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quarta-feira, 22 de novembro de 2017

ESCORPIÃO (2)

                                           
CONSTELAÇÃO   DE   ORION
Outra história da mitologia grega que mantém muitas relações com o universo escorpiano é a do gigante Orion. No mito, ele tem uma personalidade orientada instintivamente, dominada por paixões imperativas, por ideias e valores animados por pulsões violentas. Em Orion, sempre, as pulsões pela vida levadas ao extremo coexistem com um espírito tanático, uma ambivalência como a encontramos na frase de Nietzsche: O amor pela vida é, quase, o contrário do amor por uma longa vida, aplicável a alguns escorpianos. Não é por acaso que se diz de pessoas que têm este temperamento que elas têm “o Diabo no corpo”, um modo de viver que se caracteriza pelo desejo de ser sempre mais do que se é, um desejo que afasta sempre qualquer possibilidade de bem- estar e de satisfação. Uma angústia de viver que se alimenta de inquietações, exasperações, tormentos, agressividade e convulsões.  

Contam as várias versões do mito de Orion, todas descrevendo-o como um ser de extrema sensualidade, que sempre pontilharam a sua vida  cenas de vinho, de sexo, de violência e de vingança. Entregue a uma de suas grandes paixões, a caça, diz a lenda que ele chegou a ameaçar de extermínio os animais da terra, pondo assim em risco de destruição não só os ciclos da vida animal como os da ordem natural, ambas um reflexo da lei cósmica superior. Sendo-lhe oferecida, pela deusa Eos, uma oportunidade para se redimir, ele não conseguiu se libertar das suas tremendas pressões instintivas interiores, demoníacas, mantendo-se fixado no seu papel de grande sedutor, sempre belíssimo, esplêndido fisicamente, atraindo deusas e mulheres que a ele se entregavam, impotentes diante do seu poder de encantar, de fascinar. 


ÁRTEMIS
Uma das versões do mito nos conta que a deusa Ártemis, outra grande caçadora, ignorando as façanhas do nosso herói, que se gabava de ter livrado totalmente a ilha de Chios de perigosos animais, o convidou para acompanhá-la nas suas andanças cinegéticas. Apolo, irmão de Ártemis, que aliás não tinha muito sucesso com as mulheres, prossegue a mencionada versão, não viu com bons olhos essa “amizade”. Além disso, Apolo jamais esquecera que Orion havia partilhado o leito de Eos, a Aurora, na ilha de Delos, lugar sagrado, onde ele e a irmã haviam nascido. Por causa dessa grande indelicadeza da deusa da aurora com relação a ele, Apolo, o deus da luz, dizem as más línguas, foi condenada por Zeus a jamais deixar de se ruborizar. 




ORION   CARREGA   ÁRTEMIS
Apesar da segurança com que Ártemis conduziu a sua aproximação com Orion, alegando que nada poderia lhe acontecer, Apolo alimentava temores com respeito a essa relação, no que teve razão. Logo nos primeiros contactos com Ártemis, Orion deu mostras de seu descontrolado temperamento, atacando-a sexualmente, dando vazão ao seu invencível furor erótico, certamente atraído pela beleza física da irmã de Apolo.

A indignação de Ártemis diante da afoiteza e da petulância de Orion foi enorme. A deusa, como sabemos, gozava do privilégio da
ORION   E   ESCORPIÃO
virgindade, concedido por Zeus quando presenciou horrorizada o sofrimento da mãe, Leto, ao dar à luz ao irmão. O revide veio incontinenti: Ártemis arrancou das profundezas do terra um aracnídeo gigantesco (um ser até então inexistente na natureza), um escorpião, que, apesar luta de Orion para dele se desvencilhar, o picou no calcanhar, ferindo-o mortalmente. Por essa razão é que ambos, Orion e o escorpião, foram para os céus, transformados em constelações, para que a história deles nunca mais fosse esquecida.

Este episódio da morte de Orion nos faz lembrar que o calcanhar é um lugar, sob o ponto de vista astrológico, tradicionalmente considerado como ariano no corpo humano, muito vulnerável. Comuns as histórias, em mitos e lendas, que nos falam de ferimentos ou da morte de deuses solares, heróis e reis, atingidos nesse ponto. Só para citar alguns exemplos, temos, na mitologia egípcia, o deus solar Ra (serpente) e Harpócrates (escorpião); na mitologia grega, Aquiles (flecha), Talos (farpa), Édipo (argola); na mitologia escandinavo-germânica, Balder (visco); na mitologia védica, Krishna (flecha) etc. 

RAPTO   DE   KÓRE


Quando falamos do signo de Escorpião não podemos deixar de lembrar e voltar à história do rapto de Kóre, a jovem filha de Deméter, arrancada das suas inocentes brincadeiras juvenis quando colhia flores, na ilha da Sicília. Está hoje suficientemente reconhecido por todos que se voltaram para esta história que o Senhor do Inferno, Hades-Plutão, sem solicitar o consentimento de Deméter, sua irmã, “negociou” a sua união com a jovem com Zeus, seu irmão e pai da menina.

Zeus, ao que parece, nunca levou em consideração se a presença dos mortos (que não passavam, para os gregos, de sombras lamentáveis no Hades), com as suas queixas e lamentos, se as lúgubres trevas do reino infernal seriam de natureza a alegrar o coração da sua jovem filha. Nunca se perguntou também como a jovem viveria o brutal sequestro. Ele viu certamente o irmão como um “bom partido”, pois governava uma parte importante do universo. Ao concordar com o rapto, Zeus prestava, sem dúvida, um grande favor ao irmão, que não conseguia uma “rainha” para o seu reino, por motivos óbvios, apesar do título que a candidata escolhida ostentaria. E o mais importante, talvez, pois essa união sempre contribuiria para que o irmão, agradecido, não alimentasse ideias de atentar contra a sua soberania universal, como era costume acontecer entre os membros das elites divinas governantes.

Quando associamos o Hades grego ao signo de Escorpião, não podemos deixar de abrir um generoso espaço para o importante papel que nessa relação desempenha a história de Kóre-Perséfone.
PERSÉFONE   E   ROMÃ
 ( MAIA  RAMISHVILI )
Kóre, em grego, quer dizer jovem, donzela, o contrário de Kóros jovem, rapaz. Às vezes, a palavra é usada com o sentido de thygater, filha. No mito, nasceu ela da união de Zeus, o Senhor do Olimpo, com Deméter, a  deusa da terra produtiva. Um dos símbolos de Kóre era a semente, a própria imagem da alternância entre vida e a morte, lembrando tanto vida subterrânea como vida manifestada na superfície da terra. Raptada por seu tio, Hades-Plutão, levada para o Inferno, transformou-se em Perséfone, uma dualidade que nos coloca diante de dois arquétipos, o da jovem virgem e o da rainha do mundo infernal.

De um modo geral, Kóre é o arquétipo da jovem inconsciente quanto à sua personalidade visível nos seus relacionamentos com o mundo.  Possuídas por esse modelo, muitas jovens costumam erotizar bastante a sua aparência, o seu comportamento, a sua maneira de ser, colocando as pessoas à sua volta num estado de excitação e até de paixão amorosa muitas vezes incontrolável. O arquétipo de Kóre nos remete a uma das proposições mais importantes do tema da sedução: é mais pelo seduzido que pelo sedutor que a sedução se realiza. 

Realmente, apesar da sua imagem de “atacante”, o sedutor atua sempre nesse processo sob pressão. Ele é, digamos, constrangido a atacar. Seu ataque é comandado por aquele (a) que será a sua vítima. Todo sedutor é, assim, “forçado” a seduzir pela sua “vítima”. O que temos aqui é algo semelhante ao contrato masoquista, um contrato comandado pela vítima. Ao longo da história do homem, esta maneira de ser poderá ser facilmente constatada, sendo inúmeros os casos em que o sedutor não passa de uma marionete do seduzido. Bastante indecisa, às vezes falsamente ingênua, a jovem virgem Kóre, como uma flor, oferecendo os seus encantos aos que passam, “nunca sabe  bem o quer”, mas espera que algo lhe aconteça, que alguém a “colha” e que sua vida então mude.

A flor, como sabemos, se desenvolve entre a terra e água, princípios passivos. Suas pétalas, seu cálice, tudo nela é receptáculo da luz, da chuva, do orvalho, dos ventos, e, como tal, é dependente da atividade celeste. As flores, além de presentes em
ASFÓDELO
todas as etapas da vida (nascimentos, aniversários, celebrações, casamentos, mortes), sempre tiveram um papel importante no jogo da sedução, na literatura galante. Para os antigos gregos, a proximidade e/ou a inalação do perfume de certas flores era perigoso, como no caso de narcisos, asfódelos, jasmins, jacintos, camélias etc., todas presentes na mitologia grega, dela fazendo parte, às vezes, como importantes personagens. As flores brancas, particularmente aquelas que são muito perfumadas, segundo a tradição mediterrânea, podem até atrair a alma de pessoas mortas. 


NARCISO
O narciso, na mitologia, coroava a cabeça de várias divindades, das Erínias, das Moiras e, muitas vezes, do próprio Hades, sendo neste caso um símbolo do entorpecimento, da morte como um sono profundo. Como já se disse, narcisos , pelo seu perfume perturbador e soporífero, são ideais para a confecção de filtros mágicos. Diz a tradição que uma mulher que receba de um homem um buquê de narcisos ficará presa a ele, não conseguindo tiraá-lo mais da sua cabeça. 

O mito nos revela que, Kóre foi raptada quando, num prado da Sicília, junto com algumas jovens amigas, colhia flores. O mito nos revela mais que Kóre, ao contrário das amigas, se sentiu particularmente atraída por uma região mais seca do terreno, onde só havia um tipo de flores, de pétalas brancas, com uma pequena
NARCISSUS   SEROTINUS
coroa amarela no centro. Essa flor, conforme se comprovou posteriormente, foi criada especialmente pela Grande-Mãe Geia para auxiliar Hades-Plutão a raptar a jovem. Extremamente odorífica, dessa flor, chamada tecnicamente de Narcissus poeticus, às vezes confundida com o Narcissus Serotinus, os homens aprenderam a  extrair um óleo, muito usado na fabricação de perfumes. Atualmente, ao que me consta, ele entra na composição de dois perfumes muito famosos, Fatale e Samsara. O perfume do óleo do narciso lembra uma mistura do perfume de duas flores, do jacinto e do jasmim. De todas as espécies de narcisos, o poético é o mais perigoso. Pessoas que dormem ou que permanecem por algumas horas numa sala fechada onde houver narcisos poéticos correm o risco de sentir enjôos, náuseas, vômitos, fortes dores de cabeça. 

O complexo de Kóre vem sendo atualizado pela literatura, pelo cinema e, sobretudo, pelos meios de comunicação de massa (publicidade) através de vários estereótipos como lolitas e ninfetas, adolescentes que procuram sempre despertar o desejo sexual, modelos de comportamento muito ativos hoje tanto na área heterossexual como homossexual. Lembro que os norte-americanos, desde os tempos do cinema mudo, puseram em circulação o termo waif (gamine, em francês) para designar esse
AUDREY   HEPBURN
modelo, uma mistura de sexo e inocência, caracterizado por mulheres de aparência infantil, aparentemente frágeis, que pareciam “pedir” proteção, mas ocultando por trás de sua aparência, sutilmente erotizada, muita malícia, nocividade e perniciosidade como sedutoras (Audrey Hepburn é um exemplo clássico). Eram perigosas e sexualmente estimulantes. O grande arquétipo desse modelo é, sem dúvida, Kóre, “raptada” por Hades, o deus dos Infernos, com o consentimento de Zeus, o próprio pai. 

É preciso ressaltar, porém, que, se esse rapto foi um “trágico” acontecimento para Deméter, não o foi, como se disse acima, para a Grande-Mãe Geia,  que o viu como natural, como “algo” que faz parte da própria vida. Ela colaborou, como “sábia anciã”, para que o rapto se consumasse, não só permitindo que o  cenário fosse montado adequadamente (os atraentes narcisos) e também se “abrindo” para que Hades pudesse subir à sua superfície da terra para atacar a jovem  e depois voltasse ao seu reino subterrâneo. Do ponto de vista de Geia, tanto a sedução como a morte não têm nada de trágico, são acontecimentos que fazem parte do devenir da própria existência. 

O poema homérico nos diz sobre esta passagem que o narciso era um engodo, um favor de Geia, para aquele que recebe tantos, expressão pela qual os poetas se referiam a Hades Este deus era também poeticamente conhecido pelo nome grego de Pluton, nome retirado de uma palavra grega que significa rico. Ou seja, Plutão é o de “inumeráveis hóspedes” (uma referência às almas que recebia em seu reino) e o “muito rico” (uma referência aos tesouros e riquezas inexauríveis que a Terra guardava nas suas entrenhas).  

Narciso vem de narko, sono, narkê, torpor. A flor, entre os gregos, era vista como narcoléptica (narkê, torpor, e lepsis, ataque, rapto), sugerindo, por seu perfume, ideias de sono, morte e diminuição  do nível da consciência. Em razão de sua forma, que lembra o lírio, o narciso aparece ligado à corrupção da virgindade, da pureza. O narciso era também flor muita usada em ritos funerários, ornando os cadáveres levados para inumação nos cemitérios.


RAPTO   DE   KÓRE

A “perdição” de Kóre, como tudo indica, foi apoiada pela Grande-Mãe, que se tornou assim cúmplice de Hades, pois para ela o mundo subterrâneo (o subconsciente, se quisermos) também fazia parte da natureza (vida consciente). A história de Perséfone nos permite perceber todo o dualismo de seu mito, ou seja, o de se ver o mundo inferior como o mundo das almas e o mundo superior como o da luz, da vida física.  Ou seja, para que a vegetação pudesse crescer na superfície da terra, era preciso uma descida ao mundo ctônico. O “invisível” dando origem ao “visível”. Tomar consciência será assim ter percepção do “invisível”, do mundo inferior.

A jovem Kóre, enquanto vivia exclusivamente presa à mãe, não tinha nenhuma consciência de si mesma, da sua beleza, não conhcia os seus motivos subjetivamente, apenas existia simbioticamente.  Fazia-se sedutora para ser colhida, uma flor. Não percebia o quanto atraía sexualmente. Vivia para oferecer ao mundo a sua imagem mais desejável; por isso, mudava semore,  constantemente, adaptando-se como um caleidoscópio.  

A palavra Kóre em grego era usada também para designar a pupila
Adicionar legenda
(menina) do olho que, a rigor, é um vazio, isto é, um orifício situado no centro da íris que, ao se contrair ou dilatar, permite regular a quantidade de luz que penetra no olho. Daí, os outros sentidos que a palavra pupila toma, sentidos  úteis para apreendermos tudo o que arquetipicamente a jovem filha de Deméter pode significar. Pupila é aquela que um educador, um mestre, deve educar, aquela que deve ser tutelada por alguém; é uma protegida, uma educanda, uma noviça. Os gregos davam às bonecas também o nome de kóre, um simulacro do corpo feminino.

Invariavelmente, todos os que se voltaram para o tema de que tratamos falam da filha de Deméter como vítima, a que foi abduzida. O sedutor, no caso, é o deus soturno de um reino para o qual ninguém desejava ir, deuses ou mortais, dono de uma força viril ativa irresistível diante da qual o feminino (passivo) não tinha outra alternativa senão a de se render, se entregar, abandonar-se. A sedução, nessa perspectiva, é sempre apresdentada como um jogo a dois, no qual um (o mais forte) ganha e o outro perde, presente a dialética do dominador e do domimado (O D/s dos psicólogos). 

Apesar de toda a diversidade dos personagens que costumam tomar parte neste jogo, não podemos admitir que a sedução (seducere, etimologicamente, desviar do reto caminho, tirar de lado) seja simplesmente um  querer fazer mal consciente, um constrangimento imperativo irrecusável por parte de quem o pratica. Neste jogo, muitas vezes, o que parece ser o vencedor, como dissemos, aquele que aparentemente se beneficia do ataque (que colhe a flor), nem sempre é quem dá início ao jogo ou aquele que se delicia mais. É claro que sob um ponto de vista teológico, etimológico ou jurídico os sedutores serão sempre o Diabo ou um grande libertino, grandes pecadores, criminosos etc. No Direito Penal brasileiro, por exemplo, sedução é o crime de se manter conjunção carnal com mulher virgem entre 14 e 18 anos, com

aproveitamento de sua inexperiência e/ou justificável confiança. O aparecimento do sedutor (oportunidade, circunstâncias etc.) é determinado em grande parte pela parte seduzida. Na vida religiosa, este princípio pode ser assim expresso: todo místico acaba sempre encontrando o seu deus. Na vida libertina, é o caso do Don Juan descrito por Kierkgaard, seduzido pelas mulheres das quais ele já havia se tornado cativo.

Essa questão de se considerar a sedução simplesmente como um desvio maléfico deve ser revisada, admitir outra leitura, que não fique restrita ao ponto de vista dos jogadores. A sedução é, efetivamente, um desvio maléfico, em muitos casos, mas noutros (em grande parte, talvez) não o seja. Refiro-me, sob o ponto de vista factual apenas, às delícias da sedução, efêmeras ou duráveis,
( F. M. CARMONTELLE, 1750-1825 )
mas sempre delícias. Dentre todos os exemplos para reforçar o que aqui se afirma podemos ficar com os casos mais “difíceis”, o da sedução das “mulheres austeras” ou “as aquecidas pelo Divino”, as “loucas de Deus”, as que formam aquele grande contingente das esposas místicas em todas as religiões. Choderlos de Laclos tratou delas e a Igreja católica transformou muitas mulheres raptadas como Kóre  em santas. 


No tocante às religiões (refiro-me aqui de modo especial ao Cristianismo), é oportuno lembrar, quando seduzidas pelo divino, as mulheres, absolutamente, segundo a ortodoxia dominante, não se desviaram de nada, nem de si mesmas; foram promovidas, colocadas numa categoria especial, foram santificadas, tornando-se dignas de veneração e respeito. Gozaram, simplesmente, por ele
SÃO    JOÃO   DA   CRUZ
possuídas, pelo divino. Quando se trata de homens então, os casos parecem ser bem mais interessantes, pois nos põem mais profundamente diante da chamada feminilidade da alma mística, a “alma-esposa”. São João da Cruz entendia disto muito bem, referindo-se a si mesmo no feminino. Estes seduzidos, homens ou mulheres, são sempre extremamente sedutores. É extensíssima, como sabemos, em todas religiões a galeria dos seduzidos pelo divino, mulheres e homens.

Todos os fenômenos religiosos que nos falam de penetração pelo divino, do toque do divino, conversões, religiões reveladas, de mistério, participações rituais, transes oraculares, profecias etc., têm inegavelmente uma forte conotação sexual. Para receber o divino temos que nos tornar femininos, esvaziarmo-nos, como no caso do ekhstasis dos Pequenos Mistérios em Eleusis. Platão, por exemplo, associa o conceito de possessão pelo divino (enthousiasmòs) a um estado não-racional, feminino. 

PLUTÃO - HADES
O que temos na realidade, em muitos casos, quanto ao feminino, é que as seduzidas são grandes sedutoras. A mulher seduzida, como o sedutor, também “atira” as suas flechas. Elas, “ao cair”, levam junto o sedutor, o derrubam. Kóre vinha há muito, em que pesem os seus poucos anos de vida, pedindo para ser colhida. Quanto a Plutão - Hades, as consequências de seu ato, como tudo indica, ele as suportará até o final dos tempos, administrando o seu reino em companhia de Kóre, que assumiu o papel de esposa amantíssima e obediente, sob o nome de Perséfone.

Os estudiosos do mito, de todos os tempos, nunca abordaram o day after do rapto de Kóre, sob o ponto de vista de Plutão - Hades.
HÉRCULES  ,  PIRITOO  ,  TESEU
Atendo-nos ao mito, Plutão nunca mais raptou alguém. Aliás, mostrou-se sempre muito consciente dos seus poderes e deveres familiares. Lembremos do modo como agiu (marido exemplar) quando dois fanfarrões, Teseu e Piritoo, invadiram o seu reino com a pretensão de raptar Perséfone. Agiu prontamente, prendendo-os e os mandando para o Tártaro, lugar sem volta. Teseu lá ficaria para todo o sempre se não fosse Hércules... 

O que podemos concluir desse episódio, ligando-o a outros dados “biográficos” de Plutão - Hades, é que ele precisava apenas de uma “esposa oficial”, de alguém para assumir o lugar de “primeira dama” no seu reino. Nunca foi um sedutor como seu irmão Zeus, este sim um grande semeador de filhos, os chamados espúrios, alguém que não admitia negativas diante do seu furor erótico.

CHAPEUZINHO
(J. W. SMITH , 1863 - 1935 )
Sob um outro ponto de vista, psicológico, se quisermos, a ação de Plutão - Hades (função de todo “raptor”) não teve outra finalidade senão a de fazer Kóre tomar consciência do seu corpo como polaridade geradora. Aliás, aquilo que aconteceu a Kóre vem sendo atualizado simbolicamente por várias histórias, como, por exemplo, a do Chapeuzinho Vermelho, na qual Hades, Deméter e Kóre são, respectivamente, o lobo, a avó e a heroína. O rapto de Kóre é, neste sentido, uma “descida” que toda mulher deve fazer não só ao interior do seu corpo, e, dessa experiência, chegar a novas formas de autoconhecimento para buscar outras possibilidades de crescimento.

O aspecto sublime do drama Deméter-Kóre está representado, sem dúvida, pelos Mistérios de Elêusis, doação de Deméter à humanidade, como um grande processo transformador no sentido de uma espiritualização progressiva da vida material, tanto no nível pessoal como coletivo. Não é por oura razão que a divindade condutora dos mystai a Elêusis era Dioniso, o deus das metamorfoses, a divindade que num primeiro momento lembrava a regressão, a supressão das interdições, o mergulho na indiferenciação, para, num segundo momento, significar o renascimento sob uma outra forma. Não nos esqueçamos que a terceira fase dos Pequenos Mistérios, a do enthousiasmòs (literalmemente, deus em nós) se realizava quando Dioniso “possuía” o iniciado. A forte conotação sexual dessa penetração divina é evidente. Todo iniciado que participasse dos Mistérios de Eleusis assumia naturalmente a condição de uma Kóre, isto é, tornava-se feminino, sendo invadido pelo deus. 


MISTÉRIOS   DE   ELÊUSIS

Psicanaliticamente, os Mistérios de Elêusis podem ser vistos como uma proposta de descida à vida subconsciente a fim de serem libertadas as potencialidades lá aprisionadas. É neste sentido que Perséfone seria um símbolo do recalque. É no simbolismo da semente que desce ao interior da terra que devemos procurar a busca de certas faculdades espirituais (a busca do tesouro interior) que levam o ser humano ao autoconhecimento. O guia das procissões noturnas que no outono saíam de Atenas em direção de Elêusis pelo Cerâmico era Dioniso, que, como esclarecia Heráclito, era Plutão-Hades, sob um outro aspecto. Esta identificação se tornará mais clara se acrescentarmos que a mãe de Dioniso era Sêmele, nome que lembra semente, uma personificação da terra, como Deméter, fecundada por Zeus na forma de chuva primaveril.

O retorno de Kóre, por outro lado, à mãe não é mais que a ilustração de um dos subciclos do movimento cíclico das estações. Não é por acaso que no dia 22 de setembro (começo do outono), quando se realizava a epopteia, a contemplação, a consumação dos Grandes Mistérios, Perséfone tinha nessa cerimônia um papel muito importante. Ela, como a venerável Brimo, apresentava à multidão de iniciados Brimos, o menino sagrado, o puer aeternus, símbolo da energia universal que não morre nunca, que a cada ano
TELESTERION
retorna. Os Mistérios de Elêusis falavam de uma solidariedade entre a mística agrícola e a sacralidade da atividade sexual. Brimos era gerado pela grande deusa na escuridão do Telesterion e trazido diante da multidão como símbolo do mystes, o iniciado renascido. Brimos, em Elêusis, era um epíteto do deus Dioniso, a criança sagrada, nascida de Perséfone. É dentro do cenário eleusino que o culto de Dioniso significa uma proposta de mudança, de transformação, de espiritualização de quisermos, na medida em que ele nos fala de morte e renascimento. 

A palavra Brimo, de origem trácia provavelmente, sempre teve o sentido de algo terrível, algo que se presenciava com horror. Traduzia ela também uma ideia de inexorabilidade, aparecendo sempre ligada ao mundo infernal, sendo, por isso, muito aplicada a deusas que tinham relações com esse mundo. O nome era usado às vezes como um qualificativo para designar o que deusas como Perséfone, Hécate ou as  Erínias provocavam, um misto de temor, de horror. A palavra era também aplicada a Deméter, em Elêusis. 

A figura de Perséfone tem, no mito, um caráter ambíguo. Afora os seus “deveres oficiais” nos Mistérios de Elêusis e ao lado do marido, sua história é discreta, não é muito rica de acontecimentos. Perséfone aparece nos trabalhos de Hércules (décimo trabalho), no mito de Teseu (já mencionado), no Orfismo e numa disputa que teve com Afrodite. Quanto ao Orfismo, há apenas a mencionar que quando o famoso cantor trácio desceu ao Hades para resgatar a alma de sua falecida noiva, Eurídice, Perséfone, muito tocada pela grande prova de amor por ele demonstrada, interveio decisivamente, com sucesso, no sentido de obter de seu esposo autorização para a libertação da alma da desditosa jovem.


DIONISO , DEMÉTER , MÊNADES




sexta-feira, 21 de julho de 2017

VIRGEM (2)

ASTEROIDES

A constelação de Virgem teve as suas relações com Deméter ampliadas significativamente quando, a partir do início do séc. XVIII, descobriram-se pequenos planetas, chamados de asteroides, entre Marte e Júpiter. Um deles, o maior, descoberto em 1.802, recebeu o nome de Ceres, uma das “deusas trabalhadoras” da mitologia, da romana, no caso. O outro asteroide recebeu o nome de Vesta (Héstia dos gregos), também, como o primeiro, considerado pela Astrologia como corregente de signo de Virgem. A estes asteroides, juntaram-se outros dois, descobertos mais tarde, de nome Juno e Palas. Os quatro passaram a representar um sistema arquetípico que completava o mundo feminino da Astrologia, “defendido”, antes do séc. XVIII, só pela Lua e por Vênus. Esses asteroides devem ser considerados como aspectos da vida feminina, até então dispersos e fragmentados, que buscavam uma integração mais consequente e um melhor equilíbrio com a antiga preponderância dos planetas que formavam o mundo masculino da Astrologia. 

CERES
O asteroide Ceres tem a ver astrologicamente com a relação mãe-filho. Esse papel sempre foi assumido pela Lua, como regente do signo de Câncer, principalmente quanto aos seus aspectos biológico, emocional e psicológico, e, como tal, relacionados com o elemento água. Ceres se revelou como o arquétipo que tipifica a “mãe terra”, a biológica ou não, a que nutre, cuida, educa e que prepara para a caminhada futura (a passagem de Leão para Libra e assim por diante). As pessoas que têm Ceres em posição de destaque nos seus mapas se identificarão fortemente com um papel materno, protetor. Com Ceres há sempre uma forte ligação com nutrição e hábitos alimentares. No nosso mundo moderno altamente industrializado esse papel praticamente desapareceu. A agricultura, lembre-se, começou a ser envenenada pela química quando os agrotóxicos a invadiram pesadamente no período em que Plutão transitou por Virgo, a partir do final dos anos de 1.950.

DEMÉTER   E   PERSÉFONE
Outro fator importante a ressaltar quanto a Ceres, nome latino da Deméter grega, é o fato de que ela apresenta o seu melhor aspecto quando em companhia de Koré-Perséfone, nos seis meses que duram a primavera e o verão. A deusa se "deprime" quando a filha desce às profundezas da Terra para passar os outros seis meses em companhia de Hades-Plutão. Esse período em que Deméter e Koré-Perséfone passam juntas, quando tudo floresce, poderá ser considerado talvez como aquele em que consigamos integrar melhor as nossas tarefas diárias com as nossas necessidades emocionais.


O símbolo de Ceres lembra o de Saturno invertido. Ceres (Deméter) era uma das crônidas e foi, com seus irmãos, à exceção de Zeus, devorada pelo pai. Sua filha, Koré, também foi raptada, engolida, só que pelo mundo subterrâneo. Uma associação possível poderá ser estabelecida, acredito, entre  Plutão e Ceres sob o ponto de vista astrológico, na medida em que, por exemplo, num trânsito do primeiro, possamos ter que enfrentar simbolicamente uma perda equivalente ao rapto da jovem. Além do mais, a relação de Ceres (Deméter) com as lamentações e estados depressivos (perda da filha) poderá ser muito notável também, na medida em que o asteroide estiver em debilidade ou mal aspectado, principalmente nas suas relações com o signo de Escorpião e com os seus regentes. 


HÉSTIA
Outra divindade que "vive" no signo de Virgem é Héstia, na Astrologia com o nome latino de Vesta, também corregente do signo de Virgem. Héstia é a mais velha das crônidas. Ao repelir as insistentes investidas eróticas de Zeus, mantendo-se intocada, acabou ganhando do senhor do Olimpo o status da virgindade, ou seja, a capacidade de se autodeterminar sem levar em consideração as pressões externas. Sempre recebeu, por isso, homenagens excepcionais, em todos os lares, praças esportivas, casas de arte, templos e repartições públicas. É uma deusa sem histórias. Confunde-se com o centro das casas, a lareira, lugar privilegiado em torno do qual a família deve se constituir. Ao simbolizar a pureza, é honrada quando do início de qualquer atividade. 

FOGO   DOMÉSTICO
( VÁCLAV HOLLAR , 1607 - 1677 )
Héstia era venerada também no centro das cidades como o fogo da pátria, o omphalos (umbigo), um lugar que reproduzia civicamente o que ela representava no gineceu. Héstia não é simbolizada por imagens, recusando-se o arquétipo a qualquer semelhança com a figura humana. Ela é o fogo doméstico, um aspecto específico do mundo que não  é ”ninguém”, que é incorpóreo, mas que a todos congrega. Os romanos conservam o fogo sagrado que a deusa (Vesta) representava também na dependência pela qual se tinha acesso às casas, a entrada, o vestíbulo, um pátio ou pórtico exterior à entrada principal de um edifício. 

A dificuldade que em tempos muito recuados na história da humanidade os homens tinham para conservar o fogo explica a solicitude  e a veneração que cercava este elemento. Hefesto é também uma divindade ligada ao fogo, como Héstia. O fogo de Hefesto,porém, se liga à produção de bens materiais enquanto o de Héstia tem um caráter doméstico, social. A deusa compartilha com Ártemis e Palas Atena o estatuto da virgindade, da castidade, o que as coloca em oposição a Afrodite. 

Héstia encarna o princípio do sacrifício permanente. Controle, reflexão. serviço e sobretudo dedicação são características da atuação do asteroide, tudo ligado à capacidade de se manter fiel a uma escolha ou a uma convicção. Para Héstia não há modismos.
VESTAL (R. MONTI, 1850) 
Evidentemente, a deusa pode levar a um idealismo abstrato ou a uma obsessão alienante. O sentido de respeito e da palavra dada, da observância intransigente de uma tradição, pode tomar um sentido muito negativo, levando alguém, nas suas expressões negativas, a se retirar do mundo, a se isolar socialmente. Num sentido superior, Héstia torna-se, porém, o princípio da purificação da alma através de experiências vividas. As lições de Héstia são sempre as mais austeras enquanto disserem respeito ao auto-domínio. Por isso, quando este asteroide ocupa uma posição de relevo no mapa de uma mulher e há também uma dominante em fogo poderosa através dos planetas pessoais podemos esperar conflitos mais ou menos graves, sérios. 


HÉSTIA
Uma das únicas representações que se conhece de Héstia, entre os gregos, nos mostra uma figura "sem rosto", sem persona. O arquétipo atinge a sua plenitude quando não há (mais) necessidade de um relacionamento em particular, da convivência com outras pessoas, de vida social, para que a pessoa seja o que quiser ser. A Héstia superior é aquela que não se ilude com a necessidade de algo exterior para completá-la. Ao contrário, ela escolhe livremente a direção a ser dada à sua vida, sempre um calor generoso e isento de qualquer possessividade, sendo doação absoluta, portanto. Sempre a rondar o arquétipo, porém, nos tipos astrológicos inconscientes do seu poder, a esquizofrenia e o vampirismo, por ação reflexa do signo oposto a Virgem. 


ASTREIA  DEIXA  A  TERRA ( SALVADOR ROSA , 1615 - 1673 )

Entre os gregos muitos são os mitos relacionados com o signo de Virgem. Um deles é o de Astreia (nome que lembra estrela cadente). Filha de Zeus e de Têmis, titânida, a grande divindade das

leis imprescritíveis, Astreia, segundo o mito, teria vivido entre os humanos na Idade de Ouro e sua missão teria sido a de assegurar ideais de justiça, paz e benevolência entre os mortais. Mas, devido à degeneração do mundo dos humanos (da Idade de Ouro à da Prata, desta à do Bronze e desta à do Ferro), principalmente nos grandes centros urbanos, nas cidades, Astreia retirou-se para viver entre os que pareciam ainda não haver se corrompido tanto, os habitantes dos campos, tudo conforme nos conta o poeta Virgílio (Geórgicas). 

AIDÓS
Astreia, contudo, logo constatou que a corrupção também lá já grassava. Diante disto, a deusa, muito desgostosa, retirou-se, indo para os céus, tomando a forma da constelação de Virgem. Sua irmã, Aidós, o Pudor, também chamada de Vergonha, fez o mesmo, indo para o Olimpo. Os gregos antigos nos dizem que, com Aidós, também subiu aos céus a deusa Nêmesis, a que repunha os limites e curvava os orgulhosos, ambas inteiramente decepcionadas e desesperançadas com relação à miserável raça humana, como nos diz Hesíodo.

Os gregos associavam Deméter, como se disse, ao signo de Virgem. Filha de Cronos e de Reia, irmã de Zeus, uma crônida, portanto, Deméter, deusa do trigo e dos grão em geral, tem a ver com a vida
VIRGEM
das estações, com o crescimento das sementes, a vegetação dos campos trabalhados pelo homem. O longo processo iniciado em Áries, o aparecimento do vegetal, encontra o seu final em Virgem. Os vegetais estão no ponto para serem colhidos. A espiga está pronta para a debulha, momento de separação, o corte do que é impróprio para consumo ou uso. É neste momento também que deve ser levado para os celeiros o que se colheu tendo em vista a sua utilização e o seu aproveitamento futuro ao longo do ano. 

PREPARO   DO   PÃO
Já se disse que a grande força do signo de Virgem está na colheita e na destinação do que foi colhido, na sua utilização, no seu emprego. Em Virgo se “prepara o pão”, em função do que foi cultivado e colhido. Todas as atividades do signo estão representadas de alguma maneira no mito de Deméter. É com base nestas considerações que o melhor exemplo da relação Deméter-Virgo está nos Mistérios de Elêusis. 


Dentre todos os cultos das religiões de mistério do mundo grego, o de Elêusis foi, sem dúvida, a mais importante. Historicamente, lembremos que, por razões políticas e sociais, a aristocracia que, a partir da polis, se instalou no poder ao fim do período arcaico procurava separar por todos os meios os cultos entre as suas divindades, isolando-os para evitar certas “contaminações.” Dioniso e Deméter eram divindades do campo. São divindades ligadas ao mundo vegetal, que falam de morte e de renascimento. Chocam-se, neste sentido, principalmente Dioniso, às vezes violentamente, com as divindades oficiais e aristocráticas da cidade, Apolo e Palas Atena, de modo especial.


MISTÉRIOS   DE   ELÊUSIS

Dioniso e Deméter pontificavam em Elêusis, um lugar de culto distante da cidade, no campo. Os templos de Apolo e de Palas Atenas ficavam na polis, pois eram divindades políticas. Um conflito cidade-campo, pois, e, também, duas propostas de imortalidade que se chocavam. A proposta eleusina punha, de certo modo, em perigo todo um estilo de vida e um universo de valores. Não foi por outra razão que Atenas tentou de várias maneiras interferir em Elêusis. Acabou conseguindo através de famílias sacerdotais importantes (Eumólpidas, Querices e Filidas), assinando-se um acordo pelo qual as cerimônias de Elêusis se tornaram uma festa religiosa oficial do estado ateniense, ficando tudo sob o controle de funcionários indicados pela polis, que entrava com financiamentos, força policial etc.


CERES

O culto de Deméter, como celebrado em Elêusis, falava, como se disse, de morte e de renascimento, a morte da semente no interior da terra, lembrando como tal sua descida para uma permanência no mundo subterrâneo e a sua volta numa outra forma, consequente daquela, representada por um acesso à luz, isto é, do não manifesto ao manifesto. Toda esta simbologia está evidentemente ligada ao trigo, que desempenha um papel fundamental na alimentação europeia desde a mais remota antiguidade. Sempre considerado um dom divino, o trigo, que não nasce espontaneamente, que depende muito do trabalho humano, sempre foi visto como o alimento da imortalidade.



Saliente-se que entre os egípcios o trigo era um dos símbolos de Osíris, o deus das forças vegetais e da ressurreição, que o fez nascer no delta do Nilo. No mito, a Ceres dos romanos, deusa da terra cultivada, significava abundância e, associando-se ao ciclo das estações, renovado anualmente, à esperança de uma vida eterna. Atribui-se igualmente a Ceres (fazer crescer, etimologicamente) a dádiva do trigo aos povos do Lácio e o ensino de técnicas adequadas para arar a terra e cultivar o grão. 

SIBILA   DE   CUMAS
Conta-se que quando os etruscos, povo que já vivia na Itália bem antes da fundação de Roma, invadiu a cidade, ainda recém-fundada, e a fome, pela falta de alimentos, ameaçou dizimar a população, a Sibila de Cumas, consultada, recomendou que fossem introduzidos em Roma os cultos de Deméter, Perséfone e Dioniso. Assim foi feito, ganhando estas divindades, respectivamente, os nomes de Ceres, Líbera  e Líber ou Baco. Em honra de Ceres celebravam-se em Roma os Ludi Cereales ou Cerealia, festividades que se estendiam por uma semana entre 12 e 19 de abril, anualmente.


CEREALIA

Um dos mitos gregos cuja existência é explicada pelo signo de Virgem e pelo signo oposto e complementar, Peixes, é o de Arion (areion, em grego), famoso cavalo mítico de crinas azuis,
ARION
velocíssimo. Arion, o melhor, o mais corajoso, é um superlativo da palavra grega agathos, bom. Etimologicamente, podemos levar estas reflexões para a palavra grega areion, que tem relação muito próxima com Areios, isto é, com Ares (Marte), deus sempre envolvido com cavalos. Lembremos a propósito que o primeiro trabalho de Hércules tem ligação direta com esse animal: a captura dos cavalos antropófagos de Diomedes, filho de Ares. Cavalos, como sabemos, são símbolos do psiquismo inconsciente. Na mitologia grega, são criaturas de Poseidon, que, sob o nome de Hippios, os “inventou”. Arion, no mito, é justamente filho do grande deus do elemento líquido e da deusa Deméter, gerado pela união de Poseidon, na forma de um garanhão, com a deusa. Esse acontecimento se verificou quando Deméter, em visita à terra, na desesperada procura de Koré, a filha raptada por Hades, tomou a forma de uma égua. 



CAVALOS   DE   POSEIDON  ( 1892 , WALTER  CRANE )

Esse encontro de Deméter com Poseidon é a união de dois temas: o começo da utilização do cavalo na agricultura, um importante momento na história da humanidade que dessa maneira foi ilustrado. Descreve-se miticamente a domesticação do cavalo selvagem (psiquismo inconsciente) e sua utilização nos trabalhos agrícolas, ou, de outro, uma associação alquímica entre os elementos fogo e terra. A Astrologia nos deixa claro que o cavalo selvagem (psiquismo inconsciente) emerge do signo anterior,
DEMÉTER
Peixes, governado por Netuno (Poseidon). É em Virgem (Deméter) que se dá a passagem da natureza bruta, da selvageria, à civilização, do sub-humano ao humano. Lembremos que as crinas do cavalo Arion são azuis, cor que, dentre todas, sempre apareceu muito ligado ao domínio espiritual. O azul é ambíguo e em Arion é a “presença” netuniana (Áries é, assim, uma “consequência de Peixes). Pode indicar evolução ou regressão. O azul em muitas línguas traduz uma ideia de embriaguez, afastamento da realidade, altura, perda de consciência. Lembremos que o céu e o mar são sempre representados pela cor azul. 



ERÍGONE  ( FRANÇOIS  BOUCHER , 1703 - 1770 )

Os antigos gregos costumavam também associar a constelação de Virgem ao mito de Erígone, filha de Icário, herói epônimo da região. Conta-se que quando o deus Dioniso resolveu ensinar aos humanos o cultivo da vinha e a produção do vinho, Icário foi o primeiro a hospedar o deus, que logo se apaixonou por Erígone. Amaram-se e da união nasceu um filho, Estáfilo (cacho de uva). Ao partir, Dioniso deu a Icário um odre de vinho com a recomendação de que ele o compartilhasse para que seu culto se propagasse. 
       
DIONISO, ICÁRIO E MERA
Dividido o vinho recebido de Dioniso com alguns pastores da região, todos se embriagaram. Julgando-se possuídos por alguma entidade ou envenenados, os convivas de Icário o mataram. Mera, o cão de Icário, com seus insistentes latidos, revelou a Erígone, que não participara da festa, o lugar em que o corpo do infeliz camponês fora jogado. A jovem, tomada de imenso desespero ao ver o pai assassinado, enforcou-se. Dioniso, em represália, fez com que uma verdadeira epidemia de loucura (mania) atingisse os jovens da região. Consultado, o oráculo de Delfos sentenciou que o castigo se prolongaria até que determinados ritos purificadores fossem instituídos em homenagem ao pastor e à sua desditosa filha. Os assassinos foram severamente punidos e, desde então, para que o fato fosse lembrado para sempre, foi celebrada uma cerimônia, a ser repetida anualmente, em que imagens de uma jovem (Erígone) fossem penduradas nas árvores da região. Esta cerimônia deu origem a uma famosa festa, a das Oscilla (figurinhas), em homenagem ao deus, Liber Pater, chamada na Itália de Liberalia


LIBERALIA  ( ANNIBALE  CARRACCI , 1560 - 1609 )

Na realidade, Líber Pater é um antigo deus itálico, uma divindade rústica da vegetação, identificado como Dioniso. Essa divindade favorecia a procriação e a fecundidade universais, sendo ela considerada como a liberadora do sêmen em toda relação sexual. Na agricultura, ela atuaria na semente depositada no interior da terra. As festas em sua honra eram celebradas a l7 de março e tinham caráter fortemente licencioso. 

Estas cerimônias envolvendo os personagens acima fazem parte da introdução dos cultos dionisíacos em várias regiões da Grécia e, depois, na Itália, onde o deus passou a ser chamado de Baco. Fazia parte também das cerimônias a morte ritual de um cão por ocasião da plantação de vinhas. Há aqui um catasterismo que pertence a um antigo substrato mítico, projetado nos céus, sendo Erígone a constelação da Virgem, Icário o Pastor, a constelação de Bootes, e Mera a constelação do Cão Menor, aparecendo Dioniso como Eleutherios, o Libertador, um de seus nomes. 

O ciclo das estações sempre foi simbolizado de várias maneiras. A forma mais comum de se ver esse drama cósmico no mito foi a de representá-lo através da relação terra-mãe com seu filho. Em várias tradições esse filho é do sexo masculino, sendo ele, além de filho, também amante de sua mãe. São divindades que morrem e ressuscitam anualmente, como temos nos exemplos de Dammuzi e Adônis, respectivamente deuses sumério e fenício da vegetação. Esses deuses morrem no fim do verão e renascem anualmente no início da primavera. Os cristãos medievais viram nessas histórias uma ilustração antecipada do drama da paixão de Cristo, a Virgem Maria (Grande-Mãe) com o seu filho moribundo. 

No mito de Deméter, o filho-amante da deusa é substituído pela figura de Koré-Perséfone, isto é, pela semente, que morre e se multiplica como símbolo das vicissitudes da vida vegetal. Ligada ao simbolismo do ciclo das estações,  a semente é também reveladora da alternância entre a vida e a morte, da vida no interior da terra e da vida na luz, do imanifesto ao manifesto. Daí, a iniciação nos Mistérios de Elêusis procurarem livrar os inciados desta alternância para que eles pudessem se fixar só na luz. 

SÃO   JOÃO   PREGANDO
( RAPHAEL  MENGS , 1728 - 1779 )
A segunda fase dos Grandes Mistérios, em Elêusis, lembrava a morte e o renascimento do grão aos epoptes. É nesta mesma perspectiva simbólica que a parábola de são João pode ser compreendida: Eis que a hora é chegada na qual o Filho do homem deve ser glorificado. Em verdade, em verdade vos digo, se o grão de trigo não cai sobre a terra e não morre, ele permanece só; se ele morre, ele dará muitos frutos. Quem ama sua vida a perde; e que a odeia neste mundo a conservará na vida eterna. É nestes termos que são João anuncia a glorificação de Jesus por sua morte.  



domingo, 30 de outubro de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU - PLUTÃO (5)



TRAVESSIA   DO   INFERNO   ( GUSTAVE   DORÉ )

Lugar lúgubre e tenebroso, o Inferno era, na mitologia grega, o refúgio das almas que, separadas de seus corpos, tinham terminado sua existência terrestre. Os gregos antigos desenvolveram duas concepções, que se sucederam, sobre a geografia do mundo infernal. O Inferno, dizia Circe, a maga a Ulisses, se encontra na extremidade do mundo, além do vasto Oceano. O mundo, com efeito, segundo essa concepção, era considerado como um disco de superfície plana, com algumas elevações, que fazia seus limites com um vasto rio circular, uma espécie de serpente líquida. Esta concepção será substituída pela que encontramos em Hesíodo (Teogonia), que define o panteão grego de uma forma ordenada e coerente.


Antes de Hesíodo, sabia-se que era preciso ultrapassar este imenso rio oceânico na direção do ocidente grego para atingir as desoladas regiões infernais. Terra infecunda, de solo ingrato, lugar inabitado, os raios do Sol nunca chegavam a este lugar. Os únicos vegetais que cresciam nesses confins eram os choupos (álamos) negros e salgueiros que jamais davam frutos. Sobre a superfície, aqui e acolá, cresciam asfódelos, flores fúnebres, depois incorporadas aos cemitérios e encontradas ainda hoje nas ruínas do mundo antigo.

A divindade tutelar do rio-serpente que envolvia a Terra era o deus
OCEANO
Oceano. A matéria oceânica, lembre-se, sempre foi considerada um elemento original que apareceu mesmo antes da criação do mundo material. Na mitologia grega, Oceano, palavra que dá ideia de algo circular, como deus, tem na mitologia grega um lugar importante. Filho de Urano e Geia, divindades da primeira dinastia divina, toda criação partia dele e ao final tudo a ele retornava. 

Ele era o pai de todos os rios que alimentam de água os seres humanos e fertilizam a Terra. Tethys, sua esposa, lhe deu uma multidão de filhas, as ninfas conhecidas pelo nome de oceânidas. Tardiamente, foi representado na arte como um velho robusto, com barbas verdes. Ao seu lado, sempre, um corno taurino a simbolizar a abundância poderosa e nutritiva das águas.


OCEÂNIDAS

FOLHAS   DE  CHOUPO
O choupo, acima mencionado, lembre-se, foi também consagrado a Hércules. Quando de seu retorno triunfal do mundo infernal (décimo trabalho), nosso herói ostentava em sua cabeça uma coroa feita com ramos do choupo; as folhas voltadas para a sua cabeça eram brancas e claras como o dia enquanto as que haviam ficado voltadas para o exterior, isto é, para o mundo infernal, eram escuras como a noite. Foi desde então que as folhas do choupo passaram a apresentar um tom diferente em cada um de seus lados. Anote-se, en passant, que, para fabricar os melhores palitos de fósforo, os grandes fabricantes desse produto sempre deram preferência à madeira dessa árvore. O salgueiro, por sua vez, chamado de chorão, por sua própria morfologia, lembrou desde sempre sentimentos de tristeza, sendo considerado como uma árvore típica de cemitérios. Já o asfódelo, igualmente, sempre, entre os povos do Mediterrâneo, ligou-se também aos cemitérios, por seu perfume entorpecedor.


ULISSES  E  TIRÉSIAS
Perto do Inferno concebido pelos gregos vivia um povo estranho, os cimérios (etimologicamente, os que habitam as trevas), cujo território jamais recebia a luz do Sol, segundo Homero, na Odisseia. Ao buscar contacto com Tirésias, para que ele lhe indicasse o melhor caminho para volta à sua pátria, Ítaca, Ulisses passou pela região onde esse misterioso povo vivia. 

A concepção infernal horizontalizada dos gregos não durou muito, alguns milênios talvez. Esta concepção, como se pode concluir, baseava-se em ideias míticas, e não resistiu aos avanços da geografia. Os navegadores antigos, o próprio Ulisses talvez, descobriram que nos confins do ocidente, no oceano longínquo, onde eles haviam localizado o Inferno, havia países. 

Crenças populares já vinham alimentando há muito uma concepção diferente. O Inferno, o mundo das sombras, se situaria na região subterrânea da Terra, uma região escura, trevosa. A associação do mundo infernal com a inumação dos mortos em covas era evidente. A via de acesso para esse mundo, chamado ctônico pelos gregos, não se daria pelo oceano, ou seja, o Inferno foi deslocado dos confins do ocidente para o interior da Terra. O acesso a esse mundo se dava, era a nova e vitoriosa concepção, por grutas, fendas, regiões pantanosas na superfície da Terra, lugares misteriosos, que todos procuravam evitar. 


TÁRTARO

No ponto mais profundo da Terra, na camada mais inferior do mundo subterrâneo, ficava o Tártaro, região tenebrosa jamais atingida pela luz. A distância dessa região à superfície terrestre era igual à da Terra ao Céu, Urano, para os gregos. Entre a Terra e o Tártaro ficava uma região intermediária, o Érebo, as chamadas
DEMÉTER   E   KORE
trevas inferiores, que fazia contraponto com Nix, as trevas superiores, que se situavam entre a Terra e o Céu. Quando o deus do Inferno, Hades, se uniu a uma filha da deusa Deméter, Kore, por ele raptada, foi acrescentada mais uma divisão na geografia infernal. À região situada entre a superfície da Terra e o Érebo foi dado o nome de Bosque ou Jardim de Perséfone, onde passaram a viver diversas divindades menores, mas nem por isso menos maléficas que as “grandes” do Hades. Estas divindades do Bosque de Perséfone, nome que tomou Kore, como rainha do Hades (também nome da região infernal) e esposa do seu rei, invadiam constantemente a superfície da Terra para, literalmente, infernizar a vida dos  pecadores escolhidos.

Com o tempo, criaram-se os demais departamentos infernais: um para sediar o tribunal encarregado de julgar as almas que para lá eram encaminhadas por  Hermes, na sua função de deus psicopompo (condutor de almas). Noutro departamento se colocaram os Campos Elísios, onde ficariam as almas a aguardar uma próxima encarnação, um retorno à vida, lá permanecendo sem  sofrimento algum.  No Érebo, um lugar de permanência provisória, ficariam as almas que deveriam passar por sofrimentos até uma próxima encarnação.


BARCA   DE   CARONTE   ( JOSÉ   BENLLIURE   Y   GIL )

O reino de Hades era cortado por cinco rios, o Aqueronte, palavra que em grego lembra aflição, o Cocito, nome que lembra lamentações, o Piriflegetonte, o das chamas sulfurosas, o Estige, o que provoca horror, e o Lethe, o do esquecimento. O principal era o rio Aqueronte, que devia ser atravessado pelas almas para o seu efetivo ingresso no mundo infernal. As almas, para atravessá-lo, subiam, depois de pago um óbolo, a um barco conduzido pelo barqueiro Caronte, que as maltratava muito. 

Assim organizado, o Inferno propriamente dito começava por uma
CÉRBERO   ( WILLIAM   BLAKE )
região vestibular, o Bosque de Perséfone. Nele eram encontrados os álamos (choupos), os salgueiros e os asfódelos já mencionados. Era preciso atravessá-lo para chegar aos portões do Hades, guardados por Cérbero, monstruoso cão tricéfalo, de latido de bronze, corpo coberto de serpentes, nascido dos amores de Tifon, o maior dos monstros, e de Équidna, horrível figura feminina, a própria imagem da libido insaciável. Cérbero, quando as almas desciam da barca de Caronte para ingressar no Hades, nada fazia, olhava-as com indiferença. Mostrava todavia uma imensa fúria quando alguma delas tentava escapar do reino que gradava.

Há registros de que Cérbero se deixou “corromper” algumas vezes com bolos de farinha e mel, dos quais gostava muito. O deus Hermes conseguia acalmá-lo com o seu caduceu e Orfeu chegou a encantá-lo com a suas canções e a sua lira. Só Hércules ousou se medir com ele e, tendo-o vencido, o conduziu por  um momento à superfície da Terra. Quando de sua subida, com a sua baba pestilenta, Cérbero envenenou certas ervas, que só algumas feiticeiras conheciam para preparar seus maléficos filtros e poções.

Caronte, o barqueiro, que recebia as almas na forma de eidola (aspecto fantasmagórico tomado pelas almas – alma, em grego, é psikhe), era um velho duro e intratável; se não depositada uma moeda na sua mão, ele expulsava impiedosamente a alma, que ficaria condenada a ficar a meio caminho entre a vida e a morte, numa ilha que ficava no meio do rio Aqueronte, a Ilha dos Mortos. Nesta ilha, observe-se, ficavam também aqueles (as almas) que não tivessem passado pela chamada morte ritual (o cumprimento de vários itens, ritualizados para que fossem devidamente recebidos no Outro Lado). 



ILHA   DOS   MORTOS   ( ARNOLD   BÖCKLIN )

Referência especial merece o rio Lethe, cujas águas faziam esquecer o passado. Aquele que retornasse à vida, depois de uma permanência no Érebo ou nos Campos Elísios, deviam obrigatoriamente beber da água do rio Lethe, para esquecer o que vira e havia vivido no Hades.


 ZEUS  ,  POSEIDON   E   HADES    

O soberano inconteste do Inferno era o deus Hades, irmão de Zeus e de Poseidon. Seu nome deriva de um radical grego que sugere a ideia de invisibilidade. Era chamado eufemisticamente de Plutão (o nome Hades era raramente pronunciado), o rico (ploutos, em grego, quer dizer rico), lembrando essa designação que ele era o “rico de hóspedes”, uma referência à infinita quantidade de mortos que acolhia em seu reino. O adjetivo “rico” referia-se também à enorme quantidade de tesouros que o interior da Terra guardava. Se quisermos mais ainda, numa aproximação psicanalítica, não há como se deixar de relacionar esta concepção do Hades grego com o subconsciente, o mundo subterrâneo do psiquismo humano, lugar ao qual temos de descer para descobrir os tesouros que nele estão encerrados, lugar sempre associado  à escuridão, às trevas.

Foi a partir de todos estes sentimentos, incorporados à vida psíquica do ser humano, que o Inferno passou a simbolizar também o mar noturno do inconsciente que é preciso atravessar, a partir de uma situação de vida consciente, mas cada vez mais angustiante e restrita, para se chegar a um outro lado qualquer. É nessa perspectiva que o Inferno se liga ao nosso processo de individuação, que começa por uma descida à nossa interioridade, às vezes identificada como uma regressão.

Mais ainda: como reino de Hades-Plutão, o Inferno passou a ser considerado tanto como símbolo do recalque como da fertilidade. Nesta condição, é que entendemos o deus como o pai das riquezas, sendo uma de suas representações mais notáveis a que o apresenta com um corno da abundância nas mãos. O reino de Plutão contém todos os valores criativos de que necessitamos para harmonizar a nossa vida, embora eles sempre estejam mal distribuídos e repartidos. Será preciso trazê-los do inconsciente, fazê-los subir à luz do dia. Para tanto, isto só será possível se descermos aos bas-fonds do nosso eu e dali, depois de o vasculharmos e enfrentar os monstros que nele se escondem, procurarmos voltar à luz. Se em tempos passados esta descida fazia parte do comportamento heroico, hoje ela é raramente empreendida. Não há mais candidatos a heróis solitários. Os que se atrevem a realizá-la, na maior parte dos casos, entregam-se a guias totalmente despreparados para conduzi-los. Acho que não há necessidades de discorrer sobre esta assertiva; basta tão só olhar à nossa volta...

REIA   E   CRONOS   
Hades, também chamado Aidoneus, era um crônida, filho de Cronos e de Reia. Ele reinava sobre o seu domínio de modo absoluto, dele saindo muito raramente. Uma vez, com o assentimento de Zeus e auxiliado pela Grande-Mãe Geia, subiu às terras da Sicília para raptar sua jovem sobrinha Kore, filha de Deméter, que lá colhia flores (narcisos) com as suas amiguinhas. Outra
NARCISOS
vez, foi à procura do deus-médico Paeon para ser tratado de um ferimento no seu ombro causado por Hércules. No mais, se em outras oportunidades resolveu sair de seu reino, nada se pode saber, pois ele, ao usar um elmo que recebera de presente dos Cíclopes, gozava do dom de uma total invisibilidade. 


RAPTO    DE   KORE

Hades-Plutão foi um marido nada infiel. Sabe-se apenas que quando Kore chegou ao Hades, sua adaptação foi muito fácil. Ela assumiu logo, muito consciente para a sua pouca idade, o papel de primeira-dama do mundo infernal. A presteza com que expulsou do Hades uma velha amante do marido que lá vivia, Minthe, ninfa do rio Cocito, é uma prova de sua perfeita adaptação. 


NINFAS   DO   RIO   COCITO

É de se destacar, quanto a este episódio, aliás, que Minthe só foi expulsa porque não se conformou com a chegada de Kore. Aguardou por uns tempos a transformação da jovem em Perséfone e pôs-se sorrateiramente a tentar reconquistar um lugar no leito de Hades-Plutão. Expulsa, ou assassinada por Perséfone, segundo algumas versões, Minthe foi transformada pelo deus numa planta de forte odor, a menta. Outros comentam, numa versão mais aceita, que, já conformada com a perda da filha e até orgulhosa da sua posição real, Deméter interveio. Condenou a menta, como vegetal, a assumir uma dupla reputação. A planta, como se sabe, tem tanto um caráter funerário como aparece em muitas tradições como causadora de esterilidade feminina.

Registre-se mais que Hades-Plutão, muito antes do rapto de Kore, relacionara-se, de modo muito passageiro e inconsequente, com outra jovem, Leuce (Branca), uma oceânida, por ele raptada também. Como ela não era imortal, e expirado o prazo fixado pelas Moiras, ela faleceu tranquilamente no Hades. Para imortalizá-la, o deus a transformou num choupo ou álamo muito branco. Esta árvore passou a enfeitar os Campos Elísios. Foi com as suas folhas que Hércules se coroou ao retornar do mundo dos mortos. 

Antigas tradições mitológicas gregas nos falam  que Leuce se transformou na divindade tutelar da famosa Ilha Branca, situada no delta do rio Danúbio, no Ponto Euxino. É nesta ilha paradisíaca, uma espécie de extensão dos Campos Elísios, que vivem eternamente vários heróis gregos. O mais famoso é, sem dúvida, Aquiles que, com o seu grupo, desfruta de uma vida de prazeres, praticando esportes ligados à arte guerreira e amando nos seus momento de lazer Helena, Ifigênia e Medeia.

Nesse contexto, enquanto Hades era pouquíssimo venerado, Plutão
HOMERO
recebia muito mais homenagens. O primeiro, ao representar uma forma divina destrutiva, sempre apareceu associado ao terror, ao mistério, ao inexorável. Já os cultos plutônicos, por suas grandes ligações com a fertilidade, apareciam muito ligados à deusa Deméter. Para honrá-lo, Homero nos informa que a ele eram sacrificados animais negros, carneiros ou ovelhas. 

Perséfone era a esposa de Hades-Plutão. A etimologia (discutível) admite que seu nome lembra algo que se eleva, evocando uma caminhada, como a dos vegetais depois de rompido o hímen da semente, em direção da luz, embora se reconheça que o nome também aponte para uma ideia de destruição. Isto pode nos sugerir que a deusa não tem características puramente infernais, destrutivas, se levarmos em conta que anualmente ela “subia” em direção da luz para se encontrar com sua mãe, Deméter, a deusa da agricultura e dos grãos. Do trigo em especial.



DEMÉTER

Já se levantou a hipótese que mãe e filha não passavam de uma divindade única, em tempos muitos remotos da mitologia grega. Nessa mesma entidade se concentravam os dois aspectos da vida vegetal, um voltado para a superfície terrestre e outro para o seu interior. A história de Deméter nos conta que ela, não podendo obter de Zeus a posse integral da filha, obteve dele a permissão para que ela permanecesse com ela uma parte do ano (primavera-verão). No outono-inverno, a filha vivia no mundo ctônico, uma ilustração, como fica fácil perceber, da morte da semente.

A este episódio se refere a lenda que as seitas órficas procuraram
PERSÉFONE   E   ZAGREUS
enriquecer, tornando Perséfone mãe de Zagreus-Dioniso. Encerrada no reino do marido, Perséfone se tornou imune às paixões que costumam atingir as outras divindades. Isto porém não impediu que ela viesse a disputar com Afrodite a posse do belo Adônis, divindade da vegetação que morre e renasce anualmente, cujo modelo é o deus Tammuz dos povos semíticos.  

Como divindade infernal, Perséfone tinha por atributos o morcego, a granada (romã) e o narciso. Ela era honrada na Arcádia sob os nomes de Perséfone Soteira e Despoina. Era igualmente honrada na ilha da Sicília. De um modo geral, seu culto nunca se dissociou do de sua mãe Deméter. 

Perséfone, encerrada no mundo infernal, não é senão a imagem dos grãos de trigo, mergulhados no interior da terra na estação outono-
MISTÉRIOS   DE   ELEUSIS
hibernal. Com o retorno da primavera e durante o verão, a germinação das plantas corresponde à volta da deusa para junto de sua mãe. Para celebrar esta volta, Deméter instituiu os chamados Mistérios de Elêusis, que transcorriam entre as festas das flores, as Antestérias, no início da primavera, e o outono. No fundo, uma proposta de morte e de
DIONISO
renascimento simbólicos para aqueles que deles participassem. As principais ideias que fazem parte dessa proposta mistérica, da qual participam como divindades tutelares Deméter (pão) e Dioniso (vinho), são a mulher, o feminino, os ritmos lunares, a semente, o interior da terra, a morte, a escuridão, o retorno e o renascimento. 

Por trás desse pensamento mítico-religioso, como fato inspirador, está a atividade agrícola, que no final do período peleolítico substituiu as relações entre os homens e o mundo animal. Ao ingressar no chamado período neolítico, o eixo da vida social passou a se concentrar muito mais no mundo agrícola que na caça e na atividade predadora dos grupos humanos. Aos poucos, foi se estabelecendo uma solidariedade entre os seres humanos e o mundo vegetal. Com isto, a mulher e o mundo da agricultura se carregaram de sacralidade.

As mulheres, a esse tempo, passaram a ocupar um lugar de relevo na vida social, fixando-se um nexo entre a fertilidade da mulher e a fertilidade da terra. Essa mudança ocorreu provavelmente entre 9.000 e 7.000 aC. Ao contrário do que ocorrera no período paleolítico, com a agricultura, o ser humano teve que mudar bastante o seu comportamento. As mulheres tornaram-se responsáveis pela abundância das colheitas, pois tanto conheciam o “mistério” da morte como o do renascimento.

A analogia era inevitável. Destruído o corpo humano (soma, corpo
PSIQUÊ
( EDWARD  JOHN  POYNTER)
físico), desprendendo-se a alma (psiquê), fixou-se em varias civilizações, com base no mundo vegetal, a ideia de morte e renascimento. A perda da energia vital coincidia com a exalação do último suspiro. Daí, a relação entre respiração e alma, fundamento da vida. Psiquê, quando da ocorrência da morte e a destruição do corpo físico, tomava a forma de um fantasma (eidolon) que guardava uma “consciência” latente, podendo ser ativada por certas cerimônias. Era a nekyia, a invocação da alma dos mortos (vide Odisseia).


HESÍODO
Com Hesíodo, séc. VIII aC, passamos a ter uma ideia mais exata do mundo infernal. Abaixo de Geia, a Grande-Mãe, no mais distante dela, ficava o Tártaro, lugar sem volta, para onde iam os grandes criminosos, como se disse. Entre o Tártaro e a Terra, ficava o Érebo, lugar de permanência provisória dos maus. Nos Campos Elísios, ficavam os bons, sem sofrimento algum. 

No Tártaro, havia um compartimento denominado “O Inferno dos Maus”, lugar terrível, para onde iam aqueles que haviam cometido os piores crimes: contra os deuses, a família, a hospitalidade e contra a pátria. Era um lugar de torturas e lamentações. Era nele que as almas ficavam submetidas a castigos eternos, mergulhadas alternativamente em situações de calor e frio extremos. Nenhuma esperança de retorno, de fuga ou consolação. Tudo era triste, mecânico, repetitivo.

O Tártaro era na realidade uma prisão horrível onde eram lançados
CÍCLOPES
( CORNELIS   CORT )  
aqueles que cometiam sobretudo o pecado da hybris, da desmedida, do excesso, que, personificada, passa por filha da Koros, o Desdém. À expressão física da hybris os gregos davam o nome de Hamartia. Os primeiros a visitar o Tártaro foram os Cíclopes (Brontes, Estéropes e Arges), para lá enviados por Urano. Libertados por Cronos, que venceu o pai, logo foram devolvidos ao Inferno pelo seu libertador em companhia dos seus outros irmãos, os gigantescos Hecatônquiros, os gigantes de cem mãos.

Lembremos que para vencer os Titãs, chefiados por Cronos, Zeus teve que se unir aos Cíclopes, dos quais recebeu as armas com as quais conquistaria o universo: o trovão, o relâmpago e o raio. Ao longo dos milênios, para o Tártaro foram enviados os grandes criminosos, lá se encontrando Tântalo, Sísifo, Ixion, as Danaides, Titio, Salmoneu, os Alóadas, os Titãs e tantos outros. 

Tântalo, filho do próprio Zeus e de Pluto, uma ninfa, era rei da Frígia. Ao trair a confiança dos deuses (para testar a onisciência dos deuses serviu-lhes num banquete o próprio filho, Pelops), foi, depois de muitos outros crimes antes cometidos, condenado a sofrer o suplício da fome e da sede eternamente. Sísifo, rei de Corinto, o mais astuto dos mortais, um dos pais de Ulisses, além de outros muitos crimes, tentou enganar Thanatos, a Morte. Foi condenado a rolar eternamente montanha acima uma enorme pedra, na vã esperança de um dia empurrá-la para o outro lado. Ixion, neto de Zeus, cometeu um dos crimes mais hediondos que um ser humano ou mítico poderia praticar: não respeitou a hospitalidade que Zeus lhe ofereceu e tentou investir sexualmente contra Hera, a Senhora do Olimpo. Ixion tornou-se o pai dos centauros, uma raça maldita. Está no Hades, preso a uma roda de fogo a girar eternamente. 


DANAIDES  ( FRANS  DE  BOEVER )

As Danaides estão no Tártaro para toda a eternidade, a encher com água,  tonéis sem fundo. Seu crime: assassinaram os seus maridos. Titio, um gigantesco filho de Zeus, que, sob instigação de Hera, pôs-se a perseguir Leto com quem Zeus se unira para torná-la mãe dos luminares, Ártemis e Apolo. Salmoneu, filho de Éolo, extremamente descomedido, tentou ser, entre os mortais, o que Zeus era entre os imortais. Foi fulminado e lançado no Tártaro. Os Alóadas, gigantescos filhos de Poseidon, possuídos pela hybris tentaram assaltar o Olimpo. Foram mortos por Zeus e lançados no Tártaro, onde se encontram até hoje, amarrados com serpentes a
OS   TITÃS
uma coluna, tendo junto aos ouvidos uma coruja que lugubremente pia sem cessar, dia e noite. Por fim, os Titãs, divindades da segunda dinastia, filhos de Urano e Geia, chefiados por Cronos, foram vencidos por Zeus e seus irmãos, os futuros olímpicos, na famosa batalha denominada de Titanomaquia;  Zeus os lançou no Tártaro. Mais tarde, como se sabe, Zeus libertou seu pai, Cronos, que emigrou para a Itália.

O Tártaro sustentava os fundamentos da Terra e dos mares e nele ficava o palácio de Hades-Plutão, cercado por um tríplice muro de bronze. Era um lugar onde a luz jamais poderia chegar. Era um lugar de torturas e lamentos. Aridez, tanques gelados, lagos de enxofre, pez fervente. Mergulhadas alternativamente nesses tanques, para sofrer o frio e o calor extremos, as almas, quando não estavam nessa situação, permaneciam presas às chamadas “cadeiras do esquecimento”. Nenhuma esperança de retorno, de fuga e muito menos de consolação. 

O Érebo  (obscuridade) era a camada intermediária, como vimos, constituindo as trevas inferiores por oposição e complementares às de cima, representadas por Nix, a grande deusa da Noite.  Dele se passava ao Tártaro. Guardava a entrada desta região o cão tricéfalo Cérbero. Nela ficava também o palácio de Nix, onde ela vivia em companhia de dois de seus numerosos filhos, Thanatos e Hipnos, a Morte e o Sono. O Érebo era um lugar de permanência provisória (100 anos, segundo algumas tradições), onde as almas, por crimes menos graves, depois de julgadas e condenadas, ali ficavam em meio a grande sofrimento aguardando seu retorno ao mundo dos vivos.


HESPÉRIDES  ( HOWARD  DAVIE )

O território preambular pelo qual se tinha acesso ao mundo infernal através de entradas na superfície da Terra era, como vimos, o Bosque de Perséfone (uma zona de transição entre o consciente e o inconsciente, numa leitura psicanalítica). Nesse lugar, logo nos seus limites mais próximos da Terra, numa advertência muda aos que desciam, havia três grandes árvores, o cipreste, o salgueiro e o álamo. Associavam-se essas árvores, na Terra, às três ninfas do poente, as Hespérides, Egle (cipreste), Eritia (salgueiro) e Hesperaretusa (álamo). Isto é, a Brilhante, a Vermelha e a do Poente, o princípio, o meio e o fim do percurso solar, significando, respectivamente, Amor (Doação), Desapego (Sabedoria) e Compaixão (Serviço).

O Bosque de Perséfone era lúgubre, iluminado muito precariamente, nada se distinguindo nele, a rigor. Situado entre a
HÉRCULES  E  GERAS
superfície da Terra e o Érebo, ali viviam espectros. Fantasmas, seres que se haviam fixado num estado entre a vida e a morte. Dentre esses espectros, representados por divindades alegóricas, destacamos: Algos (Dor); Geras (Velhice); Limós (Fome), Ponos (Fadiga), Metanoia (Arrependimento), Koros (Desdém, Deboche) e sua filha Hybris (Desmedida); Penthe (Luto); Apate (Fraude); Sicofantia (Calúnia), sempre precedida de Ftnos (Inveja); Tryphe (Luxo); Lyssa (Fúria); Até (Erro); Penia (Pobreza), Strofe (Chicana), cujo templo ficava no Palácio da Justiça, sendo seus ministros os juízes, os procuradores, os tabeliães e os advogados. 

Compartilhando o território com as entidades acima, com a mesma importância ou até maior, perambulavam por ele divindades e
ERÍNIAS
monstros como Eris (Discórdia), as Erínias (As Fúrias), os Centauros, os Gigantes, a Hidra de Lerna, as Górgonas, as Harpias, a Quimera, os gêmeos Fobos (Horror) e Deimos (Pavor), Enio (Grito de Guerra), o casal Tifon e Équina. No centro do Bosque, havia uma árvore gigantesca, um olmo copado, árvore funerária, onde residiam os sonhos quiméricos. Este olmo era alimentado pelas águas do rio infernal Aqueronte. De sua madeira eram feitas as varas de punição, tudo o que as referidas entidades, usavam para açoitar e vergastar a triste raça dos mortais.

HÉCATE
Junto do palácio de Hades-Plutão vivia Hécate, a que “fere de longe”, deusa trívia lunar, muito respeitada, que a cada vinte e oito dias subia à superfície da Terra, para pontificar nas encruzilhadas, lugar de transformações, de viradas de destino, poder que dividia com o deus Hermes. Profundamente misteriosa, ela tinha correspondência com a Lua Nova. Presidia as aparições de fantasmas e espectros, sendo tanto a senhora dos benefícios como dos malefícios. Devidamente reverenciada, sempre aparecia ligada aos cultos lunares de fertilidade. A aparição da deusa nas noites de Lua nova lembra que as encruzilhadas são tanto lugares de parada e de reflexão como da escolha que se deve fazer de direções que mudam destinos. Nesse sentido, a encruzilhada é também o lugar onde é possível a alguém desfazer-se do passado para assumir uma nova personalidade.