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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

VIRGEM (4)

                                       
VIRGEM
Procurando visualizar tudo o que está nos últimos parágrafos sob o ponto de vista astrológico, acredito que onde temos Plutão no mapa temos o Hades, o Inferno, os personagens que nele vivem e tudo o mais que nele se encerra.    Explicando-me melhor: se esse Plutão estiver saliente, elevado, posicionado por signo e casa de modo problemático, difícil, podemos ter o caso, dentre outras possibilidades, de, naquele ponto, nos depararmos com uma situação semelhante à vivida por Koré, isto é,
RAPTO   DE   KORÉ , 1587 ( HANS  VON  AACHEN )
a de nos tornarmos vítimas de alguma forma de abuso, seja de violência doméstica, de maus tratos infantis, de abuso físico, sexual ou outro qualquer, sempre de modo traumático. Espancamentos e estupros costumam se verificar quando temos configurações astrológicas das quais Plutão faz parte, evidentemente mal posicionado por casa e com aspectos negativos. Tais acontecimentos podem ir além da simples luxúria, fazendo-nos pensar, por exemplo, em envolvimentos sado-masoquistas que poderiam ser satisfeitos de outro modo bem menos violento. Além do mais, é preciso ressaltar que uma das características deste Plutão-Perséfone é que ele tende a inibir qualquer possibilidade de reação, podendo ocasionar, repetida a violência, que a vítima comece a sentir que ela foi a causa da sua própria perdição. Situações de culpa, diminuição da auto-estima, impotência, falta de reação são comuns, diante do poder da autoridade maior.

  PERSÉFONE   E   PLUTÃO
( JAN  PIETER  VAN  BAURSCHERT , THE ELDER , 1669 - 1728 )

Outra característica importante de Plutão-Perséfone é a de que ele, conforme sua situação celeste, posição terrestre e dignidade, poderá ser o lugar de nascimento do Puer Aeternus, de Brimo, o filho de
MISTÉRIOS   DE   ELÊUSIS
Hades e de Perséfone, como está nos Mistérios de Elêusis. Esta criança é a forma jovem que toma aquilo que os psicólogos chamam de si mesmo. É a chamada conjunctio, a coincidência dos opostos (equivalente à Lua nova). É algo assim  como a união de dois amantes, circunstância em que as personalidades consciente e inconsciente se aproximam uma da outra. Esta conjunctio é muito perigosa porque pode o inconsciente (anima) destruir o consciente (animus) ou este julgar-se livre daquele, sempre uma rematada mas perigosa presunção. Neste caso teremos a imagem do Sol destruindo a Lua; no inverso, a ameaça da psicose, da desestruturação da personalidade. Amor ou destruição? A conjunctio ocorre na Lua nova, no mundo inferior, portanto, na depressão mais profunda, no Hades, na noite escura em que a Lua não brilha; é nessa noite em que ela e o Sol podem se unir, anima-animus.

Este processo de nascimento da Criança Eterna ocorre em conexão com o tempo cíclico como o zodíaco nos demonstra. A realização do nosso processo de individuação só atinge a sua realidade quando renovado segundo o tempo sideral, isto é, nas 24 horas do dia e nos 12 meses do ano. O si mesmo só se torna real se o expressamos em ações. Nasce ele assim a cada hora e a cada momento do ciclo anual. Isto significa que nossos estágios de consciência são imprevisíveis e podem agir de modo diferente nas mesmas situações. Hoje, podemos agir de um modo, amanhã de outro, pois a cada momento a Criança Eterna tem que nascer em nós.

O  GRAAL

Uma das aproximações mais ricas que podemos fazer do signo de Virgem é a de relacioná-lo com o mito do Graal. A história desta taça sagrada foi objeto, durante a Idade Média, de numerosas interpretações de natureza mística. Esta taça ou copa, segundo uma tradição, teria sido usada por Cristo quando da sua última ceia com os apóstolos. Outra tradição nos diz que a copa teria sido usada por José de Arimateia, um judeu, discípulo de Jesus, que depois de ter nela recolhido o seu sangue no Calvário teria obtido de Pôncio Pilatos a devida autorização para  sepultá-lo.

A   TÁVOLA   REDONDA
Segundo as lendas bretãs, a copa (krater, em grego; crater, em latim) teria sido levada para a Inglaterra no ano de 64 dC e depositada numa capela dentro de um bosque ou num castelo no alto de uma montanha. Anjos teriam depositado no graal uma hóstia com poderes miraculosos, que alimentava o corpo e preparava para a vida espiritual. O tema serviu para uma série de lendas e romances do ciclo do rei Artur e seus cavaleiros da távola redonda.   

CHÉTRIEN  DE  TROYES
Qualquer que seja a tradição, o graal sempre foi considerado como um talismã celeste, um símbolo do paraíso perdido. A sua busca sempre foi identificada com o próprio processo de individuação superiormente conduzido, a conquista simultânea de um eu superior e de um avanço no caminho da espiritualização. Nestas histórias se conjugam influências celtas e as tradições lendárias do cristianismo medieval, segundo textos domo os de Chrétien de Troyes, Robert de Boron, Wolfran Von Eschenbach e outros, inclusive os aparecidos posteriormente (Julien Gracq e de T.S.Eliot).

O graal apresenta clara analogia com o princípio feminino na medida em que, pela sua forma, é símbolo do que recebe, do que acolhe. Além do mais, suas possibilidades simbólicas o ligam também de modo evidente, sob o ponto de vista astrológico, ao signo de Virgem, enquanto este nos fala de alimentação e da preparação para um caminho evolutivo do eu que nasceu no signo anterior (Leão, quinta casa). A busca do graal exige condições
GALAHAD
especiais raramente encontradas num cavaleiro. A rigor, só um deles, Galahad, se aproximou da copa maravilhosa. Perceval e Lancelot do Lago, dois destacados cavaleiros, tentarão, mas não poderão se aproximar do graal por viverem mundanamente. Galahad, filho deste último, o conquistará, pois é puro, livre de toda tentação terrestre. Para chegar ao graal, isto é, à plenitude interior, que ele simboliza, era preciso ser como Galahad. Evidentemente, o ideal de espiritualização da cavalaria, que Galahad encarnava mais do que qualquer outro, se perdeu. Nosso herói era mestre de sua montaria e nunca deixava de interiorizar os seus combates. 

Na sexta casa astrológica, Virgem, a decisão terá de ser tomada: evoluir, ir em direção do signo de Libra e seguintes ou fixação no ego leonino, ou seja, involuir. A estrela do signo de Virgem é, por isso, a de seis pontas. O vértice superior aponta para um caminho de natureza espiritualizante, ascensional. O vértice inferior, para um caminho regressivo, uma volta à vida instintiva.

Entre os judeus, Elul é o mês do signo de Virgem, ligado à conquista da sabedoria, início da vida espiritual, isto é, retorno ao divino e renovação. Ideias de purificação se apresentam aqui, ideias que devem levar antes de tudo à destruição das más sementes do passado. Segundo os judeus, Elul, etimologicamente, significa busca, pesquisa. O astro relacionado com o signo é Mercúrio, planeta associado ao intelecto, o melhor instrumento para o trabalho espiritual, que começa neste mês. Mercúrio também afeta Sivan (Gêmeos), o mês em que a Torá foi recebida.

O elemento de Elul é a terra, aqui simbolizando o reino das ações humanas, ou seja, a união do pensamento e da ação. É por essa
DEUTERONÔMIO
razão que no primeiro Shabat deste mês é lida publicamente uma parte do Deuteronômio, na qual se destacam as palavras dos Juízes e os meios adequados para o julgamento. O Deuteronômio é o quinto (Chumash) livro do Pentateuco, os cinco livros de Moisés (Bereshit, o Gênesis; Shemot, o Êxodo; Vaikrá, o Levítico; Bemidbar, Números; e Devarin, o Deuteronômio). Daian é o juiz que atua num tribunal religioso; segundo a tradição, Deus está sempre com ele, em suas deliberações. Um daian é sempre um parceiro de Deus e deve sentir-se temeroso diante da sua responsabilidade, como se uma espada estivesse encostada nas suas espáduas e o inferno escancarado a seus pés.

Quanto ao Shabat, lembremos que ele propõe um descanso obrigatório, indo do anoitecer de sexta-feira ao sábado à noite. É o dia em que Deus deu a sua bênção, ao descansar do trabalho da criação, que ele realizara em seis dias. Um judeu deve imitar Deus, descansando no Shabat, não realizando nenhum tipo de trabalho que signifique o controle do homem sobre a natureza. A proibição pode ser suspensa em casos excepcionais, quando houver, por exemplo, risco de vida. A palavra Shabat quer dizer repouso. No novo testamento e no cristianismo de Idade Média, o shabat sempre foi considerado desse modo, dia consagrado a Deus, um tempo sagrado com relação ao profano. 

Uma tradição muito mais antiga entre os judeus nos diz, porém, que o shabat estava associado a festas ligadas aos ciclos lunares e à neomancia. Era uma festa de tribos nômades realizada por ocasião da Lua cheia (shabater significa parar de crescer), uma assembleia, segundo algumas tradições cristãs, de feiticeiras, presidida de pelo próprio Diabo. Essas festas, em antigas tradições gregas, eram realizadas também em homenagem ao deus Dioniso, que nelas tomava o nome de Sabázio (sabakós, efeminado, em grego). 


                    SABÁZIO                

O culto de Sabázio chegou ao mundo grego através da Frígia, tendo um caráter orgiástico. Filho de Zeus serpentino e de Perséfone, Sabázio costumava tomar a forma de um réptil, tendo gerado, ao se unir a uma de suas sacerdotisas, filhos com acentuados traços de serpente. É neste sentido que chegaram a se realizar no mundo grego, associados aos mistérios de Elêusis, os de Sabázios, na medida em que, como divindade, ele representava as forças de dissolução da personalidade e a sua regressão a formas caóticas e primordiais, um mergulho na vida subconsciente.

COMEMORAÇÃO   DE   ELUL

Entre os judeus, segundo a ciência astrológica, uma pessoa sob a influência de Elul, Virgem, tem uma inclinação natural para a análise, dando sempre muita importância a detalhes, mesmo os insignificantes. Há uma tendência natural para o perfeccionismo, para uma acentuada postura introspectiva diante da vida e para a frieza emocional. Estas tendências, contudo, se trabalhadas segundo a Torá, podem ser superadas. Sem este auxílio, temos a compulsão para as coisas pequenas, a confusão entre o secundário, menos significativo, e o principal, mais importante, características que costumam ocasionar a falta de confiança, a dúvida, a paralisia diante das escolhas. Lembremos que o nome Elul foi herdado pelos judeus dos babilônicos, o sexto mês do ano (agosto-setembro), correspondente ao mês da colheita.

A letra Yod associa-se a Elul na medida em que significa pensamento, raciocínio, e que aponta para um futuro a ser criado. Segundo os astrólogos judeus, as faculdades da compreensão e da percepção são femininas. Por esta razão, o signo de Elul tem forma feminina, uma virgem, que simboliza a modéstia e a pureza, características essenciais para o retorno do divino. Os textos astrológicos atribuem a mão esquerda a Elul, indicando este lado, aqui, materialidade e ação. A letra Yod junta no seu significado conceitos de sabedoria e ação no mundo material. 

O poderoso potencial para ações retificadoras foi revelado ao povo judeu quando de sua perambulação pelo deserto. Durante Elul, Moisés subiu ao monte Sinai e abriu as portas da penitência para os
FESTA   DE   PESSACH
judeus. Elul é o sexto mês lunar do calendário hebraico. Como há uma discrepância de pouco mais de onze dias entre os 354 dias do ano lunar e os 365 do ano solar, um ano bissexto contendo um mês suplementar é intercalado sete vezes em cada dezenove anos. Isso permite que a
SOPRANDO   O   SHOFAR
festa de Pessach (Páscoa) caia sempre na primavera. Elul, numa outra contagem, precede o período de arrependimento associado ao ano novo (Rosh há-shaná), sempre um tempo de introspecção e de preparação espiritual. Algumas comunidades têm o costume, no mês de Elul, de soprar o shofar todas as manhãs após as orações, a fim de despertar os devotos para o arrependimento. 

O arrependimento (teshuvá) é, sob todos os pontos de vista, um conceito virginiano e tem o significado de retorno. É a partir de Elul que o pecado do afastamento do divino começa a ser apagado. As portas do arrependimento estão sempre abertas. Entretanto, se alguém peca com a intenção de se arrepender posteriormente, tal arrependimento não significará a obtenção do perdão divino. Segundo a tradição, uma pessoa deve se arrepender um dia antes de morrer, incluindo as orações do moribundo a confissão dos seus pecados. Todavia, como o dia da morte não pode ser conhecido, é preciso que o arrependimento seja diário. Isto é especialmente válido para o mês de Elul e para os dez dias de penitência (entre os dias 1º e 10º de Tishirei, Libra) período dedicado ao arrependimento, que culminam no Yom Kipur (Dia da Expiação, a 10 de Tishrei, dia de jejum, o mais sagrado do calendário judaico). 


DAVID  , C. 1768
( G.F. BARBIERI, IL GUERCINO )
São considerados, por exemplo, como modelos de arrependimento o do rei David e dos habitantes de Nínive (história de Jonas). David, censurado pelo profeta Natan, por ter pecado ao se unir a Betsabá, que estava casada com Urias, arrependeu-se, o mesmo fazendo os habitantes da referida cidade. Sob a influência da Cabala, muitas práticas ascéticas foram introduzidas no processo de penitência judaico, práticas como o ato de rolar na neve, jejuns prolongados. Outro conceito ligado a Elul é o da expiação (kapará), a reconciliação do humano com o divino, sempre feita através de sacrifícios. Os principais caminhos para a expiação se fixaram no arrependimento, na oração, na hospitalidade, na caridade, nas boas ações e no exílio. 

RIO   JORDÃO
A tribo associada ao mês de Elul é a de Gad. Segundo o Midrash (palavra que significa busca, procura; também método homilético, isto é, arte de pregar sermões eloquência religiosa, tudo relacionado com a interpretação bíblica através da qual o texto é explicado diferentemente de seu significado literal. O profeta Elias vem desta tribo. Por não ter morrido, Elias se transformou no anjo do Compromisso, fonte de santidade e de pureza. Gad, em hebraico, é palavra que significa alegria, felicidade, sorte. Era ele o sétimo filho de Jacó e de Zilpa, sua serva. Gad é o ancestral dos Gaditas. A esta tribo Moisés atribuiu o território a leste do rio Jordão. 

No inverno, o mês que corresponde a Elul é Adar (Peixes). O peixe, cuja existência não se separa nunca do meio em que vive, as águas, é usado para simbolizar a santidade e a pureza. O mês de Elul marca, como se disse, o temeroso e respeitoso início do retorno a Deus, como, aliás, a letra Yod sugere: o começo da sabedoria é o temor de Deus.

Eu, Javé, sou vosso Deus. Vós vos santificareis e sereis santos,
LEVÍTICOS
porque eu sou santo (Lev. 11,44). Esta passagem, entre os judeus, é tomada como base para a determinação do que é puro e impuro. Assim, tudo o que pode ofender a santidade de Javé é considerado impuro. A Bíblia, entretanto, não fixou objetivamente os critérios para tanto. O código da pureza está nos Levíticos 11-16 e indiretamente em 17-22, embora muitos outros detalhes estejam dispersos pelo texto bíblico. 

Os Levíticos formavam um código cerimonial que continha as disposições básicas, no tocante aos sacrifícios, ao sacerdócio e às leis da pureza. Daí, expressões como pureza levítica. Levi (ligado, apegado) era o terceiro filho de Jacó e de sua esposa Léa, filha de Laban, sendo seus descendentes os Levitas, que prestavam serviços ao templo.

A variedade do conceito de impureza é muito grande. Sempre será possível, entretanto, diante dessa variedade, estabelecer as situações em que esse o conceito se verifica de modo mais relevante. Tais situações são as seguintes: 

a) Antes do encontro com Deus. No Êxodo, nos Levíticos e em Samuel, encontramos referências claras sobre a necessidade da purificação do corpo pela água, inclusive de roupas asseadas, para entrar em contacto (templo) com Deus. No cristianismo, em Mateus, temos: se estás para fazer tua oferta diante do altar, e te lembras que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer a tua oferta. O que se coloca aqui é extensão do conceito de pureza para a vida interior. 

b) A mulher depois do parto. Nos Levíticos há prescrições rigorosas, rituais, para a purificação da mulher depois do parto. A impureza decorrente do parto de um menino se estende por 40 dias; de uma menina, o prazo se eleva para 80 dias. Durante esse período, a mulher não podia ir ao santuário e não podia tocar em coisa alguma santa. No cristianismo, conforme está em Lucas, a mãe de Jesus se submeteu a estas exigências.

c) Os leprosos – Nos Levíticos estão enumerados todos os casos que; ao tempo, eram considerados como leprosos. A lepra, em todas as tradições, desde tempos pré-históricos, sempre foi considerada como uma moléstia imposta por deusas lunares (A Grande Deusa Branca), uma punição motivada pelo consumo de alimentos proibidos. Muitas moléstias da pele eram chamadas de lepra na antiguidade, especialmente as de caráter crônico  ou contagioso. 

SÃO  LÁZARO
No grego antigo, a  moléstia de pele era a que produzia escamas, usado o nome para designar às vezes a elefantíase e a morfeia. O nome também era aplicado ao vitiligo, moléstia que causa perda da pigmentação, que resultava às vezes do consumo de alimentos impróprios. Na Bíblia, a lepra aparece algumas vezes como punição divina causada pelo pecado do orgulho. A lepra é às vezes também chamada de mal de Lázaro, nome de um pobre homem coberto de chagas, que os cães lambiam, tudo conforme narra São Lucas.  

d) As impurezas das casas – Qualquer fungo, mofo ou umidade, qualquer mancha inexplicável era considerada “lepra”. Os sacerdotes, como está nos Levíticos, decidiam sobre a sorte da casa.

e) Impurezas fisiológicas – Todo o capítulo 15 dos Levíticos fala deste tipo de impurezas, tais como polução noturna, menstruação, doenças venéreas etc. A lei sempre prescreve nestes casos um banho completo, mais ritual que higiênico. No cristianismo, em Mateus, encontramos a narração do episódio em que uma mulher sofrendo um fluxo de sangue não ousou tocar em Jesus em público, temendo complicações legais e rituais; por isso, tocou-lhe o manto de leve e às ocultas.

f) Impureza do templo – Se uma pessoa profana penetrasse no recinto sagrado reservado aos sacerdotes, o templo se tornava impuro. 

g) Impurezas da nação – A presença, no meio do povo, de transgressores da lei, de criminosos, de idólatras, de parceiros de matrimônios mistos eram impurezas que contaminavam a nação inteira. 

As águas tinham muito destaque nos ritos de purificação. Além das usadas para banhos e abluções, havia algumas águas às quais se atribuía um papel especial. Havia as águas do dilúvio que
MAR   VERMELHO
purificaram a terra da corrupção dos homens. As águas do mar Vermelho eram particularmente importantes porque purificaram os judeus dos contactos que haviam mantido com os egípcios quando do cativeiro. As águas do rio Jordão eram também importantes pois há registros de que purificavam a lepra. Importantes eram as chamadas “águas do ciúme”, usadas para descobrir a culpa ou a inocência da esposa suspeita de adultério. A indiciada deveria beber uma mistura de água com o pó do chão do templo para que se cumprisse o ritual do ordálio. 

RITUAL   DO   ORDÁLIO

Ordálio é, neste caso, um juízo de Deus que é obtido através deste ritual judiciário imposto ao acusado (a) para se descobrir a sua culpa ou a inocência. Este ritual é testemunhado na Bíblia com o nome acima ou o de “águas amargas”. Eram águas dadas a beber à esposa suspeita de adultério, registrando-se o caso nestes termos: Depois que ela as tiver bebido, se ela estiver culpada, tendo sido infiel a seu marido, as águas que trazem a maldição trar-lhe-ão sua amargura; seu ventre inchará, seus flancos emagrecerão, e essa mulher será uma maldição no meio de seu povo. Mas, se ela não se tiver manchado e for inocente, ela será preservada e terá filhos. (Números 5,11-31).

Esta preocupação que os judeus tiveram em associar o signo de Virgem à purificação é encontrada também em muitas outras tradições. Na religião católica, por exemplo, ela tem como representação máxima o batismo. Neste sacramento, a água desliza pela cabeça, região ariana, de onde emanam os nossos atos. No momento da morte, as unções  vinculam-se aos sete planetas da tradição, que governam os sentidos e determinadas partes do corpo. 


Um exemplo do que temos aqui pode ser encontrado num dos maiores romances da literatura de todos os tempos, Madame Bovary, de Gustave Flaubert. A descrição da cena está no momento mori de Emma Bovary: depois, o pároco recitou as preces Misereatur e Indulgentiam e, umedecendo o polegar no óleo, ungiu a moribunda: primeiro, naqueles olhos que tanto haviam desejado luxos terrenos; em seguida, no nariz, tão ansiosa ela, sempre desejosa de sentir as brisas e os perfumes amorosos; depois, na boca, que tantas vezes se abriu para a mentira, para a queixa orgulhosa e para o grito luxurioso; depois, nas mãos, que tanto se deleitaram em suaves contactos; e finalmente nos pés, que tantas vezes correram tão velozes na preocupação de saciar seus desejos, pés que já não caminharão mais. A purificação, segundo este ritual, compreende todo o corpo, desde a cabeça à planta dos pés, conforme a sequência zodiacal.  


SANTA   GENOVEVA
( LOUIS DUFOUR , 1901 - 1960 )
O cristianismo sempre associou Santa Genoveva (Geneviève), padroeira de Paris, ao signo de Virgem. Nascida em Nanterre, em 420, e falecendo em Paris, no ano 500, Genoveva, segundo a lenda, recebeu de são Germano, bispo de Auxerre, o chamado véu de virgem dedicada aos quinze anos. Devotou-se, desde então, aos trabalhos de oração e caridade. Foi ela que com sua intervenção conseguiu afastar as tribos francas que sitiavam Paris. Os parisienses perceberam as ações protetoras de Genoveva por longo tempo mesmo depois de sua morte, como aconteceu em 1.129, quando uma epidemia causada por alimentos (pães) produzidos com centeio envenenado (seigle ivre.) cessou subitamente no momento em que as relíquias da santa estavam sendo carregadas em procissão pública. 

NIDABA  OU  NISABA
Mais recuadamente, a origem deste mês do signo de Virgem pode ser encontrada da história da deusa suméria Nidaba ou Nisaba. Esta deusa era filha de uma espécie de Geia suméria, chamada por vários nomes, Inini, Gula etc., segundo a região do seu culto. Nidaba era a divindade que tutelava as colheitas, sendo especialmente reverenciada como deusa dos grãos. Em inscrições sumérias se registrava que ela levava uma estrela sobre a cabeça e um chicote na mão direita, chicote este cuja correia se estendia pela cauda do Leão. Esta ideia,

encontrada também entre os caldeus, a de “pegar” o Leão pela cauda, é sempre um indício do poder das grandes-mães sobre a energia cósmica. Em algumas tradições, ainda, lembre-se, o terceiro arcano do Tarot, A Imperatriz, aparece ligado ao signo de Virgem, enquanto representa a resultante da bipolaridade dos dois primeiros arcanos, O Mago (energia masculina) e A Sacerdotisa (energia feminina).

O signo de Virgem, como se sabe, predispõe os seus nativos a um temperamento nervoso, típico do elemento terra, com atuação num plano racional-analítico-prático. É em Virgem que a vida instintiva
DEMÉTER
vai encontrar o seu adequado posicionamento no sentido de sua submissão ao ego que nasceu em Leão, signo anterior. Este alinhamento do instintivo pode muitas vezes significar o seu não reconhecimento, como, aliás, o próprio mito grego nos sugere. Deméter nunca aceitou o fato de Koré ter “gostado” do que lhe aconteceu no Hades. Esta recusa da vida instintiva foi a causadora da depressão de Deméter, acontecimento que no plano da vida psíquica significou a retirada da sua libido da Terra, tornando-a árida, seca, preocupada unicamente em rever a filha. 

A psicanálise associou ao signo de Virgem um comportamento
SIGNO  DE  VIRGEM
ligado à função intestinal (governada pelo signo), no qual se juntam vários traços que na linguagem técnica recebeu o nome de complexo anal. Esse complexo corresponde a um período no desenvolvimento da criança em que ela demonstra um vivo interesse no fato de reter ou de evacuar fezes. A vida afetiva da criança nesse período se desloca para o funcionamento retal (Mercúrio governa o intestino delgado e Plutão o grosso), numa ou noutra fase, isto é, retenção ou expulsão. O que temos é o caso da chamada “analidade reprimida”, traduzida pela retenção por parte da criança virginiana do seu conteúdo intestinal, sob pressão educativa centrada em palavras dos mais velhos sobre sujeira, asseio, limpeza etc. Ao responder à pressão dos seus educadores, a criança virginiana acata prontamente a disciplina que lhe é imposta. 

Esse quadro infantil deixa marcas que se refletirão mais tarde no comportamento do virginiano adulto. Se esta analidade for vivida superiormente, sublimada, poderemos ter expressões intelectuais superiores. Nos tipos malogrados, o virginiano ficará preso num emaranhado de condicionamentos racionalizantes que imporão limites muito medíocres à sua existência. Neste último caso é que encontramos os excessos quanto à meticulosidade, o perfeccionismo exagerado etc. Assim, casos de constipação intestinal ou piores (diverticulite) se revelarão como tendência à avareza, à implicância, ao puritanismo, às pequenas manias, ao gosto pelas classificações e coleções, às gavetas para tudo, ao amor à ordem e à limpeza. Quanto ao plano da ação, teremos os tipos contemporizadores, proteladores, que sempre deixarão a sua decisão para amanhã. No plano mental, será o cético, o lúcido, o organizado, o adepto das estatísticas, características que se acentuarão quanto mais a dominante terra prevalecer e, sobretudo, a ação de Saturno.    

A constelação de Virgem estende-se de 20º Virgem a 6º Escorpião. Ptolomeu atribui às estrelas que estão na cabeça e na asa sul da constelação influências mercurianas e marcianas, estas bem menos evidentes. Outras estrelas na mesma asa e da região da cintura proporcionam influências mercurianas e venusianas, estas bem mais fracas. Na região dos pés e na barra da vestimenta, estrelas com influências de Mercúrio e de Marte. A estrela mais importante de Virgem é Spica.


Spica, a estrela mais brilhante de Virgo, alfa, está hoje a 23º 09´ de Libra. Além dela, a única a ser considerada astrologicamente é Vindemiatrix, a 9º 15´ de Libra. A simbologia desta estrela aparece associada a dádivas à humanidade, contribuições que determinadas personalidades que a tinham em evidência fizeram no sentido do progresso, do avanço. A espiga, lembremos, é um símbolo da fertilidade, do que alimenta, sugerindo tanto a maturidade da vida vegetal e animal como da vida psíquica. Bem
MOZART
posicionada e aspectada, Spica “alimenta” o quadrante onde aparece, proporcionando sempre benefícios. Um tema exemplar para estudo desta estrela pode ser o de Wolfgang Amadeus Mozart. Lembremos que Spica, juntamente com Sirius (Canis Major) e Canopus (Carina), estão entre as estrelas mais importantes do céu.  

DIONISO   E   AMPELO
Vindemiatrix ou Vindemiator, o vindimadeiro, é representado no mito grego por Ampelo, jovem amado por Dioniso. Filho de um sátiro e de uma ninfa, recebeu do deus um presente, uma videira carregada de cachos. Ao colher as uvas que estavam na parte mais alta, Ampelo caiu e morreu, sendo transformado por Dioniso nessa estrela. Vindimiatrix, simbolicamente, fala de coleções, lugar onde agregamos coisas, onde guardamos algo para uso futuro, lembrando cuidado, atitude previdente. 

                                      

terça-feira, 22 de setembro de 2015

GALAHAD II


                     
GALAHAD
    
As mais antigas civilizações, desde as primeiras etapas de sua formação, sempre glorificaram alguns seres que de certa maneira se destacaram por feitos ou deixaram algum exemplo. Reis, príncipes, fundadores de religiões, de impérios, de cidades, guerreiros etc. De um modo geral, a esses seres se deu o nome de herói, palavra que veio do grego, héros, heroos, latinizada depois, usada também, nos mitos, para designar um semideus (filho de uma divindade e de um mortal) ou um mortal divinizado. Mesmo as civilizações que não seguiram de perto os modelos asiático e europeu, como as do norte, centro e sul americanas, tiveram essas figuras nos seus mitos. A única exceção que realmente poderíamos destacar, com relação ao tema heroico, nós a encontramos na civilização egípcia, nele inexistente. 

Nas suas raízes etimológicas (gregas) mais profundas a palavra herói designava na mitologia o filho de um deus ou de uma deusa com um ser humano. Aos poucos, a palavra passou a ser utilizada para denominar um mortal divinizado após a sua morte (evemerização) e também aquele que se notabilizou por seus feitos guerreiros, sua coragem, sua abnegação. O sentido da palavra foi se ampliando, admitindo-se depois seu uso para apontar pessoas que suportaram um destino incomum ou que se dedicaram, até com o sacrifício da própria vida, a trabalhar pela humanidade. Do século XVIII em diante, com o Romantismo, uma nova dimensão foi incorporada à palavra, principalmente através da Arte, mais da Literatura. Determinados personagens que problematizavam sua relação com a sociedade começaram a ser chamados de heróis. Hoje, a palavra é aplicada a pessoas que se destacam por suas relações, dignas ou indignas, que se tornam de algum modo o centro das atenções.


CAVALEIRO  MEDIEVAL  E  SUA  DAMA

De um modo geral, os heróis, nos mitos de todas as culturas, são considerados também como um elo, um traço de união entre a terra e o céu. Podem eles, contudo, em determinados casos, adquirir a imortalidade através de feitos e conquistas excepcionais. No geral, simbolizam um esforço evolutivo, um desejo de superação, de transcendência, que é buscado em meio a impulsos muitas vezes contraditórios, desmedidos, que os levam a tentar se igualar aos deuses ou até mesmo superá-los. Os temas da vida heroica se fixam na conquista da glória, da imortalidade, procuradas através de dois caminhos principais, a via social (horizontal) e a via espiritual (vertical) que, às vezes, se interpenetram. 

Sabemos que a imagem do herói pode se associar em sonhos, em todos os estágios do desenvolvimento psíquico do ser humano, à presença de um guia, de um mestre, de um orientador. Essa figura estará sempre relacionada com o devenir, com o futuro do sonho do herói, como uma proposta de mudança indispensável de autosuperação, de evolução, de transcendência.  


LEITURA   NOS   CONVENTOS

O tema do heroísmo nas lendas (legenda, em latim, o que deve ser lido), além dos caminhos acima apontados, tomou também uma outra direção a partir dos séculos do início da era medieval. As lendas, nesses primeiros tempos, tinham por motivo a vida de santos e de mártires, cujas histórias, reproduzidas em textos, eram lidas (daí o nome legenda, o que deve ser lido) nos refeitórios dos conventos. Passaram essas histórias depois à vida profana como contos populares que tinham por base certos fatos que aos poucos foram se embelezando, se desenvolvendo, transmitidas e transformadas pela imaginação popular. Tais lendas procuraram invariavelmente descrever ações ou ideias através da crônica de certos heróis, com o objetivo de fazer com que o público participasse desse mesmo impulso. Perdeu-se, assim, o fato histórico e no seu lugar o que mais se fixou foi a ação maravilhosa. 

A palavra maravilhoso, do latim mirabilia, traduz tanto a ideia de algo que espanta com a daquilo que pode merecer também crédito, sempre causando admiração, opondo-se tais conceitos aos de realidade ou de normalidade. Há sempre, também, a ideia de transgressão de fatos empíricos. No Ocidente, na cultura medieval, o maravilhoso torna-se um motivo central na literatura cavaleiresca dos sécs. XII e XIII, uma espécie de arma cultural a serviço da aristocracia e dos meios eclesiásticos.


CANÇÃO DE GESTA


Nas lendas, a via é mais social. Ao contrário dos mitos, os personagens lendários não participam, de um modo geral, do divino. O herói da lenda é um personagem enraizado na história, notabilizado por seus feitos guerreiros, por sua coragem, tenacidade, abnegação, magnanimidade e pureza.  Alguns heróis, embora fixados no plano social, histórico, simbolizaram, entretanto, pelo seu exemplo, uma proposta de transcendência “vertical”, espiritual, religiosa. 


CARLOS   MAGNO

Com o título de canções de gesta aparecem nos séculos seguintes ao reinado de Carlos Magno (768-814), na Europa, principalmente na França, algumas produções poéticas, geralmente compostas em versos de dez sílabas, que louvavam os feitos maravilhosos e heroicos de certos cavaleiros que teriam vivido nas cortes de tempos passados, de modo especial, na época carolíngea, entre os sécs. VIII-IX. Esta literatura é considerada como um subgênero da epopeia e tem características formais específicas, usa uma linguagem estereotipada e procura desenvolver temas ao mesmo tempo religiosos e guerreiros. Gesta vem do latim, gesta, gestorum e tem aqui o sentido de façanhas, feitos heroicos, memoráveis, reais ou imaginários. 


Desde o final do séc. XI, a canção de gesta passou a ser salmodiada por um cantor profissional itinerante, diante de um público muito variado e em grande parte analfabeto que se reunia em lugares de grande concentração popular, praças públicas, feiras, mercados ou lugares de peregrinação. Os auditórios desta literatura, de forte tradição oral, eram entusiastas tanto nas cidades como nas estradas. O ritmo era um dos elementos essenciais destas produções. Os cantores (poetas) procuravam desenvolver seus temas repetidamente, uma sucessão de clichês muitas vezes, usando técnica semelhante à dos aedos (poetas-cantores) gregos dos tempos de Homero (850 aC), tudo para facilitar a sua memorização. De outro lado, valendo-se de recursos como os da variação na repetição, uma espécie de retórica muito peculiar, procuravam eles prender a atenção dos auditórios, formados em grande parte, como se disse, por um público iletrado.

TROVADOR 
Esta literatura, inicialmente voltada para a glorificação dos feitos fundadores da civilização medieval, guerreira, feudal e cristã, foi mudando, a partir do séc. XII, procurando expressões menos rudes, mais elegantes de vida, nas quais as mulheres passavam a ter um papel mais ativo. Surge então a chamada literatura cortês, praticada nas cortes. Dava-se o nome de corte à entourage de um príncipe; era essa entourage que o ajudava e aconselhava, auxiliando-o a administrar os seus domínios, a fazer justiça e a tomar decisões políticas. Nos séculos XI e XII, as cortes dos príncipes ocidentais constituíram o cenário onde começou a se desenvolver esta literatura.

Os costumes e as maneiras se suavizam nesse período. A nobreza medieval se tornou uma classe hereditária cada vez mais fechada. Sob a influência da Igreja Católica, os sentimentos de generosidade e de polidez entraram em circulação. Criou-se uma vida mundana, pontuada por festas e cerimônias. As mulheres, as damas, adquiriram um papel importante na fixação das novas regras de convivência palaciana, regras estas que aos poucos iam permeando inclusive as camadas sociais mais baixas.

 As escolas episcopais e monásticas formavam um público de leitores atraídos pelas obras em latim e em francês. Estas obras eram escritas especialmente para uma elite mais civilizada, tendo por tema aventuras sentimentais em meio a ambientes elegantes e luxuosos. Esta literatura tomou o nome, como se disse, de cortês porque se destinava, sobretudo, a um público que frequentava a corte. 

No séc. XII, a promoção da mulher é favorecida por uma iniciativa da Igreja Católica. O culto da Virgem Maria, até então apagado, passou a ser muito prestigiado nos meios católicos com o objetivo de se realçar, como altamente desejáveis sob o ponto de vista social, modelos espiritualizados de vida. Esses modelos procuravam acima de tudo valorizar o papel da mulher na construção dessa nova ordem, destacando temas como a concepção do mundo e da sociedade articulada por uma relação hierárquica entre a carne e o espírito, impondo-se este àquela de modo indiscutível; como a santidade do casamento; como a virgindade da mulher solteira; como a atenuação da natureza carnal da mulher, não mais vista fonte absoluta da luxúria e do pecado; como a desculpabilização da mulher, sempre considerada a causadora da expulsão do Paraíso; como as limitações eclesiásticas e judiciárias a que as mulheres estavam submetidas, entendidas como naturais, pois o homem (só ele) tinha sido criado à imagem de Deus (Gen 1,26) etc.


                               ANUNCIAÇÃO ( FRA ANGELICO)

Lembre-se que a Virgem Maria, que antes do século IX só tinha uma festa (1º de janeiro), no fim do século XII já contava com quatro: Anunciação (25 de março), Assunção (15 de agosto), Natividade (8 de setembro) e Purificação (2 de fevereiro). Entre os séculos XIV e XV, acrescentar-se-ão Visitação, Entrada no Templo, Dores de Maria e finalmente Concepção. Com esta promoção, a Virgem Maria se “individualizou” e adquiriu autonomia com relação às questões ligadas ao seu Filho, apesar de todas as discussões que se seguiram nos meios cristãos sobre tal “independência”, muito incômoda às vezes, sempre tivessem procurado garantir a pureza da mãe de Deus, declarada como virgem ante partum, in partu et post partum. 


VISITAÇÃO  DA  VIRGEM  MARIA  A  SANTA  ISABEL  (GIOTTO)

Uma das melhores imagens sobre o papel da mulher nessa nova ordem apareceu entre os séculos XV e XVI como a temos no conjunto das seis tapeçarias, denominadas La Dame à la Licorne, hoje no Musée de Cluny, em Paris. Em cada tapeçaria, sobre um fundo ornado de flores (mille fleurs) e animais, uma jovem mulher é representada cercada de emblemas heráldicos, notadamente um leão e um unicórnio. O conjunto forma uma alegoria dos cinco sentidos; na sexta tapeçaria aparece a frase À mon seul désir, ou seja Segundo o meu livre arbítrio, ou ainda Sem submissão aos sentidos. 


TAPEÇARIA  LA  DAME  À  LA  LICORNE  


Dentro da literatura cortês, muito variada, há um tópico temático que recebeu o nome de matéria bretã, de inspiração celta, mais exatamente a lenda do rei Arthur. Em 1.135, Geoffrey of Monmouth publicou a sua Historia Regnum Britanniae (História dos Reis da Bretanha), em latim. Esta obra foi traduzida livremente, em octassílabos, para a rainha Alienor, pelo poeta anglo-normando Wace. Revelava-se por ela, para os franceses, a lenda do rei Arthur, chefe dos celtas, que comandou a resistência contra a invasão dos saxões no século VI. 

A figura de Arthur se situa entre a fronteira do real e do imaginário. Sua identidade histórica é a de um chefe militar que organizou no século VI a luta da nação bretã contra o invasor saxão. A literatura vai lhe dar uma segunda existência e fazer dele um rei mítico, um soberano ideal, ao mesmo tempo modelo e representação de todas as virtudes cavaleirescas da Idade Média. 


REI    ARTHUR




A história de Arthur se insere nas tradições da mitologia dos celtas e fala de sua volta, do seu retorno maravilhoso. As lendas trataram Arthur como um rei poderoso e refinado, que mantinha uma corte luxuosa, dela fazendo parte, como mais próximos, os valentes cavaleiros da Távola Redonda. Estes cavaleiros sentavam-se à grande mesa circular para evitar disputas quanto às preferências reais. O cenário das aventuras de Arthur e de seus cavaleiros era a Armórica (nome da Bretanha antes do séc. VII) e mais a região compreendida pela Cornualha, por Gales e pela Irlanda.


TÁVOLA   REDONDA



A crônica de Arthur foi cantada por bardos galeses e por diversos outros (Nennius, Monmouth), fixando-se na França pela obra de Wace e principalmente pela de Chrétien de Troyes (1.135-1.183), o criador do romance moderno, centrada esta última no ciclo do Graal. No século XIII, todas estas obras foram colocadas em prosa sob o título de Lancelot em Prosa ou Corpus Lancelot-Graal, compreendendo cinco partes: A História do Santo Graal, A História do Mago Merlin, O Livro de Lancelot do Lago, A Demanda do Santo Graal e A Morte do Rei Arthur. 


  HISTÓRIA  DE  LANCELOT  E  O  SANTO  GRAAL


O Graal ou Santo Graal (gradalis em latim é um prato largo e cavo, uma espécie de terrina, onde se colocam alimentos de forma gradual; em grego, temos krater, que deu a forma latina cratale, cratalis) seria um cálice muito grande, de que Jesus Cristo teria se servido na última ceia com os discípulos e no qual José de Arimateia teria recolhido o sangue e a água provenientes das chagas do
GRAAL
Crucificado quando de sua Paixão. Segundo lendas bretãs medievais, o Graal teria sido levado para a Bretanha e depositado numa capela dentro de um bosque. O tema do Graal está na base de muitas lendas, de acontecimentos maravilhosos, de fatos extraordinários, inspirando os romances do rei Arthur e dos seus cavaleiros.


Como não poderia ser diferente, as versões sobre a história do Graal, produzidas ao longo dos séculos, são muitas e até, às vezes, contraditórias. Mas há algumas, pouco exploradas, que nos parecem interessantes pois, em que pese toda a carga de maravilhoso e de extraordinário presente, nos permitirão encontrar alguns veios históricos pouco explorados. 

JOSÉ  DE  ARIMATEIA
Um deles, por exemplo, tem como ponto de partida o papel de José de Arimateia na história do Graal. Explorando-o, tomamos conhecimento, numa das versões, de que foi ele, Arimateia, quem trouxe o Graal para a Europa. Senador, discípulo secreto de Jesus, rico comerciante, seus negócios estendiam-se por todo o Mediterrâneo, da Palestina à Britânia. Nas novas terras, Arimateia, liderando um grupo, foi aprisionado e libertado tempos depois por um certo Mordrain, que, como diz a lenda, devidamente inspirado por Cristo, passou não só a lhe prestar assistência como construiu um mosteiro para abrigar o Graal. Para guardião da sagrada peça, foi designado Alain, filho de um cunhado de
CASTELO  DE  COBERNIC
Arimateia. Por ter, certa vez, pescado um grande peixe, com o qual pode alimentar toda a família, Alain passou a ser chamado de Rei Pescador, título que, desde então, ligeiramente adaptado (Rico Pescador) passou a ser aplicado a todos os sucessivos guardiões do Graal. Alain levou depois o Graal para o castelo de Corbenic, onde, bem mais tarde, irão procurá-lo os cavaleiros do rei Arthur.



O apelido de pescador, como se sabe, é um título dado a São Pedro, pois, pela sua ação catequética, ao converter os homens, ele os “pescava”, salvando-os da perdição. Os apóstolos de Cristo eram, em grande parte, pescadores de profissão. Além do mais, lembremos que é de um dos títulos de Cristo, em grego, Iesus Christos Theou Uios Soter (Jesus Cristo, filho de Deus, Salvador), que sai a palavra Ichtus, peixe, em grego, símbolo do Cristianismo.

As versões sobre a história do Graal apontam um número bastante variável com relação aos cavaleiros. Esse número oscila, segundo as versões, entre doze e cento cinquenta. Os cavaleiros de Arthur se empenharão na busca do precioso cálice, que tomará um sentido místico e eucarístico nos romances. Com efeito, o Graal é tanto um símbolo da vida mística como de aspiração à perfeição cristã que leva a Deus. A cavalaria, que antes estivera a serviço do rei ou da dama, de inspiração terrestre, militar, colonizadora, estava agora a serviço do céu, uma cavalaria celeste. 

Dentre os mais hábeis cavaleiros na busca do Graal destacaram-se Lancelot e Perceval. Contudo, por viverem mundanamente, não conquistarão o precioso tesouro. Foi Galahad ou Galaaz, filho de Lancelot do Lago, cavaleiro puro, livre de toda tentação terrestre, que de fato se aproximou do objeto maravilhoso, antes de deixar a terra, contemplando-o num êxtase que representava a felicidade mística. 

Para chegar ao Graal, símbolo da plenitude interior, era preciso, diz a história, ir além de Lancelot ou de Perceval. O Graal equivale ao caldeirão da mitologia celta, que tanto proporcionava de modo inesgotável alimento para o corpo como iluminava interiormente. É uma conquista que não está ligada a ações externas, mundanas, pelas armas, mas, sim, a uma radical transformação interior, do espírito e do coração.


CORNUCÓPIA
Sob o ponto de vista mundano, entretanto, o Graal, pelos poderes que confere, pode ser considerado um talismã, algo assim como a cornucópia criada por Zeus, a lâmpada de Aladin, o anel de Gyges, o capacete da invisibilidade ou as sandálias voadoras que Perseu usou. Tecnicamente, o talismã (do grego, telesma, objeto consagrado), pela sua preparação ritual e natureza mágica, tem relação com poderes, sendo, neste sentido, ativo. Difere do amuleto (do latim, amuletum, protetor, preservativo), de natureza passiva, que protege contra infortúnios e desastres, exercendo uma função apotropaica, afastando os males. Era o caso, entre os antigos gregos, de estatuetas do deus Príapo, colocadas nos pomares e jardins das casas para afastar Phtonos, a Inveja. 

O tema do Graal vem sendo utilizado desde o século XIX também por alguns estudiosos, fora dos fechados circuitos universitários, para defender a tese de que sempre existiu na Inglaterra, institucionalmente, uma Igreja, cuja origem se perdia em tempos muito remotos, anteriores mesmo à chegada do Graal. Tal defesa se baseia numa possível ligação estabelecida entre a Palestina e a Inglaterra. Cristo e o rico José de Arimateia, em segredo, diz a lenda, visitaram o local, onde se localizava a ilha de Avalon do mito celta, lugar em que, mais tarde, se formaria a pequena cidade de Glastonbury, perto de Bristol, a cerca de 150 km. de Londres.

Depois da morte de Cristo, Arimateia, conforme se disse, em companhia de um grupo, conseguiu chegar ao local por ele anteriormente visitado, ali se levantando uma igreja para guardar a preciosa peça. Esta ligação, reativada mais tarde, teria dado origem à Igreja Anglicana, por pressão de emissários que teriam vindo da Terra Santa. Estes emissários, segundo a tese sobre a qual ora discorremos, se fixaram em Glastonbury.          Estas histórias sobre
Glastonbury (onde se realiza nos tempos de hoje talvez o maior festival de música popular da Grã Bretanha) ganharam grande divulgação principalmente a partir do século XIX, tocando corações e mentes, provocando um revival sem precedentes da mitologia celta, como aconteceu, por exemplo, pioneiramente, com William Blake. 




A história do Santo Graal ganha outra dimensão, ampliando-se bastante o seu alcance simbólico, histórico e psicológico, quando estudada à luz da Astrologia (signo de Virgem). É pelas aproximações que podemos fazer entre a lenda do Graal e a Astrologia, que ampliamos o sentido dessa história. A começar por trazer à discussão o problema da sua origem. Uma variante esquecida, mas muito importante, nos coloca diante de um texto que Guyot, poeta provençal da metade do séc. XII, teria encontrado em Toledo, na Espanha, numa biblioteca. Por esse texto, de autoria de um tal de Flegitanus, astrólogo, tomamos conhecimento de que a história do Graal era, como nele está, de origem árabe. O nome Flegitanus provinha, ao que parece, do persa, formado a partir de felehedaneh, palavra que quer dizer astrologia. Não só por esta, mas por outras razões, não será estapafúrdio admitir que a história do Graal tenha sido trazida do Leste para o Ocidente pelos Cavaleiros Templários. 


CAVALEIROS   TEMPLÁRIOS

Se ao que está acima acrescentarmos outras observações de natureza astrológica não será disparatado defender a hipótese de que a história do Graal é, antes da sua cristianização, como ocorreu com relação a muitas lendas medievais, um texto de inspiração astrológica. É a partir de Virgem, signo-recipiente do ego nascido no signo anterior, Leão, que devemos fazer a opção: buscar um caminho evolutivo, indo em direção do terceiro quadrante zodiacal, que se abre com o signo de Libra, ou regredir, ficando à mercê das várias pressões instintivas, representadas pelos signos anteriores (Câncer, Gêmeos, Touro e Áries). A purificação do ego leonino em Virgem pede, para a grande aventura cavaleiresca, que, feitos os votos de Galahad, o homem ideal entre na posse de suas três virtudes: coragem, fidelidade e pureza.


GLASTONBURY  TOR
Ao que está acima, acrescente-se, para justificar a persistência da lenda e as suas ligações com a Astrologia, que recentemente descobriu-se em Glastonbury uma enorme figura zodiacal, traçada em extensa área do solo, nos arredores da cidade, entendendo-se ela até a famosa colina (Glastonbury Tor), onde está porta que dá acesso a Avalon, local de culto de antigas divindades femininas.  

Galahad é filho de Lancelot e de Elaine, filha do Rei Pescador. Seu nome vem do hebraico, galead, testemunho, de onde chega ao latim bíblico, Galaad (Gênesis XXXI, 47-48). Galahad, na história, era descrito como um cavaleiro extremamente delicado, solícito, o que menos tinha a ver com aventuras sexuais. Sua pureza e sua quase que total ingenuidade é que lhe deram fama. Lendas celtas revelam que quando a Távola Redonda foi instituída um lugar foi mantido deliberadamente vazio. Esse lugar era chamado de Siège Dangereux (Assento Perigoso), destinado ao cavaleiro que um dia encontraria o Graal. Este cavaleiro deveria possuir uma inigualável
RAINHA  GUINEVERE
pureza e, para provar seu valor, teria de retirar uma espada de uma pedra onde fôra cravada (este episódio é uma transposição do mesmo acontecimento que encontramos no mito de Teseu, famoso herói grego). Vários cavaleiros do cortejo de Arthur, incluindo Gawain (Gauvain) e Perceval, tentaram em vão retirar a espada. Lancelot, ciente de sua adúltera relação com a rainha Guinevere, para não desvalorizar a prova, declinará de tentá-la. 


Ao chegar a Camelot, Galahad, lançou-se à prova, realizando-a
CAMELOT
com sucesso. É depois deste acontecimento que os cavaleiros vão procurar o Graal, sendo Galahad o primeiro a dele se aproximar, não podendo, por isso, retornar ao mundo dos homens. Sua alma foi transportada por anjos para os céus, para onde também foi o Graal, levado da terra misteriosamente por mãos que das nuvens desceram. 


Através dos séculos, a imagem de Sir Galahad, como a de um cavaleiro cristão puro e ascético, foi suplantada pela de um cavaleiro cortês, um perfeito gentilhomme. Alguns estudiosos que especularam sobre os romances do Graal chegaram a sugerir que isto se deveria provavelmente a uma certa homofonia entre Galahad e a palavra galant em francês ou gallant, graceful em inglês, (galante, gracioso, gentil, valente, garboso). É com este sentido que Galahad “vive” na língua inglesa como um termo que descreve um modelo de cavalheirismo e de cortesia com relação ao sexo oposto, um perfeito gentleman. 

O ideal de espiritualização da cavalaria, que Galahad encarnou, mais do que qualquer outro cavaleiro, se perdeu. O que ele passou a representar no ideário anglo-saxônico está bem longe daquele cavaleiro que era, antes de tudo, o mestre da sua montaria. O cavaleiro que, ao mesmo tempo em que servia a sua religião e o seu rei, que participava das cerimônias da corte ou que poderia se devotar a uma dama, nunca deixava de interiorizar os seus combates. Talvez o que tenha contribuído bastante para esta descaracterização tenham sido as palavras do velho rei Merdrain, ao abraçar o nosso herói: Galahad, preposto divino, lídimo cavaleiro por quem tanto esperei, abraça-me e permite que eu repouse sob tua proteção, a fim de que eu possa morrer entre teus braços; pois tu és virgem e mais puro que qualquer outro cavaleiro, tanto quanto a flor de lis, signo de virgindade, é mais branca que qualquer outra flor. És um lírio de virgindade, és uma rosa ereta, uma flor de boa virtude e da cor do fogo, o fogo do Espírito-Santo que tão bem te ilumina, eis que minha carne, envelhecida e morta, já se sente toda renovada. (A Demanda do Santo Graal). 

BALDER
Galahad é também, sem dúvida, um símbolo que atualiza o grande modelo que é o deus Balder, dos povos nórdicos, num outro contexto. De uma santidade espantosa, Balder é o melhor de todas divindades escandinavo-germânicas, todos o louvam; sua aparência é tão bela que ele se torna luminoso, sendo comparado, por isso, às brancas flores dos campos, como acontece com Galahad. Balder é, dentre todos os deuses, o mais clemente, possuindo todas as virtudes: sabedoria, sensibilidade e bondade. Galahad, como Balder, ignora os vícios, seus pensamentos são sempre sublimes, suas palavras são sempre justas. 

O Cristianismo medieval, de modo especial o praticado pelos cistercienses, que tinha na mais alta conta a Ordem dos Templários, aproximou bastante a figura de Galahad da de Cristo. Chamado pelo nome de O Esperado, ele era uma espécie de Cristo Cavaleiro, pois, além de destruir os ímpios, todos os que sofriam, à sua aproximação, se viam curados, os demônios era afugentados e os encantamentos e sortilégios se desfaziam.


PRÍNCIPE VALENTE
Em 1937, com desenhos de Harold Hal Foster, apareceram nos USA as histórias em quadrinho de um cavaleiro que lembrava muito Galahad. Era o Príncipe Valente. Em 1949, o cinema se apossou de Galahad. Os estúdios da Colúmbia lançaram um seriado com o título de As Aventuras de Sir Galahad, com George Reeves, o Superman dos anos 1950, no papel-título. Em 1954, Henry Hathaway dirigiu O Príncipe Valente, com James Mason (Sir Brack), Robert Wagner (Príncipe Valente) e Janeth Leigh (Aleta), nos papéis principais. Em 1975, aparece na Inglaterra, na criação coletiva do grupo Monty Pyton, Em Busca do Santo Graal. Em 1981, John Boorman, dirigiu Excalibur. O melhor filme até hoje produzido sobre o tema (cavaleiros, matéria bretã, poesia medieval) continua sendo, sem dúvida, Lancelot du Lac,  do genial cineasta francês Robert Bresson. Para ampliar um pouco mais a compreensão do mundo medieval, recomenda-se aqui que, embora não nos falem diretamente de Arthur e de seus cavaleiros, não deixem de ser vistos, em especial, dois grandes filmes: Les Visiteurs du Soir (Os Visitantes da Noite), realizado por Marcel
ANJELICA  HUSTON
Carné, em 1952, com roteiro do grande Jacques Prévert e de Pierre Laroche, com Alain Cuny e Arletty nos papéis principais. O outro é
A Walk with Love and Death, de 1969, dirigido por John Huston, com a juvenil Anjelica Huston no seu primeiro papel no cinema, ao lado de Assi Dayan, falecido em 2014, filho do famoso militar israelense Moshe Dayan.