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segunda-feira, 19 de novembro de 2018

O RETRATO DE DORIAN GRAY



OSCAR   WILDE

Personagem de um romance de Oscar Wilde, Dorian Gray é um jovem inglês de grande beleza, que vive na alta sociedade vitoriana, período que se estende historicamente de 1837 a 1901, marcado fortemente pelo reinado da rainha Vitória. Este período se caracterizou na Inglaterra, dentre outras coisas, pelo auge de uma revolução industrial, por grande prosperidade e paz e por grandes lucros obtidos pelo país em decorrência da expansão das suas fronteiras, expansão conduzida por uma brutal política de colonização em vários continentes e de transferência de recursos para a metrópole. A sociedade afluente, a middleclass, era moralista, puritana e disciplinada. A referência a coisas do sexo era reprimida. A moral vigente sempre associara o grande interesse que as classes mais baixas demonstravam pela vida sexual a algo animalesco e indigno.


RAINHA VITÓRIA
Ao subir ao trono, a rainha Vitória aderiu politicamente aos costumes burgueses, ou seja, os homens eram os representantes da família no mundo exterior, cabendo às mulheres, socialmente, a guarda da moral, da castidade e a proteção do lar e dos filhos. A prática sexual era recomendada somente para fins reprodutivos. As mulheres nada entendiam de sexo, aconselhando-se que quando o assunto fosse mencionado elas se abstivessem de emitir qualquer opinião. O único “prazer” das mulheres: cuidar da casa, dos filhos, dos animais e dos empregados. Os maridos, geralmente, procuravam a satisfação das suas “necessidades” na rua, de preferência no East End de Londres.

Quando a classe superior, a upperclass, constituída pela nobreza e pela aristocracia, se “sujou” por contactos com a classe média, a abordagem da moral vitoriana tomou caminhos diferentes. Uma duplicidade então se instalou nesse período quanto à vida sexual. No mundo dos ricos e bem nascidos desenvolveram-se na prática atitudes bem diferentes das noções proclamadas oficialmente, delas fazendo parte o adultério, a prostituição e a homossexualidade. A noite ocultava todos os vícios no leste londrino, para onde costumavam ir muitos aristocratas e mesmo homens da classe média endinheirados, lugares onde se aglomeravam os bordéis, inclusive masculinos, as salas de espetáculos, de jogos e os antros das drogas, do ópio em especial.


ANTRO  DE  ÓPIO  EM  LONDRES

É de se lembrar que o nome Dorian, adotado por Wilde para designar o principal personagem da novela tem ligações com o mundo grego, mais exatamente com as tribos de origem indo-europeia que por volta do ano 1.000 aC, invadiram a Grécia, destruíram Micenas e Tirinto, impondo-se ao que sobrara da civilização creto-micênica e instaurando costumes ligados à vida militar, a chamada camaradagem bélica, a nudez do atleta e consolidando a prática da pederastia como método pedagógico. 

O adjetivo dórico sempre traduziu para os antigos gregos tanto uma ideia de poder, de belicosidade, de afirmação social como de rusticidade, de boçalidade e de grosseria, eis que foram eles, os dóricos, que, ao dominar a Grécia, a partir do Peloponeso, na virada do milênio, a mergulharam no que se denominou a idade das trevas, um período marcado pelo fechamento de fronteiras e de grande obscuridade social, cultural e comercial. Tal idade estendeu-se mais ou menos de 1.100 aC até o início do período arcaico, por volta de 900 aC. 

PEDERASTIA  NA  GRÉCIA  ANTIGA (CERÂMICA)

Conhecedor da cultura grega, o que parece ter prevalecido na escolha, por Wilde, do prenome Dorian para o “herói” de sua novela foi sobretudo a ligação dos dóricos com a pederastia, por eles institucionalizada como processo pedagógico. Não escapou da observação de Wilde também que esse tema, já presente entre os aqueus, permearia toda a cultura grega pelos séculos afora, inclusive a filosofia, despontando como suas mais importantes figuras a do erasta (amante) e do eromeno (jovem pupilo). 

ÉSQUINES
Não escapou também certamente ao conhecimento de Wilde um fato escandaloso ocorrido séculos mais tarde (período helenístico) entre os antigos gregos, quando nos aventuramos no mundo da pederastia daqueles tempos, o do destino de Timarco. Em 345 aC, Demóstenes e Timarco acusaram Ésquines de ter sido corrompido por Felipe da Macedônia. Numa peça oratória das mais brilhantes, Contra Timarco, que a história conserva, Ésquines foi à réplica, declarando que Timarco nada poderia falar, pois era famoso por sua depravação, muito conhecido, na sua juventude, como erasta (amante) de muitos eromenos  (pupilos) nos meios portuários do Pireu. A argumentação de Ésquines foi acatada e Timarco teve a sua palavra cassada, tendo, além disso, pela pena da atimia, perdido os seus direitos cívicos. Estávamos a esse tempo no chamado período helenístico da história grega, período em que a instituição da pederastia já ganhara fortes contornos de devassidão. 

Dorian Gray foi influenciado por um aristocrata cínico e decadente, lorde Henry Wotton. Arrogante, debochado, libertino, defensor de uma filosofia de vida hedonista, lord Henry Wotton representa, sem dúvida, a postura crítica de Wilde diante dos hipócritas valores da sociedade vitoriana da sua época. Wilde-Wotton tentou se colocar na sua novela, acima de tudo, como um iniciador, um pedagogo, conduzindo um ritual que deveria assegurar, com muito prazer, uma feliz passagem de seu pupilo de uma idade “terna” para outra mais “viril”. O drama de Wilde foi o de ele ter pretendido viver ostensivamente uma instituição iniciática indo-europeia, onde a relação homossexual erasta-eromeno era, digamos, obrigatória, num mundo cujas concepções dominantes a rejeitavam, não realmente, mas apenas na aparência. 


EDIÇÃO ANTIGA
Tanto isto é verdadeiro se atentarmos para o fato de que uma boa parte dos estudos sobre a homossexualidade grega foi escrita em língua inglesa durante o período vitoriano. Os departamentos de língua e de literatura grega em universidades inglesas foram, durante o período vitoriano, e mesmo depois, um refúgio mais ou menos seguro para muitos homossexuais que não queriam maiores aborrecimentos nem ousavam afrontar a sociedade. Wilde era realmente “demais” para seu tempo. Mais: para uma sociedade que precisava manter as aparências, afirmações como esta de Wilde: Um livro não é moral ou imoral. É bem ou mal escrito, eram profundamente provocativas, perigosas.

O   RETRATO
Fascinado pelas palavras de lord Henry, Dorian é tomado por uma ideia, a de que seu retrato, que acabara de ser pintado, iria envelhecer no seu lugar. Foi o que aconteceu. À medida que o tempo passava, Dorian permanecia jovem e belo. Seu retrato, contudo, desfigurando-se, ia incorporando as perversões e crimes que ele cometia. 

Quando Dorian Gray percebeu que o seu desejo fora atendido, que o retrato envelhecia e ele não, trancou-o numa sala de sua casa, impedindo que qualquer pessoa o visse. Um dia, porém, acabou mostrando-o ao seu próprio autor, o pintor Basil Hallward. Com receio de que seu segredo se tornasse público, não teve outra alternativa senão matá-lo.

DORIAN  GRAY


O tempo foi passando, as perversões de Dorian se avolumando. Não as suportando mais, certo dia, numa crise de fúria, com a faca com a qual matara o pintor, apunhalou a tela, gesto que também provocou a sua morte. Enquanto isso, amigos que haviam se apossado de uma chave do quarto onde estava o retrato, conseguiram nele entrar, juntamente com os empregados da casa. Encontram no chão, morto, com o rosto completamente deformado, um velho decrépito, cheio de rugas, uma figura asquerosa. Pelos anéis na mão do velho, reconhecem os serviçais que quem ali jazia era o patrão. Ao lado, o retrato de Dorian Gray recuperara a sua esplêndida beleza.

O romance de Wilde reúne vários temas que sempre chocaram a sociedade londrina, temas que começaram a entrar em moda em meados do século XIX, vida passional, sexo e suas perversões, crimes, homossexualidade, droga (eram famosos os antros de ópio em Londres, muito frequentados pela elite social), prostituição. Quanto à literatura, as “novidades” aprofundavam o esteticismo, o dandismo e o hedonismo, atuando como seu porta-voz o debochado lorde Wotton. As propostas, diluídas nas falas dos personagens, defendiam tanto o culto da beleza como uma forma de resistência ao puritanismo e à hipocrisia da sociedade vitoriana, apontando para uma entrega aos prazeres dos sentidos considerados como bem supremo. 

ALBERT   LEWIN
Em 1944, o romance de Oscar Wilde, mais um sucesso de público do que de crítica, foi transposto para o cinema, pela MGM, realizando-se o filme com a direção e roteiro de Albert Lewin e fotografia de Harry Strading. Nos principais papéis, temos Hurd Hatfield (Dorian Gray), Georde Sanders (lorde Henry Wotton), Donna Reed (Gladys), Peter Lawford (David Stone) e Angela Lansbury (Sybil Vane).

A adaptação do romance para o cinema foi feita pelo próprio diretor do filme, o que os grandes estúdios não permitiam normalmente. Contudo, Lewin, nascido nos USA, de família judia russa, tornara-se não só diretor, mas um produtor e roteirista de reconhecida competência. Seus primeiros trabalhos no cinema datam de 1942, assumindo ele logo depois a função de diretor e/ou de roteirista, sempre demonstrando aspirações culturais e literárias superiores na escolha e no tratamento dos seus temas. 


GEORGES  SANDERS
O Retrato de Dorian Gray é um filme do qual extraímos, sem dúvida, muitas possibilidades de leitura, tantas que podemos considerá-lo como um  roman à clé. Lewin, com seu grande talento e cultura, certamente sabia disso e captou com muita arte o ambiente da Inglaterra vitoriana aprisionada por inúmeros tabus morais e pela hipocrisia. Soube Lewin, magistralmente, também, manter no seu filme as tiradas irônicas e os epigramas de Oscar Wilde através de lord Wotton, soberbamente interpretado por George Sanders, um ator wildeano. 

POSTER DO FILME
A importância de O Retrato de Dorian Gray avulta por nos ter confirmado o quanto gente como Lewin faz falta ao cinema, principalmente ao cinema americano. Formado em literatura britânica pela universidade de Harvard, membro da sua Sociedade de Poesia, o libriano Lewin (nascido em 23 de setembro de 1894), apaixonado pelo expressionismo alemão, foi um poderoso sopro de cultura, de refinamento e de bom gosto que animou o cinema americano por algum tempo. Quanto ao que aqui se coloca, basta lembrar que os três primeiros filmes de Lewin tiveram os seus roteiros baseados em Somerset Maughan (Um Gosto e Seis Vinténs, 1942), Oscal Wilde (O Retrato de Dorian Gray, 1945) e Guy de Maupassant (O Homem sem Coração, 1947).


PATRICK  BRION
Considerado muito culto pelos chefões da MGM para ocupar um lugar mais importante no cinema, Lewin conseguiu, malgré tout, deixar nele a sua marca, trabalhando como produtor, orientando roteiros, escolhendo bons diretores de arte e fotógrafos, cercando-se de grandes atores (tinha especial predileção por George Sanders e soube reconhecer o
BERTRAND TAVERNIER
talento da então jovem Angela Lansbury). Não é por acaso que gente que vê o cinema não só pelo Box Office reconhece sua importância como o fizeram  o francês Patrick Brion (grande figura da história do cinema) na biografia de Lewin que escreveu,
Un Esthète à Hollywood (2002) ou os também franceses Jean Pierre Coursodon e Bertrand Tavernier em 50 Ans de Cinéma Américain, ali registrando a dificuldade de Lewin para viver a sua verdade e de se realizar culturalmente num ambiente dominado pelo dinheiro. 

A narração de O Retrato de Dorian Gray filme é linear, muito simples, seguindo Lewin de maneira fiel a história, procurando sempre evitar, contudo, que seu filme se contaminasse pela publicidade escandalosa que cercava a vida de Oscar Wilde e da qual se valeram as filmagens posteriores da mesma história, de nível muito inferior.  


O  RETRATO  DE  DORIAN  GRAY

O filme de Lewin é extremamente bem cuidado não só com relação à direção de atores, mas sobretudo com relação aos cenários, com notáveis toques decadentistas na direção de arte, pelas inúmeras sugestões apresentadas com relação ao passado, tanto na arquitetura de interiores como com relação aos figurinos. Quanto à música, Lewin pegou firme, dando-nos Chopin e Beethoven. Um detalhe interessante foi o uso que Lewin fez da cor, algo inédito, no que se refere aos planos do retrato de Dorian, num tempo em que praticamente todos os filmes eram rodados em branco e preto, um luxo para a época. 

DORIAN  E  GLADYS
Quanto à direção, para a concepção geral do filme, é de se destacar que Lewin conseguiu traduzir, como poucas vezes vimos no cinema, a atmosfera que Wilde havia criado para situar o seu romance, da qual fizeram parte, além dos traços decadentistas apontados (não só na direção de arte),  temas como os do narcisismo, hedonismo e esteticismo, muito presentes, aliás, na arte das últimas décadas do séc. XIX. 


À   MEIA   LUZ 
Outra “ousadia” de Lewin foi a escolha de Angela Lansbury para o papel de Sybil, apenas uma iniciante à época, revelada em Gaslight (À Meia-Luz), filme de Ceorge Cukor, com Ingrid Bergman e Charles Boyer nos principais papéis. A grande escolha do filme, entretanto, foi a de George Sanders, à época o mais completo e preparado ator para representar personagens como Lord Henry.  Um papel no qual Sanders realmente se superou com relação ao que fizera e talvez com relação com o que viria a fazer mais tarde. Uma curiosidade com relação à escolha do ator para o papel de Dorian Gray: Greta Garbo, famosíssima atriz, teve o seu nome cogitado seriamente para assumi-lo. Entretanto, o escolhido, por seu belo rosto e ambiguidade física, foi Hurd Hartfield, na época totalmente desconhecido. 

Merece especial destaque, para se compreender melhor tanto o romance de Wilde como o filme, foi o que à época da publicação do romance se deu o nome de duplicidade, palavra que caracterizava a vida dupla que muitos aristocratas levavam, indo procurar “diversão” nos bas-fonds da cidade. Há, no livro, na boca de um aristocrata, frases como esta: O crime pertence exclusivamente às ordens inferiores...Eu deveria imaginar que o crime era para eles o que a arte é para nós, simplesmente um método de obtenção de sensações extraordinárias. 


Dorian Gray é um personagem duplo, um esteta refinado e um devasso cujas ações levaram-no ao crime. Não é por acaso, aliás, que Oscar Wilde sempre foi um admirador de obras que tratam do aspecto duplo da natureza humana, como O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, Às Avessas, de J.K. Huysmans, Fausto, de Goethe, e outros.


PLATÃO
Um tema de Platão, de quem Wilde era profundo conhecedor, costuma ser invocado para que o alcance de O Retrato ganhe ainda maior dimensão. Referimo-nos à A República, onde dois personagens, Glauco e Adimanto, apresentam o mito de O Anel de Giges,  por meio do qual Giges fez-se invisível e adquiriu grande fortuna. Eles, então, perguntam provocativamente a Sócrates: Se alguém possuir tal anel, por que deveria agir com justiça? Sócrates responde que, embora ninguém possa ver o corpo, a alma ficará sempre desfigurada pelos males que alguém cometer em vida. Esta é uma das leituras de O Retrato, que podemos resumir através da expressão “vender a alma ao Diabo” para obter vantagens, poderes especiais etc.

ALEXANDR   SOKUROV
Quanto à ideia acima, não podemos esquecer que um dos maiores nomes do cinema atual, Alexandr Sokurov, fez uma tetralogia na qual explorou magistralmente o tema. Falo aqui dos filmes Moloch (1999), Taurus (2001), O Sol (2005) e Fausto (2011), que constituem a chamada tetralogia do poder, sobre três figuras históricas do séc. XX, Hitler, Lenin e Hiroito e uma do séc. XVI, Fausto, que “venderam a sua alma ao Diabo”.


FAUSTO   ENTREGA   SUA   ALMA

A história de Dorian Gray, ganha outra dimensão ao nos permitir ligá-la também a muitas outras da literatura, como as de Ulisses (Homero) e de Tannhäuser (Wagner), além naturalmente das de Fausto (Goethe, Thomas Mann ou Sokurov), já citadas, e de outras, inclusive a de Fernando Pessoa, quando pensamos no tema dos heterônimos. Em todas, mais ou menos claramente, temos a capitulação de um personagem diante de um duplo ou da tentação, da conquista de alguma coisa (imortalidade, poder, conhecimento, beleza, arte etc.) pela entrega da sua alma ao Demo. 






sábado, 17 de junho de 2017

LEÃO (2)

                              
SIBILA  ( LEONARDO  DA  VINCI - 1452 - 1519 )

Apolo substituiu, como se disse, a mântica por incubação pela profética, de inspiração direta. Nesta condição, a sacerdotisa, chamada de sibila ou pitonisa, tomada por uma espécie de furor, um delírio sagrado, era possuída pelo deus, entrando num estado de loucura. Platão dava a este estado o nome de mania. As sacerdotisas, divinamente inspiradas, tornavam-se entheos, possuídas pelo deus. Era um estado não-racional a que se dava também o nome de enthousiasmos.
  
 DELFOS , GRÉCIA
Python era o antigo nome de Delfos, situada na montanha, no maciço do Parnaso, nome também do dragão que guardava o lugar. Historicamente foi, ao que aparece, ao fim do período miceniano da história grega que o deus Apolo venceu as antigas divindades femininas, Geia e
AGONES
Têmis, donas do oráculo. Registros míticos nos informam que por este “crime” Zeus fez seu filho Apolo viver no exílio por oito anos. Para celebrar a vitória apolínea, os gregos celebravam anualmente cerimônias, jogos, os chamados agones, a que davam o nome de Píticos.


Dos agones,  jogos públicos, no mundo mítico, faziam parte concursos musicais, hípicos e esportivos. Tinham um caráter espetacular e eram muito apreciados, conforma nos conta Homero, na Odisseia, como aqueles organizados pelos feácios. No período histórico, os agones tinham sobretudo um caráter fúnebre ou religioso. Uns eram realizados em algumas cidades apenas. Outros, porém, congregavam várias das principais cidades, tomando, neste caso, o nome de pan-helênicos. Nesta categoria se inscreviam os jogos Píticos, os grandes concursos de Delfos, os mais importantes depois dos jogos Olímpicos. 


JOGOS   PÍTICOS  -  CERÂMICA


AULODIA
Instituídos por Apolo, conforme narram os mitos, para comemorar a vitória sobre o dragão, a cada quatro anos, acabaram por incorporar provas musicais e físicas (ginástica, pedestrianismo e pancrácio, isto é,  luta-livre e pugilato), terminando por uma corrida de carros. A parte musical era muito importante. Dela faziam parte a composição de um hino a Apolo, provas de aulética (solo de flauta), de aulodia (canto acompanhado de flauta) e de cítara. Nesta mesma parte, tínhamos concursos poéticos e dramáticos, inclusive de pintura. Tudo realizado muito solenemente, sendo coroados os seus vencedores com coroas de louro, árvore-símbolo do deus.   


JOGOS   OLÍMPICOS   

Sob a tutela de Apolo, a sibila (sibilar é falar sibilando, isto é, emitir sons agudos, contínuos, silvos, como as cobras e serpentes; acentuar as consoantes sibilantes ao falar), sentava-se sobre o banco forrado com a pele do dragão, o pequeno trono profético, a trípode, na condição de entheos. Com as pernas abertas, recolhendo as emanações que vinham das profundezas, que deslizavam e acariciavam os seus órgãos genitais, tomada pelo delírio divino, desatava os seus cabelos, e de sua boca brotavam palavras enigmáticas que depois eram interpretadas pelo colégio sacerdotal do santuário. Apolo substituiu a mântica ctônica, a incubatio de Geia e de Têmis, pela mântica por inspiração.


MÂNTICA

RAMOS   DE   LOUREIRO
A primeira, incubatio, tinha relação com a palavra delphys, útero em grego, lembrando via subconsciente. A mântica apolínea equivalia a uma penetração, que gerava, como em Dioniso, o êxtase e o entusiasmo. A pítia era escolhida entre as virgens locais e ficava servindo no santuário até poder assumir a condição de pitonisa, o que ocorria quando chegava aos
CAMPO   DE   CEVADA
50 anos de idade. A sessão profética começava quando a pitonisa ingeria a água da fonte Cassotis, que dava o dom da profecia; a seguir, ela se dirigia para a cripta do templo do deus, invadido pelos vapores, perfumados pela combustão de ramos e folhas de loureiro e de farinha de cevada. Mascando folhas de louro, ela se instalava então sobre o banco, conforme acima descrito. 

PLATÃO ( DA  VINCI ,  452 - 1519 )
Lembremos que o deus, símbolo de um mundo masculino, aristocrático, usava o elemento feminino, mediúnico, a pitonisa, para poder se expressar. Em virtude dos problemas interpretativos que as sentenças oraculares ocasionavam, Apolo foi chamado, na condição de deus da mântica profética, de Loxias, um epíteto que quer dizer obscuro ou melhor, oblíquo. Lembremos que ao longo dos séculos muitas investigações foram feitas em Delfos para se tentar analisar se o pneuma délfico existiu realmente. A conclusão foi a de que havia na região de Delfos um khasma gês, uma brecha no solo que se comunicava com profundezas subterrâneas insondáveis. O pneuma, as emanações, era uma manifestação da invisível presença do deus. Estas exalações, segundo depoimentos da época, quando envolvia o corpo da Pitonisa, infundiam nas suas almas um temperamento insólito e estranho, uma dilatação e uma expansão que podia levá-las a captar impressões do futuro. Lembre-se, como foi dito, que Platão (Timeo) apresentava a faculdade divinatória como um modo de percepção do futuro que afasta qualquer tipo de raciocínio. 

Desde tempo pré-helênicos, o santuário de Delfos recebeu visitantes não só do mundo grego como de inúmeros países mediterrâneos e asiáticos, da Espanha à Ásia Menor. Enriquecido pelas oferendas, pelas doações e sobretudo pelas elevadas taxas cobradas quando das consultas, além das guerras e dos tremores de terra que o alcançaram, o santuário de Delfos foi pilhado por imperadores romanos como Sylla e Nero. Ainda ao tempo do imperador Adriano (séc.II dC), o oráculo estava em pleno funcionamento. Quando o último imperador pagão, Juliano, o Apóstata (331-363) mandou interrogar a Pítia ela proferiu o último oráculo do santuário, uma sentença que, àquela altura, para o mundo romano tinha um sentido de epitáfio: Ide dizer ao rei que o belo edifício jaz por terra, Apolo não tem mais o seu tugúrio nem o seu loureiro profético, a fonte secou e a água que falava se calou.

APOLO  E  DAPHNE
( G.L. BERNINI , 1598 - 1680 )
O loureiro é consagrado a Apolo. Perseguida pelo deus, que contra ela investia sexualmente, uma ninfa foi transformada pelos deuses nesse vegetal, recebendo o nome de Daphne. Arrependido do seu ato, Apolo lhe concedeu a imortalidade e o usou, como vegetal, para simbolizar a vitória, tanto pelas armas como pelo espírito. No mito, é considerada também uma planta que lembra expiação. Um loureiro nasceu no lugar em que Orestes matou seu pai, Agamemnon, do mesmo modo que Apolo o havia escolhido para expiações depois da morte do dragão que guardava o oráculo de Delfos. A pítia e os sacerdotes de Apolo usavam coroas de louro não só porque elas tinham um perfume muito agradável mas também porque elas lhes permitiam se comunicar com os “espíritos da profecia”, com a luz e com o entusiasmo poético. 


AS   MUSAS  ( BALDASSARI  PERUZZI , 1481 - 1536 )

As Musas faziam parte do cortejo de Apolo como deusas das artes, da música e da poesia. Fazia parte do mundo délfico um grupo de adivinhos chamados Daphnefagos, que ornavam a sua fronte  com ramos da planta e que comiam as suas folhas. Eles praticavam a daphnomancia, a adivinhação pelo loureiro: jogavam-se ramos ou folhas do loureiro no fogo e se eles estalassem o sinal era de bom agouro. A ausência de ruídos significava sempre maus presságios. O loureiro era um equivalente da oliveira enquanto símbolo da vitória e da paz. 

Como emblema da vitória, o louro passou a ser usado por várias tradições, servindo para coroar heróis, poetas e artistas. O costume se estendeu à Idade Média, usando-se o louro para coroar inclusive
ASCLÉPIO
os sábios e os novos diplomados pelas universidades, originando-se dessa prática a outorga do grau de bacharel aos que se formavam. O bacharelado era o nome do grau recebido, vindo a palavra do latim, bacca laurea (baga, fruto do loureiro). O loureiro era muito usado na medicina grega não só como purificador, mas como protetor de maus espíritos e de doenças. No centro médico de Epidauro era um símbolo do deus Asclépio, filho de Apolo.  

CIRCE  ( WATERHOUSE , 1891 )
Quanto à cevada, também usada, símbolo da riqueza e da abundância, lembremos que este vegetal, no mito, entrou na composição do filtro mágico usado pela maga Circe para transformar os marinheiros de Ulisses em porcos. A farinha de cevada era usada em fumigações, tendo a mesma função que o incenso como um instrumento de comunicação com o divino. A adivinhação com a cevada, praticada em Delfos, tinha o nome de alphitomancia Foi inclusive muito empregada na Idade Média para se descobrir o que um homem “tinha no coração” ou reconhecer entre muitos suspeitos o culpado. Em alguns ritos de natureza xamanística praticados em Delfos a cevada era muito usada, para curas, dores corporais etc.

A princípio, como divindade do mundo patriarcal, Apolo apresenta características  solares muito impregnadas de instintividade, de violência, de vingança, de belicosidade, como o atesta o seu primeiro apelido, o Licogenes, o nascido da loba. Matador de dragões, subjugador do mundo matriarcal, sua crônica inicial é cheia de agressividade e de orgulho. Aos poucos, contudo, Apolo vai se tornando uma personalidade cada vez mais complexa, reunindo várias tendências contraditórias, para se tornar, com o tempo, um ideal de sabedoria, de harmonia, a própria encarnação do esplendor grego. Nessa forma idealizada superior, como deus da aristocracia ateniense, Apolo representa a busca de uma ascese, que coloque as pulsões eróticas do ser humano a serviço do eu racional, tudo orientado no sentido de uma espiritualização progressiva. 


APOLO   E   AS   NINFAS  ( FRANÇOIS GIRARDON , 1675 )

Todavia, nem sempre Apolo assumiu esse papel no mundo grego. Operado politicamente pela aristocracia, foi utilizado como um patrono do colonialismo grego, inspirador de aventuras militares e econômicas que acabaram por levar a polis grega à derrocada. Além do mais, os valores apolíneos acabaram por se banalizar através de formas pomposas, solenes e vazias. Ao invés de uma divindade que encarnasse o poder soberano, a força nobre, o calor, o poder irradiante da luz, Apolo, nos momentos de decadência do mundo grego, não era mais que uma figura aloirada, de cabelos encaracolados, apenas esplêndida fisicamente, que servia de modelo de uma beleza masculina, ou melhor, de uma masculinidade algo efeminada, não muito convincente, devido às ameaças inconscientes narcísicas e homossexuais e à sua forte atração pelos espelhos. É desta imagem que sai o adjetivo apolíneo (e o nome próprio Apolinário), aplicado a jovens belíssimos, mas
NIETZSCHE
vazios de mente e espírito. Nietzsche usará o adjetivo para designar estados interiores em que há contemplação da beleza e da harmonia, geradores tais estados de sentimentos oníricos e de fantasias que podem afastar todo o sofrimento humano. Ou seja, a contemplação do belo, apenas sob o ponto de vista físico, que levava a um êxtase que transfigurava o ser humano, aproximando-o do divino. Um sentimento diferente, oposto até, um sentimento muitas vezes de horror e sofrimento que a presença de Dioniso causava como um agente da destruição de formas.

CULTO  A  DIONISO ( MOSAICO )
Na cultura do período helenístico, o apolíneo, sob a influência dos filósofos do estoicismo, provavelmente, será considerado na escultura como uma imagem da serenidade, do controle das paixões. É neste sentido que os cultos apolíneos e dionisíacos se confrontarão, temas que a catequese cristã usará para a sua maior penetração, considerando ambos, Apolo e Dioniso, como figuras do sofrimento.

Uma inevitável aproximação que temos de fazer ao signo de Leão é a do mito de Narciso. Este nome, como a etimologia indica, vem de narke, entorpecimento, embriaguez, uma origem que encontra explicações no fato de a flor produzir um efeito calmante. A história de Narciso tem várias versões. A mais aceita nos fala de um jovem, ainda sem nome, filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope. O simbolismo dos rios, como sabemos, está sempre ligado a uma ideia de fluência, de mudança de formas, de transformações constantes, através das quais se aponta para a renovação e, ao final, para uma ideia de retorno à indiferenciação, representada pela imensidão oceânica. Na mitologia grega, os rios eram filhos do deus Oceano e objeto de grande culto, a eles se oferecendo sacrifícios que simbolizam a fertilidade, como cavalos e touros. Fecundantes, podiam, no entanto, os rios, de benéficos, fertilizantes, em destrutivos, ao inundar e matar.


NARCISO  ( CARAVAGGIO , 1571 - 1610 )
A criança que nasceu da relação entre a ninfa e o deus-rio, relação não desejada por aquela, era belíssima, uma beleza jamais vista. Por isso, um excesso, uma hybris, uma desproporção que atemorizava e assustava, já que, se não bem controlada tal beleza chamaria inevitavelmente a ação divina. O menino cresceu chamando a atenção de todos, sendo visto, amado, mas jamais amando. A ninfa Eco, que havia sido privada por Hera da linguagem e do pensamento, caiu de amores pelo jovem, mas impotente para chamar a sua atenção. Foi por isso que, em meio a muito sofrimento, acabou, encostada a um rochedo, por se fundir com ele, transformando-se numa voz desencarnada que não podia senão repetir os últimos sons ou palavras que dos outros lhes chegassem. 

NARCISO  E  ECO
A insensibilidade do jovem provocou a ira de outras ninfas que pediram a intervenção de Nêmesis, a divindade que repunha limites, que combatia os excessos, que curvava os orgulhosos. A deusa condenou o jovem a amar um amor impossível. Um dia, à beira de um lago, ele percebeu a sua imagem nele refletida. Era a primeira vez que isto acontecia. Deslumbrou-se. Nunca se havia visto assim, tão belo. Imediatamente, perdeu-se de incontida paixão pela sua imagem refletida na superfície das águas. Ficou ali por um dia, dois, muitos o viram assim, ali sentado. No terceiro dia, não mais o vendo, alguns se atreveram a se aproximar do lago. Ninguém, as margens estavam vazias, o jovem desaparecera. Procuraram-no. Chegaram mais próximos do lugar onde ele estivera sentado. No lugar, apenas, simplesmente, uma flor, a que deram, desde então o nome de narciso. O jovem havia descido à profundeza das águas do lago. 


ECO   E   NARCISO  ( J.W. WATERHOUSE , 1849 - 1017 )

De início, lembremos que esta mesma ideia de perdição pelo perfume de determinadas flores aparece no mito que descreve o rapto de Kore por Hades. Foi atraída por um campo de narcisos,
NARCISOS
pelo perfume embriagador das flores, criação de Geia, que a jovem se viu atacada por Hades e raptada, indo para as profundezas do mundo ctônico, para a sua “temporada infernal”. Lembremos também que os narcisos eram flores muito usadas na Grécia para coroar a cabeça dos mortos, usadas também pelas Erínias, Moiras e pelo próprio Hades. O narciso era uma flor fúnebre, símbolo da morte. As crianças, na
RAPTO  DE  KORE ( LUCA  GIORDANO , 1634 - 1705 )
antiguidade grega, quando morriam eram enterradas com muitos narcisos à sua volta. Muitas vezes considerado como maléfico em sonhos, o perfume da flor era sempre um sinal de mau augúrio. Seu perfume era perturbador, produzia dores de cabeça, enxaquecas, sendo considerado soporífero, sopitava, fazia dormir, debilitava, tornava dormente, amodorrado, tirando a força e a intensidade. Era, por isso, o narciso muito usada na confecção de filtros mágicos.


RAPTO  DE  KORE  ( SÉCULO  IV  AC )

Entretanto, na medida em que cresce na primavera e em lugares úmidos, o narciso se liga ao simbolismo das águas e dos ritmos das estações, isto é, da fecundidade, advindo daí a sua ambivalência: sono-morte-renascimento. O narciso, com o qual se fabricam poções e xaropes, tinha, para os antigos gregos, o poder de favorecer a fecundidade das mulheres. Dormir num quarto onde houvesse um narciso “era muito bom” para facilitar a concepção. Na Ásia, o narciso, na linguagem das flores, sempre simbolizou a sociabilidade, a cortesia e a amizade, que podem ser atraídas pelo seu uso,  seco, junto ao corpo, encostado na pele. 

No mito de Narciso temos, pois, a ideia central de um desespero amoroso. Incapaz de se destacar da sua imagem refletida, o jovem se tornou escravo do seu próprio encantamento. A psicanálise se
ESTÁGIO  DO  ESPELHO
apoderou do tema para descrever o estágio de desenvolvimento psíquico no qual uma pessoa se apega a si mesma e em cima desse apego constrói uma imagem idealizada de sua personalidade. Os lacanianos chamam esta fase na vida de alguém de o “estágio do espelho”, sempre um momento decisivo para a construção de uma personalidade. 

Para Freud, o narcisismo representa uma etapa no desenvolvimento subjetivo de uma pessoa como o seu próprio resultado. A evolução de uma criança, de um jovem, o levará não só a descobrir o seu corpo como, também, e sobretudo, a tentar se apropriar dele, a descobrir que ele lhe pertence. Isto significa que as pulsões deste ser, em particular as sexuais, tomam o seu corpo como um objeto amoroso. A partir desse momento, há um investimento permanente do sujeito sobre si mesmo, ocorrendo uma espécie de retro-alimentação. 

Freud chamou inicialmente o narcisismo de auto-erotismo. Desdobrando-se, este fenômeno pode também levar o sujeito a investir em objetos externos, somando-se este investimento àqueles feitos no nível egoico. Aos poucos, é possível o surgimento de uma outra forma de narcisismo, quando o sujeito deixa de voltar a sua libido exclusivamente sobre si mesmo, levando-a a se concentrar
MELANCOLIA
em objetos exteriores, nos quais vai buscar o seu prazer. O equilíbrio dos narcisistas é sempre frágil, vê-se constantemente ameaçado, pois a sua construção se baseia sobretudo na ideia de um eu ideal. Freud chegou a apontar certas “doenças” que podem atacar os narcísicos. Uma delas é a melancolia. Outra, muito em moda hoje, é a depressão, não apontada por Freud, mas muito presente, já que uma das grandes molas propulsoras do narcisismo é a mania, a excitação, quadro que faz parte, astrologicamente, do eixo Leão-Aquário. Freud, contudo, deu o nome de narcisismo primário ao modelo que investia acima de tudo no auto-erotismo. À segunda forma, o narcisismo que se dirige para objetos exteriores, ele deu o nome de secundário.

Para Freud, a melancolia é uma afecção profunda do desejo, uma psiconeurose caracterizada por uma perda subjetiva específica do próprio eu. Já a depressão leva o próprio eu a uma auto-depreciação e a um auto- desinvestimento radicais. Sob o ponto de vista astrológico, a excitação, de natureza aquariana, que sempre atua no sentido de criar um hiper-eu leonino (somando-se as fantasias netunianas), por razões diversas (distúrbios da vontade, falta de capacidade mental, física, pressões externas, centradas especialmente nos eixos Asc-VII e IV-MC), sempre de caráter limitador, não pode ser atendida, O início deste processo começa normalmente por uma modificação mais ou menos profunda do humor, do mau humor, melhor, no sentido da tristeza e do sofrimento, que pode acabar em quadros clínicos lamentáveis.


HÉRCULES
Um dos personagens da mitologia grega que melhor nos permite entender o signo de Leão é, sem dúvida, Hércules, herói solar que encarnou as melhores virtudes e os piores defeitos do gênio grego. O mais célebre herói da mitologia clássica, suas histórias, muito populares, nunca deixaram de evoluir e interessar, desde a época pré-helênica até o mundo romano, de Homero a Virgílio. Matador de monstros, vencedor de gigantes, salvador de deuses e de princesas, viajante empedernido, fundador de cidades, guerreiro invencível, herói civilizador, generoso, vingativo, crápula, capaz de ações sublimes e de baixezas inomináveis, suicida, símbolo da virilidade e, por isso mesmo, vítima de ataques “femininos” (disfarces femininos, travestismo, e aptidão para lidar com teares). Hércules é arquétipo do herói (grego) por excelência. 

Filho das forças celestes (Zeus) e das forças terrestres (Alcmena), Hércules é por isso chamado de semi-divino, a imagem do impulso evolutivo de natureza espiritualizante e das suas dificuldades. Vivendo em permanente estado agônico, contraditório, pressionado pela sua desmedida interior (hybris) e pelas suas paixões, procurou sempre conciliar tudo isto de algum modo com suas relações mundanas; representa, por isso, sob o ponto de vista psicanalítico, o conflito permanente do psiquismo humano com as forças da dispersão e da regressão. 


Desde a antiguidade, a figura de Hércules, além presente nas lendas e contos que circulavam entre as camadas populares de vários povos, despertou sempre grande interesse em escritores, filósofos, sábios, artistas, poetas, religiosos. Em Homero, ele é o aristos andron. Sófocles, em As Traquínias, nos deixa os momentos finais da vida do herói, a história da sua morte causada por sua mulher, Djanira, segundo as traquínias (mulheres solteiras de Trakhys, confidentes dela), “a ave sem companheiro”. É nessa tragédia que temos a descrição do suicídio apoteótico do nosso herói. Os pitagóricos, os órficos e os sofistas se apoderarão da figura de Hércules para ilustrar as suas doutrinas. Os dois primeiros grupos vendo-o como um exemplo daquele que precisa “sofrer para compreender”. Os sofistas, numa história de Pródico (séc. V aC), muito interessante, colocarão Hércules numa situação
EURÍPEDES
hamletiana, um ser dividido entre o bem (arete) e o mal (kakia), segundo um texto que tem por título Hercules in Buio (Hércules na encruzilhada). Eurípedes, com o seu teatro das paixões e fazendo inversões cronológicas na vida do herói, usou-o  como tema de sua tragédia Herakles Mainomenos (Hércules furioso). Tendo descido ao Hades (décimo trabalho: captura de Cérbero, o cão infernal), Hércules voltou para encontrar a sua família ameaçada de morte por Lykos, tirano de Tebas. Matou Lykos, mas possuído por Lyssa, a deusa da Raiva, exterminou a mulher e os filhos. Será salvo do desespero por Teseu. Seu sanguinário delírio assassino foi o preço que ele teve de pagar por ter ousado enfrentar as potências infernais. Movido por intensos sentimentos nacionalistas durante os primeiros anos da guerra entre Atenas e Esparta, Eurípedes escreveu Heraclidas, ou Os Filhos de Hércules. Visitou um terreno temático que não era seu. A tragédia, tanto pelas omissões do texto, que nos chegou algo estropiado, como pela falta de propósito artístico é uma das mais fracas do cânone do famoso autor trágico.

HIPÓCRATES  E  GALENO
Hércules sempre se apresentou como um herói paradoxal. De um lado, um campeão do bem, generoso, piedoso, de outro, um ser sempre ameaçado pela loucura, aético muitas vezes, com taras e miasmas inexplicáveis, pois nele tudo é superlativo, grandioso. Hipócrates e Galeno, médico grego o primeiro e o segundo de Pérgamo, da Sicília romana, diante do seu comportamento extravagante, diagnosticaram a epilepsia como o seu principal problema, moléstia que, segundo eles, atacava o corpo e a alma ao mesmo tempo. Outros consideram que o comportamento do herói tem como causa uma forma do paludismo (malária) mediterrâneo. Evidentemente, a corrente médica que defende o diagnóstico da epilepsia é a mais acatada, pois os gregos a consideravam como uma doença sagrada. 

Patrono dos esportes (sua prática favorita era a luta, modalidade olímpica), fundador dos jogos olímpicos e dos jogos nemeanos, deve-se a Hércules a escolha das coroas para premiação dos vencedores, oliveira e aipo, respectivamente. O aipo era usado também nos jogos Ístmicos, lembre-se. Planta aromática, os gregos a usavam o aipo para simbolizar a juventude alegre e triunfante. Nas cerimônias fúnebres, prometia um estado de juventude eterna,
COROA   DE   OLIVEIRA
ao qual o morto devia ter acesso. Já a oliveira, como símbolo, reúne ideias de vitória, força, inteligência, paz, purificação, recompensa, eternidade, consagrada também na Grécia a vários deuses. Passa por ter sido “inventada” por Palas Athena, que, por isso, conquistou o direito de divindade tutelar de Atenas. A oliveira era também de Apolo, na sua condição de deus da Luz. Em algumas versões sobre a sua origem, a oliveira, até então inexistente, teria surgido quando o porrete que Hércules usava (sua arma predileta) foi enterrado, depois de sua morte. 

HÉRCULES  E  LEÃO  DE  CITERON
O leão aparece na história de Hércules em dois momentos. Primeiramente, ele está presente quando da efebia do nosso herói, Aos dezoito anos ele matou o leão de Citeron. Depois de esfolar o animal, Hércules passou a usar a sua pele como proteção, constituindo-se ela, desde então, no  principal signo distintivo de sua iconografia. A cabeça do animal ele a usará como um elmo. O animal aparece também no seu quinto trabalho, cujo cumprimento o levou a enfrentar e matar o famoso leão de Nemeia (Bosque da Lei), que tudo destruía. Por esta razão, para glorificar o seu filho, Zeus colocará o leão entre as constelações do Zodíaco.


HÉRCULES
O ciclo de Hércules se estendeu por toda a Grécia e a leste e a oeste (Ásia e ocidente europeu), seguindo as rotas de expansão do colonialismo e do comércio gregos. Além das significações religiosas, filosóficas, políticas, Hércules, como personagem, é sempre uma figura viva, humana e contraditória moralmente, características que sempre lhe asseguraram uma grande popularidade ao longo dos séculos.