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sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

PEIXES (2)


SIGNO  DE  PEIXES
 CATEDRAL  DE  CHARTRES , FRANÇA
Diante do exposto em Peixes (1), parece-me impossível deixar de aproximar o signo de Peixes, enquanto lembra destruição de formas e dissolução, de todas as catástrofes encontradas em todos os mitos e religiões, englobadas na  expressão “fim do mundo”. No Apocalipse de João, por exemplo, a descrição nos fala de tremores de terra, do Sol enegrecido, da Lua ensanguentada, de estrelas cadentes, de montanhas e ilhas fora dos seus lugares. Há referências a que todos os homens, livres ou não, cheios de temor, se esconderão em cavernas, eis que esse grande dia chegará como o dia da cólera divina.


NAGFLAR
Entre os celtas, a deusa da guerra, Morrigu, profetizava o fim do mundo: confusão das estações, corrupção dos homens, decadência das classes sociais, maldade, relaxamento dos costumes etc. Na mitologia escandinavo-germânica, o navio Nagflar, construído com as unhas dos mortos, deverá aparecer nos dias finais do mundo, ocasião em que o grande deus Odin será devorado pelo monstruoso lobo Fenrir. 

Uma explicação sobre a curiosa passagem acima (a construção do navio Nagflar), encontrada nos próprios textos míticos, nos fala insistentemente de recomendações no sentido de que se cortassem as unhas dos mortos para impedir que as divindades do mal construíssem com elas o famoso navio Nagflar, destinado a atacar a terra e os céus, pondo fim à criação. Por isso, também, tantas prescrições, em inúmeras tradições, sobre os melhores dias para se cortar as unhas dos que iam para o Outro Lado. Lembre-se que uma tradição quase universal registra que as unhas permanecem ligadas a um indivíduo pela magia simpática, sendo nesse sentido equivalentes à alma, muito usadas, por isso, na feitiçaria, tanto para o bem (fabricação de filtros de amor) como para o mal (atingir fisicamente alguém através de um pedaço de sua unha). 


ANTICRISTO, APOCALIPSE  DE  SALISBURG ,  SÉC.XIII ,  INGLATERRA

Na tradição cristã, um personagem misterioso, chamado de  Anticristo, como está no Apocalipse, deverá aparecer algum tempo antes do fim do mundo, enchendo a Terra de crimes, impiedade e desolação. O Anticristo, investido com os poderes do Diabo, virá para destruir as imagens das divindades e fazer-se adorar como o próprio Deus.  


LIBERTAÇÃO , ILUMINURA  ( BURCKHARDT-WILDT , 1752 - 1819 )

O Apocalipse de João faz referência à libertação da Besta acorrentada, sendo o fim dos tempos fixado, primeiramente, pela tradição cristã da alta Idade Média, no temível ano mil. Outra tradição, depois, nos falou que a partir do nascimento de Jesus o mundo duraria tantos anos quantos versos tinham os Salmos de David. Aos poucos, a tradição cristã europeia foi fixando o fim do mundo em datas cada vez mais distantes: 1395, 1545, 1651, 1715 ou 1716, 1819. Alguns textos nos falaram da vinda do Anticristo em 1818 e do fim do mundo em 1823, As duas guerras mundiais do séc. XX foram muito propícias para o surgimento de profecias semelhantes. 

NOSTRADAMUS
Quanto ao que está acima, não podemos deixar de mencionar a profecia de Nostradamus (1566): quando a sexta-feira santa cair no dia de S.Jorge (23 de abril), o domingo de Páscoa no dia de S.Marcos (25 de abril) e a festa de Corpus Domini no dia de S.João Baptista (24 de junho), o mundo acabará. Todas estas datas coincidiram nos anos de 1666, 1734 e 1943. Assinalemos que o calendário maia termina brutalmente no dia 24 de dezembro de 2011 com o fim da quinta idade do mundo, marcado por um cataclismo universal. Lembro ainda que várias seitas religiosas espalhadas pelo mundo anunciam constantemente a sua destruição. Um caso para se registrar: Shoko Asahara, guru da seita Aum-Shinri-Kyo, Japão, previu apocalipses para os anos de 1997, 1999 ou 2000. Em 1995, a seita espalhou o terror com um atentado com o gás sarin no metrô de Tokyo, profetizando o fim do mundo e castigos terríveis.

Como agentes da destruição, a serviço do caos, não podemos esquecer da galeria de monstros que pode ser associada ao signo de Peixes, monstros diferentes dos escorpianos,  estes sempre mais “contidos”, pois os subterrâneos do Hades são o seu habitat natural. Os monstros que associamos a Peixes são os que denominamos de monstros da ressurreição, cuja principal característica é a de provocar pela sua ação uma completa transformação quanto ao que devoram, transformação esta que leva à total decomposição, à
HESÍODO
destruição da antiga forma, reduzindo-a a um estado equivalente ao do caos. É a partir deste estado, onde temos uma completa ausência de limites, uma indeterminação total, que uma nova vida poderá aparecer, estruturando-se como existência dentro de uma nova ordem. A mitologia grega, conforme Hesíodo nos expõe em sua Teogonia, deixa tudo isto muito claro ao nos dar a seguinte ordem: caos, existência e cosmos e assim sucessivamente. 

SÃO   LUCAS
( EL  GRECO , 1541 - 1614 )
No evangelho de Lucas temos: Encontrar em si o ser do peixe é de maneira geral unir-se às formas originais da existência humana que não conhecem o medo, numa camada muito profunda da alma... Esta ideia está presente na história do profeta Jonas, que desceu à vida subconsciente (metaforicamente engolido por uma baleia). Operada deste modo a transformação no ventre do monstro, Jonas foi expelido, o que lhe permitiu se iluminar de um novo modo.  


GINNUNGAGAP
( ILUSTRAÇÃO )
Outro, aliás, não é o entendimento da Alquimia quando ela nos fala da materia prima, expressão que designa o estado em que se encontra a matéria antes de tomar qualquer forma. Em vários mitos encontramos a representação deste estado pela imensidão oceânica antes do aparecimento da terra ou como o fizeram os escandinavo-germânicos através do seu ginnungagap, um abismo que parecia bocejar, cansado de eternidade.

É neste ponto, acredito, que seja possível estabelecer uma clara distinção entre os monstros que atuam em Escorpião e em Peixes, distinção que pode nos auxiliar a fixar melhor os conceitos destes dois signos. Escorpião, através de seu planeta regente, Plutão, tem a ver com as grandes transformações e mutações; fala-nos de reformas que rearticulam ou eliminam componentes para reconstruir com a ideia de melhorar, de reciclar, podendo proporcionar inclusive o conhecimento de forças ocultas, não usadas, desconhecidas, que se tornarão úteis ao corpo transformado. Esta distinção permite-nos, por exemplo, entender melhor o que é transformação orientada escorpianamente e o que é uma transformação de natureza espiritual, pisciana. Um exemplo clássico da primeira é a psicanálise. Da segunda, as transformações religiosas, que levam à destruição do antigo eu profano (abandono da família, perda de identidade, aquisição de um novo nome) e integração em novos grupos, vida anônima etc. As transformações de natureza escorpiana, mesmo as religiosas como as peregrinações, também de natureza sagitariana, é de se lembrar, não trabalham com estas implicações piscianas.


JONAS  E  A  BALEIA
O maior dos cetáceos conhecido, da ordem dos mamíferos aquáticos, a baleia, é o modelo básico dos monstros marinhos que associamos ao signo de Peixes, como agente da morte iniciática. Jonas permaneceu por três dias e três noites no ventre da baleia que o engoliu. Mateus no
SÃO MATEUS
seu evangelho usou este episódio da vida de Jonas para anunciar a ressurreição de Cristo depois de permanecer três dias e três noites no ventre da terra. Segundo muitas histórias espalhadas pelo mundo cristão, a baleia, por ter engolido Jonas, foi punida por Deus. Sua garganta se reduziu tanto que ela só consegue, desde então, engolir peixes muito pequenos.

LEVIATÃ, C. 1865 (G.DORÉ)
É dos judeus que nos vem também a história de outro monstro, muito maior que a baleia, o Leviatã, de enormes dimensões, a maior de todas as criaturas do mar. Segundo a tradição, Deus matou a fêmea da espécie para impedir que o casal procriasse e destruísse o mundo e fez de sua pele roupas para Adão e Eva. Ainda segundo a tradição judaica, na idade do
BEHEMOT
( W. BLAKE, 1757 - 1827 )
Messias, o Leviatã e seu equivalente terrestre, Behemot, entrarão em luta, matando-se um ao outro. Behemot é do tamanho de “mil montanhas” e bebe tanta água diariamente que um rio especial emana do paraíso para saciá-lo. Diz-se que ele ruge uma vez por ano, no mês de Tamuz, para atemorizar os animais do mundo, mantendo-os sob seu controle. 

No banquete messiânico, a pele do Leviatã servirá de toldo para
SAMAEL
abrigar toda a humanidade e sua carne será comida. Os olhos do Leviatã iluminam os mares à noite, as águas fervem ao contacto de seu bafo, escapando do seu corpo um odor tão fétido que pode até superar os perfumes que emanam do jardim do Éden. Conforme a Cabala, o Leviatã simboliza Samael, o grande demônio que, com a sua companheira, Lilith, opera o Sitra Achra, o reino do mal.  


BAAL  UGARIT
O Leviatã nos vem da mitologia fenícia, onde tem o nome de Yam, e contra ele se levanta o deus Baal, o maior dos deuses depois de El, esta grande divindade solar. A luta entre Baal e Yam, divindades primordiais entre os fenícios, é uma representação do choque entre a terra e os oceanos, estes sempre ameaçando aquela de reabsorção. Esta mesma ideia nós a encontramos entre os mesopotâmicos na luta
travada entre Marduk e Tiamat, o mar tempestuoso,
MARDUK   E   TIAMAT
monstruoso, indomável, de onde os deuses haviam saído. Antes de se engajar na luta contra Tiamat, que não aceitava a submissão aos deuses que gerara, Marduk obteve de todos o poder supremo, inclusive o direito de fixar o destino dos deuses e do universo, reunindo assim em sua pessoa a plenitude do divino.  

Analogicamente, sabemos que o elemento líquido, os mares e oceanos especialmente, simbolizam a vida subconsciente, lugar de monstros, de forças rebeldes à razão e muito mais ao espírito, monstros que, como o Leviatã, podem engolir não só o Sol como a própria criação como um todo. Entrar no ventre dos monstros de que falamos significa uma reintegração, um retorno a estados pré-formais, embrionários, situação que lembra a Grande Noite Cósmica, o Caos antes da criação, passagem obrigatória de todo o
PARACELSO
processo iniciático, tema que Paracelso resumia ao dizer que se pretendemos efetivamente nos transformar temos que passar antes por um estado pastoso. A pasta, como se sabe, é um símbolo da matéria informe. Voltar à pasta significa sempre uma vontade de mudar, de ser uma outra coisa, pois ela é um ponto de partida para reorganização integral do antigo ser numa outra forma. Daí, o prazer que muitas crianças experimentam quando brincam com água e terra, pois estão aprendendo a lidar alquimicamente através destes dois elementos, essenciais à vida, com o seu processo de transformação.

THOMAS   HOBBES
O tema do Leviatã foi levado à filosofia por Thomas Hobbes, nos seus ensaios políticos, no séc. XVII. Com base na imagem do monstro bíblico, o filósofo procurou demonstrar as origens do despotismo na disposição natural do homem a ser um lobo para o próprio homem; no mundo natural, é a guerra de todos contra todos. Hobbes se opunha à tese da monarquia por direito divino e faz repousar, cinicamente como alguns acham, o absolutismo sobre um contrato pelo qual os indivíduos conferem todos os direitos a um só indivíduo, o soberano ou a um grupo. Imagem do absolutismo, do totalitarismo, o Estado-Leviatã, em nome da proteção que oferece, a todos engole indiscriminadamente, exigindo cega obediência.



A luta do homem contra o Leviatã tem uma de suas melhores ilustrações na história de Moby Dick ou A Baleia Branca, de Hermann Melville, poeta e romancista americano (1819-1891). A vida deste escritor, como a sua obra, é marcada pelo oceano. Engajando-se na equipe de um barco baleeiro, usou imagens desse mundo para escrever a sua obra-prima em 1851, na forma de uma história apocalíptica e obsessiva que narra a obstinada perseguição de uma baleia branca, enorme e ferocíssima, pelo capitão Ahab, habituado à “luta cósmica no mar”, já mutilado anteriormente pelo monstro. A história de Moby Dick, a encarnação do mal, de toda a “malignidade intangível” do mundo, deu vazão a temas que atormentavam o escritor à época de sua elaboração. 

HERMAN  MELVILLE
Melville experimentava à época grandes tensões não só em relação à sua sensibilidade,  mas, sobretudo, pela crise em que ele e outros escritores americanos estavam mergulhados, crise produzida pelas tensões estabelecidas no ocidente (nos USA especialmente) no século XIX, pelo conflito entre o chamado transcendentalismo e o empirismo, entre religião e ciência, entre fé e ceticismo. Melville, dramatizou piscianamente esse conflito, escrevendo uma das grandes obras-primas da literatura universal. 

O adversário de Ahab era a grande baleia branca, com a sua corcova e hieróglifos na testa, notável pelo furor com que se lançava sobre os homens que a alvejavam ou tentavam destruí-la. Ahab, um ímpio e enorme homem, que parecia um deus, se meteu numa viagem de desforra, seguindo os rastros do migratório Leviatã través do vasto oceano Pacífico, até onde ele e toda a sua tripulação foram destruídos, sendo poupado só o narrador Ismael, que nos contou a história. Para Ahab, todos os objetos visíveis não passavam de máscaras de papelão por trás das quais alguma coisa desconhecida, mas com raciocínio, impelia os moldes de suas feições. Para ele, a baleia branca era o emblema da força ignominiosa fortalecida por imperscrutável malícia e era essa coisa imperscrutável que ele odiava e sobre a qual voltava todo o seu ódio.


XOQUIQUETZAL
Em antigas tradições astecas, os peixes estavam relacionados tanto com a “porta do mistério”, o “país dos mortos”, como com o “mundo das mulheres”, o das divindades do amor como do mundo vegetal, do milho especialmente. A ideia em ambos os entendimentos se centrava na da fecundidade sob todas as formas, morte e renascimento de um lado e vida afetiva de outro, encontrando neste última, através da deusa Xoquiquetzal, as várias formas do amor possessivo ou oblativo, físico ou transcendental. 

Esta deusa, que lembra astrologicamente a exaltação de Vênus em Peixes, sempre foi relacionada pelos povos mesoamericanos com a água, com a vegetação, com o sacrifício. Sua festa marcava a chegada do inverno e a despedida das flores, cujos perfumes eram muito apreciados. Na festa que se celebrava em homenagem à deusa se enfatizava sempre o referido tema. Era atribuído à deusa o patronato das bordadeiras, das tecelãs e das talhadoras, estendendo ela também a sua ação ao mundo da fertilidade, da beleza, da sensualidade, sendo ela protetora da gravidez e das jovens mães, inclusive da prostituição.

Na antiga Síria era famosa a deusa Derceto, deusa com cauda de peixe. No mito, proveniente da Mesopotâmia, certamente, teria sido ela uma lindíssima jovem que se recusara a assumir a maternidade, com medo de gerar um ser monstruoso. Lançou-se, por isso, ao mar, desejosa de acabar com a sua vida. O deus Poseidon (o mito chegou à Grécia), irritado com a atitude da jovem, transformou-a num ser híbrido, metade mulher, metade peixe. Não será preciso grande esforço para se perceber que Derceto é uma ilustração do signo de Peixes na medida em que o episódio nos lembra a grande
SOLUTIO
dificuldade que os nativos do signo sempre têm para se adaptar à vida, à realidade da existência. Derceto não é ser humano, terrestre, nem um animal tipicamente marinho. Derceto se entrega assim à regressão, no caso, uma representação da solutio alquímica. Como símbolo da recusa da carne, Derceto testemunha a dificuldade que têm os do signo de assumir uma forma. Por isso, foi condenada até o final dos tempos a “viver” entre dois estados.

Derceto fracassou como ser humano, isto é, como mulher. Como se disse, atirou-se ao mar, sendo transformada por Poseidon numa espécie de sereia inacabada. Segundo outras versões, foi engolida por um monstro marinho e devolvida ao elemento na forma híbrida descrita, tornando-se um ser indefinível, indeterminado. De que tinha medo Derceto? De assumir sua condição de mulher, sua versão carnal. A fuga, a recusa, o escapismo e a evasão, lembremos, são temas constantes no comportamento pisciano.


SEREIA
O mito de Derceto se liga ao da sereia, símbolo da incapacidade do ser humano de conquistar uma forma. No lugar de uma realização, de uma ação possível, ao contrário o convite à aniquilação, à tentação da entrega e do abandono, o mergulho na vida inconsciente, um sonho ao mesmo tempo terrível e fascinante. Toda sereia é bela como Derceto, de longa cabeleira dourada, sedutora, seu canto inebria, dissolve a consistência, neutraliza a função consciente. O canto da Sereia enfeitiça aquele que o ouve, conduzindo-o à perdição, ao relaxamento, apagando as fronteiras. A palavra sereia vem de seirazen, verbo grego que significa “prender com uma corda”, subjugar, atrelar.


PROCLUS  (R.ORLANDINI)
O filósofo grego neoplatônico Proclus (séc. V dC) resumiu os diferentes aspectos das sereias, no mito grego filhas do deus-rio Aqueloo e de Melpômene (a que canta e dança, musa da tragédia), dividindo-as em três classes: a) as celestes, que têm Zeus como patrono; b) as tentadoras, cujo patrono é Poseidon; e c) as purificadoras, sob a tutela de Hades. Eram chamadas as sereias entre os gregos de “mães do mar”. Com os primeiros cristãos e ao longo da Idade Média, a ideia de que a sereia é um ser sedutor e depravado se fixa; torna-se ela a imagem da voluptuosidade, da tentação carnal e da luxúria. Foi preciso esperar o Renascimento para que as sereias retomassem um pouco de seu status de cantoras divinas e instrumentistas excepcionais, duplos das musas no elemento aquático.


ULISSES  E  AS  SEREIAS ( HERBERT DRAPER , 1863 - 1920 )

Na maioria dos registros da mitologia grega, as sereias se ligam também às artes por filiação e, em algumas imagens, aparecem com instrumentos musicais, atribuídos também à poesia. Ha versões em que as sereias aparecem ligadas às esfinges, das quais a mais famosa é a que aparece no mito de Édipo, também conhecida como a “cruel cantora”, porque propunha em versos um enigma. Além dessa relação com a poesia e a música, sereias e esfinges tinham ainda em comum o fato de serem ávidas de sangue e de prazer erótico.


CIRCE 
Na Odisseia, as sereias são anunciadas por Circe, que orienta Ulisses sobre a maneira de ouvir-lhes o canto sem a elas sucumbir. Meio ave, meio mulher, a partir da Idade Média, meio peixe, meio mulher, a sereia é uma entidade que porta os estereótipos da sedução feminina. Embora essa figura que atrai e conduz as suas vítimas para o “fundo das águas” (subconsciente) esteja presente em várias culturas, muito raramente a ela se atribui identidade masculina, como é o caso do boto brasileiro. 

BOTO
O boto brasileiro é o golfinho do Amazonas. Ele faz parte da  galeria dos  seres míticos sedutores e raptores ligados às águas, que encontramos em várias culturas, contos, lendas, folclore etc. Os botos da Amazônia seduzem as moças ribeirinhas e são, na região, os pais de todos os filhos de paternidade desconhecida. Nas primeiras horas da noite, o boto se transforma num bonito rapaz, alto, forte, amante das festas; jamais tira o chapéu para não revelar a sua origem (o orifício que tem no alto da testa por onde respira);sedutor, bem falante, frequenta bailes, conversa, namora, arruma encontros amorosos em becos escuros e antes dos primeiros clarões do dia, lá pelo fim da madrugada, pula nas águas e volta a ser boto.



Entre as sereias registradas pela cultura europeia, Jorge Luis Borges (El Libro de los Seres Imaginarios) lembra Murgen, capturada em Gales, no século VI, que foi batizada e santificada, e outra que, em 1403, passou pelo dique em Haarlen e, segundo um cronista do século XVI, não era peixe porque fiava, nem mulher, porque podia viver na água. Borges ainda chama a atenção para a diferença registrada no idioma inglês entre as sereias clássicas, siren, e as mermaids, que aparecem com cauda de peixe.

MURGEN , PINTURA EM PAREDE
Há inúmeros depoimentos de marinheiros sobre as sereias, registros que a tradição conservou. Uma das histórias mais estranhas do cristianismo, como acima citei, é a de Murgen, a sereia, reverenciada como santa na Irlanda, embora não reconhecida oficialmente como tal pela igreja católica. Ao que parece, o nome Murgen seria uma corruptela de mer woman. A lenda nos fala de uma menina que, brincando perto do mar com o seu cachorro, foi arrastada pelas ondas para uma caverna. Pediu aos deuses que a salvassem. Foi atendida, sendo transformada da cintura para baixo num peixe, enquanto seu animal de estimação virava uma lontra.  
                                 



domingo, 24 de dezembro de 2017

ESCORPIÃO (6)

                                          
CANAAN
As tribos mesopotâmicas que se instalaram a leste da península do Sinai, deram o nome de Canaan (etimologicamente, país baixo), também chamada de Terra Prometida, à região compreendida entre a atual Síria e a Palestina.  Canaan era o nome de um filho de Cham, o segundo dos três filhos de Noé. Para ali se fixarem, precisaram essas tribos criar um regime político forte a fim  manter entre elas uma necessária união interna a fim de enfrentar não só a hostilidade das tribos locais às quais haviam se imposto como, externamente, fazer frente à ação de invasores.


ABRAÃO  ,  ISAAC  E  JACÓ
Ao primeiro período da história dessas tribos reunidas como nação, deu-se o nome de “período dos patriarcas”, que teve como nomes inaugurais Abraão, Isaac e Jacob. Este último, o terceiro dos patriarcas,  a quem o próprio Deus deu o nome de Israel (etimologicamente, combatente de Deus), foi o pai dos fundadores das doze tribos que constituiriam Israel como nação.  As doze tribos eram subdivididas em famílias, clãs e unidades menores, cada uma delas tendo por chefe um patriarca, que detinha o poder absoluto sobre  os seus filhos, descendentes e as propriedades. 

Foi a organização tribal e, principalmente, a percepção que Jacob teve de Deus que permitiu as essas tribos se tornarem uma nação forte e poderosa, tudo consolidado por uma singularidade religiosa única ao tempo. Esta singularidade  única, se a relacionamos com a concepção religiosa dos vizinhos, tinha por base o monoteísmo, a crença num só Deus, conforme a Bíblia estabeleceu. Esta crença entendia Deus como uma entidade suprema, infinita e perfeita, autogerada, eterna, onisciente e onipotente. Este Deus, apesar de profundamente justo e bom, podia, entretanto, mostrar-se ameaçador e vingativo, atuando como a grande divindade dos exércitos. O objetivo era o de transformar aquele aglomerado de tribos tanto numa poderosa nação como em algo bem maior, transformá-la numa congregação, numa “assembleia permanente do Senhor”. 


ANJO , ABRAÃO  E  SARA ( JAN  PROVOOST , 1465 - 1529 )


No plano político interno, isto significava acabar com as divindades tribais e com cultos regionais, sempre fatores de divisão e de enfraquecimento. Foi com base numa experiência monoteísta egípcia patrocinada pelo faraó Akhenaton (cerca de 1370 aC), que os primeiros patriarcas judeus montaram o seu projeto religioso. Os historiadores que tomam o texto bíblico por base de suas afirmações nos dizem que Abraão com a sua tribo, emigrado de Ur, na Mesopotâmia, com a sua mulher Sara, por volta de 2.000 aC, deve ser considerado como o primeiro dos patriarcas e verdadeiro fundador do monoteísmo dos hebreus. 

As “casas do povo”, muito semelhantes às chamadas “casas de vida” dos egípcios, foram se instalando pelos judeus como lugares de reunião, logo se transformando elas em “casas de assembleia”, isto é, sinagogas, com a finalidade de educar o povo no temor de
MOISÉS RECEBE A TORÁ
(REMBRANDT, 1606-1666)
Deus. Nessas “casas”, a Torá (a lei e a tradição), recebida por Moisés diretamente de Deus, era lida e explicada, ao mesmo tempo em que se criava uma literatura de comentários bíblicos, com interpretação de homilias, salmos etc. Ensinar não só o temor de Deus, mas também preservar toda a sabedoria dos ancestrais. Montou-se, enfim, um sistema em que os homens passaram a manter o poder religioso, político e econômico, controlando a propriedade e exercendo funções de autoridade moral em todos os sentidos, inclusive sobre as mulheres e crianças. A esse sistema deu-se, no seu todo, o nome de Judaísmo, que tem por base uma religião na qual Deus fala aos homens través dos seus profetas.


ARCA   DA   ALIANÇA
( CATEDRAL DE AUCH, FRANÇA )
A esse sistema, sob um outro viés, psicológico, se quisermos, se deu o nome de poder masculino, dele fazendo parte símbolos que o enaltecem como tal. O símbolo maior da relação de Deus com o povo de Israel era a Arca da Aliança, destruída, juntamente com o templo de Jerusalém, onde se encontrava, em 587 aC quando da invasão  comandada por Nabucodonosor. Da Bíblia, fazem parte do seu universo simbólico, para a melhor compreensão da Torá, não só objetos e imagens como textos, sonhos, milagres e outras manifestações enviadas por Deus, símbolos sempre recebidos por profetas e patriarcas.  

Nesse universo simbólico, que tem a finalidade de confirmar a aliança estabelecida entre o povo de Israel e Deus, introduziram-se  símbolos que rebaixaram ou satanizaram o mundo feminino. Na nova ordem, como está no Antigo Testamento (Gênese), a mulher, por determinação de Deus, teve que se submeter totalmente ao homem, tornando-se, ao casar,  propriedade de seu marido, só podendo herdar se não houvesse filhos. Casada, os seus direitos jurídicos, bem como suas possibilidades quanto a atividades religiosas, sociais e culturais, foram bastante limitados. O papel essencial da mulher, desde então, foi o de gerar filhos machos para garantir a continuidade da família. Apesar deste cenário negativo para a mulher, há que se lembrar que algumas delas, como Judite e Esther, por exemplo, desempenharam papéis muito diferentes, como grandes sedutoras (veja neste blog Os (Des)Caminhos da Sedução.  

CATEDRAL  DE  NOTRE  DAME
PARIS
Por ter dado ouvidos à serpente e induzido Adão a comer dos frutos da árvore do conhecimento, Eva, a mulher, e a serpente tornaram-se indissociáveis no mundo judaico-cristão desde que as religiões patriarcais se impuseram . A serpente se transformou num animal ctônico por excelência. Como está no Gênese (3.14) foi condenada a rastejar na poeira por ordem de Deus. 

Nada a estranhar que em todas as tradições e culturas, os seus diferentes aspectos,  seja como kundalini, midgard, boiúna, áspide, boitatá basilisco, angícia, équidna ou leviatã sejam sempre utilizados para representar diferentes estados da consciência do ser humano. É neste sentido também que a serpente passou simbolicamente a ser uma ilustração do universo sensível e manifesto, o ilusório mundo material, o mundo de maya dos hindus.

Foi a tradição judaica, mais do que qualquer outra, talvez, na antiguidade, a que mais tenha se aproximado da relação simbólica entre o feminino, a serpente e a vida inconsciente. A começar pela palavra que os antigos patriarcas usaram para designar a serpente bíblica, nachash, palavra que provém de um verbo que significa adivinhar, prever, vaticinar, pressagiar. Lembremos que os antigos gregos fizeram algo semelhante ao que aqui se diz: deram, no mito, a um animal construído a partir da serpente e do lagarto, o nome de drakon (dragão), palavra que, em grego, vem do verbo derkomai, que significa olhar terrível, um verbo de ação reflexiva. Em derkomai  a ação é devolvida, se volta para o agente, para o que olha. O dragão nos devolve o olhar: Que queres saber? Ao invés de me olhares, interroga-te. O dragão pede que nos enfrentemos, que olhemos dentro de nós. A ideia aqui é de interiorização, descida. Vida recôndita, profunda, secreta, abismo, queda e, quem sabe, renascimento.


DRAGÃO  ( GUSTAVE  DORÉ , 1832 - 1883 )

O dragão, basicamente, como se sabe, animal fabuloso, possui um corpo de dragão com terminação ofídica, asas de águia e garras de leão. Na Bíblia é animal que representa o mal e as trevas, o caos das origens, sempre atuando no sentido contrário de Deus e dos seres angelicais. No Novo Testamento,  no Apocalipse, segundo João, se revela que o dragão reinará sobre o mundo, mas, no final, será vencido pelo reino de Deus. 

Ao final, com a expulsão do paraíso, feita a avaliação, o que temos é que ao invés de terem baixado a cabeça e obedecido, Adão e Eva optaram, ao comer do fruto proibido, pela angústia, pelo livre-arbítrio. Ouviram a serpente:  Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão e vocês, como Deus, serão conhecedores do bem e do mal, este o final do discurso da serpente ouvido por Eva, que o transmitiu a Adão. Orgulho, desejo de poder? Uma conduta não pensada, irrefletida, que exprimia uma reação espontânea (emotiva, passional, reflexa), não procedente de uma decisão voluntária amadurecida? Ao deixar de obedecer a Deus, Adão e Eva caíram na dualidade. Foram expulsos do paraíso, um lugar idílico onde, segundo a vontade divina, deveriam viver pacificamente, felizes e em harmonia. Nada disto parece ter interessado aos dois.


EXPULSÃO   DO   PARAÍSO  ( MICHELANGELO , 1475 - 1564 )

Cometeram um pecado aos olhos de Deus, isto é, diante do sistema político-religioso institucionalizado, montado pelo patriarcas, que, para se impor, precisava que os que dele participassem não pensassem, mas que tivessem simplesmente fé e aceitassem o dogma, este fundamentado na autoridade religiosa de quem o proclamava. No projeto religioso instituído, profundamente misógino, os antigos patriarcas judeus jamais consideraram Eva  como um complemento de Adão e muito menos como uma iniciadora, uma instrutora, sem a qual ele jamais poderia
HÉRCULES CONQUISTA O CINTURÃO
ter acesso a níveis superiores de consciência. Em várias tradições, esta intermediação da mulher aparece, como se sabe, mas é sempre ignorada ou recusada. Para não me alongar neste particular, basta lembrar, para ficar com o mais conhecido e próximo, que vários mitos gregos nos falam disto. As histórias de Teseu e Ariadne, do sexto trabalho de Hércules (A conquista do cinturão da rainha Hipólita) e do gigante Orion são, dentre outras, exemplares. 

Os patriarcas judeus, orgulhosamente, não só negaram à primeira mulher condições de igualdade, mas, como está no Gênese, no 2º capítulo, a fizeram, como se disse, “nascer” do masculino. Culpada pela perda do paraíso, dele expulsa com Adão, a segunda mulher recebeu o nome de Hawwah, em hebraico, nome que, em antigas línguas semitas, se aproxima muito daquele pelo qual se denominava a serpente. O que também ficou para nós desse episódio é o quão facilmente, na vida psíquica, o feminino se impõe com facilidade ao masculino. 

LILITH  ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 )

O lado feminino ao qual Adão, com o beneplácito de Deus, não deu igualdade se rebelou contra ele e contra o próprio Deus. A Bíblia nada fala do que aconteceu com este lado feminino, de nome desconhecido, a primeira mulher. Sabe-se por textos cabalísticos que este lado feminino, que, segundo alguns, teria inclusive precedido Adão na criação, rebelando-se, tomou o caminho do Mar Vermelho, transformando-se, com o nome de Lilith, na rainha das forças noturnas. Ela foi para o deserto, tornando-se lá a noiva de Samael, o senhor das forças do mal, que os judeus chamam de Sitra Achra. Como um demônio feminino, Lilith transformou-se desde então na própria sedução encarnada. Segundo o mito babilônico, Lilith tem o seu habitat natural no deserto e só encontra a paz nas terras de Edom (etimologicamente, vermelho). 

Lilith, segundo a tradição cabalística, foi criada ao mesmo tempo que Adão, criada a partir da terra, portanto, como ele. O nome Lilith têm relação com prenomes femininos que indicam poder e libertação; Leila, Lélia, Eulália, Eliane, Ella (inglês) e outros são exemplos. Lilith, porém, neste grupo de prenomes, representa o lado demoníaco e rebelde da mulher. Para os judeus, é ela quem diante de Adão proclama que o desejo de conhecer é bom e  é capaz de pronunciar o “nome indizível” de Deus. Eva, como esposa submissa e obediente às leis do casamento e da maternidade, só “nascerá” no segundo capítulo da Bíblia.   

Os judeus designam o pecado pela palavra chet, palavra que lembra desvio, falha de conduta, com relação ao caminho certo, o da Torá. O arrependimento, retorno ao caminho certo, a Deus, é admitido.
TALMUD
Segundo o Talmud, no homem há duas inclinações, uma para o Bem (Deus) e outra para o Mal (Satã-Lilith), tendo ele o poder de escolher entre uma e outra. A esse poder foi dado o nome de livre-arbítrio, a possibilidade de decisão, de escolha, em função da própria vontade humana, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante. Mais: segundo o judaísmo, o homem tem uma índole, uma natureza fraca, que o inclina para o Mal. Misericordioso, Deus permitiu que, tendo optado pelo Mal, vitimado pelos seus condicionamentos, o homem, desde que arrependido, possa voltar ao Bem. O homem, para o judaísmo, nasce em pecado em consequência do pecado original, de Adão e de Eva, que recai sobre toda a humanidade.



SANTO AGOSTINHO
No catolicismo, Santo Agostinho foi pelo mesmo caminho dos judeus, dizendo-nos que pecado é qualquer ato ou desejo contrário a Deus, ou seja, contrário a tudo o que está expresso nos dez mandamentos. Outros antigos padres da Igreja católica sempre insistiram num ponto:qualquer pecado é um abuso de liberdade. Do pecado adâmico participam, desde então, todos os seres humanos devido à sua origem. A expulsão do paraíso definiu desde então a natureza humana, tornando-a ignorante, voltada para o sofrimento, inclinada ao pecado e destinada à morte.

SITRA ACHRA
A doutrina judaica, especialmente o Talmud, defende a ideia de que todo homem é dotado de livre arbítrio, o que o habilita a escolher corretamente o que é do Bem (vida consciente, Adão) e o que é do Mal (vida inconsciente, Eva), isto é, o que é do reino de Deus e o que é do reino de Satã. O reino de Satã, para o judaísmo, é o Sitra Achra (literalmente, o Outro Lado), nome aplicado de um modo geral a todas as forças demoníacas, situadas sempre à esquerda e abaixo, e governadas por Samael e Lilith. São os pecados dos homens que nutrem o SitraAchra, mantendo-o separado do reino de Deus, dividindo a
DERROTA DE SAMAEL
(JOHN MILTON, 1608-1674)
criação. Na Idade do Messias, esta divisão terá fim com a captura do próprio Samael pelo arcanjo Gabriel. Acorrentado, ele será entregue a Israel e expurgado de todas as forças maléficas que o constituem, transformando-se num agente do divino que iluminará a criação como um todo, eliminando-se a divisão entre os dois reinos. Apesar de tudo isto que a doutrina revela, o pecado de Adão e Eva, deixou a sua marca em todas as gerações que a eles se sucederam, segundo a doutrina judaica. 
À desobediência de Adão e Eva dá-se o nome de A Queda do Homem, caracterizada esta como a transição humana de um estado de inocência e de obediência a Deus para um estado de desobediência e de culpa. 

A  QUEDA  DO  HOMEM ( W. BLAKE , 1757 - 1827

Neste sentido Queda do Homem e Pecado Original são equivalentes. O Judaísmo e o Islamismo não aceitam a doutrina do pecado original como os católicos a definiram. Para ambos cada homem deve ser responsável pela sua própria salvação, não havendo necessidade da graça divina para isso. A graça, para os católicos, é obtida pela via sacramental, pela reconciliação (batismo) e pela penitência. 


PELÁGIO DA BRETANHA
No cristianismo, participando de um entendimento contrário,  o monge Pelágio da Bretanha (360-435), depois de intensos debates com Agostinho de Hipona, propôs uma doutrina, chamada de pelagianismo, segundo a qual todo homem é totalmente responsável pela sua salvação, não necessitando da graça divina para tanto. Para Pelágio, todo homem nascia moralmente neutro e seria capaz, por si mesmo, sem qualquer influência divina, de se salvar, desde que assim o desejasse e se empenhasse. Evidentemente, as teses de Pelágio foram rejeitadas pela Igreja católica e ele considerado herege. 

O Talmud (literalmente estudo, em hebraico), a obra mais importante da Torá oral, nos revela que desde a  expulsão de Adão e Eva, as forças satânicas do SitraAchra tomaram o lugar do princípio masculino diante de Deus. Só a Torá, afirmam os judeus, tem condições de livrar Israel do veneno da serpente. Desde então, a mulher e a serpente sempre foram responsabilizadas pelas três grande religiões patriarcais (judaísmo, cristianismo e islamismo) pela perda do paraíso. 

Em muitas outras tradições que não a judaico-cristã, a serpente, positivamente,  aparece ligada à vida, à imortalidade, ao renascimento e, por isso, obviamente,  ao mundo feminino, ao mundo das Grandes Mães. Nas tradições que a honraram, a serpente sempre teve também relação com a sabedoria, com o conhecimento e com a cura. Ela detém, como nenhum outro ser o faz, o conhecimento sobre a vida e a morte, um conhecimento que Eva tentou transmitir a Adão, o poder da vida subconsciente, que ele só alcançaria através do princípio feminino, isto é através dela. É neste sentido que pode ser retomada a etimologia que os antigos patriarcas judeus usaram para designar a serpente e, por extensão, a vida inconsciente, lugar de um conhecimento oculto que determina, em grande parte, a nossa vontade e a nossa economia orgânico-fisiológica. 



A astrologia judaica praticada ao tempo dos primeiros patriarcas já nos falava de uma relação entre o homem, as letras do alfabeto, os signos zodiacais e os meses do ano. Discorria ela sobre dias fastos e nefastos, sobre a influências planetárias negativas (mazal), conforme se pode perceber pelo estudo do Sefer Ietsira (Livro da Criação), que considera o homem um microcosmo. Considerada “ciência suprema” pelos cabalistas, a astrologia, a partir da Idade Média começou a ser repudiada e perseguida pela ortodoxia religiosa judaica. 

Entre os judeus que conhecem a astrologia,  Heshvan é o mês do signo de Escorpião, associado, no corpo humano, ao olfato. A tribo ligada ao signo é a de Manassé, filho mais velho de José e de Asenath, filha de um sacerdote egípcio. Ele é o ancestral da tribo do mesmo nome, instalada a oeste do rio Jordão e ao sul do lago de Genesaré. O acontecimento mais importante no mundo judaico, relacionado com este mês, é o do término da construção do templo de Salomão. O terceiro templo, conforme a Midrash (tradição oral), será construído também neste mês, no qual os judeus vêm o contraste entre a destruição e a queda, de um lado, e a construção e a estabilidade de outro. 

HAVDÁ  ( ZVI  MALNOVITZEN , 1945 )

Através do signo de Heshvan é feita a associação entre alma (neshmah), respiração, sopro, olfato e nariz. Ao fim do Shabat, dia do descanso obrigatório, que vai do anoitecer de sexta-feira ao sábado à noite, é realizada a cerimônia da Havdalá, a distinção consciente entre o que é sagrado e o que é profano. Durante esta cerimônia são usadas especiarias de odor agradável a fim de acentuar o caráter distintivo entre as duas fases que o Shabat caracteriza. É por essa razão que os judeus consideram o olfato como o mais espiritual dos sentidos, diretamente conectado com a intuição, que tem um caráter anímico, não racional. 

O signo de Heshvan, associado ao olfato, também tem ligação com o dilúvio de Noé como se menciona no Gênese, cap. VIII, v.21: E nisto percebeu o olfato do Senhor um suave cheiro, e disse: não amaldiçoarei mais a terra por causa dos homens: porque o sentido e o coração do homem estão inclinados para o mal desde a mocidade. Não tornarei pois a ferir vivente algum como fiz. O sentido do olfato, tão intimamente relacionado com a alma, está revelado pelo nome da tribo que rege o mês, pois neshmah, num arranjo diferente de suas letras, dá o nome heshvan.

O nariz, lembremos, sempre foi considerado um símbolo de perspicácia, de discernimento, muito mais intuitivo que racional, ocupando um lugar essencial no rosto das pessoas em geral e, em especial, dos escorpianos. Pode-se, por exemplo, ter olhos bonitos e ser feio. Já um belo nariz nunca aparecerá associado a um rosto disforme, dizem os fisiognomistas. Para eles, um nariz perfeito testemunha sempre uma certa nobreza de alma.  



O   DILÚVIO  ( MICHELANGELO , 1475 - 1562 )

O elemento deste signo é a água enquanto relacionada com o dilúvio (mabul) dos tempos de Noé, uma catástrofe que se distingue por seu caráter não definitivo, tendo o sentido de regeneração, de germinação. Antigas formas, que perderam sua capacidade de se renovar, gastas, esgotadas, esvaziadas de qualquer sentido transformador, são destruídas para dar lugar a outras. No caso, dar origem a uma outra humanidade, a uma nova época, sem as faltas morais e rituais da anterior. 

O astro que tem influência em Heshvan é o planeta Marte, onde atua com o principal sentido de julgamento severo. A destruição causada pelo dilúvio decorreu astrologicamente da ação de Marte, motivada pelo severo julgamento divino diante do mau uso que a humanidade fez do poder do desejo, enraizado no elemento água. Segundo a astrologia judaica, os nascidos sob influência de Heshvan têm uma extrema sensibilidade emocional, inclinações e tendências que os leva sempre a se fixar poderosamente como desejos, paixões, obsessões etc. Positivamente, uma pessoa com esta disposição pode demonstrar muita capacidade para alcançar valores e maneiras de sentir muito intensos, que, se bem orientados, podem levar a uma compreensão superior dos ensinamentos da Torá.

O mês de Heshvan se completa pelo seu oposto, Iyar, o segundo mês da primavera. Ao longo dos séculos, a história dos judeus conta que é neste mês, principalmente, que, tendo como causa a punição divina, devido a faltas e pecados cometidos, que se registram confiscos e destruição de suas propriedades e seus bens em vários países. Ainda pela astrologia, é possível, como sabemos, explicar toda a dialética presente no relacionamento entre árabes e judeus através do eixo Touro (Israel)-Escorpião(o mundo árabe). Para informações complementares quanto a este relacionamento sugiro a leitura do artigo  Correspondências taurinas (O touro e Israel), neste blog.  

ADÃO, EVA E A SERPENTE
(CORNELIS VAN HAARLEM
1562 - 1638)
Na tradição bíblica judaica, passada para a astrologia, a serpente (nachash) era o rei dos animais; astuciosa, caminhava ereta, tinha duas pernas, falava e se alimentava normalmente como os humanos. Ao ver como os anjos tratavam Adão e Eva, sentiu muita inveja. Este sentimento tomou proporções incontroláveis quando viu Adão e Eva mantendo relações sexuais. Pensou em tomar o lugar de Adão, totalmente obcecado pela ideia de manter relações com Eva. Inspirada por Satã ou Samael, a serpente persuadiu Eva a comer o fruto proibido, seduzindo-a. Foi por isso castigada por Deus, perdeu as pernas, foi condenada a se arrastar, seu alimento perdeu todo o sabor, tornando-se, por isso, a inimiga natural do ser humano, passando desde então a simbolizar o mal. 

Quando a serpente manteve relações sexuais com Eva no Jardim do Éden, sua peçonha, desde então, injetada nela, foi passada para toda a descendência do primeiro casal. A peçonha injetada em Eva provocou uma quebra, uma fissura, entre o humano e o divino. Só quando Moisés recebeu a Torá no monte Sinai e a passou para seu povo é que a peçonha foi removida de Israel. Certas tradições judaicas, como se disse, afirmam que Caim era, na verdade, filho de Eva e da serpente, apresentando seus descendentes, de modo muito evidente, algumas das perversas características do lado paterno. 

Estas ideias dos judeus sobre a serpente confirmam tradições que fazem dela um dos mais antigos símbolos fálicos conhecidos. Os cananeus, povos que habitavam o país de Canaan, na idade do bronze, desde o terceiro milênio aC., tinham cultos ligados à fertilidade da terra, praticados em lugares elevados, de natureza orgiástica, nos quais as serpentes ocupavam uma posição de destaque. Tais cultos sempre mereceram dos profetas bíblicos a mais veemente reprovação. 


A  SANTA   CEIA  ( LEONARDO  DA  VINCI , 1452 - 1519 )

No mundo cristão, o signo de Escorpião aparece ligado a Judas Escariotes, um dos doze discípulos de Cristo. Ele é o "homem de Kerioth", cidade perto de Hebron, tesoureiro do grupo. Como diz a tradição, com um beijo hipócrita, Judas identificou Cristo, entregando-o aos soldados romanos. Figura essencial na paixão de Cristo, Judas recebeu trinta moedas de prata por esse serviço. Quem o fixou para nós os doze apóstolos como representantes dos doze signos zodiacais foi Leonardo da Vinci, no afresco que pintou numa das paredes da igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão, no final do século XV. Esse afresco é conhecido pelo nome de A Santa Ceia ou A Última Ceia. Para pintá-lo, Leonardo valeu-se, segundo consta, das concepções astrológicas de Claudio Ptolomeu. Com Cristo ocupando a posição central da figura, distribuiu Leonardo os doze apóstolos em dois grupos de seis, subdivididos em grupos de três. Quem olha de frente a figura pode identificar, assim, a partir da direita, a primavera (Simão-Áries, Judas Tadeu-Touro e Mateus-Gêmeos) e o verão (Felipe-Câncer, Tiago-Leão e Tomé-Virgem). Na sequência, depois de Cristo, temos o outono (João-Libra, Judas Escariotes-Escorpião e Pedro-Sagitário) e o inverno (André-Capricórnio, Tiago Menor-Aquário e Bartolomeu-Peixes).    


A constelação de Escorpião estende-se hoje de 23º Scorpio a 26º Sagitário, sendo Antares, alfa, a 9º 04´ de Sagitário, sua principal estrela, de natureza marciana, com alguma participação saturnina. As demais, por ordem de importância, são Graffias e Dschuba, desprezíveis astrologicamente. Há na constelação uma nebulosa, com duas estrelas visíveis, Acumen e Aculeus, também chamadas, respectivamente, de Shuala e Lesath. A primeira está a 28º 03´ e a segunda a 25º 02´, ambas em Sagitário. 

Antares, na antiguidade, era conhecida tanto como astro semelhante ou como rival de Marte, principalmente por causa de sua cor. Os latinos a chamavam de Cor Scorpii. Antares é, como sabemos, uma das quatro estrelas reais da astrologia persa, conhecida como a Guardiã do Oeste, identificada como Yima, o deus persa da morte. O oeste, o ocidente, é em todas as tradições o lugar do fim,  região do poente, o começo da viagem que as almas fazem depois da morte. Esta estrela inclina a extremos, consciente ou inconscientemente. Pode trazer sucesso, honras, mas há riscos de catástrofes, de perdas totais, tudo dependendo da posição e das relações que a estrela mantiver no mapa (vide o mapa de Gandhi). 

PTOLOMEU
Ptolomeu viu na nebulosa de Escorpião influências de Marte e da Lua. De um modo geral, como sabemos, nebulosas são tradicionalmente ligadas à cegueira, literal ou metaforicamente. Estas duas estrelas são conhecidas como o “Anzol”, uma relacionada com a luz e outra com as trevas. Acumen é o lado escuro, sugerindo perturbações, obliterações físicas ou mentais, que podem causar danos à saúde (vide mapas de Van Gogh ou Marilyn Monroe). Aculeus também sujeita a problemas, obstruções de energia, de natureza menos intensa, mais suportáveis (vide mapa Eduardo VIII). De um modo geral, estas duas estrelas sempre produzem alguma forma de ataque (físico, verbal etc.) semelhante a uma ferroada do escorpião.