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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

ESCORPIÃO (5)

      
Por sua grande afinidade com o interior da Terra, com o mundo ctônico, a serpente, como aparece nos mitos, não pode ser separada simbolicamente do signo de Escorpião. Lembremos que Ísis, a deusa dos encantamentos que traziam os mortos de volta à vida e mestra no uso dos venenos, era representada muitas vezes na forma ofídica ou escorpiônica. Perséfone, Prosérpina para os romanos, era chamada de aquela que avança serpenteando.


ARTES   DA   CURA  -  ÍSIS ( STELA METTERNICH )

Em grande parte das antigas civilizações, a serpente sempre foi considerada simbolicamente segundo uma dualidade que tanto a via como princípio e como fim da vida. Destrutiva, traiçoeira, perigosa, venenosa, e ao mesmo tempo criadora, benfeitora e regeneradora
URÓBORO
como a grande mestra das artes terapêuticas, a serpente deu inclusive, desde a mais remota antiguidade, forma ao símbolo maior da astrologia, o do uróboro (etimologicamente, em grego, cauda e engolir), o símbolo da serpente que engole a própria cauda. Um círculo que simboliza ao mesmo tempo a autofecundação e a vida que se renova perpetuamente. Já se disse que o zodíaco, além de ser um símbolo em si mesmo, era um símbolo carregado de outros e por isso mesmo talvez o mais complexo já elaborado pelo homem. Com seu ciclo e seus subciclos marcados pelos eixos equinociais e solsticiais o zodíaco integrou para sempre a serpente à vida, à morte e ao renascimento.

URÓBORO  -   EGITO
No antigo Egito, as serpentes e os escorpiões sempre foram consideradas ao lado do crocodilo e do hipopótamo como seres ambivalentes, tanto maléficos como, ao mesmo tempo, benéficos, uma encarnação de potências que  se matavam podiam também criar, fertilizar e regenerar. A importante presença desses animais no mundo religioso egípcio, usados inclusive sob formas híbridas para representar muitos deuses, espantou os gregos quando de seus primeiros contactos com a terra dos faraós. Logo entenderam, porém, os visitantes, como Plutarco, que aquelas representações constituíam a principal característica do pensamento religioso egípcio: nenhum ser vivente era totalmente bom ou totalmente mau. Os mais sethianos animais egípcios, sempre temidos, encarnavam também forças favoráveis e benfeitoras.


OSÍRIS    E   ÍSIS

Perceberam os gregos, que, opondo-se a Osíris, o Ser Bom, seu irmão Seth representava o mal. O primeiro simbolizava com Ísis, sua esposa, a fertilidade, as cheias do Nilo, a fartura, o renascimento. O outro confundia-se com a falta, com a carência, tendo por símbolos o deserto, o seco e a esterilidade. Osíris e Ísis
NILO
tinham poder sobre as extensas margens inundáveis do Nilo, nas quais a riqueza do país se renovava anualmente através da agricultura. Seth, por seu lado, sempre dominou os lugares desérticos, sendo representado por animais que neles viviam, animais que se opunham à vida do Nilo e à fertilidade dos campos, como os hipopótamos e os crocodilos, os primeiros destruindo as plantações e os outros atacando os camponeses e as populações ribeirinhas. 

ANÚBIS


Esta associação de Osíris e de Ísis com o Bem não impediu que de seus cultos participassem animais marcados por forte ambivalência, como o chacal e a serpente. O chacal, como sabemos, emprestou o seu corpo a Anúbis, uma das divindades mais antigas do Egito. Os epítetos deste deus sempre evocaram a vida do deserto, seu mundo natural. Com o apelido de Upuaut (aquele que abre os caminhos) é Anúbis o encarregado de conduzir o morto ao Outro Lado. É o chacal um animal noturno, necrófago,  psicopompo, devido à sua vivacidade e à sua esplêndida visão noturna.

Era também nas fronteiras do deserto com o mundo civilizado que viviam animais fabulosos, seres estranhos  conhecidos pelos nomes de afrit ou djin, muito reais para a imaginação popular. Estes animais perturbavam bastante a ordem estabelecida, de modo
SETH   ATACANDO   APOPHIS  
especial a caminhada do morto para o Duat, o Outro Lado. Eram muito temidos, sendo por isso necessário conhecê-los bem, todos manifestações de Seth. É no período histórico do Egito que encontramos imagens desses animais, principalmente no revestimento de túmulos e em ilustrações de textos funerários. Demônios entre o homem e o animal, animais fantásticos, seres híbridos, como o sha (cão com longas patas e cauda em leque), o saga (animal com cabeça de ave de rapina, mamas, patas de leão e de cavalo), o safer (besta com asas, cabeça de ave de rapina e cauda de leão) e o sedja (besta com cauda de leão e cabeça de serpente).  

É pelas razões acima expostas que podemos compreender também, segundo Plutarco nos informa, como a áspide, serpente que no antigo Egito era comparada a um astro celeste em virtude da extrema facilidade com que se deslocava e porque tinha a fama de não envelhecer, foi parar na religião. Tendo o corpo formado por sucessivas mudanças (mudas), tecnicamente ecdises, foi essa serpente no Egito, ao que parece, usada para dar forma a antigas concepções urobóricas do zodíaco. Perigosa, sethiana, potência maléfica, a áspide tinha um veneno mortal. Era, assim, invencível, razão pela qual não só foi colocada  emblematicamente na fronte de Ísis como também na coroa dos faraós. 


HÓRUS   E   O   ESCORPIÃO
O que se diz da serpente, poderá se afirmar também com relação ao escorpião, animal sethiano. Muito presente na religião egípcia, é conhecida a história de Hórus que, ainda uma criança, nos pântanos do delta do Nilo, foi atacado por um escorpião. Quem o salvou foi sua mãe Ísis, juntamente com Thot. Além de Ísis, o escorpião aparecia associado ao culto da deusa Serqet em cujos templos os seus sacerdotes exerciam um importante papel médico, como especialistas na arte da cura com relação aos ataques de animais em geral e de venenosos em particular. 


SERQET
A alternância entre o bem e o mal (enchentes e vazantes do rio Nilo), mais do que em qualquer outra antiga civilização, sempre esteve presente na vida dos egípcios, alternância que eles, desde que as primeiras tribos se instalaram no país, viveram anualmente, projetando-a inclusive no seu quotidiano. O rio Nilo ensinou aos egípcios que no universo tudo é duplo, que tudo funciona através de polaridades. Toda a religião do antigo Egito, através das histórias dos seus deuses, não foi elaborada senão para expressar esta e outras leis universais.


APOPHIS

O maior monstro da mitologia egípcia, Apophis, segundo vários textos cosmogônicos, nasceu de uma cusparada de Nut, grande deusa celeste, mãe dos deuses e dos astros. Nascido sob a forma
RA
ofídica, Apophis, diariamente, tenta interromper a caminhada da barca do deus solar Ra, engolindo uma grande quantidade de água para fazê-la encalhar no seu caminho eclíptico. Com esta ação, encetada a cada aurora e a cada crepúsculo, o monstro procura deter o Sol, impedindo assim a marcha do tempo, sempre um combate entre as forças das trevas e das forças da luz, diuturnamente renovado. Ra sempre vence Apophis, auxiliado inclusive por Seth, que, com a sua espada, ataca o monstro, que reaparece a cada manhã. O que nos fica deste importante episódio, como aliás os antigos  egípcios o consideravam, é que no universo a presença e a ação de Apophis são indispensáveis, pois a luz  só tem sentido quando pensamos na sua negação (as trevas). Esta passagem da mitologia dos egípcios é mais uma clara ilustração de que no universo, como nos esclarece o hermetismo greco-egípcio, os opostos são simplesmente os dois extremos de uma mesma coisa.         

Se estendermos o nosso olhar à antiga Grécia,  não é de se estranhar  também que os antigos gregos, num lugar sagrado como o da  Acrópole, onde pontificava Palas Athena, deusa que tem como um de seus principais atributos a inteligência refletida, introduziram, para defender a cidade, a imagem protetora de uma serpente.  Como se apurou, simbolizava tal serpente a alma de Erictônio, primeiro rei mítico da cidade, metade serpente da cintura para baixo, metade ser humano da cintura para cima, criatura monstruosa gerada pela própria deusa.

São inúmeras, entre os antigos gregos, as histórias em que as serpentes aparecem positivamente.  Uma delas, por exemplo, nos revela que  ao sugar as orelhas de certas crianças no berço,
  ARTE    DA    LÍNGUA    DOS    PÁSSAROS

sinalizadas pelos deuses, a serpente lhes concedia o dom da adivinhação ou o poder de entender a língua dos pássaros, além de lhes fazer participar simultaneamente do masculino e do feminino. Profetas e médicos célebres, como Melampo, por exemplo, receberam desse modo seus dons oraculares. Melampo é um personagem da mitologia grega que, associado à serpente, “vive” em companhia de muitos outros no signo de Escorpião, que têm a capacidade de penetrar no oculto. Melampo, o de pés negros, etimologicamente, um dia, encontrou uma serpente fêmea morta e ritualmente a cremou. Os filhotes, agradecidos, diz o mito, purificaram-lhe a língua e os ouvidos, lambendo-os. Tornou-se então um extraordinário mantis, capaz de traduzir os sons emitidos por todos os animais, inclusive o das aves, além de ter adquirido o conhecimento total sobre as ervas mágicas e medicinais. 

TIRÉSIAS

Casos semelhantes são os de Tirésias, o maior mantis (adivinho) da antiga Grécia, e de Cassandra, a princesa troiana, que obtiveram os seus dons através de contactos que haviam mantido com serpentes.
PITONISA   EM   TRANSE
O mesmo se diga com relação às sacerdotisas que, em transe, recebiam as mensagens de Apolo nas grutas do oráculo de Delfos, eram conhecidas pelo nome de pitonisas. Sentavam-se em pequenos bancos forrados com a pele da serpente-dragão Python que Apolo matara ao tomar posse do santuário, antes tutelado por Geia, a Grande Mãe, e por Têmis. 

Uma tradição caldaica, por exemplo, retomada com sucesso, segundo consta de registros gregos, tinha o nome ofiomancia, que consistia na formulação de presságios em função dos movimentos do réptil. A fé que os antigos gregos depositavam nesses presságios para o conhecimento do futuro era tamanha que quando uma serpente invadia uma casa um altar doméstico era levantado em sua honra. 

GENIUS   LOCI
Na antiga Roma, temos a mesma reverência à serpente, que em inúmeras regiões, representava o genius loci. Entre os romanos, os genii locorum tinham o status de divindades. Eram entidades imanentes tanto com relação ao ser humano como com relação a cada coletividade, cidade ou local. Imanente, como se sabe, é aquilo que está na interioridade de um ser, que nasce com ele, que lhe é inerente, que faz parte de sua natureza.

Esses gênios ou espíritos, em muitas regiões da península itálica eram venerados sob a forma de répteis ctônicos, de serpentes, o mais comum. Eles funcionavam de modo semelhante ao das ninfas gregas, como entidades protetoras, espíritos da natureza, que garantiam a vitalidade do lugar.  Se o lugar se degradasse, desapareciam. Ruínas, lugares abandonados, deteriorados pela ação dos homens sinalizavam que o gênio do lugar não fora reverenciado adequadamente. Quanto ao ser humano, o gênio era uma divindade tutelar que o acompanhava do nascimento à morte, como seu duplo, seu daimon, seu anjo custódio, seu conselheiro, atuando como uma espécie de super-ego. 

A serpente é um ser antiquíssimo, mantendo-se no aspecto como  a conhecemos há pelo menos cerca de 380 milhões de anos. Como o escorpião, do ponto de vista da sua funcionalidade, da sua eficiência, da forma que tem para agir no mundo, é a serpente um sucesso da natureza. Enquanto o homem é considerado pelas religiões e pela ciência como o ponto final de um longo, sofrido e discutível processo evolutivo, fracassado quem sabe, a serpente e o escorpião, há milhões e milhões de anos, permaneceram sempre os mesmos, continuando a nos surpreender ainda hoje com  o seu desempenho no mundo.    

É a serpente, como nosso ancestral mítico, mestre da fecundidade, e das mulheres, a incontestável dona de todos os valores noturnos. Como arquétipo fundamental, está ligada à vida inconsciente do ser
 KRISHNA    E   ANANTA
humano. Animal de sangue frio, desprovido de pelos, de penas e de patas, deslocando-se sobre o solo ou na água, podendo descer ao interior da terra, representa, com relação ao homem, o vitorioso início de um esforço evolutivo, sendo, com relação ao homem, seu complemento e oposição ao mesmo tempo. Não foi por acaso que os hindus a honraram como Ananta o símbolo do infinito e o sustentáculo da criação cósmica. Como tal, a serpente, juntamente com os peixes, os javalis, os crocodilos, as tartarugas e os elefantes, animais sem idade, na tradição hinduísta, são considerados como cosmóforos e imago mundi. 


PERSÉFONE
A serpente, furtiva e invisível, vivendo nas camadas profundas da terra, às quais pode descer por orifícios que só ela conhece, como se fossem as entradas para o Bosque de Perséfone, foi colocada simbolicamente pelo homem como um ser do mundo que está abaixo da sua superfície  consciente. Ela é secreta, enigmática, associada sempre à vida obscura. Compreender qualquer coisa ligada à serpente é compreender qualquer coisa ligada à morte, ao invisível, à adivinhação e ao renascimento. 

Uma das figuras míticas mais interessantes que podemos incorporar ao mundo escorpiano é Asclépio, deus médico de Epidauro, filho
RUÍNAS   DE   EPIDAURO
de Apolo. O nome Asclépio vem de uma palavra grega que significa toupeira. Esse animal, embora não o seja, é considerado cego porque gosta de viver em lugares escuros, em buracos no interior da terra, uma imagem da vida subconsciente. Toda a medicina de Asclépio fala de transformações através de processos como a enkoimesis (deitar e dormir), a oniromancia (interpretação dos sonhos), a metanoia (mudança de sentimentos) e da nooterapia (transmutação mental), processos que propunham uma reforma psíquica através do controle de sentimentos e emoções incubados. A questão da medicina psicossomática já estava perfeitamente definida em Epidauro, no centro médico tutelado por este deus. Componente importante do cenário onde este deus atuava, no chamado Labirinto, era a Grande Serpente, ser ctônico, símbolo da vida que renova constantemente. Não será difícil perceber por isso, acredito, para o leitor mais atento e informado, o quanto Asclépio está por trás da doutrina psicanalítica.

Quando o cristianismo primeiro e depois o islamismo, dissidências do judaísmo, se impuseram como religiões vitoriosas, o mundo masculino marcou a sua posição definitiva de poder em extensas áreas da Europa, da Ásia e da África mediterrânea, subjugando totalmente o princípio feminino. Essa vitória, como sabemos, ocasionou, em grande parte, dentre outras coisas, a destruição ou a satanização de todo o universo simbólico relacionado com uma ordem anterior, que política, religiosa e socialmente valorizava o mundo feminino e os seus símbolos.


SAMAEL
Os judeus, por exemplo, para proclamar e consolidar a vitória do princípio masculino sobre o feminino, sempre afirmaram que Caim era filho de Eva e da Serpente (nachash, em hebraico), a forma ofídica que Samael, o príncipe das trevas, líder dos anjos expulsos do céu, tomara não só para tentá-la como para com ela se relacionar sexualmente. E isto além de defender aberrações como a de que o princípio feminino (Eva) foi gerador pelo princípio masculino (Adão). É por esta e por outras razões que as religiões patriarcais precisaram e precisam,  para se afirmar e manterem-se no poder ou evitar desvios, de guerras, de aventuras colonialistas e, sobretudo, no plano mental, recorrer ao dogma e à fé, isto é, recorrer a um “conhecimento sem saber” que vive de uma hipotética e inatingível esperança no progresso da civilização, na elevação do nível de vida da humanidade, na vocação pacífica dos homens,  

Se formos ao mundo islâmico, temos as mesmas ideias com relação à mulher e aos seus símbolos. A imagem mais conhecida que o Corão nos dá da mulher é elaborada através de uma metáfora: a mulher é como que um campo que o homem deve fecundar. No mais, as recomendações de praxe encontradas na ortodoxia religiosa das religiões patriarcais: ela deve ser virtuosa, boa esposa, submissa com relação a seu marido e aos costumes estabelecidos, não cometer pecados, observar as recomendações de pudor e a quarentena, se menstruada, esta sempre considerada como um mal (adha), uma sujeira, e que ninguém se aproxime dela até que purificada. Não devemos nos espantar, entretanto, quanto a este último item, a menstruação. É só lembrar que em inglês, língua que nos é mais próxima e familiar, um sinônimo de menstruação nos meios religiosos é curse, palavra que quer dizer maldição, imprecação, execração. Como verbo, curse é atormentar com calamidades, infelicitar.

SERPENTE   DE   BRONZE
No geral, como em outras tradições, a visão que a ortodoxia religiosa do mundo muçulmano tem dos ofídios e da serpente, em particular, é negativa. Temida, evitada, seu simbolismo fica restrito não só aos males que ela causa como por fazer ela parte de um mundo de entidades maléficas agrupadas sob o nome de Íblis, muitas delas sobreviventes de um período histórico pré-islâmico. Íblis, etimologicamente, quer dizer Satan, o lapidado, a figura principal da demonologia islâmica. Por ter cometido o pecado do orgulho, não se prostrando diante de Adão, foi expulso do paraíso. 

É evidente que nos meios cultos islâmicos, como acontece em outras tradições, a serpente é simbolicamente ambivalente. Temida por um lado, satânica, ardilosamente tentadora, é, por outro, através dela que se pode entrar em contacto com o oculto, com a estrutura invisível do cosmos. Seu nome, nesse sentido, é hayya, nome que a liga à criação do mundo, assumindo ao mesmo tempo funções divinas, maternais, curativas e alquímicas. É neste sentido também que em antigos cultos agrários semitas ela aparece como dona dos presságios e dos poderes noturnos, nos quais o deus lunar tomava parte sob forma ofídica.






quinta-feira, 18 de maio de 2017

LEÃO (1)

  
  
                     
SEKHMET
A mais antiga referência que temos sobre a constelação do Leão nós a encontramos no Egito, quando da construção da Esfinge de Gizé, monumento astrológico e religioso que marcou a passagem da era de Virgem para a de Leão, entre 10.000 e 8.000 aC. Na mitologia, Sekhmet (Sakhmis, em grego) era o nome, entre os egípcios, de uma deusa da guerra e dos combates, representada comumente como uma leoa ou uma mulher gigantesca com cabeça de leoa. O nome significava A Poderosa, um epíteto da deusa Hathor, grande divindade que os gregos identificaram como a sua Afrodite. 


HATHOR
Deusa do céu, filha de Ra, uma espécie de grande vaca celeste, Hathor tomou a forma de uma leoa e se lançou contra os homens que se revoltaram contra seu pai ou não o reverenciavam, Ra, o deus Sol. Temendo o extermínio da humanidade, por causa da ferocidade de Sekhmet, o pai pediu-lhe que se contivesse um pouco. Não sendo atendido, adotou um estratagema: espalhou sobre a terra milhares de cântaros com uma bebida mágica, feita de cerveja e de suco de romã. Completamente alterada, Sekhmet tomou a bebida por sangue humano e a sorveu em grandes goles, avidamente, embriagando-se. Com isto, a raça humana foi salva, mas, para apaziguar a deusa, Ra decretou que lhe seriam oferecidos no início de cada ano tantos cântaros da bebida quantas fossem as sacerdotisas do Sol.

RA  ,  DEUS   DO   SOL
Esta deusa era chamada também de A Grande Amiga do deus  Ptah (identificado pelos gregos como seu deus Hefesto), passando por sua esposa nos cultos de Mênfis. Sekhmet era a deusa do calor e das epidemias, temível, sempre honrada e apaziguada. Ela costumava se manifestar através do olho direito de Ra quando em fúria. Ra tinha o seu culto na cidade egípcia que os gregos chamavam de Heliópolis.


CIBELE  -  PLAZA  DE  CIBELES , MADRI

Cibele, a grande deusa da Anatólia, cujo culto penetrou no mundo greco-romano por volta do terceiro século aC, parece ter incorporado muitos dos traços de Sekhmet. Cibele era, na origem, uma deusa das cavernas. Personificava a terra em seu estado bruto, selvagem, primitivo. Era adorada também no alto das montanhas. Seu culto se espalhou a partir da Ásia Menor, alcançando todo o Mediterrâneo, como mãe dos deuses. Exercia um grande poder sobre todos os animais, que faziam parte de seu cortejo. Seu carro era puxado por leões, o que simbolizava o seu poder sobre toda a energia vital. Era representada com uma coroa estrelada de sete pontas ou, noutras vezes, vinha com um crescente lunar, o que deixava claro seu poder sobre os ciclos da vida. 

Seu culto tinha um caráter orgiástico, com muita música e dança. O instrumento musical que a simbolizava era o tamborim. Também chamado de tamboril, o tamborim é um instrumento de percussão
TAMBORIM
semelhante a um tambor pequeno, coberto com pele de animal, percutido às vezes com uma baqueta; sendo seu som menos “grave” que o tambor, um som mais agudo, a sugerir sempre agitação, movimento. Seu tambor era muito usado também na Grécia, nos cultos dionisíacos, com a finalidade escandir o ritmo.    

As representações gregas de Cibele conservaram sempre um caráter profundamente asiático. Seu culto se reunia em torno de uma confraria que, com danças convulsivas, ao som de flautas, címbalos e tamborins, reverenciava a deusa, muitas vezes seus adeptos se ferindo voluntariamente e chegando mesmo à emasculação. Essa
CORIBANTES
confraria na Grécia era a dos Coribantes, nascidos de um personagem chamado Corybas, um filho de Cibele. Chamavam-se também os cultores da deusa Galos e Curetes. Estes últimos, como sabemos, aparecem em Creta, como seres demoníacos,  reunidos numa espécie de tribo, que cuidou de Zeus logo após o seu nascimento, quando Reia lá o escondeu para não ser devorado pelo pai. 


ATTIS (OSTIA ANTICA)
Associa-se também ao culto da grande deusa a figura de Attis, uma divindade menor, do mundo vegetal, que nascia e morria periodicamente. Era muito semelhante ao deuses Tamuz e Adônis, como estes apareciam nos cultos da deusa babilônica Ishtar, o primeiro, e da deusa grega Afrodite o segundo. Quando o culto de Cibele se difundiu pelo mundo grego, a figura de Attis se modificou. Ele assumiu a figura de um belo pastor a quem a deusa impusera o voto de castidade. Rompendo-o, Attis se uniu a uma filha do rio Sangarios. Cibele enviou-lhe, então, um delírio frenético, o que fez com ele mesmo se mutilasse, castrando-se. Dentre histórias que cercam a  deusa Cibele, há uma em que se narra a sua união com o rei frígio Górdias, da qual resultou um filho, Midas,  que instituiu cultos de Zeus e da deusa.


ESFINGE   DE   GIZÉ

O grande modelo das esfinges egípcias é a de Gizé, voltada para o Sol nascente, que velava as necrópoles, guardiã de um mundo que se fôra e de outro que viria. As esfinges podiam ter cabeça humana (androsphinx), de carneiro (criosphinx) e de falcão (hieracosphinx). Na tradição oriental, a babilônica, por exemplo, a esfinge era tradicionalmente o monstro a ser enfrentado pelos heróis solares, sendo ela, portanto, um símbolo feminino, como é o caso de Marduk que, na mitologia mesopotâmica, luta contra Tiamat, o feminino caótico.   


FIX
Na Grécia, as características femininas da esfinge foram acentuadas, tornando-se ela Fix (do verbo, sphingein, estrangular, sufocar), um monstro feminino raptor, ao representar a libido insaciável. Era filha de Tifon e de Équidna, irmãos, casal de monstros, o primeiro vencido por Zeus, numa sangrenta batalha pela posse do universo. A segunda é a mãe, lembrando seu nome a palavra grega víbora, serpente. Extremamente férteis, geraram, além de Fix, monstros como o cão tricéfalo Cérbero, o gigante Ortro, a Hidra de Lerna, a Quimera, o Leão de Nemeia, o Abutre que devorava as entranhas de Prometeu, os dragões da Cólquida e do Jardim das Hespérides, guardando o primeiro o Velocino de Ouro e o outro os Pomos de Ouro, 

A esfinge grega tem a sua imagem fixada no mito de Édipo, sendo por isso também conhecida como a Esfinge de Tebas. Este modelo tebano impôs-se a todos os demais: era uma leoa de asas, com cabeça de mulher, seios tumefactos, vaidosos, prometedores, um monstro feminino considerado devorador, raptor, como o eram também as Sereias, as “cruéis cantoras” como ela, e as Harpias. Fix propunha enigmas aos que se aventuravam pelos caminhos e estradas. Se os viajantes não os decifrassem eram devorados. Édipo, graças à sua habilidade e ao poder de sua palavra, conseguiu vencê-la, uma vitória exterior, contudo, que lhe deu muitas recompensas, satisfazendo seus anseios de dominação, uma vitória que, no fundo, acabaria se transformando na causa da sua derrota interior.

Oriundo da família dos labdácidas, filho de Laio (o protetor), rei de Tebas, e de Jocasta (a de brilho sombrio), Édipo (etimologicamente, o que tem defeito nos pés) foi afastado do convívio familiar quando um oráculo previu que ele mataria o pai e desposaria a mãe. Exposto no monte Citeron, foi recolhido e educado pelo rei de Corinto, Polybos. Fugindo de sua pátria para escapar da previsão,
ÉDIPO  E  A  ESFINGE
( GUSTAVE  MOREAU )
entrou em luta, no desfiladeiro de uma estrada, com um viajante e o matou. Este viajante era Laio, seu pai, que usava um disfarce. Indo em direção de Tebas, para fugir do oráculo (Édipo não sabia que Polybos era seu pai adotivo), ele enfrentou um monstro que só trazia desolação e morte para a região. O monstro, Fix, propunha um enigma. Como os que ousavam enfrentá-lo não sabiam decifrá-lo ele os devorava. Édipo, contudo, soube dar a resposta certa, vencendo-o. Agradecidos, os habitantes de Tebas, premiando-o, o proclamaram rei, tornando-se então sua esposa a rainha, viúva de Laio, sua mãe. Cumpria-se assim a sentença oracular. 

Segundo Sófocles, a cidade de Tebas, logo depois destes acontecimentos, se viu atacada por uma peste que a tudo destruía. Consultado um oráculo, soube-se que a cidade só voltaria à normalidade, sanada a pestilência que a tudo degradava, se o assassino de Laio fosse encontrado. Assim é feito, chegando-se a conclusão de que o assassino não era outro senão Édipo, o atual rei, que matara o próprio pai e casara com a própria mãe. Revelando-se tudo, a tragédia se precipitou. Jocasta se enforca. Édipo perfura os
ÉDIPO  E  ANTÍGONA
( S. BRODOWSKI )
seus próprios olhos com o broche do manto (himatio) de sua mãe e esposa. Expulso por seus filhos, ele parte pelas estradas da Ática, totalmente acabrunhado e abatido, guiado por aquela que se tornou a luz de seus olhos, sua filha Antígona. Acabou Édipo chegando a Colona, perto de Atenas, sendo recebido por Teseu. Nessa região, num pequeno bosque, trôpego, em meio a relâmpagos, sob um céu tempestuoso, conseguiu o infeliz herói vencedor da Esfinge ir sozinho em direção de uma caverna que, por piedade dos deuses, se abrira para recebê-lo, descendo ele então ao interior da terra, e desaparecendo.    

A história de Édipo nos foi contada por Sófocles, restando do tema edipiano apenas duas tragédias Édipo-Rei e Édipo em Colona. Posteriormente, Eurípedes e Sêneca abordaram o mesmo tema, mas nunca alcançando o esplendor das tragédias de Sófocles. A literatura dramática francesa, desde o séc. XVI, se voltou para a
OEDIPE  REX , 1936
( J. COCTEAU  E  I. STRAVINSKI )
história de Édipo. Destaques para as obras de Robert Garnier (Antigone, 1.580), Corneille (Oedipe, 1.659), Voltaire (Oedipe, 1.718), André Gide (Oedipe, 1.931), Jean Cocteau (La Machine Infernale, 1.934), Jean Anouilh (Antigone, 1.944). Na música, temos a ópera-oratório de Stravinski e de Jean Cocteau (Oedipe Rex, 1.927) e a ópera de George Enesco  (Oedipe, 1.936).

O mito de Édipo, como se sabe, foi interpretado de várias maneiras ao longo dos séculos. A mais conhecida interpretação é a de Freud, que serve de ilustração para a sua doutrina psicanalítica. Em que pesem as conclusões freudianas e de seus acólitos, que fixam o mito na esfera da sexualidade, o que me parece mais adequado, inclusive segundo uma perspectiva astrológica, é também, e talvez sobretudo, considerá-lo segundo um enfoque social.

A história de Édipo descreve um rito de passagem. O interrogatório da Esfinge é, no fundo, uma prova iniciática, a que os jovens deviam se submeter. Esta prova ocorria na adolescência. Num primeiro momento, ela punha o adolescente diante de duas tarefas muito pesadas, mais de natureza inconsciente que consciente. A rejeição das fantasias incestuosas (fixação no mundo materno) e a libertação da autoridade paterna, para que lhe fosse possível o acesso a uma vida social adulta. Tudo acontecia quando o efebo,
ESFINGE
chegado a idade de dezoito anos, se submetia à docimasia (dokime, em grego, é prova, verificação da experiência; a palavra foi para medicina, aparecendo em expressões como docimasia hepática, a docimasia pulmonar), antes de se inscrever como cidadão nos registros de seu demo. A Esfinge, um monstro erotizado, devorava os que não sabiam assumir a sua nova condição. Era, ao mesmo tempo, sedutora e terrível. Propunha também aos jovens enigmas sobre a sua virilidade e sobre o amor. Era irmã das Sereias, uma “cruel cantora” como elas. 

É neste sentido que a figura de Édipo se confunde com a do ser humano de todos os tempos. Ele é simplesmente um indivíduo que resolveu trilhar o caminho do autoconhecimento, caminho que, na sequência zodiacal,  leva de Câncer a Leão, ou da casa IV à casa V. Conquistada a autonomia na quinta casa astrológica, que fazer?  Por isso, Édipo aparece como um rei no mito, uma figura típica do signo de Leão, o princípio patriarcal que rege o mundo dos deuses na sociedade humana. O rei é concebido como uma projeção do eu superior, lembrando sempre autonomia, autodeterminação e conhecimento integral da própria personalidade. Faltou a Édipo o mais importante, a noção clara desta última qualidade. 

O enigma que a Esfinge propunha era o enigma da própria vida humana. Enigma quer dizer fala obscura, mistério. Édipo soube dar a resposta, mas não compreendeu a profundidade do problema.
ÉDIPO  MATA  O  PAI  ( BAIXO  RELEVO , III  AC
Empolgou-se com a sua personalidade leonina, com a sua habilidade intelectual. A física ele já a havia demonstrado, ao matar o “inimigo” pelo direito de passagem no desfiladeiro). Ele não percebeu que a Esfinge mudara de rosto, aparecendo-lhe a seguir sob a figura de Jocasta. Édipo resolveu o enigma de forma puramente intelectual. 

Édipo, embriagado pelo sucesso, aclamado como rei de Tebas, esqueceu-se de que o caminho da vida deve ser percorrido com as pernas e com os pés; não pela imaginação, pela especulação ou pelo aplauso exterior, mas, sim, pela vitória interior, que ele nunca soube procurar. Tebas foi para ele o mundo ilusório do ego. Ele alcançou o auge (Leão), mas, na realidade, não tinha consciência do que isto significava, que era ali, naquele momento, que devia começar a sua descida. Ao se retirar de Tebas (reino exterior, reino do ego), no final de sua vida, Édipo, cego e alquebrado, a abandonou-o por si mesmo, para buscar a sua verdade interior. São as palavras de Tirésias: Ele, que agora vê, ficará cego; ele, que agora é rico, ficará pobre; e, tateando o chão com um bastão, caminhará por terras estrangeiras.  



A constelação do Leão se acha submetida à influência do astro central do nosso sistema, o Sol. Embora o quinto signo seja considerado como fixo, as forças solares nunca, a rigor, representam uma cristalização, uma concentração, como, por exemplo, ocorre com Capricórnio, onde as forças saturninas dão muito mais concentração ao signo. No Zodíaco, assim, se Áries representa a caminhada em linha reta, para a frente, com desprezo pelos obstáculos, Touro atua mediante acumulação. Gêmeos age através da dispersão, da difusão, em todas as direções. Câncer é um signo que procura resolver sempre a contradição de avançar e retroceder ao mesmo tempo. Já Escorpião desce, muito mais interessado no mundo subterrâneo, no mundo subconsciente e nos seus poderes secretos. Sagitário elege as distâncias. Enquanto os signos de água compartilham essa fossa babélica que é o mundo das emoções e os tormentos do amor, os de fogo simbolizarão sempre a adesão a alguma coisa; seu veículo natural é a ação, a irradiação, a passagem de um estado a outro. 

Uma das grandes características de Leão é a passagem do desequilíbrio a um estado de equilíbrio, pois o elemento ígneo atua, é preciso não esquecer, através do quente, que é expansivo. Lembre-se também que o fogo para fulgurar, para se desenvolver, precisa de ar, de oxigênio. Ou, de outro modo, de trocas; os signos de fogo,
LEÃO
inclusive Leão, exigem comunicação, precisam da passagem rápida de um estado a outro, de uma ação que leve do desequilíbrio ao equilíbrio. Do universo leonino fazem sempre parte o proselitismo (catequese, apostolado) e/ou a pedagogia (ciência que trata da educação dos jovens, que estuda os problemas relacionados com o seu desenvolvimento como um todo). Sempre presente em Leão ideias de guiar, de orientar. 

A “realeza” leonina só se manifesta quando o signo, deixando de lado os restantes pontos cardeais, se encaminha instintivamente para o quinto ponto, o centro, o lugar privilegiado dos leoninos. O centro é o lugar de onde emanam as imposições que vão estabelecer uma ordem, dar uma organização, pois sem ele tudo é caos. O centro implica assim uma ideia de cosmos, de ordem, no qual cada parte encontra a sua função pela relação que com ele mantém.

Outra característica importante de Leão é a necessidade de anexar, sendo por isso o signo inspirador, ao longo da história do homem, de todas as aventuras colonialistas, que precisam de exércitos (Áries) e da religião (Sagitário). Sempre uma ideia de eixo central
NAPOLEÃO  BONAPARTE
( JACQUES LOUIS DAVID )
em torno do qual se alinharão os satélites.  Todo leonino busca um centro, tal como o Sol atua no sistema solar. O melhor exemplo de tudo o que estou aqui a apresentar é o de Napoleão Bonaparte (15 de agosto de 1.769), em torno do quem (França) se alinharam vários satélites. Quanto a este exemplo, é bom lembrar que o império napoleônico, que sucedeu ao consulado, durou exatamente 11 anos (1.804-1.815), um número muito presente na vida de leoninos. 

A digressão que está acima servirá, acredito, para deixar claro que a grande divindade da mitologia grega associada ao signo de Leão é Apolo. Ele era a divindade que inspirava o estabelecimento das colônias (apoikias), unidas à metrópole (Atenas) sobretudo por laços religiosos, embora pudessem eles, os colonizados, manter uma certa autonomia administrativa.  O oráculo apolíneo de Delfos era obrigatoriamente consultado antes que um grego decidisse emigrar. Fracassos de empreendimentos coloniais gregos foram atribuídos ao desprezo dessa prática religiosa. A sentença oracular apontava para as regiões que deviam ser invadidas. Lembremos que Apolo foi a divindade inspiradora do estabelecimento de colônias gregas na Ásia e na África e, por isso, a divindade tutelar do que chamamos de helenismo, o conjunto da civilização e da cultura gregas que se desenvolveram fora da Grécia. 

O  CARRO  DE  APOLO ( GUSTAVE  MOREAU )

De início, no mundo grego, Apolo se apresenta como uma divindade caracterizada por fortes traços de prepotência, de orgulho, de violência, produto de um forte sincretismo (como todos os deuses gregos, aliás, o são) que incorpora elementos asiáticos, hiperbóreos e mediterrâneos. Aos poucos, à medida em que a sociedade grega se tornava mais complexa, as atribuições apolíneas também foram mudando, se alterando. Os primitivos componentes de sua imagem (guerra, invasão, violência) foram se atenuando, se resolvendo, de modo que ele, já ao fim do período arcaico, passará a ser considerado como um ideal de sabedoria, de estilo de vida, que definia o “milagre” grego. 


Todas as colônias, principalmente através de suas elites, sempre adesistas, “reverenciavam” a matriz grega, como acontece, aliás, com as políticas imperialistas postas em prática hoje no mundo moderno. Platão, em A República, recomendou aos legisladores que pensassem sempre em Apolo quando tivessem que estabelecer as leis que deveriam governar a república. Estas leis, todas, de inspiração apolínea, deveriam contemplar questões como: fundação dos templos, ritos sacrificiais, cultos religiosos em geral, definição de vida espiritual,  do que era demoníaco e do que era heroico, do culto dos mortos etc. 

Num plano superior, Apolo será a vitória sobre as pulsões instintivas (Áries), vitória que deve ser objeto de uma conquista
ÉSQUILO
pessoal (quinta casa) e não produto de uma herança (quarta casa). Ésquilo usa uma expressão de forte inspiração astrológica para falar de Apolo: o deus significa ir da caverna aos píncaros, aos cumes celestes ou, traduzindo, ir de Câncer a Capricórnio, porque antes de Câncer não “somos” e depois de Capricórnio estaremos “deixando de ser”.

Apolo, através de sua biografia, ilumina todas estas questões de natureza mítico-astrológica. Não é por acaso que Leto, a mãe, se transformará em loba (símbolo da vida instintiva) e que Apolo será chamado de Licógenes, o gerado pela loba. Aos poucos, através de sua crônica, Apolo vai mudando a valorização do lobo. Se na origem o lobo era sinônimo de selvageria e de depravação (as lobas, principalmente; daí, os prostíbulos serem chamados de lupanar), aos poucos, com Apolo, agregam-se sentidos positivos à palavra, ideias de furor guerreiro, de visão noturna (o lobo sai para caçar antes do nascer do Sol), de heroísmo (luta contra animais maiores), sintetizados pelo adjetivo Lycio. 

Outra passagem importante do mito apolíneo que ilumina bem o mundo leonino é a da posse do oráculo de Delfos. Oráculo, no mundo grego, tanto significava uma profecia feita por um adivinho independente como por um profeta ligado a um santuário. Oráculo
ORÁCULO
também era o nome que se dava ao lugar onde se proferiam sentenças oraculares, certos tipos de profecia. A estes lugares estava associada a figura de um inspirador, de uma divindade, de um herói ou de um morto ilustre. Os grandes oráculos da Grécia eram de Zeus e de Apolo, ao lado dos quais havia santuários colocados sob a tutela de deuses menores.

SANTUÁRIO  DE  DELFOS
Desde a mais remota antiguidade, desde tempos anteriores ao período arcaico da história grega, os oráculos sempre foram um domínio do feminino. Delfos, como oráculo, era de Geia e de Têmis, guardado por um dragão chamado Píton. Para se apossar da tutela desse oráculo, Apolo teve que matar o monstro e substituir a mântica por incubação, feminina, pela mântica dinâmica, masculina, que se realizava através de grandes festas e cantos corais. 


ORÁCULO  ( GRAVURA ALEMÃ )
A mântica por incubação era um procedimento tipicamente feminino. A sacerdotisa, no mais recôndito do oráculo, região cavernosa, cheia de emanações que vinham das profundezas da terra, os chamados vapores divinatórios, era, em nome de Geia, o veículo oracular por excelência. Incubar era, no caso, um processo de interiorização que levava a um transe com a finalidade de se favorecer o desenvolvimento e a uma eclosão (revelação) das sentenças oraculares. Incubar é trazer em estado latente, preparar para dar à luz. 


domingo, 3 de julho de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU – PLUTÃO (3)

                           
DEUSES    EGÍPCIOS
     
Vários textos foram produzidos para instruir o homem egípcio quanto à viagem que faria depois de sua morte. Essencialmente, estas instruções lembravam que o homem deveria procurar viver na terra da maneira mais justa possível, pois seus atos seriam colocados diante dele num julgamento futuro, perante dos deuses, cerimônia que os gregos chamaram de psicostasia, a pesagem da alma. Dizia um texto: Um homem pode permanecer depois da morte e todos seus atos serão colocados diante dele depois da sua morte. Entretanto, a existência no Além significa vida eterna e ela só será atingida por aquele que não procedeu erradamente. Se assim foi, o homem que assim procedeu existirá no Outro Lado (Duat) como um deus.


OSÍRIS   PRESIDE   A   PSICOSTASIA

A crença era unânime: depois da morte, todos seriam submetidos a um julgamento final, na presença do deus Osíris. Representado por uma múmia, Osíris presidia um tribunal diante do qual o coração do morto seria pesado, isto é, julgado. Na balança do julgamento, enquanto o coração ocupava um prato no outro prato era colocada uma pena de avestruz, emblema da equanimidade, símbolo de Maat, a deusa da justiça. Para os que se dessem mal neste julgamento, um animal feroz, chamado Devorador de Almas, ficava à sua espera. Chamado Ammit ou Aman em egípcio, este monstro, como se disse, era um ser híbrido, composto, na sua forma mais divulgada, por um torso de leão, por um hipopótamo na sua parte traseira e por um crocodilo na parte superior do corpo (cabeça). Era ele o encarregado de comer o coração do morto que não tivesse passado no julgamento. Comido o coração, a morte se tornava definitiva, dissolvendo-se o morto no nada.


AMMIT

Os que eram aprovados, iriam repetir no Outro Lado as agradáveis atividades que haviam desempenhado em vida, ainda que alguns trabalhos lhes fossem devidos (cuidar das terras dos deuses e do seu abastecimento de água, garantindo-lhes fertilidade eterna).  Os ricos e poderosos podiam transferir essas obrigações para os “Respondentes” (ushebits), já mencionados.  



USHEBITS
  
Embora os primitivos cultos divergissem quanto ao que um morto poderia ou não fazer do outro lado, os egípcios, através dos colégios sacerdotais, acabaram por elaborar uma síntese engenhosa das suas principais crenças relacionadas com a vida no Além. Dizia-se que o morto ficava no seu túmulo durante o dia, embora pudesse voltar a visitar os vivos por intermédio do seu alado Ba, entidade imaterial que representava a sobrevivência física do morto. Por intermédio de seu Ba, o morto poderia inclusive voltar aos locais de sua predileção no mundo dos vivos. Ao amanhecer, deveria retornar ao seu túmulo, para se alimentar, beber e repousar, cuidados dos quais até os mortos necessitavam.


BA

Partes importantes do Outro Lado eram reservadas para o fantástico e numeroso panteão egípcio. Cada nomo possuía a sua divindade principal. Ra dominava em Heliópolis, Toth em Hermópolis, Ptah em Menfis, Amon em Tebas etc. Uma espécie de loteamento, enfim, cada grande divindade dona de um pedaço do Outro Lado. No Novo Império, houve uma tentativa de se impor, através dos principais colégios sacerdotais,  uma certa ordem no disputadíssimo mercado religioso do país. Foi possível então se reunir a totalidade do panteão, representar toda a família celestial unida, algo como fazemos com os retratos de grupo. Esta iniciativa foi tomada durante o reinado dos faraós ramesessidas (III ao XI), entre 1220-1085 aC.



  HERMÓPOLIS   E   HELIÓPOLIS   NO   DELTA   DO   NILO

Osíris, o equivalente do Hades grego, teve a sua personalidade, ao longo de milênios, construída por contribuições diversas, até que acabou por se constituir numa divindade extremamente complexa e muito lógica até. O desenvolvimento da personalidade de Osíris  se manteve muito próximo da sensibilidade dos povos semíticos que sempre viveram uma religião de salvação fundada por um homem-deus que conheceu uma “paixão” (aqui sinônimo de sofrimento) no meio de outros homens.


ABUSIR

Foi em Busiris ou Abusir (etimologicamente, cidade e templo de Osíris), capital do nono nomo do Delta, que Osíris apareceu, assumindo as atribuições de um deus-pastor chamado Andity pelas populações locais. Já se levantou várias vezes a hipótese de que Osíris teria sido uma figura
TEXTO   DAS   PIRÂMIDES
histórica que num período obscuro da história do país, período pré-dinástico, teria unificado as tribos da região. As mais antigas referências às gestas osirianas encontram-se no chamado
Texto das Pirâmides ou Livro das Pirâmides, uma coletânea de inscrições gravadas nas cinco pirâmides de Saqara. Estes textos foram depois integrados àqueles produzidos pelo colégio sacerdotal de Heliópolis, centrados na figura do deus Ra. Nas versões heliopolitanas, Osíris é considerado como filho de Geb e de Nut, A Terra e o Céu (algo como Cronos e Reia entre os gregos) tendo como irmãos Hórus, o Antigo, ou Haroeris, o maléfico Seth, Ísis e Nephtys, todos nascidos ao mesmo tempo, nessa ordem. 


GEB   E   NUT

Historicamente, como se disse, o que se sabe é que Osíris havia ocupado o lugar do pai e reinara sobre o país em companhia de sua
RUÍNAS   EM   BIBLOS
irmã e esposa, Ísis. Num certo momento de sua vida, deixara na regência do país sua esposa e partira para divulgar a sua proposta civilizadora pelo mundo. Ao voltar, Seth, em companhia de setenta e dois asseclas, o mataram, encerrando o corpo numa arca, lançando-a ao Nilo. Levado pelas águas, o corpo de Osíris chegou a Biblos, Fenícia.

Chegando a essa cidade em busca do corpo do marido, Ísis o encontrou porque uma árvore crescera sobre a arca em que se encontrava o corpo de Osíris. O rei do Biblos ordenou que se
ISIS   AMAMENTA
HÓRUS
construísse uma coluna e um caixão para conter o corpo, entregando tudo a Ísis. No Egito, na região de Buto, no Delta, Ísis deu à luz a Hórus, um filho póstumo dela e de Osíris. Aproveitando-se da ausência de Ísis, Seth apoderou-se do corpo de Osíris e o despedaçou em catorze pedaços, espalhando-os  de pelo país. Auxiliada por Toth, Anúbis e pela irmã, Ísis recuperará os catorze pedaços (menos o pênis, devorado por um peixe) e reconstituirá, com as artes mágicas de que era detentora, o corpo do marido. Nos lugares em que foram encontrados os pedaços do corpo de Osíris, Ísis fez com se levantasse um templo.

As práticas mágicas operadas sobre o corpo de Osíris começaram pela mumificação. Está prática, entre os egípcios, parte da ideia de que o corpo deve subsistir depois da morte na sua forma material
MORTO   ENVOLTO   EM   PELES
para poder prosseguir sua vida no Outro Lado. Por isso, os egípcios buscaram tanto os meios artificiais para que isto fosse possível. Desde o início do período pré-dinástico (10.000- 8.000 aC?), os egípcios tinham notado que as propriedades do seu solo eram favoráveis a isso. Contando com esse aspecto favorável da natureza, passaram a usar, para aumentar a “vida” do corpo morto, invólucros de peles de animais para inumá-los.  

Como já se disse, Osíris preferiu descer ao Duat, o mundo dos
RA
mortos, para nele reinar. Ao assumir o reino dos mortos, Osíris, com isso, “promoveu” um grande enfraquecimento dos cultos que se prestavam a Ra, deus solar. Nos primeiros tempos do período dinástico, entre 4.000 e 3.000 aC, o processo de mumificação era muito primitivo; ele consistia apenas na impregnação da mortalha que envolvia o corpo com natrão ou resinas. 



EXTRAÇÃO   DAS   VÍSCERAS

O aperfeiçoamento dos métodos de mumificação só ocorreu no início do Antigo Império (quarta dinastia), quando incisões começaram a ser feitas para a extração das vísceras. Na sexta dinastia já havia uma classe de embalsamadores profissionais. A mumificação, contudo, era privilégio da família imperial e de alguns outros aristocratas mais chegados ao faraó.


MUMIFICAÇÃO

No Médio Império, a mumificação já estava bastante aperfeiçoada e se vulgarizara. A perfeição do processo, porém, só foi atingida no Novo Império (séc. XVI, 18ª dinastia). Neste período, a grande novidade era habilidade demonstrada por alguns profissionais que conseguiam preservar, na múmia, a expressão do rosto, como se o morto estivesse vivo, assim se dizia. 


MÚMIA  

A partir da quinta dinastia é introduzida uma grande modificação na arte funerária egípcia. As pirâmides, até então ”mudas”, começaram a “falar”, isto é, inscrições começaram a ser feitas, textos que constituiriam o chamado Livro dos Mortos mais tarde, uma coletânea de fórmulas destinadas a proporcionar ao morto (o faraó sobretudo) uma caminhada para o Outro Lado isenta de perigos. 


LIVRO   DOS   MORTOS

Quando um faraó tomava providências para construir a sua pirâmide, ele designava também um certo número de pessoas que, depois do enterro, deveriam assumir seu culto. Ligar-se a uma atividade dessas era uma honra; todos os cortesãos desejavam fazer parte desse privilegiado grupo. A exemplo do faraó, os aristocratas também procuravam assegurar que nada faltaria ao seu túmulo, de modo especial as provisões, a serem constantemente renovadas.



SACERDOTES   

No Médio Império, os ritos funerários sofreram nova mudança. Não havia mais um só “servidor do ka”, o filho mais velho geralmente, uma espécie de executor testamentário. Uma parte dos recursos do morto passa a ser destinada aos membros de colégios sacerdotais que assumem o encargo de “guardar” a lembrança do morto em todas as solenidades e cerimônias do templo. Os sacerdotes irão doravante, entoando cantos, aos túmulos e lá depositarão alimentos, cerveja e pão, principalmente. Aos poucos, as famílias deixam de cuidar do túmulo e “vida” do morto no Outro Lado. Os colégios sacerdotais passam a se encarregar dessas tarefas, que lhes proporcionavam vultosas rendas extraordinárias.



MÚMIAS

Todos estes cuidados tinham obviamente a intenção de facilitar ao máximo a caminhada do morto para o Outro Lado, deixando-o inclusive “tranquilo”. O que se desejava é que o morto chegasse “bem” à Sala das Duas Verdades. Assim, ele poderia, recebido por Anúbis, ser conduzido à presença de Osíris  e saudar os seus quarenta e dois assistentes que presenciariam o julgamento. 

OSÍRIS
O tribunal era infalível e incorruptível; a sentença proferida, com base na pesagem do coração, significaria uma eternidade de felicidade ou um mergulho no nada. Introduzido na sala das Duas Verdades, o morto, já qualificado perante Osíris, saudava os assistentes, os demais deuses presentes, e começava a prestar declarações, inspiradas diretamente pelo seu coração. A sua confissão era basicamente negativa. Ele deveria fazer a sua confissão usando trinta e seis frases negativas (este número era imutável). Seu discurso se encerrava com a frase Eu sou puro. O morto poderia ser interpelado pelos presentes, se suas declarações fossem julgadas insuficientes. Ao final, o morto fazia um elogio dos juízes.

O morto, antes de iniciar a sua confissão, pedia ao seu coração que não prestasse depoimentos que lhe fossem desfavoráveis, que não se voltasse contra ele no tribunal para que o prato da balança não pendesse desfavoravelmente, condenando-o. Ao declarar que o seu coração se confundia com o seu próprio ka, pedia que ele não mentisse e que fosse assim em direção do bem desejado, o ingresso nos reinos de Osíris.

Depois destas palavras, a corte se mantinha em silêncio. Anubis parava as oscilações dos pratos da balança para constatar se eles se equilibrariam. O morto seria salvo e conquistaria a vida eterna se o prato da balança onde estivesse uma pena da deusa Maat fosse mais pesado que o outro, onde estava a sua consciência. Do contrário, seria a condenação inapelável.

Lembro que na Idade Média a prova da balança, com o nome de
BALANÇA   EM   OUDEWATER
bibliomancia, era muito usada para o julgamento dos acusados de feitiçaria pela Igreja católica. Fazia-se o acusado subir num prato da balança e no outro se colocava uma Bíblia; se o acusado fosse mais pesado que a Bíblia, a condenação era inevitável. Na Inglaterra e nos Países Baixos a bibliomancia foi usada até 1707. Na Holanda, na cidade de Oudewater, por privilégio papal, estava um dos mais  importantes centros desta prova. 

Plutarco, sempre tão bem informado sobre o Egito, nos conta que Ísis, não desejando que o drama osiriano caísse no esquecimento, instituiu os chamados santos Mistérios de Ísis em honra ao marido, para que eles servisse de exemplo e de consolação para os seres humanos. O capítulo XVIII do Livro dos Mortos dá uma lista das cidades em que estes Mistérios se realizavam. Conforme inscrições encontradas, são inúmeros os depoimentos de pessoas que participaram destes Mistérios nos quais encontramos registros do quanto se sentiram confortadas e em paz. Os Mistérios que mais tarde se realizariam na Grécia, em Elêusis, instituídos pela deusa Deméter, lembram bastante os egípcios.   

O que os mystai (iniciados) egípcios ressaltavam nos seus depoimentos é que eles se sentiam como que participantes da natureza dos deuses. Osíris nunca foi como os outros deuses egípcios, senhor de um ou de vários territórios. Benfeitor, nenhum outro deus pode ser chamado como ele de Ounophres, o  Ser Bom por excelência, pois ele forneceu aos egípcios um meio de salvação. 

Em que pesem as circunstâncias de tempo e espaço e algumas breves defecções,  o Egito sempre permaneceu fiel ao programa religioso instituído desde os tempos pré-dinásticos. O culto dos mortos implicava também grandes demonstrações de piedade com relação aos ancestrais. O povo egípcio, desde tempos remotíssimos, entendeu a necessidade de preservar pela mumificação os cadáveres (literalmente, corpos tombados) da corrupção e a necessidade de alojá-los convenientemente. Um destino glorioso esperava o morto que escapasse completamente das servidões da condição humana, pois continuava a se “alimentar” e a “viver” eternamente no Outro Lado, leve, livre e solto.


ISIS

A ideia era a de que, como se viu, o morto pudesse gozar, perpetuamente, no Outro Lado, inclusive em companhia de sua família e de seus servidores, os “momentos felizes” que vivera na terra, desde que tivesse levado uma vida justa e respeitosa, sobretudo obediente politicamente. Mesmo o egípcio da mais humilde condição poderia levar para o Outro Lado seus “bons momentos”. Sabe-se que em muitos períodos da história egípcia, nos momentos de crise política e social, estas concepções se enfraqueceram um pouco. Sabe-se que nesses momentos muitos egípcios recorreram a magos-feiticeiros para forçar o tribunal a absolvê-los quando da psicostasia.