitações mortificantes, vincula-se sempre, psicologicamente, às fortes pressões das particularidades da vida pessoal de alguém.


DÂNAE  ( TICIANO  VECELLIO , 1488 - 1576 )

Astrologicamente, com base naquilo que o mito nos narra, Perseu parece ter, efetivamente, superado, ainda na juventude, a ameaça de coagulação que, na sua vida, o eixo Câncer-Capricórnio (casa IV e meio-do-céu) poderia representar. Um dos problemas deste eixo, é importante salientar,  Perseu já o trazia superado (?) quando nasceu, pois não teve um pai mortal, como era típico na genealogia dos heróis gregos ou não. Era apenas filho de Zeus, pois, antes de concebê-lo, Dânae não conhecera homem algum. O grande problema familiar do nosso herói ficou então centrado diretamente nas suas relações com a mãe e indiretamente com o avô materno. 

Fazendo um breve retrospecto da história, recordemos que um oráculo havia sentenciado que se Dânae tivesse um filho ele destruiria o avô materno, Acrisio. Este, embora tenha tomado todas as providências para evitar o nascimento de um neto, não o conseguira. Zeus, apesar de conhecer a profecia oracular, obviamente, resolveu (os desígnios dos deuses são insondáveis!) ter um filho com a belíssima princesa. Para tanto, penetrou na inexpugnável fortaleza em que o pai a encerrara. Tomando a forma de uma “chuva de ouro”, insinuou-se o Senhor do Olimpo pelas frestas do telhado do edifício, conseguindo chegar ao leito da jovem e, antropomorfizando-se, a fecundou. Dânae, ciente de seu papel nessa epifania (o de que fora escolhida para ser mãe de um ser semi-divino), conseguiu trazer o filho à vida sem que o pai o soubesse. Um dia, porém, Acrisio tomou conhecimento do ocorrido e, embora Dânae tenha tentado convencê-lo da paternidade divina do filho, ele não aceitou a história da filha, mandando  que ela e o menino fossem lançados ao mar, dentro de uma arca. Empurrada pelas correntes marinhas, a arca chegou à ilha de Sérifo, sendo recolhida pelo irmão do seu rei. A mãe e a criança foram levadas para o palácio real, sendo Perseu adotado como filho do rei Polidectes. Vivendo na corte como um príncipe, belíssimo, forte, inteligente, protegia Perseu com muita habilidade a mãe das investidas do rei que sempre desejou tornar Dânae sua concubina.

PERSEU  E  A  CABEÇA  DA  MEDUSA  ( DETALHE )

Certa feita, numa festa de aniversário de Polidectes, os amigos desejaram lhe oferecer um presente real, um cavalo, um soberbo animal como não havia outro no reino. Perseu, contudo, tomando a palavra, prontificou-se a oferecer ao rei algo inusitado, a cabeça da Medusa, monstro horripilante que aterrorizava o país. Todos se espantaram, diante da ousadia do jovem. Polidectes aceita o presente, impondo, porém, uma condição: se Perseu não lhe trouxesse a cabeça do monstro, ele se apossaria de Dânae. Tomando conhecimento do que transcorrera na referida festa, Dânae se desespera, temendo pelo destino de seu filho, ainda muito jovem. Tenta dissuadi-lo de tão perigoso intento, chora, descabela-se, lança-se ao chão, ajoelha-se. O jovem, contudo, embora sofrendo muito, manteve-se firme, deixando a mãe, fazendo-lhe muitas recomendações de cuidado quanto às intenções de Polidectes.   

Como sempre acontece em tais situações, e em se tratando de um filho de Zeus, o candidato a herói é protegido por entidades ou divindades, os chamados “guardiães do limiar”, que o ajudam, de um lado, a vencer possíveis dúvidas ou temores e, de outro, a que seja evitada a hibrys, sempre perigosa, isto é, os descomedimentos, os exageros, o orgulho, características contraditórias, mas muito comuns em heróis semi-divinos. Hermes e Palas Atena acorreram no sentido de auxiliar o jovem. Aconselhado por eles, Perseu se dirigiu primeiramente aos confins do ocidente, indo além das terras dos Cimérios, lugar jamais alcançado pelos raios do Sol, onde viviam as Greias, conhecidas como as Velhas, irmãs mais velhas das Górgonas. Vencendo-as, instruído pelas duas divindades tutelares, Perseu conseguiu delas a informação de como chegar a umas ninfas que tinham em seu poder objetos que muito facilitariam a sua tarefa. 

PÉGASO
Obteve Perseu os referidos objetos sem maiores problemas. Eram eles: um par de sandálias voadoras, um saco (alforje) para guardar a cabeça do monstro e um capacete que tinha a propriedade de tornar invisível quem o usasse, como o do deus Hades. Hermes já lhe havia fornecido uma espada maravilhosa, afiadíssima, e Palas Atena lhe dera o famoso escudo de bronze, tão polido quanto o melhor espelho de cristal. Penetrando na imensa caverna dos monstros pelo ar, calçado com as sandálias voadoras, pairando acima deles, valeu-se do escudo polido para devolver o olhar do
PALAS  ATHENA
monstro, que imediatamente ficou petrificado, do que se aproveitou o jovem para, com um certeiro golpe, decepar a sua cabeça, guardada no alforje que levava. Do pescoço ensanguentado da Medusa nasceram, no ato, dois seres: o cavalo alado Pégaso e o gigante Crisaor, ambos filhos que ela gestava dentro do seu corpo, fruto de relação que mantivera com o deus Poseidon. A cabeça da Medusa, posteriormente, entregue a Palas Atena, foi colocada no seu escudo. 

Com a cabeça da Medusa no alforje, Perseu tomou o caminho o caminho do oriente, chegando à Etiópia. Encontrou o país sob a ameaça de devastação. A rainha Cassiopeia ousara proclamar-se mais bela que as nereidas, mais bela que Hera, afirmavam alguns.
ANDRÔMEDA (G. DORÉ, 1832-1883)
Era preciso punir a rainha por tamanha ousadia. Poseidon enviou um monstro marinho para destruir o país. Diante da iminência do desastre, um oráculo foi consultado. A sentença: o país seria poupado se uma vítima expiatória fosse oferecida ao monstro. Pressionado pela população do reino, Cefeu, o rei, mandou prender a filha, a princesa Andrômeda (a que comanda o homem, a que dá a medida do homem, em grego), num penhasco à beira-mar, para esse fim. É nesse momento que Perseu chega ao país. Viu a cena e ficou profundamente tocado; lágrimas vieram-lhe aos olhos; apaixonou-se pela princesa, que, na sua dignidade calada, além de belíssima, era, sem dúvida, um exemplo inexcedível de piedade filial, pois espontaneamente oferecera-se, sem dramas, para salvar o reino e o país.        

Perseu, a essa altura já muito famoso por ter vencido a Medusa, se propôs a salvar a princesa, fazendo um acordo com Cefeu e Cassiopeia. Salvá-la-ia se ela lhe fosse dada em casamento, o que é aceito. Com as suas armas e sua habilidade, Perseu não teve muito trabalho para liquidar o monstro marinho. Ao se apresentar aos pais da jovem para tomar posse de seu “tesouro”, nosso herói não contava com a intromissão de um irmão de Cefeu, tio da moça, portanto; alegava ele que Andrômeda já lhe fora prometida pelos pais. A luta é encarniçada, mas Perseu a todos venceu, inclusive o exército de Cefeu, que, arrependido, não desejava ver a filha casada com seu irmão.

Perseu e Andrômeda se dirigiram para Sérifo. Toma nosso herói conhecimento que Polidectes expulsara o irmão do reino e que tentara violentar sua mãe. Exibiu ao rei e ao seu grupo a cabeça da Medusa, petrificando a todos. Através do deus Hermes, devolveu os objetos que recebera das ninfas e entregou a cabeça da Medusa à
LARISSA , RUÍNAS 
deusa Palas Atena. Em companhia da mãe e de Andrômeda, não tomou o caminho de sua terra natal, Argos, pois temia o cumprimento do oráculo; dispensou os soldados que o acompanhavam e anonimamente dirigiu-se para Larissa, cidade distante da outra. Como um cidadão comum, inscreveu-se nos agones que se realizavam no ginásio local. Na prova do disco, lançou-o com tal força que a peça, escapando-lhe das mãos, atingiu a cabeça de um espectador que estava na tribuna de honra, matando-o. Era seu avô, que a convite do rei de Larissa, assistia aos jogos. Cumprira-se o oráculo. Identificando-se, Perseu, depois de prestar as honras fúnebres a Acrisio, uma solenidade da qual participaram todos os habitantes da cidade, se dirigiu com Dânae e Andrômeda a Tirinto, onde assumiu o trono, entregando o reino de Argos ao primo Megapentes, mediante uma permuta.


TIRINTO , SÍTIO ARQUEOLÓGICO
Segundo o mito, a história de Perseu terminou aqui; em companhia da mãe, ele e Andrômeda tiveram muitos filhos, vivendo felizes no palácio de Tirinto. Dos filhos que tiveram, sete ao todo, ficaram no mito apenas Electrion (pai de Alcmena, mulher de Anfitrion, mãe de Hércules e de Íficles), Estênelo (rei de Micenas), Helio (filho caçula, que fundou a cidade de Helo, na Lacônia, da qual se tornou herói epônimo) e Gorgófone (a primeira mulher que, no mito, tendo enviuvado, uniu-se em segundo matrimônio, o que era proibido até então).  

Como se pode depreender desta história, o abandono do regaço materno por Perseu é um exemplo típico daquilo que os gregos antigos chamavam de efebia. Na Grécia, em Atenas especialmente, o efebo é o adolescente que, tendo chegado à idade de dezoito anos, tem que passar pela docimasia (etimologicamente, verificar a aptidão, pôr à prova, testar) antes de se inscrever como cidadão nos registros de seu domo. Na polis grega, essa passagem era vivida através do serviço militar que o jovem devia prestar, algo sempre temível diante das inúmeras batalhas que as cidades gregas travavam entre si e, o pior, os conflitos contra invasores externos (a Pérsia, principalmente) e as aventuras colonialistas que os levavam para bem longe da pátria. 

No mito, a efebia se caracterizava por uma exibição de coragem, de destreza, de um ideal viril pelo qual se demonstrasse um pleno domínio das chamadas “artes heroicas”, enfim, numa prova pública a que o jovem candidato a herói deveria se submeter. Matar monstros, vencer malfeitores, gigantes, libertar princesas, apoderar-se de tesouros escondidos, na terra, nas alturas de montanhas inacessíveis, nos mares e nas suas profundezas ou mesmo no mundo infernal, provas que significavam sempre a superação dos limites humanos. A efebia sempre significava o abandono da casa paterna, da vida familiar, ou seja, astrologicamente, a saída do signo de Câncer para o de Leão, da quarta para a quinta casa, decisão que sempre ameaçava o “transgressor” ao fazê-lo viver essa travessia como culpa, remorso. É nesta condição que a figura materna (Dânae), inteiramente e apenas fixada na sua função geradora, tentou se transformar na “mãe devoradora”, voltando-se contra aquele a quem deu à luz (Perseu), impedindo-o de se libertar, sugerindo essa petrificação limitações que podem equivaler à própria morte. 

MEDUSA
É na perspectiva acima que a Medusa pode ser considerada como um dos grandes símbolos da culpa pessoal na medida em que ela revelava através do olhar “devolvido” o que as pessoas que a olhavam eram realmente. Vencer a Medusa é superar as ameaças de paralisação, de imobilismo, de divisão interior na melhor das hipóteses, que a quarta casa pode impor. A Medusa é assim a culpa que petrifica, seja essa culpa objetiva ou não, podendo ser neste segundo caso produto de uma imaginação doentia, lunar, de uma subjetividade patológica, talvez mais nefasta que a da primeira hipótese. Os escritores franceses incluíram a palavra medusa no seu léxico, recebendo-a do grego pela via latina, transformando o nome num verbo, méduser, ao que parece desde o
MEDUSA
séc. XVII, com o sentido de estuporar, siderar, paralisar, estarrecer e, naturalmente, petrificar. Em muitas línguas, a palavra medusa designa também uma mulher muito feia, com ares de bruxa. Na celenterologia, é um pequeno ser marinho de corpo gelatinoso, que lembra um sino ou uma campânula, com tentáculos à sua volta, lado convexo para cima e boca localizada no centro da superfície côncava inferior.    







segunda-feira, 27 de abril de 2015

MOLIÈRE NO CINEMA

                           

       


Si Versailles m'était conté (1954), de Sacha Guitry, Louis, enfant
roi (1993), de Roger Planchon, e Le Roi Danse (2000), de Gérard Corbiau, são filmes que indiretamente fazem referência a Molière e ao seu teatro. Especificamente sobre o autor de L´Avare temos apenas um, o film - fleuve de    Arianne Mnouchkine, de mesmo título, lançado na França, em agosto de 1978, apresentado no festival de Cannes do mesmo ano, com 4h10m de duração. Com essa duração, não era evidentemente um
filme para circuitos comerciais, nos quais foi exibido e, por isso, logo retirado. Molière deu-se melhor na TV, onde foi apresentado em 1980, em cinco partes de uma hora cada uma delas. Com isto, foi alcançado um público bem maior e o nome de Arianne Mnouchkine, só conhecido nos meios teatrais, começou a circular entre o grande público. A estas informações, para os que quiserem mais sobre Molière, não podemos deixar de acrescentar a notícia da edição do coffret de 17 DVDs com as melhores peças dele encenadas pelos Comédiens-Français entre 1997-2003, do qual fazem parte o livro Molière, de autoria de Christophe Oury, e o livreto La Maison de Molière, que trata das relações de nosso autor com a Comédie Française. 



LA   COMÉDIE   FRANÇAISE  -  PARIS


Até Molière, sabia-se apenas nos meios cinematográficos que Arianne, além de diretora de um grupo teatral, era filha de Alexander Mnouchkine, russo de origem judaica, emigrado, produtor de cinema desde 1945. Fundara a Films Ariane e já produzira filmes de Jean Cocteau, Christian Jacques, Claude Lelouch e outros. 

ARIANNE   MNOUCHKINE
Com um ideal na cabeça, partindo praticamente do nada, Arianne, com o seu grupo do Théâtre du Soleil, a essa altura já bem conhecido, se meteu, no final da década de 1970, numa empreitada única na história do cinema: realizar, como seu primeiro filme, uma superprodução sobre um tema de pouco apelo comercial, principalmente pelo tratamento dado à matéria fílmica, ao mesmo tempo edificante e pedagógico. As cifras do milionário orçamento, o investimento na pesquisa (500 máscaras, 800 figurinos), a grande quantidade de participantes (300 figurantes) eram de espantar mesmo diretores tarimbados. Para a realização do filme, a Cartoucherie de Vincennes, na periferia de Paris, sede do grupo teatral, foi transformada numa espécie da Cinecittà felliniana. 




Os principais atores do filme, membros do grupo, participaram intensamente da sua realização, levando para o cinema a forma cooperativa de atuar que usavam nos seus espetáculos teatrais, a chamada SCOP, sociedade cooperativa de produção. Phillippe Caubière fez o papel de Molière. De fora, na base do entusiasmo, vieram figuras de grande destaque do teatro francês como Jean Dasté (no papel do avô de Molière), Roger Planchon (no papel de Colbert) e Daniel Mesguich (no papel de irmão do rei). 


   INTERVALO   DE   REPRESENTAÇÃO   NA   CARTOUCHERIE   

Seduzidos por entrevistas de AM e pelo que viram na Cartoucherie, quando as filmagens estavam nos seus preparativos, gente do métier, como Claude Lélouch e seus técnicos, e do mundo do dinheiro, Antenne 2 (sociedade pública governamental produtora de programas de TV), aceitaram coproduzir o filme. Significativa também foi a colaboração financeira de Monsieur Mnouchkine, pai de Arianne, quando o orçamento começou a estourar.

O Théâtre du Soleil é uma experiência única e vitoriosa mundialmente. O grupo foi organizado como uma cooperativa operária: todos os seus membros recebem o mesmo salário e são pagos do mesmo modo, participando igualmente de seu funcionamento, todos desempenhando em esquema de rodízio papéis nos espetáculos como atores, diretores, produtores de textos, iluminadores, maquiadores, cenógrafos, e também, no mesmo esquema, atuando em funções administrativas, inclusive logísticas (cozinha, limpeza, suprimentos, bilheteria etc.).  



LA   CARTOUCHERIE   DE   VINCENNES



Desde 1970, o grupo está instalado na referida Cartoucherie de Vincennes, nos arrabaldes de Paris, um antigo entreposto militar abandonado. Os espetáculos, mesmo revisitando os clássicos do repertório teatral, são sempre engagés, isto é, decididamente politizados, didáticos, com forte coloração popular, mas sempre conduzidos de modo excepcional pelo seu apuro e inventividade. 


O filme de AM nos descreve como um jovem, nascido em 1622, numa modesta família de tapeceiros, tornou-se um ator prodigioso e um autor aclamado universalmente. AM insere o jovem Jean-Baptiste Poquelin, dit Molière, na sua época, dando-nos dele e de seu tempo, como alguém com propriedade a definiu, uma visão dépoussiérée (desempoeirada), que nada tem a ver com aquelas em que a maioria dos historiadores da literatura e produtores de teses universitárias procuraram encerrá-los. 

Em que pesem algumas inserções da contracultura hippie (amor livre, banhos nus coletivos, revolta de estudantes), que estão certamente na formação e na origem do trabalho de AM, não chegam elas em absoluto a desmerecer o filme, sempre excepcional. Entenda-se: AM faz parte daquela geração que nos anos 70 procurou fazer um teatro em locais diferentes, expandindo os seus tradicionais limites, dele fazendo o público participar. Até hoje, a cada ano, as montagens nos surpreendem, sempre presente, que seja utopicamente, a visão do teatro como uma aventura coletiva que pode, à sua maneira, mudar o mundo.

Nestes tempos em que a intelectualidade moderna vem procurando, nos seus textos, há muito, substituir as interpretações histórico-sociais pelas de natureza psicologizante, o filme de AM é salutar. O melhor que podemos falar sobre o filme é que ele, a par da excepcional direção de atores, nos oferece, como poucas vezes o cinema o fez, uma estupenda reconstituição histórica da vida de um personagem sob o chamado Ancien Régime, com a sua arquitetura, seus décors, seus figurinos e objetos de época.


OS   NÁUFRAGOS   DA   BOA   ESPERANÇA

Para se compreender melhor os objetivos do Théâtre du Soleil, tanto com relação à montagem de seus espetáculos como no que diz respeito aos DVDs que produziram, vale a pena, por exemplo, tomar conhecimento do que o grupo fez recentemente com Os Náufragos da Boa Esperança, filme dirigido por AM, lançado pelo SESC, no Brasil, baseado numa criação coletiva do grupo, escrito em parceria com Hélène Cixous, com música do genial one-man-show Jean-Jacques Lemètre, livremente inspirado em um romance póstumo de Jules Verne.


JEAN - JACQUES   LEMÈTRE  

Ao trabalho de AM e aos DVDs da Comédie Française sobre Molière, eis que, recentemente, uma pequena obra-prima foi acrescentada, lançando mais luzes sobre a vida e a obra de Molière e provando que cinema e teatro podem funcionar juntos. Refiro-me ao filme Alceste à Bicyclette (Pedalando com Molière, no Brasil), de Phillippe Le Guay, apresentado em 2013, com Fabrice Luchini, Lambert Wilson e Maya Sansa nos papéis principais.  O roteiro do filme é de Phillippe Le Guay e de Fabrice Luchini. A direção de fotografia, a montagem e a música ficaram, respectivamente, por conta de Jean-Claude Larrieu, Monica Coleman e Jorge Arriagada. Pela direção de arte responderam Lionel Mathis, Tatiana Vialle e Etienne Rohde. 


FABRICE   LUCHINI   E  LAMBERT WILSON

No filme, Gauthier Valence (Lambert Wilson) é um ator de cinema e TV de sucesso. Para provar a si mesmo e ao grande público que é bom de fato, resolveu montar uma peça teatral, Le Misanthrope, de Molière. Dirigiu-se então à Ilha de Ré, na costa da Normandie, na esperança de convidar para um dos papéis principais seu grande amigo e famoso ator, Serge Taneur (Fabrice Luchini), que há vários anos vivia retirado e recluso na referida ilha, numa velha casa que herdara de um tio. 

Desgostoso com a falsidade do mundo e cansado da vida teatral que execrava, feita só de traições, Taneur interrompera sua carreira de

sucesso e vivia isolado, na ilha. Não queria em hipótese alguma voltar aos palcos. Contudo, admirador da peça de Molière, Taneur, aos poucos, vai se deixando tentar pelo convite, pela perspectiva de assumir o papel de Alceste, mesmo que tivesse que alternar este papel com o de Filinto, o outro personagem. Os dois amigos se reúnem várias vezes para discutir a peça, a composição dos personagens e outros detalhes técnicos de interpretação, conhecem-se, um choque de egos inteligentes e cheios de malícia como poucas vezes se viu no cinema. 


Gauthier Valence tem uma bela estampa, é alto, espadaúdo, célebre, mundano, trabalha na TV numa série de muito sucesso, fazendo papel de um neurocirurgião. Por isso, é capaz de encontrar patrocinadores para a sua empreitada com relativa facilidade. A participação de Taneur, por quem experimentava até um certo reconhecimento por tê-lo ajudado no início de sua carreira, daria sem dúvida muita classe à montagem, conferindo-lhe, além disso, um excepcional nível cultural. 

Taneur, como o filme deixa claro, é, como ator, bem melhor que Gauthier. Isto fica evidente quando vemos os dois discutindo o texto de Molière, o sentido que se ocultava nos alexandrinos, a
BERNARD   PIVOT
melhor maneira de dizê-los. Fabrice Luchini, aliás, neste filme interpreta o papel de um personagem que se parece muito com ele na vida real, como, ao longo dos anos, veio demonstrando em diversos filmes em que atuou e sobretudo nas suas participações em programas de TV (no saudoso Bouillon de Culture, com Bernard Pivot, foi notável). O ator (Taneur) e o personagem (Alceste) se identificam perfeitamente. Taneur, além de misantropo que despreza os gadgets do mundo moderno, desde telefones celulares a banheiras jacuzzi, acima de tudo preza os clássicos, é culto, hipercrítico, refinado, sua dicção é perfeita.  


Em meio às discussões sobre Le Misanthrope, passeios de bicicleta pela maravilhosa ilha (onde Luchini tem uma casa na vida real) e encontros com a bela italiana por quem o misantropo Taneur abre a sua guarda, o filme nos demonstra, dentre outras coisas, como dois
LAMBERT  WILSON  E  FABRICE  LUCHINI

grandes atores, virtuoses do diálogo, podem transmitir a beleza clássica da língua francesa. Neste particular, com o beneplácito de Le Guay, o diretor, é que Taneur e Luchini se identificam. Em ambos, a mesma lucidez que não pode aceitar a mediocridade que hoje, realçada pelos chamados efeitos especiais oferecidos pela tecnologia, toma conta da maior parte da produção cinematográfica. Efetivamente, nada tão longe de Hollywood, com os seus galãs patolas, como Taneur e Gauthier de Pedalando com Molière. 

Com o filme de Le Guay, a obra de Molière ganha uma outra dimensão na medida em que cinema e texto se completam. Nas mãos de um bom diretor, como se demonstra, é possível fazer bom cinema e falar ao mesmo tempo de literatura, de amor às palavras, de versos alexandrinos bem colocados, de poesia, de ver vida inteligente na tela, tudo aquilo que nos garante enfim que Pedalando com Molière jamais será visto por descerebrados.


FABRICE   LUCHINI

Dentro deste enfoque, não é possível deixar de ressaltar a posição de Fabrice Luchini no moderno cinema francês, um ator que há muito divide esta atividade com o teatro e a declamação de textos (La Fontaine, Nietzsche, Louis Ferdinand Céline, Valéry, Barthes e outros). Sua grande paixão é, sem dúvida, o teatro, “o único lugar onde a vida se exprime, o alimento da vida, aquilo que nenhuma escola poderá ensinar”, como ele mesmo diz. Autodidata assumido, histriônico (só os grandes atores podem ser histriônicos), Luchini, como o Taneur do filme, é para muitos um narcisista. Prefiro vê-lo como um egotista. Esta palavra, egotismo, lembre-se, foi criada por Stendhal. Adotada pela filosofia contemporânea, egotismo designa a análise que alguém efetua sobre si mesmo com o objetivo de refinar os seus sentimentos para melhor aproveitá-los, gozá-los. É, em suma, a procura de um aperfeiçoamento individual como regra principal de conduta. Quem o cultivou, avant la lettre, por exemplo (sempre os franceses!), foi Montaigne, que nos seus admiráveis Ensaios nos fala do prazer estético que uma pessoa pode obter quando procura o autoconhecimento como regra principal de conduta.



domingo, 2 de março de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - NETUNO (4)


Desde Homero e Hesíodo que o panteão grego estava fixado.Segundo este último, em sua Teogonia, a primeira entidade criada pelos gregos para representar um dos aspectos do elemento líquido foi Pontos, palavra que admite significados como mar, via de acesso, passagem, caminho. Era filho de Geia, a Mãe Terra, e de Éter, a camada superior dos cosmos, este filho de Nix, a deusa da noite, entidade primordial, que o gerou sem o concurso de ninguém. Personificado como a energia masculina do mar, Pontos era chamado às vezes de A Onda ou a Vaga Marinha. Não possui um mito particular, figurando somente nas genealogias teogônica e cosmogônica. Unido à sua mãe, gerou Nereu, Taumas, Fórcis, Ceto e Euríbia. Atribui-se a ele também a paternidade de Briareu e dos quatro Telquinos (Atteo, Megalesio, Ormeno e Lico).

A descendência de Pontos chega até os monstros filhos de Tifon e de Équidna. No que nos interessa mais de perto, a primeira entidade gerada por Pontos é Nereu, nome que lembra velhice. Com efeito, Nereu é conhecido como o Velho do Mar, divindade marinha elementar que tinha a capacidade de tomar a forma que bem entendesse, um animal, um elemento como o fogo ou a água. Como todas as divindades marinhas, possuía também o dom da profecia.

PONTOS

Nereu aparece frequentemente no folclore marinho dos gregos. Benéfico para com os homens do mar, ele costuma ajudá-los, embora às vezes se mostre muito arredio e reticente quando lhe fazem algum pedido. Aparece sob a forma de um velho barbudo, robusto, montando um tritão e armado com um tridente.

NEREU

Também conhecido como Proteu (etimologicamente, o mais antigo, o primeiro, do radical prot, proto), Nereu aparece também no mito como um auxiliar de Poseidon, quando a terceira dinastia assumiu o poder olímpico, sendo o guardador do rebanho de focas e de outros animais a ele pertencentes, tendo como base de sua atividade a ilha de Faros, perto da foz do rio Nilo.  

Em duas passagens mitológicas Nereu é particularmente lembrado. Hércules, no seu terceiro trabalho, precisava descobrir o caminho para chegar à região das Hespérides. As ninfas do rio Erídano, filhas de Zeus e de Têmis, revelaram ao herói que somente Nereu o conhecia. Encontrado, Nereu esquivou-se todas as formas, transformando-se de várias maneiras. Nosso herói, contudo, conseguiu segurá-lo firmemente e ele não teve como não atendê-lo. 


Noutro episódio, na Odisseia, aconselhado pela deusa marinha Idoteia, Menelau, quando procurava o caminho de volta para a
PROTEU
Grécia, depois de terminada a guerra de Troia, foi consultar Nereu/Proteu. Depois de se transformar em vários animais, leão, serpente, pantera e outros, e, diante da insistência do marido de Helena, o velho acabou falando. Heródoto, contudo, desmistificando-o, nos deixou a informação que Proteu não era uma divindade marinha, mas, sim, um rei do Egito, contemporâneo de Menelau. Reinava esse rei em Mênfis ao tempo em que Helena e Páris haviam fugido para Troia. Idoteia, por sua vez, não seria uma deusa marinha, mas uma princesa egípcia.


DORIS E HIPOCAMPO

Nereu é pai das cinquenta Nereidas, que nasceram de Doris, filha do deus Oceano. Eram as ninfas do Mediterrâneo. Chamadas às vezes de Dóridas, viviam nas profundezas marinhas, num palácio dourado, divertindo o pai com os seus cantos e danças. Personificavam, cada uma delas, um aspecto particular da superfície das águas, onde apareciam entre as ondas, magníficas, metade mulher metade peixe, envolvidas por algas, cavalgando tritões, delfins ou cavalos-marinhos.


No palácio em que viviam, passavam grande parte do seu tempo a fiar, a tecer, a cantar e a brincar. Muito representadas na arte, aparecem como tema poético privilegiado e também como motivo pictórico (vasos e pratos), como podemos constar nos museus do Vaticano, de Nápoles, de Puglia, de Taranto e outros.


ANFITRITE E POSEIDON

O movimento suave das ondas era representado por duas nereidas, Galene e Glauke; as ondas revoltas eram representadas por Thoe e Halie; as impetuosas vagas que alcançavam as praias de ilhas eram representadas por Nesaie e Aktaee; as ondas das marés crescentes, por Pasiteia e Erato; as marés mais poderosas eram representadas por Euneike, que recebia as ondas que lhes passavam Pherusa e Dinamene. Registre-se que todas as nereidas faziam parte do séquito de Anfitrite. Muitos mitólogos defendem a hipótese de que o mitos das nereidas estaria por trás das histórias referentes às sereias.

NEREIDAS

Abrindo um parêntesis, destaco que Luis de Camões recolheu do mito das nereidas o nome Dinamene, dando-o a um famoso
personagem de muito destaque na sua obra. Dinamene é nome grego que significa “poderosa no mar”. Sob este nome, Camões ocultou outro, o de uma chinesa que encontrou na sua viagem, seu grande amor, que perdeu quando do naufrágio do barco em que se encontravam no rio Mekong. No nome Dinamene ecoam ideias de tristeza, mágoa e frustração. Camões associa a figura de Dinamene ao mar e ao ato de morrer.  

 Das cinquenta nereidas somente umas poucas tomaram parte mais
TÉTIS E AQUILES
ativa em histórias, aparecendo de modo mais acentuado no mito. São mais espectadoras que atrizes. Dentre as de maior destaque, temos: Tétis, mãe de Aquiles, Anfitrite, mulher de Poseidon, Galateia e Orítia. A primeira, a mais bela das Nereidas, foi muito desejada por Zeus. As Moiras, contudo, informaram ao Senhor do Olimpo que seu poder seria superado pelo de um filho que tivesse com ela. Foi por esta razão que ele a deu em casamento ao mortal Peleu, nascendo dessa união o maior guerreiro da mitologia grega, Aquiles.


Galateia (etimologicamente, a clara, a branca, de gala, leite). Era a nereida que costumava aparecer quando as águas do mar se mostravam muito limpas e transparentes. Participava com realce das histórias populares que se contavam sobre o mar na Magna

Grécia, principalmente na Sicília. Foi notada pelo cíclope Polifemo, monstruoso filho de Poseidon, antropófago (vide a Odisseia), que vivia perto de Nápoles, que  por ela se perdeu de amores. Ela, contudo, o rejeitou, preferindo o belo Acis, filho do deus Pan (Fauno, na tradição romana), atacado e morto por Polifemo, que sobre ele lançou uma enorme pedra. Galateia recolheu o corpo inerte de seu amor e o transformou num límpido rio, banhando-se nele diariamente. Uma versão desse mito nos informa que Polifemo conseguiu se relacionar sexualmente com a bela nereida, nascendo dessa união três filhos, Galas, Celto e Ilírio, heróis epônimos, respectivamente, dos gálatas, celtas e ilírios. 

A história de Galateia, Acis e Polifemo foi tema relevante na poesia, usado principalmente por Filóxeno (etimologicamente, amigo do estrangeiro) de Citera (séc. IV aC) e por Teócrito (séc. III aC; etimologicamente, o que julga as deusas). Este último foi o mais ilustre poeta grego de Siracusa, no período helenístico. Viveu entre Kos e Alexandria. Deu grande impulso ao chamado idílio bucólico, na sua forma poética mais bem acabada, inovando-o, influenciando bastante Virgílio (Bucólicas). Trata Polifemo como um ser do sofrimento que nos conta, através do seu lamento, a sua impossibilidade de obter o amor de Galateia pois a sua monstruosidade assim o impedia. Poetas modernos, como Giovanni Pascoli e Eugenio Montale também receberam a sua influência. Já Filóxeno, que viveu na Sicília, depois de ter sido vendido como escravo, adotou o gênero ditirâmbico. Seu poema mais famoso é chamado tanto de Galateia como O Cíclope. Ovídio foi bastante influenciado por ele e, mais próximos de nós, o poeta espanhol Luis de Gongora e Miguel de Cervantes. 


Não podemos esquecer de um filho de Nereu, que tem importância considerável no mito de Afrodite. Trata-se de Nerites (etimologicamente, molusco, marisco), belíssimo jovem por quem a deusa se sentiu muito atraída quando de sua temporada marinha,

tornando-se ele seu grande companheiro de brincadeiras e folguedos. Chegada a hora de subir ao Olimpo para assumir a seu papel de deusa do amor, Afrodite não queria se separar dele. Deu-lhe inclusive um par de asas para poder o jovem subir com ela. Ele recusou; Afrodite, indignada, então o transformou num molusco (vieiras), prendendo-o às pedras, para que não mais se movimentasse. 

       Uma outra versão do mito nos conta que Nerites era disputado por duas divindades, Poseidon e Hélio. Não suportando os contactos que Nerites e Poseidon, ambos extremamente velozes, mantinham nos mares, Hélio o transformou no referido molusco. Lembro que é da concha desse molusco que sai a concha-símbolo dos romeiros que se dirigem a Compostela, usando-a presa ao seu chapéu. 


NASCIMENTO DE VÊNUS

A concha da vieira é a mesma que Afrodite usou na sua temporada marinha para seu transporte quando se dirigiu à ilha de Cytera e depois a Chipre, a ilha do cobre, antes de subir ao Olimpo. Botticcelli a usou na sua sua famosa tela O Nascimento de Vênus. Em espanhol, o nome da concha é venera que passou ao português como vieira. “Venera”, por sua vez, deriva do nome Vênus, a versão romana de Afrodite. O verbo venerar, primitivamente, só se aplicava no sentido de honrar a Vênus. Depois, estendeu-se aos demais deuses, como homenagem respeitosa a eles prestada. 

Taumas é nome que lembra, etimologicamente, pasmo, admiração, thauma, em grego). Dessa palavra vem taumaturgia, arte de atrair ou impressionar pessoas com milagres e atos prodigiosos. Daí o nome taumaturgo, o indivíduo que pratica a taumaturgia. Como divindade marinha, Taumas é figura importante para a compreensão do mundo netuniano sob o ponto de vista astrológico já que ele nos remete ao imaginário, ao fantástico, ao milagroso, ao descontrole da vontade sem base alguma na realidade concreta, lembrando tudo o que não se consegue explicar racionalmente.    


Lembro que um dos mais importantes estudos já feitos sobre a taumaturgia é de autoria do mestre francês Marc Bloch, fuzilado

pelos nazistas durante a 2ª guerra mundial, e tem o título de Os Reis Taumaturgos. O livro apareceu em 1924, com prefácio de um dos maiores historiadores modernos, Jacques Le Goff. O livro de Bloc estuda um rito curioso: a cura de escrófulas por meio do toque das mãos, poder atribuído aos reis franceses e ingleses do séc. XII ao séc. XVIII. 

Taumas é irmão de Nereu. Não possui um mito particular. Uniu-se Electra, filha do deus Oceano, e com ela teve as Harpias e Iris. As Harpias são monstros femininos que vivem no Hades, de onde saem para atacar os vivos. Seu nome tem relação com o verbo harpadzein, que significa arrebatar, levar á força arrastar. Eram três: Aelo (borrasca, tempestade), Occípite (a rápida de voo) e Celeno (a obscura). São representadas como monstros femininos, horríveis, rosto muito envelhecido, corpo semelhante ao dos abutres, garras, seios pendentes. Vinham do Hades, ávidas, para raptar e beber o sangue de heróis.  Às vezes, raptavam simplesmente os jovens ou mesmo crianças, levando-os, para vampirizá-los, para se apropriar da energia delas. Costumavam também frequentar banquetes, pousando nas iguarias, apodrecendo tudo. 


HARPIAS

Dentre os personagens do mito punidos pelas Harpias, destacamos Phineus, rei da Trácia. Ele preferiu manter-se cego para preservar a longevidade e os dons de vidência que possuía. Como não morria, Apolo se sentiu desafiado por ele, principalmente porque Phineus abusava dos seus dons, revelando aos humanos as intenções divinas. Mandou que as Harpias poluíssem as refeições que eram fornecidas a ele. Zetes e Calais, filhos do vento Bóreas conseguiram, contudo, intercedendo a favor do rei trácio, afastá-las. 

BÓREAS

As Harpias gostavam de perseguir sobretudo aqueles que se tornavam vítimas de suas próprias paixões, da sua sensualidade desenfreada, os possuídos pelo desejo de ter, de comer, de gozar, de aproveitar de qualquer maneira. Elas tinham a ver com as paixões torturantes, com as obsessões e com as ideias-fixas. Só uma vida espiritualmente orientada poderia impedir que elas atuassem ou expulsá-las. Foi do nome delas que Molière retirou o nome Harpagon, personagem principal da sua grande tragicomédia, O Avarento (L´Avare).  

Abrindo outro parênteses reverencial: Molière, apelido de Jean-Baptiste Poquelin, genial homem do teatro francês do século
JEAN-BAPTISTE POQUELIN (MOLIÈRE)
XVIII, autor, ator e diretor de troupe (grupo de teatro), criou, com Harpagon, um dos mais fantásticos personagens da sua extensa galeria de modelos humanos. A paixão pelo dinheiro matou neste rico burguês qualquer sentimento de dignidade. Desconfiado e brutal com relação àqueles com os quais se via obrigado a conviver, era mau pai e mau patrão. Harpagon só pensava no dinheiro, na riqueza. Viúvo, sovina, conheceu uma jovem, Marianne, que poderia (chegou a pensar) trazer algo de bom, alguma alegria à sua triste vida; só economizando, só guardando dinheiro, Harpagon é bem um símbolo da avareza. Mas ele não conseguia desviar os pensamentos

da sua bolsa, dos seus bens, do seu dinheiro. Entre Marianne e a bolsa, ele optou pela bolsa. Essas preocupações o arrebatavam. Uma mulher em sua vida seria mais uma boca a sustentar, despesas, preocupações e certamente outras coisas mais... Seus pruridos afetivos duram pouco, muito pouco. Abriu mão de Marianne; a perda da moça, certamente, o perturbava bem menos do que a ideia de ter que abrir um pouco mais a sua bolsa se ela entrasse em sua vida. Ele preferiu abrir mão da menina do que abrir um pouco mais a bolsa. 

Molière viveu para o teatro, pelo teatro, só fazendo teatro. Como ele, para utilizar os recursos da cena, talvez, só Aristófanes, gênio da comédia grega. Molière ensinou aos comediantes as virtudes do natural e a simplicidade. Com uma liberdade e uma sabedoria, nas quais se misturavam astúcia e piedade inigualáveis, ele arrancou a máscara do burguês, do nobre, do aristocrata, do devoto, do pedante, do arrivista, máscara sob a qual se escondia sempre a impostura. Ele pôs a nu essas coisas que estão escondidas em nós e que não gostamos de revelar, fazendo tudo para que os outros não saibam delas. Com ele, a comédia atingiu uma dimensão trágica. O riso se transformou em tragédia. Seus personagens vivem fora do tempo, tornaram-se arquétipos, universais.


Íris é nome grego que lembra etimologicamente curvar, dobrar,
IRIS
ligar extremidades. Era a personificação do arco-íris, fazendo a ligação do céu e da terra, atuando como mensageira dos deuses, de Hera especialmente, de quem era também a confidente. Nessa atividade, lembrava um pouco o deus Hermes, porém sem o seu status. Transmitia as ordens de Hera, às vezes de Zeus, sendo representada com asas e com o bastão do arauto. Suas vestes eram bordadas com inúmeras pérolas de orvalho, irisadas e brilhantes. No céu, o arco da deusa Íris era sinal de bom augúrio, pois costumava prometer o retorno do Sol depois das tempestades ou da chuva depois de um período de seca, constituindo um sinal de prosperidade.


Fórcis é uma divindade marinha que aparece como modelo de um Velho do Mar. Seu nome vem da palavra grega phorkon, branco,
FÓRCIS
encanecido. Sua figura sugere, às vezes, sabedoria, experiência, embora raramente as demonstre. Deixou uma descendência importante para o mito. Unindo-se à sua irmã Ceto (etimologicamente, ketos, em grego, é todo animal monstruoso, enorme, que vive no elemento líquido; baleia, crocodilo, hipopótamo e outros), foi pai das Greias, das Górgonas, do dragão Ládon, de Cila e de Équidna. 


Ceto é geralmente identificada como a baleia, de onde sai a ordem dos cetáceos aquáticos, que inclui o golfinho e o boto, mamíferos, que têm um orifício respiratório situado no alto da cabeça. Como monstro da mitologia grega, Ceto foi morta pelo herói Perseu para salvar a princesa Andrômeda. Este mesmo monstro é registrado no texto bíblico como o monstro que engoliu o profeta Jonas, que permaneceu três dias e três noites em seu ventre.


Lembramos que Ceto, Andrômeda e seus pais, Cassiopeia e
CASSIOPEIA
Cepheus, foram colocados como constelações nos céus. Cetus estende-se de 17º de Peixes a l3º de Touro, sendo Menkar a sua principal estrela, situada a 13º 37´de Touro. Esta estrela, como se sabe, tem relação com forças do inconsciente coletivo, que podem, emergindo, causar a destruição e proporcionar algo favorável, coletivamente.


Andrômeda estende-se de 12º de Áries a 15º de Touro, sendo Alpheratz a sua principal estrela, atualmente a 13º37´de Áries. Esta estrela predispõe a pessoa que a tem em aspecto (conjunção principalmente) com algum planeta a usar as energias dele de modo independente, a não depender de influências externas. 


ANDRÔMEDA

As Greias são as “Velhas”, as “Grisalhas”, monstros que já nasceram assim. Em grego, graus quer dizer mulher velha, idosa. Eram três: Dino, Pefredo e Enio, nomes que significam, respectivamente, alarme, pavor e horror. Irmãs e guardiãs das Górgonas, Só possuíam um olho e um dente em comum, usando-os alternadamente. Viviam no extremo ocidente, em regiões onde a luz jamais chegava, possuindo elas também uma caverna que ficava perto do Tártaro. Acreditava-se que as Greias eram responsáveis pelos fortes nevoeiros que envolvem os mares e os oceanos, impedindo a navegação e assustando os navegantes. As Greias têm participação importante apenas na história de Perseu, quando nosso herói partiu em busca das Górgonas. Teve Perseu que passar pelas Greias para chegar às suas pavorosas irmãs e matar a mais perigosa delas, a Medusa.

PERSEU E AS GREIAS (E. BURNE-JONES)

Associadas aos nevoeiros e às brumas, as Greias tinham a ver com as zonas cinzentas, incertas, que separam a realidade da irrealidade, da fantasia. Em todas as mitologias, estas zonas recobriam principalmente as regiões noroeste da terra, representando uma transição entre o mundo dos humanos e o Outro-Lado. É nessas zonas que entidades demoníacas como as Greias atuam para simbolizar a incerteza do homem diante do futuro, que só a luz pode desfazer.

Alquimicamente, as brumas e nevoeiros são formados pela água, pelo ar e pelo fogo e têm um caráter prefigurativo, antecedendo a fixação das formas, precedendo o que vai tomar consistência. É neste sentido que podem significar a indeterminação, o indistinto, e um período de transição entre dois estados. Em muitas tradições, a origem dos nevoeiros e das brumas era atribuída à fumaça de vulcões submarinos e/ou a monstros que, invejosos do Sol, se punham a soprar do fundo dos mares e oceanos com o objetivo de enfraquecer a sua luz.  

 
  As Górgonas (gorgo, em grego, terrível, apavorante) eram três monstruosas irmãs, Esteno (força, violência), Euríale (ampla) e Medusa (a que se impõe, a que reina), que viviam no extremo-ocidente, perto do Jardim das Hespérides. Serpentes nos cabelos, presas como a de javalis, mãos de bronze, aladas, tinham um olhar tão intenso que petrificavam quem com elas trocasse olhares. Eram muito temidas, pelos deuses e pelos mortais. 


GÓRGONA (KLIMT)

Das três irmãs, só a Medusa era mortal. O único deus que ousou se aproximar delas foi Poseidon, tornando-a mãe de Crisaor e de
PERSEU E A CABEÇA DA MEDUSA
Pégaso. O rei Polidectes, na corte de quem o jovem Perseu vivia em companhia de sua mãe, a princesa Danae, mandou que ele, como candidato a herói, lhe trouxesse a cabeça da Medusa, que a todos aterrorizava. Protegido pelos deuses, sobretudo por Hermes e tendo obtido imprescindíveis informações para localizar as Górgonas, Perseu se dirigiu para os confins do Ocidente e as encontrou. 


Ciente do mortal olhar da Medusa, o jovem herói usou um polido
PÉGASO
escudo para devolvê-lo, petrificando-a desta maneira; com a espada que Hermes lhe havia dado, decapitou-a; do seu pescoço ensanguentado saíram o cavalo alado Pégaso e o gigante Crisaor, frutos, como já se disse, de sua relação com Poseidon. Cuidadosamente, Perseu guardou a cabeça da Medusa num saco. Mais tarde, Palas Athena fixará esta cabeça no seu escudo.


A Medusa e suas irmãs eram seres dracônticos. Dragão, em grego,
MEDUSA NO ESCUDO DE PALAS ATHENA
vem do verbo derkomai, olhar de um modo terrível. Daí, temos drakon, drakontos, dragão, serpente, para designar monstros míticos cuja principal característica é a de devolver o olhar que interrogativamente lhes lançamos. Os antigos gregos entendiam que este olhar devolvido era a imagem da nossa própria culpa. Tentávamos obter uma resposta do monstro sobre as questões existenciais que nos atormentavam e ele “dizia” claramente que era dentro de nós que as respostas deveriam ser buscadas. 


PERSEU COMO CONSTELAÇÃO

A cabeça da Medusa, nesse sentido, reflete a imagem da nossa culpa pessoal, as nossas fixações, que sempre impedem que nos conheçamos melhor, que inibem nossos esforços transformadores. Petrificar alguma coisa é paralisar, tornar inerte, imobilizar. Alquimicamente, a petrificação se liga à coagulatio. Se considerarmos, por outro lado, que a Medusa é um monstro que tem origem no elemento líquido, poderemos nos aproximar melhor do mito, extraindo dele todas as suas possibilidades significativas.

O elemento líquido ao qual a Medusa pertence é o oceânico (sua mãe era uma oceânida), que tem a ver com as águas originais, de onde um dia emergiu o ser humano. Valendo-nos agora da contribuição astrológica, sabemos que as águas originais são representadas pelo signo de Câncer (quarta casa), governado pela Lua. 




Na experiência humana, o signo de Câncer é aquele que dá ao ser humano um sentimento de identidade legal e pessoal. É ele que nos

fornece padrões de comportamento, de hábitos, de vida moral, orientando-nos e protegendo-nos através de vários códigos legais, definindo os papéis que devemos desempenhar com relação à nossa família e à sociedade.

No estágio canceriano, em função de uma identidade que obtivemos e da noção de contactos e trocas com o meio ambiente temos que ajustar os nossos impulsos arianos, taurinos e geminianos. Este “primeiro eu” que os quatro primeiros signos nos proporcionam tem, contudo, que ser abandonado, embora muitos cancerianos apresentem a tendência de nele se fixar. 


Pois bem: aqui voltamos a Perseu. O mito nos informa que havia
DANAE E A CHUVA DE OURO
em Argos uma princesa lindíssima, Danae, filha de Acrísio, rei de Argos. Tomando conhecimento, por um oráculo, de que se sua filha viesse a ter um filho ele o mataria. Acrísio mandou então construir um quarto de bronze, inexpugnável, e ali encerrou Danae. Zeus, contudo, que já havia notado a beleza da jovem princesa, resolveu torná-la sua mulher. Para tanto, tomando a forma de uma chuva de ouro, conseguiu, através de uma pequenina fenda no teto do quarto, nele infiltrar-se. Foi o que bastou para engravidá-la, tornando-a mãe de uma criança do sexo masculino que recebeu o nome de Perseu.


Esse nascimento se manteve secreto por Danae e por uma empregada que a ajudava. Um dia, porém, descobrindo tudo e não acreditando que o menino era filho de Zeus, Acrísio encerrou o filho e mãe numa arca e mandou que a jogassem ao mar. A arca, arrastada pelas ondas, chegou às costas da ilha de Sérifo, onde reinava Polidectes. Um irmão desse rei encontrou a arca na praia da ilha. Mãe e filho acabaram sendo transferidos para o palácio de Polidectes e ali passaram a viver. O menino cresceu rapidamente, sendo educado como um príncipe, sobressaindo-se a todos os da sua idade e mesmo em relação aos adultos em destreza física e inteligência. Polidectes tentara várias vezes atrair Danae na esperança de conquistá-la sexualmente. O jovem Perseu, contudo, sempre presente, ao lado da mãe, inibia todas as iniciativas do rei, que, por sinal, tratava Danae sempre com muita deferência.


Um dia, no seu aniversário, Polidectes recebeu muitos presentes, como era de praxe. O jovem Perseu, desejando se sobressair mais
DANAE (KLIMT)
que todos, disse-lhe que, se assim quisesse, poderia presenteá-lo com a cabeça da Medusa, um pavoroso monstro que a todos aterrorizava. Polidectes aceitou, vendo nessa proposta do jovem uma oportunidade de se aproximar de Danae, que, desesperada diante da atitude do filho, tentou demovê-lo de todas as maneiras, através de súplicas, lamentos, choro, chantagens etc.


Irredutível, o jovem príncipe afastou a mãe, dizendo-lhe que estava com dezoito anos, na idade de cumprir o rito da efebia, isto é, de se separar simbolicamente do seu passado e de passar para outra etapa da sua vida, partindo para a grande aventura que era a destruição da Medusa. Astrologicamente, como se pode perceber, essa aventura significou a separação da quarta casa astrológica (signo de Câncer) e a sua libertação das pressões conscientes e inconscientes que ela encerra. 


 A saída da quarta casa é sempre um problema, como a Astrologia nos revela. Os que conseguem esse feito terão sempre, de algum modo, que se haver com os valores lunares, reclusivos, por ela significados e a consequente culpa decorrente desse ato de libertação. Sabemos todos que o signo de Câncer “gosta” de segurar as coisas, de retê-las. Em Câncer e com a Lua uma ferida nunca se apaga.

Perseu foi além. Não só matou a Medusa como partiu logo para a “conquista” da sua sétima casa. De volta, o jovem herói passou pela
POSEIDON
Etiópia e encontrou o país devastado por um flagelo. Cassiopeia, a rainha, incorrera na ira divina por um pecado que cometera. Cheia de hybris, ela se proclamara não só mais bela que todas as nereidas, mas, pasme-se, mais que a própria deusa Hera. As nereidas se alvoroçaram, fazendo tudo para que tal afronta não chegasse ao conhecimento da Senhora do Olimpo, pois temiam da parte dela uma violenta reação. Aliás, nem foi preciso que tal acontecesse. O deus Poseidon, tomando a iniciativa, de castigar a petulante rainha, enviou Ceto, o pavoroso monstro marinho, mãe das próprias Górgonas, para devastar o reino de Cepheu, marido de Cassiopeia.

 
HERA


 Consultado um oráculo, foi revelado que a Etiópia só se livraria de tão grande catástrofe anunciada se a princesa Andrômeda fosse agrilhoada a um rochedo para ser devorada pelo monstro, como vítima expiatória. O clamor público foi geral: “Sacrifique-se a princesa!”, foi sentença. Foi a essa altura que passando pelo país Perseu se inteirou do que acontecia. Presenciando o sacrifício da princesa, fascinado por sua beleza, prometeu aos reis da Etiópia que a salvaria se ela lhe fosse dada em casamento. Eles aceitaram a proposta do herói, já então precedido de grande fama, mas omitiram que já a haviam prometido a um tio. Perseu cumpriu a sua parte; usou a cabeça da Medusa para petrificar o monstro e o matou. 

Indo buscar Andrômeda, conforme o acertado, Cassiopeia e Cepheu negaram-se a entregá-la. Perseu trava então luta contra todos, petrificando muitos, inclusive o casal real. Acompanhado da princesa, trocando juras de amor eterno, Perseu voltou então para Sérifo. Ajustou contas com Polidectes, petrificando-o, e pondo no seu lugar o irmão que acolhera ele e a mãe quando foram dar à praia da ilha. 


Acompanhado da mãe, Danae, que sempre soubera escapar das investidas de Polidectes, Perseu e Andrômeda dirigiu-se então a Argos, sua pátria, para visitar o avô. Temendo que a sentença oracular se cumprisse, Acrísio refugiou-se na corte Larissa. Perseu, a caminho de Argos, resolveu então parar justamente nessa cidade, então sede de grandes agones, competições esportivas. Perseu, anonimamente, inscreveu-se para participar da prova de lançamento de disco. Apresentando-se na praça de esportes, Perseu lançou de metal a peça com tanta violência que ela, ultrapassando as redes protetoras, atingiu um espectador, matando-o. Esse espectador era Acrísio, que em companhia do rei de Larissa, assistia aos jogos. Cumprira-se, assim, o oráculo.


AGONES

Muito entristecido com o ocorrido, o jovem herói prestou ao avô as homenagens devidas. Dirigiu-se depois a Argos, entregando o reino
a seu primo Megapentes e assumiu o de Tirinto, onde ele reinava. O fim da história tem algumas versões que se chocam, inclusive a romana, à qual o poeta Virgílio deu outro caminho. Quanto à versão grega mais aceita, sabe-se Danae morreu logo depois, que Perseu e Andrômeda viveram juntos, que tiveram sete filhos e que terminaram os seus dias acomodados e tranquilos, não restando deles nenhuma memória.

O dragão Ládon, filho de Fórcis de Ceto, como vimos, guardava os pomos de ouro dos Jardins das Hespérides, as ninfas do poente, Egle, Eritia e Hesperaretusa. O monstro possuía cem cabeças e fora colocado no Jardim por Hera para proteger o precioso presente que Geia dera a ela quando de suas núpcias com Zeus. 


Uma palavra sobre os dragões: estas figuras que têm a aparência de grandes répteis assemelham-se às vezes a crocodilos com grandes asas ou a serpentes gigantescas. Aparecem geralmente como seres violentos que os deuses e heróis devem enfrentar e vencer, simbolizando este ato sempre uma vitória do espírito sobre a vida material ou instintiva.


O dragão é um símbolo da desordem dos tempos iniciais que deve ser dominada pela força e pela disciplina. Nesta perspectiva, a psicologia das profundezas considera esse símbolo como um desdobramento da mãe arcaica, primordial, o elemento líquido de onde todos se originaram, imagem contra a qual o herói deve lutar para que possa tomar posse de sua individualidade. O dragão representa sempre uma ameaça das forças regressivas que, no ser humano, no seu psiquismo, lutam para fazê-lo voltar a estados indiferenciados, caóticos. 



Astrologicamente, o eixo do dragão, segundo a Astrologia hindu, indica, pelo chamado nó lunar norte (região da cabeça), o lugar do mapa astral em que alguém deve construir conscientemente a base de uma existência consciente. Já o chamado nó lunar sul (representado pela parte inferior do corpo, da cintura para baixo), região oposta à outra, representa todas as influências de natureza kármica vindas do passado (vasanas e samskaras). Essas influências, como resíduos latentes, ativam-se, manifestando-se como inclinações à ação, segundo padrões estabelecidos no passado.