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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

ARGO NAVIS





ARGO NAVIS é uma constelação que participa do simbolismo da barca e pode ser explicada por este nome, cuja origem está num radical egípcio (barc) que no grego deu baris, idos (embarcação) e passou ao latim vulgar como barica e, depois, ao latim tardio como barca. O nome é genérico e se aplica, em todas as culturas, aos mais variados meios de transporte marítimo ou fluvial. O campo
BARCA   DO   SOL
semântico é vasto. Falamos de barcas que, no lugar de carros, transportam corpos celestes (Barca do Sol) e também de barcas que podem levar as almas para o Outro Lado. Os deuses egípcios tinham barcas para navegar pelo Nilo. Encontramos em muitos túmulos megalíticos, já no período final da nossa pré-história, desenhos de barcas que descreviam a viagem à Ilha dos Bem-aventurados.

LIVRO   DOS   MORTOS
O Livro dos Mortos egípcios, por exemplo, descreve a travessia das regiões do mundo inferior que defuntos deviam fazer para chegar ao Duat (Outro Lado), enfrentando vários perigos, demônios, serpentes etc. Já os hindus adeptos do Yoga comparam o corpo humano a uma embarcação que serve de veículo ao homem para chegar à outra margem do do oceano da existência. É por esta e por outras razões que, em muitas tradições, a barca, simbolicamente, aparece associada à figura materna, representando a segurança na viagem cheia de perigos que é a vida humana.


SANTO   AGOSTINHO  ( SANDRO  BOTTICELLI )

No geral, a barca simboliza não só a viagem que o ser humano faz do nascimento à morte, a travessia da vida, mas a que ele pode fazer depois da morte. A vida neste mundo é como um mar
BARCA   EGÍPCIA
tumultuoso que é preciso atravessar para levar nossa barca a um bom porto. Se conseguirmos resistir às tentações, ela nos conduzirá à vida eterna, diz Santo Agostinho. Para os povos do hemisfério norte, as terras do sul eram misteriosas, cheias de encantamentos, de magia. Para chegar a elas, só com boas embarcações. A geografia mítica, em todas as tradições, está repleta de nomes sugestivos Atlântida (Grécia-Platão), Dilmun (mito de Gilgamés); a Insulae Fortunatae (latinos); a Ilha dos Imortais (China); Aztlan, ilha-montanha primordial dos astecas; Eldorado (América do Sul); Shangrilá (Tibet) etc.

CARONTE  ( G. DORÉ )
O meio privilegiado de transporte de que se valiam às almas para chegar ao Hades, por imposição divina, era a embarcação de Caronte, o famoso barqueiro. De olhar tenebroso, mal humorado, as almas quando entravam  na sua embarcação deviam lhe entregar um óbolo,  pois, se não o fizessem, nunca chegariam ao Outro Lado. Isto significaria para elas, evidentemente, a impossibilidade de reencarnar, desde que, é, claro, o julgamento infernal a que seriam submetidas lhes fosse favorável. 

O sonho coletivo das grandes distâncias, das grandes viagens, dos maravilhosos reinos, ilhas e montanhas, sempre foi, por outro lado, uma constante na história da imaginação do ser humano. A
TRANSPORTE   DE   MÚMIAS
literatura que existe sobre o tema é vastíssima. Os egípcios viram na constelação Argo a barca que os deuses Osíris e Isis usaram depois de um grande dilúvio que cobriu a Terra. Filho de Geb, considerado “o pai dos deuses”, o equivalente egípcio do Cronos grego, e de Nut, a deusa celeste da noite, identificada pelos gregos como uma espécie de Reia, Osíris, quando recebeu o poder do pai, teve que enfrentar com a sua irmã, Ísis, um dilúvio, apesar de ter sido aclamado como “mestre universal.”

Outra versão egípcia, entretanto, nos revela que a constelação representava a barca solar que Osíris usara para descer ao mundo infernal depois que sua irmã e esposa, Ísis, reconstituíra o seu
OSÍRIS , HÓRUS , ÍSIS
corpo, despedaçado por seu irmão Seth. Graças aos seus sortilégios, e ajudada por Thot, por Anúbis e por Hórus, Ísis conseguiu ressuscitar Osíris que, assim, adquiriu a imortalidade eterna. Ao invés de retomar o seu trono, preferiu se retirar da Terra e assumir a condição de deus do mundo subterrâneo, deus dos mortos e da psicostasia (pesagem das almas). Deus solar em sua viagem noturna,   Osíris descia ao mundo subterrâneo por meio da barca do Sol. Os faraós, quando morriam, faziam a mesma viagem que Osíris. Há que se mencionar ainda que no Egito as múmias eram colocadas numa barca funerária puxada por um pequeno carro em direção do túmulo.Aliás, a própria Terra era considerada pelos egípcios como uma barca que navegava nas águas primordiais. Havia duas barcas para Osíris: a do entardecer, crepuscular, para a sua viagem noturna, e a matinal, para a sua ressurreição.


MATSYA
Entre os hindus, esta constelação que chamamos de Argo Navis está relacionada com Matsya, o Peixe, o primeiro avatar do deus Vishnu. O objetivo desta encarnação do deus foi o de salvar Manu, progenitor da raça humana, homem mítico, ameaçado de morte pelo dilúvio. Adquirindo a forma humana, o avatar o salvou, fazendo-o subir numa barca (Argo, a constelação), juntamente com os Rishis (profetas), levando as sementes de todas as coisas que existiam sobre a Terra. 

O dilúvio ocorreu numa das noites de Brahma, durante o período em que ele, como a primeira pessoa da trindade hinduísta, estava
VEDAS
repousando no intervalo de duas criações sucessivas. Tudo submergiu então. Quando as águas baixaram, o Peixe passou instruções aos Rishis para que a verdade dos Vedas (escrituras sagradas) não se perdesse. O avatar ordenou a Manu que descesse da embarcação. Sentindo-se só, diante de tanta desolação, Manu fez sacrifícios aos deuses. Apareceu-lhe então uma mulher, que declarou ser sua filha. Unindo-se a ela, como dizem os textos, celebraram e praticaram árduos ritos religiosos, dando-se início assim ao repovoamento da Terra.  

Astrólogos cristãos, na Idade Média, viram nesta constelação a arca de Noé, embarcação por ele construída por ordem de Deus para salvar do dilúvio a si próprio, sua família e um par de cada espécie
ARCA DE NOÉ NO MONTE ARARAT
 ( SIMON  DE  MYLE )
animal. A arca tinha três andares; o de cima para os humanos, o do meio para os animais e o último para o lixo. Na cobertura da arca havia uma claraboia feita de uma pedra luminosa, já que os céus estavam obscurecidos por pesadas nuvens de chuva. Além da mulher, de seus três filhos e noras, dos animais, a arca conduziu também o gigante Og, rei de Bashan, que se manteve durante todo o dilúvio na parte externa da arca. Após a catástrofe, a arca pousou no monte Ararat. 

A versão sobre a origem desta constelação, incorporada pela
   ARGO
Astrologia, foi a que os gregos nos passaram através de sua Mitologia. A história tem como figuras centrais os argonautas, heroicos parceiros de Jasão que foram à Cólquida (Ásia Menor) em busca do Velocino de Ouro (mito a ser estudado no capítulo das constelações zodiacais – Áries). A nau Argo (branco cintilante, em grego) foi construída por Argos, filho de Frixo, num porto da Tessália, com a orientação de Palas Athena, a guia dos heróis.  


CARVALHO
Uma curiosidade quanto a Argo é que a madeira necessária à sua construção foi tirada de um bosque do monte Pelion, onde vivia o centauro Kiron. A madeira da proa, um carvalho, entretanto, foi trazida por Palas Athena de um bosque  sagrado de Dodona. Essa madeira era falante, tinha o dom da palavra, inclusive o da mântica, o que, com as informações que transmitia, auxiliava o piloto (kubernetes) a manter o curso da nau perfeito e seguro. 

ARGO   NAVIS
Devido ao seu tamanho (nos céus, vai de 10º de Câncer a 20º de Libra – l5º a 65º Sul),  Argo Navis foi dividida em quatro partes, mais asterismos que constelações: Carina, Puppis, Vela e Pyxis, ou seja, respectivamente, A Quilha, A Popa, A Vela e o Mastro, esta última parte também chamada de A Bússola ou O Compasso. Situada inteiramente no sul, a direção das estrelas desta constelação, como um todo, apontava para o hemisfério norte, para uma viagem na direção das terras do desconhecido.

Argo Navis, como símbolo, deve ser associada ao tema das viagens, ao rompimento de limites e à ampliação de horizontes. No fundo, tanto um grande desejo de mudança interior, de experiências novas, como insatisfação interior, recusa do que se é e/ou do lugar em que se está. Esta constelação sempre apareceu, em muitas
SONDA   ESPACIAL
tradições e culturas, associada à história de grandes de viajantes, nas mais variadas épocas, mítica ou historicamente: Hércules, Ulisses, os Vikings, Vasco da Gama, Colombo,  Richard Burton etc. Por causa do seu brilho e da sua posição, a principal estrela de Argo Navis, Canopus, foi utilizada pelas sondas espaciais americanas para fins de navegação. Essas sondas usam câmeras especiais conhecidas pelo nome de Canopus Star Treker. É de se lembrar ainda que Canopus está na bandeira brasileira como símbolo do estado de Goiás.  


PTOLOMEU  ( JOOS  VAN  GENT )
Para Ptolomeu, Argo Navis, através de sua principal estrela, alfa, de 1ª magnitude, Canopus, situada na Quilha,  a 14º 16´ de Câncer, e das demais, bem menos importantes astrologicamente, Miaplacidus, também na proa, Muhnithain, e Al Suhail, ambas na Vela, tinham características de Saturno e de Júpiter, sugerindo viagens longas, prosperidade, conhecimento. Os gregos deram o nome de Canopus à estrela que está na proa de Argo Navis para prestar homenagem ao piloto da nau capitânea da armada grega que, sob o comando de Menelau, partiu para atacar Troia. Canopus morreu quando retornava à Grécia, depois de terminada a guerra. 

RUÍNAS  TEMPLO  DE  CANOPUS
A morte de Canopus ou Canopo se deu quando o barco por ele pilotado fez uma parada na embocadura do rio Nilo, perto de Alexandria. Era ele quem trazia de volta à Grécia os reis de Esparta, Menelau e sua mulher, Helena, que fora raptada por Páris, príncipe troiano. Belíssimo, Canopus foi amado pela filha de Proteu, rei egípcio à época. Não tendo correspondido ao amor da jovem princesa foi amaldiçoado. Certo dia, quando se preparava
ÍNULA
para retomar a viagem de volta, foi picado por uma serpente, morrendo no ato. Menelau mandou levantar um suntuoso túmulo numa ilha da foz do Nilo, que tomou o nome de Canopus. O mito nos conta que Helena chorou tanto a morte do jovem piloto que de suas lágrimas nasceu uma planta até então desconhecida, a que deram o nome de helenion, depois chamada de ínula (inuma helenion), usada tanto na culinária (condimento) e na medicina (tônico aromático).



A estrela Canopus foi registrada por várias tradições. Os egípcios, bem antes dos gregos, já a haviam associado ao piloto do barco que fazia o transporte das almas para o Outro Mundo. A estrela de Canopus entre os egípcios e persas foi chamada por nomes que destacavam o seu brilho, a sua luminosidade, sempre no sentido da sabedoria. Canopus tinha para eles, ao lado de Sothis (Sirius), grande importância, alinhando-se a construção de muitos templos egípcios na sua direção quando do seu nascimento heliacal.  

Muitas culturas viram Canopus como a Estrela Polar do sul, o ponto onde terminava a linha que unia os polos, um ponto que se movia também conforme a precessão dos equinócios. Assim como o polo norte celestial completa um círculo a cada 26.000 anos aproximadamente, o mesmo acontecia com Canopus, no polo sul celestial. Os gregos associavam a estrela Canopus a Cronos, o maior dos titãs, (segunda dinastia), derrotado pelos olímpicos chefiados por Zeus (terceira dinastia). Lançado no espaço, Cronos caiu exatamente onde estava Canopus, decorrendo desse fato a identificação de Cronos como o Senhor do Tempo, o limite da duração, o Cronocrator, aquele que fixa os ritmos do universo. A direção sul, o lado que está à esquerda do Sol, é o caminho por onde vão as almas, conduzidas por Canopus, o piloto. É neste sentido que a estrela Canopus simboliza também os limites das possibilidades humanas, definindo o momento de transição entre a matéria, forma (Cronos-Saturno), e a alma que, como energia, faz o seu caminho de volta ao grande Todo.


SENHOR   DO   TEMPO

ANANKE
Canopus encontra-se atualmente a 14º 16´ de Câncer. Depois de Sirius, é a estrela mais  brilhante do céu. Sua influência, de natureza saturnina e jupiteriana, aponta para  ideias  de forma, limites (Saturno) e de expansão (Júpiter). Nos mapas, Canopus fala de novos caminhos, habilidade para conduzir, atitude cibernética (arte de pilotar, de conduzir bem uma ação), mas pede cuidado e controle para evitar a ação da Ananke. 




Ao lado das quatro grandes estrelas reais, conforme os persas as definiram (Aldebaran, Antares, Fomalhaut e Regulus), Canopus, juntamente com Sirius e Spica, ocupa uma posição muito importante nos céus, na medida em que todas elas apontam, com as devidas reservas, para benefícios e expansão. Canopus se situa no leme de Carina, trazendo augúrios de boa caminhada. O conceito grego que está por trás desta caminhada é o de patos, do verbo patein, andar. Patos é o caminho a ser seguido por cada ser humano, não o mais importante, idealizado, mas o pessoal, acabando por significar o próprio curso da vida de cada um de nós, um caminho que tanto pode ser seguido na terra, nas água ou no ar. Canopus nos leva à figura do que a língua inglesa denomina de pathfinder (path, caminho, mais finder, aquele que encontra; ou seja, aquele que sabe se conduzir, que encontra o seu caminho na selva, na imensidão dos mares, nas longas distâncias, ou através da arte, da ciência, da religião, da filosofia (9ª casa astrológica). 


SANTA   CATARINA
( CARAVAGGIO )
Os astrólogos da Índia identificaram Canopus como Agastya, um de seus Rishis (profetas). Etimologicamente, Agastya quer dizer o removedor de montanhas ou do imutável, representando como figura histórica o poder do ensinamento. Sua atividade era jupiteriana: foi mestre da gramática, da medicina e de outras ciências. 


Já os cristãos, desde os primeiros tempos deram o nome de estrela de Santa Catarina de Alexandria a Canopus. Esta estrela aparecia para os peregrinos gregos e russos que se dirigiam ao Sinai, naqueles antigos tempos, a um convento e a um santuário ortodoxo, erigidos para honrá-la. Catarina foi decapitada, tendo sido seu corpo, segundo a lenda, transportado por anjos até o alto do referido monte. 

Relacionada com sucesso, Canopus pede cuidado com relação a Ananke, conceito grego que significa coação, fatalidade. Na filosofia grega, ananke aponta para uma ação providencial que a própria vida cósmica deflagra (lei de causa e efeito) para 
ERÍNIAS  ( G. DORÉ )
restabelecer limites, o equilíbrio rompido, a desproporção. É um conceito feminino, atuando através dele várias divindades que combatem os excessos, as desmedidas, a hybris, o orgulho, a desmedida, a arrogância, a vaidade, a insolência. A figura maior da Ananke é Nêmesis, filha de Nyx, a deusa da Noite,  e que simboliza a revolta contra qualquer a injustiça cometida. Seus atributos são, por isso, a régua graduada, o esquadro, o compasso, o chicote e a espada. Ela cuida no sentido de fazer com que os que desejam fazer a experiência da felicidade a façam meritoriamente, sem perder o senso da realidade, sem invadir o espaço dos outros, sem prejudicá-los, respeitando limites.
CLAUDE   MONET
Por isso, ela curva os orgulhosos, ela pune todos aqueles que teimam em ultrapassar o seu métron. Quando a justiça deixa de ser equânime, Nêmesis (como as Erínias, por exemplo), em nome da Ananke, intervém porque todo descomedimento põe em perigo a estabilidade do cosmos, a ordem do mundo. Canopus pode ser estudada, por exemplo, dentre outros,  em mapas como os de Mao Tse-Tung e de Claude Monet. 

domingo, 2 de outubro de 2011

MITOLOGIAS DO CÉU - O SOL - ( 2 )




Embora os cultos solares ocupassem um lugar importante na Mesopotâmia, eles nunca tiveram o esplendor que os egípcios lhes deram. Shamash, o deus Sol, era para eles filho de Sin, a deusa da Lua, e irmão de Ishtar, a deusa do planeta Vênus. Os três formavam a grande tríade astral da mitologia assiro-babilônica, que tinha em sua base o legado sumério e acádio.

SIN E SEUS FILHOS (SHAMASH, esq., E ISHTAR, dir.)

Os principais centros do culto a Shamash ficavam nas cidades de Sipar e Larsa. Era Shamash o deus da justiça e das profecias, aparecendo como o grande protetor do herói Gilgamés e muito tempo depois (cerca de dois mil anos) inspirador do rei Hamurabi quando, por volta de 1750 aC, ele elaborou o primeiro código de leis conhecido pela humanidade. Hamurabi foi o sexto rei da dinastia amorita e verdadeiro fundador do primeiro império babilônico.

MARDUCK LUTANDO CONTRA TIAMAT

A cada manhã, os homens-escorpião, filhos de Tiamat, o oceano primordial, imagem do caos, irmãos de outros monstros, dragões, gênios das tempestades, homens-peixe etc., que habitavam as montanhas do leste e as defendiam, abriam nos seus flancos a enorme porta para dar passagem ao deus. Shamash é frequentemente representado ao se movimentar entre duas montanhas, de leste a oeste, símbolos dos limites do mundo ou, de outro modo, como também os mesopotâmicos as viam, símbolos das polaridades do psiquismo humano. É por essa enorme porta que o deus se lança no seu curso diurno; raios luminosos parecem sair de seus ombros; na sua mão, um objeto semelhante a uma lâmina na qual alguns vêem a chave que abre a porta do oriente. Ao avançar, ele entra no seu carro, conduzido por um cocheiro, que o espera. Numa explosão de luz, Shamash começa nos céus a sua grande ascensão. Ao entardecer, ele toma a direção da grande montanha do oeste. Uma porta se abre e ele penetra nas profundezas da Terra. Desaparecendo, Shamash continua a sua marcha, agora no mundo subterrâneo, a fim de atingir, antes da aurora, a montanha do leste.


ASTROMANCIA

As principais características de Shamash são o vigor e a coragem, características que o faziam triunfar sobre a noite e a superar os invernos. Sua formidável luz era servidora da justiça, pois ele afastava as trevas, tão propícias ao crime. Além de ver tudo, seus raios formavam uma espécie de vastíssima rede que acabava alcançando todos aqueles que praticavam iniquidades. Como mais tarde Apolo, deus solar entre os gregos, Shamash era o deus da mântica profética. Era ele quem, através de um médium, o “baru”, revelava aos homens os segredos do futuro. Depois de ter feito um sacrifício ao deus, o médium: a) observava as formas diversas que tomava o óleo (elaionmancia) lançado sobre a água; b) examinava o fígado das vítimas sacrificadas (hepatoscopia); c) examinava a posição dos astros, o movimento dos planetas ou o aparecimento de meteoros (astromancia). A arte da adivinhação florescia sobretudo na cidade religiosa de Sipar. Juntamente com Shamash, era reverenciada a sua esposa Aya, formando o casal, nesta circunstância, um par que pontificava, a primeira, sobre a Justiça e, o segundo, sobre o Direito.

Entre os fenícios, os seres divinos eram concebidos como uma expressão antropomorfizada dos elementos e dos fenômenos naturais, organizados segundo uma rigorosa hierarquia. Os fenícios fazem parte do mundo cananeu, constituído este, desde a aurora dos tempos históricos, por uma migração de semitas que se fixaram entre o mar Mediterrâneo e os desertos da Síria. Os semitas formam um grupo étnico e linguístico que, conforme se acredita, tem como ancestral Sem, filho de Noé, nele incluindo os hebreus, os assírios, os aramaicos, os fenícios e os árabes. A mitologia semita deriva, por sua vez, de um fundo comum grandemente espalhado entre todos os povos do Oriente próximo.


NOÉ E SEUS FILHOS

El era o nome da grande divindade solar venerada por todos os semitas ocidentais, desde tempos muitos recuados, ocupando o primeiro lugar no panteão desses povos. O país de Canaã estava totalmente sob a sua tutela. Canaã era um personagem bíblico, filho de Cham, maldito pelo avô, Noé. Era Canaã o ancestral epônimo dos cananeus. O nome estendeu-se à Fenícia (Palestina), a Terra Prometida, “país do leite e do mel”, que os judeus conquistaram entre os sécs. XII e XI aC.


TOURO - EL

Era El quem fazia com que os rios se lançassem nos abismos oceânicos, que promovia a fertilidade das terras. Era chamado de “pai do ano”, cujo curso regulava, situando-se o seu palácio nos confins do oceano. Era honrado de diversas maneiras, sendo chamado de Touro-El ou simplesmente Touro, por causa da sua força e do seu poder. Seu grande inimigo era o deus Baal, divindade que não tinha a sua ancestralidade, pois fora trazido pelos fenícios que passaram a ocupar o litoral, vindos do sul da Palestina.


RAS SHAMRA


Estas informações mitológicos provêm de pequenas tabuletas, em escrita cuneiforme, achadas em Ras Shamra, datadas do séc. XIII aC., que arqueólogos encontraram perto de Ugarit. Este deus Baal, inimigo de El, era chamado de Tsaphon, “Senhor do Norte”, ou de Baal Lebanon, Senhor do Líbano, venerado nas montanhas libanesas. Os registros arquelógicos de Ras Shamra nos informam que Mot, um dos filhos de El, era o espírito das colheitas. Dominava ele os campos durante o período em que as terras estavam ressecadas ao extremo pelo calor proveniente dos céus por obra divina.

BAAL

No tempo das colheitas, devido à intervenção da deusa Anat, deusa virgem, filha de Baal, Mot é sacrificado. Participa também desta luta contra Mot o outro filho de Baal, o deus Aleyin. Um dos poemas de Ras Shamra narra o conflito entre Mot e esta última divindade, deuses da vegetação, uma luta que se renova anualmente. Aleyin é “aquele que cavalga as nuvens”, tem um séquito, sendo acompanhado também por animais (javalis). Espírito das fontes, Aleyin favorece o mundo vegetal, que se desenvolve no período das chuvas. Anat, divindade de temperamento combativo, tem por emblema o leão, cabendo-lhe conduzir anualmente o sacrifício ritual de Mot.


Entre os judeus, Deus se deu a conhecer pelo tetragrama YHVH (Yahweh), pelo qual o Eterno se revelou no antigo testamento. A tradição rabínica, como se sabe, proíbe que estas quatro letras sejam pronunciadas, pois sua pronúncia original se perdeu, provavelmente depois que Moisés as ouviu no Sinai. Segundo o gênesis, capítulo primeiro, depois de ter criado a luz e as trevas, Deus “fez os luzeiros no firmamento do céu, que dividiram o dia e a noite, e que serviram de sinais para mostrar os tempos, os dias, os anos.”

Assim, o Sol foi criado para ser o regente do dia e para separá-lo da noite, recebendo, em hebraico, o nome de “Chamá” ou “Shemesh”. Não obstante a Lua ser considerada com o principal símbolo dos judeus, que adotam um calendário nela baseado, do qual depende a sua vida como um todo, o Sol, símbolo dos gentios, tem “alguma” importância. A começar porque os eclipses do Sol serão sempre um indício de má sorte e de dificuldades para os que não são judeus. A cada vinte e oito anos, há uma cerimônia judaica, a bênção do Sol (birkat ha-chamá) no início do mês de Nissan (primeiro mês do ano judaico, indo do meio de março a meados de abril), quando Sol volta a ocupar a posição que ocupava no céu quando foi criado inicialmente. Na era do Messias, deus removerá do Sol a sua cobertura e seu calor queimará os iníquos, mas, entre os justos, curará os doentes. Esta afirmação se apoia em palavras de profeta Malaquias (meu mensageiro, etimologicamente).

De acordo com o Talmud, o Sol é essencialmente branco, mas parece vermelho porque, pela manhã, quando se levanta, seus raios se refletem nas pétalas de rosas do jardim do Éden: à tarde, quando se põe, eles se refletem nas labaredas do inferno. O Sol, na doutrina judaica, representa essencialmente o aspecto masculino da criação. Para os judeus, aqueles que nascem durante o dia, enquanto o Sol brilha, serão capazes de se manter por si mesmos, não dependerão dos outros para o seu sustento.

No tempo do Messias, o Sol deixará de ser útil porque, segundo Isaías (60:19), “Tu não terás mais o Sol para luzir de dia, nem o resplendor da Lua te alumiará; porém o Senhor te servirá de luz sempiterna e o teu Deus será a tua glória.” Este tema, aliás, é retomado no segundo testamento, no Apocalipse (21:23): “E nesta cidade não há de mister Sol nem Lua que alumiem nela, porque a claridade de Deus a alumiou e a lâmpada dela é o cordeiro.”

CAF

Entre os judeus, o Sol é o regente do quinto signo, chamado Av, palavra que significa pai. Seu símbolo é o leão, uma das quatro entidades sagradas (o touro, a águia e a humanidade são as demais). As energias que fazem a ligação com o mês de Av são representadas pela letra Kaf, que criou o Sol (Tet criou Av). O Kaf representa a coroa, a realeza, o equilíbrio, a integridade. O Tet representa o órgão sexual. Quem fornece a energia para Av é o Sol. Há que se lembrar, entretanto, que os judeus, segundo a Cabala, consideram o mês de Av como muito negativo, pois quanto mais positiva a energia existente no universo, o caso deste mês, mais forte é a sua negatividade. Quanto mais brilhante o Sol, maior o potencial para as queimaduras e incêndios.

Lembro que tradições orientais como a hebraica e a islâmica atribuem às letras do seu alfabeto um valor mágico-sagrado. È a gematria, que basicamente podemos considerar como uma regra hermenêutica que consiste em explicar uma palavra ou conjunto de palavras pela atribuição de um valor numérico convencionado a cada letra. Associadas aos planetas para constituir pentáculos (tratados de magia ou selos que se imprimiam em pergaminho de pele de bode, ou se gravavam em metal precioso, e que se relacionavam com forças poderosas e invisíveis) protetores, elas atraem ou repelem influxos planetários errantes em torno do gerador fluídico assim criado. A Cabala desenvolveu uma ciência que estabelece um sistema de analogias com as 22 forças ou correntes em movimento que o ser humano recebe ou envia, análogas às da natureza.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O VINHO


Raramente, quando falamos de vinho, se menciona a embriaguez. Os mais informados sobre a sua história sabem que ela está nas suas origens. É nas antigas tradições asiáticas e sobretudo mediterrâneas que o vinho revela todo o seu esplendor como bebida espiritual, produzindo a chamada embriaguez mística. O costume, em uso em antigas confrarias religiosas, de se beber o vinho espiritualmente, em razoáveis quantidades, se perdeu para o homem moderno.

Desde a mais remota antiguidade sabemos que o vinho tem a fama de desfazer vários sortilégios, de desmascarar mentiras e também de ser consumido pela alma dos mortos quando derramado sobre a terra à guisa de libação. Entre os antigos gregos, a libação tanto podia consistir na aspersão da bebida em intenção de alguma divindade (sempre Dioniso, no caso) ou no ato de consumi-lo simplesmente por prazer ou para brindar. O verbo libar, lembremos, traduz uma ideia de sacrifício, de oferenda e também de prazer, de satisfação. Acima de tudo, porém, nunca devemos esquecer que libar é oferecer aos deuses, isto é, buscar através do vinho o que há de melhor, superior, transcender. Como exemplo, lembremos que Ulisses, para evocar a alma dos mortos, como está na Odisseia, usa o vinho, numa cerimônia que os gregos chamavam de nekyia.

Historicamente, a cultura da vinha é muito antiga no Oriente, no norte da África e na bacia do Mediterrâneo. Há inúmeros registros que atestam sua presença no Egito há mais de 3000 anos aC, onde recebiam o nome de “olhos de Horus” os seus pequeninos frutos escuros. Na antiguidade, em qualquer festa ou cerimônia o vinho nunca faltava. É bastante conhecida a passagem bíblica que registra o primeiro milagre de Cristo, a transformação da água em vinho, numa festa realizada em Caná, cidade da Galileia, conforme está no evangelho de João. O cristianismo foi buscar no mundo grego e judaico muitas das imagens tendo a bebida por tema. O simbolismo medieval cristão se valeu muito da parábola que nos fala de Cristo como a própria cepa da vinha e de seus discípulos como os seus galhos.


As religiões do Oriente sempre consideraram a videira como uma árvore sagrada, sendo seu produto a bebida dos deuses, a bebida do fogo vital. É árvore messiânica, salvadora, para o povo de Israel; antigos registros sempre a identificaram como a árvore da vida. No Gênesis, na passagem da expulsão do Paraíso, uma das interpretações possíveis dessa perda é a de que Adão e Eva provaram os frutos da vinha, que podiam levar ao céu ou ao inferno, e não os frutos da figueira ou da macieira, como alguns admitem.


Entre os judeus, uma boa esposa e uma vinha fecunda eram bens que não tinham preço. O vinho, iáin em hebraico, deve ser usado na celebração do Shabat, nas circuncisões e nos casamentos. Na antiga Judeia, a vinha sempre apareceu como um grande símbolo da fertilidade. As moças solteiras, à procura de marido, costumavam passear nos vinhedos, exibindo-se para os possíveis pretendentes. Um dos episódios bíblicos mais famosos é o da embriaguez de Noé. Depois do dilúvio, Noé plantou uma videira, produziu vinho com os seus frutos, embriagando-se até ao desfalecimento. Noé, como se sabe, amaldiçoou seu filho Cham, que riu da sua nudez. No mito sumeriano, o herói que se assemelha a Noé é Utanapisthin.

A vinha, a figueira, a romãzeira, a oliveira e a palmeira constituíam quase que totalmente a paisagem de Israel nos tempos bíblicos. A vinha e a oliveira cresciam em todos os jardins, lembrando sempre a imagem de perfeita felicidade. Normalmente, entre os agricultores, naqueles tempos, usavam-se como bebidas a água, o leite ou o soro. Nas festas e nos banquetes, chamados de bebedeiras (mishtê), a bebida eram o vinho e um licor chamado shekhar, provavelmente uma espécie de cerveja, de origem egípcia .


SHEKHAR

Os vinhos de Israel eram famosos, provenientes de vinhedos das planícies, dos vales e dos terraços montanhosos. A sua importância era grande, dele falando os poetas sempre liricamente. Era usado também na liturgia cotidianamente, em sacrifícios e libações, como símbolo do mistério da vida em Deus. Há também registros do uso medicinal do vinho, enfatizados sempre os perigos do seu consumo exagerado.

Entre os gregos, a cultura da vinha ganha importância maior, tendo estreita relação com a do trigo, representada a primeira por Dioniso, deus das metamorfoses, e a segunda por Deméter, a deusa dos grãos, dos cereais, em especial o trigo. Ressalte-se que o culto de Dioniso sempre apareceu associado à ideia grega de mistério (mysterion), palavra que, neste contexto, quer dizer iniciação. O iniciado (mystes) era aquele que devidamente instruído e treinado por um mystagogo (professor de mistério), participava dos cultos do deus. A iniciação sempre lembrava transformação, renascimento para um outro tipo de vida, idéias incorporadas pelo cristianismo na eucaristia. É nesta perspectiva que a vinha é considerada como a expressão vegetal da imortalidade.

No mito grego, Dioniso, deus de Nysa (montanha sagrada), é o que nasceu duas vezes. É filho do Senhor do Olimpo, Zeus, e de Sêmele, virgem princesa tebana. Amada por Zeus, Sêmele pretendeu vê-lo em todo seu esplendor divino. Não resistiu, sendo fulminada. Zeus recolheu, então, o embrião (o futuro Dioniso), que ela tinha em seu ventre, e o alojou em sua coxa. No momento devido, a criança, já plenamente desenvolvida, dali foi retirada. Nascia Dioniso. O nome Baco, pelo qual o deus será também reconhecido, se deve às peculiaridades do seu duplo nascimento. Enquanto “grávido” de seu filho, Zeus mancava, claudicava, maneira de andar designada pelo verbo bakkeio, andar típico das pessoas tomadas por alguma forma de embriaguez, cambaleantes, delirantes.


Após seu nascimento, o menino-deus foi levado para o monte Nysa e entregue aos cuidados de ninfas e sátiros. Conta o mito que perto da gruta em que se abrigava com seus preceptores Dioniso descobriu uma árvore da qual pendiam maduros cachos. Recolheu-os e os espremeu, esquecendo o líquido obtido por alguns dias. Pouco tempo depois, ele e seus preceptores o beberam. Beberam-no repetidamente, pondo-se ao final a dançar freneticamente ao som de címbalos e tambores, uma celebração na qual ele, Dioniso, era o centro. Ao final da festa, caíram todos desfalecidos.

Logo, essas festas se propagaram, organizando-se em forma de culto segundo três momentos. O primeiro era o da chamada orgia, com muita música, dança e consumo de vinho, agora elevado à categoria de bebida enteógena (que leva a deus). A orgia era um ritual noturno celebrado em honra ao jovem deus, tendo por finalidade o rompimento das resistências conscientes dos participantes, resistências estas que impediam a comunhão, a sintonia de sentimentos, a identificação de todos. O grande objetivo da orgia era o de levar os participantes ao êxtase, o segundo momento. Isto é, levá-los ao esvaziamento interior, à exaltação mística, para que, então, o deus se apossasse de todos, invadindo-os, penetrando-os. Esta penetração do deus era o terceiro momento, chamado pelos gregos de entusiasmo (deus em nós), um estado de interiorização profunda, que levava a uma outra vida, a um novo modo de ser.

Da Hélade, segundo o mito grego, o culto levado por Dioniso passou à Índia, a todo o Oriente, espalhando-se também por todo o Mediterrâneo. Dioniso levava o seu culto triunfalmente a todos esses lugares, indo sempre num carro puxado por panteras, enfeitado com pinhas, ramos de hera e pâmpanos, todos símbolos seus, sempre acompanhado por sátiros, por suas sacerdotisas, as mênades, também chamadas de bacantes, e por músicos e cantores, um cortejo sempre alegre e ruidoso.




Tornando-se divindade olímpica, Dioniso foi consagrado como deus da orgia, do êxtase e do entusiasmo, divindade da liberação, da metamorfose, da eucaristia, sempre festejado. Suas festas deram também origem ao ditirambo (canto em sua homenagem, depois composição poética livre que visava festejar o vinho, a alegria, os prazeres da mesa, num tom entusiástico), ao drama teatral, à tragédia e à comédia, como manifestações superiores do espírito grego.

Deus da vegetação, da vinha, do vinho, da regeneração da natureza, da vida selvagem, Dioniso é o senhor da fecundidade e da exuberância vegetal, animal e humana. As consequências sociais e políticas do seu culto foram imensas no mundo grego, pois ele era o deus que levava ao rompimento das barreiras, à supressão das proibições, das interdições, dos tabus. Sêmele, sua mãe, baixara ao mundo infernal, como acontecia com todos os que morriam. Dioniso, quando do seu retorno triunfal das viagens pelo mundo que fizera para propagar o seu culto, foi buscá-la, libertando-a do tétrico reino de Hades-Plutão e transformando-a na primeira de suas sacerdotisas.

Esta passagem da vida do deus sinaliza de modo claro uma de suas principais funções, a de libertador do mundo infernal, aquele que traz à superfície as riquezas do mundo subterrâneo. Numa leitura psicanalítica, a superfície seria a consciência e o mundo subterrâneo o subconsciente. Num outro plano, a descida infernal de Dioniso simboliza a alternância das estações, a morte e a ressurreição do mundo vegetal. O culto dionisíaco apresenta também, segundo uma perspectiva religiosa ou existencial, a despeito de seus possíveis excessos, o grande esforço da humanidade no sentido de romper a barreira que a separa da transcendência.


DEMETER

Dioniso fala, nas festas, principalmente as celebradas no santuário de Eleusis, de Deméter, da libertação, do rompimento das inibições, das repressões, dos recalques. Ele propõe a dissolução das formas que bloqueiam a personalidade, levando-a regressivamente a estados caóticos, primordiais, ou, de outra maneira, levando-a a um mergulho no mundo subconsciente para que dali possa esta personalidade, emergindo, renovada, atingir diferentes e superiores estágios de existência. A libertação dionisíaca é, contudo, perigosa para os que vivem uma existência puramente instintiva, animal, materialista (a maior parte da humanidade) porque a viverão num plano involutivo, regressivo, animalizando-se mais ainda.

A vinha era para os gregos a árvore da vida. O vermelho-escuro, a cor do vinho, era a cor do deus. Nas primeiras encenações teatrais que se fizeram no mundo grego, nascidas de suas festas, os atores rústicos passavam em seu rosto a borra do vinho. O vermelho era também a cor dos heróis na antiguidade grega como símbolo do sangue e do fogo, princípio e poder da vida.

Dioniso tirou o vinho de sua condição selvagem, grosseira, assumindo, por isso, a atribuição de um deus civilizador. A dosagem entre o seco e o úmido dá ao deus o apelido de orthos (reto). Ele concedeu aos homens, como Deméter o fez com relação aos cereais, a força para que pudessem ficar de pé, para que abandonassem o mundo animal. Antes de Deméter, os humanos comiam alimentos crus, pesados, submetidos que estavam a uma dieta destemperada. Já com Dioniso, temos a arte da dosagem do vinho, de temperá-lo, a vida cultivada, o diálogo. Ele criou, juntamente com Deméter, a arte de viver, a reflexão dietética, a prática culinária e o saber médico. Lembremos que o vinho tem destaque na medicina e na filosofia gregas. Platão escreveu uma de suas mais belas obras, um diálogo, o “Symposium”, para honrá-lo.



Simpósio, como Platão o entendia, era uma reunião na qual os convidados, exclusivamente homens, discutiam filosofia e bebiam vinho (posis, ato de beber, mais o prefixo syn, reunião). A festa era conduzida por um simposiarca que se encarregava de dosar a bebida distribuída, aumentando, com misturas, o seu teor alcoólico se os participantes estivessem desanimados e diminuindo-o se muito acalorado o debate. Os músicos, nessas ocasiões eram retirados da sala, pois o filósofo achava que pessoas inteligentes não precisariam de música ambiente. Além do mais, é de se lembrar que para o filósofo filosofia e mulheres eram incompatíveis.


AGOSTINO CARRACCI (1557-1602)


A história do encontro de Dioniso com a princesa cretense Ariadne é muito significativa ao nos revelar miticamente a entrada do vinho no Mediterrâneo oriental. A princesa cretense representa nesta história uma antiga divindade egeia da vegetação, do mundo natural, que deve desaparecer para que a nova cultura entre na região. Dioniso, no drama de Ariadne, é o deus novo, que suplanta uma antiga divindade, do mundo matriarcal, e que, por isso, a leva à morte, mas nunca deixando, porém, de honrá-la devidamente. O deus lhe deu, como presente das núpcias fatais que convolam, o encontro de ambos na ilha de Naxos, um belíssimo diadema, uma tiara, depois fixada nos céus como constelação da “Corona Borealis”.

O vinho acompanha o homem e as sociedades que ele vai criando há milênios. Muito se escreveu sobre os mais variados aspectos do vinho, o místico-religioso, o social, o medicinal, o filosófico, o psicológico etc, em todas as tradições e culturas. Mais perto de nós, numa compilação medieval do início do século XIV, lá pelos anos de 1300, chamada “Gesta Romanorum”, que reúne muitas informações dos tempos passados, inclusive comentários bíblicos, ficamos conhecendo, curiosamente, um detalhe sobre o episódio que teve Noé por protagonista e sobre o vinho que ele produziu. Esta história faz desse patriarca judeu, que nasceu circuncidado e que foi protegido do dilúvio, o primeiro grande produtor dessa bebida na história da humanidade. Noé, segundo os romanos, não plantou a vinha, mas, sim, a encontrou em estado selvagem.

Os antigos povos latinos deram o nome de “labrusca”, depois “lambrusca”, a esta vinha e ao seu tipo de uva porque ela crescia livre nos limites dos campos, das florestas e dos caminhos. Como o vinho que produziu a partir dessa uva era muito ácido, sendo impossível consumi-lo, Noé, diz o texto, resolveu melhorá-lo. Sacrificou quatro animais, um leão, um cordeiro, um macaco e um porco, e com o sangue deles misturado fez uma espécie de estrume, depositando-o nas raízes das vinhas. Este estrume, revela-nos a referida compilação, adocicou o vinho.


NOÉ E SEUS FILHOS

Uma grande confusão, porém, foi gerada. Sob efeito do vinho, muitos que o consumiram (Noé o distribuía, incentivando as pessoas a beber cada vez mais) se transformaram em leões, demonstrando muita cólera por isso, o que lhes causou a perda da memória. Outros se transformaram em cordeiros, demonstrando, depois de consumir bastante a bebida, muito pudor, recato, pudicícia. Outros se tornaram macacos, ficando inconvenientes, curiosos, brincalhões, desagradáveis. A “Gesta Romanorum” não fala nada das consequências porcinas decorrentes da ingestão do “lambrusca”. Segundo alguns que se voltaram para estudar esse inusitado acontecimento, nenhum registro foi feito sobre tal influência em virtude de sua evidência, ou seja, boa parte dos que consomem vinho, e não só o “lambrusca”, se transformam realmente em porcos.

A primeira bebida fermentada que a humanidade conheceu foi o hidromel, do qual temos notícia desde a longínqua pré-história. Como bebida usualmente consumida, pertenceu ao chamado período do semi-sedentarismo do homem. Já o vinho, como o encontramos em algumas tradições, acabou por se impor, pois era a bebida do homem que se sedentarizava, que se fixava à terra e sobretudo que se civilizava.

Plutarco, biógrafo e moralista grego do primeiro século dC, deixou-nos o seguinte registro: Antes de se conhecer a vinha, usava-se o mel, tanto para a bebida como para os sacrifícios, e ainda hoje os bárbaros, que não cultivam a vinha, bebem uma espécie de mel diluído, que preparam com raízes e de gosto semelhante ao vinho.

Aristóteles, filósofo grego do séc. IV aC, discípulo de Platão e preceptor do grande Alexandre Magno, observou: “um homem embriagado de vinho cai para a frente porque tem a cabeça pesada. Mas bêbado de cerveja cai para trás porque é derrubado; com as outras bebidas alcoólicas, os bêbados caem em qualquer direção, para a esquerda ou para a direita, para a frente ou para trás.” Até hoje não entendi bem essa colocação do grande mestre peripatético, nem conheço estudos sobre esse critério de classificar bebidas pela direção da queda que provocam quando ingeridas em grande quantidade...

Na antiga Grécia (Atenas), bebiam-se, além da água, naturalmente, muito leite de cabra e uma espécie de hidromel. As classes populares gostavam do Kykeon (girar, rodopiar), uma bebida enteógena mais diluída, que entrava nos mistérios de Eleusis através de Dioniso. A elite grega, mais refinada, tinha verdadeiro horror desse costume popular. No campo, principalmente, as preferências incluíam o vinho adocicado.

A fabricação do vinho diferia muito dos processos atuais. Não se praticava a fermentação em dornas de forma prolongada ou sistemática, o que sempre dificultava a sua conservação. Para preservar o precioso líquido era costume, em algumas regiões, juntar-se a ele um pouco de água salgada. Já a adição de resinas (pinheiro, árvore símbolo de Dioniso) ao vinho, muito comum hoje, nunca praticado na antiguidade, vem ao que parece de tempos mais próximos de nós. Hoje, frequentemente, encontramos também vinhos aromatizados com tomilho, hortelã ou canela.

O vinho, na antiguidade grega, destinado ao consumo local, era guardado em odres de pele de cabra ou de porco, enquanto o exportado era guardado em grandes bilhas de barro (pitoi), como os tonéis de hoje. Havia também as ânforas, igualmente de barro, cujas paredes internas eram revestidas com pez. Nas asas das ânforas eram marcados os nomes do vendedor e de certos magistrados locais, cujo selo garantia um prévio controle.

Os mais afamados vinhos gregos na antiguidade eram principalmente os de Tasos, Naxos, Quios, Lesbos e Rodes. A exportação da bebida era muito regulamentada e protegida, sendo as fraudes severamente punidas. Raramente se bebia vinho puro (acratos). Antes de qualquer refeição, se fazia uma forte mistura com água num recipiente de boca larga denominado “cratera”. Os criados tiravam o vinho das “crateras” com grandes conchas de ponta recurvada, de metal ou barro, ou por meio de oenochoes (pequenos jarros), enchendo assim as taças.

Numa peça grega do século IV, encontramos: “Para as pessoas sensatas preparo somente três crateras: uma, da saúde, que eles tomam antes; a segunda, do amor e do prazer; a terceira, do sono. Depois de terem esvaziado essa terceira, aqueles que se chamam sábios vão deitar-se. A quarta eu ignoro, pertence à insolência. A quinta é repleta de gritos. A sexta transborda de maldades e zombarias. A sétima tem os olhos inchados. A oitava é do meirinho. A nona é da bile. A décima é da loucura (mania). É essa que faz tropeçar porque, servida em recipiente estreito, passa facilmente uma rasteira em quem a esvaziou. O Dioniso bom e reto afasta-se desde a quarta cratera.”


DIONISO OU BACO
(MICHELANGELO MERISI , CHAMADO CARAVAGGIO - 1573-1610)

O que fica dos cultos de Dioniso, acima de tudo, como a grande divindade do vinho, é que com a sua proposta mística se rompia aquilo que os gregos chamavam de meden agan, o metro, a medida, a forma cristalizada na qual a personalidade das pessoas estava encerrada e que impedia as transformações, o acesso a um tipo de vida superior. Neste sentido, Dioniso apareceu como uma ameaça às elites gregas. Daí o conflito entre as suas propostas e as da religião oficial do mundo grego, especialmente de Atenas, de natureza apolínea. Dioniso falava de transformações das individualidades, de libertação do inferno pessoal em que cada um estava aprisionado. Era a antítese do mundo oficial, da aristocracia, fixada nos seus privilégios. As classes desfavorecidas, o proletariado, os pobres, as mulheres, os estrangeiros e mesmo os escravos, todos os que não tinham vez na “polis”. Enfim, logo se aproximaram do deus. O discurso que os evangelistas porão na boca de Jesus Cristo se aproximará bastante daquele que os gregos já haviam ouvido do filho de Sêmele. Os cultos dionisíacos, voltados principalmente para os humildes, acabarão por invadir a “polis” (Atenas), abolindo fronteiras, destruindo limites e barreiras.

Um dos grandes mitos gregos que aparece associado ao vinho é o de Ganimedes. Jovem príncipe troiano, belíssimo, foi raptado por Zeus na forma de uma águia para servir como escanção nos banquetes olímpicos. O nome grego Ganimedes vem de ganos, que significa o jorro brilhante do vinho quando escapa dos tonéis (pitoi). Mais tarde, Zeus, para que a memória de Ganimedes jamais se apagasse, o transformará na constelação de Aquário. Por isso, os nativos deste signo, os que o vivem superiormente, sempre se caracterizam por sua leveza, por uma espécie de volatilidade que lembra o voo dos pássaros (a águia sempre aparece associada ao signo), pela necessidade que têm de romper as cadeias terrestres que os prendem, indo em direção do que está além, mais acima, adiante. Sempre uma ideia de transcendência, de elevação. Além disso, Aquário é o signo das afinidades eletivas, da vida comunitária, fraternal, do ágape, do qual o vinho é grande agente catalisador.


Uma grande figura que se aproximou do vinho, no fim da alta Idade Média, foi Hildegarde von Bingen (1098-1179), santa e mística, versada nas artes médicas e autora de uma grande obra musical. Para ela, o vinho, acima de tudo, tinha importância como símbolo. Para justificar esta importância, a Sibila do Reno, como também era chamada, valia-se de uma passagem bíblica sobre Noé. Dizia ela que a Terra, que antes de Noé fora corrompida pelo sangue de Abel, produzira depois uma seiva nova, o vinho, para que a sabedoria reiniciasse a sua obra. Abusar do vinho é naturalmente subverter o seu poder, pois seu grande segredo está na força que nele se esconde, que deve ser absorvida moderadamente. A vinha e o trigo, dizia Hildegarde, conforme os romanos observavam, crescem em função de um grande segredo, de uma força germinativa que possuem chamada “viriditas”, palavra que tanto significa verdor como força. Inúmeras referências sobre o vinho são encontradas na extensa obra da Sibila do Reno (também alinhada entre os melhores compositores medievais), merecendo referência especial as suas “Medicina Simples”, “Medicina Composta”, “Causas e Curas” etc.

Por fim, dentre as grandes citações sobre o vinho, encontramos: 1) Não há alegria sem vinho (Talmud); 2) Primavera florida, sinto que vem; depressa enchei a cratera com vinho (Alceu, poeta grego); 3) Uma noite, a alma do vinho cantava nas garrafas (Charles Baudelaire, poeta francês); 4) O vinho é o leite dos velhos. Não sei se quem disse isto foi Cícero ou o bispo de Mondoñedo, mas não importa (Lope de Vega, dramaturgo espanhol); 5) Que tenhamos vinhos e mulheres, alegria e risadas, sermões e água com gás no dia seguinte (Byron, poeta inglês); 6) O vinho e a música sempre foram para mim um excelente saca-rolhas (Anton Tchekov, escritor russo); 7) No vinho está a verdade (Plínio, o Velho, naturalista latino); 8) O vinho me impele, o vinho louco, que faz cantar até mesmo o homem mais ajuizado e o faz rir languidamente; o vinho que o obriga a dançar, e extrai a palavra que fica melhor quando não dita (Homero, poeta grego); 9) O álcool cria no homem um heroísmo muito superior à ideologia e à paixão; não sem razão é chamado de espírito (G.P.Bona, escritor italiano); 10) E quem tem pressa? (Robert Bencheley, humorista americano; resposta que deu quando lhe perguntaram se sabia que o álcool causava uma morte lenta); 11) O vinho faz bom sangue, bom sangue produz bom humor, bom humor faz nascer bons pensamentos, bons pensamentos dão origem a boas ações e boas ações nos conduzem a Deus (Rabelais, gênio francês); 12) Boa cozinha e bons vinhos, o paraíso sobre a Terra (Henri IV, rei da França); 13) Um grande vinho não é obra de um homem, é o resultado de uma constante e refinada tradição. Há mais de mil anos de história numa velha garrafa. O vinho é professor de gosto e, formando-nos na prática da atenção interior, é o liberador do espírito e o iluminador da inteligência (Paul Claudel, escritor francês); 14) No vinho está a verdade (Plínio, o Velho, naturalista latino).