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domingo, 24 de dezembro de 2017

ESCORPIÃO (6)

                                          
CANAAN
As tribos mesopotâmicas que se instalaram a leste da península do Sinai, deram o nome de Canaan (etimologicamente, país baixo), também chamada de Terra Prometida, à região compreendida entre a atual Síria e a Palestina.  Canaan era o nome de um filho de Cham, o segundo dos três filhos de Noé. Para ali se fixarem, precisaram essas tribos criar um regime político forte a fim  manter entre elas uma necessária união interna a fim de enfrentar não só a hostilidade das tribos locais às quais haviam se imposto como, externamente, fazer frente à ação de invasores.


ABRAÃO  ,  ISAAC  E  JACÓ
Ao primeiro período da história dessas tribos reunidas como nação, deu-se o nome de “período dos patriarcas”, que teve como nomes inaugurais Abraão, Isaac e Jacob. Este último, o terceiro dos patriarcas,  a quem o próprio Deus deu o nome de Israel (etimologicamente, combatente de Deus), foi o pai dos fundadores das doze tribos que constituiriam Israel como nação.  As doze tribos eram subdivididas em famílias, clãs e unidades menores, cada uma delas tendo por chefe um patriarca, que detinha o poder absoluto sobre  os seus filhos, descendentes e as propriedades. 

Foi a organização tribal e, principalmente, a percepção que Jacob teve de Deus que permitiu as essas tribos se tornarem uma nação forte e poderosa, tudo consolidado por uma singularidade religiosa única ao tempo. Esta singularidade  única, se a relacionamos com a concepção religiosa dos vizinhos, tinha por base o monoteísmo, a crença num só Deus, conforme a Bíblia estabeleceu. Esta crença entendia Deus como uma entidade suprema, infinita e perfeita, autogerada, eterna, onisciente e onipotente. Este Deus, apesar de profundamente justo e bom, podia, entretanto, mostrar-se ameaçador e vingativo, atuando como a grande divindade dos exércitos. O objetivo era o de transformar aquele aglomerado de tribos tanto numa poderosa nação como em algo bem maior, transformá-la numa congregação, numa “assembleia permanente do Senhor”. 


ANJO , ABRAÃO  E  SARA ( JAN  PROVOOST , 1465 - 1529 )


No plano político interno, isto significava acabar com as divindades tribais e com cultos regionais, sempre fatores de divisão e de enfraquecimento. Foi com base numa experiência monoteísta egípcia patrocinada pelo faraó Akhenaton (cerca de 1370 aC), que os primeiros patriarcas judeus montaram o seu projeto religioso. Os historiadores que tomam o texto bíblico por base de suas afirmações nos dizem que Abraão com a sua tribo, emigrado de Ur, na Mesopotâmia, com a sua mulher Sara, por volta de 2.000 aC, deve ser considerado como o primeiro dos patriarcas e verdadeiro fundador do monoteísmo dos hebreus. 

As “casas do povo”, muito semelhantes às chamadas “casas de vida” dos egípcios, foram se instalando pelos judeus como lugares de reunião, logo se transformando elas em “casas de assembleia”, isto é, sinagogas, com a finalidade de educar o povo no temor de
MOISÉS RECEBE A TORÁ
(REMBRANDT, 1606-1666)
Deus. Nessas “casas”, a Torá (a lei e a tradição), recebida por Moisés diretamente de Deus, era lida e explicada, ao mesmo tempo em que se criava uma literatura de comentários bíblicos, com interpretação de homilias, salmos etc. Ensinar não só o temor de Deus, mas também preservar toda a sabedoria dos ancestrais. Montou-se, enfim, um sistema em que os homens passaram a manter o poder religioso, político e econômico, controlando a propriedade e exercendo funções de autoridade moral em todos os sentidos, inclusive sobre as mulheres e crianças. A esse sistema deu-se, no seu todo, o nome de Judaísmo, que tem por base uma religião na qual Deus fala aos homens través dos seus profetas.


ARCA   DA   ALIANÇA
( CATEDRAL DE AUCH, FRANÇA )
A esse sistema, sob um outro viés, psicológico, se quisermos, se deu o nome de poder masculino, dele fazendo parte símbolos que o enaltecem como tal. O símbolo maior da relação de Deus com o povo de Israel era a Arca da Aliança, destruída, juntamente com o templo de Jerusalém, onde se encontrava, em 587 aC quando da invasão  comandada por Nabucodonosor. Da Bíblia, fazem parte do seu universo simbólico, para a melhor compreensão da Torá, não só objetos e imagens como textos, sonhos, milagres e outras manifestações enviadas por Deus, símbolos sempre recebidos por profetas e patriarcas.  

Nesse universo simbólico, que tem a finalidade de confirmar a aliança estabelecida entre o povo de Israel e Deus, introduziram-se  símbolos que rebaixaram ou satanizaram o mundo feminino. Na nova ordem, como está no Antigo Testamento (Gênese), a mulher, por determinação de Deus, teve que se submeter totalmente ao homem, tornando-se, ao casar,  propriedade de seu marido, só podendo herdar se não houvesse filhos. Casada, os seus direitos jurídicos, bem como suas possibilidades quanto a atividades religiosas, sociais e culturais, foram bastante limitados. O papel essencial da mulher, desde então, foi o de gerar filhos machos para garantir a continuidade da família. Apesar deste cenário negativo para a mulher, há que se lembrar que algumas delas, como Judite e Esther, por exemplo, desempenharam papéis muito diferentes, como grandes sedutoras (veja neste blog Os (Des)Caminhos da Sedução.  

CATEDRAL  DE  NOTRE  DAME
PARIS
Por ter dado ouvidos à serpente e induzido Adão a comer dos frutos da árvore do conhecimento, Eva, a mulher, e a serpente tornaram-se indissociáveis no mundo judaico-cristão desde que as religiões patriarcais se impuseram . A serpente se transformou num animal ctônico por excelência. Como está no Gênese (3.14) foi condenada a rastejar na poeira por ordem de Deus. 

Nada a estranhar que em todas as tradições e culturas, os seus diferentes aspectos,  seja como kundalini, midgard, boiúna, áspide, boitatá basilisco, angícia, équidna ou leviatã sejam sempre utilizados para representar diferentes estados da consciência do ser humano. É neste sentido também que a serpente passou simbolicamente a ser uma ilustração do universo sensível e manifesto, o ilusório mundo material, o mundo de maya dos hindus.

Foi a tradição judaica, mais do que qualquer outra, talvez, na antiguidade, a que mais tenha se aproximado da relação simbólica entre o feminino, a serpente e a vida inconsciente. A começar pela palavra que os antigos patriarcas usaram para designar a serpente bíblica, nachash, palavra que provém de um verbo que significa adivinhar, prever, vaticinar, pressagiar. Lembremos que os antigos gregos fizeram algo semelhante ao que aqui se diz: deram, no mito, a um animal construído a partir da serpente e do lagarto, o nome de drakon (dragão), palavra que, em grego, vem do verbo derkomai, que significa olhar terrível, um verbo de ação reflexiva. Em derkomai  a ação é devolvida, se volta para o agente, para o que olha. O dragão nos devolve o olhar: Que queres saber? Ao invés de me olhares, interroga-te. O dragão pede que nos enfrentemos, que olhemos dentro de nós. A ideia aqui é de interiorização, descida. Vida recôndita, profunda, secreta, abismo, queda e, quem sabe, renascimento.


DRAGÃO  ( GUSTAVE  DORÉ , 1832 - 1883 )

O dragão, basicamente, como se sabe, animal fabuloso, possui um corpo de dragão com terminação ofídica, asas de águia e garras de leão. Na Bíblia é animal que representa o mal e as trevas, o caos das origens, sempre atuando no sentido contrário de Deus e dos seres angelicais. No Novo Testamento,  no Apocalipse, segundo João, se revela que o dragão reinará sobre o mundo, mas, no final, será vencido pelo reino de Deus. 

Ao final, com a expulsão do paraíso, feita a avaliação, o que temos é que ao invés de terem baixado a cabeça e obedecido, Adão e Eva optaram, ao comer do fruto proibido, pela angústia, pelo livre-arbítrio. Ouviram a serpente:  Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão e vocês, como Deus, serão conhecedores do bem e do mal, este o final do discurso da serpente ouvido por Eva, que o transmitiu a Adão. Orgulho, desejo de poder? Uma conduta não pensada, irrefletida, que exprimia uma reação espontânea (emotiva, passional, reflexa), não procedente de uma decisão voluntária amadurecida? Ao deixar de obedecer a Deus, Adão e Eva caíram na dualidade. Foram expulsos do paraíso, um lugar idílico onde, segundo a vontade divina, deveriam viver pacificamente, felizes e em harmonia. Nada disto parece ter interessado aos dois.


EXPULSÃO   DO   PARAÍSO  ( MICHELANGELO , 1475 - 1564 )

Cometeram um pecado aos olhos de Deus, isto é, diante do sistema político-religioso institucionalizado, montado pelo patriarcas, que, para se impor, precisava que os que dele participassem não pensassem, mas que tivessem simplesmente fé e aceitassem o dogma, este fundamentado na autoridade religiosa de quem o proclamava. No projeto religioso instituído, profundamente misógino, os antigos patriarcas judeus jamais consideraram Eva  como um complemento de Adão e muito menos como uma iniciadora, uma instrutora, sem a qual ele jamais poderia
HÉRCULES CONQUISTA O CINTURÃO
ter acesso a níveis superiores de consciência. Em várias tradições, esta intermediação da mulher aparece, como se sabe, mas é sempre ignorada ou recusada. Para não me alongar neste particular, basta lembrar, para ficar com o mais conhecido e próximo, que vários mitos gregos nos falam disto. As histórias de Teseu e Ariadne, do sexto trabalho de Hércules (A conquista do cinturão da rainha Hipólita) e do gigante Orion são, dentre outras, exemplares. 

Os patriarcas judeus, orgulhosamente, não só negaram à primeira mulher condições de igualdade, mas, como está no Gênese, no 2º capítulo, a fizeram, como se disse, “nascer” do masculino. Culpada pela perda do paraíso, dele expulsa com Adão, a segunda mulher recebeu o nome de Hawwah, em hebraico, nome que, em antigas línguas semitas, se aproxima muito daquele pelo qual se denominava a serpente. O que também ficou para nós desse episódio é o quão facilmente, na vida psíquica, o feminino se impõe com facilidade ao masculino. 

LILITH  ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 )

O lado feminino ao qual Adão, com o beneplácito de Deus, não deu igualdade se rebelou contra ele e contra o próprio Deus. A Bíblia nada fala do que aconteceu com este lado feminino, de nome desconhecido, a primeira mulher. Sabe-se por textos cabalísticos que este lado feminino, que, segundo alguns, teria inclusive precedido Adão na criação, rebelando-se, tomou o caminho do Mar Vermelho, transformando-se, com o nome de Lilith, na rainha das forças noturnas. Ela foi para o deserto, tornando-se lá a noiva de Samael, o senhor das forças do mal, que os judeus chamam de Sitra Achra. Como um demônio feminino, Lilith transformou-se desde então na própria sedução encarnada. Segundo o mito babilônico, Lilith tem o seu habitat natural no deserto e só encontra a paz nas terras de Edom (etimologicamente, vermelho). 

Lilith, segundo a tradição cabalística, foi criada ao mesmo tempo que Adão, criada a partir da terra, portanto, como ele. O nome Lilith têm relação com prenomes femininos que indicam poder e libertação; Leila, Lélia, Eulália, Eliane, Ella (inglês) e outros são exemplos. Lilith, porém, neste grupo de prenomes, representa o lado demoníaco e rebelde da mulher. Para os judeus, é ela quem diante de Adão proclama que o desejo de conhecer é bom e  é capaz de pronunciar o “nome indizível” de Deus. Eva, como esposa submissa e obediente às leis do casamento e da maternidade, só “nascerá” no segundo capítulo da Bíblia.   

Os judeus designam o pecado pela palavra chet, palavra que lembra desvio, falha de conduta, com relação ao caminho certo, o da Torá. O arrependimento, retorno ao caminho certo, a Deus, é admitido.
TALMUD
Segundo o Talmud, no homem há duas inclinações, uma para o Bem (Deus) e outra para o Mal (Satã-Lilith), tendo ele o poder de escolher entre uma e outra. A esse poder foi dado o nome de livre-arbítrio, a possibilidade de decisão, de escolha, em função da própria vontade humana, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante. Mais: segundo o judaísmo, o homem tem uma índole, uma natureza fraca, que o inclina para o Mal. Misericordioso, Deus permitiu que, tendo optado pelo Mal, vitimado pelos seus condicionamentos, o homem, desde que arrependido, possa voltar ao Bem. O homem, para o judaísmo, nasce em pecado em consequência do pecado original, de Adão e de Eva, que recai sobre toda a humanidade.



SANTO AGOSTINHO
No catolicismo, Santo Agostinho foi pelo mesmo caminho dos judeus, dizendo-nos que pecado é qualquer ato ou desejo contrário a Deus, ou seja, contrário a tudo o que está expresso nos dez mandamentos. Outros antigos padres da Igreja católica sempre insistiram num ponto:qualquer pecado é um abuso de liberdade. Do pecado adâmico participam, desde então, todos os seres humanos devido à sua origem. A expulsão do paraíso definiu desde então a natureza humana, tornando-a ignorante, voltada para o sofrimento, inclinada ao pecado e destinada à morte.

SITRA ACHRA
A doutrina judaica, especialmente o Talmud, defende a ideia de que todo homem é dotado de livre arbítrio, o que o habilita a escolher corretamente o que é do Bem (vida consciente, Adão) e o que é do Mal (vida inconsciente, Eva), isto é, o que é do reino de Deus e o que é do reino de Satã. O reino de Satã, para o judaísmo, é o Sitra Achra (literalmente, o Outro Lado), nome aplicado de um modo geral a todas as forças demoníacas, situadas sempre à esquerda e abaixo, e governadas por Samael e Lilith. São os pecados dos homens que nutrem o SitraAchra, mantendo-o separado do reino de Deus, dividindo a
DERROTA DE SAMAEL
(JOHN MILTON, 1608-1674)
criação. Na Idade do Messias, esta divisão terá fim com a captura do próprio Samael pelo arcanjo Gabriel. Acorrentado, ele será entregue a Israel e expurgado de todas as forças maléficas que o constituem, transformando-se num agente do divino que iluminará a criação como um todo, eliminando-se a divisão entre os dois reinos. Apesar de tudo isto que a doutrina revela, o pecado de Adão e Eva, deixou a sua marca em todas as gerações que a eles se sucederam, segundo a doutrina judaica. 
À desobediência de Adão e Eva dá-se o nome de A Queda do Homem, caracterizada esta como a transição humana de um estado de inocência e de obediência a Deus para um estado de desobediência e de culpa. 

A  QUEDA  DO  HOMEM ( W. BLAKE , 1757 - 1827

Neste sentido Queda do Homem e Pecado Original são equivalentes. O Judaísmo e o Islamismo não aceitam a doutrina do pecado original como os católicos a definiram. Para ambos cada homem deve ser responsável pela sua própria salvação, não havendo necessidade da graça divina para isso. A graça, para os católicos, é obtida pela via sacramental, pela reconciliação (batismo) e pela penitência. 


PELÁGIO DA BRETANHA
No cristianismo, participando de um entendimento contrário,  o monge Pelágio da Bretanha (360-435), depois de intensos debates com Agostinho de Hipona, propôs uma doutrina, chamada de pelagianismo, segundo a qual todo homem é totalmente responsável pela sua salvação, não necessitando da graça divina para tanto. Para Pelágio, todo homem nascia moralmente neutro e seria capaz, por si mesmo, sem qualquer influência divina, de se salvar, desde que assim o desejasse e se empenhasse. Evidentemente, as teses de Pelágio foram rejeitadas pela Igreja católica e ele considerado herege. 

O Talmud (literalmente estudo, em hebraico), a obra mais importante da Torá oral, nos revela que desde a  expulsão de Adão e Eva, as forças satânicas do SitraAchra tomaram o lugar do princípio masculino diante de Deus. Só a Torá, afirmam os judeus, tem condições de livrar Israel do veneno da serpente. Desde então, a mulher e a serpente sempre foram responsabilizadas pelas três grande religiões patriarcais (judaísmo, cristianismo e islamismo) pela perda do paraíso. 

Em muitas outras tradições que não a judaico-cristã, a serpente, positivamente,  aparece ligada à vida, à imortalidade, ao renascimento e, por isso, obviamente,  ao mundo feminino, ao mundo das Grandes Mães. Nas tradições que a honraram, a serpente sempre teve também relação com a sabedoria, com o conhecimento e com a cura. Ela detém, como nenhum outro ser o faz, o conhecimento sobre a vida e a morte, um conhecimento que Eva tentou transmitir a Adão, o poder da vida subconsciente, que ele só alcançaria através do princípio feminino, isto é através dela. É neste sentido que pode ser retomada a etimologia que os antigos patriarcas judeus usaram para designar a serpente e, por extensão, a vida inconsciente, lugar de um conhecimento oculto que determina, em grande parte, a nossa vontade e a nossa economia orgânico-fisiológica. 



A astrologia judaica praticada ao tempo dos primeiros patriarcas já nos falava de uma relação entre o homem, as letras do alfabeto, os signos zodiacais e os meses do ano. Discorria ela sobre dias fastos e nefastos, sobre a influências planetárias negativas (mazal), conforme se pode perceber pelo estudo do Sefer Ietsira (Livro da Criação), que considera o homem um microcosmo. Considerada “ciência suprema” pelos cabalistas, a astrologia, a partir da Idade Média começou a ser repudiada e perseguida pela ortodoxia religiosa judaica. 

Entre os judeus que conhecem a astrologia,  Heshvan é o mês do signo de Escorpião, associado, no corpo humano, ao olfato. A tribo ligada ao signo é a de Manassé, filho mais velho de José e de Asenath, filha de um sacerdote egípcio. Ele é o ancestral da tribo do mesmo nome, instalada a oeste do rio Jordão e ao sul do lago de Genesaré. O acontecimento mais importante no mundo judaico, relacionado com este mês, é o do término da construção do templo de Salomão. O terceiro templo, conforme a Midrash (tradição oral), será construído também neste mês, no qual os judeus vêm o contraste entre a destruição e a queda, de um lado, e a construção e a estabilidade de outro. 

HAVDÁ  ( ZVI  MALNOVITZEN , 1945 )

Através do signo de Heshvan é feita a associação entre alma (neshmah), respiração, sopro, olfato e nariz. Ao fim do Shabat, dia do descanso obrigatório, que vai do anoitecer de sexta-feira ao sábado à noite, é realizada a cerimônia da Havdalá, a distinção consciente entre o que é sagrado e o que é profano. Durante esta cerimônia são usadas especiarias de odor agradável a fim de acentuar o caráter distintivo entre as duas fases que o Shabat caracteriza. É por essa razão que os judeus consideram o olfato como o mais espiritual dos sentidos, diretamente conectado com a intuição, que tem um caráter anímico, não racional. 

O signo de Heshvan, associado ao olfato, também tem ligação com o dilúvio de Noé como se menciona no Gênese, cap. VIII, v.21: E nisto percebeu o olfato do Senhor um suave cheiro, e disse: não amaldiçoarei mais a terra por causa dos homens: porque o sentido e o coração do homem estão inclinados para o mal desde a mocidade. Não tornarei pois a ferir vivente algum como fiz. O sentido do olfato, tão intimamente relacionado com a alma, está revelado pelo nome da tribo que rege o mês, pois neshmah, num arranjo diferente de suas letras, dá o nome heshvan.

O nariz, lembremos, sempre foi considerado um símbolo de perspicácia, de discernimento, muito mais intuitivo que racional, ocupando um lugar essencial no rosto das pessoas em geral e, em especial, dos escorpianos. Pode-se, por exemplo, ter olhos bonitos e ser feio. Já um belo nariz nunca aparecerá associado a um rosto disforme, dizem os fisiognomistas. Para eles, um nariz perfeito testemunha sempre uma certa nobreza de alma.  



O   DILÚVIO  ( MICHELANGELO , 1475 - 1562 )

O elemento deste signo é a água enquanto relacionada com o dilúvio (mabul) dos tempos de Noé, uma catástrofe que se distingue por seu caráter não definitivo, tendo o sentido de regeneração, de germinação. Antigas formas, que perderam sua capacidade de se renovar, gastas, esgotadas, esvaziadas de qualquer sentido transformador, são destruídas para dar lugar a outras. No caso, dar origem a uma outra humanidade, a uma nova época, sem as faltas morais e rituais da anterior. 

O astro que tem influência em Heshvan é o planeta Marte, onde atua com o principal sentido de julgamento severo. A destruição causada pelo dilúvio decorreu astrologicamente da ação de Marte, motivada pelo severo julgamento divino diante do mau uso que a humanidade fez do poder do desejo, enraizado no elemento água. Segundo a astrologia judaica, os nascidos sob influência de Heshvan têm uma extrema sensibilidade emocional, inclinações e tendências que os leva sempre a se fixar poderosamente como desejos, paixões, obsessões etc. Positivamente, uma pessoa com esta disposição pode demonstrar muita capacidade para alcançar valores e maneiras de sentir muito intensos, que, se bem orientados, podem levar a uma compreensão superior dos ensinamentos da Torá.

O mês de Heshvan se completa pelo seu oposto, Iyar, o segundo mês da primavera. Ao longo dos séculos, a história dos judeus conta que é neste mês, principalmente, que, tendo como causa a punição divina, devido a faltas e pecados cometidos, que se registram confiscos e destruição de suas propriedades e seus bens em vários países. Ainda pela astrologia, é possível, como sabemos, explicar toda a dialética presente no relacionamento entre árabes e judeus através do eixo Touro (Israel)-Escorpião(o mundo árabe). Para informações complementares quanto a este relacionamento sugiro a leitura do artigo  Correspondências taurinas (O touro e Israel), neste blog.  

ADÃO, EVA E A SERPENTE
(CORNELIS VAN HAARLEM
1562 - 1638)
Na tradição bíblica judaica, passada para a astrologia, a serpente (nachash) era o rei dos animais; astuciosa, caminhava ereta, tinha duas pernas, falava e se alimentava normalmente como os humanos. Ao ver como os anjos tratavam Adão e Eva, sentiu muita inveja. Este sentimento tomou proporções incontroláveis quando viu Adão e Eva mantendo relações sexuais. Pensou em tomar o lugar de Adão, totalmente obcecado pela ideia de manter relações com Eva. Inspirada por Satã ou Samael, a serpente persuadiu Eva a comer o fruto proibido, seduzindo-a. Foi por isso castigada por Deus, perdeu as pernas, foi condenada a se arrastar, seu alimento perdeu todo o sabor, tornando-se, por isso, a inimiga natural do ser humano, passando desde então a simbolizar o mal. 

Quando a serpente manteve relações sexuais com Eva no Jardim do Éden, sua peçonha, desde então, injetada nela, foi passada para toda a descendência do primeiro casal. A peçonha injetada em Eva provocou uma quebra, uma fissura, entre o humano e o divino. Só quando Moisés recebeu a Torá no monte Sinai e a passou para seu povo é que a peçonha foi removida de Israel. Certas tradições judaicas, como se disse, afirmam que Caim era, na verdade, filho de Eva e da serpente, apresentando seus descendentes, de modo muito evidente, algumas das perversas características do lado paterno. 

Estas ideias dos judeus sobre a serpente confirmam tradições que fazem dela um dos mais antigos símbolos fálicos conhecidos. Os cananeus, povos que habitavam o país de Canaan, na idade do bronze, desde o terceiro milênio aC., tinham cultos ligados à fertilidade da terra, praticados em lugares elevados, de natureza orgiástica, nos quais as serpentes ocupavam uma posição de destaque. Tais cultos sempre mereceram dos profetas bíblicos a mais veemente reprovação. 


A  SANTA   CEIA  ( LEONARDO  DA  VINCI , 1452 - 1519 )

No mundo cristão, o signo de Escorpião aparece ligado a Judas Escariotes, um dos doze discípulos de Cristo. Ele é o "homem de Kerioth", cidade perto de Hebron, tesoureiro do grupo. Como diz a tradição, com um beijo hipócrita, Judas identificou Cristo, entregando-o aos soldados romanos. Figura essencial na paixão de Cristo, Judas recebeu trinta moedas de prata por esse serviço. Quem o fixou para nós os doze apóstolos como representantes dos doze signos zodiacais foi Leonardo da Vinci, no afresco que pintou numa das paredes da igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão, no final do século XV. Esse afresco é conhecido pelo nome de A Santa Ceia ou A Última Ceia. Para pintá-lo, Leonardo valeu-se, segundo consta, das concepções astrológicas de Claudio Ptolomeu. Com Cristo ocupando a posição central da figura, distribuiu Leonardo os doze apóstolos em dois grupos de seis, subdivididos em grupos de três. Quem olha de frente a figura pode identificar, assim, a partir da direita, a primavera (Simão-Áries, Judas Tadeu-Touro e Mateus-Gêmeos) e o verão (Felipe-Câncer, Tiago-Leão e Tomé-Virgem). Na sequência, depois de Cristo, temos o outono (João-Libra, Judas Escariotes-Escorpião e Pedro-Sagitário) e o inverno (André-Capricórnio, Tiago Menor-Aquário e Bartolomeu-Peixes).    


A constelação de Escorpião estende-se hoje de 23º Scorpio a 26º Sagitário, sendo Antares, alfa, a 9º 04´ de Sagitário, sua principal estrela, de natureza marciana, com alguma participação saturnina. As demais, por ordem de importância, são Graffias e Dschuba, desprezíveis astrologicamente. Há na constelação uma nebulosa, com duas estrelas visíveis, Acumen e Aculeus, também chamadas, respectivamente, de Shuala e Lesath. A primeira está a 28º 03´ e a segunda a 25º 02´, ambas em Sagitário. 

Antares, na antiguidade, era conhecida tanto como astro semelhante ou como rival de Marte, principalmente por causa de sua cor. Os latinos a chamavam de Cor Scorpii. Antares é, como sabemos, uma das quatro estrelas reais da astrologia persa, conhecida como a Guardiã do Oeste, identificada como Yima, o deus persa da morte. O oeste, o ocidente, é em todas as tradições o lugar do fim,  região do poente, o começo da viagem que as almas fazem depois da morte. Esta estrela inclina a extremos, consciente ou inconscientemente. Pode trazer sucesso, honras, mas há riscos de catástrofes, de perdas totais, tudo dependendo da posição e das relações que a estrela mantiver no mapa (vide o mapa de Gandhi). 

PTOLOMEU
Ptolomeu viu na nebulosa de Escorpião influências de Marte e da Lua. De um modo geral, como sabemos, nebulosas são tradicionalmente ligadas à cegueira, literal ou metaforicamente. Estas duas estrelas são conhecidas como o “Anzol”, uma relacionada com a luz e outra com as trevas. Acumen é o lado escuro, sugerindo perturbações, obliterações físicas ou mentais, que podem causar danos à saúde (vide mapas de Van Gogh ou Marilyn Monroe). Aculeus também sujeita a problemas, obstruções de energia, de natureza menos intensa, mais suportáveis (vide mapa Eduardo VIII). De um modo geral, estas duas estrelas sempre produzem alguma forma de ataque (físico, verbal etc.) semelhante a uma ferroada do escorpião. 

                            

sábado, 8 de julho de 2017

LEÃO (4)



SISTEMA   SOLAR

Lembremos que Netuno, no século XX, entrou em Leão no mês de junho de 1.916 e nele permaneceu até 1.929. O mundo dos investimentos (ações, financiamentos, hipotecas, commodities, empréstimos para a aquisição de bens suntuários) é leonino e foi construído nesse período com base nas ilusões e nas fantasias netunianas de riqueza e poder, em várias formas de ganhos repentinos (ganância). Netuno em Leão trouxe muito talento musical e artístico, mas, por outro lado, através do cinema (governado por Netuno) criou-se o star system e a chamada Usina de Sonhos, nome pelo qual Hollywood passou a ser conhecida como produtora de expressões artísticas inferiores relacionadas
GRANDE   DEPRESSÃO
com um romantismo exagerado, um idealismo carregado de sentimentalismo, de superficialidade, de fantasias sobre o poder, tudo saturado de extravagâncias, luxo e prazer de gosto profundamente discutível. Na economia, tivemos desastres, implosão, começo daquilo que tomou o nome de a “Grande Depressão” (o crack de 1.929). Quando Netuno transitou por Leão tivemos também o primeiro concurso feminino de beleza em trajes de banho, o rádio se firmou como meio de comunicação ligado à massificação (alienação, divertimento). Durante esse período, denominado pela expressão Roaring Twenties, em cima de descontrolada especulação, se alimentou a fantasia de uma riqueza ilimitada. 

Mais: lembremos que durante da década de 20, Urano transitou por Peixes, de 1.920 a 1.927, e que hoje ele (séc. XXI) voltou a transitar por esse signo (2.003-2011). Netuno entrou em Aquário em 1.999, juntando-se catastroficamente nos céus tendências humanitárias, salvadoras (Netuno) com tecnologia (Urano), ficando o homem desde então aprisionando pelo complexo de Ícaro, tomando o nome de globalização, através da sigla WWW, o sonho da fraternidade universal.


A   QUEDA   DE   ÍCARO  ( P.P. RUBENS , 1636 )

Ícaro era filho de Dédalo, o famoso inventor. Ele e o pai estavam presos no palácio de Minos, em Creta. Dédalo fabricou para o filho um par de asas, que foram  presas aos ombros do jovem com uma cera especial por ele inventada, com a  recomendação de que ele, evadindo-se da prisão, não se aproxime demais do Sol, que procurasse manter uma altura média entre o astro solar e a Terra. Nada lhe aconteceria se observasse o metron recomendado. Apesar de todos os conselhos de prudência, o jovem afoitamente lançou-se nos céus, elevando-se cada vez mais. A cera foi se derretendo, as asas se soltaram. Resultado: queda, catástrofe e morte. 

Ícaro desde então deu nome ás ingênuas aspirações humanas de se atingir a vida espiritual, o Sol, no exemplo, através de meios técnicos. O complexo se configurou: ambição desmedida, exaltação vaidosa e megalomania. Uma dupla perversão, pois, em Ícaro: julgamento errado e coragem idiota. As asas de cera de Ícaro tornaram-se o símbolo da tecnologia moderna. A conclusão se impõe: não é com elas que chegaremos a uma vida espiritualmente orientada. 


A tradição astrológica que incorpora aproximações com o Tarot costuma associar o arcano 11, A Força, ao signo do Leão. Afirma essa tradição, a meu ver erradamente, que a figura da lâmina traduz uma ideia de controle das forças instintivas pelo lado feminino da personalidade masculina, a chamada anima. A vida instintiva domada pelo eu solar. Alguns atribuem este controle a uma sabedoria, representada pelo chapéu que a figura feminina leva sobre a cabeça, a que chamam de lemniscata.

A figura feminina do arcano 11 tem tudo a ver com a das grandes-mães, figuras típicas do mundo matriarcal, poderoso símbolo que, mesmo depois da vitória do mundo patriarcal, continua presente na vida masculina. A figura me lembra mais a ilustração de uma relação mãe-filho em que ela, invadindo o território da quinta casa astrológica (o da conquista de um eu autônomo), continua a exercer a sua função tutelar. A suavidade da figura feminina, sugerindo compreensão e benevolência, é desmentida pelo seu gesto. Ela força o leão a abrir a sua mandíbula. A mandíbula, lembre-se, é o maxilar inferior, o único osso móvel da cabeça, em forma de ferradura e que se articula com o osso temporal de cada lado do crânio. A boca, dos humanos ou dos

animais, é antes a abertura inicial do tubo digestivo. Entretanto, ela é mais que um orifício por onde passa o alimento, ela permite o ato de falar e é por ela que passa também o sopro vital. A boca, sob muitos aspectos, tem também relação com o seio materno. O que a figura evidencia não é a força do ego. Ao contrário, o que ela demonstra claramente é o poder da grande-mãe, das figuras como Cibele, Ishtar, Isis, Durga e outras. 

Quanto ao chapéu, ele é sempre um símbolo de poder, de soberania e também de uma função, de uma posição social ou de uma atividade. O chapéu que está na cabeça da figura feminina em questão faz parte, ao que parece, de indumentárias femininas
LEMNISCUS
europeias do séc.XVII/XVIII. A palavra lemniscata usada como símbolo da sabedoria me parece despropositada. Lemniscus, em latim, é faixa, fita, galão, atadura. A palavra é um cultismo que entrou em circulação a partir do séc.XIX, designando formas feitas com fitas,  arrumadas na forma de um oito. As fitas, como se sabe, participam normalmente do simbolismo dos nós, prendem, atam, submetem de algum modo. 

Lembremos ainda que o número 11 é um símbolo da desmedida, de excessos, de incontinência, de violência, na medida em que aparece depois do 10, que simboliza um ciclo fechado, completo. Santo Agostinho, por exemplo, o associa ao pecado pela razão apontada (excesso), ligando-o ao perigo, ao conflito e à rebelião. Em antigas tradições, era conhecido como a “dúzia do Diabo”. O número aparece na expressão “ser salvo na undécima hora” (eleventh hour, em inglês), uma alusão à parábola de Cristo sobre os trabalhadores que recebiam salário diário mesmo que tivessem sido contratados à última hora do dia de trabalho. 


SANTO   AGOSTINHO ( PHILIPPE  DE  CHAMPAGNE , 1650 )

Às vezes, o número adquire o significado de início de um novo ciclo, uma renovação, como ruptura do número 10. Algumas tradições judaicas falam em daath, a undécima sephirot, a do conhecimento. Analogicamente, o 11 tem a ver com o 2, mas considerada a experiência da trajetória indicada pelos números precedentes. São muito conhecidos os ciclos de atividade magnética do Sol, num período de 11 anos, que dão origem às manchas solares e cuja influência sócio-psicossomática foi comprovada (em 2.006 um novo ciclo começou).    



Muito mais apropriado ver no arcano 18, o Sol, através das duas figuras infantis, a caminhada do ego que acaba de nascer na quinta casa astrológica. Elas indicam um começo, algo ainda “a ser”, como em Áries, mas, agora, já presentes os dois lados a integrar nessa caminhada, o lado masculino e o feminino da personalidade humana. As imagens das duas crianças são diferentes, uma é mais esguia, a outra é um pouco mais cheia de corpo, tem, levemente, formas um pouco mais arredondadas. É verão, elas pisam a terra, lugar da trajetória humana.

As duas figuras devem ser entendidas, evidentemente, em planos que não o biológico. São crianças (no Tarot de Marselha), ainda não totalmente desenvolvidas, espontâneas, sendo o jogo uma das maneiras privilegiadas  destas formas ainda embrionárias se desenvolverem. Há que se vê-las, sobretudo, animicamente, pensando-se numa combinação dos dois princípios que atuam em todos os seres humanos e também segundo o entendimento que o homem e a mulher não são totalmente masculinos ou femininos. Todo símbolo masculino ou feminino participa do seu oposto. Como a figura sugere, em Leão ainda estamos na “infância” do ego. Há um muro atrás das duas crianças. Muros, de um lado, indicam proteção, segurança, defesa, mas podem significar também, de outro, prisão, fechamento. O valor simbólico desse obstáculo deve ficar subordinado à sua altura. Transpô-lo não será difícil, é baixo. A opção de permanecer ou de ultrapassá-lo terá também a ver, conforme entendo, com os dois pequenos pães, um ao lado de cada uma das crianças, produtos das origens, símbolos do mundo familiar, que deverão ser “ingeridos” antes da partida. O pequeno tamanho dos pães indica, numa leitura astrológica, a proporção e de que modo a quarta casa deve participar na caminhada. Sempre, porém, uma ideia de se incorporá-la, fazer dela algo integrado ao ser que vai buscar o seu caminho. 

O número 19 é também um número solar, tendo a ver com o ciclo dos saros, período compreendido entre a repetição dos eclipses do Sol e da Lua, que totaliza 18 anos, 11 dias e 8 horas. A palavra saros nos veio da Babilônia e lá  queria dizer repetição. Esse ciclo é também conhecido como ciclo metônico. Quem deu nome a ele foi um astrônomo ateniense, Meton (séc.V aC). Ele, certamente com base em informações recebidas dos babilônicos, inventou uma regra de sete intercalações de um mês em dezenove anos no calendário lunar. Esse ciclo tem por base o fato de que dezenove anos lunares, aos quais são acrescidos sete meses, correspondem a dezenove anos solares. Na prática, astrológica isto quer dizer: registrar os contactos das Luas novas a cada mês no mapa, tendo em vista que cada contacto se repetirá dezenove anos mais tarde. Estas Luas novas medirão as oportunidades para se empreender algo de novo no que diz respeito ao ponto que no mapa é tocado. Cada empreendimento deverá se relacionar com o contacto similar dezenove anos antes e será condicionado pelo que nesse período se tenha realizado. Esses contactos de eclipse poderão se constituir em momentos particularmente importantes no ciclo geral da Lua nova com relação ao mapa natal.  



A constelação do Leão estende-se hoje entre 12º de Leão e 22º de Virgem. Ptolomeu atribuiu às duas estrelas da cabeça influências como as de Saturno e Marte, esta parcial. As três estrelas do pescoço atuam como Saturno, com discreta participação de Mercúrio. As que estão no lombo lembram influências de Saturno e Vênus. As das coxas atuam como Vênus e, menos, como Mercúrio. 


CONSTELAÇÃO   DE   LEÃO

A estrela alfa de Leão é Regulus, de 1ª magnitude, hoje a 29º08´, conhecida como Cor Leonis, atuando como Marte e Júpiter. Esta estrela, como já foi dito, era uma das quatro estrelas reais dos
AHRIMAN
persas. Eles a consideravam como a “guardiã do Norte”, ligada ao todo-poderoso rei mítico Feridum. 


A história deste rei merece que nos detenhamos nela um pouco mais porque ela é arquetípica. Na eterna luta entre o Bem (Ahura Mazda) e o Mal (Ahriman), este último conseguiu se apoderar, através da magia, da personalidade de Zohak, príncipe do deserto, que, com isso, obteve muitas vitórias. Uma noite, Zohak teve um sonho: um jovem príncipe o derrotava. Interpretado o acontecimento pelos sábios, Zohak ficou sabendo que esse futuro príncipe de nome Feridum, acabara de nascer e que herdaria o seu trono. Zohak mandou então assassinar todas as crianças recém-nascidas do seu reino. 


AHURA   MAZDA

A mãe de Feridum, uma jovem e sábia mulher, conseguiu contudo salvá-lo. Ela o confiou a um jardineiro que cuidava de um terreno ajardinado onde vivia uma vaca maravilhosa, que alimentou a criança. Jovem, Feridum foi levado.as escondidas, pela mãe, às montanhas do Hindustão, onde passou a viver sob a tutela de piedoso mestre. Tornando-se adulto, Feridum soube pela mãe dos desmandos e crimes do rei Zohak. Depois de muitas peripécias, inclusive participação de seres angelicais, Feridum acabou vencendo Zohak, ajudado por um pequeno grupo de descontentes. Instalando-se no poder, Faridum reinou por muito e muitos anos, sempre proporcionando muita felicidade aos seus súditos. Morrendo muito velho, deixou, forçado, a coroa para seus descendentes, que disputarão desastradamente entre si o reino.

Desde de tempos muito remotos, Regulus sempre apareceu associada a sucesso em posições de mando, honras militares, altos postos em comando, podendo, contundo, atrair agressões e complôs. Regulus, em latim, é diminutivo de Rex, rei, isto é, rei ainda criança ou muito jovem. Às vezes, a palavra toma o sentido de chefe de pouca importância (reinos da África), mas de temperamento tirânico. Em Ptolomeu, Regulus é o equivalente de
CLAUDE   DEBUSSY
( H. DE GROUX, 1909 )
Basilikos


Na Índia, a estrela tem o nome de Magha, a Poderosa, dona da 8ª mansão lunar. Entre os árabes é Malikiy. Entre os romanos, é Basilica Stela. No ascendente a estrela reveste a personalidade de realeza, empurra para o sucesso, para o brilho, mas pode trazer problemas, uma grande (hiper)sensibilidade quando esta realeza não é reverenciada, reconhecida. Um mapa para estudo de Regulus é, por exemplo, o do compositor francês Claude Debussy.

A estrela beta de Leão é Denebola, situada na cauda da figura celeste, hoje a 20º 55´ de Virgem. O nome vem do árabe, Dhanab al Asad. Costuma ser chamada de Deneb. Para Ptolomeu, apresenta características de Saturno e Vênus. Esta estrela tem um forte componente aquariano, podendo levar a pessoa a viver fora dos padrões sociais, afrontando-os, um traço não conformista. Pode colocar por isso a pessoa adiante do seu tempo. 

A estrela gama de Leão é Algeiba, “escondida” na juba, não usada astrologicamente. A estrela delta é Zosma (a cinta ou a cintura, em grego), perto do cauda, hoje a 10º 37´ de Virgem. É uma estrela
JOHN   KENNEDY
( E. DE KOONING, 1963 )
potencialmente perigosa, podendo, conforme o caso, tornar a pessoa vítima de alguma coisa, algo injusto, mas de caráter inexorável, muitas vezes. Na casa em que está, indica possibilidade de abuso, de algum ataque, de alguma violência. Segundo a tradição mitológica, Zosma foi o ponto do corpo do Leão de Nemeia atacado por Hércules. O mapa do presidente americano John F. Kennedy é um bom exemplo para o estudo de Zosma.  

Uma curiosidade que se liga à constelação do Leão é uma chuva de meteoros, denominados Leônidas, que ocorre a cada ano, entre 9 e 17 de novembro, proveniente da região da cabeça da figura. Tal fenômeno se verifica de modo particularmente espetacular a cada 33 anos, tendo ocorrido o último no ano de 1.999. Há notícias dos Leônidas desde a antiguidade. 


LEÔNIDAS


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

LEPUS, LUPUS





LEPUS, A Lebre, é o nome de um conjunto de estrelas de baixa magnitude, mal percebido, que foi interpretado de diversos modos, nele sendo vistas formas muito diferentes, conforme as denominações recebidas. Na Itália, na chamada Magna Grécia, Sicília inclusive, em tempos muito remotos, devido a uma verdadeira praga de pequenos animais do gênero lepus, que lá proliferaram descontroladamente, produzindo grande devastação nas plantações, deu-se o nome de Leporis a esse conjunto de estrelas situado perto das constelações de Orion e do Cão Maior. Dizia-se mais que os coelhos tinham ido para os céus para ficar perto de Orion, grande caçador. Levipes, Velox, Auritus eram, dentre outros, adjetivos que os latinos daqueles tempos usaram para designar tal constelação.

Os árabes viram nesta constelação, principalmente devido a quatro de suas estrelas mais próximas da Via Láctea, camelos sedentos. Deram-lhe, por isso, o nome de Al Nihal, que pode ser traduzido, mais ou menos, como Os ondulantes e sedentos camelos. Para os
SANTO   AGOSTINHO
( PHILLIPE  DE  CHAMPAGNE )
árabes, o camelo é símbolo da sobriedade, da moderação, da paciência, da rapidez e da adaptação, por isso a sua adoção, principalmente, pelos beduínos. É por estas e outras razões, por exemplo, que o norte-africano Santo Agostinho usou o animal para simbolizar a humildade do cristão que suportava as adversidades da vida sem se queixar. Todavia, devido à sua atitude altaneira, tornou-se também o camelo em algumas tradições carólicas símbolo da pretensão, da arrogância e do orgulho.

GRAVURA  DE  PHILLIP  GALL
Muito usado pelos árabes, o camelo, seja o dromedário (uma corcova) ou o bactriano (duas corcovas), era considerado, entre os judeus, como está no Levítico, um animal impuro. Sua carne e seu leite não são kosher. Muito usado pelos árabes, Maomé o admitiu em seu paraíso. Em muitas regiões do mundo árabe, diz-se que, antes dos homens, o camelo é capaz de perceber o aparecimento das Plêiades nos céus, estirando-se na direção delas, voltando-se para esse asterismo que indica sempre um caminho livre de perigos. A Idade Média cristã fará do animal um símbolo do discernimento (discretio), por recusar o transporte de cargas que sabe não poder suportar. Por sua facilidade em se ajoelhar, o camelo será ainda considerado um símbolo da obediência.   


DROMEDÁRIOS
Qualquer que seja a sua valorização simbólica, o camelo é, antes de tudo, um animal que ajuda na travessia dos desertos; graças a ele é possível chegar a um centro, a um oásis, a um paraíso. Sem ele, impossível Neste sentido, ele é o companheiro fiel do homem na sua caminhada, capaz de levá-lo sempre a lugares seguros. As ressonâncias astrológicas ficam aqui evidentes se atentarmos para o fato de a constelação Al Nihal sensibilizar uma região celeste zodiacal entre Gêmeos e Câncer, fazendo, portanto, a ligação entre a terceira e a quarta casas astrológicas.

A mesma ideia de travessia está presente na leitura que os egípcios fizeram de Lepus, vendo-a como um barco. Eles valorizam este agrupamento de estrelas como o barco de Osíris, divindade
BARCO   DE   OSIRIS
sempre associado à constelação de Orion. No Egito, como sabemos, as divindades tinham embarcações através das quais se deslocavam de uma cidade para outra, ao longo do rio Nilo, como deuses-visitantes, em concorridas procissões. Osíris foi inicialmente uma divindade da vegetação, ou melhor, do poder da sua imperecível energia. Depois, passou a ser identificado como o Sol no seu duplo aspecto, diurno e noturno, representando a continuidade dos nascimentos e dos renascimentos. Neste papel, se confunde Osíris com a atividade vital universal, terrestre ou celeste. A barca de Osíris era a barca que o Sol tomava para fazer a sua viagem noturna, quando ao findar o dia mergulhava no oceano. 

Entre os hindus, desde os tempos védicos, esta constelação sempre teve relação com a Lua, chamada de Sasi ou Sasin, quando cheia, e nela aparecem  manchas com a forma de uma lebre. No Budismo, segundo uma lenda, a lebre é um símbolo da compaixão. Consta que uma lebre, ao presenciar as mortificações a que se submetia Sidarta Gautama para obter a iluminação, atirou-se, cheia de compaixão, ao fogo, para alimentá-lo com a sua carne. Esta versão está também descrita no mundo védico, na história do coelho da compaixão que não tendo outro alimento para dar a um mendigo, na realidade o deus Indra, atirou-se ao fogo para que ele se alimentasse da sua carne. 

Entre os antigos chineses e astecas, a mesma leitura, ligando a lebre e a Lua. A lebre é um animal lunar porque dorme durante o dia e perambula à noite; porque sabe aparecer e desaparecer
LAPIN   LUNAIRE
silenciosamente; porque é tão prolífico que passou a simbolizar a fertilidade; e porque é extremamente rápido ao se deslocar, como a Lua, que percorre as doze constelações do zodíaco em menos de um mês. Na Idade Média, segundo as lendas populares e o folclore, afirmava-se que a lebre se mantinha alerta o tempo todo, jamais fechando os olhos, sendo por isso considerada como causadora de insônia. 

Na Mitologia grega, a lebre era um dos animais preferidos de

Afrodite enquanto símbolo da fertilidade. Segundo Plínio, o grande naturalista romano, séc. I dC, a carne de lebre tornava fecundas as mulheres estéreis e os testículos dos machos, consumidos, favoreciam a concepção. O mago Apolônio de Tiana (séc. I dC) recomendava que para facilitar os partos alguém da família levasse uma lebre ao colo e com ela desse três voltas em torno do leito da parturiente. 

Uma das versões gregas sobre a origem de Lepus prende-se a uma história que se contava na ilha de Leros, uma das Sporades (As Dispersas), arquipélago  do mar Egeu. Diz a lenda que um jovem habitante da ilha sempre desejara ter uma criação desses pequenos animais, inexistentes nas ilhas. Um dia, indo ao continente, conseguiu um casal e o trouxe para a sua ilha. Com o tempo, os coelhos proliferaram de tal maneira que acabaram devorando as colheitas. Os habitantes da ilha, em decisão unânime, resolveram dar fim aos animais, livrando a ilha dessa verdadeira praga. Para que a história se perpetuasse exemplarmente na memórias de todos, os habitantes da ilha deram o nome de Lagos (lebre) ao conjunto de estrelas que ficava perto de Orion e do Cão Maior.

Tudo que lembra exuberância, multiplicidade, desperdício, desmedida, luxúria, desvio da normalidade. incontinência tem relação com a lebre enquanto ela toma, como símbolo, a via da esquerda. É a partir deste enfoque que pode ser estabelecida, para fins mito-astrológicos, uma relação entre a lebre e o complexo
MERCÚRIO
( G.B.TIEPOLO , 1696 - 1770 ) 
Hermes-Mercúrio. Em muitas tradições, tanto europeias como nas de muitas tribos indígenas do norte das Américas, a lebre representa alguns de seus heróis culturais. A explicação para este fato está na grande capacidade que ela demonstra para escapar de situações perigosas e de animais bem maiores que a atacam. Extremamente hábil, veloz e inteligente, a lebre encarna nessas tradições aquilo que os ingleses chamam de trickster, tricheur, em francês, isto é, aquele que por meio de vários artifícios,
JUNG
fraudulentos ou não, por esperteza, por estratagemas, por subterfúgios, criando ilusões, apresentando o falso como o verdadeiro, consegue não só levar vantagens como se safar sempre. Jung nos diz que o trickster é um personagem no qual os apetites físicos dominam sua conduta, sendo ele no geral, cínico, cruel e insensível.

Por ser um símbolo da fertilidade, a lebre sempre foi muito relacionada com a mulher. Na antiga China e em outras tradições encontramos antigas crenças sobre fendas lábio-palatinas: se uma mulher grávida recebesse diretamente sobre o seu ventre raios lunares seu filho nasceria com o “lábio de lebre”, leporino. As forças da abundância e da multiplicidade que a lebre representava nas antigas culturas eram, de um modo geral, sempre perigosas na medida em que iam no sentido contrário da união e da organização.
LEVÍTICO
Estas forças foram aos poucos sendo controladas e contidas na história dos povos. É por esta razão que os judeus (Levítico e Deuteronômio), quando se constituíram como nação, proibiram o consumo da carne da lebre, um animal impuro para eles. Este mesmo raciocínio pode ser trazido para a vida do ser humano. Se na infância (vida animista) as forças lunares (a lebre) são úteis, protetoras, a partir da puberdade tais forças devem ser contidas e canalizadas adequadamente, pois do contrário jamais será atingida a “idade da razão” (5ª casa), a criação de um ego autônomo. 

No mundo cristão, a lebre, por apresentar uma grande disposição para o acasalamento, tornou-se um símbolo da luxúria. Foi por esta razão que em muitas imagens medievais encontramos a lebre deitada sob os pés da Virgem Maria para se sinalizar o controle da "tentação da carne". Esta associação da lebre não só com  a luxúria, mas também com relação à fertilidade das mulheres, e, por extensão, aos ciclos menstruais, pode ser encontrada em tradições
FERTILIDADE
como a africana, a  ameríndia, a celta, a teutônica, a escandinava e muitas outras. Antigas associações da lebre com a fertilidade e a regeneração subjazem, por exemplo, no simbolismo do coelho da Páscoa. Devido à sua prolífica procriação, os coelhos e lebres eram usados na magia simpática, como vimos, nos partos e para cura de esterilidade. Uma pata da ágil lebre, nessa magia, também é sempre boa para gota ou reumatismo. 

Os povos anglo-saxões e do centro da Europa associavam os
EOSTRE   
conceitos de fertilidade e de regeneração à deusa Eostre ou Ostara, celebrando-se seu culto na primavera, dele fazendo parte simbolicamente coelhos e ovos coloridos. É desse culto que provém a palavra inglesa easter para dar nome ao ovo de Páscoa, easter egg. Estas celebrações, como se sabe, foram absorvidas pela tradição católica, que delas afastou a tutela de Eostre, palavra que lembra Sol nascente. Mantemos, hoje, nas nossas festas de Páscoa, totalmente comercializadas,
OVOS   DE   PÁSCOA   RUSSOS
ignorando o que coelhos e os ovos significavam naquele desaparecido mundo. Certamente, quem perdeu com essa absorção fomos nós. A bela Eostre era a deusa do equinócio da primavera e, como tal, da fertilidade. da luz, da juventude e dos cíclicos da natureza que sempre se renovavam. 

   
Positivamente, a lebre deve iluminar a “gente da Lua” na Terra,  os cancerianos pelo Sol ou pelo ascendente e os que têm a Lua em posição de destaque nos seus mapas astrais. Ao lado do carneiro (signo de Áries), essencialmente propícia, a lebre preside também o despertar da natureza, razão pela qual na Páscoa ela trazia o ovo da primavera que, ao despontar, prometia o alimento novo depois das agruras hibernais terem exigido  do homem a busca do seu sustento numa terra ingrata. 



A constelação de Lepus estende-se de 4º de Gêmeos a 3º de Câncer. Segundo Ptolomeu, sua influência é de natureza saturnina e mercuriana, proporcionando presença de espírito, timidez, rebeldia e fecundidade. A tradição astrológica não dá importâncias às estrelas de Lepus. Duas delas têm apenas registro: Arneb e Nihal. 

O que se pode constatar, contudo, para fins astrológicos, é que Lepus cobre praticamente todo o signo de Gêmeos, um signo
ILUMINURA   MEDIEVAL
tradicionalmente ligado à multiplicidade, à dispersão, à inconstância, à curiosidade, à ambivalência, à vigilância (para os egípcios, as lebres  dormiam de olhos abertos), características muito ligadas ao animal como símbolo. Em muitas histórias, por essa razão, como se expôs, ela aparece como sinônimo da esperteza, da trapaça, da finta (ação que visa enganar ou ludibriar) e também, às vezes, da timidez e da covardia. Lembremos que em muitas tradições, a covardia estava ligada a um exagerado consumo da carne do animal.

DAME  À  LA  LICORNE
( TAPEÇARIA  MEDIEVAL )
Além do mais, a lebre sempre apareceu, principalmente entre os romanos, associada à lascívia e à  imoralidade, pois ela mantém relações sexuais abertamente, escandalosamente. Neste sentido é que já na antiga Grécia a lebre era um animal sagrado associados a divindades que lembram fertilidade, como, além de Afrodite, Hécate, e, sobretudo,o deus Eros, o Cupido dos romanos.

Em latim, coelho é cuniculus, palavra que significa também cavidade profunda, canal, mina (órgão sexual feminino). Esta palavra tem dentro dela cunnus, vulva, partes pudendas da mulher, cona, em português. É neste contexto que entra o deus Eros, cunhando-se a palavra cunilíngua, o ato de buscar ou dar prazer sexual com a boca e a língua na vulva da mulher. Lembremos que a língua, além de sugerir eloquência e persuasão, associa-se ao elemento fogo (chama, flama) pela sua forma e mobilidade, lembrando a atividade fálica, além de sugerir também, como elemento imprescindível para a articulação de sons, que pode se tornar uma arma poderosa, destruidora (língua viperina).


JOIA   COM   LEBRE    E   LUA  
Ao cobrir a constelação da Lebre praticamente todo o signo de Gêmeos, como se viu, serão trazidas para a área (casa ou casas) do tema astrológico que se considerar, muito mais do que saturninas e mercurianas, me parece, influências de natureza mercurianas e lunares. Não nos esqueçamos que a lebre e a Lua se identificam em muitas culturas, sendo mesmo o animal considerado uma cratofania lunar. Desde a noite dos tempos, a imaginação humana povoa a Lua. Vi na Lua três coelhinhos... é uma canção infantil cantada na França. Há uma série de lendas em todos os países que mostram a Lua habitada por coelhos ou lebres. 

Uma dessas lendas nos conta que a Lua encarregou um piolho de anunciar aos homens que eles teriam um destino semelhante ao seu e que morreriam para reviver. Pelo caminho, o piolho encontrou uma lebre que declarou ser mais veloz e que levaria mais depressa a mensagem aos homens. Mas, segundo a lenda, as lebres perdem a memória quando correm e ela então se enganou: disse então aos homens, simplesmente, que, como a Lua, eles minguariam e morreriam. A Lua ficou muito contrariada com a deturpação de sua mensagem. Brandiu um pedaço de pau e atingiu a lebre no lábio. Desde então, o lábio da lebre é fendido.


Qualquer que seja a tradição e o enfoque, o que fica é que todas as tradições, sem exceção, sempre reconheceram a lebre nas manchas da Lua. Ela age nela como força prolífica. Por isso, a lebre figura como antepassado original de muitas dinastias asiáticas. Aparece como a intermediária entre a progenitura humana e a sequência posterior. Simbolicamente, ela assinala a eficácia da herança na educação e no ensinamento iniciático. Daí, a grande importância do encadeamento que a lebre representa em processos iniciáticos no oriente, na medida em que lembra, pelo seu movimento, uma incessante continuidade, sempre necessária a uma transmissão ininterrupta dos conhecimentos passados.  





LUPUS – Esta constelação forma, como se viu, com Ara e Centaurus um conjunto, que, dessa forma, deve ser considerado. É o Centauro que leva o Lobo ao Altar para o sacrifício. Os antigos (Aratus) chamavam esta constelação de A Besta ou, simplesmente, O Animal Selvagem. 


O   CHAPEUZINHO   VERMELHO
( GUSTAVE   DORÉ )
O simbolismo do lobo, como ocorre normalmente com muitos símbolos, é ambíguo, inconsistente, mutável. Por vezes, o animal aparece associado à crueldade, à astúcia, à ganância; noutras ocasiões representa a divindade, a coragem, o zelo alimentador. Nas sociedades pastorícias do Médio Oriente, bem como nas regiões densamente arborizadas e povoadas da Europa, o lobo é uma criatura predadora célebre. Em várias tradições folclóricas, o lobo mau é um símbolo voraz e sexualmente ativo. As histórias de bruxas que se transformam em lobas e de homens em lobisomens nos falam do medo da possessão demoníaca, da violência masculina e do sadismo. 

Perigoso para os humanos e para os animais, de impossível domesticação, ele é considerado um dos grandes “inimigos” do homem, na medida em que passou a simbolizar as forças da vida instintiva que se apõem à vida racional. Como já vimos, o lobo faz parte de uma galeria de animais que se caracteriza pela sua voracidade, neles se destacando, pela desproporção com relação ao corpo, a sua bocarra e a sua goela. 

ROMULUS   E   REMUS  ( PETER  PAUL  RUBENS , 1615 )

Antes de inspirar o terror e de se tornar demoníaco na Idade Média, o lobo, temido por sua selvageria, mas admirado por sua força e por sua astúcia, desempenhou um papel importante em muitas passagens mitológicas. Os antigos romanos o consagraram ao deus Marte, deus da guerra, tornando-o um dos emblemas de suas legiões. Foi uma loba que alimentou os gêmeos Rômulo e Remo, fundadores míticos da cidade eterna. 


VISTA  GERAL  DE  WALHALLA
( E.E. MORRIS , 1889 )
Na antiga Germania, onde os guerreiros se alimentavam de carne de lobo para adquirir as suas qualidades (força, rapidez, obstinação), o animal foi igualmente um atributo de deuses guerreiros, de Odin especialmente. Um dos frontões do Walhalla, o palácio dos deuses, lugar de retiro dos guerreiros mortos depois das batalhas, tinha a guarnecê-lo uma enorme cabeça de lobo. Segundo a mitologia escandinava, ao final dos tempos será travada uma grande batalha entre os deuses e os monstros demoníacos, dentre os quais vários
FENRIR   APUNHALADO
( COLLINGWOOD, 1908 )
lobos, que se lançarão contra o Sol e a Lua para devorá-los. Esses lobos nasceram da união de uma feiticeira com grande lobo Fenrir. Este último, aprisionado pelos deuses, que lhe atravessarão a garganta com uma espada, conseguirá no final dos tempos se libertar, para dar início à batalha que provocará a destruição final do universo (Ragnarok). A libertação de Fenrir será anunciada por tremores de terra; da sua bocarra sairão enormes labaredas. Ele engolirá então o deus Odin e o seu cavalo maravilhoso, Sleipnir, mas será morto pelo deus Vidar, o Silencioso, que esmagará as suas mandíbulas. Ao final, deuses e monstros, todos perecerão numa catástrofe total para que para que o universo se renove. 

UPUAUT
Pelo fato de ter um olhar que atravessa as trevas e porque se põe a caçar antes do Sol nascer, o lobo foi levado pelos egípcios para os seus cultos solares com o nome de Upuaut, divinizado. Os gregos o ligaram a Apolo, deus solar, chamando o deus de Licógenes (nascido da loba), porque sua mãe, Leto, se transformou em loba para fugir do furor erótico de Zeus.  


GRAVURA  SÉC. XVIII
Na Idade Média, no ocidente cristão, o lobo, feroz, indomável, carnívoro, propagador da raiva, e que redobrava a sua atividade quando das pestes que dizimavam as comunidades ou quando de invernos muito rigorosos e de guerras, transformava-se num dos piores inimigos do homem e dos outros animais, especialmente do cordeiro, símbolo de Cristo. Era o animal mais temido, fato que levou os demonólogos a considerá-lo como sinônimo de selvageria e de crueldade. 

A loba, desde Roma, passou a representar a depravação, a impudicícia e também a fecundidade promíscua. Daí, por exemplo, o nome de lupanar dado a prostíbulos, desde a antiguidade. Este aspecto toma uma feição infernal, diabólica, razão pela qual o Diabo, dentre as formas animais que toma para participar do Sabat, prefere a do lobo para presidir a cerimônia. As encruzilhadas são os lugares particularmente preferidos para o Diabo aparecer na sua forma lupina. Famosa na França por isso a encruzilhada que tem o nome de Marlou (Marelou, Mauvaise Loup). 


Mesmo que não seja o próprio Diabo, o lobo de qualquer modo sempre foi considerado como um dos grandes representantes do Mal. Um famoso texto medieval, Roman de Renart (sécs. XI e XIII), traduzindo um entendimento cristão muito arraigado de ódio à mulher, a quem se atribui a expulsão do Paraíso, fará do animal uma criatura de  Eva, enquanto os animais úteis e pacíficos serão tidos como criaturas de Adão.

LOBO   DEVORADOR
( MICHEL  MAIER , 1618 )
O simbolismo do lobo aparece desde à pré-história ligado a um aspecto devorador, que se explica pelas suas desproporcionais bocarra e goela com relação ao corpo. Por isso, o animal, como outros que têm as mesmas características, como já salientamos (crocodilo, baleia, hipopótamo, jaguar etc.), constituem  uma analogia viva ao lembrar o fenômeno da alternância dos dias e das noites, da vida e da morte (o Sol sempre devorado pela noite e o seu reaparecimento matinal). Por essa mesma razão, ritos iniciáticos usam a imagem do animal para representar processos de renascimento. Entrar no ventre dessas criaturas é morrer, sair dele é renascer.

PARACELSO ,  OPERA   OMNIA
Na Alquimia, lembremos, o lobo é o antimônio, chamado de lupus metallorum, que devora o ouro para depois “resgatá-lo”, isto é, para purificá-lo. O antimônio, conhecido também pelo nome de “lobo cinzento”, era na Grande Obra considerado um metal-solar, pois “limpava a alma da escuridão horrível e acendia uma luz para a verdadeira compreensão”. Desde Paracelso, sabe-se que o espírito opera muito bem alinhado nas pessoas-antimônio, sendo o metal usado para exemplificar a máxima mens sana in corpore sano. O alquimista Fulcanelli o chamava de o “metal dos sábios”.


CAMINHO  TRIUNFAL  DO  ANTIMÔNIO
( BASÍLIO  VALENTIM  ,  1642 )
Na arte alquímica de laboratório, ele representava a última etapa da transformação do chumbo em ouro, isto é, a passagem do inferior ao superior. Na medicina, na dose certa, pode trazer o impulso necessário para a conquista do eu superior; na dose errada, fracasso irremediável, total. Já na antiguidade, o antimônio era usado para o restabelecimento da cooperação entre o corpo e a mente. A palavra antimônio vem do grego, anti, contra, e monos, só, único. Lembremos que monge vem também de monos, monakhos solitário, isolado, único. 

O antimônio atrai harmoniosamente todas as energias cósmicas e as une de modo a fazer com que as pessoas que recebem o metal nas
ANTIMÔNIO ( SÉC. XVII )
doses adequadas saibam dar e receber de modo equilibrado. Os antigos egípcios, sumérios e gregos usavam o antimônio para fazer taças para beber e para preparar cosméticos para os olhos. Como remédio era ainda usado para os males da garganta, dos órgãos genitais e dos olhos em geral (três áreas em que Vênus, astrologicamente, tem grande influência), assim como para a melancolia. Por sua ação anti-saturnina, era especialmente indicado para as pessoas que têm dificuldades com relacionamentos (tristes, taciturnos, macambúzios, solitários, esquizofrênicos). 

Os árabes chamavam Lupus de Al Fahd (Animal), que tanto podia significar leopardo ou pantera. Já os gregos o designavam genericamente pelo nome de Therion (Animal), sem precisar seu tipo, enquanto os latinos o faziam pelos nomes de Bestia Centauri
ZEUS  TRANSFORMA  LICAON    EM  LOBO
( HENDRICK   GOLTIZIUS )
ou Victima Centauri. Uma versão grega, por outro lado, nos diz que Lupus tem relação com o mito de Licaon. Este personagem era filho de Pelasgo, um dos primeiros habitantes e rei da Arcádia, e de uma oceânida. Tanto o pai como o filho, segundo a história, eram ímpios consumados. Diz-se que o próprio Zeus, certa vez, resolveu tirar a limpo essa questão. Disfarçou-se de camponês e se apresentou no palácio de Pelasgo e de seus filhos pedindo hospitalidade. Pelasgo o acolheu, mas desejando se certificar da identidade do peregrino, ofereceu-lhe um banquete, nele servindo como iguaria as carnes de um de seus filhos (Nictimo), que matara. Enraivecido, Zeus derrubou a mesa, as iguarias e fulminou o rei. Nictimo foi salvo pela intervenção da Mãe Geia e Licaon foi transformado em lobo. Esta história serve de fundamento para um costume dos povos da Arcádia, o de se sacrificar vítimas humanas a Zeus Lício (Lobo), sendo delas retiradas as entranhas que eram consumidas pelos sacrificantes. O caso de Licaon teria sido, assim, levado para os céus para dar nome ao conjunto de estrelas que fica ao sul de Escorpião e ao fim da Hydra.

SIGISMUNDO (PISANELLO)
Objeto do folclore e modernamente do cinema fantástico, o tema da licantropia, transformação do ser humano em lobo (lobisomem) se propagou. Em todas as tradições esse tema é encontrado. Durante a Idade Média, a existência do lobisomem era indiscutível. O imperador germânico Sigismundo, no século XV, reuniu autoridades sobre a matéria para discutir a licantropia; a conclusão dos debates foi a de que ela deveria ser admitida. A transformação do homem em lobo poderia ser obtida por feiticeiros através do Diabo ou por eles mesmos, graças a um unguento mágico que passavam sobre o corpo. Outros homens se transformavam em lobo devido a um castigo divino. A transformação, qualquer que fosse a sua origem, acontecia sempre nas noites de Lua cheia. Os lobisomens erravam pelos campos e vilas, iam a cemitérios, uivavam. Pela madrugada, antes do Sol nascer, retomavam a forma humana. 


LICANTROPIA   NA  LITERATURA  INFANTIL
A licantropia está atestada desde a pré-história. Na antiguidade greco-latina, vemos o tema aparecer, por exemplo, na história de Mormólice (mormo, murmurar, sussurrar, e lyke, uma espécie de demônio feminino na forma de loba), um gênio infernal que assustava as crianças em histórias infantis. No mito grego, era a ama do rio infernal Aqueronte. Entre os etruscos, as divindades da morte tinham orelhas de lobo. Lembremos que entre os egípcios Osíris, ao ressuscitar, veio sob a forma de um lobo, para ajudar sua irmã e mulher Ísis vencer o demônio Seth, também seu irmão. Entre os gregos, como está acima, o tema da licantropia tem relação com a história de Licaon. Uma das formas adotadas por Zeus era a lupina (Zeus Lykaios), a ele se imolando, em sacrifício, seres humanos, nos tempos em que reinava a magia agrícola, com a finalidade de se pôr fim às secas e a outros fenômenos naturais que assolavam os campos. 

NICOLAS   MALEBRANCHE
Foi no século XVII, sob o reinado de Luis XIV, que a licantropia começou a ser questionada. Malebranche escreveu em 1.674: O mais estranho efeito da imaginação é a descontrolada crença  na aparição de espíritos, de sortilégios, de lobisomens e tudo o mais que se acredite depender de um poder demoníaco. (Do texto Em Busca da Verdade). No século XIX, os médicos consideravam a licantropia como uma doença mental. Admitia-se e se admite até hoje que o lobisomem  era um doente, um criminoso sádico, de classe social inferior, que muitas vezes matava para alimentar a si mesmo e à sua família. Há uma doença mental que tem em língua francesa o nome de lypomanie que leva os que a têm a se sentirem como lobos ou cães (cynanthropie): os que se acreditam transformados em bois são vítimas da bousanthropie. Os produtos (unguentos) que certas criaturas usavam para se transformar em lobos, descobriu-se mais tarde, eram poderosos alucinógenos que as induziam às visões de todas as suas aventuras noturnas.

Por analogia etimológica, a palavra lobo (lykos) identifica-se com a luz da alvorada (lyke), entre os gregos, a claridade que precede a iluminação.  Daí a tradição segundo a qual Apolo regressava a cada ano do seu retiro hiperbóreo, lugar da eterna primavera, situado para além da geada, portador da luz regeneradora. A área em redor do templo ateniense de Apolo chamava-se lykaion (pele de lobo). O
APOLO
Apolo gaulês chamava-se Belen, de bleiz (lobo) e de loqui (palavra latina “falar”, enquanto  dom da eloquência emana de Apolo). A palavra ciciar (bleser) assinala o jogo cambiante entre a claridade e a obscuridade da elocução. Por isso, o deus Apolo era chamado de “oblíquo”, devido à ambiguidade dos seus oráculos. O sentido trágico da luz, a aptidão para romper as trevas, é o dom da perspicácia atribuído ao lobo.

LUPUS
Lupus estende-se de 15ª de Escorpião a 7º de Sagitário. Ptolomeu viu influências saturninas e marcianas (estas parcialmente) em Lupus: comportamento agressivo, traiçoeiro, prudente, desejo de conhecimentos, atitudes apaixonadas. Não há estudos sobre as estrelas desta constelação. Os únicos registros que temos sobre elas nos vêm da China. A mais importante chama-se Yang Mun (Men, no ocidente); a segunda em importância é Ke Kwan.


CHAPEUZINHO  VERMELHO
( PAUL  MENERHEIM )
Temas folclóricos como o do Chapeuzinho Vermelho e do lobisomem como temos estes últimos em Portugal e no Brasil poderão ser estudados para nos ajudar a ampliar a abordagem astrológica. Um dos aspectos mais perigosos posto em evidências por lendas e contos é o do sedutor masculino, o tentador hipócrita, inescrupuloso. Neste aspecto, ele é uma imagem da libido descontrolada, da qual faz parte a avidez oral. Como a serpente e o urso, o lobo simboliza a sombra, o inconsciente da personalidade do homem, do qual podem emergir perigosas energias.

Dentre mapas úteis para o estudo de Lupus, sugerimos o de

J.B. AURIVILLY 
Friedrich Nietzsche, lembrando que o filósofo alemão é um dos grandes estudiosos da besta que há no ser humano (O homem é uma ponte entre a besta e o super-homem). Na literatura, por exemplo, outro tema muito significativo é o do escritor francês Jules Barbey d´Aurevilly, editado no Brasil (As Diabólicas). Quanto a filmes,  se formos ao tema da licantropia, encontramos bom material nos mapas dos atores que neles atuaram.