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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

EGITO - LITERATURA EGÍPCIA: O DIÁLOGO DE UM DESESPERADO COM SUA ALMA



A história do antigo Egito costuma ser dividida em três grandes eras, representadas pelos Impérios Antigo, Médio e Novo, separados por períodos intermediários de grande confusão política e social. O Antigo Império foi precedido por um período chamado pré-dinástico, que, sabe-se hoje, por recentes pesquisas arqueológicas, na realidade se estendeu entre, mais ou menos, 10000 aC (passagem do paleolítico para o neolítico) e 4300 aC (unificação do Alto e do Baixo Egito), e não como supunha a Egiptologia tradicional, entre 5000 e 2700 aC.

Foi durante o Antigo Império, com base em estruturas sociais já estabelecidas no período pré-dinástico, que um sistema de governo teocrático, muito organizado e centralizado, foi implantado. O acontecimento religioso mais importante dessa fase foi o do desenvolvimento do culto solar centralizado em Ra, deus Sol, o Criador, a partir da cidade de Iun, chamada de Heliópolis pelos gregos (na Bíblia foi chamada de On), associado a outras divindades. As principais bases desse culto estão definidas nos Textos das Pirâmides.

PTHA
A cosmogonia heliopolitana, para explicar a criação, origem da vida universal, adotava a tese segundo a qual a matéria procedia de uma fonte (unidade primordial) e se transformava gradativamente em múltiplas e diversas formas. Estas transformações, segundo a teologia menfita, se concretizavam através da palavra falada, sendo Ptha a grande divindade desta demiurgia. 

Por volta de 2700 aC e pelos quinhentos anos seguintes, o Egito entrou numa fase de grande prosperidade. As fronteiras
CANAIS DE IRRIGAÇÃO
controladas, o país produzindo, os faraós da quarta dinastia governavam com os olhos postos na eternidade. Construíram-se grandes monumentos, grandes edificações e esculturas em pedra. Canais e diques foram abertos e levantados para controlar melhor as águas do Nilo, para tornar o país ainda mais fértil.  Heliópolis cresceu suntuosamente em importância. A sensação era a de um progresso que jamais teria fim. O rei-deus era supremo, todos se considerando seus servos, inclusive a aristocracia, de onde saíam os quadros para a administração do país. 


Quando a quinta dinastia desse período (2494-2345 aC) subiu ao poder, um clima de intranquilidade, porém, foi aos pouco se espalhando pelo país. As relações entre o poder central, o faraó, e a classe sacerdotal começaram a se deteriorar, afetando bastante a vida de toda a população. Quando da passagem da quarta para a quinta dinastia, o faraó, até então considerado como uma divindade encarnada, suprema, começou a sofrer uma capitis diminutio. A classe sacerdotal de Heliópolis, cujo poder crescia em importância e riqueza, promoveu uma espécie de rebaixamento da figura real. De divindade suprema, absoluta, como um Ra, ele passara a ser considerado como seu filho.


RA

Além deste problema, outro, de natureza bem material, começou a intranquilizar bastante o governo central: a economia estava ameaçada de colapso. Constatou-se que os grandes gastos que haviam sido feitos na dinastia anterior, para celebrar as glórias de Ra e do poder faraônico, haviam praticamente esvaziado o Tesouro real.

Mas os problemas não se resumiam só a estes. Graves acontecimentos de ordem administrativa, provocados por atitudes de rebeldia da burocracia que administrava o país, nas mãos da aristocracia, antes submissa ao poder real, estavam servindo de exemplo para manifestações de desobediência popular. Os nobres, que nas províncias do império atuavam como governadores, começaram a se mostrar descontentes com o poder central, que o faraó representava, alguns até questionando abertamente a sua onipotência.

Durante toda quinta dinastia as tensões foram se avolumando até que no reinado do seu último faraó do período, chamado Pepi, que reinou por quase noventa anos, elas se tornaram incontroláveis. A agitação tomou conta do país, os senhores feudais, isoladamente ou através de alianças regionais, opuseram-se ao poder faraônico. Uma demonstração explícita dessa rebeldia foi quando muitos deles passaram a construir os seus túmulos nos seus domínios, uma afronta máxima.

As concepções funerárias egípcias, desde os tempos pré-dinásticos, observadas no Antigo Império, embora jamais tenham sido claramente estruturadas, revelaram sempre uma crença inabalável na sobrevivência no Outro Lado. Era costume, por isso, que os nobres procurassem ser enterrados nas proximidades dos túmulos reais, para melhor acompanhar o faraó no seu destino de imortalidade.

A rebeldia dos senhores feudais acabou gerando a anarquia, o caos social e político. As desordens e as crises eram constantes, perdendo-se o controle real sobre as águas do Nilo, vital para o bom desempenho da economia do país. As colheitas foram grandemente prejudicadas, a escassez de alimentos logo passou a fazer parte do quotidiano das pessoas, quando não mesmo a fome, em extensas regiões. Foi por esta época também, para piorar a situação, que nômades asiáticos atingiram a região do delta do Nilo, uma região rica, trazendo muito sofrimento para a vida de grandes contingentes populacionais. Aceleradamente, o Antigo Império se desintegrou, entrando o país num período histórico a que se deu o nome Primeiro Período Intermediário. 

Durante esse período, o Egito foi governado por sete dinastias, da sétima à décima primeira. Foi durante as sétima e oitava dinastias, cujos governantes duraram muito pouco no poder, que a guerra civil se tornou generalizada entre os governadores das províncias, com seus exércitos de mercenários. A fome, a miséria e a doença tomaram conta do país. Os túmulos foram saqueados, principalmente os mais ricos, da realeza e da aristocracia. Desrespeitadas as instituições do poder político, as pessoas adotaram atitudes individualistas, colocando os seus interesses pessoais acima de qualquer engajamento religioso ou social. Os tempos eram de agnosticismo, de pessimismo, de desespero. A morte, inclusive, se “desvalorizou”. As pessoas deixaram de investir na eternidade.

Os registros literários que nos chegaram desse período dão testemunhos da crise. Sua característica maior estava na excessiva valorização do individualismo como uma espécie de réplica à deterioração da figura do faraó. Um admirável texto desse período (autor anônimo), denominado por alguns estudiosos de O Debate sobre o Suicídio, é um diálogo entre um homem atormentado pelo desespero e sua alma (ba). O homem tenta convencer a sua alma de que o suicídio é algo bom, positivo, diante do mundo, assim descrito: Os irmãos são maus, os companheiros de ontem não se amam... Os corações estão ávidos, cada um desejando os bens de seu vizinho... Não há mais justos. O país está abandonado aos que só cultivam iniquidades... O pecado que ronda a Terra não tem fim. Mais: A morte está hoje diante de mim como a cura para um doente. A alma, numa certa passagem do texto, embora tente sempre demovê-lo, garante que ficará junto dele, mesmo que ele decida pôr fim à própria vida. 

Os textos literários produzidos nos anos do período intermediário de que trato aqui foram reunidos sob o nome de Literatura Pessimista. Esses textos refletem, dentre outras coisas, uma nova atitude com relação à morte e o questionamento sobre expectativa que todo egípcio tinha de alcançar a vida eterna no Outro Lado. Um dos mais antigos textos dessa literatura tem o nome de A Profecia de Nefertiti: um sábio é conduzido à presença do faraó (Sneferu, da quarta dinastia) e lhe fez revelações catastróficas sobre a vida futura do país, com destaque para os conflitos internos e para a invasão estrangeira. Maiores

informações sobre tão antiga literatura, para os quiserem ir mais fundo, poderão ser obtidas num dos mais completos livros até hoje publicado sobre ela, de nome Ancient Egyptian Literature, de Miriam Lichtheim, em 3 vols, publicados em 1973, l976 e 1980, pela University Califórnia Press. Mais informações poderão ser obtidas também em obra sobre o mesmo assunto, de Sir Alan Gardiner, publicada em 1914. Dentre outros textos pessimistas muito curiosos, trazidos por esses historiadores à luz, produzidos na agonia do Antigo Império, cite-se As Admoestações de um Profeta e o diálogo de um desesperado com a sua alma, acima designado pelo nome de O debate sobre o Suicídio. 

Não se pense, contudo, que a literatura pessimista tenha sido uma característica de períodos de decadência, como o foi o Primeiro Período Intermediário. No Médio Império, embora os tempos fossem diferentes, mais amenos, a desconfiança com relação à vida no Outro Lado marcava a sua presença no ideário que dava origem à literatura então produzida. O texto mais representativo dessa nova mentalidade é o Canto de Intef, que reflete uma nova postura da elite intelectual diante do fim último do homem. Poemas como os aqui mencionados foram provavelmente cantados também nos banquetes mortuários, ao lado das celebrações de praxe, em honra aos mortos, que ritualmente se realizavam.

ESTELA COM O CANTO DE INTEF
O Canto de Intef, embora não se oponha abertamente à ideia de uma vida eterna, a ser conquistada durante a vida terrena através do cumprimento irrepreensível de todas as obrigações religiosas e sociais que um egípcio deveria observar, esse canto procurava encorajar o gozo da vida terrena. Essa literatura, aliás, era muito semelhante àquela que muitos séculos mais tarde Horácio, entre os romanos, no início da era cristã, resumiria na expressão Carpe Diem: colhe o teu dia, aproveita o momento, evita perder tempo com coisas inúteis. O poeta egípcio era bastante explícito: mesmo uma tumba repleta de provisões não garantiria uma vida eterna. Aliás, até hoje, completava ele, ninguém voltou do Duat, o Outro Lado, o reino subterrâneo de Osíris, para nos contar alguma coisa sobre ele.

OSÍRIS
Inegavelmente, porém, o texto mais bem acabado da literatura pessimista que nos chegou do antigo Egito, tanto sob o ponto de vista filosófico como literário, foi o do diálogo do desesperado com a sua alma. Semelhante a ele, igualmente expressivo, embora referente a um outro contexto, é o que encontramos no Livro dos Mortos, entre os cantos 26 e 30.Neste, o defunto, ao se apresentar no tribunal de Osíris, para ser julgado, pedia ao seu coração que não depusesse contra ele.


TEXTO  DO  LIVRO  DOS  MORTOS

Entenda-se: para os egípcios, o coração físico (hati) era considerado como sede da vida instintiva, subconsciente. A ele se opunha o ib, o chamado coração consciente, ativo, onde se manifestavam os impulsos evolutivos, os desejos e as aspirações elevadas, nele atuando a vontade lúcida, que devia alimentar a vida moral. O coração, na religião egípcia, era a parte mais importante do ser humano, base do seu destino individual. Era em ib que estavam as possibilidades futuras do ser humano, o que ainda poderia ser realizado. Em hati estava depositado o passado, algo assim como aquilo que os hindus chamavam de sanchita karma. Por isso, o defunto, cheio de angústia, temia a interferência de hati, ou melhor, temia que ele o desmentisse quando estivesse fazendo a sua confissão, sempre negativa: não fiz, não permiti, não provoquei, não usurpei, não causei isto ou aquilo etc.

Para os egípcios, a personalidade humana era composta de quatro
BA,   CEGONHA 
partes: Khet, o corpo físico destinado à morte; chut, a sombra; e dois elementos não percebidos pelos sentidos, ba e ka. O primeiro destes dois últimos era representado por uma cegonha, talvez tanto por razões de ordem homofônicas como analógicas. A partir da 18ª dinastia, ba tomará a forma de um pássaro (cegonha) com cabeça humana que, por ocasião da morte, escapava em direção das regiões etéreas.


O homem existia através de seu corpo (khet), de seu nome (ren), de sua imagem ideal (ka), de sua alma (ba) e de sua sombra (chut). Estas dimensões físicas e espirituais, ressalte-se, não podem ser avaliadas com base nas concepções judaico-cristãs às quais estamos habituados nem segundo certas concepções da Psicanálise moderna, principalmente as de alguns freudianos, que chegam mesmo a considerar o sentimento religioso como um fenômeno patológico. 


CADÁVER   MUMIFICADO

No mundo egípcio, as categorias do concreto e do imaginário mais se imbricam do que se superpõem. Assim, o ser humano, depois de sua morte e de se ter beneficiado dos ritos funerários se reintegra no Outro Lado. O corpo (khet), pelo cadáver mumificado, é colocado numa espécie de cova para permanecer ligado à terra, enquanto seu ka, sob a forma de uma imagem, vai receber oferendas na capela do túmulo. 

O conhecimento do nome (ren) de cada ser humano era indispensável quando da realização dos ritos de passagem por ocasião da morte porque ele guardava uma identidade secreta, sendo o morto por ele convocado. O ka fornecia a força psico-vital, força que permitia que o nome existisse. Aplicava-se o nome ka também à faculdade que tinha um deus, uma pessoa ou um animal de realizar seus atos.


KNUM
Quando o deus oleiro Knum fabricou com barro o primeiro corpo humano, ele criou também o ka, o duplo psico-energético do corpo físico, uma espécie de matriz invisível. Quando o ser humano morria, seu ka se separava de seu corpo físico. Este fazia parte do mundo visível, enquanto o outro participava tanto deste mundo quanto do invisível. O mundo visível, terrestre, era assim uma espécie de “cópia animada” do céu graças ao ka, que era o depósito das forças vitais do qual procedia a vida e que subsistia depois da morte. O ka era uma espécie de reservatório de forças vitais, um duplo imaterial do corpo, modelado ao mesmo tempo que ele. Quando um ser humano morria, era o ka que se “ocupava” das oferendas depositadas quando do culto funerário. O ka de um faraó tinha nele uma parcela do divino. Na arte egípcia, estátuas colossais são sempre usadas para representar o ka real.

Quando nos aproximamos do conceito egípcio do ka não há como não se pensar em Platão, nas suas ideias, provavelmente retiradas, do pensamento religioso egípcio.  Com efeito, para Platão, os múltiplos e sensíveis objetos do mundo físico, composto por uma
PLATÃO
matéria mutável e acidental e por uma forma pela qual são o que são, têm um substrato, uma essência, que existe eternamente. O mundo sensível era para Platão formado assim por elementos ideais e por elementos materiais, constituído pelo ser e pelo não-ser. Todos os seres e objetos do mundo, precários e perecíveis, mais ou menos segundo a espécie a que pertençam, têm em si um reflexo de uma Ideia única correspondente a essa espécie. Assim, os diferentes seres e objetos sensíveis, múltiplos e destinados à morte, como se disse, como não podem ter a perfeição da sua Ideia matriz, já que matéria é sinônimo de imperfeição, resistente sempre à forma, não passam de uma cópia dessa matriz ideal.  


O ba é a noção que mais se aproxima da nossa, de alma. Primitivamente, o ba parece ter sido o poder que os deuses tinham de se movimentar e de tomar formas diferentes. Assim, uma forma ligava-se a cada ba, podendo os deuses ter muitos ba, segundo a forma que quisessem assumir. O ba  correspondia mais a uma capacidade do que a uma entidade. Quando um ser humano morria, o ba retomava a sua liberdade mas permanecendo ligado ao morto enquanto este, graças à mumificação, conservava uma forma humana. 

Quanto aos deuses, o ba habitava a sua estátua de culto. Essa entidade  tinha assim necessidade de um suporte para se manter, uma imagem, uma estátua. No caso de Ra, por exemplo, dizia-se que seu ba era o Sol. Dizer que alguma coisa era o ba de um deus equivalia a dizer que esta coisa era a manifestação do deus no mundo sensível. 

Negra e furtiva, a sombra, chut, depois da morte, e uma vez “aberta” a porta da tumba, escapava em direção da luz juntamente com a alma. Como fiel companheira do homem durante a sua vida, a sombra, ao escapar, adquiria autonomia. Ela era considerada como um duplo do ser humano com a função de lhe oferecer proteção.      

Depois da morte de uma pessoa, o ka podia permanecer no corpo mumificado ou em alguma estátua que o representasse. Comida e alimentos deviam ser oferecidos para que essa ligação se mantivesse. Quando se trocavam brindes entre amigos, era ao ka que se faziam votos de boa saúde: erguiam-se as taças e se dizia ao teu ka! No momento da morte, esse corpo imaterial, representado sob a forma de um falcão com cabeça humana, deixava o corpo e podia se deslocar por vários lugares, inclusive viajando pelos céus, mas com a obrigação de, à noite, voltar ao túmulo.


TEXTO   DAS   PIRÂMIDES  -  A   BARCA   DO  CÉU

Os livros religiosos que nos informam sobre os costumes funerários egípcios, os Textos das Pirâmides, os Textos dos Sarcófagos e o Livro dos Mortos, nos esclarecem também sobre um princípio espiritual chamado akh, representado por um íbis com um penacho na cabeça. A palavra tem relação com o que é eficaz, benéfico e glorioso. Opondo-se ao corpo, que é da terra, o akh pertencia ao céu. Em tempos muito remotos, ao que parece, só os deuses e os faraós enquanto seres divinos, participavam deste princípio.



O akh estava no começo de qualquer gênese. A imagem para explicá-lo era a da luz saindo das trevas. Os egípcios diziam que Ra saindo de Nut era o akh por excelência. No mito, Nut, deusa do céu noturno, dava nascimento aos astros e os devorava ao fim do dia. Era por isto representada algumas vezes por uma porca, animal que tinha a reputação de devorar as suas próprias crias. O akh, o ba e o ka formavam uma espécie de trindade, três estados espirituais, interdependentes, algo assim como as três faces de um triângulo equilátero. 


NUT

Quando nos aproximamos um pouco mais da literatura egípcia, impossível não se tentar investigar como ela apareceu. Sabe-se que desde o Antigo Império, logo abaixo do faraó, de sua família e da aristocracia, se situava a poderosa classe que fazia o Egito faraônico funcionar de fato. Era a classe dos funcionários públicos, sendo obrigatoriamente escribas os que a ela pertenciam.

A rigor, no Antigo Império, quanto às classes sociais, havia primeiramente o faraó, de origem divina, que assumia uma atitude paternal com relação aos seus dependentes diretos. Mais ou menos numeroso, mais ou menos próximo, esse grupo constituía a nobreza, que costumava às vezes interferir até bastante nos negócios reais. Esse grupo, mais as pessoas da corte, amigos do soberano, chamados imakhu, e os servidores próximos  formavam uma classe privilegiada que foi se afastando e isolando cada vez mais do grosso da população. 

Todo escriba era funcionário do Estado, gozando de grandes regalias em todos os períodos da civilização egípcia. O aprendizado dos candidatos a essa atividade profissional, à qual tinham acesso inclusive crianças de níveis sociais inferiores, começava aos cinco anos, estendendo-se os cursos até os quinze, dezesseis anos ou mais. Era nas escolas, junto dos templos, que os meninos aprendiam, sob uma rigorosa supervisão, a traçar os elegantes signos hieroglíficos e hieráticos. Depois dessa formação, todos acabavam se encaminhando para os vários postos na administração pública. 

Com o tempo, a classe dos escribas, com exceção da dos nobres, foi se colocando acima das demais, adquirindo muitos de seus
ESCRIBA
representantes a condição de sábios. Os instrumentos que usavam e os rolos de papiro que carregavam davam-lhes consideração e prestígio. Era pela cultura que iam adquirindo e pelos meios sociais que passavam a frequentar que os escriba esperavam atingir os postos mais elevados na administração pública, inclusive o de vizir. No Antigo Império, eles gozaram de tanto prestígio que só podiam ter acesso à carreira as crianças da família real e da nobreza. É à classe dos escribas que devemos, sem dúvida, a produção literária que nos chegou do antigo Egito.


Os textos literários desses antigos tempos foram registrados em pedras, óstracos , tabuinhas de madeira e em papiros. Muita coisa foi destruída pelo tempo e pelo próprio homem. Em 1848, um egiptólogo alemão adquiriu um papiro que fazia parte da coleção de um diplomata inglês. Estudos realizados possibilitaram identificá-lo como um texto produzido ao final do Antigo Império, no chamado Primeiro Período Intermediário. Estava escrito na forma de um diálogo (perdeu-se o seu início): um homem desesperado dialogava com o seu ba, obra sem igual na antiga literatura egípcia. 

Inicialmente, a alma declara que se o homem pusesse fim à sua vida, como pretendia, ela não o acompanharia. Ele desapareceria totalmente no nada. Os discursos do homem e da alma vão se alternando, definindo-se bem as suas posições: para o homem, o suicídio era uma solução; para o seu ba, sua consciência, se quisermos, uma derrota vergonhosa, inapelável. 

O homem expressa não só um grande desgosto com relação a si mesmo como com relação aos outros homens. Ele diz que não encontra ninguém com quem possa falar, ninguém em quem possa confiar. E continua: A morte está hoje diante da minha face como o odor da mirra, como se eu estivesse sentado sob a vela num dia de vento. A alma, ao final, assume a palavra num tom mais duro, contundente até, e pede que, embora reconhecidas as dificuldades dos míseros tempos do seu presente, o homem deixasse de pensar no Ocidente (lugar onde ficavam os cemitérios no antigo Egito, sinônimo aqui de morte) e que ele realizasse os ritos que lhe permitiriam esperar serenamente pela sua hora. A alma, encerrando o diálogo, pede que, considerado tudo que o que lhe falta, homem, num primeiro momento, aprenda a amá-la, pois ambos, juntos, saberiam encontrar o caminho do cais.

terça-feira, 4 de março de 2014

A FIGUEIRA

 
FICUS BENGHALENSIS

  
A oliveira, a vinha e a figueira são as três mais importantes expressões do mundo vegetal nas antigas sociedades mediterrâneas. As três estão ligadas ao cotidiano dessas sociedades, fazendo parte da sua economia, da sua alimentação, dos seus costumes, da sua medicina popular, dos seus mitos e lendas, das suas crenças religiosas.

 Há uma vasta literatura sobre as duas primeiras, ligadas de modo especial ao mundo greco-romano, sobejamente
BÉRBERE - MARROCOS
conhecida. Já quanto à figueira, embora  também faça ela parte da cultura ocidental, pelos motivos acima expostos, pouco se sabe dela,  como árvore-símbolo dos povos do norte da África. O que vai nos interessar mais neste trabalho é o levantamento de algumas questões que, longe de esgotar o assunto, possam nos ajudar a entender como essa árvore se tornou tão importante para muitas civilizações do mundo antigo, especialmente sob o ponto de vista religioso. 



ÁFRICA COM O NORTE EM DESTAQUE


As figueiras são conhecidas também como ficus, calculando os botânicos que no mundo todo haja cerca oitocentas espécies dessa árvore, especialmente em regiões de clima tropical e subtropical. Os frutos da figueira, além de muito consumidos pelos seres humanos, fornecem alimento para aves, símios e peixes (frutos caídos na água). O fruto da figueira mais consumido em todo o mundo é o proveniente da Ficus Carica, assim designada porque se supõe que seja a Cária a região de sua origem. A Cária (etimologicamente, país montanhoso) estava situada no noroeste da Ásia Menor. Colônia fenícia, foi helenizada pelos dóricos e depois tomada pelos persas, passando depois para o poder romano no início de nossa era.  





Conhecida desde o período neolítico, a figueira sempre foi considerada como a árvore da generosidade e da abundância em virtude de suas virtudes protetoras, fecundantes e regeneradoras. Um dos primeiros povos a nos
revelar os segredos da figueira foi o egípcio, interessado inclusive por técnicas de seu cultivo (arboricultura), principalmente sob o ponto de vista frutífero e do aproveitamento do seu lenho,  há muito usado para a construção de sarcófagos. Conheciam os egípcios um processo chamado caprificatio através do qual as frutas fêmeas eram polinizadas por um inseto, o blastófago, que abriam nos frutos um orifício para esse fim. Os gregos e romanos também conheceram esse processo, descrito, por Teofrasto, discípulo de Platão,  e pelo naturalista romano Plínio, O Velho.

CLEÓPATRA


Um dos grandes acontecimentos da vida do povo egípcio, aliás, tem relação com os figos, muito apreciados por Cleópatra, a última rainha do país, da dinastia dos Ptolomeus. Consta da sua biografia um episódio, não confirmado historicamente, o de que a serpente (víbora) que lhe picou mortalmente o seio veio escondida num grande cesto de figos por ela pedido à sua criadagem. Uma das espécies mais conhecidas da árvore tem entre os egípcios o nome de figueira dos faraós.


A figueira dos faraós (ficus sycomorus) tem também o nome de sicômoro é árvore muito comum em todo o norte da África, cultivada tanto pelos seus frutos comestíveis e também como planta melífera e ornamental pelas suas flores, sendo inclusive muito útil na tinturaria (tingimento de tecidos). Sua madeira, além de bastante usada para a construção de sarcófagos, como se disse,  é especialmente empregada na confecção de instrumentos musicais e de móveis. 


A origem do sicômoro é explicada pelos gregos por um mito. Os gigantes eram os inimigos naturais dos deuses. Reia,
REIA
esposa de Kronos, mãe dos futuros olímpicos, ao ser ameaçada por um deles, de nome Syceu, o transformou numa árvore, o sicômoro, nome que, em grego, se decompõe: sycon, figo, e moron, vermelho escuro, também amora. Segundo uma outra versão, Syceu foi um dos titãs que salvou Geia, sua mãe, então perseguida por Zeus, quando da titanomaquia (luta entre os titãs e os futuros olímpicos). Siceu fez nascer uma gigantesca figueira para que Geia nela pudesse se esconder. 



Gaius Julius Solinus, gramático e escritor latino (séc. III dC), nos seus deliciosos textos Collectanea Rerum Memorabilium
e Polyhistor, nos informa que a figueira é a principal árvore do Egito. Sua folha, prossegue, é muito parecida com a da amoreira; seus frutos são encontrados tanto nos galhos como no tronco; a árvore nos dá seus frutos sete vezes por ano (sic); mal colhido um, outro começa a despontar no lugar do que foi colhido. A sua madeira, lançada à água, desce ao fundo; depois de um certo tempo, ela volta à superfície. Esta imagem da madeira boiando à superfície das águas foi
usada na arte mortuária (sarcófagos) para representar a dispersão dos membros do deus Osíris nas águas do rio Nilo. Por sua fecundidade excepcional, a árvore era conhecida como a nutriz por excelência dos defuntos na sua viagem para o Amenti (O Outro Lado). Por essa razão, plantavam-na diante dos túmulos para assegurar a proteção ao defunto até a sua apresentação diante de Osíris. 

OSIRIS


Muito procurada pelos amantes, que gostavam de se refugiar à sua sombra, a figueira tem lugar de destaque na poesia amorosa, desde o período pré-dinástico. Os poetas nos informam que, quando ela “fala” (o movimento de sua ramagem), suas palavras são como gotas de mel; sua textura é a da faiança, sendo sua sombra fresca sempre proteção.

NUT E GEB - CÉU E TERRA


Nos Textos das Pirâmides encontramos referências que ligam a figueira à deusa Nut. Como divindade celeste, é ela
RA
que dá nascimento aos astros, que  engole a cada entardecer e os devolve pela manhã. Assim, o lenho da figueira como sarcófago engole o defunto para transformá-lo num novo Osíris. Nos capítulos 109 e 149 do Livro dos Mortos encontramos referências a ela; no primeiro, há uma menção aos espíritos que habitam nas copas dos sicômoros de esmeralda, ornamento dos rios, que deslizam silenciosos. No segundo, se registra que, na sua viagem, Ra (Sol), com a sua barca, passa por dois sicômoros cor de turquesa. 



ÍSIS

Árvore de Ísis, sabe-se que egípcios, além do uso do figo para a fabricação de produtos farmacêuticos, faziam para
FIGOS SECOS
suas cerimônias religiosas uma bebida com eles. Informações dos tempos da dinastia dos Ramsés nos dão a conhecer que enfiadas de figos secos eram servidas em repastos depois de longas viagens. Os figos eram usados também para a engorda de gansos com fim de se preparar o
FOIE GRAS
foie gras
(fígado de ganso gordo) e na arte da panificação. Esta técnica, séculos e séculos mais tarde, muito difundida entre a elite romana, seria passada para os franceses. Luis XIV estimulou grandemente a plantação de figos na região de Versalhes, dos tipos Rouge d´Argenteuil e Dauphine.


POMAR REAL DE VERSALHES

Para uso religioso, os egípcios importaram de uma região do Mar Vermelho, do misterioso País do Punt, sinônimo de paraíso terrestre para eles, sicômoros especiais (nehat) para
FIGUEIRA DE PUNT
a produção de incenso. Estas árvores foram plantadas nos terraços do templo funerário da rainha Hatshepsut, filha de Tutmosis I, “aquela que reinou como um homem”. As figueiras eram particularmente usadas para cercar os templos, formando em torno deles um cinturão de frescor bastante agradável. As Casas de Vida, centros culturais construídos ao lado dos templos, eram também cercadas por figueiras com esse fim. As deusas Hathor e Isis tinham especial predileção pelos sicômoros para as suas manifestações.


TEMPLO FUNERÁRIO DE HATSHEPSUT


Para alguns estudiosos, o nome grego sykon (figo) teria vindo da Fenícia, lá usado para designar o fruto da Ficus Carica, muito consumido. Conhecido há mais de 10.000 anos, sua cultura já estava estabelecida por volta de 5.000 aC no Oriente Médio, espalhando-a os fenícios por todo o Mediterrâneo e propagando-a posteriormente os cartagineses, gregos e romanos. Recentemente, lembremos, arqueólogos israelenses descobriram que o figo já era cultivado na Cisjordânia desde o período neolítico e atestada a sua importância como alimento privilegiado, especialmente quando seco, para ser comido em épocas de escassez alimentar ou no inverno.


Na Grécia antiga, o figo, sempre considerado como um importante alimento (sua exportação era proibida), tinha um status privilegiado (dádiva divina). Aqueles que os contrabandeavam ou roubavam eram conhecidos pelo nome de sicofantas. O nome, inicialmente, foi aplicado aos encarregados de vigiar os frutos; depois, passou a ser usado para designar esse funcionário como  caluniador, porque,
DIONISO
aproveitando-se do cargo, ele fazia denúncias sem fundamento, só por perseguição ou antipatia. Muito apreciado pelos gregos, o figo fazia normalmente parte de sua alimentação diária. Essa importância está inclusive registrada no mito, onde encontramos a história de Syke (o figo), ninfa pela qual o deus Dioniso se apaixonou. Como símbolo da fertilidade, o fruto era muito usado como um dos alimentos consumidos na primeira fase dos Mistérios de Eleusis, a orgia, juntamente com o kykeon, bebida à base de vinho, de caráter enteógeno, que tinha entre os seus componentes certos fungos (mais tarde, usados como base do LSD), conhecidos como alimento dos deuses (broma theon),  que produziam visões fantásticas.



Em algumas passagens míticas, temos informações de que o figo era uma dádiva de Deméter, considerada “tão ou mais importante que o ouro”. Citado na Ilíada e na Odisseia, diariamente consumido, ele era especialmente recomendado aos atletas olímpicos quando concentrados para os agones, já que dava “força e agilidade”. Na medicina, como uma espécie de panaceia, eram famosos os cataplasmas de figo. Platão acreditava na sua origem divina  (dádiva de Deméter) e, como todo grego, era um philosykos, amigo dos figos. Na sua  Academia, sugeria que para melhor filosofar os seus discípulos comessem muitos figos. Para a saúde do corpo eram também recomendados os frutos;   em Esparta, faziam parte, desde cedo, da alimentação da crianças entregues à tutela do Estado. 

ACADEMIA DE PLATÃO


Entre os romanos, a figueira aparece no mito de Rômulo e Remo, encontrados ao pé de uma delas, ali sendo alimentados por uma loba. Inspirado pelos deuses, o pastor Fáustulo os encontrou e os entregou a sua esposa, Aca Larência, para que ela os criasse. À figueira foi dado o nome latino faustulus, tornando-se ela um símbolo político de
RÔMULO E REMO
proteção. Quem nos conta esta história é Plínio, o Velho: o local onde os gêmeos foram encontrados recebeu o nome de Lupercal; no cume do Palatino, berço de Roma, havia uma gruta sagrada onde a loba Luperca amamentou os meninos. O local era conhecido por uma enorme figueira, de nome Ruminal, ao lado da qual borbulhava uma fonte. Rumis era um nome carinhoso dado às mães e popularmente ao seio feminino. Plínio nos informa também que a figueira Ruminal tinha a fama de proteger contra a ação dos raios. 



Os romanos costumavam consumir os figos à mesa, frescos ou como foie gras, e, fora dela, secos. Catão recomendava  que, nessa condição, antes de colocá-los em cestos, era
CATÃO
preciso muito cuidado para que não contivessem nenhuma umidade, livrando-os assim do bolor. Depois de secos, segundo ele, os figos se transformavam num excelente alimento para os humanos e para os animais, servindo de base para muitos produtos medicinais. Plínio falava que o figo era um bom substituto do pão, podendo entrar na ração dos escravos com essa finalidade. A história registrou que Marcus Gavius Agicius, gastrônomo, séc. I dC, introduziu em Roma a técnica de engorda do fígado dos gansos. Chama-se ficatum o fígado do ave assim engordado.  



Catão, o Censor, usou a figueira, por sua resistência e facilidade de propagação, como um símbolo (metáfora) para advertir os romanos do perigo que representava a África, ou melhor, Cartago. Como a figueira, uma “verdadeira praga africana”, a cidade de Cartago resistia bravamente a Roma, afrontando o seu poder. Daí a divisa de Catão: Delenda Carthago, com a qual  encerrava todos os seus discursos diante do perigo que oferecia a cidade púnica. Na origem, punicans, tis, queria dizer vermelho, púrpura. Dela saiu punicus para designar as coisas cartaginesas; por exemplo, punica fides, a má fé, a fé púnica (mercantilismo); punica ars, estratagemas usados pelos cartagineses para enganar, tudo isto, evidentemente, sob o ponto de vista dos romanos. 

MOISÉS (MICHELANGELO)
   
O figo foi um dos tesouros que Moisés prometeu aos judeus quando chegassem à Terra Prometida. A Bíblia nos diz que Adão e Eva esconderam a sua nudez com folhas da figueira depois de terem desobedecido a ordem recebida de não comer os frutos da árvore da sabedoria. Entre os cristãos, a figueira aparece nos evangelhos de Marcos (11:12-14 e 11:20-25)) e Mateus (21:18-22). É conhecida por muitos católicos a Parábola da Figueira Estéril. Segundo muitos estudiosos, Cristo teria usado a figueira como uma metáfora a fim de descrever a aparência externa da nação judaica como algo grandioso (a sua copa, a sua ramagem), mas que deixara há muito de produzir alguma coisa útil para a glória de Deus.   


Assim a figueira, na tradição cristã, tornou-se a árvore do mal, simbolizando tanto a sinagoga, que não reconheceu o Cristo, como todas as doutrinas heréticas. A tradição medieval cristã aproximava o verbo peccare (pecar) da palavra hebraica pag, figo. Considerada árvore da abundância, da fecundidade perigosa e descontrolada, a figueira aparece na Bíblia como a árvore da ciência, sempre perigosa para as questões da fé. Árvore na qual Judas Escariotes se enforcou, sempre maldita, associada a ritos de fecundação,  a árvore sempre fez parte do universo simbólico das divindades fálicas, Dioniso, Príapo e outras, satanizada por isso pelos cristãos.

EXPULSÃO DO PARAÍSO (MICHELANGELO)


Ao comer os frutos proibidos, Adão e Eva abandonaram o divino. Tentados, pressionados por forças inconscientes que não dominavam (a serpente), acharam, ao comer figos, que podiam adquirir o conhecimento que os igualasse a Deus. Ora, o divino é um mundo ao qual só se pode ter acesso pela fé, nunca pela razão. A figueira, por causa dessa carga de maldição no mundo cristão, foi condenada a dar frutos sem florir. 


A Árvore do Conhecimento, conhecida como a Árvore do
FÊNIX
Bem e do Mal, a grande figueira, estava no Jardim do Éden. Não só Adão e Eva, instigados pela Serpente, comeram os frutos da Árvore; todos os animais da criação comeram-nos também. Só uma ave se absteve, sendo transformada por isso na Fênix, a ave que nunca morre.



 A Árvore do Conhecimento é, como se pode constatar, uma metáfora que admite leituras em várias direções: a) como símbolo da capacidade de discernimento que o homem devia demonstrar diante do Bem e do Mal; b) como uma representação da vida sexual não ligada à procriação, mas tão só ao prazer; c) como uma representação do psiquismo humano; Adão, o consciente, masculino; Eva o inconsciente, feminino. Daí, a relação entre a mulher e a serpente e a culpa atribuída a esta (s) última (s) pela perda do Paraíso; aliás, foi por esta razão que a serpente, nos meios judaico-cristãos, passou a simbolizar o Mal; a sua peçonha foi inoculada, segundo os judeus, em todos os descendentes de Eva, tendo sido, porém, removida do povo de Israel quando a Torá lhe foi transmitida; foi por esta razão também que se atribuiu a paternidade de Caim à serpente e não a Adão. d) uma Ilustração da vida humana que rejeita os valores do mundo natural ao optar pelo luxo, pela concupiscência, pela corrupção da riqueza.  


É do mundo grego que nos vem a sycomanteia (sicomancia) uma forma de adivinhação praticada com as folhas da figueira. Escreve-se um nome numa folha, nome sobre o qual se deseja alguma informação. Se a folha secar rapidamente, o sinal é de mau augúrio. Se custar a secar, o sinal é de bom augúrio. 


Ciência, fígado e fogo se equivalem no contexto semântico
PROMETEU
do mito grego de Prometeu, o titã que roubou o fogo dos céus (do deus Hélio), trazendo-o escondido no galho oco de uma figueira, e o entregou aos humanos. Por isso, como punição, teve Prometeu o seu fígado destruído e recomposto alternadamente por um abutre gigantesco. Destruído durante o dia, o fígado se recompunha à noite quando a pavorosa ave se afastava. A palavra latina ficatum, como vimos, também designa o fígado de ave engordada com figos. 


O nome
SIGNO DE GÊMEOS
Prometeu, por outro lado, etimologicamente o que sabe antes, o previdente, vem de um verbo, manthanein, que tem relação com a produção do fogo pelo atrito de dois pequenos bastões, símbolo, na Astrologia, do signo de Gêmeos, do elemento ar, ligado à vida mental.




Na língua sânscrita, o substantivo manthini designa o ato de se girar bastões para a produção
AGNI
do fogo, da manteiga etc. Já se levantou a hipótese de que Prometeu seria o modelo grego dos sacerdotes que no mundo indo-europeu cultuavam o fogo. Na Índia, esses sacerdotes participavam do culto de Agni, uma das três grandes divindades do fogo no mundo védico (Surya e Indra são as outras). 



Simbolicamente, o fígado, em muitas tradições, sempre apareceu associado ao fogo como sede de paixões com o sentido de morte da alma, como privação de Deus. Esta privação toma aqui também (e em muitas outras tradições também) o sentido de excesso, de orgulho mental. Este
SÃO JOÃO DA CRUZ
sentido, por exemplo, nós o encontramos tanto em São João da Cruz como no mito de Prometeu. Ao receber o fogo de Prometeu, os humanos, ao utilizá-lo somente para a vida mental, para a ciência e para seu subproduto, a tecnologia, para  a enorme produção de bens  materiais, perderam a sua dimensão espiritual. O presente de Prometeu, o chamado filantropíssimo, se constiuíu nesse sentido numa dádiva e numa maldição. Prometeu, para os humanos, um grande benfeitor, sob o ponto de vista divino, um ser perigoso, um ladrão. A rigor, o titã foi um agente duplo, como expusemos no trabalho “Prometeu, Platão e a Mitologia”,


GASTON BACHELARD
neste blog. 


Acho oportuno lembrar a esta altura que foi o mestre Gaston Bachelard quem fixou melhor para nós a ambígua figura do Filantropíssimo ao formular o chamado complexo Prometeu: a tendência que tem o ser humano de saber mais do que aqueles que o antecederam, pais, professores, mestres. Esse complexo, como diz Bachelard, ilustra a vontade humana com relação à vida intelectual, tornando-a dependente exclusivamente do princípio da utilidade material Ou seja: o complexo represente a atitude moral que considera como superior tudo o que, sob o ponto de vista utilitário, nos dá mais felicidade. Uma espécie de “aritmética dos prazeres” que tem a finalidade de aumentar cada vez mais o bem-estar material da humanidade.  

HÉRCULES SALVA PROMETEU
     
Punido pelos deuses, Prometeu foi aprisionado nas montanhas do Cáucaso. Ali ficou por muito, tendo o seu fígado destruído e recomposto diariamente, até que Hércules, quando do terceiro trabalho (também neste blog), o libertou. Para um melhor entendimento e uma confirmação do que aqui se expõe, útil a contribuição astrológica. 


O fígado, astrologicamente, tem a ver com o planeta Júpiter, regente do signo de Sagitário. Esse planeta representa os princípios superiores que devem orientar o homem, tanto
FÍGADO
espiritual, como mental e fisicamente. Bem trabalhado, o planeta é generoso, protetor, otimista, sustentador. No corpo humano  tem muito a ver com as propriedades nutritivas e protetoras do sangue. Rege, dentre outras parte e órgãos, o fígado, o baço, a vesícula biliar, a transformação dos açúcares, a atividade química do corpo. Doenças jupiterianas produzem desordens sanguíneas, problemas no fígado, hemorragias, hiperglicemia. Tanto como órgão gerador da vida, de virtudes guerreiras e de coragem, o fígado é, por outro lado, o lugar onde o ser humano deposita sentimentos como a cólera, a dor, o ódio. 


GULA (HIERONYMUS BOSCH)

Palavras como melancolia (melanos, negro, khole, bílis)  atrabiliário (atra, negro, sombrio, mais bilis) e figadal são desse universo. Figadal é o que atinge profundamente; um inimigo figadal nos provoca rancor, faz mal às nossas
vísceras. Júpiter aponta para descontroles alimentares, moléstias pulmonares (ação reflexa), impurezas do sangue, adiposidade, obesidade, flatulência etc. Muitos dos problemas de saúde causados por Júpiter estão ligados aos órgãos da nutrição, do metabolismo, da assimilação, da combustão e das reservas. O fígado, nesses casos, deve ser o primeiro a se observar: é o lugar, como se disse, onde depositamos os excessos. A gulodice é um dos pecados capitais dos sagitarianos; abundância alimentar, degustações de pratos ricos, tudo contribuindo para que o fígado receba grandes quantidades de gordura. Não metabolizada, esta gordura vai engrossar a silhueta, produzindo marcas características nos do signo que se descontrolam, ganho de peso, produzindo a chamada obesidade visceral (esteatose, degenerescência gordurosa de um tecido). Um dos males mais comuns em sagitarianos que vivem desse modo é, por isso, a diabetes. No mais, persistindo o desequilíbrio, a bulimia, acessos de hiperfagia etc. Uma das consequências mais notáveis dos excessos sagitarianos é a gota, moléstia provocada por excesso de ácido úrico no organismo, causador de dolorosas inflamações nas articulações. É uma moléstia que vem acompanha geralmente de obesidade, pressão arterial elevada e níveis altos de colesterol (khole, bilis, stereos, sólido). 


Aplicando o princípio da correspondência (Hermetismo) ao que acima se expôs, fica fácil entender porque Sagitário e Júpiter têm a ver com o distante, com as religiões, com as heresias, com a filosofia. Num nível superior, Júpiter, espiritualmente, representa a revelação e a comunicação,  a expansão pela qual a vida instintiva e a vida mental podem buscar um “além-eu” através de vários modelos de transcendência. 


O fogo que Prometeu entregou aos humanos perdeu o sentido da transcendência; veio criando, ao longos dos milênios, ao invés de modelos superiores da inquietação humana,  formas doentias de vida, hoje integradas ao quotidiano (material) das pessoa como busca desenfreada da riqueza, consumismo, nomadismo, esportes radicais, agitação sob o nome de aventuras, desejo de viajar por
BOLSA DE VALORES
nada, degustação de paisagens pitorescas, especulações ruinosas (jogo do dinheiro) sob o ponto de vista econômico, negócios internacionais questionáveis, competições esportivas motivadas pelo lucro, corrupção do espírito olímpico etc. Ao lado de tudo isto, os vícios de sempre, cada vez mais evidentes porque proclamados e divulgados hoje pelas diversas webs: a ignorância pretensiosa, o exagero, a irreflexão, a imoderação, o despudor,a autoindulgência, a falta de sinceridade, a indigência mental, o exibicionismo, o orgulho arrogante e inútil, a fanfarronice. Isto significa nenhum impulso real para se dar à vida um sentido espiritual, nenhuma vontade de se impregnar as questões práticas com alguma forma de idealismo nem de se procurar entender que as formas mais elevadas de transcendência estão nas viagens que podemos fazer para dentro de nós mesmos.  

  

No mundo islâmico, os camponeses consideravam o figo como um fruto sagrado, bendito (baraka). Sua antiguidade está longamente atestada, fazendo, por exemplo, parte do cerimonial das núpcias entre os bérberes (grupo étnico nômade de origem camita que habita o norte da África desde a pré-história) e camponeses, de um modo geral. A 95ª surata (subdivisão do Corão) começa por uma evocação da figueira e da oliveira. O simbolismo da fecundidade da figueira é, contudo, pré-islâmico. É por essa razão que na África do norte a figueira é sinônimo de testículos.


Entre os povos do norte da África, o figo seco é conhecido pelo nome araula, considerado sempre como um alimento
CARAVANA
muito importante, imprescindível para os pastores do deserto, para os trabalhadores braçais ou para qualquer pessoa que trabalhe fora de casa. São usados também os figos na composição da Fakia, (mistura de frutos secos, nozes, passas etc.), consumida nas festas de Ennair (ano novo agrário), e como acompanhamento nos ritos de inumação. O figo entra ainda como elemento básico para a produção de uma bebida alcoólica, a Mahya, uma espécie de aguardente.



É na Índia que encontramos o maior exemplar da figueira, a Ficus Bhengalensis, seculare, cuja copa chega a atingir mais
FICUS RELIGIOSA
de trezentos metros de diâmetro. Dentre as várias espécies da árvore, a mais importante é, sem dúvida, a Ficus Religiosa. Ashvata (Ashavattha, em sânscrito), conhecida desde os tempos pré-védicos. Já era usada como símbolo religioso em Mohenjo Daro e Harappa (entre 5.000 e 3.000 aC), cidades do vale do rio Indus, em ruínas quando as tribos árias chegaram à região por volta de 2000 aC. 



ASWINS

Duas etimologias podem ser estabelecidas para a palavra: 1) tha, em sânscrito quer dizer permanecer, ficar; ashva é cavalo. Liga-se o nome ao signo de Mithuna (Gêmeos), na astrologia védica (Jyotish). Os Gêmeos têm o nome de Ashwins (Dióscuros, na mitologia grega); são divindades que fazem nos céus a transição das trevas noturnas para a luz, antecedendo o Sol (Surya), simbolizando como tal o princípio da vida consciente, que deve caminhar espiritualmente em direção do Brahman (O Todo). Com os Ashwins vem Ushas, a deusa da Aurora (Eos na mitologia grega). Os Ashwins são deuses cavaleiros e exercem várias funções, de modo especial a médica. São divindades curadoras na medida em que controlam os cavalos. O cavalo, como se sabe, em todas as tradições, é um dos grandes símbolos do psiquismo inconsciente; 
2) a é partícula que indica em sânscrito negatividade; shwa, quer dizer amanhã; tha, quer dizer permanecer, ficar, como está acima. A palavra significaria pois “aquilo que nunca permanece o mesmo de um dia para o outro”, isto é, o transitório. Nas escolas filosóficas (darshanas) do Hinduísmo, ashvattha é o mundo fenomênico, aquilo que dura muito pouco, o mundo de Maya, mutável e perecível, “o que não permanece o mesmo de hoje para a amanhã.”


Posteriormente, na tradição Hinduísta, principalmente nos Upanishads e no poema  Bhagavad Gita, ashvattha tornou-se a árvore invertida que se identifica com o eixo do mundo (axis mundi), que une o céu, onde estão as suas raízes, à terra, por onde se espalha a sua ramagem (as escrituras sagradas, os Vedas). No Budismo a árvore tem o nome de pippal. A iluminação do príncipe Sidharta Gautama, que o transformou em Buda, ocorreu numa Lua cheia do mês de maio; sentado sob a figueira, em Boddhi Gaya, perto do Nepal, o príncipe kshatrya “aquietou os seus cavalos”.


ILUMINAÇÃO DE BUDA


“Aquietar os cavalos”  quer dizer aqui dominar o turbilhão mental e emocional interior, representado astrologicamente por Lua (emocional) e por Mercúrio (mente comum). Estes dois astros são os que mais velozmente circulam nos céus. A Lua, ligada à água, governa o emocional, de natureza inconsciente, enquanto Mercúrio, ligado ao elemento ar, simboliza o mental comum, sempre dispersivo, impregnado de interferências lunares. É por esta razão que o Budismo é um Yoga (da raíz sânscrita  yuj, atrelar, jungir), instrumento de controle dos “cavalos”,  símbolos do  psiquismo inconsciente. 

TRIMURTI

Em muitos lugares da Índia, a grande figueira é conhecida também como banian (Ficus Indica ou Ficus Benghalensis), símbolo da imortalidade, do conhecimento superior. Confunde-se ela com Vishnu, segunda pessoa da trimurti hinduísta, que tem tantos nomes quantos galhos tem a figueira sagrada. Os vishnuístas adoram esta árvore, muito encontrada na vizinhança de seus templos. Em cada cidade do interior da Índia, há um banian sagrado; seus galhos pendentes em direção da terra dão nascimento a novos troncos e é no seu cruzamento que os templos e lugares sagrados de repouso são construídos.