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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

CENTAURUS, CETUS, CORONA AUSTRALIS





CENTAURUS forma com Lupus e Ara, o Altar, um conjunto que deve ser apreciado de modo interdependente, pois nos contam histórias que falam de adoração e de devoção. Esta constelação foi
KIRON
vista pelos gregos inicialmente tanto como o centauro Kiron como o centauro Folo, ambos ligados ao ciclo dos doze trabalhos de Hércules. A grande constelação do Centauro ocupa uma área cuja declinação sul varia entre 30º e 60º. A imagem que temos dela é a de um centauro que segura um lobo com uma de suas mãos estendida. Gregos e árabes viram-na como se caminhasse na direção da constelação do Altar para sacrificar o animal. 

ERATÓSTENES
Considerando porém que os mesmos gregos já haviam ligado, com muito maior pertinência, a figura de Kiron à constelação zodiacal de Sagitário, não vejo razão associá-lo a esta constelação. Quem fez esta confusão foi Eratóstenes de Cirene, astrônomo, matemático, geógrafo e diretor da Biblioteca de Alexandria (séc III aC), deixando de lado a tradição que já havia fixado Kiron no Zodíaco e colocado Folo como o Centauro do Sul.


FAMÍLIA   DE   CENTAURUS  ( SEBASTIANO  RICCI , 1659 - 1734 )

Na mitologia grega, os centauros são seres híbridos, compostos por um corpo de cavalo e um busto humano. Desde a antiguidade, seu valor simbólico é ambíguo. Na cultura grega, sua origem estava ligada historicamente às primeiras invasões de cavaleiros vindos da Ásia Menor, que aterrorizavam as populações dos países mediterrâneos. Os povos da América central, aliás, consideraram os invasores espanhóis do mesmo modo, quando irrompiam nas aldeias montados em cavalos. Viam-nos, ao mesmo tempo, como humanos e animais.





BATALHA  ENTRE  CENTAUROS  E  LÁPITAS
( KAREL  DUJARDIN , 1667)
Famosa na mitologia grega é a batalha entre os Lápitas, povo das montanhas da Tessália, e os Centauros, filhos de Ixion e de Nephele, o primeiro filho de Ares, deus da guerra. Rei dos lápitas, Ixion cometeu vários e gravíssimos crimes, dentre eles o de perjúrio e o traiçoeiro assassinato de seu sogro, jogando-o num buraco cheio de carvões em brasa. Destronado e expulso da cidade, passou a perambular pelos caminhos, ninguém lhe dando acolhida. Zeus, magnânimo, que do alto tudo via, resolveu ajudar seu neto. Purificou-o, trazendo-o para viver no Olimpo. 


IXION   E   NEPHELE  ( P.P. RUBENS , 1615 )


IXION   NO   TÁRTARO
( BERNARD  PICARD , 1731 )
Mal chegado à mansão divina, Ixion tentou atacar sexualmente Hera, a esposa de Zeus. Repelindo-o, indignada, ela relatou o ocorrido ao marido. Zeus, então, mandou confeccionar com nuvens um simulacro de Hera, que Ixion, de nada sabedor, e acreditando tratar-se da divina deusa, que agora acedia ao seu desejo, envolveu-se com ela sexualmente. Dessa união, nasceram os centauros, filhos, portanto, de Ixion e de Nephele, a Nuvem. O castigo do ingrato Ixion veio em seguida: Zeus obrigou-o a ingerir ambrósia, tornando-o assim imortal, e mandou amarrá-lo no Tártaro, com serpentes, a uma roda incandescente, a girar eternamente. Fixado nesse suplício, Ixion grita sem cessar: Honrai vosso benfeitor pelo doce tributo da gratidão.

Os centauros são considerados símbolos da força bruta e das
CENTAURO
pulsões instintivas que se apoderam do homem, anulando o lado humano de sua personalidade, que não consegue dominar este lado animal. Concupiscentes, lúbricos, bestiais, comedores de carne crua, vivendo em bandos, sempre fazendo algazarras, bastando um copo de vinho para embriagá-los, são a imagem da irracionalidade do ser humano. 


Ao mito de Ixion não podemos deixar de acrescentar a história de seu filho Piritoo, um ser também vitimado pelas paixões como o pai, cujas aventuras fazem parte da crônica do grande herói Teseu. Impressionado pelo filho de Egeu e por suas façanhas, Piritoo passou a acompanhá-lo como uma espécie de escravo. Uma das maiores aventuras desta dupla foi a tentativa (fracassada) de rapto de Perséfone, a rainha do Inferno. Nas obras de arte simbolizam os centauros a concupiscência carnal, que torna o homem muito semelhante às bestas, sempre ausentes quaisquer  traços da vida racional e espiritual, abolida qualquer luta interior no que diz respeito ao controle dos instintos. 


SILENO
Diferente destes tipos que acabei de descrever é o centauro Folo, filho de Sileno e de uma ninfa da raça das melíades, ninfas dos freixos (melia, freixo, em grego), nascidas do sangue derramado de Urano quando da sua castração. Dotados de grande saber, os Silenos eram sátiros envelhecidos, filhos do deus Pan. Foram considerados por todas as tradições como preceptores de Dioniso quando jovem. 


SILENO   ÉBRIO  ( JOSÉ  DE  RIBEIRA , 1626 )

Folo era um centauro extremamente pacífico e cordato, muito diferente dos filhos de Ixion. Quando da realização do seu sétimo trabalho, o da captura do javali de Erimanto, Hércules, ao passar por Fóloe, foi recebido com muita hospitalidade por Folo. Há muito que Folo aguardava a visita do nosso herói, pois Dioniso lhe dera uma jarra de vinho, hermeticamente fechada, recomendando-lhe que só a abrisse quando o filho de Alcmena viesse à sua gruta. Preparada lauta refeição, servido o vinho, os outros centauros que viviam na região, sentido o perfume da divina bebida, invadiram a gruta, atacando Folo e seu hóspede. Hércules matou muitos
FOLO   
centauros, outros fugiram, sendo perseguidos tenazmente por nosso herói que, ao voltar, encontrou Folo muito triste, a dar diligentemente sepultura aos seus infelizes “irmãos” mortos. Para matar os centauros, Hércules usara flechas envenenadas. Ao retirá-las do corpo dos centauros para melhor inumá-los, Folo feriu-se acidentalmente na coxa, morrendo logo em seguida. Coube ao nosso herói, depois de lhe prestar as devidas honras fúnebres, enterrá-lo em magnífica sepultura que construiu para esse fim. 



GAIUS   JULIUS   HYGINUS 
Algumas das estrelas da constelação do Centauro do Sul, como é chamada também, com algumas de Lupus, eram conhecidas entre os árabes pelo nome de Al Kadb al Karm, O Ramo da Videira. Ptolomeu descreveu a constelação vendo numa das mãos do Centauro um lobo e na outra um tirso, que é, como sabemos, um dos emblemas do deus Dioniso. Todas as representações posteriores desta constelação sempre a associaram às constelações do Altar e do Lobo, como podemos constatar em Hyginus e, muito mais tarde, nas Tábuas Afonsinas. Em Roma, a constelação do Centauro era às vezes denominada pelos nomes de Semi Vir ou Semi Fer, isto é, Meio Homem ou Meia Besta, respectivamente.

Na astronomia medieval cristã, esta constelação foi visualizada de outro modo. Uns a chamaram de Noah (Noé), personagem bíblico que sobreviveu juntamente com a sua família ao dilúvio. A figura de Noé aparece na tradição medieval obviamente ligada ao tema do vinho. Ele foi, biblicamente, o primeiro personagem a descobrir os efeitos da bebida alcoólica que, uma vez ingerida descontroladamente, ao invés de levar ao céu, leva ao inferno, por libertar a besta (o centauro) que há em todo ser humano. Há na Bíblia algumas advertências contra o álcool apesar da declaração de que ele alegra o coração do homem, conforme está em Salomão. 

EMBRIAGUEZ   DE   NOÉ  ( GIOVANNI  BELLINI )

Outras versões do medievalismo cristão sobre esta constelação, menos difundidas, mas muito importantes para a compreensão do seu campo semântico, a ligam, uma, ao tema de Abraão e Isaac no que diz respeito ao tema do sacrifício (akedá)  e, outra, à figura de Nabucodonosor, rei da Babilônia, na medida em que este personagem aparece associado à rainha de Sabá e a Salomão, a primeira identificada por alguns como Lilith. Ainda com relação à

constelação do Centauro, seria interessante não esquecer, como a Astrologia o fez até agora, a descoberta, por  John Herschel, de uma das mais notáveis nebulosas do céu, nela presente. Filho do descobridor de Urano chamou esta nebulosa de Blue Planetary, cujas dimensões oscilam entre a metade e a totalidade do primeiro planeta transaturnino.



PTOLOMEU
A constelação do Centauro estende-se de 2º de Libra a 28º de Escorpião, ficando claro pelos seus limites as conotações decorrentes dos temas da hospitalidade (Libra) e do vinho (Escorpião). Ptolomeu viu nas estrelas desta constelação situadas na parte humana da figura influências venusianas e mercurianas. Às estrelas mais brilhantes, na região das patas do Centauro, ele atribuiu influências venusianas e jupiterianas. A estrela alfa, de 1ª magnitude, é Bungula, também conhecida pelo nome de Toliman, hoje a 28º51´ de Escorpião; a seguir, temos Agena, beta, também de 1ª magnitude, a 23º06´ de Escorpião. Há uma terceira estrela, Chort, inexpressiva astrologicamente.

No antigo Egito, Bungula, ligava-se ao equinócio de outono, e serviu de orientação para a construção de templos no norte e no sul do país entre os anos de 4.000 e 2.000 aC. Recebeu, entre os egípcios, o nome de Serkt. Para Ptolomeu, Bungula favorece as
MAO TSE-TUNG
amizades, dá refinamento e pode levar a posições honrosas. Há, por outras tradições, indicações de que Bungula pode influenciar no 
sentido de ligar quem a tem com algum destaque a causas, projetos, mas que sempre exigirão correções e revisões no futuro. Agena, para Ptolomeu, também proporciona influências semelhantes e dando também posições elevadas, honras, projeção. O mapa de Mao Tse-Tung poderá servir para o estudo das influências destas duas estrelas.





CETUS, a Baleia, é o monstro que aparece na história de Andrômeda, enviado por Poseidon para devorá-la, conforme já visto quando esta constelação foi estudada. Foram os gregos que fixaram para a Astrologia a constelação da Baleia, dando-lhe uma origem mítica. Cetus é um monstro marinho, uma figura híbrida, constituída por traços de baleia, de crocodilo e de hipopótamo. É
AS   GREIAS  ( H. FUSELI )
uma figura feminina, filha de Pontos e de sua mãe Geia. O primeiro, cujo pai é o Éter, como sabemos, é a primeira personificação masculina do mar, representado pela onda, pelo movimento marinho. Nereu, Taumas, Fórcis e Euríbia são irmãos de Cetus, todos entidades marinhas monstruosas, ligadas às forças primordiais, fazendo parte das primeiras elaborações cosmogônicas e genealogias teogônicas. Cetus, ligada a Fórcis, gerou as Greias (As Velhas), também chamadas Fórcidas, que aparecem no mito de Perseu.



JONAS
A Baleia é um cetáceo (Ketos, para os gregos) que, como vimos, foi morto por Teseu, que o petrificou com a cabeça da Medusa, para libertar a princesa Andrômeda, filha de Cepheus e de Cassiopeia. A baleia faz parte de um grupo de animais que aparecem na mitologia, na religião e no folclore de vários povos como devoradores. Caracterizam-se por bocarras ou por goelas enormes, muitas vezes desproporcionais ao corpo, que tudo devoram e engolem. Da galeria fazem parte, como é o caso, além da baleia, o crocodilo, o hipopótamo, o lobo, a hiena, as grandes serpentes e outros. 



Não foi por acaso, aliás,  que monstros como Cetus foram parar na filosofia. O filósofo inglês Thomas Hobbes publicou em 1.651 um livro, Leviathan, para defender a tese de que seria necessário que os homens estabelecessem um contrato social a fim de que a paz fosse garantida. Os homens, afirma ele, são egoístas por natureza. A lei que prevalece nas relações entre eles é a da guerra entre todos (bellum omnia omnes). Esta afirmação se baseava numa máxima de Plauto: homo homini lupus (o homem é o lobo do homem). Assim, para que não se exterminassem uns aos outros, era necessário, através de um contrato social, que se garantisse a paz. A proposta de Hobbes, para que isto se concretizasse, era a do estabelecimento de um governo totalitário, de tipo monárquico, que "engolisse" tudo (inclusive as liberdades individuais), evidentemente sem a presença de outros poderes como parlamentos, congressos, câmaras etc. que só servem para enfraquecer o Leviathan e gerar o caos. 


JONAS  E  A  BALEIA
Entre os judeus, temos, a história de Jonas, que foi devorado pela baleia. Profeta bíblico, Jonas fugiu do chamamento de Deus e recusou-se a pregar o arrependimento (teshuvá). Durante a sua fuga, foi atirado ao mar e engolido por um grande peixe que, segundo o texto bíblico, tinha olhos do tamanho de janelas e cujo estômago era iluminado por uma pedra preciosa. Esse peixe, tido pela tradição por uma baleia, corria o risco de ser engolido pelo maior dos monstros marinhos, o Leviathan (símbolo de Samael, o príncipe do mal entre os judeus). 


BEEMOT  E  O  LEVIATÃ
Leviathan tem dimensões enormes, sendo a maior das criaturas do mar. Diz a Bíblia que Deus matou a sua fêmea para impedir que, procriando, a criação fosse destruída. Da pele da fêmea é que foram feitas as roupas que cobriram as vergonhas de Adão e de Eva. No fim dos tempos, na idade do Messias, Deus fará o arcanjo Gabriel matar o macho. Noutra versão, será Beemot, o maior dos monstros terrestres, que enfrentará o Leviathan, morrendo ambos numa luta final. 

O que a história de Jonas simboliza é a morte iniciática. Entrar no ventre do monstro é morrer, dele sair é renascer. O monstro, a baleia, neste caso, aparece, pela sua forma ovoide, com um encontro de opostos, que podem representar o nascimento ou a ressurreição. Os dois arcos da figura ovoide significam aqui a conjunção do mundo inferior com o mundo superior, ou do céu com a terra, a totalidade. 

Jonas passou no ventre da baleia três dias e três noites. Atendidas as suas preces, Deus fez com que o monstro o vomitasse, voltando ele à vida de uma outra maneira, um novo ser. Esta mesma imagem, aliás, será repetida no Novo Testamento, em Mateus, quando ele registra a previsão de Cristo: Pois assim como Jonas passou no ventre do
TIAMAT
monstro três e três noites, assim o Filho do homem também o passará. As tradições mesopotâmicas aproximaram esta constelação do monstro Tiamat, que nos seus mitos cosmogônicos representava a água salgada, a personificação do  mar como elemento feminino que dava origem à própria vida. Tiamat simbolizava também as forças cegas do caos primordial, contra o qual tiveram que lutar os deuses inteligentes e organizadores. 



PAUSÂNIAS
Referências à história do monstro vencido por Perseu são encontradas em Plínio, o grande naturalista romano, em São Jerônimo, o grande latinista do Cristianismo, e em Pausânias, viajante e geógrafo do II séc. DC Os romanos designarão Cetus pelo nome de Pristis (grande cetáceo, em latim), a ele juntando adjetivos como nereia e auster.  Os árabes conheceram a constelação através dos gregos e lhe deram o nome de Al Ketus.

CETUS
A constelação da Baleia, embora não muito investigada astrologicamente, apresenta certas peculiaridades. Uma é a sua relação com o sul da Via Láctea, como que querendo devorá-lo; a outra é porque possui estrela Mira, a chamada “Estrela Maravilha”, a primeira estrela que mudava de magnitude, estudada por astrônomos. Cetus se estende de 17º de Peixes a 13º de Touro. Para Ptolomeu as suas influências são semelhantes às de Saturno, podendo causar ociosidade, preguiça. As estrelas de Cetus, pela ordem de importância, são: Menkar, alfa, a 13º37´Touro, entre a 2ª e a 3ª magnitudes; esta estrela está situada entre os olhos e a boca de Cetus, numa região chamada de O Nariz, Al Minhar, em árabe; tem também, segundo a tradição, natureza saturnina, atraindo desgraças e infortúnios. A seguir, temos Deneb Kaitos, Baten Kaitos, Deneb Schemali e Mira. 

No meu entender, parece ter ficado de fora, quanto a Cetus e Menkar, o mais importante quanto às suas possibilidades significativas. Em muitas tradições, a passagem pelo ventre de monstros, os marinhos de modo especial, é expressamente considerada como uma descida ao mundo infernal, ao mundo subconsciente. Equivale a entrar na noite, símbolo das gestações, das germinações que vão se revelar à luz do dia. A noite é rica de todas as virtualidades. Entrar no ventre da baleia é entrar na noite, é voltar à indeterminação. É nas trevas do ventre da noite como no da baleia que se fermenta o futuro, a preparação do dia, a volta à vida. 


Entrar no ventre da baleia sempre significou uma volta a um estado pré-formal, embrionário, equivalendo o monstro à noite cósmica, ao caos antes da criação. A passagem pelo ventre da baleia era simbolicamente o caminho de todo processo iniciático. Uma imagem desta luta está, por exemplo, no romance de Herman Melville, escritor americano do século XIX, Moby Dick ou a Baleia Branca, um avatar do Leviathan judaico.

Se considerarmos o inconsciente do ser humano, pessoal ou coletivo, como um imenso oceano, monstros como Cetus podem emergir subitamente, adquirindo um caráter destrutivo. Cetus aponta, nos temas astrológicos, para uma área de águas profundas, muito abaixo da superfície, onde monstros podem se esconder. Ao subir à superfície, podem trazer muito perigo, destruição, inclusive coletivamente. Menkar, no grau em que estiver, pode ser um ponto onde temos possibilidades de contacto com o inconsciente coletivo,
NAPOLEÃO
não esquecidas evidentemente as informações que possam ser obtidas por quadrante, signo, casa e aspectos. No meu entender, tanto a Cetus como a Menkar podemos atribuir influências plutonianas, lembrando que Plutão se exalta em Áries e se exila em Touro. Mapas para estudo os de Freud e de Napoleão. No primeiro, influências positivas de Cetus-Menkar; no segundo, negativas. 






CORONA AUSTRALIS, a Coroa do Sul, embora muito modesta, foi reconhecida por Ptolomeu.  Os latinos a chamavam de Corona Sine Honore. A tradição astronômica, incorporada por muitos astrólogos, chamou esta constelação de A Coroa do Centauro. Isto se deve ao fato de que em muitas representações os artistas punham uma coroa na cabeça dos centauros. Esta ideia tem provavelmente origem na figura dos Gandharvas, que, na Índia, são representados com um torso humano e um corpo ora de cavalo, ora de pássaro, coroados. 


GANDHARVA   VOADOR
Atribui-se aos Gandharvas na mitologia hindu grande potência sexual. Envolvidos sempre com mulheres, são músicos, usam o vinho, conhecem ervas afrodisíacas. Segundo alguns textos, representam a força primordial e a energia universal, incorporando o Eros grego muito de seus traços. Participando da energia solar, são representados frequentemente com uma coroa de raios sobre a cabeça, decorrendo dessas características, talvez, a ligação que os gregos fizeram entre a coroa e o centauro. Outra tradição grega não vê uma coroa, mas, sim, um punhado de flechas na mão do centauro, que irradiam luz como os raios do Sol.  

Ainda dentro do campo das possibilidades significativas da figura do centauro, outra tradição deu a esta constelação o nome de A Roda de Ixion (Rota Ixionis), uma alusão ao desditoso pai dos centauros, conforme relatado no texto sobre a constelação do Centauro, acima. 


CENTAURO
Da união de Ixion com Nephele, como narramos, nasceram os Centauros, os nubigenae,  os filhos da nuvem. A palavra centauro parece admitir uma etimologia que tem origem no verbo kentein, ferir, picar, mais a palavra aura, ar. Ou seja, aqueles que são apenas feridos, picados pelo elemento ar, que não tem nenhum lampejo racional, somente pura vida instintiva. O elemento ar não participa da vida do centauro, ou só o faz muito precariamente. Por isso, passaram os filhos de Ixion a representar desde o seu nascimento, no ser humano, a ameaça permanente da vida instintiva sobre o seu lado racional.


HADES  ( ANÔNIMO )
Para punir exemplarmente seu petulante neto, Zeus o enviou para o Tártaro, região mais profunda do Hades (Inferno) onde as punições não têm por objetivo a destruição da forma do pecador de modo a lhe proporcionar um renascimento. O Tártaro é o lugar das punições eternas. Os pouquíssimos que desceram ao Hades e de lá retornaram, contam que ouvem, vinda lá dos lados dessa tétrica região, perto do rio Piriflegetonte, uma voz, que aos gritos, adverte: honrai vosso benfeitor pelo doce tributo da gratidão. Sem dúvida, uma vã tentativa de Ixion no sentido de fazer com que o seu triste lamento chegue ao ouvido dos mortais. 

Uma outra versão sobre a origem desta constelação tem relação com Dioniso. Sêmele, filha de Cadmo e de Harmonia, era uma uma princesa tebana. Foi amada por Zeus e concebeu Dioniso. Ao ter conhecimento da aventura amorosa do marido com ela, Hera, a protetora dos amores legítimos, resolveu intervir. Concebeu um plano para destruir a jovem e lindíssima rival. Tomando a forma humana, de uma velha e sábia mulher, insinuou-se no palácio onde
ZEUS   E   SÊMELE  ( G. MOREAU )
vivia a princesa, conseguindo um lugar de ama. Logo ganhou a confiança de Sêmele, que lhe fez confidências sobre o seu divino amante. Hera resolveu então aconselhá-la, aguçando-lhe a curiosidade: pedir a Zeus que ele se apresentasse em seu divino esplendor. Zeus ponderou a Sêmele que o atendimento do pedido, de sua parte, lhe causaria dano, lhe seria muito funesto, já que humanos não têm como suportar a epifania de uma divindade. Ela insistiu, lembrando-lhe que, quando haviam começado a se relacionar, Zeus lhe prometera, sob juramento, em nome do rio Estige, que qualquer pedido que ela  fizesse por ele seria atendido. 



RIO   ESTIGE
Estige era filha de Oceano e Tétis, uma oceânida. Como fonte, Estige alimentava um dos rios infernais, do mesmo nome. Suas águas eram gélidas e tinham propriedades mágicas. Quando da Titanomaquia, Estige, com seus filhos, cooperou para a vitória dos futuros olímpicos. Por seu gesto, recebeu o privilégio do horkos, isto é, o de que, a partir da concessão, os deuses profeririam seus juramentos em seu nome, juramentos irrevogáveis. Quando uma divindade resolvia jurar, a deusa Iris ia rio Estige para buscar uma jarra com a sua água, para servir de testemunha ao horkos. A inobservância do juramente por uma divindade, além de outras penalidades, afastava-a do convívio dos mortais por nove anos, além de lhe ser proibido o consumo do néctar divino.


NASCIMENTO   DE   DIONISO
Não tendo como recuar, Zeus se apresentou a Sêmele na sua esplêndida forma divina, uma epifania que ela não suportou. O palácio em que vivia foi inteiramente destruído e ela carbonizada. O mito nos revela que Palas Atena retirou do ventre de Sêmele o fruto inacabado de seus amores o e levou a Zeus. O pai dos deuses resolveu, então, alojar o feto numa de suas coxas. No tempo devido, completada a gestação femural, nasce Dioniso da coxa de Zeus.


MORTE   DE   SÊMELE  ( PETER  PAUL  RUBENS )

Mais tarde, já tendo assumido os seus deveres divinos, como um dos imortais, Dioniso, de volta de uma viagem que fizera à Ásia para difundir o seu culto, desceu ao Hades e de lá retirou o eidolon (forma que a alma toma para descer ao Hades) de sua mãe. Ressuscitada, Sêmele foi devidamente coroada por Dioniso sob o nome de Tione, como a primeira das mênades, suas sacerdotisas. Depois, resolveu Dioniso levar Tione apoteoticamente para viver entre os olímpicos, colocando antes, porém, a coroa que lhe dera entre as estrelas como uma constelação, chamada pelos gregos de Coroa Austral.


MÊNADES

Outra versão grega sobre a origem desta constelação pode ser encontrada nas biografias de Píndaro e de Karinna de Tanagra, ambos poetas do século V aC.,esta professora daquele, que ficou
KARINNA  ( WILLIAM  BLAKE )
famoso pelos seus Epinícios. Em cinco concursos, ela o venceu, tendo recebido várias e justificadas homenagens. Um pouco de sua obra (lírica coral), em dialeto beócio, foi preservado. Influenciou Ovídio e William Blake, na sua série The Visionary Heads, deixou-nos um retrato dela. Recebeu Karinna os títulos de Musa Lírica e de Musa Viva Foi homenageada pelos astrônomos da época que "colocaram" nos céus a coroa que recebeu por suas vitórias poéticas.  


A constelação da Coroa Austral aparece ainda em algumas outras tradições com o nome de Uraniscus, diminutivo de céu (Urano), em grego. Uranisco é a abóbada palatina ou palato, divisão óssea e muscular entre as cavidades oral e nasal. É o chamado palato ósseo, placa óssea que forma o céu da boca. 



Esta constelação estende-se de 2º a 12º de Capricórnio, tendo apenas uma estrela digna de registro, Alpheca meridional (veja Corona Borealis). As estrelas desta constelação  não apresentam nenhum interesse sob o ponto de vista astrológico. Ptolomeu, entretanto, atribui a elas influências da natureza de Saturno e de Júpiter (favorecem a conquista de posições elevadas, mas podem trazer obstáculos não previstos).

















quarta-feira, 4 de junho de 2014

HÉRCULES - SÉTIMO TRABALHO


HÉRCULES

O JAVALI  DE  ERIMANTO - Erimanto era uma região desolada, montanhosa, da Arcádia. Nela vivia um javali gigantesco, que aterrorizava os habitantes da região, destruindo ou matando tudo o que encontrasse pela frente. A missão de Hércules era a de capturá-lo e de levá-lo vivo para Argos. Antes de se dirigir ao local, nosso herói procurou aconselhar-se com o deus Apolo quanto à melhor maneira de dar cumprimento ao que lhe determinara Euristeu. O deus lhe falou que o animal era do deus Ares, sendo também muito caro à sua irmã, a deusa Ártemis. Disse-lhe Apolo que a melhor maneira de enfrentar o monstro e de vencê-lo era a de lutar sem lutar. Hércules se impacientou com as palavras de Apolo, não as compreendeu, e resolveu que decidiria o que fazer quando se visse frente a frente com a fera.



Chegando a Erimanto, nome que lembra não só a cor vermelha como traduz uma ideia de violência e de excitação, Hércules entrou em contacto com o centauro Folo, um centauro pacífico, muito diferente dos demais. Ele havia recebido do deus Dioniso, segundo
DIONISO
Diodoro Sículo, há muito, uma botija de vinho com a recomendação de que só a abrisse quando procurado pelo filho de Alcmena, que viria lhe pedir hospitalidade. Assim aconteceu: aberta espontaneamente pelo centauro a botija de vinho, conforme recomendação de Dioniso, uma grande surpresa; inúmeros centauros que viviam por perto, atraídos pelo odor do vinho, invadiram a gruta na qual Folo e Hércules se encontravam, trocando brindes.

Outra versão, a de Apollodoro, nos revela que, embora preferindo carne crua, como era costume entre os centauros, Folo ofereceu a nosso herói carne assada, como a consumiam os humanos, reclamando nosso herói a falta de vinho para acompanhar a refeição. Folo mostrou-se muito temeroso, pois se servisse vinho, os centauros que viviam por perto seriam fatalmente atraídos pelo odor da bebida, o que certamente lhes causaria muitos problemas. Lembrou Folo que não era  recomendável aproximar o vinho tanto de cíclopes como de centauros, pois, ainda que consumindo doses mínimas, eles se tornavam sempre muito violentos, descontrolados. Hércules não deu ouvidos ao centauro e tomou a iniciativa de abrir o recipiente de vinho guardado. Em pouco tempo, atraídos pelo buquê do precioso líquido, os centauros invadiram a gruta de Folo, armados de pedras e de porretes.

Antes de prosseguir, será importante nos fixarmos um pouco na figura dos centauros já que eles têm um papel importante não só neste trabalho como na história de nosso herói como se verá. Muitos mitógrafos, aliás, quando abordaram este sétimo trabalho, destacaram muito mais a luta que Hércules travou contra os centauros do que a sua vitória sobre o javali. Justificavam este entendimento por alguns fatores: primeiro, porque o javali de Erimanto não fora enviado pelos deuses, sendo apenas um desvio da energia animal presente no universo. Segundo, não era ele propriamente um ser da família dos monstros, pois estes, como sua própria designação indica, são sempre enviados pelos deuses.
TOURO   DE   CRETA
Etimologicamente,  monstro é objeto ou ser de caráter sobrenatural que anuncia a vontade divina. O javali do sétimo trabalho, embora tenha uma conformação anormal, por excesso, ele não tem a marca do divino como outros monstros que Hércules enfrentou, a saber, o touro enlouquecido de Creta, a corça Cerinita, o caranguejo enviado por Hera, Cérbero, o cão tricéfalo e outros. A título de esclarecer melhor esta questão, lembre-se que  a palavra monstro está relacionada com o verbo monere, que em latim significa fazer pensar, fazer lembrar, advertir. É desse verbo, por exemplo, que sai a palavra monumento.

Segundo versões dignas de todo crédito, da progênie de Ixion fazia
TESEU
parte também Piritoo, filho que tivera com Dia, figura sinistra, muito ligado a Teseu, famoso rei de Atenas. Herói lápita da Tessália, Piritoo e suas as histórias  acabaram, com o tempo, por se integrar ao mito de Teseu, de quem ele se tornou escravo, fascinado pelo seu majestoso porte e por suas inúmeras façanhas. Como se explicará no décimo trabalho de Hércules, a descida ao Hades para lutar contra Cérbero, Piritoo, até o final dos tempos, permanecerá prisioneiro no Tártaro. 
   
Para Diodoro, além de pedras e porretes, os centauros costumavam carregar também machados próprios para matar bois. Ainda que fossem filhos de Nephele, um simulacro criado por Zeus, não se pode considerar a mãe dos centauros como divindade. O que temos então é que os centauros, pelo seu duplo corpo, nada têm de divino, pois são constituídos apenas por uma parte animal e por uma parte humana, esta sobreposta aquela.


KIRON   E   AQUILES

Os centauros, no mito, com exceção de Kiron (filho de Cronos e de Filira) e de Folo (filho de Sileno e de uma ninfa Melíade), se distinguiam de todos os outros, o primeiro por sua grande sabedoria e o segundo por sua grande bondade. Os demais eram todos filhos de Ixion e de Nephele, a Nuvem. Ixion, por seu lado, era filho do deus Ares e seu reino ficava na Tessália.  Tentando fazer da belíssima jovem Dia sua esposa, fez Ixion ao seu futuro sogro, Dioneu, várias promessas. Quando este, depois das núpcias, foi
IXION   
reclamar o cumprimento do prometido, Ixion o matou, lançando-o traiçoeiramente num poço cheio de brasas. Além de eliminar o sogro, tornando-se um assassino, Ixion cometeu o crime do perjúrio, ao não aceitar, como havia prometido, as divindades da família da sua esposa. Ademais, como se tudo isto não bastasse, como rei dos lápitas, ele tinha uma história de inúmeros crimes. Tantos foram os seus desatinos que acabou expulso da cidade que governava pelos seus próprios súditos. Não tendo para onde ir, pôs-se a perambular pelas estradas, transformando-se num pedinte, amaldiçoado por todos.

Zeus, que das alturas tudo via, acabou se condoendo dos sofrimentos de seu neto e resolveu oferecer a ele uma oportunidade de regeneração, acolhendo-o no Olimpo. Mal chegado à mansão dos deuses, porém, Ixion, tomado por incontrolável desvario, que os gregos chamam de hybris, tentou violentar sexualmente Hera, a Senhora do Olimpo. Avisado por ela, Zeus confeccionou uma nuvem (nephele, em grego), dando-lhe uma forma em tudo igual a Hera. Ixion, sem nada perceber,  relacionando-se com ela, tornou-se pai dos famigerados centauros. Castigando-o, Zeus lhe deu ambrósia, tornando-o assim imortal, e o lançou no Tártaro, a prisão dos maus, onde ele, amarrado por serpentes, preso a uma roda de fogo, a girar eternamente, ali ficará até o final dos tempos. Aqueles que lá o viram, como Ulisses, por exemplo, dizem que no seu grande tormento, Ixion profere em altos gritos, na sua sofrida solidão, a frase: honrai vosso benfeitor pelo tributo da gratidão

Etimologicamente, a palavra centauro parece ter relação com um verbo grego, kenteo, que tem o sentido de picar, aguilhoar, lembrando esta ação o aguilhão do instinto. Com efeito, o centauro, metade-animal (cavalo), metade-homem, por seus costumes brutais, por andar sempre em grupos, barulhentos e avessos a qualquer disciplina, por sua paixão imoderada pelo vinho, pela carne crua e pela sua sexualidade descontrolada, sempre foi considerado, com relação ao ser humano, como um símbolo das ameaçadas da vida instintiva à vida racional. 


SÁTIRO   ( RUBENS )

É neste sentido que os centauros se assemelham aos sátiros, aos faunos, aos silenos e a outros seres da mitologia, fortemente marcados por características animais, caprinas, no caso. Percorrendo sem cessar os campos e as montanhas a fim de satisfazer seus apetites, são considerados como verdadeiros demônios da natureza. Luxuriosos, insolentes e violentos, ambos, centauros e sátiros, representam, negativamente, sob o ponto de vista social, as constantes ameaças das forças da barbárie à civilização  e da desordem à lei.  

  Hércules foi um justiceiro que sempre procurou combater, além dos monstros e bandidos, os ímpios, os maus e os perjuros. Durante toda a sua vida, lutou sobretudo contra os centauros, uma luta contra si mesmo, no fundo. Símbolo da força, da energia e do heroísmo, grande consumidor de álcool, glutão insaciável, com uma sexualidade inesgotável, salvador de homens e fundador de cidades, Hércules, ainda que venerado como um semideus, jamais conseguiu, contudo, controlar as pressões instintivas que o assaltaram a vida inteira. 


NEPHELE   ( RUBENS )

Pondo para correr os centauros que invadiram a gruta de Folo, Hércules os perseguiu, no que foi atrapalhado por Nephele que, segundo Diodoro, enviou uma chuva torrencial  sobre a região. Em terrenos enlameados, como se sabe, os bípedes encontram muito mais dificuldade para correr do que os quadrúpedes. Hércules, contudo, superou esse obstáculo e, alcançando-os, travou com eles violenta luta, matando muitos deles.

Ainda segundo descrições de Apollodoro, os poucos centauros que escaparam do massacre promovido por Hércules foram se refugiar junto de Kiron. Nosso herói, entretanto, continuou a atacá-los, disparando várias flechas envenenadas. Uma delas atingiu a perna de Kiron, acidentalmente, na altura do seu joelho, ferindo-o mortalmente. De nada adiantou a medicação aplicada por Hércules, fornecida pelo próprio Kiron. A ferida era incurável. O mestre centauro se retirou então para a sua gruta, para morrer, embora sabendo que isto seria impossível, pois uma parte de seu corpo era divina, como filho de Cronos que era. Foi preciso que Prometeu, consoante proposta que fez a Zeus e aceita, cedesse a Kiron o seu lado mortal para que o centauro mestre pudesse morrer e que este cedesse a Prometeu o seu lado imortal, o que possibilitaria a sua libertação. Os detalhes desta troca nos são narrados, além de Ovídio, principalmente por Ésquilo na sua famosa tragédia Prometeu Acorrentado. Kiron, a seguir, foi colocado por Zeus nos céus como a constelação de Sagitário, entre Escorpião e Capricórnio.


PROMETEU  ( CERÂMICA   GREGA )

Ao retornar, Hércules encontrou Folo a abrir sepulturas na terra para enterrar alguns centauros mortos. Contudo, uma das flechas que se contaminara com o sangue de um deles atingira acidentalmente uma das patas de Folo, ferindo-o gravemente. O sangue dos centauros filhos de Ixion e de Nephele era veneno mortal contra o qual não havia antídoto (Hércules, lembremos, também será vitimado mais tarde da mesma maneira). Folo sucumbiu em pouco tempo nada conseguindo nosso herói fazer para aliviar o seu sofrimento. Não lhe restou outra alternativa senão a de organizar um magnífico funeral para honrar o seu hospedeiro. Depois destes acontecimentos, os centauros, como grupo, desapareceram. Viverão, os poucos que escaparam, isoladamente. Embora perigosos, não mais se atreveram a incomodar os humanos como o faziam. Por intervenção de Poseidon, passarão os remanescentes a viver no interior da terra, ctonicamente.


POSEIDON

Hércules dirigiu-se então à montanha, encaminhando-se para o seu pico. Aos gritos, subiu, mas adotando aquilo que lhe pareceu a melhor estratégia, subir de costas. O javali, atraído pelos gritos do nosso herói, pôs-se a persegui-lo; voltado para ele, foi recuando e subindo ao mesmo tempo. À medida que subiam, o terreno montanhoso tornava-se cada vez mais íngreme, principalmente devido à neve, acumulada no topo, sempre mais espessa. Num determinado ponto, o javali deteve-se subitamente, parecendo perplexo. Cansado, imobilizado, estava atolado, não conseguindo dar mais um passo. Hércules, então, deu uma volta, pegou-o pelas patas traseiras, descendo assim com ele a montanha, entre risos e aplausos da multidão que se juntara para presenciar a cena. Desta maneira, Hércules conseguiu levar o animal até Argos, entregando-o ao apavorado Euristeu, que chamou seus soldados para que dessem fim ao animal. 


HÉRCULES  SENTADO  SOBRE  O  JAVALI  ( LOUVRE )

O javali é um dos grandes símbolos do mundo indo-europeu, fazendo parte da chamada tradição hiperbórea. Os hiperbóreos, na mitologia grega,  constituíam um grupo racial que vivia além do vento norte, o Bóreas, portanto, numa região que seria o extremo norte para os gregos. A região dos hiperbóreos era considerada como uma espécie de paraíso nostálgico, de difícil localização. Talvez o país dos sonhos, da imaginação, da idade de ouro da utopia, de todas as tradições míticas. 

O caráter hiperbóreo do javali pode ser notado na medida em que ele representa o elã primordial, associado nesse contexto à simbologia do fogo nas mais diversas culturas. É neste sentido uma imagem primordial da força, do ataque intrépido e da coragem resoluta, sobretudo na Europa setentrional e no mundo celta, onde representava a autoridade espiritual. A sua carne era comida só ritualmente. A ferocidade do animal provocava tanto horror como
XENOFONTE
respeito. Associações entre o javali e o comportamento destrutivo dos guerreiros que o usavam como emblema fizeram com que ele, no cristianismo, se tornasse um símbolo da tirania, das paixões e da luxúria. Seu apelido era, por isso, o  O Cão do Diabo. Xenofonte, no seu tratado Da Caça, nos diz que quando um javali morre os pelos de seu focinho se crispam tanto que podem causar queimaduras a quem os tocar.  

   Consagrado aos deuses da guerra no mundo grego (Ares) e  romano (Marte), o javali sempre apareceu associado à primavera e 
à juventude. Nos países onde não temos a tradição cristã, o javali é um símbolo da coragem e da temeridade, como no Japão. Em outras tradições, o animal é visto como símbolo da autoridade espiritual, opondo-se ao urso, que representa o poder temporal. Ligado a Zeus no mundo grego, associa-se à águia, ao carvalho, ao raio e à trufa. Caçar o javali é atacar o poder espiritual. Na Índia, o javali é um dos avatares de Vishnu, com o nome de Varaha. Na mitologia hinduísta, é através dele que a terra é trazida à superfície das águas primordiais, fixando-se na coluna de fogo (lingam). No mundo celta, é o próprio druida, o sacerdote, enquanto este vive solitariamente nas florestas. 

VARAHA


O nome Erimanto, como vimos, nos remete a uma ideia de vermelho, ardor, a cor do deus Eros, do deus Ares grego e do deus Marte romano. O verbo grego para designar disputas, querelas, é eridzo. Se não dominamos o nosso "javali" interior, destruiremos os campos, as plantações, os vinhedos, poderemos matar pessoas,  não criaremos possibilidades para fazer de nossa vida social algo produtivo, útil, a nós e aos outros. Dominar o javali é transformar a energia vital impulsiva,  em vida espiritual, compreensão que sempre começa pela percepção do "outro", simbolicamente pela nossa "morte" consciente (outono).        Ou seja, transformar o fogo

instintivo  (signo de Áries), sob  a  orientação  do  racional  (signo de Leão),  em  espiritual  (signo de Sagitário), o que nos levará  a um afastamento da nossa condição animal, brutal,  instintiva. Todas estas considerações nos dizem também que não podemos matar o javali, temos que mantê-lo vivo, utilizando a sua energia racionalmente, ajustando-nos assim à vida social, sempre uma preparação para a vida espiritual, onde aparecem os conceitos de coletividade, humanitarismo, fraternidade etc.

Sem esse controle não haverá acordo, união, consenso, vida moral. Eros é força vital descompromissada, desejo em estado puro, força
EROS
cega, carência que se satisfaz unilateralmente. Eros (javali, um de seus símbolos) é pulsão fundamental do ser, libido, força que atualiza as nossas virtualidades. É essa força que cria o possível. Esta criação, contudo, só se dá pelo contacto com os outros, por uma série de trocas materiais, sensíveis, e depois, num plano superior, espirituais. Interações, choques, disputas, acordos, atenuações conscientes. É no signo de Libra, a sétima constelação zodiacal, que aprendemos a superar os antagonismos, a assimilar o diferente, a integrá-lo, a controlar o nosso javali, em suma.

Depois da purificação de Virgo, temos que buscar o equilíbrio (equinócio, dias e noites iguais), a união com o oposto, com o outro. Ideias de Justiça, cujo símbolo é a balança aparecem então. O signo de Libra é regido pelo planeta Vênus, que tem a ver com uniões, matrimônios, acordos, contratos, a dualidade que se faz una, um perder e um ganhar constantemente renovado. O planeta Saturno também tem a ver com este signo. Saturno (Cronos) é em Libra o tempo. Todo contrato terá que ser realizado no tempo. Surgirão então sentimentos de equidade, de harmonia (Harmonia é filha de Ares e de Afrodite). Raramente um libriano superior se imporá a alguém ou tentará confiscar algo do outro em proveito próprio. As virtudes superiores do signo, encanto, polidez, educação, diplomacia e mesmo a sedução podem muitas vezes levar ao objetivo, à vitória, se quisermos, sem necessidade de luta. O belo, a estética, os matizes, as nuances, o romantismo, a elegância são de Libra. Esse elemento de beleza e de elegância se encontra, por exemplo, em pintores do signo, como Watteau e Bonnard, e em músicos como Gabriel Fauré.


GILLES ,  LE   PIERROT   ( WATEAU )

Negativamente, Libra pode ser o signo da vacilação, da divisão, do amaneirado, do dúbio, do desejo de agradar de qualquer modo, da protelação, do adiamento, da enorme dependência do outro, da impessoalidade (veja o mito de Eco), da falta de combatividade, do desejo de buscar só o agradável, de evitar o trabalhoso ou o sujo. Mulheres de Libra podem se tornar rainhas da elegância. Figuras librianas podem ser citadas, cada uma seu modo: Oscar Wilde, John Lennon, Brigitte Bardot, Luis XIII, Lamartine, Gandhi, Erasmo de Roterdam (exemplo de um libriano saturnizado) etc.



O libriano pode ser classificado como outonal ou sentimental. No primeiro, prevalece a influência saturnina, tem menos vida, menos elã, pondera mais, legisla, procura a forma, é mais escuro. Já o outro tem invariavelmente um grande desejo de agradar, é mais fraco, sem vontade, resiste pouco às pressões externas, dobra-se, é adaptável, sendo mais “claro”, sociável, fazendo-lhe muita falta as festas e as reuniões.

Neste sétimo trabalho, as lições mais importantes tornam-se evidentes:  recuar é subir, atenuar é aumentar, dividir é somar. É o primeiro trabalho em que não há luta. Hércules, contudo não o entende bem. O episódio onde entra Folo é um desvio libriano (prazer, jovialidade, adiamento, é o famoso "dar um tempo" dos do signo). A solução de Hércules é prática, deu-lhe a vitória sobre o javali, mas ele não percebeu conscientemente o significado transcendente do trabalho. O abrandamento da nossa personalidade, a atenuação da nossa luz, o controle do nosso "javali" tem que ser consciente. O javali é símbolo aqui de tendências obscuras, egoístas, ignorantes. Em algumas culturas, há interdições, por isso, quanto ao consumo da carne do javali (porco). 

Eros (a libido, muitas vezes representada pelo javali) deve se submeter a Afrodite, a deusa que propõe relações por consenso. Na natureza, a luz, em Libra, começa o seu lento retorno à unidade. Dosar a atenuação, nunca transformá-la em morte. Por isso, a Balança quer dizer equilíbrio, lugar onde as oposições devem se
resolver continuamente. A comunicação é de Gêmeos; uma boa comunicação leva a acordos (Libra) e bons acordos levam a amigos (Aquário), os três signos de ar do zodíaco. No fundo, entendimento de que tudo o que se manifesta como vida está sujeito à dualidade e à oposição. O primeiro ato que temos de praticar para participar socialmente de algo é o da atenuação do nosso eu. 





Uma das constelações associadas ao signo de Libra é a de Lupus (Lobo). Mais um símbolo evidente, equivalente ao javali: em Libra temos que sacrificar o nosso "lobo", nossa vida instintiva (como o javali, o lobo é sinônimo de agressividade, de astúcia, de voracidade, de selvageria). O poder do lobo diminui na medida em que nos equilibramos melhor, isto é, na medida em que a alma não mais se deixa devorar pela matéria. Com Libra, entramos no hemisfério superior, sendo sete o seu número, que é o das totalizações provisórias a indicar um semiciclo que se fecha e um outro que se abre. Saímos em Libra da vida subconsciente para entrar na vida supraconsciente

TÊMIS
No signo de Libra vivem várias divindades. Têmis (limite), etimologicamente, estabelecer como norma ela é a deusa dos princípios superiores, por oposição ao nomos que é a lei humana, que é consuetudo, o costume, o hábito, o  usual. Têmis tem a ver com leis imprescritíveis; aparece como dona dos oráculos e dos ritos. Titânida honrada e respeitada pelos olímpicos, era a titular do oráculo de Delfos com sua mãe, Geia, tendo ensinado a mântica a Apolo. Têmis era também a mãe das Horas, divindades do tempo (Eunomia, Dikê e Irene), que asseguravam o equilíbrio da vida vegetal e da vida social, distribuindo a umidade corretamente, amadurecendo tanto os frutos como as ações humanas. Eram as divindades que velavam pela educação das crianças, que deviam aparecer, florescer e frutificar no tempo certo, sem pressa, com ritmo.


AS   GRAÇAS   ( BOTTICELLI )

Em Libra vivem também as Cárites (etimologicamente, graça, encanto), também divindades da vegetação e responsáveis pela alegria e pelo contentamento que devem morar no coração dos deuses e dos humanos. Eram chamadas as Graças, Aglaia (Cintilante), Talia (Festa) e Eufrósina (Alegria do Coração). Viviam em companhia das Musas e, como tal, tinham grande influência sobre as obras de arte. Um exemplo disto está, por exemplo, no antigo conceito latino Vita Brevis, que Lamartine usa, como ninguém, no seu famoso poema Le Lac, talvez o mais belo hino libriano já escrito.

Grande parte dos males librianos estão centrados na aparência (pele), tendo por motivação, invariavelmente, sentimentos refreados, frustrações afetivas, decepções no amor etc. A icterícia
ICTERÍCIA
(ictero, verde), por exemplo, infiltração de bile nos tecidos, é o fel: doença dos que remoem, não liberada a força de Marte (Eros). Eczemas, Psoríase e outros males que se projetam na pele são comuns em Libra. Sentimentos de não aceitação, de injustiça. O retido (amor, afeto, Vênus) não tem outra saída senão pela pele (Saturno). No libriano inferior, a dinâmica do psiquismo está sempre voltada para o agradar; fraco, sem vontade (Sol em queda), ele faz todas as "médias", sofre do chamado complexo do avestruz (fazer de conta que não vê) decorrendo dessa acomodação muitos de seus problemas físicos e psíquicos. Problemas renais são também comuns nos do signo, além de dores de cabeça (ação reflexa por Áries, signo oposto). Uma grande tendência dos librianos inferiores é a de transferir sentimentos de culpa para os outros, pois, procuram sempre passar uma imagem de bem intencionados e de compreensivos. 


Astrologicamente, recordemos que na Índia, Thula (Libra) é o signo através do qual é entendido o conceito de Dharma, a lei moral, considerada não como castigo, mas como reajuste, recomposição do equilíbrio rompido. Neste sentido, é que na antiga astrologia védica (Jyotish) o Sol e Marte são vistos como agentes do karma e Vênus e Saturno como agentes do Dharma

A diminuição do material a partir de Libra tem que ser conquistada, produto de uma conquista consciente. É só nesta perspectiva que diminuir significa aumentar. É neste signo, como já se percebeu, que, sob o ponto de vista cósmico, começa visivelmente o retorno à unidade, a reintegração da matéria. Declínio do mundo orgânico, a substância retorna à sua origem. Libra é assim um ponto médio entre o que foi construído e as forças que começam a provocar a sua desintegração. É por essa razão que o outono tem o nome de Fall (Queda) nas línguas anglo-saxônicas. Entre nós, é neste signo que encontramos conceitos como de poente (com relação ao dia), de outono (com relação ao ciclo das estações), de ocidente, lugar de queda, etimologicamente (com relação às direções do espaço).

Em Libra a vida se recolhe, devemos começar a aprender o que na prática significam conceitos como os de despojamento, renúncia, involução física e evolução espiritual. Em Libra tudo o que nasceu, cresceu e se desenvolveu chega ao seu ponto mais elevado e é obrigatoriamente em Libra que tudo começa a descer, declinar, desaparecer. 


ADONIS   E   AFRODITE

Um dos mitos gregos, herança mesopotâmica e fenícia, que melhor expressa o que aqui se expõe é o de Afrodite e de Adonis, seu grande amor. Atacado por um javali (o deus Ares), Adonis (Tamuz para os povos semíticos) era um deus da vegetação que, em muitas tradições religiosas orientais, morre anualmente, uma representação do ciclo vegetal. Morto, Adonis, tem que abandonar Afrodite, para descer ao mundo subterrâneo, para lá passar uma temporada com a
ANÊMONA
deusa Perséfone, rainha do mundo infernal. Do sangue do deus, nascerão as anêmonas (etimologicamente, vento), que representam o efêmero. Flor solitária, de beleza simples, a anêmona tornou-se ao mesmo tempo símbolo da riqueza, da precariedade e da beleza da vida. É a anêmona a flor, mais do que qualquer outra, que evoca o amor submetido às flutuações das paixões e dos caprichos dos ventos.