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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

DOENÇAS, NOMES, SUPERSTIÇÕES

                   
As doenças têm nomes e apelidos. Chamar uma doença pelo seu nome verdadeiro pode causar prejuízos, atraí-la, diz uma tradição popular encontrada em muitas civilizações desde a antiguidade. Aqui, entre nós, não se deve dizer, por exemplo, morfeia ou lepra, mas, sim, doença-de-são-lázaro.  Às vezes, o apelido é usado para encobrir a vergonha de se ter o mal. Os moços, outro exemplo, podem se orgulhar de ter gonorreias, umas depois das outras. Já os casados ou os mais idosos se referem à gonorreia como “doença de mulher”, “doença apanhada” ou “loucura da mocidade”. 

No geral, a esse artifício que usamos para suavizar palavras ou expressões da nossa comunicação verbal ou escrita, alguns estudiosos dão o nome de eufemismo. Esta palavra vem do grego eu (agradável, correto, bom) e pheme (palavra, expressão); juntas elas formam o verbo euphémein (dizer palavras amáveis).

LUCAS
Chamar a lepra de doença-de-são-lázaro é, contudo, um erro que a tradição popular vem mantendo, pois o Lázaro a que ela se refere nunca foi canonizado pela Igreja católica. Era ele o pobre mendigo, todo coberto de chagas, que vivia junto da porta da casa de um homem muito rico, conforme está no Novo Testamento, em Lucas. O Lázaro canonizado, santo, é o irmão das três Marias  (Maria Madalena, Maria, esposa de
LÁZARO
Cleofas, e Maria, mãe de Tiago. Este  Lázaro, a quem Jesus ressuscitou, veio no séc. I não só com as três Marias mas, também, com Marta, irmã de João, e outras pessoas, da Palestina para Marselha, cidade da qual  ele se tornou o primeiro bispo, sendo nela martirizado,  celebrando-se sua festa no dia 25 de maio. Esta história, tida  como fantasiosa por meios católicos mais sérios, nada tem a ver com a do outro Lázaro, o leproso, narrada por Lucas. 



AS  TRÊS   MARIAS ( ANTÔNIO BRILLA , 1813 - 1891 ) 

Em muitos meios sociais, um dos nomes mais evitados, quando se fala de doenças, é, por exemplo, o da sífilis, mal infeccioso transmitido principalmente por contacto sexual. Suavizando um pouco o nome e o que ele representa (possibilidade de ulcerações, cancros, erupções cutâneas, manifestações neurológicas etc.) comum chamá-la de doença francesa, porque muitos eram (são) vitimados quando de suas visitas a bordéis, que sempre gozaram de muita fama por causa de suas “profissionais” francesas.

GIROLAMO  FRACASTORO
O nome sífilis surgiu, já associado ao sexo desprotegido, quando da publicação de um poema latino, Syphilis sive morbus galicus (Sífilis ou a doença francesa), de autoria de Girolamo Fracastoro (1483-1553), médico do Concílio de Trento, poeta e astrônomo de Verona. Syphilis era o nome do principal personagem do poema, nome que desde então passou a designar a famosa doença, a ele se juntando outros, também ligados às prostitutas, como mal turco, mal polaco, mal napolitano etc.

Há que se lembrar também quando entramos nesta questão dos nomes das doenças que eles se impuseram, no geral, como eufemismos, bem antes das descobertas da microbiologia. O nome de muitas doenças infecciosas e de epidemias, durante séculos e séculos, era atribuído ao que os antigos gregos chamavam de miasmas, exalações pútridas que emanavam de animais ou de vegetais em decomposição. A palavra miasma vinha do verbo mainein, manchar, sujar. A propósito, uma curiosidade: é desse mesmo verbo que sai a palavra amianto (a, do grego, prefixo privativo), que significa puro, incorruptível. 

Eis alguns exemplos de eufemismos (apelidos) ligados ao nome de doenças, de males ou  de fluxos e secreções corporais na nossa tradição popular: desmantelo, regras menstruais;  nascida, espinha, tumor, furúnculo; passageira ou caseira, dor de barriga com diarreia; veias quebradas, varizes; sete couro, infecção que aparece no calcanhar e que precisa ser cortada (a epiderme) sete vezes para se obter a cura; ar do sol, congestão; dor de veado,  dor no baço, também chamada dor na passarinha; barriga fofa, a tem a pessoa que está obrando “água” ou obrando vermelho, diarreia com sangue; pustema, coisa ruim, ferida inflamada; constipação, problema intestinal que causa a retenção de fezes, prisão de ventre; papeira, bócio, distensão do tecido adiposo  debaixo do queixo causada geralmente por problemas tereoidianos; traseiros sujos, diarreia; gastura, indisposição estomacal, azia; sezão, maleita; gota-serena, catarata; tosse comprida, coqueluche; mal do monte, erisipela; ventosidades, gases intestinais, também chamados de flatos; empachamento, obstrução intestinal; mal-de-sete-dias, tétano umbilical, mal de recém-nascidos; nó nas tripas, vólvulo; puxamento, asma, bronquite; consumpção, mal dos peitos, hética, magrinha, a que seca, tuberculose; mal-do-monte epilepsia; sangue novo, urticária; doença de mulher-dama, blenorragia causada por meretriz; ranho, muco que se acumula nas fossas nasais e que escorre; mal de amores, doença venérea; espinhela-caída, aparece quando o doente muda de posição, de postura, com fortes dores na região torácica, inclusive vômitos. Estar de paquete, estar a mulher no seu período menstrual. 
PAQUETE
Tal expressão foi adotada popularmente no Rio de Janeiro, espalhando-se depois por outros estados brasileiros. A origem desta denominação se deve a uma comparação que o povo passou a fazer entre o tempo que os navios ingleses (Royal Mail Ship) levavam para cumprir, em meados do séc. XIX, a viagem entre Liverpool e o Rio de Janeiro, 28 dias, e o período do catamênio, (etimologicamente, descida da Lua, menstruação) da mulher, também de 28 dias.  


Muitos estudiosos consideram, entretanto, que esse costume de usar muitos eufemismos, muitos apelidos de doenças, no caso, não passa de uma forma disfarçada de hipocondria, uma espécie de patologia que leva também a pessoa a acreditar que, mesmo sem nenhuma evidência
CULTO  AOS  MORTOS
médica aparente, uma doença qualquer poderá vitimá-la. Muitas são as hipóteses, dizem os psicólogos, que tentam explicar esse comportamento, desde um histórico de doenças graves numa família, cujos nomes devem se tornar impronunciáveis, por isso, à criação de falsos sintomas para chamar a atenção de pais omissos, pouco afetivos, à mania de fazer exames médicos, medo da morte, atração por cemitérios, culto exagerado aos mortos (necrodulia) etc. 

A propósito, lembre-se que a essa tendência de se proibir que certas palavras ou expressões sejam pronunciadas ou grafadas dá-se o nome de tabuísmo, de tabu, proibido. Oriunda da Polinésia, a palavra tabu lá designava tudo a que se atribuía um caráter sagrado (objetos, lugares, seres etc.), cuja violação, desprezo ou inobservância causava punições divinas. Entrando na língua inglesa, a palavra espalhou-se pelo mundo, fazendo hoje parte do vocabulário de muitos países. Entre nós, há muito, muito tempo, usávamos também a designação de tabuísmos para palavras, locuções ou acepções consideradas vulgares, pornográficas, chulas, grosseiras ou ofensivas demais, destacando-se, dentre elas, o que chamamos de palavrões. Os tabuísmos são parentes próximos da chamada coprolalia (copro, fezes, e lalia, tagarelice, do grego), mania de falar sobre coisas nojentas.  


ABDOME
Os antigos médicos gregos da tradição hipocrática chamavam de hypocondrias, no plural, cada uma das duas partes laterais e superiores do abdome, separadas pelo epigástrio.  O hipocondríaco (hipo, abaixo e khondros, cartilagens) era o indivíduo que sofria por causa de suas vísceras, as quais lhe davam um humor triste e caprichoso; era o hipocondríaco o que se atormentava ao pensar na sua saúde. Hoje, a hipocondria é considerada como uma psicopatologia que certos indivíduos desenvolvem quando se preocupam demais com a sua  saúde, preocupação esta que os leva a apresentar inclusive sintomas de doenças sem razão médica alguma. Em suma, ainda segundo os gregos, eram tais indivíduos vítimas da nosomania (nosos, doença, e mania, obsessão, loucura, excitação, em grego), os chamados nosômanos, que só pensavam em doenças, na morte, em túmulos, nos objetos a ela ligados, nos ritos que davam fim a um cadáver...

EMBALMERS
Pelo seu caráter compulsivo, obsessivo, a hipocondria, muito estudada inclusive no século passado por Freud e Lacan, hoje considerada, somente pelos psiquiatras, é uma patologia e, como tal, tratada só por psicoterapeutas. A hipocondria costuma se manifestar, muitas vezes, com fortes traços paranoicos e com várias fobias, sendo as mais comuns a tanatofobia (Thanatos, em grego deus da morte, irmão gêmeo de Hipnos, deus do sono, mais phobia, horror, medo) e a necrofobia (nekros, morto, cadáver), ambas gerando um medo mórbido com relação à morte e a tudo o que a ela se refira. Dentre os vários exemplos de hipocondríacos ligados a essas fobias, cite-se, por exemplo, Albert


Camus (1913-1960). Uma leitura sua, obrigatória, era a da revista americana Embalmers Monthly, destinada aos profissionais da arte de embalsamar cadáveres. Se quisermos mais, podemos ir à última peça de  Molière (1622-1673), Le Malade Imaginaire (O doente Imaginário), na qual o nosso genial autor parece ter se antecipado às teses hoje defendidas pela anti-psiquiatria (Thomas Szasz). 


PARANOIA
(JACK LARSON, 1928-2015)
Já a paranoia, para o homem comum, é delírio,
THOMAS  SZASZ
loucura. O discurso paranoico é cheio de inferências indevidas, de analogias absurdas. No grego, há a palavra
paranaos, demente. Etimologicamente, a palavra é formada por para, à margem, ao lado, e noein, pensar, do grego. Pensar, ficando à margem do normal. Causa a paranoia, como todos sabemos, muitas dificuldades nos relacionamentos, ciúmes, mania de perseguição, tendências esquizoides, mania de grandeza, exageros com relação a sentimentos amorosos. 

Se formos um pouco mais fundo nessa questão, não podemos esquecer que em muitas das antigas tradições religiosas como a hinduísta, a egípcia ou a judaico-cristã encontramos o registro de que as coisas do mundo e os seres que nele habitariam foram retirados do nada por certas palavras. Um dos exemplos mais conhecidos exemplo é a muito divulgada expressão bíblica Fiat lux. Para
PTAH
os defensores desta tese, as palavras e seus componentes, letras e sílabas, segundo as expressemos, têm vibrações, variadas frequências, podendo nos afetar de muitas maneiras e materializar coisas, doenças, inclusive, como se disse. Esse entendimento, por exemplo, já estava firmado na antiga religião egípcia, a alguns milhares de anos antes da era cristã. É neste sentido que  Ptah era considerado pelos egípcios como um  demiurgo. Foi ele quem com as suas palavras fez emergir do oceano primordial (caos), o Nun, na cosmogonia menfitana, as coisas e os seres que iriam constituir e povoar o universo. 

Alargando ainda um pouco mais o nosso enfoque, podemos recorrer a um tema muito próximo daquele acima exposto para lançar um pouco mais de luz (ou confusão) ao assunto ora abordado. Referimo-nos à superstição. Para muitas pessoas o medo da morte e de usar palavras que do seu universo façam parte não passa de uma superstição de gente ignorante. É de se lembrar ainda que essa palavra, superstição, é sempre empregada pejorativamente pela maioria das pessoas que dela se valem. Qual a razão disso? Serão as superstições rematadas besteiras? 

DE NATURA DEORUM
Em latim, temos superstitio. Cícero (De Natura Deorum) usou a palavra para designar a pessoa, o superstitiosus, que rezava sem cessar para que seus filhos vivessem mais que ele. Mais tarde, ainda na antiguidade, a palavra passou a designar aquele que ficava acima de qualquer coisa, além dos acontecimentos, por uma crença nos deuses, uma crença, porém, sempre impregnada de perplexidade e de inquietações. Dicionaristas (De Walde), bem mais tarde, afirmaram que superstitiosus  era aquele que se colocava acima dos homens e de seu tempo, como um vidente, um profeta, para perceber o futuro.  

Outra hipótese, mais moderna talvez, nos afirma que a superstição aparece muitas vezes quando os homens, depois de todos os seus esforços e recursos (experiência, ciência, análise, reflexão crítica e capacidade previsora), na tentativa de compreender alguma coisa, de elucidar algum problema, “sentem” ou têm a tentação de admitir a intervenção de forças ocultas, mágicas, que os impedem de ficar plenamente convencidos dos resultados a que chegaram.  É por essa razão que muitos supersticiosos, ao contrário do homem religioso, tentam se apropriar egoisticamente dessas inexplicáveis e intrometidas forças.  


FRANCIS   BACON
Foi um filósofo, Francis Bacon (sécs. XVI-XVII) que nos deixou este registro: evitar superstições é também uma superstição. Na Idade Média (até o século XIV), a palavra superstição designava o culto de falsos deuses. Na época no Iluminismo (Rousseau, Diderot) e mesmo antes, com Voltaire, a palavra era a antítese da razão, significando tudo o que fosse irracional, inclusive os dogmas da religião oficial, a católica. Hoje, os dicionários não mudaram o entendimento, mas evitam mencionar que dogmas religiosos sejam irracionais. Alinhando-se com a fé, o fanatismo e a intolerância, o dogma, já entre os antigos gregos,  era uma afirmação que, julgada boa, não admitia discussão. O dogma parte de uma certeza preexistente, opondo-se, por isso, a qualquer crítica.  Registram hoje os dicionários que são superstições as crenças que não têm por base a razão e o conhecimento científico, crenças que nos levam a crer em falsas obrigações, a temer certas coisas, a respeitá-las ou confiar em absurdos.

Entretanto, qualquer que seja a nossa posição com relação ao tópico central acima (pronunciar o nome de certas doenças pode “atraí-las”), entendemos que explorá-lo sempre nos trará algumas revelações sobre o nosso passado e/ou sobre a evolução dos nossos
FEUERBACH
costumes. Ao fazê-lo, temos que entrar obrigatoriamente no terreno das superstições,  da fé, do dogma e das crenças, seja num ideal, numa religião ou numa pessoa,  e também do que sejam conhecimento e saber. Será que a ciência e o seu produto, o conhecimento, podem resolver todos os problemas humanos? Foi o filósofo alemão Feuerbach quem, em 1841, nos deixou esta observação sobre o assunto: a fé não poderá se relacionar senão com o que não existe, pois o que existe é objeto de um saber real. A fé escapa do saber, do conhecimento.

Há muito, muito tempo que o ser humano se recusa a acreditar no acaso, palavra que vem do árabe, az-zahr, dado, jogo de dados. Acaso é acontecimento fortuito, de causa imprevisível, cujo desenvolvimento não se pode prever. Para o homem comum é contingência pura, embora a ciência não aceite a indeterminação pura. O que constatamos realmente quando enveredamos por esse terreno é que desde a pré-história a realidade percebida não basta ao ser humano, apesar dos avanços científicos. E que, além disso,  sempre afirmaram nossos ancestrais, há sempre em atuação no universo  forças maléficas ou benéficas, visíveis ou invisíveis. 

Pelo que as investigações histórico-arqueológicas, antropológicas e outras vêm nos fornecendo ao longo dos milênios parece estar suficientemente comprovado que o homem primitivo, ao levantar os olhos para o céu, foi tomado por um sentimento de religiosidade, isto é, de estar a ele ligado. Esse homem logo percebeu que sua vida dependia, em grande parte, do que o céu lhe enviava, e muito mais.  Faziam certamente parte desse sentimento tanto o terror como a veneração, um reverente respeito, e a necessidade de se prestar ao céu e às forças que lá atuavam algum culto, alguma adoração. Em suma, o que se tem de mais certo, é que o homem primitivo manteve sempre uma relação afetiva com o céu. Se as forças celestes atuavam favoravelmente, facilitando-lhe a existência, ele agradecia com cantos, festas e celebrações. Se, ao contrário, as forças celestes provocavam prejuízos e traziam sofrimentos, cabia-lhe fazer alguma coisa para reverter essas tendências, sacrifícios, oferendas, lamentos etc. Tudo isto se considerarmos que da vida desse homem primitivo, além da onipresença da morte, faziam parte inúmeros terrores representados pela fome, pelos ataques dos predadores, pelas secas, pelas tempestades, pelas inundações, pelas pestes, pelas doenças etc. 

Nas chamadas sociedades primitivas, o homem procurava explicar os acontecimentos do mundo natural nos quais se via envolvido através de um modo de pensar a que se deu o nome de animismo. O homem atribuía uma intenção a cada acontecimento, considerando-o animado por espíritos bons ou maus. Quanto aos espíritos bons, as forças positivas, era preciso aprender a se conciliar com eles; quanto às forças negativas, os espíritos maus, fazer tudo para afastá-los, mantê-los à distância. Este animismo deu origem primeiramente ao que se chamou de feitiçaria, magia, xamanismo etc. Aos poucos foi se integrando a estas práticas um processo de fetichismo, um culto prestado a objetos que representavam as entidades espirituais e que, conforme se acreditava, possuíam poderes mágicos. Com o tempo, ocorreu a chamada personificação, ou melhor, a antropomorfização. As forças sobrenaturais em ação no universo foram divinizadas a elas se atribuindo, além do seu poder sobrenatural, características comportamentais e modelos de pensamento dos seres humanos. Chegamos assim às diversas religiões, politeístas ou monoteístas. 

Nas sociedades primitivas nas quais o animismo ocupou uma posição importante, central, tiveram grande importância determinados atos rituais pelos quais certos “técnicos” (feiticeiros, mágicos, xamãs etc, acima mencionados) procuraram controlar as forças que nelas atuavam. Para os modernos estudiosos, antropólogos, arqueólogos, psicólogos e outros, dominava esse mundo o chamado pensamento mágico. Em algumas sociedades,
ÉDOUARD  BRASEY
certos rituais, festas, histórias, dogmas e tradições, ainda que considerados irracionais, foram se fixando, impondo-se, acabando por constituir as religiões (do verbo religare, em latim, religar), que vivem de dogmas e da fé, não da razão. Como procuram nos explicar alguns estudiosos destas questões, (Édouard Brasey, (França, 1954, escritor), quando, milhares, milhões de pessoas aceitam (?) e compartilham (?) as mesmas crenças, os mesmos dogmas, os mesmos preceitos e princípios, o que temos então são atos de fé e de comunhão e não mais superstições. A superstição passa então a se situar no plano do individual, é um investimento pessoal, que cada um faz, um ato que varia no tempo e no espaço, de acordo com  a cultura de cada sociedade. 


Nada demais, pois, que continuemos, como os nossos ancestrais, a aceitar as suas (nossas) boas superstições: nunca derrubar o saleiro, espalhando o sal pela toalha; jamais abrir um guarda-chuva dentro de casa; evitar reuniões marcadas para um dia 13, principalmente se caírem numa sexta-feira; não acompanhar nunca a passagem de cometas no céu, sempre um presságio de coisas negativas; para ter sorte, continuar com a nossa ferradura  de sete furos pendurada na parede; proteção? colocar réstias de alho atrás das portas; nunca ter falta de dinheiro? Andar sempre com um pequeno pedaço de metal no bolso, na bolsa (esta foi recomendada por Freud à sua noiva); um guizo de cascavel (não importa quantos) é amuleto que protege contra coisas ruins.

ALADIM NO JARDIM ,
1912 ( M. LIEBERT )
Lembrar que o amuleto protege, é defensivo, e que o talismã dá força, é ativo; ambos devem ser, contudo, devidamente preparados por “gente” que entenda do assunto, por “técnicos”. Um bom exemplo de talismã? Certas palavras que funcionavam como uma senha (semeion) para permitir o ingresso de iniciados (mystai, plural de mystes, iniciado) nos recintos das chamadas “religiões de mistério” da antiga Grécia, nas quais se discutiam conhecimentos esotéricos, só passados aos membros do grupo e por eles discutidos, dando-lhes mais “força”. O contrário de esotérico é exotérico, conhecimento (mínimo) que pode ser levado para o exterior, passado para pessoas que não sejam do grupo. Outro exemplo de talismã (aumento de força, convocação de entidades que auxiliem no desempenho mental e físico): a lâmpada de Aladim. Mais um: a palavra Shazam, usada nas histórias do Capitão Marvel.   














quarta-feira, 1 de março de 2017

TOURO (3)

        

APIS

Dentre os vários animais sagrados da religião egípcia, um dos mais importantes foi o touro, adorado sob o nome de Apis, transcrição grega de Hapi. Seu principal culto estava centralizado em Mênfis, onde aparecia associado ao deus Ptah. Este deus, protetor dos
PTAH
artesãos e dos artistas, foi identificado pelos gregos como uma das formas possíveis do seu deus Hefesto, deus metalúrgico, mestre das artes do fogo, grande divindade construtora. Ptah foi no Egito o inventor das artes, trabalhando com metais, sendo também uma divindade construtora. Era apresentado como um homem mumificado, num pedestal; nas mãos, um cetro no qual estão reunidos símbolos da vida, da estabilidade e de onipotência.


Era adorado em Mênfis em companhia de sua esposa, a deusa Sekhmet e de seu filho Nefertun. A construção de templos e de monumentos religiosos estava colocada sob a sua tutela, Recebia, por isso, o título de “Grande Chefe das Artes”. Perto de seu santuário em Mênfis se fazia  a adoração do touro Apis, uma encarnação sua. Ainda que se dessem a Ptah qualificativos de beleza (o de bela aparência), Ptah era representado, muitas vezes, como um anão disforme, de pernas tortas, arqueadas, os punhos fincados nas ancas, a cabeça inteiramente raspada, ornada com uma trança. Nessa forma era reverenciado como protetor contra os animais perigosos ou daninhos de qualquer espécie e contra todas as formas do mal. A função a que os gregos chamavam de apotropaica.

Sob a forma de um fogo celeste, como muitas imagens mostravam, Ptah fecundava uma bezerra virgem e renascia através dela como um touro negro, que os sacerdotes reconheciam por certas marcas distintivas, de caráter religioso. Para ser considerado como uma reencarnação de Ptah, o touro deveria ter sob a sua fronte um triângulo branco, sob seu corpo a figura de um abutre de asas abertas, sob seu flanco direito um crescente lunar, na língua a imagem de um escaravelho, devendo os pelos de sua cauda ter uma forma bífida. 

Enquanto vivesse, Apis era alimentado com todo o cuidado num templo de Mênfis, vizinho ao de Ptah. Uma vez por dia, Apis era trazido para um pátio do templo, sendo seus mugidos recebidos com grande alegria por inúmeros visitantes, inclusive de estrangeiros em visita ao país, ainda no período helenístico. Cada um dos movimentos de Apis era interpretado como sinal de algum acontecimento futuro. A morte súbita do príncipe Germanicus, sobrinho do imperador Augusto, segundo consta, foi anunciada pelo touro Apis quando ele recusou receber das mãos do príncipe a comida que ele procurava lhe dar, um sinal de mau augúrio.

Apis geralmente morria de velhice. Quando tal não acontecia, isto é, quando a morte retardava demais a sua chegada, deteriorando-se a sua saúde, Apis era sacrificado. O encontro de um novo Apis era sempre celebrado com muita alegria em todo o país. Em 1.850, arqueólogos descobriram uma necrópole menfita onde foram encontrados vestígios de esplêndidos funerais realizados em homenagem ao touro Apis. 


SERAPEUM


SERAPIS
Os gregos rendiam ao touro cultos funerários como os celebrados em homenagem a Osíris no Egito. Nessa condição, os gregos chamavam o touro egípcio de Osorapis, depois identificado como o deus Serapis, adorado segundo um rito puramente grego no grande Serapeum de Alexandria. Deus infernal, Serapis, confundido com Osorapis, foi adorado ao lado do templo deste em Mênfis.

Hathor era uma divindade feminina na qual os gregos viam traços de sua Afrodite. Deusa celeste, passava por ser filha de Ra e mulher de Horus. Em alguns períodos da história religiosa do Egito, ela passa por mãe de Horus, sendo seu nome traduzido pela expressão “a morada de Horus”, explicada esta designação como sendo ela, a deusa, o lugar onde, a cada crepúsculo, o deus solar se recolhia para depois renascer a cada manhã. De um modo geral, os lugares pantanosos, lugares de origem da vida, eram de Hathor. Antropomorfizada, de rosto redondo, com vasta cabeleira encaracolada, a figura de Hathor, ao evocar a Lua cheia, era particularmente reverenciada pelos beduínos do deserto.

HATHOR
É ela, Hathor, registram os textos, a grande vaca celeste que criou o universo  e tudo o que ele contém, inclusive o Sol. É representada como uma vaca, seu animal sagrado ou como uma figura antropomorfizada, uma deusa com a cabeça do animal. Noutras vezes ainda, uma figura feminina ornada com chifres. 
MENAT
Esta deusa tinha ainda um fetiche no qual gostava de se encarnar, o sistro, instrumento musical também muito usado nos cultos de Ísis, que tinha a finalidade de espantar maus espíritos e de acalmar os deuses. Dentre os objetos mais sagrados de Hathor encontramos também um colar chamado menat, símbolo da fertilidade.

Hathor, às vezes se transformava numa leoa (Pakhet), forma através da qual se ligava aos vales férteis na beira de lugares desérticos, onde animais selvagens indefesos como as corças vinham se abrigar e saciar a sua sede. Honrada como leoa, Hathor era ainda reverenciada nos desertos do Sinai, onde se encontravam minas de  turquesa, pedra da sua predileção. 


DENDERAH

A arquitetura da cidade de Denderah tinha a forma do sistro. A cidade era a capital de um dos nomos do Alto-Egito, colocada sob a tutela de Hathor. Num recinto dessa cidade se realizava uma cerimônia chamada de “união ao disco”, quando das festas do início de cada ano. Nas paredes desse recinto foi encontrada a pintura de uma carta celeste, nela figurando, numa de suas mais antigas representações, o Zodíaco com os seus signos e respectivos decanatos.

Hathor era a protetora das mulheres, governando a estética do mundo feminino (roupas, joias, atavios, penteados, beleza corporal, maquiagem etc.). Sob sua tutela ficavam o amor, a alegria de viver e os prazeres da vida.  Era conhecida no Egito como a “senhora da alegria, da dança, do canto, do enlaçamento das guirlandas”. Seu templo era a morada do prazer, da vida agradável. Alimentava os humanos com o leite de seu seio. Comuns as representações de faraós mamando nas tetas de Hathor. 


LIVRO   DOS   MORTOS

Além de cuidar dos vivos, Hathor se preocupava também com os mortos. Sob o nome de “rainha do Ocidente”, ela é a protetora da necrópole tebana e ilustrações de O Livro dos Mortos mostram-na pontificando para os lados das montanhas da Líbia, limite do mundo dos vivos, pronta para acolher os mortos quando da sua chegada ao Outro Mundo, livrando-os de inúmeros perigos, desde que saibam a ela recorrer com as preces adequadas. Ela é também chamada de “A Deusa do Sicômoro”, pois, ás vezes, ela se refugia na folhagem desta grande árvore, encontrada nos limites dos desertos, para acolher o morto, dando-lhe a água e o pão das boas-vindas. 

Árvore sagrada do Egito, o sicômoro, com a sua abundante ramagem, simbolizava a segurança e a proteção que socorria as almas. Subir num sicômoro era participar da vida espiritual. Contudo, esta subida devia ser feita sempre com cuidado, com humildade. Do contrário, a árvore simbolizaria desinteresse pelas coisas terrestres , desprezo da opinião pública, rebeldia, revolta, vaidade. Denderah era a cidade de Hathor, importante centro astrológico. Lá, Hathor vivia em companhia do marido, Hórus, e de seu filho, Ehi, um menino que agitava o sistro ao lado de sua mãe.

SICÔMORO
O sicômoro, a chamada figueira dos faraós (fycus sycomorus), é uma árvore muito comum em todo o norte da África, cultivada tanto pelos seus frutos comestíveis como planta melífera e ornamental pelas suas flores, sendo muito útil também na tinturaria (tingimento de tecidos). Era empregada também, por sua madeira muito resistente, na construção de sarcófagos, de móveis e de instrumentos musicais (Para maiores detalhes, veja neste blog o artigo A Figueira).  


NUT
É preciso não esquecer que no panteão egípcio, nas suas primeiras definições, encontramos a deusa Nut, que os gregos associaram a Reia, filha de Urano e de Geia, uma titânida, irmã e mulher de Cronos. Nut é irmã de Geb, no qual os gregos viram seu deus Cronos. Eles formavam um casal, o segundo na sequência divina desde as origens. Uniram-se contra a vontade de Ra (O Criador, o Sol), que os separou brutalmente, decretando que Nut não poderia parir, que não poderia dar filhos à luz. Segundo o mito, Thot, felizmente, teve pena dela e, jogando damas com a Lua, dela subtraiu energia para que ela, Nut, fizesse mais cinco dias, que ficaram fora do calendário, os chamados dias epagômenos.

Nut conseguiu assim dar à luz cinco filhos: Osíris, Haroeris, Seth, Isis e Nephtys. O nome desta última significa “A Senhora do Castelo”, uma divindade infernal. Unindo-se a Seth, não teve filhos.  Desejou então um filho do irmão mais velho, Osíris. Para
ANÚBIS
tanto, conseguiu embriagá-lo e do conluio amoroso que com ele manteve, sem que ele disso tivesse consciência, nasceu Anúbis, deus chacal, do mundo dos mortos. Nephtys simboliza as margens do deserto, região comumente árida, mas que pode se tornar fecunda. Quando Seth matou Osíris, ajudou Ísis a mumificá-lo, participando da cerimônia fúnebre, entoando com a irmã as lamentações de praxe.


APOPHIS
Seth, também conhecido como Apophis na sua forma dracôntica, é, como sabemos, monstruoso, lembrando o Tifon dos gregos, um agende do caos.É a seca do deserto, a negação da vida, inimigo de tudo o que é bom e justo. Haroeris significa “O Grande Hórus”. Representava, com os seus olhos, os dois luminares. Representava também a eterna oposição entre a luz e as trevas. Era o ancestral de todos os faraós. É diferente de Hórus, do mito osiriano, filho de Ísis e de Osíris, representado pelo falcão.


NUT

Nut é a deusa do espaço celeste, representando-o na forma de uma mulher que, apoiada na ponta dos dedos da mão e dos pés, forma uma curvatura com o seu corpo Seu ventre sempre estrelado, é a abóbada celeste. Uma forma pela qual Nut aparece amiúde nos mitos é a de uma vaca. O ventre de Nut confunde-se com o próprio firmamento, nele estando fixadas todas as constelações. Ela assume a condição de mãe do Sol que nasce de um lado de seu corpo e se põe no outro. Antropomorfizada, carrega na cabeça um pote enorme (hieróglifo de seu nome). Aparece como protetora dos mortos, abraçando fortemente os defuntos,  vela maternalmente as múmias.  

Ligado ao signo de Touro temos o tema do bezerro de ouro, símbolo da riqueza material, na medida em que ele foi (é) idolatrado no lugar de divindades.  Este ídolo começou a ser cultuado quando da ausência de Moisés, que subira ao Sinai para
BEZERRO   DE   OURO
receber os ensinamentos divinos. O ídolo, conforme se sabe, foi construído com os brincos de ouro das mulheres. É um símbolo da fertilidade orgiástica. Como Moisés não dera mais notícias desde que se ausentara e julgando os judeus que ele não mais desceria da montanha, o bezerro de ouro foi construído por Aarão, irmão de Moisés e de Miriam. Alegou ele, para justificar a construção do ídolo, que assim o fazia para que os israelitas não se tornassem culpados pelo pecado maior de matar seu sumo sacerdote, o que certamente fariam se ele recusasse a voltar. Aarão era sumo sacerdote, tido como uma pessoa amante da paz. Sua técnica para obter a paz era a seguinte: numa disputa, tinha a habilidade de ir alternadamente na direção do ponto de vista de ambas partes e, com uma mentira inocente, desculpava-se em nome da outra parte; quando estas se encontrassem, a disputa estaria vencida porque cada uma delas acreditaria que a outra se desculpara.


Depois de fundir o metal, Aarão se dirigiu ao povo e lhe disse que aquele bezerro era o novo deus de Israel. Nesse ínterim, Deus, no alto da montanha, ordenou a Moisés que descesse, pois exterminaria os que se prostravam diante do bezerro e que faria, com os que o seguissem, uma grande nação. Assim, o bezerro de ouro não é mais que grande tentação que tem o ser humano de divinizar os desejos materiais, o prazer sensual, a sede de acumular cegamente. 

Ainda entre os judeus não podemos esquecer a história de Jereboão, rei rebelde, que fundou o Reino do Norte de Israel. Ele introduziu o culto de dois bezerros de ouro, que erigira, para impedir que as pessoas fizessem peregrinação a Jerusalém. Foi condenado a induzir o povo a um pecado que nenhum arrependimento poderia redimir. Consta que apesar disso Deus lhe ofereceu um lugar no Jardim do Éden, por ele recusado orgulhosamente, porque lhe era negado um status mais elevado que o de David (para mais informações sobre as ligações de Israel com o Bezerro de Ouro, veja neste blog o artigo Correspondências Taurinas: Israel e o Touro).


OS  DOIS  BEZERROS DE OURO  ( ANÔNIMO , SÉC. XIV )

Ao longo dos séculos, a constelação de Touro recebeu nomes latinos como Portitor, Proditor Europae, Agenoreus, Amasius Pasiphaes. Entre os árabes, inicialmente designada pelo nome de Al Thaur, passou a Altauro e depois a Ataur. Antes da “adoção” ptolomaica, os árabes tinham a sua própria representação deste espaço celeste, formado, neste caso, por duas mansões lunares. Uma delas correspondia ao asterismo das Plêiades (Al Thuraya, o Touro) e a
AL   THURAYA 
outra ao das Híades (Al Dabaran, A Seguinte). O asterismo de Al Thuraya (Plêiades) é muito popular entre os árabes, já nomeado por um sábio (Luqman), cuja antiguidade remonta ao período em que David era rei dos judeus. Um culto especial era prestado a este asterismo (confirmado inclusive por Al Sufi, no séc.X) que, quando os augúrios eram bons, trazia chuva no seu poente heliacal. Al Thuraya chegou a ser visto pelos árabes como uma divindade da fertilidade, muito celebrada pela poesia no período de expansão do Islã. 

domingo, 3 de julho de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU – PLUTÃO (3)

                           
DEUSES    EGÍPCIOS
     
Vários textos foram produzidos para instruir o homem egípcio quanto à viagem que faria depois de sua morte. Essencialmente, estas instruções lembravam que o homem deveria procurar viver na terra da maneira mais justa possível, pois seus atos seriam colocados diante dele num julgamento futuro, perante dos deuses, cerimônia que os gregos chamaram de psicostasia, a pesagem da alma. Dizia um texto: Um homem pode permanecer depois da morte e todos seus atos serão colocados diante dele depois da sua morte. Entretanto, a existência no Além significa vida eterna e ela só será atingida por aquele que não procedeu erradamente. Se assim foi, o homem que assim procedeu existirá no Outro Lado (Duat) como um deus.


OSÍRIS   PRESIDE   A   PSICOSTASIA

A crença era unânime: depois da morte, todos seriam submetidos a um julgamento final, na presença do deus Osíris. Representado por uma múmia, Osíris presidia um tribunal diante do qual o coração do morto seria pesado, isto é, julgado. Na balança do julgamento, enquanto o coração ocupava um prato no outro prato era colocada uma pena de avestruz, emblema da equanimidade, símbolo de Maat, a deusa da justiça. Para os que se dessem mal neste julgamento, um animal feroz, chamado Devorador de Almas, ficava à sua espera. Chamado Ammit ou Aman em egípcio, este monstro, como se disse, era um ser híbrido, composto, na sua forma mais divulgada, por um torso de leão, por um hipopótamo na sua parte traseira e por um crocodilo na parte superior do corpo (cabeça). Era ele o encarregado de comer o coração do morto que não tivesse passado no julgamento. Comido o coração, a morte se tornava definitiva, dissolvendo-se o morto no nada.


AMMIT

Os que eram aprovados, iriam repetir no Outro Lado as agradáveis atividades que haviam desempenhado em vida, ainda que alguns trabalhos lhes fossem devidos (cuidar das terras dos deuses e do seu abastecimento de água, garantindo-lhes fertilidade eterna).  Os ricos e poderosos podiam transferir essas obrigações para os “Respondentes” (ushebits), já mencionados.  



USHEBITS
  
Embora os primitivos cultos divergissem quanto ao que um morto poderia ou não fazer do outro lado, os egípcios, através dos colégios sacerdotais, acabaram por elaborar uma síntese engenhosa das suas principais crenças relacionadas com a vida no Além. Dizia-se que o morto ficava no seu túmulo durante o dia, embora pudesse voltar a visitar os vivos por intermédio do seu alado Ba, entidade imaterial que representava a sobrevivência física do morto. Por intermédio de seu Ba, o morto poderia inclusive voltar aos locais de sua predileção no mundo dos vivos. Ao amanhecer, deveria retornar ao seu túmulo, para se alimentar, beber e repousar, cuidados dos quais até os mortos necessitavam.


BA

Partes importantes do Outro Lado eram reservadas para o fantástico e numeroso panteão egípcio. Cada nomo possuía a sua divindade principal. Ra dominava em Heliópolis, Toth em Hermópolis, Ptah em Menfis, Amon em Tebas etc. Uma espécie de loteamento, enfim, cada grande divindade dona de um pedaço do Outro Lado. No Novo Império, houve uma tentativa de se impor, através dos principais colégios sacerdotais,  uma certa ordem no disputadíssimo mercado religioso do país. Foi possível então se reunir a totalidade do panteão, representar toda a família celestial unida, algo como fazemos com os retratos de grupo. Esta iniciativa foi tomada durante o reinado dos faraós ramesessidas (III ao XI), entre 1220-1085 aC.



  HERMÓPOLIS   E   HELIÓPOLIS   NO   DELTA   DO   NILO

Osíris, o equivalente do Hades grego, teve a sua personalidade, ao longo de milênios, construída por contribuições diversas, até que acabou por se constituir numa divindade extremamente complexa e muito lógica até. O desenvolvimento da personalidade de Osíris  se manteve muito próximo da sensibilidade dos povos semíticos que sempre viveram uma religião de salvação fundada por um homem-deus que conheceu uma “paixão” (aqui sinônimo de sofrimento) no meio de outros homens.


ABUSIR

Foi em Busiris ou Abusir (etimologicamente, cidade e templo de Osíris), capital do nono nomo do Delta, que Osíris apareceu, assumindo as atribuições de um deus-pastor chamado Andity pelas populações locais. Já se levantou várias vezes a hipótese de que Osíris teria sido uma figura
TEXTO   DAS   PIRÂMIDES
histórica que num período obscuro da história do país, período pré-dinástico, teria unificado as tribos da região. As mais antigas referências às gestas osirianas encontram-se no chamado
Texto das Pirâmides ou Livro das Pirâmides, uma coletânea de inscrições gravadas nas cinco pirâmides de Saqara. Estes textos foram depois integrados àqueles produzidos pelo colégio sacerdotal de Heliópolis, centrados na figura do deus Ra. Nas versões heliopolitanas, Osíris é considerado como filho de Geb e de Nut, A Terra e o Céu (algo como Cronos e Reia entre os gregos) tendo como irmãos Hórus, o Antigo, ou Haroeris, o maléfico Seth, Ísis e Nephtys, todos nascidos ao mesmo tempo, nessa ordem. 


GEB   E   NUT

Historicamente, como se disse, o que se sabe é que Osíris havia ocupado o lugar do pai e reinara sobre o país em companhia de sua
RUÍNAS   EM   BIBLOS
irmã e esposa, Ísis. Num certo momento de sua vida, deixara na regência do país sua esposa e partira para divulgar a sua proposta civilizadora pelo mundo. Ao voltar, Seth, em companhia de setenta e dois asseclas, o mataram, encerrando o corpo numa arca, lançando-a ao Nilo. Levado pelas águas, o corpo de Osíris chegou a Biblos, Fenícia.

Chegando a essa cidade em busca do corpo do marido, Ísis o encontrou porque uma árvore crescera sobre a arca em que se encontrava o corpo de Osíris. O rei do Biblos ordenou que se
ISIS   AMAMENTA
HÓRUS
construísse uma coluna e um caixão para conter o corpo, entregando tudo a Ísis. No Egito, na região de Buto, no Delta, Ísis deu à luz a Hórus, um filho póstumo dela e de Osíris. Aproveitando-se da ausência de Ísis, Seth apoderou-se do corpo de Osíris e o despedaçou em catorze pedaços, espalhando-os  de pelo país. Auxiliada por Toth, Anúbis e pela irmã, Ísis recuperará os catorze pedaços (menos o pênis, devorado por um peixe) e reconstituirá, com as artes mágicas de que era detentora, o corpo do marido. Nos lugares em que foram encontrados os pedaços do corpo de Osíris, Ísis fez com se levantasse um templo.

As práticas mágicas operadas sobre o corpo de Osíris começaram pela mumificação. Está prática, entre os egípcios, parte da ideia de que o corpo deve subsistir depois da morte na sua forma material
MORTO   ENVOLTO   EM   PELES
para poder prosseguir sua vida no Outro Lado. Por isso, os egípcios buscaram tanto os meios artificiais para que isto fosse possível. Desde o início do período pré-dinástico (10.000- 8.000 aC?), os egípcios tinham notado que as propriedades do seu solo eram favoráveis a isso. Contando com esse aspecto favorável da natureza, passaram a usar, para aumentar a “vida” do corpo morto, invólucros de peles de animais para inumá-los.  

Como já se disse, Osíris preferiu descer ao Duat, o mundo dos
RA
mortos, para nele reinar. Ao assumir o reino dos mortos, Osíris, com isso, “promoveu” um grande enfraquecimento dos cultos que se prestavam a Ra, deus solar. Nos primeiros tempos do período dinástico, entre 4.000 e 3.000 aC, o processo de mumificação era muito primitivo; ele consistia apenas na impregnação da mortalha que envolvia o corpo com natrão ou resinas. 



EXTRAÇÃO   DAS   VÍSCERAS

O aperfeiçoamento dos métodos de mumificação só ocorreu no início do Antigo Império (quarta dinastia), quando incisões começaram a ser feitas para a extração das vísceras. Na sexta dinastia já havia uma classe de embalsamadores profissionais. A mumificação, contudo, era privilégio da família imperial e de alguns outros aristocratas mais chegados ao faraó.


MUMIFICAÇÃO

No Médio Império, a mumificação já estava bastante aperfeiçoada e se vulgarizara. A perfeição do processo, porém, só foi atingida no Novo Império (séc. XVI, 18ª dinastia). Neste período, a grande novidade era habilidade demonstrada por alguns profissionais que conseguiam preservar, na múmia, a expressão do rosto, como se o morto estivesse vivo, assim se dizia. 


MÚMIA  

A partir da quinta dinastia é introduzida uma grande modificação na arte funerária egípcia. As pirâmides, até então ”mudas”, começaram a “falar”, isto é, inscrições começaram a ser feitas, textos que constituiriam o chamado Livro dos Mortos mais tarde, uma coletânea de fórmulas destinadas a proporcionar ao morto (o faraó sobretudo) uma caminhada para o Outro Lado isenta de perigos. 


LIVRO   DOS   MORTOS

Quando um faraó tomava providências para construir a sua pirâmide, ele designava também um certo número de pessoas que, depois do enterro, deveriam assumir seu culto. Ligar-se a uma atividade dessas era uma honra; todos os cortesãos desejavam fazer parte desse privilegiado grupo. A exemplo do faraó, os aristocratas também procuravam assegurar que nada faltaria ao seu túmulo, de modo especial as provisões, a serem constantemente renovadas.



SACERDOTES   

No Médio Império, os ritos funerários sofreram nova mudança. Não havia mais um só “servidor do ka”, o filho mais velho geralmente, uma espécie de executor testamentário. Uma parte dos recursos do morto passa a ser destinada aos membros de colégios sacerdotais que assumem o encargo de “guardar” a lembrança do morto em todas as solenidades e cerimônias do templo. Os sacerdotes irão doravante, entoando cantos, aos túmulos e lá depositarão alimentos, cerveja e pão, principalmente. Aos poucos, as famílias deixam de cuidar do túmulo e “vida” do morto no Outro Lado. Os colégios sacerdotais passam a se encarregar dessas tarefas, que lhes proporcionavam vultosas rendas extraordinárias.



MÚMIAS

Todos estes cuidados tinham obviamente a intenção de facilitar ao máximo a caminhada do morto para o Outro Lado, deixando-o inclusive “tranquilo”. O que se desejava é que o morto chegasse “bem” à Sala das Duas Verdades. Assim, ele poderia, recebido por Anúbis, ser conduzido à presença de Osíris  e saudar os seus quarenta e dois assistentes que presenciariam o julgamento. 

OSÍRIS
O tribunal era infalível e incorruptível; a sentença proferida, com base na pesagem do coração, significaria uma eternidade de felicidade ou um mergulho no nada. Introduzido na sala das Duas Verdades, o morto, já qualificado perante Osíris, saudava os assistentes, os demais deuses presentes, e começava a prestar declarações, inspiradas diretamente pelo seu coração. A sua confissão era basicamente negativa. Ele deveria fazer a sua confissão usando trinta e seis frases negativas (este número era imutável). Seu discurso se encerrava com a frase Eu sou puro. O morto poderia ser interpelado pelos presentes, se suas declarações fossem julgadas insuficientes. Ao final, o morto fazia um elogio dos juízes.

O morto, antes de iniciar a sua confissão, pedia ao seu coração que não prestasse depoimentos que lhe fossem desfavoráveis, que não se voltasse contra ele no tribunal para que o prato da balança não pendesse desfavoravelmente, condenando-o. Ao declarar que o seu coração se confundia com o seu próprio ka, pedia que ele não mentisse e que fosse assim em direção do bem desejado, o ingresso nos reinos de Osíris.

Depois destas palavras, a corte se mantinha em silêncio. Anubis parava as oscilações dos pratos da balança para constatar se eles se equilibrariam. O morto seria salvo e conquistaria a vida eterna se o prato da balança onde estivesse uma pena da deusa Maat fosse mais pesado que o outro, onde estava a sua consciência. Do contrário, seria a condenação inapelável.

Lembro que na Idade Média a prova da balança, com o nome de
BALANÇA   EM   OUDEWATER
bibliomancia, era muito usada para o julgamento dos acusados de feitiçaria pela Igreja católica. Fazia-se o acusado subir num prato da balança e no outro se colocava uma Bíblia; se o acusado fosse mais pesado que a Bíblia, a condenação era inevitável. Na Inglaterra e nos Países Baixos a bibliomancia foi usada até 1707. Na Holanda, na cidade de Oudewater, por privilégio papal, estava um dos mais  importantes centros desta prova. 

Plutarco, sempre tão bem informado sobre o Egito, nos conta que Ísis, não desejando que o drama osiriano caísse no esquecimento, instituiu os chamados santos Mistérios de Ísis em honra ao marido, para que eles servisse de exemplo e de consolação para os seres humanos. O capítulo XVIII do Livro dos Mortos dá uma lista das cidades em que estes Mistérios se realizavam. Conforme inscrições encontradas, são inúmeros os depoimentos de pessoas que participaram destes Mistérios nos quais encontramos registros do quanto se sentiram confortadas e em paz. Os Mistérios que mais tarde se realizariam na Grécia, em Elêusis, instituídos pela deusa Deméter, lembram bastante os egípcios.   

O que os mystai (iniciados) egípcios ressaltavam nos seus depoimentos é que eles se sentiam como que participantes da natureza dos deuses. Osíris nunca foi como os outros deuses egípcios, senhor de um ou de vários territórios. Benfeitor, nenhum outro deus pode ser chamado como ele de Ounophres, o  Ser Bom por excelência, pois ele forneceu aos egípcios um meio de salvação. 

Em que pesem as circunstâncias de tempo e espaço e algumas breves defecções,  o Egito sempre permaneceu fiel ao programa religioso instituído desde os tempos pré-dinásticos. O culto dos mortos implicava também grandes demonstrações de piedade com relação aos ancestrais. O povo egípcio, desde tempos remotíssimos, entendeu a necessidade de preservar pela mumificação os cadáveres (literalmente, corpos tombados) da corrupção e a necessidade de alojá-los convenientemente. Um destino glorioso esperava o morto que escapasse completamente das servidões da condição humana, pois continuava a se “alimentar” e a “viver” eternamente no Outro Lado, leve, livre e solto.


ISIS

A ideia era a de que, como se viu, o morto pudesse gozar, perpetuamente, no Outro Lado, inclusive em companhia de sua família e de seus servidores, os “momentos felizes” que vivera na terra, desde que tivesse levado uma vida justa e respeitosa, sobretudo obediente politicamente. Mesmo o egípcio da mais humilde condição poderia levar para o Outro Lado seus “bons momentos”. Sabe-se que em muitos períodos da história egípcia, nos momentos de crise política e social, estas concepções se enfraqueceram um pouco. Sabe-se que nesses momentos muitos egípcios recorreram a magos-feiticeiros para forçar o tribunal a absolvê-los quando da psicostasia.