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domingo, 24 de dezembro de 2017

ESCORPIÃO (6)

                                          
CANAAN
As tribos mesopotâmicas que se instalaram a leste da península do Sinai, deram o nome de Canaan (etimologicamente, país baixo), também chamada de Terra Prometida, à região compreendida entre a atual Síria e a Palestina.  Canaan era o nome de um filho de Cham, o segundo dos três filhos de Noé. Para ali se fixarem, precisaram essas tribos criar um regime político forte a fim  manter entre elas uma necessária união interna a fim de enfrentar não só a hostilidade das tribos locais às quais haviam se imposto como, externamente, fazer frente à ação de invasores.


ABRAÃO  ,  ISAAC  E  JACÓ
Ao primeiro período da história dessas tribos reunidas como nação, deu-se o nome de “período dos patriarcas”, que teve como nomes inaugurais Abraão, Isaac e Jacob. Este último, o terceiro dos patriarcas,  a quem o próprio Deus deu o nome de Israel (etimologicamente, combatente de Deus), foi o pai dos fundadores das doze tribos que constituiriam Israel como nação.  As doze tribos eram subdivididas em famílias, clãs e unidades menores, cada uma delas tendo por chefe um patriarca, que detinha o poder absoluto sobre  os seus filhos, descendentes e as propriedades. 

Foi a organização tribal e, principalmente, a percepção que Jacob teve de Deus que permitiu as essas tribos se tornarem uma nação forte e poderosa, tudo consolidado por uma singularidade religiosa única ao tempo. Esta singularidade  única, se a relacionamos com a concepção religiosa dos vizinhos, tinha por base o monoteísmo, a crença num só Deus, conforme a Bíblia estabeleceu. Esta crença entendia Deus como uma entidade suprema, infinita e perfeita, autogerada, eterna, onisciente e onipotente. Este Deus, apesar de profundamente justo e bom, podia, entretanto, mostrar-se ameaçador e vingativo, atuando como a grande divindade dos exércitos. O objetivo era o de transformar aquele aglomerado de tribos tanto numa poderosa nação como em algo bem maior, transformá-la numa congregação, numa “assembleia permanente do Senhor”. 


ANJO , ABRAÃO  E  SARA ( JAN  PROVOOST , 1465 - 1529 )


No plano político interno, isto significava acabar com as divindades tribais e com cultos regionais, sempre fatores de divisão e de enfraquecimento. Foi com base numa experiência monoteísta egípcia patrocinada pelo faraó Akhenaton (cerca de 1370 aC), que os primeiros patriarcas judeus montaram o seu projeto religioso. Os historiadores que tomam o texto bíblico por base de suas afirmações nos dizem que Abraão com a sua tribo, emigrado de Ur, na Mesopotâmia, com a sua mulher Sara, por volta de 2.000 aC, deve ser considerado como o primeiro dos patriarcas e verdadeiro fundador do monoteísmo dos hebreus. 

As “casas do povo”, muito semelhantes às chamadas “casas de vida” dos egípcios, foram se instalando pelos judeus como lugares de reunião, logo se transformando elas em “casas de assembleia”, isto é, sinagogas, com a finalidade de educar o povo no temor de
MOISÉS RECEBE A TORÁ
(REMBRANDT, 1606-1666)
Deus. Nessas “casas”, a Torá (a lei e a tradição), recebida por Moisés diretamente de Deus, era lida e explicada, ao mesmo tempo em que se criava uma literatura de comentários bíblicos, com interpretação de homilias, salmos etc. Ensinar não só o temor de Deus, mas também preservar toda a sabedoria dos ancestrais. Montou-se, enfim, um sistema em que os homens passaram a manter o poder religioso, político e econômico, controlando a propriedade e exercendo funções de autoridade moral em todos os sentidos, inclusive sobre as mulheres e crianças. A esse sistema deu-se, no seu todo, o nome de Judaísmo, que tem por base uma religião na qual Deus fala aos homens través dos seus profetas.


ARCA   DA   ALIANÇA
( CATEDRAL DE AUCH, FRANÇA )
A esse sistema, sob um outro viés, psicológico, se quisermos, se deu o nome de poder masculino, dele fazendo parte símbolos que o enaltecem como tal. O símbolo maior da relação de Deus com o povo de Israel era a Arca da Aliança, destruída, juntamente com o templo de Jerusalém, onde se encontrava, em 587 aC quando da invasão  comandada por Nabucodonosor. Da Bíblia, fazem parte do seu universo simbólico, para a melhor compreensão da Torá, não só objetos e imagens como textos, sonhos, milagres e outras manifestações enviadas por Deus, símbolos sempre recebidos por profetas e patriarcas.  

Nesse universo simbólico, que tem a finalidade de confirmar a aliança estabelecida entre o povo de Israel e Deus, introduziram-se  símbolos que rebaixaram ou satanizaram o mundo feminino. Na nova ordem, como está no Antigo Testamento (Gênese), a mulher, por determinação de Deus, teve que se submeter totalmente ao homem, tornando-se, ao casar,  propriedade de seu marido, só podendo herdar se não houvesse filhos. Casada, os seus direitos jurídicos, bem como suas possibilidades quanto a atividades religiosas, sociais e culturais, foram bastante limitados. O papel essencial da mulher, desde então, foi o de gerar filhos machos para garantir a continuidade da família. Apesar deste cenário negativo para a mulher, há que se lembrar que algumas delas, como Judite e Esther, por exemplo, desempenharam papéis muito diferentes, como grandes sedutoras (veja neste blog Os (Des)Caminhos da Sedução.  

CATEDRAL  DE  NOTRE  DAME
PARIS
Por ter dado ouvidos à serpente e induzido Adão a comer dos frutos da árvore do conhecimento, Eva, a mulher, e a serpente tornaram-se indissociáveis no mundo judaico-cristão desde que as religiões patriarcais se impuseram . A serpente se transformou num animal ctônico por excelência. Como está no Gênese (3.14) foi condenada a rastejar na poeira por ordem de Deus. 

Nada a estranhar que em todas as tradições e culturas, os seus diferentes aspectos,  seja como kundalini, midgard, boiúna, áspide, boitatá basilisco, angícia, équidna ou leviatã sejam sempre utilizados para representar diferentes estados da consciência do ser humano. É neste sentido também que a serpente passou simbolicamente a ser uma ilustração do universo sensível e manifesto, o ilusório mundo material, o mundo de maya dos hindus.

Foi a tradição judaica, mais do que qualquer outra, talvez, na antiguidade, a que mais tenha se aproximado da relação simbólica entre o feminino, a serpente e a vida inconsciente. A começar pela palavra que os antigos patriarcas usaram para designar a serpente bíblica, nachash, palavra que provém de um verbo que significa adivinhar, prever, vaticinar, pressagiar. Lembremos que os antigos gregos fizeram algo semelhante ao que aqui se diz: deram, no mito, a um animal construído a partir da serpente e do lagarto, o nome de drakon (dragão), palavra que, em grego, vem do verbo derkomai, que significa olhar terrível, um verbo de ação reflexiva. Em derkomai  a ação é devolvida, se volta para o agente, para o que olha. O dragão nos devolve o olhar: Que queres saber? Ao invés de me olhares, interroga-te. O dragão pede que nos enfrentemos, que olhemos dentro de nós. A ideia aqui é de interiorização, descida. Vida recôndita, profunda, secreta, abismo, queda e, quem sabe, renascimento.


DRAGÃO  ( GUSTAVE  DORÉ , 1832 - 1883 )

O dragão, basicamente, como se sabe, animal fabuloso, possui um corpo de dragão com terminação ofídica, asas de águia e garras de leão. Na Bíblia é animal que representa o mal e as trevas, o caos das origens, sempre atuando no sentido contrário de Deus e dos seres angelicais. No Novo Testamento,  no Apocalipse, segundo João, se revela que o dragão reinará sobre o mundo, mas, no final, será vencido pelo reino de Deus. 

Ao final, com a expulsão do paraíso, feita a avaliação, o que temos é que ao invés de terem baixado a cabeça e obedecido, Adão e Eva optaram, ao comer do fruto proibido, pela angústia, pelo livre-arbítrio. Ouviram a serpente:  Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão e vocês, como Deus, serão conhecedores do bem e do mal, este o final do discurso da serpente ouvido por Eva, que o transmitiu a Adão. Orgulho, desejo de poder? Uma conduta não pensada, irrefletida, que exprimia uma reação espontânea (emotiva, passional, reflexa), não procedente de uma decisão voluntária amadurecida? Ao deixar de obedecer a Deus, Adão e Eva caíram na dualidade. Foram expulsos do paraíso, um lugar idílico onde, segundo a vontade divina, deveriam viver pacificamente, felizes e em harmonia. Nada disto parece ter interessado aos dois.


EXPULSÃO   DO   PARAÍSO  ( MICHELANGELO , 1475 - 1564 )

Cometeram um pecado aos olhos de Deus, isto é, diante do sistema político-religioso institucionalizado, montado pelo patriarcas, que, para se impor, precisava que os que dele participassem não pensassem, mas que tivessem simplesmente fé e aceitassem o dogma, este fundamentado na autoridade religiosa de quem o proclamava. No projeto religioso instituído, profundamente misógino, os antigos patriarcas judeus jamais consideraram Eva  como um complemento de Adão e muito menos como uma iniciadora, uma instrutora, sem a qual ele jamais poderia
HÉRCULES CONQUISTA O CINTURÃO
ter acesso a níveis superiores de consciência. Em várias tradições, esta intermediação da mulher aparece, como se sabe, mas é sempre ignorada ou recusada. Para não me alongar neste particular, basta lembrar, para ficar com o mais conhecido e próximo, que vários mitos gregos nos falam disto. As histórias de Teseu e Ariadne, do sexto trabalho de Hércules (A conquista do cinturão da rainha Hipólita) e do gigante Orion são, dentre outras, exemplares. 

Os patriarcas judeus, orgulhosamente, não só negaram à primeira mulher condições de igualdade, mas, como está no Gênese, no 2º capítulo, a fizeram, como se disse, “nascer” do masculino. Culpada pela perda do paraíso, dele expulsa com Adão, a segunda mulher recebeu o nome de Hawwah, em hebraico, nome que, em antigas línguas semitas, se aproxima muito daquele pelo qual se denominava a serpente. O que também ficou para nós desse episódio é o quão facilmente, na vida psíquica, o feminino se impõe com facilidade ao masculino. 

LILITH  ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 )

O lado feminino ao qual Adão, com o beneplácito de Deus, não deu igualdade se rebelou contra ele e contra o próprio Deus. A Bíblia nada fala do que aconteceu com este lado feminino, de nome desconhecido, a primeira mulher. Sabe-se por textos cabalísticos que este lado feminino, que, segundo alguns, teria inclusive precedido Adão na criação, rebelando-se, tomou o caminho do Mar Vermelho, transformando-se, com o nome de Lilith, na rainha das forças noturnas. Ela foi para o deserto, tornando-se lá a noiva de Samael, o senhor das forças do mal, que os judeus chamam de Sitra Achra. Como um demônio feminino, Lilith transformou-se desde então na própria sedução encarnada. Segundo o mito babilônico, Lilith tem o seu habitat natural no deserto e só encontra a paz nas terras de Edom (etimologicamente, vermelho). 

Lilith, segundo a tradição cabalística, foi criada ao mesmo tempo que Adão, criada a partir da terra, portanto, como ele. O nome Lilith têm relação com prenomes femininos que indicam poder e libertação; Leila, Lélia, Eulália, Eliane, Ella (inglês) e outros são exemplos. Lilith, porém, neste grupo de prenomes, representa o lado demoníaco e rebelde da mulher. Para os judeus, é ela quem diante de Adão proclama que o desejo de conhecer é bom e  é capaz de pronunciar o “nome indizível” de Deus. Eva, como esposa submissa e obediente às leis do casamento e da maternidade, só “nascerá” no segundo capítulo da Bíblia.   

Os judeus designam o pecado pela palavra chet, palavra que lembra desvio, falha de conduta, com relação ao caminho certo, o da Torá. O arrependimento, retorno ao caminho certo, a Deus, é admitido.
TALMUD
Segundo o Talmud, no homem há duas inclinações, uma para o Bem (Deus) e outra para o Mal (Satã-Lilith), tendo ele o poder de escolher entre uma e outra. A esse poder foi dado o nome de livre-arbítrio, a possibilidade de decisão, de escolha, em função da própria vontade humana, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante. Mais: segundo o judaísmo, o homem tem uma índole, uma natureza fraca, que o inclina para o Mal. Misericordioso, Deus permitiu que, tendo optado pelo Mal, vitimado pelos seus condicionamentos, o homem, desde que arrependido, possa voltar ao Bem. O homem, para o judaísmo, nasce em pecado em consequência do pecado original, de Adão e de Eva, que recai sobre toda a humanidade.



SANTO AGOSTINHO
No catolicismo, Santo Agostinho foi pelo mesmo caminho dos judeus, dizendo-nos que pecado é qualquer ato ou desejo contrário a Deus, ou seja, contrário a tudo o que está expresso nos dez mandamentos. Outros antigos padres da Igreja católica sempre insistiram num ponto:qualquer pecado é um abuso de liberdade. Do pecado adâmico participam, desde então, todos os seres humanos devido à sua origem. A expulsão do paraíso definiu desde então a natureza humana, tornando-a ignorante, voltada para o sofrimento, inclinada ao pecado e destinada à morte.

SITRA ACHRA
A doutrina judaica, especialmente o Talmud, defende a ideia de que todo homem é dotado de livre arbítrio, o que o habilita a escolher corretamente o que é do Bem (vida consciente, Adão) e o que é do Mal (vida inconsciente, Eva), isto é, o que é do reino de Deus e o que é do reino de Satã. O reino de Satã, para o judaísmo, é o Sitra Achra (literalmente, o Outro Lado), nome aplicado de um modo geral a todas as forças demoníacas, situadas sempre à esquerda e abaixo, e governadas por Samael e Lilith. São os pecados dos homens que nutrem o SitraAchra, mantendo-o separado do reino de Deus, dividindo a
DERROTA DE SAMAEL
(JOHN MILTON, 1608-1674)
criação. Na Idade do Messias, esta divisão terá fim com a captura do próprio Samael pelo arcanjo Gabriel. Acorrentado, ele será entregue a Israel e expurgado de todas as forças maléficas que o constituem, transformando-se num agente do divino que iluminará a criação como um todo, eliminando-se a divisão entre os dois reinos. Apesar de tudo isto que a doutrina revela, o pecado de Adão e Eva, deixou a sua marca em todas as gerações que a eles se sucederam, segundo a doutrina judaica. 
À desobediência de Adão e Eva dá-se o nome de A Queda do Homem, caracterizada esta como a transição humana de um estado de inocência e de obediência a Deus para um estado de desobediência e de culpa. 

A  QUEDA  DO  HOMEM ( W. BLAKE , 1757 - 1827

Neste sentido Queda do Homem e Pecado Original são equivalentes. O Judaísmo e o Islamismo não aceitam a doutrina do pecado original como os católicos a definiram. Para ambos cada homem deve ser responsável pela sua própria salvação, não havendo necessidade da graça divina para isso. A graça, para os católicos, é obtida pela via sacramental, pela reconciliação (batismo) e pela penitência. 


PELÁGIO DA BRETANHA
No cristianismo, participando de um entendimento contrário,  o monge Pelágio da Bretanha (360-435), depois de intensos debates com Agostinho de Hipona, propôs uma doutrina, chamada de pelagianismo, segundo a qual todo homem é totalmente responsável pela sua salvação, não necessitando da graça divina para tanto. Para Pelágio, todo homem nascia moralmente neutro e seria capaz, por si mesmo, sem qualquer influência divina, de se salvar, desde que assim o desejasse e se empenhasse. Evidentemente, as teses de Pelágio foram rejeitadas pela Igreja católica e ele considerado herege. 

O Talmud (literalmente estudo, em hebraico), a obra mais importante da Torá oral, nos revela que desde a  expulsão de Adão e Eva, as forças satânicas do SitraAchra tomaram o lugar do princípio masculino diante de Deus. Só a Torá, afirmam os judeus, tem condições de livrar Israel do veneno da serpente. Desde então, a mulher e a serpente sempre foram responsabilizadas pelas três grande religiões patriarcais (judaísmo, cristianismo e islamismo) pela perda do paraíso. 

Em muitas outras tradições que não a judaico-cristã, a serpente, positivamente,  aparece ligada à vida, à imortalidade, ao renascimento e, por isso, obviamente,  ao mundo feminino, ao mundo das Grandes Mães. Nas tradições que a honraram, a serpente sempre teve também relação com a sabedoria, com o conhecimento e com a cura. Ela detém, como nenhum outro ser o faz, o conhecimento sobre a vida e a morte, um conhecimento que Eva tentou transmitir a Adão, o poder da vida subconsciente, que ele só alcançaria através do princípio feminino, isto é através dela. É neste sentido que pode ser retomada a etimologia que os antigos patriarcas judeus usaram para designar a serpente e, por extensão, a vida inconsciente, lugar de um conhecimento oculto que determina, em grande parte, a nossa vontade e a nossa economia orgânico-fisiológica. 



A astrologia judaica praticada ao tempo dos primeiros patriarcas já nos falava de uma relação entre o homem, as letras do alfabeto, os signos zodiacais e os meses do ano. Discorria ela sobre dias fastos e nefastos, sobre a influências planetárias negativas (mazal), conforme se pode perceber pelo estudo do Sefer Ietsira (Livro da Criação), que considera o homem um microcosmo. Considerada “ciência suprema” pelos cabalistas, a astrologia, a partir da Idade Média começou a ser repudiada e perseguida pela ortodoxia religiosa judaica. 

Entre os judeus que conhecem a astrologia,  Heshvan é o mês do signo de Escorpião, associado, no corpo humano, ao olfato. A tribo ligada ao signo é a de Manassé, filho mais velho de José e de Asenath, filha de um sacerdote egípcio. Ele é o ancestral da tribo do mesmo nome, instalada a oeste do rio Jordão e ao sul do lago de Genesaré. O acontecimento mais importante no mundo judaico, relacionado com este mês, é o do término da construção do templo de Salomão. O terceiro templo, conforme a Midrash (tradição oral), será construído também neste mês, no qual os judeus vêm o contraste entre a destruição e a queda, de um lado, e a construção e a estabilidade de outro. 

HAVDÁ  ( ZVI  MALNOVITZEN , 1945 )

Através do signo de Heshvan é feita a associação entre alma (neshmah), respiração, sopro, olfato e nariz. Ao fim do Shabat, dia do descanso obrigatório, que vai do anoitecer de sexta-feira ao sábado à noite, é realizada a cerimônia da Havdalá, a distinção consciente entre o que é sagrado e o que é profano. Durante esta cerimônia são usadas especiarias de odor agradável a fim de acentuar o caráter distintivo entre as duas fases que o Shabat caracteriza. É por essa razão que os judeus consideram o olfato como o mais espiritual dos sentidos, diretamente conectado com a intuição, que tem um caráter anímico, não racional. 

O signo de Heshvan, associado ao olfato, também tem ligação com o dilúvio de Noé como se menciona no Gênese, cap. VIII, v.21: E nisto percebeu o olfato do Senhor um suave cheiro, e disse: não amaldiçoarei mais a terra por causa dos homens: porque o sentido e o coração do homem estão inclinados para o mal desde a mocidade. Não tornarei pois a ferir vivente algum como fiz. O sentido do olfato, tão intimamente relacionado com a alma, está revelado pelo nome da tribo que rege o mês, pois neshmah, num arranjo diferente de suas letras, dá o nome heshvan.

O nariz, lembremos, sempre foi considerado um símbolo de perspicácia, de discernimento, muito mais intuitivo que racional, ocupando um lugar essencial no rosto das pessoas em geral e, em especial, dos escorpianos. Pode-se, por exemplo, ter olhos bonitos e ser feio. Já um belo nariz nunca aparecerá associado a um rosto disforme, dizem os fisiognomistas. Para eles, um nariz perfeito testemunha sempre uma certa nobreza de alma.  



O   DILÚVIO  ( MICHELANGELO , 1475 - 1562 )

O elemento deste signo é a água enquanto relacionada com o dilúvio (mabul) dos tempos de Noé, uma catástrofe que se distingue por seu caráter não definitivo, tendo o sentido de regeneração, de germinação. Antigas formas, que perderam sua capacidade de se renovar, gastas, esgotadas, esvaziadas de qualquer sentido transformador, são destruídas para dar lugar a outras. No caso, dar origem a uma outra humanidade, a uma nova época, sem as faltas morais e rituais da anterior. 

O astro que tem influência em Heshvan é o planeta Marte, onde atua com o principal sentido de julgamento severo. A destruição causada pelo dilúvio decorreu astrologicamente da ação de Marte, motivada pelo severo julgamento divino diante do mau uso que a humanidade fez do poder do desejo, enraizado no elemento água. Segundo a astrologia judaica, os nascidos sob influência de Heshvan têm uma extrema sensibilidade emocional, inclinações e tendências que os leva sempre a se fixar poderosamente como desejos, paixões, obsessões etc. Positivamente, uma pessoa com esta disposição pode demonstrar muita capacidade para alcançar valores e maneiras de sentir muito intensos, que, se bem orientados, podem levar a uma compreensão superior dos ensinamentos da Torá.

O mês de Heshvan se completa pelo seu oposto, Iyar, o segundo mês da primavera. Ao longo dos séculos, a história dos judeus conta que é neste mês, principalmente, que, tendo como causa a punição divina, devido a faltas e pecados cometidos, que se registram confiscos e destruição de suas propriedades e seus bens em vários países. Ainda pela astrologia, é possível, como sabemos, explicar toda a dialética presente no relacionamento entre árabes e judeus através do eixo Touro (Israel)-Escorpião(o mundo árabe). Para informações complementares quanto a este relacionamento sugiro a leitura do artigo  Correspondências taurinas (O touro e Israel), neste blog.  

ADÃO, EVA E A SERPENTE
(CORNELIS VAN HAARLEM
1562 - 1638)
Na tradição bíblica judaica, passada para a astrologia, a serpente (nachash) era o rei dos animais; astuciosa, caminhava ereta, tinha duas pernas, falava e se alimentava normalmente como os humanos. Ao ver como os anjos tratavam Adão e Eva, sentiu muita inveja. Este sentimento tomou proporções incontroláveis quando viu Adão e Eva mantendo relações sexuais. Pensou em tomar o lugar de Adão, totalmente obcecado pela ideia de manter relações com Eva. Inspirada por Satã ou Samael, a serpente persuadiu Eva a comer o fruto proibido, seduzindo-a. Foi por isso castigada por Deus, perdeu as pernas, foi condenada a se arrastar, seu alimento perdeu todo o sabor, tornando-se, por isso, a inimiga natural do ser humano, passando desde então a simbolizar o mal. 

Quando a serpente manteve relações sexuais com Eva no Jardim do Éden, sua peçonha, desde então, injetada nela, foi passada para toda a descendência do primeiro casal. A peçonha injetada em Eva provocou uma quebra, uma fissura, entre o humano e o divino. Só quando Moisés recebeu a Torá no monte Sinai e a passou para seu povo é que a peçonha foi removida de Israel. Certas tradições judaicas, como se disse, afirmam que Caim era, na verdade, filho de Eva e da serpente, apresentando seus descendentes, de modo muito evidente, algumas das perversas características do lado paterno. 

Estas ideias dos judeus sobre a serpente confirmam tradições que fazem dela um dos mais antigos símbolos fálicos conhecidos. Os cananeus, povos que habitavam o país de Canaan, na idade do bronze, desde o terceiro milênio aC., tinham cultos ligados à fertilidade da terra, praticados em lugares elevados, de natureza orgiástica, nos quais as serpentes ocupavam uma posição de destaque. Tais cultos sempre mereceram dos profetas bíblicos a mais veemente reprovação. 


A  SANTA   CEIA  ( LEONARDO  DA  VINCI , 1452 - 1519 )

No mundo cristão, o signo de Escorpião aparece ligado a Judas Escariotes, um dos doze discípulos de Cristo. Ele é o "homem de Kerioth", cidade perto de Hebron, tesoureiro do grupo. Como diz a tradição, com um beijo hipócrita, Judas identificou Cristo, entregando-o aos soldados romanos. Figura essencial na paixão de Cristo, Judas recebeu trinta moedas de prata por esse serviço. Quem o fixou para nós os doze apóstolos como representantes dos doze signos zodiacais foi Leonardo da Vinci, no afresco que pintou numa das paredes da igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão, no final do século XV. Esse afresco é conhecido pelo nome de A Santa Ceia ou A Última Ceia. Para pintá-lo, Leonardo valeu-se, segundo consta, das concepções astrológicas de Claudio Ptolomeu. Com Cristo ocupando a posição central da figura, distribuiu Leonardo os doze apóstolos em dois grupos de seis, subdivididos em grupos de três. Quem olha de frente a figura pode identificar, assim, a partir da direita, a primavera (Simão-Áries, Judas Tadeu-Touro e Mateus-Gêmeos) e o verão (Felipe-Câncer, Tiago-Leão e Tomé-Virgem). Na sequência, depois de Cristo, temos o outono (João-Libra, Judas Escariotes-Escorpião e Pedro-Sagitário) e o inverno (André-Capricórnio, Tiago Menor-Aquário e Bartolomeu-Peixes).    


A constelação de Escorpião estende-se hoje de 23º Scorpio a 26º Sagitário, sendo Antares, alfa, a 9º 04´ de Sagitário, sua principal estrela, de natureza marciana, com alguma participação saturnina. As demais, por ordem de importância, são Graffias e Dschuba, desprezíveis astrologicamente. Há na constelação uma nebulosa, com duas estrelas visíveis, Acumen e Aculeus, também chamadas, respectivamente, de Shuala e Lesath. A primeira está a 28º 03´ e a segunda a 25º 02´, ambas em Sagitário. 

Antares, na antiguidade, era conhecida tanto como astro semelhante ou como rival de Marte, principalmente por causa de sua cor. Os latinos a chamavam de Cor Scorpii. Antares é, como sabemos, uma das quatro estrelas reais da astrologia persa, conhecida como a Guardiã do Oeste, identificada como Yima, o deus persa da morte. O oeste, o ocidente, é em todas as tradições o lugar do fim,  região do poente, o começo da viagem que as almas fazem depois da morte. Esta estrela inclina a extremos, consciente ou inconscientemente. Pode trazer sucesso, honras, mas há riscos de catástrofes, de perdas totais, tudo dependendo da posição e das relações que a estrela mantiver no mapa (vide o mapa de Gandhi). 

PTOLOMEU
Ptolomeu viu na nebulosa de Escorpião influências de Marte e da Lua. De um modo geral, como sabemos, nebulosas são tradicionalmente ligadas à cegueira, literal ou metaforicamente. Estas duas estrelas são conhecidas como o “Anzol”, uma relacionada com a luz e outra com as trevas. Acumen é o lado escuro, sugerindo perturbações, obliterações físicas ou mentais, que podem causar danos à saúde (vide mapas de Van Gogh ou Marilyn Monroe). Aculeus também sujeita a problemas, obstruções de energia, de natureza menos intensa, mais suportáveis (vide mapa Eduardo VIII). De um modo geral, estas duas estrelas sempre produzem alguma forma de ataque (físico, verbal etc.) semelhante a uma ferroada do escorpião. 

                            

sexta-feira, 23 de março de 2012

MITOLOGIAS DO CÉU - A LUA (4)





Dentre os povos da Ásia Menor que desenvolveram uma mitologia lunar, não podemos esquecer dos hebreus, que, como aguerridos monoteístas, oficialmente sempre combateram cultos astrais. Viveram em constante luta contra o politeísmo dos povos vizinhos, especialmente o dos cananeus, mas, sobretudo, contra o próprio politeísmo, pois, não esqueçamos, os seus primeiros patriarcas vieram da Mesopotâmia.

Como "povo eleito", os rabinos hebreus atribuíam a uma infidelidade a Yahvé todas as catástrofes que se abatiam sobre Israel. É nas proibições da lei mosaica e na maldição dos seus profetas que encontramos informações sobre os cultos astrais tão combatidos. Punições e ameaças de danação eterna são encontradas aos montes em vários textos, todos com a finalidade de proclamar a superioridade de Yahvé.

Todavia, a cada momento, em inúmeras passagens dos livros sagrados, para o que souber ler ou mesmo para os que não o souberem, a persistência dos cultos astrais, da astrologia, é facilmente detectada. Numa passagem bíblica, por exemplo, encontramos em Isaías (III, 18) referências às pequenas luas (luetas), jóias em forma de crescente lunar, que as jovens ostentavam numa clara afronta aos textos religiosos.

Os hebreus, como se sabe, utilizavam um calendário lunar, como aliás o faziam todos os semitas. Enquanto foram nômades, só a Lua, com as suas fases bem distintas, lhes permitiu estabelecer a medição do tempo. Sedentarizados, o calendário lunar permaneceu útil. Suas festas religiosas podem ter perdido algumas características, pois de pastores passaram a agricultores, mas, no fundo, permaneceram as mesmas.

CALENDÁRIO LUNAR

Em hebraico a palavra mês e Lua são muito semelhantes. O calendário hebraico é lunar, contendo o ano doze ou treze meses lunares, começando cada um deles com a Lua nova. Quando o mundo foi criado, contam antigas histórias, a Lua era tão brilhante quanto o Sol. Porém, como não seria possível admitir a existência de dois astros do mesmo tamanho, o da Lua foi diminuído. O povo de Israel, desde sempre, sempre foi simbolizado pela Lua, um povo cuja “sorte” aumentava e diminuía conforme as fases do astro. No tempo do Messias, o Sol e a Lua voltarão a ter o mesmo tamanho, retomando Israel a sua antiga glória.


ISHTAR

Os eclipses da Lua sempre foram considerados como muito maléficos para os judeus, pois quando a Lua deixava de ser vista as forças do mal tinham o seu poder aumentado. Dormir à luz da Lua era sempre muito perigoso para os judeus, pois os que assim faziam podiam ser atacados pelo demônio feminino Agrat Bat Mahalat, cujo modelo era a deusa Ishtar, dos mesopotâmicos.

SAMAEL

Agrat Bat Mahalat é a rainha dos demônios, concubina de Samael, o gênio do Mal, rei dos demônios, que os judeus dizer ser neta do Ismael bíblico, ou seja, o ancestral dos ismaelitas árabes.

AGAR E ISMAEL EXPULSOS POR ABRAÃO. AO FUNDO, SARA E ISAAC

Ismael (Ismail) é irmão de Isaac, sendo este o ancestral dos judeus. Ambos eram filhos de Abraão, o primeiro nascido da escrava Agar e o outro de Sara, a esposa oficial. Tendo Ismael nascido antes de Isaac, Sara exigiu de Abraão que ele e a mãe fossem expulsos, obrigando-os a ir para o deserto. Segundo os judeus, Ismael e a mãe tornaram-se errantes até que um anjo de Deus os conduziu a um poço onde o Senhor anunciou a Agar que seu filho seria um verdadeiro animal selvagem que lutaria contra todos e todos contra ele. Deus prometeu também que de Ismael nasceria uma grande nação cujos membros seriam os “filhos do vento”, isto é, os povos do deserto, nômades e livres, os beduínos (de bedaw, deserto), que se consideram como os descendentes diretos de Ismael.


Dizem os judeus que a atividade nefasta de Agrat foi limitada pelo sábio Chanina Ben Dosa, milagreiro carismático galileu do séc.I, podendo ela atuar somente nas noites de terça-feira e de sexta-feira, após ela ter implorado para que ele não a banisse do mundo. O Talmud recomenda, pois, que ninguém saia sozinho nessas noites, que são, como se sabe, de Marte e de Vênus, astrologicamente. Os rabinos e místicos judeus recomendam também que se evite olhar a Lua nessas noites, podendo ela ser vislumbrada, porém, rapidamente quando da cerimônia da Lua nova. É a chamada kidush levaná, santificação da Lua nova.


As festas de celebração da Lua nova entre os judeus vêm provavelmente do período nômade, antigos cultos que profetas como Oseas e Isaías mais tarde passaram a condenar enfaticamente. Tais festas, como se sabe, são realizadas até hoje, com o nome de rosh chodesh, início, cabeça, do mês.



A santificação da Lua acontece geralmente sábado à noite, recitam-se orações e participantes se cumprimentam com as palavras shalom aleichem (a paz esteja convosco). O ritual expressa a esperança de que Deus restaurará a luz da Lua e a antiga grandeza de Israel.


O shabat, que hoje tem um profundo sentido religioso entre os judeus, não era visto dessa maneira pelos profetas bíblicos do antigo testamento, pois tinha relação com a Lua cheia. Shabat era a festa da Lua cheia dos povos nômades. Shabater significava parar de crescer, isto é, representava o momento em que a Lua atingia no mês a sua plenitude, parando de crescer. Era uma festa alegre, de caráter orgiástico, momento de celebração em que a Lua se mostrava em toda a sua glória.

Com a sedentarização das tribos nômades, essa festa foi perdendo as suas características para os judeus, passando a ser vivida como uma cessação de atividades, repouso, período que devia ser consagrado a Deus, uma espécie de reprodução do sétimo dia da criação. Seu tempo, sagrado, se opunha assim ao profano.



Hoje, o shabat judaico vai do anoitecer de sexta-feira à noite de sábado. O judeu deve descansar, não realizando nenhum trabalho que signifique o controle do homem sobre a natureza. Há toda uma liturgia que regula a festa, luz, velas, cantos, visita à sinagoga. Textos rabínicos dizem que se os judeus conseguissem observar fielmente todos os preceitos estabelecidos para a festa, o Messias viria, pois a harmonia cósmica se realizaria. As forças do mal (Sitra Achra) não conseguiriam exercer qualquer ação no universo.

Com a implantação do cristianismo (séc.V dC), o shabat passou a ser considerado como uma festa em que feiticeiros se reuniam, libertando-se as forças do mal, que então podiam agir livremente. Tais festas, nessa visão, teriam origem nos cultos lunares provenientes de bacanais pagãs, nas quais o deus Baco (Dioniso) era invocado sob o nome de Sabazios.

Sabazios é palavra que também possui o sentido de efeminado e que designava um deus frígio, de culto orgiástico, semelhante ao de Dioniso. Na mitologia grega, lembro, Sabazios foi o nome dado ao chamado “primeiro Dioniso”, filho de Zeus e de Perséfone na forma de serpente, trucidado pelos titãs.


NOITE DE WALPURGIS

Havia dois Shabats: o Grande (assembleia geral) se realizava nas noites de 2 de fevereiro, 30 de abril (noite de Walpurgis), 23 de junho e 31 de outubro. O Pequeno se realizava através de reuniões menores, por regiões, em quaisquer dias da semana, mas de preferência na sexta-feira. Há inúmeras lendas medievais sobre estas reuniões, sempre realizadas nas noites de Lua cheia. Falam-nos elas de corpos cobertos de unguentos maravilhosos, deslocamentos aéreos, refeições à base de sapos, cadáveres de crianças não batizadas, de enforcados, de cães putrefatos etc. O sal era banido, assim como o vinho, o óleo e tudo mais que fosse usado pela igreja católica ou por ela bendito. Realizavam-se missas negras, cantava-se, dançava-se, uma orgia geral. Ao canto do galo, o shabat se dissolvia. Na tradição européia, os lugares desertos e abandonados, locais de realização dessas demoníacas celebrações, deviam ser evitados, facilmente reconhecíveis, aliás, pois nenhuma erva ou flor neles crescia, nenhum canto de pássaro neles era ouvido, lugares para sempre malditos.



Como o shabat, a festa da Páscoa (Pessach) era também ligada ao plenilúnio. Uns fazem derivar o nome da festa da palavra pesak, mancar, saltar, dançar ritualmente. A Bíblia dá outra explicação: a palavra significaria “passar sobre”.


Era a festa que celebraria a libertação dos escravos israelitas do Egito e que apontaria para a redenção do mundo na idade do Messias. Comemora-se também nessa festa a colheita da cevada e o fim da estação das chuvas.

O Pessach caía sempre na primavera, no meio do mês, período da Lua cheia, sendo proibido o consumo de pão levedado. A cerimônia começava no anoitecer da véspera do dia quinze de Nissan, a noite do êxodo, com uma refeição familiar. A festa era conhecida também como a do pão ázimo (fig.esq.), o pão dos escravos. Tudo terminava no momento em que os israelitas cruzavam o Mar Vermelho.

Vários acontecimentos estão incorporados à festa: a partida do Egito, o período nômade no deserto, a festa do décimo quarto dia do mês de Nissan, o primeiro mês lunar do calendário hebraico. Mês associado à primavera, ao signo de Áries, ao carneiro, Nissan começa no fim de março e se estende até meados de abril.


No Islã oficial, como em Israel, todos os fenômenos celestes estão submetidos a Deus. Conta-se que certa vez o Profeta se irritou quando ouviu interpretações sobre um eclipse. Disse, peremptório, que o Sol e a Lua eram apenas sinais de Allah. Afirmações com esta negavam toda autonomia a qualquer objeto, qualquer que fosse ele, pois tudo dependia de Allah, criador do céu e da terra. O mesmo afirmava (afirma hoje) a teologia oficial judaica, quando os rabinos diziam (dizem) que os judeus não precisam da astrologia, pois os livros sagrados continham todas as respostas.

O que temos, porém, no Islã, na realidade, com relação às influências da Lua é que ela tem muito a ver com rituais religiosos, muitos deles, senão a maioria, provenientes da tradição árabe pré-islâmica. O astro lunar ocupava e ocupa, como se sabe, um lugar de destaque na refinada cultura superior islâmica. Antes do Islã, o conhecimento que os árabes possuíam da Lua reduzia-se às chamadas mansões lunares, conhecimento, aliás, fortemente influenciado pela tradição védica.

MANSÕES LUNARES
Foi sobretudo a astronomia-astrologia grega, quando Ptolomeu (séc. II dC) foi traduzido para o árabe (Almagesto), que deu um grande impulso aos estudos árabes nesta área do conhecimento, levando por exemplo os astrônomos a calcular não só com grande precisão os eclipses, mas a desenvolver uma avançada astrologia, depois transmitida ao ocidente cristão.

ALMAGESTO

O Almagesto (O Muito Grande), famoso tratado de Ptolomeu, foi traduzido para o árabe no séc.IX. Nele se expõe o sistema geocêntrico, dele fazendo parte uma lista de 1022 estrelas, cálculos sobre a distância do Sol e da Lua, descrição de eclipses e referências a instrumentos então usados para a observação do céu.

No mundo árabe, principalmente entre as elites, as influências lunares foram muito estudadas, sobretudo pela astrologia prática. Uma das ideias mais admitidas era a de que a Lua, astro das variações cíclicas, governava tudo o que era variável na Terra, tudo o que estava submetido ao crescimento e ao declínio.

AL-QAZWINI

Um texto, extraído de um tratado de cosmografia do séc.XIII, al-Qazwini, mais as informações que colhemos pessoalmente no Instituto do Mundo Árabe de Paris e na tese Images du Ciel d´Orient au Moyen Âge, de Anna Caiozzo), nos dizem que as influências da Lua dependem de seu caráter úmido, enquanto as do Sol provêm de seu caráter quente. Os autores dos textos exemplificam tudo isto discorrendo sobre o movimento das marés, da ação da Lua sobre o corpo dos humanos e dos animais, falando-nos da circulação dos humores, do sangue, das crises de saúde, da lactação das mulheres, da disposição física, das enxaquecas, da proliferação de insetos, da quantidade de peixes nos rios e mares, dos grandes e pequenos animais, do transplante de árvores, da frutificação nos pomares, dos frutos lunares e da sua coloração (ameixas, melões, sésamo, pepinos, abóboras, metais) tudo dependendo da maior ou menor umidade que a Terra recebe em função da fase lunar (começo, meio e fim do mês).

Mesmo Avicena (fig.dir.), por volta do ano mil, grande médico, místico e filósofo, árabe-islâmico, que muito polemizou com astrólogos, reconhecia o efeito das influências lunares no corpo humano. A astrologia suscitou sempre uma forte oposição religiosa quando os astrólogos começaram a discutir os ciclos da história mundial segundo as influências celestes. A doutrina alquímica, oriunda do mundo greco-alexandrino, também provocou inquietações e oposições declaradas de representantes do pensamento teológico oficial árabe. As teses astrológicas, contudo, iam se propagando com base na lei da correspondência. O corpo humano era o microcosmo, um reflexo do céu, o macrocosmo.


AL QAMAR (SURA)

A Lua tem entre os árabes o nome de “al Qamar” ou “Badr”. É representada por um personagem masculino sentado dentro de semicírculo ou crescente, pés nus, vestindo uma espécie de blusa azul, aberta no peito, as calças vermelhas. Uma representação talvez calcada em imagens védicas. Cada fase da Lua recebe um nome, chegando-se ao detalhe de dar uma designação aos períodos intermediário de cada uma delas. A Lua, como se viu, sempre evocou transformações, mudanças, passagens de um estado a outro, o eterno devenir das coisas. Como símbolo de beleza, a Lua é inspiradora de muitos nomes femininos, nomes como Kmar (Lua cheia), Kamriya (pequena Lua), Badr ou Bedra (Lua cheia), Badr an-nur (Lua de luz), Munira (luminosa) etc.

Pelas informações de Heródoto e de outros viajantes, além naturalmente dos registros que chegaram até nós, é possível afirmar que os persas pré-islâmicos tiveram um desenvolvido culto lunar. Para eles, Mah, a Lua, era a divindade que regulava os dias, sendo o décimo segundo dia do mês a ela consagrado, conforme hinos cantados em sua homenagem.


Os iranianos, como se sabe, fazem parte do mundo indo-europeu, do ramo ariano mais exatamente, que ocupou uma extensa região que fica num planalto a leste da Mesopotâmia. Eran, Eiran, de ária (nobre, leal, senhor), era o nome do país (compare com Erin, o nome celta da Irlanda). Os primeiros registros religiosos desse povo apareceram num texto chamado Avesta, dando corpo à chamada religião mazdeana. Esses textos foram destruídos quando da invasão de Alexandre e depois reconstituídos com base na tradição oral.

O culto do fogo, típico das tribos indo-européias, ocupava o centro de todo o movimento religioso, ao lado dos ritos relacionados com o haoma (Soma védico; fig.dir.), que falavam de imortalidade. Nesse recuado período da história persa, Mitra era então a principal divindade (lugar depois tomado por Ahura Mazda), nele se reunindo, em termos absolutos, o poder sobre as regiões celestes (conduzia o carro solar), o poder militar, o conhecimento etc.

Sob inspiração da astrologia caldaica (mesopotâmica), os astros eram objeto de cultos muito especiais, principalmente: Hvare-Khchaeta (Sol), Mah (Lua), Anahita (Vênus) e Tichtriya (Sirius).


Os organizadores desses cultos eram os Magos, que constituíam uma importante corporação sacerdotal, mantendo inclusive, com grande pureza, as primitivas práticas rituais arianas.

Devido a reformas religiosas posteriores (zoroastrismo e maniqueísmo), as antigas divindades astrais passaram a ocupar uma posição de menor relevo. A pregação do reformador Mani (fig.esq.), cerca de 240 aC, falava da existência de um conflito cósmico entre o reino da luz (Bem) e o das trevas (Mal). O homem teria que ajudar as forças do Bem através de várias práticas ascéticas. As forças do Bem nessa luta eram guiadas pelos seis “Imortais Benfeitores” (Amesha Spenta), algo semelhantes aos arcanjos bíblicos, cada um deles responsável por um setor da criação.



A Lua (Mah), nesta nova ordem, colocou-se sob as ordens de um destes Benfeitores, chamado Bahman, o Espírito do Bem, que era, dentre outras funções, o grande protetor dos rebanhos.


Esta posição da Lua se devia, segundo os antigos cultos, à sua natureza bovina, identificação seguida, aliás, universalmente e que explica sua submissão a Bahman. Mah funcionava neste esquema como uma intermediária entre o Espírito tutelar e os rebanhos, mais exatamente como protetora da “Vaca Primordial”, personificação não só de toda a espécie, mas de centro simbólico no qual se juntam ideias de fecundidade, de maternidade, de abundância, e de imagens como a da nuvem celeste, de brancura, de leite etc. Neste contexto religioso, a Lua funciona também como purificadora dos mares porque ela provoca movimentos de alternância, o movimento das marés, ligados diretamente às suas fases.

AHURA MAZDA

Os antigos persas viam também nas fases da Lua a marcha do tempo. Quando criados, os astros, o Sol, a Lua e as estrelas, não se moviam, segundo os antigos textos. Com o assalto das forças do mal (a luta eterna entre Ahura Mazda ou Ormazd, as forças da luz, e Ahriman, as forças das trevas), os astros tiveram que percorrer o caminho que lhes foi designado para que a renovação pudesse acontecer, expulsando-se o mal do mundo.