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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

LIBRA (2)

                                                 
AFRODITE  DE  CNIDOS
Para contrabalançar as forças eróticas presentes no universo, os gregos criaram uma deusa, Afrodite, colocando sob sua tutela o prazer, o amor, a beleza, a sexualidade e a sensualidade das mulheres, levando-as a se envolver com funções criativas e procriativas. No mito, Afrodite nasceu no mar, em meio a espumas (aphros, em grego, espuma). Essa imagem de Afrodite, adulta, nua, lindíssima, nascida das águas, será representada por muitos artistas. A deusa, pelo seu nascimento, define que o princípio da vida afetiva e, consequentemente, da vida amorosa estará para sempre ligado ao elemento líquido. Ou seja, amor é umidade. Os secos, os quentes e os frios têm muita dificuldade com relação à vida afetiva, ao amor, que fala de reciprocidade, de permeações e de fusões. Afrodite passou por Chipre, a ilha do cobre, definindo-se a partir de então como “boa condutora de eletricidade”, isto é, constituindo a polaridade passiva, feminina, por oposição à polaridade masculina, ativa. Ou seja, o princípio da água atenuando o princípio do fogo, Afrodite e Eros. 




Deusa de sedutora beleza (enkrateia, sedução), Afrodite era honrada em inúmeros santuários em todo o mundo mediterrâneo e da Asia Menor. A deusa surge no mundo grego para colocar as relações afetivas numa perspectiva de reciprocidade. Ela passa a simbolizar as forças irrefreáveis da fecundidade, não com relação aos frutos, mas com relação ao desejo apaixonado compartilhado. 

A deusa é tanto o amor sob a forma física como o prazer dos sentidos cabendo-lhe o poder da transformação dos seres que nesses processos se envolvem. É neste sentido uma deusa alquímica, consumando relacionamentos, gerando formas novas de existência. Ela é também o impulso que vai além do sexual, apresentando um ímpeto tanto psicológico como espiritual que nos fala de comunicação e de comunhão. Qualquer pessoa que já tenha se apaixonado por alguém, por um lugar, por uma ideia, por um objeto artístico está lidando com os poderes da deusa. A consciência de Afrodite está presente também em todo trabalho criativo, mesmo aquele feito solitariamente. É a deusa das interações, podendo transformar uma simples conversa numa “obra de arte”. Com a deusa atuando em nós, também podemos nos tornar mais espontâneos, como numa improvisação musical. Onde quer que apareça a consciência de Afrodite, os parceiros irradiam bem-estar, energia intensificada, a conversa fica mais  espirituosa, estimulando-se os pensamentos e sentimentos. 

AFRODITE   CALIPÍGEA
A deusa tem vários nomes, apelidos, Calipígea, Trívia, Urânia, Pandêmia, Citereia, Cípris etc. Toda pessoa que se envolve num processo afetivo, de trocas, a deusa a transforma num ser especial, quase “divino”, como diziam os antigos gregos. Quando Afrodite se apossa da personalidade de uma mulher, ela se abre para o mundo, para os outros, socializando-se também. Ela aumenta o magnetismo pessoal. Quando por razões culturais e religiosas a mulher é rebaixada, satanizada, Afrodite se “ausenta”. O arquétipo pode pôr uma mulher (dependendo do meio) inclusive em divergência com os padrões de moralidade nele vigentes. Por isso, as mulheres “Afrodite” podem ser marginalizadas, consideradas como perigosas, quando não como raptoras do masculino, como acontece com as religiões patriarcais.

Afrodite era muito mal vista em Atenas, a cidade de Palas Athena, deusa virgem, das acrópoles. Nos meios populares da cidade,

Afrodite era muitas vezes chamada de “A Prostituta”. Por causa de sua personalidade, fortemente marcada por traços orientais, sobretudo de Ishtar e de Astarte, aquela mesopotâmica e esta fenícia, Afrodite, para os padrões gregos, era considerada como uma bárbara. Tudo isto transparece, por exemplo, de modo muito claro, na tragédia Medeia, de Eurípedes, nas falas de Jasão, quando ele, num ataque xenófobo, comunicou à princesa da Cólquida que estava se separando dela, uma “bárbara”, para se casar com a filha do rei Creonte.


Quando duas pessoas se apaixonam, a deusa cria um campo de energia fantástico, intensificado. Ambas sentem-se mais bonitas, as impressões sensoriais se ampliam, a música se transforma em
PITAGÓRICOS
linguagem privilegiada, os odores ficam mais penetrantes, o tato passa a ser um dos sentidos mais importantes. Cultivar Afrodite é criar interesses pela arte, pela música, pela poesia, pela dança. É gostar do próprio corpo, cuidar dele, sem exageros, uma decoração corporal contida, harmoniosa. É por essa razão que Afrodite é a deusa da vida cosmética, palavra grega que vem de kosmos, esta significando ordem, o universo como ordem. Os pitagóricos foram os primeiros a usar esta palavra com este sentido porque o universo poderia ser reduzido a proporções matemáticas, devidamente ajustadas. Uma pessoa cosmética seria, pois, aquela que saberia encontrar o seu lugar de forma harmoniosa na ordem cósmica, como os astros souberam fazer. Por extensão, encontrar uma ordem justa na sociedade, sempre um reflexo da ordem cósmica. Para isto, ainda segundo os pitagóricos, deveria ser usada a katharsis, a purificação da alma, palavra que tinha entre eles fortes analogias com a música , a base da virtude maior, a sophrosyne (autodomínio, moderação). 


As mulheres que assumem o arquétipo de que tratamos podem enfrentar muitas dificuldades com outras mulheres, presas a outros
HERA
arquétipos, especialmente as mulheres do tipo Hera. No geral, as mulheres Afrodite têm a capacidade de ver sempre a beleza e de se ligar criativamente a alguma coisa, a alguma atividade, mesmo na velhice. Crescem com grande vitalidade e graça. Na velhice, estão de bem com a vida, são sábias, não vivem se queixando nem são rabugentas. Interessam-se pelos outros, ligam-se ao mundo, interessadas sempre pelo que vem à frente. No geral, a mulher identificada com a deusa é mais extrovertida, sua atenção é sempre sedutora, ainda que muitas vezes possa ser mal interpretada. 



ACROCORINTO

A negação de Afrodite está nos meios repressores que condenam a sexualidade e a sensualidade, que negam o corpo, que criam situações de culpa e de conflito, de ansiedade e depressão, diante do apelo da vida. Por isso, as mulheres Afrodite tendem a viver o presente. A cidade de Afrodite era Corinto, a Opulenta, uma cidade
EPÍSTOLA   AOS   CORÍNTIOS
rica, alegre, de muitas festas. Nas alturas da cidade, na Acrocorinto, a quase oitocentos metros de altura, encontrava-se um famoso templo no qual viviam as hierodulas, as prostitutas sagradas, sacerdotisas da deusa. Foi nessa cidade que o apóstolo Paulo, na era cristã, deu vazão a toda a sua misoginia, escrevendo a Epístola aos Coríntios.


No período clássico da história grega, Corinto era considerada a terceira cidade, depois de Atenas e Esparta. Tinha uma formidável acrópole e uma situação geográfica privilegiada, abrindo-se simultaneamente para a Ásia e para a Europa ocidental, o que parecia justificar seu grande progresso material. Miticamente, histórias nos contam que Corinto foi fundada por Foroneu, filho do deus-rio Ínaco e da ninfa Mélia, e que suas muralhas teriam levantadas por Sísifo, o mais inescrupuloso e inteligente dos mortais. 




Quando abordamos os mitos gregos ou não de modo mais aprofundado,  sabendo ir de modo mais percuciente às suas fontes mais responsáveis e sérias, podemos entender, como tantas vezes já mencionado neste blog, o quanto eles nos permitem entrar no conhecimento do nosso próprio padrão arquetípico. Esse conhecimento nos ajuda a compreender qual é a nossa natureza divina. Quanto às mulheres, imprescindível o conhecimento do culto e dos rituais de Afrodite, o arquétipo que ela representa, que sempre as ajudará, certamente, a “viver” um pouco melhor, a se libertar, principalmente nas sociedades fortemente marcadas por valores patriarcais, da culpa por querem ser o que realmente são e não podem. Isto, no mínimo, as ajudará a se tornarem mais conscientes, fazendo-as cuidar de seus interesses, reconhecidos de modo mais claro os seus limites e os dos outros. 

AFRODITE
Como doadora da graça social, Afrodite se alinha naturalmente com os que lutam a favor da vida, procurando combater não só aqueles que se aniquilam entre si, que promovem guerras estúpidas sob justificativas religiosas (econômicas sempre, no fundo) como os que dizimam os recursos naturais de nossa mãe Terra. Neste sentido, a proposta maior da deusa está certamente no convite que ela nos faz, muitas vezes não muito bem compreendido, no sentido de que saibamos evitar que as tendências destrutivas que estão à solta no mundo acabem, inconscientemente, se voltando contra nós mesmos. Com isto saberemos inclusive evitar as idiotas propostas de políticos, economistas e empresários que, em escala mundial, nos propõem um crescimento contínuo de nossos índices econômicos. 

Não é preciso ser filósofo, psicólogo, médico, advogado ou sacerdote para perceber que o ser humano, ainda que dizendo amar a vida, vem atualmente se matando a si mesmo como nunca aconteceu antes. E o que é pior, pois, como constatamos, a maneira de morrer escolhida pelo próprio ser humano é hoje muito rápida, tão rápida que muitos que já morreram para a vida continuam sobrevivendo por muito, muito tempo, em dolorosos estágios de vida vegetativa, doentes ou não. Vemos isso diariamente diante dos nossos olhos, muitas vezes dentro de nossas casas. Os métodos que as pessoas escolhem para se matar são inúmeros e não devem interessar só a especialistas, já que o ser humano tem que ser considerado como uma totalidade. 


THANATOS   E   EROS  ( 1911 ,  GUSTAV   KLIMT )

Vida é conflito, sabemos, luta. Amor e ódio, produção e consumo, criação e destruição, anabolismo e catabolismo, uma guerra entre tendências opostas que se confunde com a própria dinâmica do universo. As tendências que lutam a favor da vida ou contra a vida não podem ser representadas só por Eros e por Thanatos, como defendeu Freud. É certo que o ser humano carrega dentro de si estas divindades. É certo que Thanatos sempre acabará por se impor, pois somos seres datados. Nossa vida é um hífen entre duas datas. Cabe-nos, na medida do possível, colaborar ao máximo para que as forças eróticas e tanáticas em operação no universo sejam atenuadas pelos valores que Afrodite representa. Isto nos ajudará não só a controlar melhor tanto as forças eróticas como as tanáticas soltas no universo, patrocinadas e incentivadas, como se sabe, pelo grande capital, criador do nefasto sistema de mercado, e pela indústria armamentista nas suas diversas expressões. 

Há, contudo, uma enorme quantidade de seres humanos, nas mais diversas latitudes e longitudes da Terra que desde muito cedo, nas várias camadas sociais, mais altas ou mais baixas, seres inclusive mal entrados na vida, que por razões diversas colaboram com as forças tanáticas. Esse instinto de autodestruição aparece sob diversas formas, muitas toleradas ou mesmo aceitas socialmente. Não falamos aqui do desejo consciente de morrer, mas do desejo inconsciente de morrer. Como formas crônicas inconscientes de autodestruição podemos apontar, por exemplo, muitas inclinações masoquistas de comportamento (submissão à punição) por causa de um sentimento de culpa, criado no mais das vezes desnecessariamente.


CASAMENTO  CAMPONÊS ( PIETER  BRUEGEL, O VELHO, 1525 - 1569 )

Em muitas das chamadas tendências religiosas ou espirituais encontramos também fortes tendências autodestrutivas, tanto no caso de ascetas, de jejuadores (casos de autoflagelação, de martírio etc) como no de pessoas que, temendo a vida, se refugiam em organizações religiosas, seitas etc. Há inclusive, noutras áreas, formas muito disfarçadas de autodestruição. Dentre as muitas, destacamos a curtição gastronômica (a peregrinação pelos restaurantes; o caso de pessoas que se matam pela comida para compensar falta de amor ou de segurança), pelos esportes radicais, pela autoimolação por razões familiares (alguém que abre mão de tudo por problemas de família), pela droga e pelo álcool socialmente consumidos, pela deterioração crescente da qualidade de vida pelo uso inadequado da tecnologia, pela simulação de doenças ou ferimentos etc. 

A automutilação estética é, sem dúvida, uma das formas mais insidiosas de autodestruição inconsciente. Nesta área, podemos exemplificar com as tendências anoréxicas ou com as operações cirúrgicas. Ou seja, embora não nos mutilemos a nós próprios, entregamo-nos a algum cirurgião para que ele o faça (caso de pessoas que não podem passar sem uma ou mais operações plásticas anuais). Ainda nesta área, principalmente no mundo feminino, podemos mencionar o desejo inconsciente que as pessoas têm de se autodestruir quando aderem à moda das roupas, da maquiagem ou da decoração corporal sem perceber o quanto se destroem, ao invés de lutar pela conquista de uma individualidade. No fundo, seguir a moda (puro consumismo) não passa de um desejo de ser como todo mundo, rico ou pobre, isto é, um desejo de não ser nada, ninguém. 

HORÁCIO
Para finalizar, quando pensamos em Afrodite, nada melhor do que lembrar as máximas Carpe Diem, de Horácio (gozemos o momento favorável, aproveitemos com moderação tudo o que se apresente de positivo, mesmo que pouco e transitório) e Utere temporibus (aproveitemos o momento feliz), de Ovídio. Trazendo estas máximas, em nome de Eros
OVÍDIO
e de Afrodite, para o centro de nossas vidas, estaremos, sem dúvida, controlando melhor as forças tanáticas que um dia acabarão por se impor . Viveremos certamente um pouco melhor, pois, afinal, os poetas (os bons, é claro) serão sempre os nossos melhores conselheiros. 





domingo, 8 de janeiro de 2017

ERIDANUS, HYDRA




ERIDANUS é a maior constelação do céu, abrangendo um espaço enorme que vai de Cetus, A Baleia, passa por Orion e finalmente alcança as proximidades do polo Sul, mais ou menos na latitude de 60º. Em muitas culturas, pela sua importância, pela sua dimensão, pelo seu papel histórico, social e econômico, os rios adquirem um significado nacional ou mesmo transnacional. Muitos se confundem com o próprio desenvolvimento das sociedades onde os encontramos. Os nomes são sugestivos,  Ganges, Tigre, Eufrates, Nilo, Ebro, Reno, Tibre, Tejo, Sena, Pó, Amarelo, Mississipi, Yamuna,  Arno, Volga são exemplos significativos, grande parte deles formando o berço de muitas civilizações.

Os rios nunca foram considerados só como uma corrente de água estática. Seu fluxo,  suas enchentes e estiagens apontam para uma dinâmica que se confunde com a própria vida. Desde que o homem está na terra, os rios sempre foram usados como símbolos em mitos e religiões. A divisão entre
RIOS   DO   HADES
o mundo dos mortais e o Outro Lado é marcada normalmente por rios. A antiga tradição judaica divide a terra que envolve o paraíso em quatro quadrantes sinalizada esta divisão por quatro rios: Pison (Indus ?), Gihon (Ganges ?), Hiddekel (Tigris) e Euphrates. O Hades grego tem cinco rios: Aqueronte, Piriflegetonte, Estige, Cocito e Lethe. 


OCEANO
FONTANA    DI   TREVI
A primeira ideia de rio que aparece na Mitologia grega é a de Oceano (rodear, circular, em grego), um imenso rio-serpente que cercava a terra, estendendo-se de norte a sul e de leste a oeste, demarcando as fronteiras do globo terrestre. Além dele, o Outro Lado, que começava pelo país dos cimérios, que ficava no extremo ocidente. Oceano era o mais velho dos titãs, filho de Urano e de Geia; unindo-se a Tétis (simbolo da fertilidade das águas), gerou mais de três mil rios, nascentes, lagos e as ninfas oceânidas.

Os antigos gregos sacrificavam touros, cavalos e carneiros para honrar os rios, devidamente divinizados, participando eles de muitos mitos, rios como o Aqueronte, o Aqueloo, o Céfiso, o Scamandro e o Eridanus. Assim como os mares, constantemente em movimento, os rios participam da simbologia da fertilidade, da morte e do renascimento pelo seu eterno fluir, lembrando a sua chegada aos
RIO   GANGES, DESCENDO A MONTANHA 
oceanos o retorno à indiferenciação. Os rios, na antiguidade grega, inspiravam veneração e crença, só podiam ser atravessados depois de observados determinados ritos purificação e feitas certas preces. Os rios, descendo as montanhas, brotando de grutas, atravessando vales, precipitando-se em lagos, fundindo-se com outros, acabaram por se constituir na imagem da própria existência humana

Eridanus (colina, pequeno monte e também túmulo, em grego) é um dos numerosos filhos do deus Oceano e de Tétis. Participa do terceiro trabalho de Hércules (a busca dos Pomos de Ouro no Jardim das Hespérides). Uma outra história, diretamente relacionada com Eridanus, é a de Faetonte, da qual participa o deus Hélio.




Hélio, filho de Hiperion (o que contempla do alto, em grego) e de Teia (a divina), é o Sol sob o ponto de vista físico. É um titã, tendo por irmãos Eos (Aurora) e Selene, a Lua (sob o ponto de vista físico). Unindo-se a Perseis, uma oceânida, tornou-se pai de Circe, a maga; de Eetes, rei da Cólquida; Pasífae, rainha de Creta, esposa de Minos; e de Perses, que passa por ser o pai de Hécate, deusa triforme do mundo infernal. Relacionando-se Hélio com outra oceânida, Clímene, tornou-se pai das Helíades e de Faetonte. Com Rodos, ninfa da ilha de Rodes, foi pai dos Helíades, renomados astrólogos.

Hélio era antropomorfizado como um jovem de grande beleza, cabeça sempre aureolada, de onde emanavam raios. Para se movimentar com grande velocidade pelo cosmos usava sempre um
EOS
carro de fogo, às vezes uma taça, à guisa de barca, puxada por quatro cavalos, Pírois (fogo), Eóo (luz), Éton (chama) e Flégon (brilho). Sua chegada todas as manhãs era precedida pelo carro da deusa Eos (Aurora).  Ao final das tardes, mergulhava com seu carro no oceano, acalmando os seus animais. Pernoitava num palácio de ouro, recomeçando na manhã seguinte a sua trajetória. No mito, foi sendo aos pouco suplantado por Apolo, divindade da terceira dinastia, vencedora dos titãs, não perdendo, porém, a prerrogativa de ser considerado o “Olho do Mundo”, o que tudo via.

O nome do nosso herói, Faetonte, vem da palavra grega phaeton, brilhante. Foi educado pela mãe sem saber que era filho do deus Hélio. Só quando adolescente teve conhecimento de sua paternidade. Desde a infância sofrera muito, sendo ridicularizado, por não saber declinar o nome do pai. Revelado o nome paterno e desejando calar para sempre os que o maltrataram, pôs-se a
AS   METAMORFOSES
caminho para encontrá-lo, muito ansioso. Quem narra essa história é Ovídio nas suas Metamorfoses. Encaminhou-se então o jovem para o extremo oriente, aproximando-se do majestoso palácio do pai, todo em ouro, com portas de prata e aplicações de marfim. O pai estava sentado num trono de esmeralda, resplandecente. À direita e à esquerda encontravam-se as Horas, os Dias, os Meses, os Anos, os Séculos e os Milênios, cada um ocupando o seu espaço. Apropriadamente vestidas, por perto, moradoras no palácio, as quatro estações, a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno. 



AS   QUATRO   ESTAÇÕES  ( A. M. MUCHA , 1860 - 1939 ,  PRAGA )

Hélio reconheceu o filho, abraçou-o efusivamente e para sacramentar o reconhecimento, antes de qualquer palavra, jurou, em nome das águas do rio Estige, atender tudo o que ele lhe pedisse. O jovem, sem titubear, pediu que o pai lhe emprestasse por um dia o carro puxado pelos cavalos alípedes com o qual viajava pelos céus. No mesmo momento em que ouviu o pedido do filho, logo o arrependimento o tomou inteiramente, pois não poderia voltar atrás, pois juramentos divinos feitos em nome do rio Estige eram irrevogáveis. Hélio descreveu então ao filho os perigos a que ficaria sujeito. Se levasse o carro acima da eclíptica, certamente se chocaria com os astros, se abaixo, com a Terra. Qualquer descuido na condução do carro, a ordem cósmica seria fatalmente perturbada, com consequências catastróficas, sem dúvida. Hélio lembrou-lhe o exemplo do infeliz Ícaro, quando tentara escapar de Creta.

Hélio observou ao filho que nem Zeus se atreveria a conduzir o carro solar. Eis uma parte do seu discurso ao jovem, segundo Ovídio: Supõe que eu te entregue o carro. Que farás? Poderá enfrentar a rotação dos polos, para não seres arrastado pelo eixo movediço? Por acaso imaginas que há no céu bosques, cidades dos deuses e templos repletos de oferendas? O caminho solar avança entre ciladas e animais ferozes. E mesmo se o seguires sem errar terá de enfrentar os chifres do odioso Touro, o ardor de Sagitário, a boca do feroz Leão, o Escorpião com os seus ferrões recurvados e o Caranguejo, também de ferrões recurvados, mas num outro sentido. Quanto aos quadrúpedes, animados por um fogo que têm no peito e que soltam pela boca e pelas narinas, conduzir os cavalos não te será fácil. Mal me obedecem, com aquele seu vigor fogoso e mal suportam o freio. Cuidado, meu filho, para que eu não preste um favor funesto e, já que ainda é tempo, muda de ideia.

De nada valeram as ponderações de Hélio. Pela madrugada, quando Eos  já abrira as portas do oriente para a luz, Faetonte subiu no carro do pai e partiu numa alucinada carreira. Os cavalos logo perceberam que Hélio não estava no comando. Aumentado a velocidade, Faetonte, ao subir, estava pondo em risco os astros. Nos rasantes que dava, incendiava a Terra. O carro se chocava com as estrelas, as nuvens se inflamavam, cidades e bosques na Terra se incendiavam. Faetonte na sua corrida louca ia deixando um rastro de destruição e de dor. 


FAETONTE  ( NICOLAS  BERTIN )

Geia, a Grande-Mãe, ressequida até as entranhas, não suportando mais as agressões a que estava sendo submetida, pediu a imediata intervenção de Zeus. Atendendo-a, reverente, o Senhor do
NÁIADES   CHORAM    FAETONTE
Universo, do alto do Olimpo, lançou a sua infalível arma, que abate os orgulhosos e os inconsequentes dominados pela
hybris. Faetonte despencou com o carro solar, que se espatifou em chamas nas águas do rio Erídano. As Náiades da Hespéria recolheram o cadáver do jovem, dando-lhe sepultura. No túmulo, colocaram a seguinte inscrição: Aqui repousa Faetonte, condutor do carro paterno, ao qual se não conseguiu conduzir, ao menos pereceu em gesta gloriosa.

Hélio, cheio de dor, deixou a Terra sem luz no dia seguinte. As Helíades, irmãs do jovem, choraram tanto junto à sua sepultura, às
ÂMBAR
margens do rio, que foram metamorfoseadas pelos deuses em choupos e as suas lágrimas em fragmentos de âmbar. Os choupos são, como sabemos, árvores funerárias que lembram sempre as forças regressivas que atuam na natureza, trazendo-nos mais lembranças que esperanças, falando-nos mais de tempos passados que de
CHOUPOS
renascimento. Já o âmbar (electron, em grego) simboliza o fio psíquico (sutratma para os hindus) que une a energia individual à energia cósmica, a alma individual à alma universal. Apolo, por exemplo, depois de ter fulminado os Cíclopes, foi banido do Olimpo por Zeus, vindo para o seu exílio terrestre. Saudoso do mundo olímpico, chorava, transformando-se suas lágrimas em gotas de âmbar. Segundo a tradição, o âmbar (na realidade, resina fossilizada de árvores coníferas que datam de milhões de anos, especialmente da região do mar Báltico) sempre foi usado na joalheria. Nas regiões do Mediterrâneo, o âmbar era considerado um amuleto poderoso, sendo muito usado contra assombrações e espíritos demoníacos. Astrólogos gregos associavam o âmbar ao planeta Mercúrio. É também símbolo de atração solar, espiritual, divina. 

QUEDA  DE  FAETONTE
( JOHN  LISS , 1597 - 1631

A história de Faetonte, o seu mergulho no Eridanus, simboliza a precariedade da existência, fala-nos do que ela tem de efêmero, de transitório, e também da indiferença que comanda o vir-a-ser das coisas do mundo. Tudo flui, tudo retorna à indiferenciação e tudo retorna.  


Na tradição grega, entre os antigos astrólogos, a queda de Faetonte no rio Eridanus teria sido a tradução mítica de um fenômeno (queda de um meteoro) que causou um remoinho (zalos), cujo efeito é conhecido como precessão (movimento de recuo dos pontos equinociais). Na Física, a precessão, como sabemos, acontece quando um corpo rígido se movimenta em torno do seu eixo de rotação sujeito à ação de um sistema conjugado externo. 



Eridanus se estende de 15º de Peixes a 0º de Gêmeos. Para Ptolomeu, as suas influências são saturninas. Há, com elas, propostas das virtudes superiores do planeta, erudição, gosto pelo conhecimento, por longas viagens, possibilidade de conquista de posições de autoridade; há, porém, riscos de acidentes no mar, afogamento. As principais estrelas de Eridanus, por ordem de importância, são Achernar, Cursa, Zaurac e Azha. A primeira, alfa, de 1ª magnitude, é a única importante astrologicamente; está hoje a 14º31´ de Peixes. O nome vem do árabe, Al Ahir al Nahr, O Fim do Rio, a 32º do Polo Sul. As influências jupiterianas (religião, atividades sociais e beneficentes) dentro desta constelação ficam por conta de Achernar, estrela representada muitas vezes por um querubim armado. Para os judeus, um querubim (palavra que significa jovem) com uma espada de fogo na mão guardava a entrada do Éden para impedir que o homem tentasse a ele voltar. Os querubins simbolizam proteção, guarda, vigilância combativa. Quando os homens se mostram infiéis, os querubins voltam-lhes as costas, significando isto a ira de Deus e o prenúncio de calamidades. 

ANJOS
Lembremos que os querubins são encontrados em várias tradições antigas. No Egito, eram figuras aladas, com o corpo coberto de olhos (vigilância),  oniscientes e onipresentes. Entre os persas, babilônicos e assírios desempenhavam funções semelhantes; postavam-se à porta dos templos com a função de guardar tesouros. Simbolizavam sempre dignidade, altas posições, glória. Na hierarquia celeste dos anjos, há três Ordens, subdivididas em três Coros. Os querubins, na primeira ordem e primeiro coro, ficam abaixo dos serafins e acima dos tronos. Sentam-se eles ao pé de Deus, numa proximidade superior à de quaisquer outros anjos e santos. Os querubins, além da função de vigilância que exercem, são encarregados da difusão da sabedoria que permite a recepção dos mais altos dons espirituais.  

Para os antigos, o Eridanus era o rio da vida, o rio que fazia a ligação com a Via Láctea (21º de  Gêmeos-1º de Câncer a l2º de Sagitário-21º de Sagitário), ou seja, o rio que “tira” do sistema solar e põe em contacto com a Galáxia, que leva do terrestre para a imensidão do Grande Todo. Além do mais, é preciso lembrar que Eridanus, que faz a ligação entre o quarto e o primeiro quadrantes, cobrindo boa parte deste último, “traz” para ele influências saturninas (Saturno rege o quarto quadrante) e, por Achernar, jupiterianas, influências que deverão ser consideradas para cada caso, segundo o quadrante por ela coberto.





HYDRA - Esta constelação é também conhecida como A Serpente, tendo sido considerada aparentemente por várias culturas de maneira muito diversa. Contudo, se nos detivermos um pouco mais no seu exame, veremos que, no fundo, todas as suas representações se assemelham bastante. Os gregos, por exemplo, a viram como o monstro marinho que atacou a nau Argo quando da viagem de Jasão e de seus companheiros  à Cólquida. 


VELOCINO   DE   OURO
Ainda segundo a tradição grega, dentro da mesma história dos argonautas, a Hydra não representava esse monstro, mas o dragão que guardava o velocino de ouro no bosque consagrado ao deus Ares. O velocino de ouro é a pele de um carneiro divino que, pelos céus, para salvá-las, transportou duas crianças, Frixo e Hele, da Grécia à Cólquida. O primeiro chegou ao seu destino, Hele, porém, no meio da viagem, caiu no mar e morreu. Sacrificado o animal divino na Cólquida, sua pele (tosão ou velocino), como um precioso tesouro, passou a ser guardada pelo mencionado dragão. 

KIRON   E   AQUILES
A história de Jasão tem origem numa reivindicação que ele, depois de recebida  a devida iniciação pelo centauro Kiron, fez chegar a seu tio, usurpador do trono de Iolco. Pélias, o tio, expulsara e mandara para o exílio o rei Esão, pai de Jasão. Diante de Pélias, o jovem alegou que, por direito, o trono lhe cabia. Pélias concordou com a pretensão do jovem; ceder-lhe-ia o trono desde que ele lhe entregasse o famoso velocino de ouro que estava na Cólquida, guardado por um pavoroso dragão.

Com o auxílio de Palas Athena, Jasão conseguiu recrutar um grande número de heróis e príncipes gregos para, sob seu comando, participarem de tão perigoso empreendimento. Mais de cinquenta se apresentaram. Chegando à Cólquida, Jasão expôs ao rei Eetes as razões de viagem. Para a obtenção do velocino de ouro, Eetes  impôs quatro provas a Jasão, provas julgadas pelos seus companheiros de impossível realização por qualquer ser humano. A primeira prova consistia em pôr o jugo em dois touros bravios, presentes do deus Hefesto a Eetes, touros de patas e cornos de bronze, que lançavam chamas pelas ventas, e atrelá-los a uma charrua de diamantes; a segunda, lavrar com eles uma vasta área e nela semear os dentes do dragão morto pelo herói Cadmo, na Beócia, presente de Palas Athena; a terceira, matar os gigantes que nasceriam desses monstros; a quarta, e mais perigosa, eliminar o dragão que guardava o velocino de ouro.



O mito nos conta que a filha do rei Eetes, Medeia, feiticeira como a tia Circe, a maior das magas, assim que viu Jasão apaixonou-se por ele, comprometendo-se a ajudá-lo, a superar todas as provas, o que de fato aconteceu. As provas, uma a uma, foram sendo vencidas pelo nosso herói. Na última, a magia de Medeia fez o dragão adormecer e Jasão o atravessou com a sua espada, matando-o. O dragão da Cólquida era filho do maior dos monstros da Mitologia grega, Tifon, e de sua irmã e mulher, Équidna, a Víbora, e, portanto, irmão de outros tantos monstros como Ortro, Cérbero, Hydra de Lerna, Quimera, Fix, Leão de Nemeia e Ládon. 

Uma das melhores ilustrações que os gregos nos deixaram sobre a Hydra está no oitavo trabalho de Hércules, discutido neste blog, que, em muitos aspectos, complementa o que aqui se fala sobre a
HÉRCULES   E   A   HYDRA   DE   LERNA
constelação da Hydra. Nele, nosso herói enfrenta e vence esse pavoroso monstro que vivia num pântano, em Lerna. Na maior parte das civilizações, a greco-romana, a indiana, a persa, a germano-escandinava
 e outras,  observe-se, uma das mais importantes missões dos seus heróis é a de matar monstruosas serpentes, seres dracônticos, sejam ele terrestres ou marinhos, nos seus mais diversos papéis, como símbolos da imortalidade, da energia universal, dos ciclos de sua manifestação, da sexualidade, como animais psicopompos, como representante da vida inconsciente. Na serpente, simbolicamente, se juntam várias expressões da energia psíquica subconsciente do homem que pode, ao se manifestar, em razão de sua ambivalência, assumir aspectos negativos (terror, angústia, morte) ou positivos (propriedades curativas e salvadoras).      

Outra versão nos conta que a constelação da Hydra foi revelada ao mundo de então pelos armênios, segundo uma imagem que haviam
TIAMAT
recebido dos urartianos, um povo que viveu às margens do Mar Negro (região sudeste). Desde 3.000 aC que se tem notícia desse povo, vencido pelos armênios por volta de 700 aC. Numa descrição do céu (uranografia) encontrada numa pedra, aparecia a Hydra, que, segundo a tradição dos urartianos, era o grande vórtice por onde seria possível entrar em contacto com Tiamat, o grande monstro da mitologia mesopotâmica, símbolo das forças caóticas, representado pelo oceano primordial. 


GANGA
Algumas histórias que nos vieram da Índia contam que a constelação a que no ocidente se dá o nome de Hydra é uma representação do monstro enviado por Jalandhara, nascido da união da deusa Ganga (rio Ganges) com o Oceano. Jalandhara era uma espécie de titã (asura), poderosíssimo. Quando do nascimento de Jalandhara, os três mundos tremeram. Em virtude de intensas práticas ascéticas, ele adquiriu enormes poderes. Sobrevoava os oceanos, os maiores peixes e aves a ele se submeteram, gostava de caçar leões, que dominava com extrema facilidade. O próprio deus Brahma se assustou com o seu poder. Um dia, Jalandhara resolveu enfrentar os deuses com o objetivo de destroná-los e de impor uma nova ordem cósmica. Para tanto, enviou um monstruoso dragão para atacar o deus Shiva, a terceira pessoa da trindade divina, que tinha por função a destruição que levava à regeneração das formas universais. 

RAHU
O mensageiro de Jalandhara chamava-se Rahu, grande dragão, que às vezes tomava uma negra e gigantesca forma humana, que aparecia sempre montado num enorme leão. Era também um asura como Jalandhara. O monstro tinha a incumbência de produzir um fenômeno celeste até então desconhecido, um eclipse lunar. Quando da criação do universo, Rahu ingerira um pouco do elixir da imortalidade (amrita), tornando-se imortal. A Lua, como sabemos, é a depositária do famoso elixir, como Soma. O Sol (Ravi) e a Lua (Soma ou Chandra) avisaram os deuses. Agindo prontamente, Vishnu, com um golpe de espada, cortou o pescoço de Rahu. Como a bebida passara pela boca e pela garganta do monstro, estas se tornam imortais, formando-se, do outro lado, na extremidade do corpo seccionado, uma cauda. A cabeça, ávida por outro gole do elixir, percorre os céus desde então à procura da taça de Soma, a Lua. Os eclipses acontecem quando Rahu a encontra, ocasião em que ingere um pouco da bebida. Mas como ela não alcança o estômago, o líquido ingerido se perde. Eternamente torturado pelo desejo de obtê-lo de novo, o monstro recomeça sempre a sua eterna perseguição à Lua. 

Qualquer que seja a versão que abordemos, o que se depreende é que todas são ilustrações desta constelação são uma projeção, nos céus, pela humanidade, da serpente como um de seus grandes
SERPENTE
arquétipos.  A serpente, nas suas características mais primárias e imediatas, tem relação com o mundo subterrâneo, com a morte, com o renascimento, com a vida subconsciente, com o mundo feminino, no que ele tem de tentacular, temível, ligado à figura materna. Fisicamente, a serpente é o oposto do ser humano. Não tem pés, mas se move com espantosa rapidez; seu corpo é uno, íntegro, não tem partes e complicações como o dos humanos. Não tem pelos nem penas,  é fria, ovípara.

URÓBORO
Na serpente, o caos e o cosmos coincidem, razão pela qual o homem criou o uróboro, o monstro que engole a própria cauda, uma representação da vida como repetição sem fim, uma representação que se confunde com o próprio círculo zodiacal. É neste sentido que o corpo da serpente é a grande metáfora do ciclo do eterno retorno. É por essa razão que a serpente simboliza no ser humano aquilo que ele menos controla em si mesmo, aquilo que para ele é mais misterioso, obscuro, incompreensível. A serpente é um desmentido da individualidade do ser humano, da ilusão da sua verticalidade como signo distintivo com relação aos demais seres do universo. Na serpente tudo é simples, direto e objetivo. Tudo nela é funcional. Nada é acessório, supérfluo ou ornamental, tudo está organizado para lhe dar a maior eficiência nas funções que lhe são próprias e que desempenha com domínio perfeito. Tudo muito diferente se a compararmos ao ser humano, que, risivelmente, se orgulha da sua racionalidade, como o fim de um processo genético evolutivo, desmentida a sua racionalidade a cada momento da sua dolorosa existência.

Na perspectiva do que acabei de expor é que a Astrologia hindu (Jyotish), a que melhor explica este arquétipo, associa a serpente aos mitos cosmogônicos da Índia. A grande Hydra para os hindus é Sesha, conhecida como Sesha-Naga, divindade tutelar das regiões
VISHNU  E  LAKSMI  NA  SESHA-NAGA
infernais conhecidas como Patala. Sesha é representada como uma serpente monstruosa com mil cabeças, formando ela o leito e o dossel de Vishnu quando ele descansa durante o intervalo entre uma criação e outra. Em muitas representações, aparece como sustentáculo do universo criado, uma espécie de ancestral mítico, sendo, por isso, responsável pelos abalos e tremores que a Terra suporta. No fim de cada kalpa (período cósmico), Sesha vomita um fogo venenoso que destrói toda a criação. Quando os deuses resolveram criar o universo, Sesha foi usada como instrumento (uma forma espiralada à volta do monte Mandara) para batimento do oceano primordial, a fim de que as terras emergissem. Sesha é às vezes chamada de Ananta, A Infinita, como símbolo da eternidade.




DEUSA   MÃE   DO   EGEU
A serpente e a mulher sempre apareceram associadas nas religiões e nos mitos. Ambas se ligam às águas, à terra e às suas profundezas, estando na base de tudo, sendo portanto causais e atemporais. A serpente é alma e libido (kundalini) ao mesmo tempo. Nas civilizações do mar Egeu encontramos, em Creta, na antiguidade, o culto da adoração das serpentes pelas mulheres.    
                                                                              Não é também por 
CIRCE
( J.W. WATERHOUSE )
outra razão que muitas divindades femininas gregas, monstruosas, têm serpentes no lugar cabelos, as Erínias, a Medusa, as Keres etc. O encantamento de serpentes tem as suas maiores sacerdotisas em Circe e Medeia. Cleópatra, lembremos, era chamada de A Serpente do Nilo. A história de Laocoonte, sacerdote de Apolo Timbreu em Troia, e de seus filhos, mortos por serpentes,  é outra ilustração do tema aqui desenvolvido.  

Os judeus ligam a serpente à inveja. Na tradição judaica, a serpente bíblica era o rei dos animais, muito astucioso, que falava e que caminhava ereto sobre duas pernas. Percebeu que os anjos tratavam
ADÃO  E  EVA ( RAFAEL )
Adão muito bem e, por isso, teve ciúmes dele. A inveja tomou totalmente o seu coração quando viu Adão e Eva se relacionando sexualmente. A tradição bíblica nos revela que por instigação de Samael, o príncipe das trevas (Sitra Achra), a serpente persuadiu Eva a não só comer o fruto proibido como a seduziu, unindo-se a ela, nela injetando a sua peçonha. Por causa dessa relação, os descendentes de Eva também têm a peçonha em seu corpo (pecado original). Essa peçonha só foi removida do povo de Israel quando recebida a Torá. Os gentios, porém, segundo os judeus, nunca conseguiram se ver purificados da peçonha da serpente. 

Em todas as latitudes e longitudes, a serpente é sempre a personificação de um poder misterioso, de vitalidade e de força infinitas. Nas tradições populares, folclóricas, no interior Brasil, uma serpente cortada ao meio será sempre duas serpentes. Consta também para essa tradição que jamais ela será encontrada morta, insensível ou incapaz. Só morrerá se a matarem. Tanto simboliza o
ANEL  
Mal como a Sabedoria. Traços mais ou menos evidentes de ofiolatria são encontrados no mundo todo. Divindades ofioformes aparecem como protetores das fontes, de lagoas e lagos, representando a fecundidade da terra, da sua força geradora, dos segredos herméticos, do infinito. Como motivo religioso e artístico, vivem em ânforas, moedas, medalhas, esculturas, camafeus, baixos-relevos etc. 

Símbolo diabólico, da tentação do mal, é o único animal que pode resistir às fórmulas exorcistas católicas (Adjuro te, serpens antiqua). Do mundo ibérico veio para as Américas (Brasil especialmente) a história de que a serpente, quando entra na água, deixa o veneno em terra, não produzindo mal algum se picar alguém dentro da água. Quanto à mulher, dizem-nos as tradições populares, se estiver em estado interessante, ainda que picada pela serpente em terra, nada sofrerá a mulher. Deus preserva a mulher do perigo para que não morra com ela o inocente pagão que traz nas suas entranhas.  

SÃO  BENTO  ( FRA  ANGELICO )
Mais da tradição popular: a mulher que, ao se encontrar com uma serpente, virar o cós da saia, dizendo: estás presa por ordem de São Bento, que é o advogado contra os ofídios, imobiliza-a, deixando-se a serpente matar sem resistência. Como diz a lenda, os ofídios e os animais daninhos são de criação demoníaca. Quando Deus, ao quinto dia da criação do mundo,  fez os animais domésticos, e todos os répteis da terra, cada um segundo a sua espécie (Gênesis), Satanás, invejoso dessas maravilhas, pediu-lhe licença para fazer também os seus bichos. Anuindo Deus ao seu pedido, abusou o Anjo Mau da graça concedida, e criou os ofídios e todos os animais daninhos e nocivos ao homem. 





A constelação da Hydra é a mais larga do céu (10ºN-36ºS), permanecendo com a mesma configuração desde tempos pré-históricos, não tendo sofrido nenhuma alteração desde essa época. Estende-se de 5º de Leão a  23º de Escorpião. Para Ptolomeu e para a maior parte da tradição astrológica, Hydra atua através de influências saturninas e venusianas, o que evidentemente é incongruente quando todos os registros nos falam muito mais de influências marcianas: envenenamentos, mordidas venenosas, raiva, ataques, picadas, maus tratos de mulheres etc. Realçada a constelação num mapa astrológico, podem aparecer, não com a ênfase das influências apontadas, desejo de conhecimentos superiores e alguma habilidade artística, musical. 

Sua principal estrela é Alphard, alfa, de 2ª magnitude, a 26º 35´ de Leão, conhecida como Cor Hydrae (O Coração da Hydra). O nome em árabe é Al Fard al Shuja (A Solitária). A influência desta estrela é nitidamente marciana, lembra crime violentos, falando-nos tanto de agressores como de vítimas, de explosões emocionais, de sentimentos fortes, de energias intensas, que podem, contudo, dependendo da sua posição e relações,  tomar um caminho menos
WILLIAM   BLAKE
conturbado e até evolutivo, lembrando muito Algol. Um exemplo desta última hipótese pode ser encontrada num tema como o de William Blake (Alphard ascendendo e Júpiter, dispositor e em conjunção com o Sol, indo em direção do Nadir. Outro mapa poderia ser o de Agatha Christie, uma escritora de romances policiais, onde temos Alphard ascendendo e se encaminhando para o zênite. 

sábado, 7 de janeiro de 2017

CORVUS, CRATER






OVÍDIO
CORVUS – Esta constelação sempre apareceu associada à da Hydra e à de Crater, tudo conforme a mitologia grega e segundo encontramos também na literatura latina, em Ovídio, nos seus Fasti Lembremos, porém, que aves negras, na antiguidade, eram, de um modo geral, classificadas genericamente como corvos, encontradas em todos os continentes, com exceção da América do Sul. 

KORAX
Entre os gregos o corvo era chamado de Korax, ave do deus Apolo, participando de mitos relacionados com Cronos e com Asclépio. Este último, como se sabe, é filho de Apolo a da princesa Coronis, mortal, filha de Flégias, rei dos lápitas. Temendo Coronis que o deus, por ser eternamente jovem, a abandonasse na velhice, uniu-se ela secretamente a Ísquis, um lápita, antes do nascimento de Asclépio. Avisado por sua ave predileta do ocorrido, o corvo, Apolo vingou-se, matando Ísquis, enquanto sua irmã gêmea, Ártemis, se encarregou de dar fim a Coronis. 



Entre os latinos, o corvo era chamado de Phoebe Sacer Ales, ave sagrada de Phoebus, O Brilhante, o Apolo dos romanos. Em ambas as tradições, participava assim a ave da mântica profética, que tinha como titular o deus Apolo. Foram os corvos que determinaram a localização exata do oráculo de Delfos. Embora o corvo sempre apareça ligado a Apolo, como ave companheira, lembremos que nem sempre as relações entre ambos foram satisfatórias. 

CORVO   CORONE
Conforme a crônica de Apolo, a plumagem do corvo, que era inicialmente branca; tornou-se negra quando o deus o amaldiçoou para castigá-lo por ser muito indiscreto, sempre ansioso para divulgar más notícias (o caso de Coronis, por exemplo). Consta, aliás, do mito de Palas Athena que a deusa o privou do título de sua ave predileta por esse mesmo motivo, substituindo-o pela coruja. É devido a esta passagem, a tagarelice do corvo, que os latinos deram à constelação o nome de Garrulus Proditor (O Mexeriqueiro Sussurrante). 

Outra história nos informa que certa vez Apolo determinou que o corvo cumprisse determinada missão (encontrar um lugar onde houvesse água). Chegando ao local, ao ver  um cadáver boiando, esqueceu o que tinha ido fazer, pondo-se a devorá-lo avidamente. Ao retornar, cheio de desculpas, foi punido: suas penas, que eram brancas, tornaram-se negras. Esse episódio é responsável pela fama que cerca o corvo como uma ave necrófaga que tem predileção especial por cadáveres de pessoas que foram enforcadas. 


Outra história grega nos revela que, encarregado por Apolo de cumprir certa missão,  muito tempo se passou até a sua volta. Não cumpriu a missão, mas  trouxe, para justificar o seu atraso, uma serpente aquática, presa às suas garras. Consta que o deus ficou tão irritado com ele que resolveu colocá-lo entre as estrelas, sendo esta a origem da constelação de Corvus. No céu, ao lado, a Hydra o impede de beber na cratera (Crater), constelação vizinha.

ORÁCULO SIBILINO
De um modo geral, o corvo sempre apareceu consagrado a Apolo e desempenhando funções proféticas. Esta certamente a razão pela qual ele aparece citado nos chamados Oráculos Sibilinos. Muito difundidos nos meios judaico-cristãos, antes do cristianismo se tornar a religião oficial do império romano, os Oráculos Sibilinos fazem parte das chamadas Escrituras Apócrifas. 


OMPHALOS (MÁRMORE , II AC)
A mais recuada história que temos sobre as sibilas no ocidente é encontrada entre os gregos, em Delfos. Apolo transformou o oráculo, antes sob a tutela de divindades femininas, em centro do mundo (omphalos, umbigo). A partir dali, desbarbarizou antigas tradições matriarcais, propondo sempre o meio-termo, o equilíbrio e a moderação como forma de vida aos que lá iam consultá-lo. Contudo, embora Apolo signifique a substituição da mântica (adivinhação, profecia) feminina, que era por incubação, pela mântica masculina, por inspiração, os cultos do deus, nitidamente masculinos, sempre mantiveram  relação com o mundo feminino, considerado  "de baixo". Em seu Oráculo, Apolo dependeu sempre do feminino para que suas sentenças (mântica profética) fossem ouvidas, pois a mediunidade é dominada  sempre pelo feminino.
SIBILA  DÉLFICA ( MICHELANGELO )
Enquanto o masculino "dá", "insufla", o feminino "recebe", "acolhe" é a lei universal. Em transe, "recebendo" o deus, as mediuns, as sibilas ou pitonisas, revelavam as suas mensagens. Difícil, porém, interpretá-las, pois elas as sibilavam ao verbalizá-las. Sibilar é produzir sons agudos, acentuar as consoantes sibilantes, falar entre os dentes, silvar como as serpentes (símbolo da vida inconsciente). Quem interpretava as mensagens das sibilas eram os sacerdotes do deus, que administravam o Santuário de Delfos, "traduzindo-as" para os consulentes.
   
Divinamente inspiradas, as sibilas revelavam o futuro. Em tempos remotos, anteriores, à cristianização, muitas sentenças oraculares foram guardadas, exercendo sempre muita influência na pública e privada dos povos mediterrâneos. Grupos judaicos, aproveitando-se certamente da grande influência das sentenças oraculares na vida
NOSTRADAMUS
dos povos da época, se valeram da prática para fins de propagação religiosa, o que deu origem às chamadas Sibilinas Judaicas, fortemente marcadas por traços de profetismo. Com o tempo, muito do que foi produzido por grupos cristãos e judaicos acabou se fundindo, integrando-se ao cristianismo e depois ao catolicismo vitorioso, sendo citados por muitos autores cristãos ou não, como Santo Agostinho, Nostradamus e outros.

Em várias tradições, encontramos muitas histórias sobre o corvo. Na Mesopotâmia, ele participava do mito de Gilgamés, aparecendo também ligado ao deus Mithra, antiga divindade persa de natureza solar. Na Bíblia,  encontramos o corvo relacionado com o profeta Isaías e como emissário de Noé para, num voo de reconhecimento, informá-lo sobre as águas do dilúvio e sobre terras visíveis. Um dos nomes desta constelação entre os judeus vem exatamente deste episódio, O Corvo de Noé. Entre os árabes, Corvus era chamada ora de Al Ajmal (O Camelo), ora de Al Hiba (A Tenda). 


MARDUK   E   TIAMAT
Um mito mesopotâmico, projetava nos céus a associação das constelações de Corvus e da Hydra. Enquanto esta representava o monstro Tiamat, aquela era um corvo gerado por este, nascido de uma grande ninhada, chamado pelos mesopotâmicos de O Grande Pássaro da tempestade. Tiamat, como sabemos, é a personificação do elemento líquido, o grande oceano, que dá origem à vida, Simboliza as forças cegas do caos primitivo contra as quais os deuses inteligentes e organizadores, chefia por Marduk, entraram em luta. 

ODIN

No mundo celta, o corvo faz parte do mundo da profecia. Segundo a tradição, teriam sidos os corvos os responsáveis pela indicação do melhor lugar para a fundação de Lugdunum (Lyon), cidade do deus Lug, o de Longo Braço,  uma colina, chamada desde então de A Colina do Corvo. No mundo escandinavo-germânico, não podemos esquecer dos dois corvos que acompanham dia e noite o deus Odin. Um tem o nome de Hugin, a inteligência, e Munin, a memória, e lhe passam as informações de tudo o que acontece no universo.

SÃO  BENTO  DA  NÓRCIA
No mundo cristão, o corvo tem participação nas histórias de muitos santos, tanto eremitas como provedores, Bento, Bonifácio, Vicente e outros. As representações de São Bento da Nórcia no-lo mostram com o livro da Regra monástica por ele fundada, com cálice quebrado e com um corvo carregando um pão em seu bico. Três símbolos de grande importância em sua vida. Nas imagens do santo, o corvo lembra um episódio de sua vida em que monges invejosos de sua obra tentaram envenená-lo com um pão que um corvo levou para longe.

De um modo geral, porém, o mundo cristão, apesar da participação acima apontada,  sempre considerou o corvo muito negativamente como um agente propagador de contágios, de corrupção e de destruição. Inimigo da Igreja, contava-se que na Idade Média o Diabo se expressava através da onomatopeia do crocitar do corvo, cras, cras, cras, que significava amanhã, amanhã, amanhã, para instigar os pecadores a que deixasse para outro dia o arrependimento dos seus crimes e pecados. 


TÚMULO   DE   POE
Não foi outra razão, aliás, aproveitando o gancho acima, que Edgar Allan Poe, uma das principais figuras do movimento romântico, ultrarromântico, se quisermos, também chamado de Romantismo das Trevas, elegeu o corvo como um dos seus principais símbolos. A par das suas grandes virtudes narrativas, dos seus recursos estilísticos, de rimas e jogos fonéticos, o poema The Raven (O Corvo) é certamente o mais contundente exemplo da carga tanática que a geração romântica, toda ela, em maior ou menor proporção, vítima do chamado mal du siècle, pôs em circulação na literatura ocidental.    


Astrólogos da Idade Média juntaram Corvus e Crater, passando a chamar as estrelas assim agrupadas de A Arca da Aliança, naturalmente inspirados por uma leitura libriana (Libra, o signo dos acordos e da paz), já que ambas as constelação cobrem praticamente todo o signo da Balança. Em hebraico, aliança é berit e designa o relacionamento especial entre Deus e o homem. Este pacto remonta ao acordo feito entre Deus e Abraão e renovada no monte Sinai por Moisés. É por essa razão que os israelitas são conhecidos como os “filhos da Aliança”, obrigando-se a cumprir os mandamentos da Torá divina. A Arca é um símbolo dessa aliança. É de madeira, revestida de ouro, guardada no deserto e depois no templo, em Jerusalém. No interior da Arca ficavam as tábuas do decálogo.


ARCA   DA   ALIANÇA  ( JUAN  MONTERO  ROJAS )


PRAJPATI
Os hindus, por sua vez, associaram Corvus a Virgo, Libra e Bootes para formar nos céus uma figura a que deram o nome de Prajapati, distribuindo as partes do seu corpo entre as principais estrelas das mencionadas constelações. Prajpati quer dizer Senhor das Criaturas. Nos Vedas, o nome é aplicado a várias divindades, Indra, Savitri, Soma etc. A designação se fixa depois na figura de Brahma, a primeira pessoa (aspecto criador) da trimurti do Hinduísmo. 

De um modo geral, a visão que os mitos têm do corvo na tradição ocidental é negativa, uma ave agourenta que anuncia infelicidade,
ALQUIMIA
doenças, corrupção e morte. Na Alquimia simbólica, a nigredo, a primeira fase da Opus, é chamada de corvus, fase que dá início a um caminho evolutivo, a uma busca de transcendência, quando pensamos naquele que nela se inicia. A nigredo corresponde à fase das trevas e da putrefação pela qual é preciso passar, seja na Opus considerada materialmente ou psicologicamente, antes de se atingir a albedo, a segunda fase, que é do branco, para se passar à terceira, citrinitas, do amarelo, e chegar finalmente à quarta, a rubedo, do vermelho. Estas quatro fases representam simbolicamente as quatro etapas do caminho solar, da escuridão à luz plena, da meia-noite ao meio-dia. Este simbolismo, como fica fácil constatar, tanto pode ser aproximado da busca que o homem pode fazer em termos psíquicos como espirituais.  

    
NASCIMENTO   DE   ASCLÉPIO

Uma associação que não se pode deixar de fazer aqui é a relação entre Asclépio, deus médico (veja a constelação de Ophiucus), o corvo e o princípio da cura a partir da cor negra. A medicina do deus, praticada no santuário de Epidauro, a metanoia, associava a escuridão, o negro (a nigredo, a primeira das quatro fases da Alquimia) à vida inconsciente, como o ponto de partida para o renascimento, para a busca de formas evolutivas de vida. 



A constelação do Corvo estende-se de 5º a 15º Libra. Segundo Ptolomeu, sua influência é da natureza de Marte e de Saturno, proporcionando inveja, ingenuidade, maledicência, passionalidade, egoísmo, paciência, e, sobretudo, tendência a envolvimento com assuntos “sujos” e agressividade. Suas principais estrelas são Al Chiba, Gienah e Algorab. Nenhuma delas mereceu atenção sob o ponto de vista astrológico. 



BAUDELAIRE  ( GUSTAVE  COURBET )
É se se lembrar, contudo, que em alguns temas astrológicos de escritores ligados ao simbolismo do corvo, temas como o do próprio Poe, de Fernando Pessoa (tradutor do poema para o português) e de Baudelaire (editor de Poe na França), a constelação aparece de  de modo ascendente ou culminante.
   




CRATER – Como se disse, Corvus, Crater e Hydra, antes unidas, formando uma só constelação, foram separadas. Crater ou a Taça, como símbolo, representa em inúmeras tradições o modelo de recipientes sagrados, vasos, jarras, caldeirões etc., mencionados nos mitos e nas religiões. Neste sentido, é um símbolo feminino já que implica ideias de conter, receber, guardar. Associa-se assim a centros vitais, a temas que lembram vitalidade, fertilidade, crescimento. Tem o símbolo, sob o ponto de vista físico, muita relação com cerimônias para combater a seca, a desertificação, a preparação de sementeiras. Num outro sentido, mais amplo, fala do recebimento de influências celestes. Além do mais, ao lembrar recipientes que contêm (arcas, sarcófagos, urnas etc.) adquire ele um significado maternal, terrestre. 


CRATERA   GREGA
Cratera é uma espécie de jarro, semelhante a uma ânfora, usada pelos gregos para levar vinho e água à mesa. Várias lendas fizeram de uma taça a que se deu o nome de graal, na literatura medieval europeia, o símbolo de um tesouro a ser conquistado. A sua posse conferia plenitude, abundância, iluminação, espiritualidade. É uma espécie de talismã maravilhoso que, por seu simbolismo, se aproxima da cornucópia. A busca do graal (Santo Graal) é, no fundo uma aventura espiritual, que exige, antes de conquistas externas, vitórias interiores, pedindo transformações radicais de coração e espírito. 

Na mitologia de egípcios e babilônicos, esta constelação estava ligada a ideias de crescimento, de desenvolvimento. Antigos textos
ISHTAR
egípcios nos falam que quando a constelação de Crater aparecia de modo bem visível nos céus a cheia do Nilo atingia a sua maior altura. Os babilônicos davam à deusa Ishtar o poder sobre Crater. Esta deusa, como sabemos, é um dos modelos da Afrodite grega, cabendo-lhe a distribuição do princípio da fertilidade, da fermentação, sobre os reinos vegetal, animal e humano. Esta fermentação tem dois momentos, um ligado primeiramente à decomposição, à perda da forma, à ação da umidade, e outro relacionado com o aparecimento de formas novas. Estes conceitos estão na Alquimia e nos falam de transmutação, de transformação. 

PITONISA  COM  GOBELET
Para os gregos, a constelação da Taça tanto era o recipiente que Icário usou quando foi instruído por Dioniso na arte de fabricar o vinho (veja a constelação de Bootes) como podia ser o gobelet do deus Apolo, usado na sua mântica profética. O primitivo nome deste recipiente no culto apolíneo era kantaros. Passou a ser chamado de krater, latinizado o nome por Cícero como Cratera. Astrólogos latinos chamavam também a constelação de Gratus Iaccho Crater, Urna, Calix, Scyphus ou Poculum 

SANTO   GRAAL
( GABRIEL   ROSSETTI )
Entre os celtas Crater era o caldeirão do deus Bran, divindade infernal. Na Idade Média cristã, Crater toma a forma do Santo Graal, cujo modelo parece ser uma síntese de três tipos de caldeirão que aparecem como atributos de deuses celtas (abundância, ressurreição e sacrifício). Entre os árabes, Crater chamou-se primitivamente, segundo a Astronomia do deserto, de Al Malaf, A Tenda. Depois, por influência dos gregos, recebeu o nome de Al Batiyah, uma espécie de taça para vinhos. Na Índia, esta constelação era chamada de Chashaka Soma, ou seja, a taça que o deus Soma usava para distribuir o precioso néctar. Outras divindades também usavam a referida taça, deuses como Kubera, Kusmmanda Durga, Varuni. Para o homem comum, chashaka era simplesmente a taça que ele usava para para consumir vinho, tendo, nesta função, relação com rituais tântricos. A bebida dos deuses na Índia, conforme está nos Vedas e noutros textos, chamava-se soma. Entre os persas, era haoma. Ela produzia a embriaguez sagrada que levava à imortalidade. Equivalia à ambrósia dos gregos, todas com função enteógena. A religião védica elevou soma, uma bebida, à categoria de divindade. Na mitologia purânica, é dado o nome de Soma à Lua. Lembremos que na Astrologia hindu (Jyotish) é a posição e a força da Lua (chamada de Chandra ou de Soma) na carta natal que determina o quanto uma pessoa receberá do seu néctar. O bem estar-estar dessa uma pessoa dependerá da situação da Lua em seu tema.  

EMBRIAGUEZ   DE   NOÉ

Na tradição religiosa ocidental, judaica e cristã, Crater recebe o nome, quanto à primeira, de A Taça de Vinho de Noé e, quanto à outra, de A Copa da Paixão de Cristo. Noé, como sabemos, salvou-se do dilúvio juntamente com sua família numa arca, uma grande embarcação. Terminada a catástrofe, ele desembarcou no monte Ararat. Recomeçando a vida, plantou algumas videiras obtendo delas muito vinho. Provou dele, gostou e se embriagou, sendo repreendido por seus filhos, conforme consta da sua história. A constelação de Crater representa a taça que Noé usou para se embriagar.


CRISTO   NA   CRUZ
( ANÔNIMO , XVII )
Já a versão cristã, aproxima a constelação de Crater da história de José de Arimateia, um discípulo de Cristo que, após a crucificação, pediu a Pilatos o seu corpo e o colocou num novo sepulcro. Nada se sabe da vida deste homem além do que consta nos Evangelhos. No século IV, começaram a aparecer várias lendas a seu respeito que não chegaram a ganhar corpo. No século XIII, entretanto, o tema foi retomado com muita intensidade. A história que se espalhou pela Europa cristã a esse tempo conta que José de Arimateia teria colhido o sangue de um ferimento de Cristo antes de ser ele enterrado, valendo-se para tanto uma copa usada na última ceia. Consta que Arimateia teria vindo para a Bretanha com o precioso recipiente, que se perdeu, depois de muitas aventuras em que se metera e de sua prisão. 

Nesta história, a copa (Crater) toma o nome de graal,  do latim gradalis, passando para a langue d´oïl  e a langue d´oc como griau, gruau etc., sempre com o sentido de um recipiente de larga abertura. O graal, como vaso maravilhoso, alimentava o corpo, a alma e o espírito. Para a alma medieval, atormentada pelo problema do Mal, o graal era um sinal de esperança, de acesso a um tipo de vida superior, da irrupção do divino no âmbito do humano. Reunindo contribuições orientais, célticas e cristãs, o tema do graal corresponde também a um anseio que tomou conta do mundo medieval, fixado em muitas histórias e lendas: a busca de talismãs que dariam a quem os encontrasse poderes sobre-humanos, muito comuns na Astrologia da antiguidade, chamados pelos latinos de sigila planetarum.



 A constelação de Crater estende-se de 13º de Virgem a 3º de Libra, tendo suas estrelas influências da natureza de Vênus e, em menor grau, de Mercúrio, segundo Ptolomeu. As propostas são de generosidade, natureza hospitaleira, receptividade, habilidade mental com alguma apreensão e indecisão. Reversões,  tendências negativas podem ser esperadas, acontecimentos imprevisíveis. A única estrela  desta constelação registrada pela Astrologia é Alkes (alfa), 23º Virgo, de pouca expressão devido à sua magnitude (abaixo da terceira). Alkes é nome que vem do grego, com o sentido de vigor, força ou poder que se opõe a alguma coisa, sugerindo ideia  de proteção, socorro e defesa. Os latinos a chamaram de Fundus Vasis devido à sua posição na base da constelação. Em alguma tradições, no lugar de Alkes, aparece o nome de Labrum,  também chamada de Santo Graal, palavra latina usada para designar vasos (em terra, pedra ou metal), de larga abertura, podendo servir inclusive de bacia para banho. Idealismo, favorecimento, poderes psíquicos, purificação e salvação estão entre as influências proporcionadas. Espiritualidade, misticismo e natureza profética podem eventualmente aparecer como influências.

Alkes marca no signo de Virgem um ponto onde podem se tornar mais claras, evidentes, principalmente se no grau indicado tivermos algum planeta ou a cúspide de alguma casa, tendências evolutivas ou involutivas para o ego que nasceu teoricamente em Leão (5ª casa). No caso das primeiras, temos a preparação para o acesso a Libra (3º quadrante, o do social). Estas tendências, positivas, de natureza espiritualizante, levarão a Sagitário (3º nível do elemento fogo) e deste para o 4º quadrante, o do coletivo, da humanidade. Negativamente, podemos a partir deste ponto ter a fixação do ego que nasceu nas tendências leoninas negativas (poder, glória, orgulho, prepotência etc.) ou a sua regressão a formas instintivas. 


Temas como os do Papa João Paulo II, de Van Gogh e de Gandhi podem ser utilizados para estudo do que aqui acabamos de apresentar.