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terça-feira, 21 de novembro de 2017

ESCORPIÃO (1)



              

Desde tempos muito recuados (5.000 aC) que o signo de Escorpião era conhecido por mesopotâmicos, persas, judeus, turcos, maias e muitos outros povos. Na Mesopotâmia, o signo tem a ver com
TIAMAT   E   MARDUK
Marduk, divindade que, à medida que a cidade da Babilônia se firmava como o maior centro do poder no território compreendido entre os rios Tigre e Eufrates, sobrepujou todos os demais deuses. Esta posição se deve sobretudo à sua vitória sobre Tiamat, o oceano primordial, símbolo das trevas e do caos. Depois dessa vitória, os deuses lhe atribuíram cinquenta títulos em sinal de reconhecimento e lhe conferiram o privilégio de fixar os destinos humanos. Desta maneira, Marduk reuniu em si mesmo a plenitude do divino e do humano. Na terra, era não só aquele que fazia crescer os cereais, mas o mundo vegetal como um todo, estendida sua ação inclusive a toda a vida animal.





Marduk se transformou aos poucos na grande divindade organizadora da vida universal. Era representado geralmente como um deus armado, abatendo um dragão, na sua forma mais elevada,
ESAGIL  ( RECONSTITUIÇÃO )
entronizada no grande templo babilônico de Esagil. Desta cidade, a imagem do deus ia para o interior do país, para uma região chamada Akitu, onde ficava vários dias. Lá se realizavam cerimônias, preces, cantos, rituais mágicos, purificações e sacrifícios. O próprio rei ia a Akitu para lhe prestar homenagens, quando, então, a imagem do deus, por uma longa via sagrada, era conduzida para as margens do rio Eufrates, onde havia um grande templo. Marduk, sob o nome de Bel-Marduk, lá permanecia por uns dias, voltando depois a Esagil. Estas cerimônias, no seu todo, duravam vários meses e constituíam uma espécie de religião de mistério, que figuravam a morte do deus, o seu renascimento e, enfim, a sua união com a deusa, Ishtar. 


TEXTO   DAS   PIRÂMIDES 

A história de Marduk, como se pode ver, guarda estreitas relações com outras, de natureza escorpiana, em que divindades infernais
TEXTO   DOS   SARCÓFAGOS
aparecem relacionadas com os temas da morte e do renascimento. Uma das mais famosas nos vem do Egito, a do deus Osíris. É sobretudo a Plutarco, historiador grego dos sécs. I-II dC, que devemos a história mais completa sobre a vida de Osíris, de sua união com Ísis e da luta que travou contra seu irmão Seth. Textos egípcios (Textos das Pirâmides e Textos dos Sarcófagos) completam as informações de Plutarco.

HINO   A   OSÍRIS
Um dos mais belos textos sobre o deus, o Grande Hino a Osíris, está numa estela exposta hoje no museu do Louvre. Nela se registra, de modo bastante poético e imaginoso, a procura do corpo do deus por Ísis e por Néftis, as lamentações amorosas da primeira e a sua fecundação pelo deus. 

Osíris, “o que tem muitos olhos”, foi associado pelos gregos a duas de suas principais divindades, Dioniso e Hades. Primitivamente, era um deus da natureza em que se encarnava no espírito da vegetação que morria com a colheita e que renascia com a germinação dos grãos. Nesse sentido, foi adorado em todo o Egito como deus dos mortos, condição que o levou ao primeiro lugar no panteão egípcio. 

Muito parecida com a história de Osíris como espírito da vegetação
SAFO  ABRAÇANDO  SUA  LIRA
( J. E. DELAUNAY , 1828 - 1891 
que morre e renasce é a de Tammuz, divindade babilônica, favorito da deusa Ishtar-Astarte. Devidamente adaptada, esta história aparece no mundo semítico, tomando Tammuz o nome de Adônis (adon, mestre, senhor), de onde passa para o mundo grego, para fazer parte de mitologemas relacionados com a Afrodite grega, helenizando-se, assim, as tradições míticas orientais. Lembre-se que todas estas histórias já eram conhecidas no mundo grego desde os sécs. VIII e VII AC., por poetas como Hesíodo e Safo.



O nascimento de Osíris foi muito “problemático”. A começar pela “gravidez” de sua mãe, Nut (o equivalente da Reia grega), que se relacionara secretamente com o deus Geb (o equivalente de Cronos entre os gregos). Ra, o Sol, divindade que tudo via e sabia, muito irritado, colérico, procurou interferir de modo a tornar a gravidez impossível. Muito angustiada, Nut procurou um lugar em que pudesse parir fora do alcance dos olhos de Ra. Não encontrou um lugar em que pudesse se refugiar. A vigilância de Ra era tão implacável que durante a sua viagem noturna pelas trevas encarregava o deus Lua de não perder Nut de vista. 


NUT

As coisas estavam nesse pé quando o deus Toth resolveu prestar auxílio a Nut. Este deus, o das palavras medidas, segundo a história nos conta, nutria grande admiração por Nut ou uma grande paixão, conforme outras versões. Toth convidou o deus Lua para um jogo de dados. A partida foi longa e disputada, mas Toth acabou vencendo. Pediu, pela vitória, que o deus Lua lhe fornecesse a 72ª parte do período de sua luminosidade. Com isso, pode então Toth criar e acrescentar cinco dias suplementares ao período anual, chamados estes dias de epagômenos. Lembremos que epagômeno (epagô, em grego, é trazer, introduzir, acrescentar por indução) é o dia que se acrescenta a um calendário.  Entre os egípcios, era cada um dos cinco dias adicionados ao ano civil, que compreendia doze meses de trinta dias. 


ESCADA  DE  JACÓ (W. BLAKE , 1757 - 1827)
Lembremos que 72 é um número caro a todas as tradições antigas ao indicar ascensão e valorização. Platão nos fala que é o número das “bodas herméticas”, da união do céu com a terra, correspondente a oito gestações completas. Os assírios, os caldeus e os judeus contam em seus calendários mágicos 72 anjos tutelares e  que esse é o número de semidecanatos em um ano. 72 é também o número de degraus da escada de Jacó, que liga o céu e a terra. Plutarco fez alusão a cinco dias que o deus Hermes intercalou em um ano de 360 dias, tirando diariamente 1/72 de cada dia. É de se mencionar também que o aspecto astrológico de 72º tem o nome de quintil, aspecto de natureza “oculta”, devido ao seu grande potencial criativo, numa perspectiva muito individual.



Filho mais velho de Geb e de Nut, irmãos, deuses da segunda dinastia, portanto, como se disse, nasceu Osíris em Tebas, no Alto-Egito, sendo o primeiro dos cinco filhos do casal divino. Nos demais dias epagômenos nasceram, pela ordem, Haroeris, Seth, Ísis e Néftis. Os textos hieroglíficos encontrados pelos arqueólogos contêm inúmeras alusões aos fatos da vida terrestre de Osíris, por eles se sabendo que Ra acabou por aceitar o nascimento de seu neto, reconhecendo-o como herdeiro de seu trono. 

Quando Geb se retirou para os céus, Osíris o sucedeu na qualidade de rei do Egito e se uniu a sua irmã, Ísis. O primeiro ato de Osíris como governante máximo foi o de abolir a prática da antropofagia
FLAUTA  EGÍPCIA
entre os humanos; depois, na sua função civilizadora, ensinou aos seus súditos os processos de fabricação de instrumentos agrícolas e os instruiu na arte do plantio de cereais e da videira, até então desconhecidos, o que lhes permitiu fabricar o pão e bebidas como o vinho e a cerveja, ambas bebidas da imortalidade. Osíris instituiu os cultos divinos, inexistentes; fez construir os primeiros templos, inventou instrumentos como a flauta e ensinou a arte musical para servir de sustentação aos cantos nas festas. 


OSÍRIS
Depois de civilizar o Egito, Osíris, com o mesmo intuito, dirigiu-se à Ásia, deixando Ísis na regência do trono. Acompanharam-no Toth, seu vizir, e seu grande oficial, Anúbis, “o que abre caminhos.” Inimigo de toda violência, foi pacificamente que ele levou a civilização a todos os recantos da terra. Retornando ao seu país, Osíris foi atacado numa emboscada e morto por seu irmão Seth, que armara um complô para destruí-lo. Este acontecimento se verificou no vigésimo oitavo ano do reinado de Osíris, que teve seu corpo despedaçado pelo irmão e espalhado por vários lugares do país. 

Graças, contudo, a seus poderes mágicos, Ísis, ajudada por Toth, Anúbis e Hórus, este filho póstumo dela e de Osíris, conseguiu fazer com que seu marido voltasse à vida. Ressuscitado e ao abrigo
FERTILIDADE   TRAZIDA    PELO    NILO

 da morte, Osíris preferiu deixar a terra e descer ao mundo subterrâneo para reinar sobre os mortos. O que a história desse deus nos revela, assim, na sua dimensão cósmica, é que ele se identificou simbolicamente com o espírito da vegetação que morre e renasce incessantemente, representado, nesse sentido, pelo trigo, pela vinha, pelas árvores e pelas plantas em geral. Ele é também o rio Nilo que, a cada ano, míngua no período da seca e que recupera a sua força, quando das enchentes, vencendo assim o deserto. Ele é, numa palavra, tudo o que a cada crepúsculo se apaga, como o Sol, para renascer a cada manhã, trazendo a luz de volta. A luta entre ele e seu irmão Seth (representado pelo dragão Apophis, equivalente do Tifon grego) nada mais é que uma imagem dessa alternância, a luta entre o deserto e a fertilidade das terras inundadas pelas águas do rio, o choque entre os ventos quentes e a umidade de que a vegetação precisa, a batalha entre a obscuridade e a luz. 



É, contudo, como divindade do “Outro Lado” (Duat) que os cultos de Osíris atingiram a sua máxima expressão e popularidade, pois ele dava aos seus fiéis a esperança de uma vida eternamente feliz no além, num mundo governado por um rei justo e bom. Adorado em todo Egito, em companhia de Ísis e de Hórus, Osíris forma com eles a chamada trindade osiriana (imagem à direita), honrada em todo o país. 

Embora as fontes faraônicas já apresentassem, desde o período do Antigo Império, os principais elementos do mito, a história de Osíris só ganhou grande divulgação com os gregos, espalhando-se por todo o Mediterrâneo. Foi a partir de então que Osíris passou a ser conhecido como um símbolo da potência imperecível do mundo natural, da vegetação em especial, e do chamado Sol Negro, o Sol em sua viagem noturna. É neste sentido que Osíris é cultuado como a grande divindade da morte e do renascimento, tendo também a ver seu mito, numa leitura psicanalítica, com as fases da individuação psíquica do ser humano.

Inegavelmente, o que melhor ilumina o mito osiriano é a leitura astrológica na medida em que o signo de Escorpião simboliza o fim da vegetação, a queda e a decomposição dos galhos e folhas, e, num sentido lato, evidencia a destruição das formas e dos valores objetivos do ser humano. Alquimicamente, quando o Sol transita pelo signo de Escorpião nos céus, passamos a trabalhar, no mundo natural, com ideias de desagregação, de fermentação e de putrefação, operações sem as quais não podemos pensar em renascimento.    

Na mitologia mesopotâmica, sob o reino de Apsu, o grande abismo cheio de água que cerca a terra, está o mundo infernal, região para a qual se dirigiam os que morriam, um “lugar sem retorno”. Para chegar a ele era preciso atravessar um rio e depois ingressar num palácio de sete portas, abandonando-se em cada uma delas uma peça da roupa que o morto (alma) vestia. A audaciosa Ishtar, um dia, atreveu-se a visitá-lo e quase dele não conseguiu sair se não fossem os seus poderes mágicos e, sobretudo, a intervenção de Ea, uma espécie de Poseidon, grande divindade do Apsu. Às vezes, os deuses permitiam que os encerrados no inferno voltassem por uns momentos à superfície luminosa da terra, como foi o caso de Enkidu, companheiro de Gilgamés, autorizado inclusive a revelar ao amigo o que se passava nas trevas infernais. 

EDIMMU

As almas dos mortos que lá viviam eram chamadas de edimmu, aladas como os pássaros; alimentavam-se, com raras exceções, de poeira e de lama. Além dessas almas, encontravam-se também no inferno os deuses vencidos, cúmplices de Tiamat, derrotados por Marduk, quando da grande batalha vencida por este último, o que ensejou a cosmização do universo criado. 

No épico babilônico sobre a criação, aparecem duas entidades com destaque. Uma delas é Apsu, também chamado Abzu ou Engur, nele residindo seu filho, o sábio deus Enki (Ea) e sua esposa Dulgalnuna, subordinando-se a eles várias criaturas marinhas. Enquanto Apsu personificava as águas subterrâneas, as águas salgadas eram de Tiamat. Formavam, Apsu e Tiamat, um par macho-fêmea. Geraram eles uma linhagem divina, da qual faziam parte, além de Enki, outras divindades que acabaram por criar muitos problemas a Apsu. Muito descontente, Apsu resolveu
BABILÔNIA  -  SÍTIO   ARQUEOLÓGICO
exterminá-los, apesar dos protestos de Tiamat. Revoltada, incontida e aparentemente ilimitada no seu eterno vai-e-vem, Tiamat lembrava a indeterminação, o caos primordial, informal e tenebroso. Constituía-se, como tal, num perigo permanente para os deuses que, na nova ordem, representavam o mundo masculino. Aliada do mundo feminino, Tiamat precisava ser vencida e, de fato, o foi por Marduk, a divindade tutelar da Babilônia, que se tornou a primeira cidade do país, capital do império.     


ERESHKIGAL
Nesse cenário, sobre o mundo infernal reinava sozinha a deusa Ereshkigal. Um dia, porém, o deus Nergal, com catorze demônios, invadiu esse reino; a paz foi negociada então, unindo-se Ereshkigal ao deus invasor como esposa. Até então deus da guerra e da destruição, tornou-se Nergal baal (deus) dos mortos. Ele usava como símbolo uma espada e, às vezes, um elmo feito com uma cabeça de leão. O visual de Nergal era muito semelhante ao de Ares e de Marte, deuses da guerra, respectivamente, entre gregos e romanos, sendo também evidente, por outro lado, as suas implicações astrológicas com o planeta de mesmo nome (regente de Escorpião). Seu primeiro ministro e comandante das tropas infernais era Namtaru, o deus da peste. 

NERGAL
Ereshkigal e Nergal eram auxiliados também por sete annunaki, que agiam como juízes, sendo o tribunal presidido pelo deus Sol-Utu. Além deles, havia uma força policial, os galla, para cuidar da segurança do reino. No mais, esse submundo era concebido de modo semelhante ao céu, ambos organizados em função de modelos terrestres. Mesmo na morte havia uma rigorosa ordem de preferência, sob o ponto de vista social. As almas dos reis e dos altos funcionários ocupavam sempre os melhores lugares. A alma de qualquer defunto ilustre tinha, ao chegar, de oferecer sacrifícios aos seus nobres predecessores. A conduta nesse submundo obedecia a certas regras, impostas por Gilgamés, o grande herói, que se tornou um deus depois de sua morte. 

Se as sentenças fossem favoráveis, as almas podiam esperar uma existência razoavelmente satisfatória. Não obstante essa promessa de esperança, os mesopotâmicos sempre acreditaram que a vida no reino infernal seria sempre um pálido reflexo da que havia conhecido na Terra. Tinham eles bem poucos motivos para esperar uma vida venturosa no inferno, mesmo tendo sido impecáveis na sua conduta em vida. 

A história do amor entre Ereshkigal e Nergal é narrada num texto que tem o nome dos dois personagens. É por esse texto e outros que tomamos conhecimento de mais alguns atributos de Nergal como a de que era a divindade responsável por declarações de guerras, pela devastação de florestas pelo fogo, por epidemias de febres e por pragas de toda espécie. Fazia parte do seu séquito, dentre outras divindades menores, mas igualmente violentas, a deusa Erra, que dizimava pelas doenças populações inteiras.  


DIONISO
Se nos voltarmos para a Grécia, não há como não deixar de aproximar o que dissemos acima de Osíris da história de Dioniso e evidentemente do signo de Escorpião. Desde a sua origem, Dioniso, o deus de Nysa, como sabemos, sempre teve uma forte relação com a vida animal e vegetal, honrado, por isso, ao ar livre, no alto das montanhas. Sua relação com o vinho, bebida enteógena, liberadora, também se fixou logo, juntamente com espetáculos dramatúrgicos, que estão na origem de seus cultos. 

Aos poucos, foi incorporando o deus outros traços para se constituir numa divindade ligada à renovação cíclica da natureza e às metamorfoses do mundo animal e humano. Como deus civilizador, aparece Dioniso ligado aos prazeres, à exuberância, aos desregramentos, ao rompimento de limites. Psicologicamente, ele tem a ver com tudo aquilo que, no ser humano, dissolve a cristalização de formas, de complexos e de comportamentos automatizados, podendo causar, através dessa ação, regressões a perigosos e temidos estados caóticos, pré-egoicos. Neste sentido, ele atua sempre no sentido de eliminar repressões, constrangimentos e limites, quando as necessárias transformações ou atualizações dos seres e dos organismos sociais não acontecem, trazendo a loucura, a destruição e mesmo a morte.


CULTO   DE   DIONISO

Os cultos de Dioniso sempre oscilaram entre o espiritual e o físico, mostrando-se no geral muito “selvagens” e turbulentos (como os de certas correntes shivaístas na Índia), o que incomodava sobremodo a polis grega, que, por isso, procurou “civilizar”, ou melhor, urbanizar o deus de qualquer maneira. Assim, suas festas foram aos poucos sendo incorporadas ao calendário oficial de Atenas; os dramas dionisíacos, espontâneos e naturais, foram dando lugar a manifestações teatrais com regras bem definidas (tragédia e comédia), patrocinando o poder público competições que no gênero marcaram profundamente a vida grega.

Para se entender o que estamos a expor é preciso lembrar que a religião oficial da polis grega (Atenas) era aristocrática. Os deuses olímpicos atuavam para reprimir a hybris dos que tentassem ir além do seu métron. A meta da religião olímpica era a obtenção do conhecimento contemplativo (gnosis), a purificação da vontade para que o divino fosse recebido (khatarsis) e obtida a consequente libertação do ser para uma vida de imortalidade (athanasia). As principais divindades do mundo olímpico, inspirador da ordem aristocrática, eram Zeus, Apolo e Palas Athena.

Do outro lado, opostas, tínhamos as correntes religiosas dionisíacas, voltadas para os mitos naturalistas, para os cultos agrários, do tempo cíclico, divindades da vegetação e da vida animal, que morriam e ressuscitavam. Dioniso era a principal delas. Ele era o deus da libertação, da orgia, do êxtase e do entusiasmo, que tinha na videira o seu maior símbolo. Seu culto logo se tornou popular, sendo considerado como o deus dos deserdados, dos que não tinham vez na polis aristocrática, as mulheres, os metecos (estrangeiros), as crianças e os escravos. Ele fazia parte de um grupo de divindades que lembrava a morte, a catábase, a viagem infernal, e o renascimento. 


ORFISMO
O sucesso do orfismo na polis grega, como seita religiosa, se deve provavelmente a este problema, o dos desregramentos dos cultos dionisíacos, sempre temíveis, sobretudo sob o ponto de vista político. Não é de espantar que o cristianismo, nos seus primórdios tenha chegado a ver Orfeu como uma prefiguração de Cristo. Orfeu é um personagem mítico, sedutor, que aparece no mundo grego como uma tentativa de se neutralizar os “perigosos” cultos dionisíacos, sempre uma ameaça para a polis aristocrática, apolínea. 


ORFEU
Recapitulando rapidamente o leit motiv da história de Orfeu, grande poeta e cantor, lembremos que devido à morte de sua amada, Eurídice, ele obteve permissão para retirá-la do inferno sob a condição de não procurar revê-la até que tivessem ambos saído do mundo infernal, ele caminhando na frente, ela atrás. Mas no momento em que está para atingir o mundo dos vivos, Orfeu se volta para vê-la, perdendo-a, por isso, definitivamente. Desesperado, tentou ainda recuperá-la, mas em vão, Eurídice retornara ao Hades. Cheio de dor, Orfeu desde então desdenhou todas as mulheres. Por essa razão, foi destroçado pelas mênades, as sacerdotisas de Dioniso.


ORFEU   E   EURÍDICE  ( G. F. WATTS , 1870 )

Segundo a doutrina órfica, a alma imortal habita um corpo mortal; depois da morte, ela passa uns tempos no inferno para se purificar, reencarnando depois num outro corpo humano ou mesmo no de um animal, enriquecendo-se de experiências nestas transformações sucessivas, semelhantes ao samsara dos hindus. Só os iniciados conheciam as fórmulas mágicas que permitiam a metempsicose e a salvação definitiva da alma. O orfismo comportava muitos dogmas, princípios filosóficos, regras de alimentação, controle da sexualidade etc. Praticavam os órficos a abstinência da carne e vestiam-se de branco, símbolo da pureza. 

O orfismo e o cristianismo trouxeram ao mundo grego e helenístico a promessa de uma vida futura. Ambos, Orfeu e Cristo, aparecem assim como mediadores da divindade para multidões sofredoras da agonizante cultura greco-romana, falando-lhes de uma vida eterna. Cristo é, porém, um produto típico de uma religião patriarcal, cujos profetas representam seu Deus como um ser absoluto. A orientação do cristianismo quanto ao espaço e ao tempo é também muito diferente daquela que o orfismo propunha. Este nos fala de uma religião que propõe uma alternância cíclica entre o mundo inferior e o superior que lembra a alternância do mundo vegetal; o outro, o cristianismo, é celestial, escatológico e finalista (para informações mais detalhadas sobre o Orfismo, leia neste blog o artigo Orfeu ou O Fracasso de um Poeta). 




terça-feira, 18 de julho de 2017

VIRGEM (1)


VIRGEM
As antigas civilizações do oriente, como a védica, e mediterrâneas, como a egípcia e a grega, tinham pleno conhecimento da influência das  chamadas eras cósmicas no desenvolvimento e na evolução dos povos. As eras cósmicas foram estabelecidas em função da passagem do Sol pelas constelações zodiacais, definindo esta passagem, em linhas gerais, segundo cada constelação, por um determinado período, para esta ou aquela civilização, modelos muito semelhantes relacionados com os seus fundamentos religiosos, filosóficos, políticos, sociais e artísticos. Cada período tem a duração de 2.160 anos, correspondente a 30º dos 360º que tem o ciclo completo.  

No chamado zodíaco das constelações esta progressão solar tem a duração de 25.920 anos, o chamado grande ano pitagórico, correspondente a um deslocamento solar de 360°, e de 2.160 anos se considerarmos o trânsito do Sol através de uma única constelação (30°). Este ciclo composto pelas doze constelações, baseado na chamada precessão dos equinócios,  nos permite perceber que há ciclos de tempo muito mais extensos dos que usamos normalmente, de grande importância para o entendimento da evolução da humanidade como um todo.



A era cósmica em que nos encontramos hoje, a de Peixes, começou em 498 dC. e terminará em 2.658 dC. As eras que a antecederam têm as seguintes datas de ínicio: Áries (1.662 aC), Touro (3.822 aC), Gêmeos (5.982 aC), Câncer (8.142 aC), Leão (10.3102 aC.). Estamos hoje na terceira e última fase da era de Peixes, que começou no ano de 1.938. 

As eras cósmicas são a própria memória do mundo. Os ciclos precessionais, que as determinam permitem-nos interpretar a história da humanidade já que marcam elas o aparecimento de raças, nações e religiões. Determinam inclusive o nascimento, a ascensão e a morte de uma raça raiz. O grande ano zodiacal de 25.920 anos se divide em quatro períodos (estações) de 6.480 anos, formados cada um por três eras cósmicas. O predomínio da raça ariana teve início quando o Sol ingressou na constelação de Áries, em 1.662 aC, e se estenderá até 4.818 dC, nele se incluindo as eras de Peixes e de Aquário. No período anterior ao do domínio da raça ariana, tivemos a evolução, a ascensão e a decadência da chamada raça atlante, durante as eras de Câncer, Gêmeos e Touro. 


GRAHAM   HANCOCK
As mais antigas referências que temos sobre Virgem nos apontam para um período muito recuado, a-histórico, anterior ao ano 10.000 aC. Foi por esse tempo, quando o Sol transitou de Virgo para Leão, como está hoje comprovado por pesquisas arqueológicas conduzidas por Graham Hancock e outros, que antigos povos, habitantes da região que mais tarde receberia o nome de Egito, levantaram um monumento para celebrar tal passagem. Refiro-me à esfinge de Gizé, uma estátua de pedra calcária, uma figura mítica, formada pela cabeça de uma mulher e por um corpo de leão com asas de águia. 

ESFINGE   DE   GIZÉ
DEMÉTER
( J.A.WATEAU , 1770 - 1718 ) 
Estudos recentes (séc. XX), contrariando o que a egiptologia tradicional sempre defendeu erroneamente, comprovaram que a parte humana da estátua era a cabeça de uma deusa das colheitas, a deusa Ísis, irmã e esposa de Osíris, associada mais tarde por Heródoto à deusa Deméter, dos gregos, e à deusa Ceres, dos romanos. Ela era representada nesta forma como uma mulher de porte majestoso segurando na mão um maço de ramos de trigo que ela teria lançado nos céus para formar a Via Láctea. Nas histórias que os egípcios nos contam sobre ela, uma variante nos diz que, desgostosa com o comportamento dos humanos, ela  se retirou da terra numa idade que corresponderia à da Idade da Prata da mitologia grega.

Uma das melhores maneiras de se apreender as principais características do signo de Virgem está na analogia, na solidariedade, que há  entre a mulher e a agricultura. Esta solidariedade pode ser descrita, num primeiro momento, através da aproximação da fecundidade da terra,  da  capacidade geradora do elemento feminino, aproximação fundamental para que seja possível a aquisição de uma consciência de que a vida, a morte e o renascimento são interdependentes.


MÃE DOS CEREAIS
No cenário “agrícola” do signo de Virgem as suas características mais marcantes estão certamente no poder da colheita e na destinação do que se colheu. Inúmeros ritos e costumes, ao logo da história do homem, atestam estes poderes. Eles sempre foram vistos como uma força sagrada e representado por figuras míticas. Quaisquer que sejam os modelos, eles giram invariavelmente em torno da figura de uma Grande Mãe, chamada geralmente de Mãe do Milho, Mãe do Trigo, Mãe dos Cereais etc.  

Em muitas tradições, desde tempos pré-históricos, era comum o sacrifício de seres humanos por ocasião das colheitas. Na mitologia grega, por exemplo, as reminiscências deste rito estavam em certas passagens míticas. Uma história grega nos fala de Litierses, um filho bastardo do rei frígio Midas. Ele possuía muitas terras, inteiramente ocupadas pela cultura do trigo. Era conhecido como o ceifeiro maldito. Sempre que, no tempo das colheitas, um estrangeiro passasse pelos seus domínios ele lhe dava hospedagem e o convidava a segar o trigo. Este convite era um desafio, uma competição. Se o estrangeiro ceifasse o trigo mais rapidamente que ele poderia ir embora. Se não, o que sempre acontecia (Litierses era imbatível na ceifa), ele o matava, decapitando-o, e lançava o corpo da vítima despedaçado nos campos. Esta história termina quando Hércules, a serviço da rainha Ônfale, foi incumbido de enfrentá-lo. Nosso herói o venceu e o decapitou.  


OS   CEIFADORES  ( PIETER  BRUGHEL , 1565 )

Evidentemente, o que temos aqui, por trás do mito, é o costume antiquíssimo do sacrifício de uma vítima humana para a regeneração da força manifestada na colheita, um sacrifício no qual se repete o ato que deu vida aos grãos (para que algo nasça é preciso que algo morra). O homem primitivo, compreenda-se, viveu durante milhares e milhares de anos na ansiedade quando das colheitas, pois poderiam esgotar as forças geradores da terra. Além disso, havia o medo de que o Sol não voltasse quando de sua viagem hibernal, que a própria Lua, tão próxima, também resolvesse desaparecer ou que a semente, por uma razão qualquer, não vingasse. Daí, o costume de se oferecerem as primícias (os primeiros frutos) para ser tentada uma reconciliação com todas estas forças que agiam no interior da terra e nos frutos como também para ser obtida a permissão de consumir os produtos obtidos sem risco nenhum. 


HÓRUS  ,  OSÍRIS ,  ÍSIS 

Embora Ísis, devido à sua enorme popularidade entre os egípcios assimile traços de outras deusas gregas (Hera e Afrodite) é com Deméter que ela mais se identifica. A história desta deusa nos foi contada por Plutarco, historiador grego. Revela-nos ele que ela era filha de Geb e de Nut. O primeiro lembra o Kronos grego e a outra, Reia, ambos, titânidas, filhos de Urano e de Geia, que formam as divindades regentes da segunda dinastia da mitologia grega. Ainda muito jovem, Ísis foi escolhida por seu irmão Osíris para ser sua esposa. Dessa união nascerá Hórus, que, com os pais, constituirá a grande tríade religiosa egípcia.   

NA  RODA  DE  FIAR
( CORNELIS KOPPENOL )
Ísis nasceu no quarto dos dias epagômenos (entre os egípcios, diz-se de cada um dos cinco dias adicionados ao ano civil , que compreendia doze meses de 30 dias cada um; epago, em grego, quer dizer levar, transportar). Subindo ao trono com seu irmão mais velho, ela o ajudou na sua obra civilizadora, ensinando às mulheres a fiar o linho e tecer; ela também ensinou aos homens a arte da cura de doenças e os inspirou a viver em núcleos familiares, instaurado a cerimônia matrimonial (vínculo ritual pelo qual a mulher se torna mãe). 


ÍSIS

Como Osíris viajava muito, ocupado com o seu culto (conquista pacífica do mundo), Ísis se tornou a regente do país, sempre governando sabiamente. Imensa foi a sua dor quando tomou conhecimento do assassinato de Osíris por Seth, o Violento, irmão de ambos. Cortou os seus cabelos, rasgou as suas vestes e partiu à procura no rio Nilo da arca onde, segundo soubera, o corpo despedaçado do marido estava encerrado. Levada pela correnteza do rio até o mar, a arca chegou à costa fenícia. Numa praia, a arca foi ter a um tronco oco de um tamárix, nele se alojando, sem nenhum sinal exterior de sua presença nele.

A esse tempo, o rei de Biblos estava construindo um palácio e muitas árvores eram abatidas. Uma delas foi este tamárix, usado para escorar o teto da edificação. Logo se espalhou a história que desse tronco se desprendia um perfume estranho. Chegando tal história a Ísis, ela logo se dirigiu ao local. Sem revelar quem era,
ASTARTE
conseguiu se fazer receber pela rainha Astarte, que lhe confiou seu filho recém-nascido, tornando-se Ísis assim a ama da criança. Enquanto esperava uma oportunidade para se aproximar melhor do tronco da árvore, Ísis cuidou do jovem príncipe. A criança, todas as noites, era purificada por ela, segundo determinados ritos de calcinação, cujo objetivo era o de torná-la imortal. A rainha, contudo, a surpreendeu numa noite quando da prática de  tal rito. Nesse momento, Ísis revelou quem era e o motivo da sua vinda a Biblos. Obteve logo o tronco da árvore, abriu a arca, vertendo copiosamente suas lágrimas sobre os restos de Osíris, e, levando a arca para o Egito,  escondeu-a numa região pantanosa, para afastar a possibilidade de Seth encontrá-la. Nem todas as partes do corpo de Osíris, entretanto, estavam na arca. Seth, para impedir a reconstituição do corpo do irmão, distribuíra, por vários lugares, em catorze pedaços, o seu restante, pretendendo, com isso, aniquilá-lo para sempre. 

Sem se desesperar, Ísis se pôs a procurá-los, encontrando todos, menos o pênis, que um peixe do rio havia devorado. A deusa começou então cuidadosamente a recompor o corpo; ajudada pela sua irmã Neftis, por seu sobrinho Anúbis, por Toth, o vizir do
EMBALSAMAMENTO
defunto, e por Hórus, seu filho póstumo, que ela havia concebido unindo-se ao cadáver de seu marido, magicamente reanimado por seus encantamentos. Ísis praticou pela primeira vez, os ritos de embalsamamento, que proporcionaram ao deus assassinado uma vida eterna. Depois de tudo isso, a deusa se retirou e para escapar da fúria de Seth refugiou-se nos pântanos, a fim de educar seu filho Hórus, até que atingida por ele a idade adequada para poder vingar o pai. 

Graças à proteção e aos encantamentos da mãe, Hórus conseguiu escapar de todos os perigos. A deusa era detentora de uma magia que astuciosamente obtivera do deus Ra, quando a seu serviço. Tal aconteceu quando Ra, tomando a forma de um velho de membros trêmulos e de boca babosa, vindo a perambular pelo mundo dos mortais. Ísis, usando terra impregnada da baba do deus, fabricou uma serpente venenosa, que, colocada no caminho do velho deus, o mordeu. Incapaz de se curar, Ra teve que recorrer à deusa, que o salvou. Foi nessa ocasião que Ísis, segundo o mito, se apoderou do nome secreto de Ra, conquista que lhe permitiu estender o seu poder por todo o universo, sendo adorada, por isso, em todo o mundo mediterrâneo, como deusa suprema e universal. Mãe da natureza, dos elementos, divindade tutelar dos manes, tornou-se Ísis o centro de vários círculos esotéricos, sendo considerada como aquela que detém os poderes da vida, da morte e do renascimento. Passou ela a personificar desde então a anima universal, e, quanto ao mundo masculino, a somatória de todas as tendências femininas do seu psiquismo.  


TEMPLO   DE   PHILAE

Ísis, no mito osiriano, representa a terra fértil do Nilo, fecundada anualmente pelas cheias do rio, isto é, por Osíris, que separa dela Seth, o deserto. Seu culto não cessou de crescer em importância, a ponto de praticamente apagar o de todas as demais deusas. Ultrapassando as fronteiras do Egito, foi o seu culto levado por viajantes e comerciantes para o mundo greco-romano, de onde alcançou as margens do rio Reno, na Germânia. Nas margens do Nilo, ela conservou seus fiéis até o séc-IV dC. Somente no séc. VI, sob o reino de Justiniano, que o templo de Philae, seu principal santuário no extremo sul do país, foi fechado e transformado em igreja católica. 


APULEIO
As festas em honra a Ísis eram celebradas na primavera e no outono, como, aliás, as dos Mistérios de Elêusis, na Grécia. As descrições que Apuleio (escritor latino do séc.II dC) nos deixou sobre as majestosas procissões em sua homenagem podem nos dar, ainda que muito imprecisamente, algumas informações sobre os seus ritos iniciáticos (isíacos). Ísis sempre foi representada como uma mulher majestosa, levando na cabeça uma espécie de coroa estilizada, um ideograma de seu nome. Aparece a deusa às vezes ostentando um disco na cabeça; em outras ocasiões, lembra a deusa Hathor, pelo seu teriomorfismo (cabeça de vaca). Seu emblema era
CRUZ   ANSADA
um nó mágico de nome Tat, chamado nó de Ísis, ou cruz ansada, uma união simbólica do céu e da terra,  e o sistro (trombeta aguda), também símbolo de Hathor.  A escultura e a pintura a representam geralmente ao lado de Osíris, a quem dá assistência e protege, o mesmo fazendo também, de um modo geral, com todos os mortos, com seus braços abertos, como asas. Em algumas representações, aparece chorando ao lado dos sarcófagos ou velando os vasos canopos, onde se guardavam as vísceras dos mortos. Numa outra forma, aparece aleitando Hórus ou o protegendo quando de suas lutas contra Seth.



ÍSIS   ALEITANDO   HÓRUS

Uma grande semelhança pode ser apontada entre Ísis, nas representações em que aparece segurando Hórus, como puer aeternus, nos seus braços, e Perséfone, que, na segunda fase dos Mistérios de Elêusis, a epopteia, carrega num dos braços Brimo, o mesmo puer aeternus, e numa das mãos um feixe de trigo. Ligado a Atenas pela chamada Via Sacra, o santuário de Elêusis estava sob a tutela de Deméter (Grande Mãe) e de Koré, sua filha, divindades do mundo vegetal e de seus ciclos. Elêusis foi sempre um teatro de cerimônias iniciáticas, cujos ensinamentos, de caráter absolutamente esotérico, não podiam ser divulgados sob pena de morte, pena que era também aplicada àqueles que, não iniciados, resolviam ingressar no santuário sagrado. 


ELÊUSIS

Os vestígios desse santuário podem ser hoje visitados no alto de uma acrópole que domina o golfo de Elêusis e a ilha de Salamina. É de se salientar que arqueólogos ingleses e franceses pesquisaram o local no séc. XIX. A partir do fim do período romano da história grega e da imposição do cristianismo como sua religião oficial, as majestosas instalações do santuário entraram em decadência, ficando o lugar cercado por uma topografia confusa, mas envolvendo-o sempre, ainda hoje, um halo de sopro espiritual ao qual se misturam a poluição proveniente de uma estrada cujo trânsito é bastante pesado. À volta das ruínas, algumas flores, lembranças de um tempo em que elas se espalhavam por toda a região, hoje substituídas por “florescentes” usinas.  

Segundo a mitologia, foi em Elêusis que Deméter encontrou a sua filha Koré, que fora raptada pelo deus Hades perto do lago de
GRÃOS  DE  TRIGO
Pergusa, na Sicília. O rei de Elêusis, Keleos, tendo oferecido hospitalidade à deusa, ela, em agradecimento, deu a Triptólemo, filho do soberano, o primeiro grão de trigo  e lhe ensinou a arte de fazê-lo frutificar. Uma estela do séc. V aC, encontrada em Elêusis, hoje no Museu Arqueológico de Atenas, ilustra a doação da deusa ao jovem príncipe. Simultaneamente, Deméter teria comunicado ao grão-sacerdote Eumolpo o ritual do culto da fecundidade.

Deméter, como se disse, era a deusa do trigo, da fecundidade dos campos, e sua filha Koré, tendo assumido a posição de deusa do mundo ctônico devido às “artes” de Hades, como Perséfone, acolhia os mortos quando lá chegavam. Este culto, sem dúvida, tem origem, num primeiro momento, no Egito e, depois, no mundo cretense e egeu, por onde se introduziu na Grécia. O culto que se celebrava no interior do santuário era reservado só aos iniciados, sendo, porém, franqueadas a todos  as festas que se realizavam exteriormente. 

Inicialmente, um culto agrário de fecundação da terra, os Mistérios eleusinos se tornaram, possivelmente sob a influência do orfismo, uma espécie de terapia coletiva, embora alguns o vissem como uma religião de salvação. Os Mistérios, principalmente devido à relevante participação de Dioniso, estavam abertos a todos, sem distinção de classe ou de sexo, mesmo os escravos nele eram admitidos se originários de colônias gregas, tudo muito diferente dos cultos apolíneos, de caráter aristocrático. Os bárbaros, inclusive, poderiam deles participar se se naturalizassem. 

A pessoa que quisesse se iniciar deveria se apresentar a um funcionário sacerdotal através de um ateniense já iniciado. Este funcionário assumiria então a condição de mistagogo (professor) perante o candidato. Aceito, participaria então o candidato dos Pequenos Mistérios, em Agra, que começavam por uma purificação no rio Ilyssos. Ao logo dos seis meses seguintes os candidatos iam
ELEUSINION
se tornando mystai (iniciados). No outono, tinha início a segunda fase, a dos Grandes Mistérios, que começava em meados de setembro, segundo o nosso calendário. No dia determinado, alguns efebos iam a Eleusis buscar os hiera, objetos sagrados (de composição ignorada para nós), que, no dia seguinte, deveriam ser levados em procissão a um templo de Atenas, o Eleusinion, em procissão com muita pompa.  

No dia seguinte, chamado ogyrmos (reunião), todos se reuniam sob um pórtico de Atenas e o arconte-rei, numa oração, conclamava a que se afastassem dali todos aqueles que, por qualquer razão, estavam impuros, manchados por um crime qualquer, ou marcados pela atimia (privação dos direitos de cidadania), Depois, iam todos
ASCLÉPIO
ao mar para outra purificação, sacrificando-se em seguida uma leitoa ainda em fase de aleitamento (khoiros, nome também do órgão genital feminino). Nos dois dias seguintes realizavam-se as festas em honra a Asclépio, dentro do calendário eleusino. No dia 19 de setembro, à noite, tinha lugar a grande procissão noturna que levava os hiera de volta a Elêusis, tudo sob a tutela de Dioniso, o deus das metamorfoses. A saída de Atenas se dava pelo cemitério da cidade, chamado 
Cerâmico (bairro onde viviam e trabalhavam oleiros, ceramistas etc.). 


CERÂMICO

Pela região de Agra, fora dos limites de Atenas, território pequeno, mas muito rico (plantações de trigo e centeio), seguindo a Via Sacra, atingia-se ao cair da noite, depois de muitas paradas, com danças e sacrifícios, o território sagrado eleusino, atravessando-se a ponte do rio Cefiso, que separava o profano do sagrado. Essa travessia era marcada por gritos e expressões chamadas geferismos (gephyra, ponte) que incitavam os mystai a atravessar o rio Cefiso, que, como se disse, separava o mundo profano do mundo sagrado, o do santuário.  

As cerimônias que se realizavam estão constituíam a primeira fase dos Grandes Mistérios, a chamada teleté (tele, em grego, é longe; uma referência aos que tinham feito a viagem). Era o primeiro grau da iniciação. Sob a tutela de Dioniso, esta fase se compunha de uma orgia (cantos, danças e bebida, o kykeon), através da qual se atingia um êxtase (sair de si) e se chegava finalmente ao entusiasmo (deus em nós).

Os depoimentos sobre estas experiências afirmam unanimemente que elas lembravam o caminho titubeante das almas nas trevas, presas de inúmeros terrores. Subitamente, porém, como que atingidas por uma intensa luz as almas se sentiam livres, passando a descortinar paisagens maravilhosas, campos férteis. Essas concepções têm forte conotação órfica ou egípcia, segundo seus costumes funerários, conforme Platão notou. 

PERSÉFONE
A segunda fase dos Grandes Mistérios, realizada no interior do templo (Telesterion), tinha o nome de epopteia (a grande visão). Lá, na obscuridade, representava-se uma pequena encenação teatral, a procura de Koré por Deméter e o retorno da primeira à luz, uma simulação dos desencontros da alma e o seu retorno. Aparecia na encenação, segundo depoimentos, uma enorme figura feminina (Perséfone), com ramos de trigo nas mãos, e carregando num dos braços uma criança, Brimo, o puer aeternus, a vida que sempre renascia, mas sempre de outro modo. Nestes espetáculo os sacerdotes conclamavam os mystai a se abrirem para uma outra forma de vida pois “agora eles haviam visto”, isto é, haviam se tornado epoptes.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

TOURO (2)

           
ZEUS  E  IO
( F. MASON , 1875-1965 )
Os gregos têm uma outra história ligada à segunda constelação do Zodíaco. Ela nos fala de Io, um dos amores de Zeus, uma belíssima princesa argiva. Valendo-se dos préstimos de Oniro, deus do sonho enganador, um dos filhos de Hypnos, deus do sono, Zeus conseguiu fazer com que ela fosse transportada para Lerna, onde conseguiu manter relações carnais com a jovem. Io contara inclusive ao pai o episódio do “rapto” de Oniro e o seu “transporte” para Lerna, onde fora possuída pelo Senhor do Olimpo. Nesse meio tempo, Hera, desconfiada de mais essa aventura do marido, preparou-se para destruir a jovem princesa. Zeus agiu rapidamente, transformando a jovem numa novilha, mantendo-a por perto. Hera, vendo o belíssimo animal, exigiu de Zeus que ele lhe fosse entregue, o que aconteceu. Hera colocou-o sob a vigilância do dragão Argos, o de Cem-Olhos. Zeus, porém, insaciável, tomando a forma de um touro, visitava-a regularmente. 


HERA ,  IO  , ZEUS


Um dia, Zeus resolveu libertar Io-novilha do dragão, pedindo a Hermes que tomasse as devidas providências para tanto. Hermes convocou Hypnos, o deus do sono, que, adormecendo o monstro, lhe deu possibilidades de matá-lo, decepando-lhe a cabeça, sem problemas. Tomando conhecimento da morte do vigilante dragão, Hera, no sentido de homenageá-lo, lançou os seus cem olhos na cauda de uma ave até então sem nome. Desde então essa ave, denominada pavão, passou a ser um dos símbolos da Senhora do Olimpo. 


IO ,  ARGOS ,  HERMES ( G.A. RUSCONI , 1553 )

Desde que se tornou atributo de Hera, o pavão, ao dormir, só fechava cinquenta dos olhos de sua cauda. Tornou-se, na antiguidade mediterrânea, a ave-símbolo do esplendor celeste e da
PAVÃO
glória divina, evocando a multiplicidade da criação. Sempre relacionado com as serpentes, o pavão, segundo a tradição grega, não só absorve o veneno delas como as destrói. Sempre em função da sua cauda e de sua magnífica plumagem, o pavão, restrito como símbolo ao plano humano, passou a representar o narcisismo,  o amor pela própria imagem, o orgulho, a vaidade, um sentimento de beleza que costuma levar ao isolamento. 






Continuando a dar vazão aos seus ciúmes, Hera enviou então um gigantesco moscardo para enlouquecer Io-novilha com as suas dolorosas e ininterruptas ferroadas. Desesperada, ela fugiu, atravessando a nado um estreito que separa a Europa da Ásia. Por essa razão, tal acidente geográfico passou a ser chamado, desde então, de estreito de Bósforo, literalmente, do grego, a passagem da
ISIS
vaca). Depois de vagar por toda a Ásia, Io-novilha chegou finalmente ao Egito, onde, depois de tanto sofrimento, retomou a sua belíssima forma humana, que permaneceu intacta. Lá, deu à luz um filho, de nome Épafo, que se unirá, mais tarde, a Mênfis, filha do deus-rio Nilo. Dessa união nascerão Líbia, Lisianassa e Tebe. Io será adorada no Egito como a deusa Ísis, tendo por emblema a Lua crescente.

A história que está acima, ao atribuir a ísis, Grande-Mãe egípcia, uma origem grega explica-se obviamente pelas tendências imperialistas que os gregos sempre demonstraram com relação à sua civilização, tanto sob o ponto de vista econômico como religioso. Fatores como a pobreza do solo, dificuldades na obtenção de alimentos e domínio total das terras pelos aristocratas, fez com que os gregos, desde períodos muitos remotos, se aventurassem num grande movimento migratório, patrocinado por uma política imperialista,  na direção  do mar Negro e do Mediterrâneo. Ao buscar terras cultiváveis, fundaram cidades, colônias, sendo um item importante dessa política o religioso. Em muitos casos, a colônia grega (apoikia), lembres-se, era um estabelecimento autônomo somente unido à metrópole laços religiosos. Embora o Egito só tivesse se tornado de fato uma colônia grega com a sua anexação (e de outros países como a Pérsia e parte da Índia) ao império greco-macedônico no século IV aC,  as civilizações grega e

egípcia, esta muito mais antiga que a outra, sempre haviam mantido contactos. O texto homérico, A Odisseia (sécs. IX-VIII aC), é um exemplo do que aqui se expõe. Esta "interferência" grega na mitologia de outros países, neste caso do mito de Io-novilha, se completa com a transformação de seu filho Épafo, pelo seu casamento com Mênfis, como está acima, num ancestral do povo líbio, país vizinho do Egito.    


Segundo algumas versões gregas, Zeus colocará nos céus, como a constelação de Touro, a forma taurina que tomou quando de sua ligação com Io. Ísis, como sabemos, será adorada como deusa suprema e universal, mãe da natureza e de todos os elementos, espalhando-se o seu culto, a partir do Egito, por todo o mundo do Mediterrâneo e da Ásia Menor.

Os gregos associavam também o signo de Touro ao deus Dioniso, na medida em que este animal (o bode também) representava as forças incontidas da fecundidade. Por isso, ambos os animais eram as vítimas propiciatórias que apareciam no seu culto. Deus da vegetação, da vinha, da exuberância da vida animal, Dioniso era, por excelência, o renovador da vida, o deus das metamorfoses. 

Por ter retirado sua mãe do Hades, Dioniso era considerado uma divindade libertadora do mundo infernal, um deus ctônico, portanto, que simbolizava a alternância da vida e da morte (ressurreição). O culto de Dioniso,  significa, no fundo, uma das mais profundas e significativas tentativas do homem grego e exemplarmente para a humanidade em geral, no sentido de destruir as prisões materiais e psicológicas nas quais ele (ela) mesmo se encerra. Neste
MISTÉRIOS  DE  ELÊUSIS
sentido é que o culto de Dioniso (Mistérios de Elêusis) significa, para homem, um esforço de espiritualização pela liberação das energias que deverão se alinhar com seu eu superior e não mais se colocarem a serviço  exclusivo de sua vida material. Por isso, em seu culto, um dos animais do sacrifício era o touro, como símbolo da vida material. 

Lembremos que o signo de Touro tem relação com tudo o que é massa, peso, espessura, estabilidade, força, resistência, calma,
DIONISO
reações fortes, tempestades instintivas. “Sacrificar o touro” significa buscar uma vida mais espiritual no sentido de ser obtido o triunfo sobre as paixões materiais, sobre a sensualidade incontida. O culto de Dioniso propõe, assim, um empenho no sentido de uma conquista da besta interior (vida instintiva) que há em todo ser humano. Astrologicamente, por isso, o signo está ligado à plenitude da sensorialidade terrestre alimentada por uma grande capacidade de trabalho, por um espírito prático e realista e por uma vontade de possuir e de acumular que costuma ser superlativa. 

Dioniso se afirma como um deus infernal ao prometer o renascimento. As suas festas, como as de Osíris no Egito e as de Shiva na Índia, são muito semelhantes. O mito de Orfeu nos fala
DIONISO
desta semelhança ao se referir à viagem que ele teria feito à terra das pirâmides para de lá trazer ritos que falam da dissolução da personalidade, da sua regressão a formas caóticas e primordiais. A liberação dionisíaca pode ser evolutiva ou involutiva, espiritualizante ou materializante. Outra não é a ideia que nos traz a bebida “inventada” pelo deus, o vinho, a bebida da imortalidade, que pode levar ao inferno também.



PERSÉFONE   E   ZAGREU

A melhor compreensão da multifacetada personalidade de Dioniso e consequentemente do signo de Touro só ficará mais completa se atentarmos para o que o mito nos revela sobre o seu nascimento. Dioniso nasceu como Zagreu (o Grande Caçador, etimologicamente), filho de Zeus e de Perséfone, nome pelo qual era muito reverenciado em Creta, muito difundido o seu culto. A intenção de Zeus era a de preparar este filho para sucedê-lo como divindade universal. As Moiras, porém, ao que parece pela primeira e única vez, contrariaram os desígnios do Senhor do Universo, apesar das providências que ele tomou para protegê-lo da sanha persecutória da sua imperial esposa, a deusa Hera. Embora protegido por Apolo e pelos Curetes, o menino-deus foi localizado pelos Titãs nas florestas do Parnaso, raptado e despedaçado. Antes que se consumasse o diasparagmos pelos Titãs, Zagreu, para tentar escapar dos seus algozes, tomou várias formas. A última foi a de touro, uma das formas que desde então o representará. 


INFÂNCIA   DE   DIONISO

O mito prossegue: os pedaços de Zagreu foram cozinhados num enorme caldeirão e depois devorados pelos Titãs. Zeus fulminará os assassinos de seu filho, transformando-os em pó. Desta poeira, ou melhor, destas cinzas misturadas à terra, nascerão os humanos (os nascidos do húmus). É por esta razão que os seres humanos terão uma parte humana, a maior, o seu lado material, o do Mal, e uma pequena parcela divina, o seu lado do Bem (os restos de Zagreu). Diz o mito que antes de todos os pedaços de Zagreu-Touro terem ido para o caldeirão a deusa Palas Atena conseguiu recuperar o seu coração, levando-o para Zeus. É desse coração que nascerá o segundo Zagreu, com o nome de Dioniso, aquele “que nasceu duas vezes”, também chamado de Ditirambo, “o que passou duas vezes pela porta.”

Esta forma taurina de Dioniso faz parte, desde então, de manifestações que encontramos em mitos, religiões e no folclore, em várias tradições. No Brasil, por exemplo, do sul ao norte, as histórias sobre o boi, principalmente no norte e no nordeste,
BUMBA - MEU - BOI

estão inseridas no seu contexto cultural como tema fundamental de folguedos, canções, literatura de cordel e tantas outras celebrações com diferentes nomes: Boi-Bumbá, Bumba-meu-Boi, Boi-de-Reis, Reisado, Boi-de-Mamão, Boi-Calemba, Surubim e muitas outras. Vários ritos, festas e cerimônias de caráter popular que encontramos ainda hoje em muitas culturas, lembremos, não são mais que reminiscências do touro como animal totêmico e de suas relações com os cultos dionisíacos. Cito, por exemplo, a Farra do Boi que veio do mundo mediterrâneo para o Brasil através dos imigrantes ibéricos, “diversão” ou “comemoração”, que repete o assassinato de Zagreu. 

TOURADA
Dentre todas reminiscências a que nos referimos avulta sobre todas a da tourada, o El Toreo dos espanhóis. Em nome de uma verborragia “heroico-estética” e do culto da virilidade, temos, na realidade, com as touradas, em que pese o seu “charme”, nada mais que carnificina, crueldade e hipocrisia. O toureiro, transformado em herói, figura na qual o público se projeta, mata a besta exterior para que sua besta interior (as paixões escravizadoras de cada um) permaneça intacta. O mal é então levado pelo touro sacrificado; seu sangue é interpretado como uma purificação. Esta tradição, a da vítima sacrificial, nós a encontramos em todas as tradições (no Levítico, por exemplo). Ela tipifica uma tendência universal, inerente à condição humana, a do homem projetar a sua própria culpa sobre outrem a fim de apaziguar a sua consciência, que sempre tem necessidade de um responsável, de uma punição, de uma vítima.  

No simbolismo chinês, o signo de Touro tem relação com o hexagrama Kuen, o receptivo, terra sobre terra, composto por seis traços descontínuos, femininos (os traços masculinos são contínuos). A imagem deste hexagrama lembra a terra voltada para o céu, a mãe e o pai em relação, o tempo se abrindo para o espaço. O simbolismo aqui envolvido sugere também que a força (masculino) deve reconhecer a superioridade da nutrição (feminino), pois ela, a força, sem a nutrição não é nada. Assim, ambos se encontram indissoluvelmente ligados. Depreende-se desta ligação a importância que tem a nutrição (Touro) para que a força seja conquistada e mantida. Este entendimento está expresso, por exemplo, nos Vedas (livros sagrados dos hindus), em hinos, neles se falando que o Touro deve enlaçar o Fogo (Áries, Mesha) para que seja possível a construção humana, que deverá manter uma analogia perfeita com a construção divina do Cosmos. 

Entre os judeus, Touro é Iyar, formado pela letra Vav. O órgão humano que no simbolismo cósmico corresponde a este signo é o rim direito, que, segundo o Talmud, é a fonte de bons pensamentos.
TORÁ
A tribo com ele relacionada é a de Issakar, a que se dedica ao estudo da Torá. Issakar, no Gênesis, é chamado de “asno forte, bom para o trabalho penoso.” Noutra passagem (Reis, cap. I), o mês do signo é chamado de Ziv, brilhante, devido ao aumento do poder solar, que nele se torna mais intenso, ou seja, no mês de maio, o auge da primavera. A mesma ideia de luz, de brilho, é encontrada na designação Ohr, usada pelos babilônicos.   

A tribo de Issakar, que trabalhava arduamente com a Torá, era a detentora do conhecimento que conciliava os calendários solar e lunar e que estabelecia o início de cada mês lunar. Lembremos que o calendário judaico é lunar e o ano, por isso, pode conter doze ou treze meses lunares, começando cada um deles com a Lua nova. Segundo a tradição judaica, quando da criação do mundo, os luminares eram iguais em luz, mas como não poderia haver essa igualdade, a luz da Lua foi diminuída. A Lua simboliza o povo de Israel, cuja sorte oscila como ela. A luz da Lua voltará a se igualar à do Sol no final dos tempos, quando da vinda do Messias. Por isso, eclipses lunares são aziagos para os judeus, pois quando a Lua míngua as forças do mal crescem. Dormir à lua da Lua é sempre perigoso por causa da ação de forças demoníacas femininas, diz a tradição judaica.



JUDEUS  APANHAM  MANÁ  NO  DESERTO  ( ÉVORA )

O signo de Iyar está relacionado, num primeiro momento, com o temor. A palavra temor em hebraico tem as mesmas letras do signo. O temor de Deus deve nascer logo neste signo porque ele é um pré-requisito para o recebimento da Torá, como nela se estabelece: O temor dos céus é o começo da sabedoria. Astrólogos judeus dizem também que o mês do signo é auspicioso para curas já que a
MOISÉS ( P. CHAMPAIGNE )
primeira causa das doenças está no consumo de alimentos impróprios e depois numa digestão e assimilação deficientes. Foi durante este mês, no seu décimo quinto dia, numa Lua cheia, que os judeus, vagando pelo deserto com Moisés, começaram a comer o maná, o “pão dos céus”, chamado de o “alimento dos anjos”. O maná é uma espécie de orvalho que alimentou os judeus durante o êxodo. O maná foi produzido ao crepúsculo do sexto dia da Criação e é o alimento dos justos e dos anjos do céu. Era totalmente assimilado pelo corpo, não deixando resíduos que tivessem que passar pelo sistema digestivo, tendo o sabor que as pessoas quisessem. 

A astrologia judaica nos diz que o elemento de Iyar é a terra, significando isto que o elemento do signo anterior, fogo, entendido espiritualmente, deve no signo que lhe segue procurar um foco, uma objetivação, algo tangível. Negativamente, as energias de Iyar se manifestam na esfera do desejo, quando os judeus, no deserto, reclamaram a Moisés a falta de carne para comer. Foi durante este mês que os judeus, no deserto (Sinai), manifestaram também fortes desejos de conforto e relaxamento. Lembram os judeus que o elemento terra é, energeticamente, o de menor vibração. Este comportamento, manifestado no Sinai, dizem os astrólogos, tem relação direta com a natureza teimosa e rebelde do touro. 

Em oposição aos signos de Nissan e de Iyar estão os de Tishrei (Libra) e Heshvan (Escorpião), que caracterizam as tribos de outros dois irmãos, Manassé e Efraim. A tribo de Heshvan tem relação com o olfato, entendido, simbolicamente, como discernimento intuitivo. O episódio que deu origem à interpretação do olfato desta maneira está no episódio bíblico que tem como personagens José, o pai dos dois mencionados irmãos, e da mulher de Putifar. 



JOSÉ  E  A  MULHER  DE  PUTIFAR ( J.B. NATTIER )

José é filho do patriarca Jacó e de sua esposa preferida, Raquel. É o modelo do homem justo e probo (tsadik), que é protegido do mal por Deus e cujos descendentes não são afetados pelo mau-olhado. Dez de seus irmãos tramaram matá-lo, jogando-o num poço cheio de serpentes e de escorpiões. Conseguiu escapar e acabou sendo vendido como escravo a Putifar, oficial egípcio. Lá, conseguiu resistir bravamente ao assédio da mulher de Putifar, Zuleika, porque o pai lhe apareceu em sonhos e salvou-o da tentação. Desde então, todos os membros da tribo de Hashvan adquiriram esse discernimento que pode ser usado não só em questões de sexo mas em todas as outras da vida material. Esse discernimento se traduz pela pureza das intenções, de pensamentos e sobretudo pelo temor divino. Na Bíblia, em muitas passagens, o sentido do olfato aparece sempre associado à santidade, à pureza e ao discernimento. O nariz, como o olho, é um símbolo de clarividência e da perspicácia, mais intuitivamente que racionalmente. 

Entre os judeus, José é o sexto dos seus sete pastores (Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Aaron, José e David). Estes sete pastores correspondem aos sete atributos: graça, poder, beleza, vitória, glória, fundação e realeza. O nome de José está ligado entre os judeus a ideias de fecundidade e beleza. Etimologicamente, José (Joseph), significa juntar (yasoph) e reunir e apagar (asoph). Raquel, a mãe de José, diz Deus apagou a minha vergonha, ao dar à luz, depois de estéril por muito tempo. O “ph”, ao final de José, indica um vivo movimento de libertação (oph quer dizer voar) e soph traduz uma ideia de limite, de fim de uma realização. 



JOSÉ  INTERPRETA  SONHO  DE  FARAÓ ( A. VAN  BLOCKLANDT ) 

José, por seus méritos de oniromante, demonstrados na prisão, foi chamado à presença do faraó. Interpretou para ele um sonho que ele tivera e que ninguém explicava: ele sonhara com sete vacas gordas, com sete vacas magras, com sete espigas de trigo cheias e com sete espigas de trigo secas, queimadas pelo vento. José explicou ao faraó as suas visões: sete anos de grande abundância viriam para o Egito; a eles seguir-se-iam sete anos de fome. José propôs ao faraó a administração do problema do seguinte modo: conservar os níveis dos silos reais de modo que quando chegasse o tempo das “vacas magras” ou das “espigas secas”, eles estivessem cheios para que o povo não passasse fome. 

Satisfeito com a resposta, o faraó nomeou José como vizir, dando-lhe o nome de Safenath-Peneah (Deus disse:ele viverá). Aos 30 anos, recebeu como esposa Asenath, que lhe deu dois filhos, Menassé (Aquele que esquece) e Efraim (O fecundo). Durante os sete anos de abundância ele poupou o trigo de tal modo (sem que o povo passasse fome) que, no período das “vacas magras” o Egito era o único país do mundo de então a não ter problemas com a escassez de alimentos. Muita gente, por isso, se dirigiu ao Egito em busca do trigo. José então abriu entrepostos para a venda do trigo excedente, ganhando o país muito dinheiro. Iniciadas as vendas, dentre os primeiros a buscar o alimento, estavam os seus irmãos (que o haviam aprisionado no poço e depois vendido como escravo), vindos do país de Canaã. José não revelou quem era e os irmãos pagaram com muito sacrifício pelo alimento. Retornando, os irmãos encontraram o dinheiro que haviam gasto, devolvido secretamente por José. 

Numa segunda visita ao Egito, os irmãos de José foram denunciados por um roubo que não haviam cometido. José mandou chamá-los e revelando-se lhes pediu que fossem buscar Jacó, o pai
JACÓ  LUTA  COM  ANJO
( REMBRANDT )
de todos, e com ele viessem a se instalar no Egito, em Goshen, a leste do vale do Nilo (Gênese, 45, 1). Jacó, ao receber a notícia, gritou: Meu filho José ainda vive; quero partir e vê-lo antes de morrer. Antes de morrer, Jacó perfilhou seus netos, os filhos de José (Menassé e Efraim), e os abençoou. José morreu com 110 anos, depois de ter obtido dos irmãos, ao morrer, a promessa de que seus ossos seriam levados com eles para onde fossem. Tal aconteceu efetivamente, encarregando-se Moisés de fazê-lo. A conclusão da história de José, segundo a Bíblia é a de que Deus, algumas vezes, transforma as piores ações em boas ações (Gênese, 45. 5-8).