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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

ÁRIES (1)

       
  
          

O signo de Áries ou do Carneiro tomou lugar como ponto de partida do Zodíaco no de 1.662 aC, sendo chamado desde então de Princeps Signorum Coelestium, a constelação que surgia com o Sol no primeiro dia da primavera, símbolo da ressurreição. Ela está situada a oriente de Pegasus, o cavalo alado, gerado por Poseidon e pela Medusa. Três estrelas formam o seu chifre e focinho, um triângulo, a ocidente das Plêiades. A parte superior do carneiro se liga à traseira da constelação do Touro. Nas gravuras, desde a antiguidade, Áries é representado de modo a que observe tanto a constelação que lhe segue, Touro, como todas as demais. Outras gravuras mostram o Carneiro com a sua cabeça voltada para o planeta Marte, ambos fortemente associados.

Os mesopotâmicos consideravam Áries como o signo-chefe do
ÁRIES
Zodíaco, chamando-o de Iku (herói, líder militar), nome retirado de sua principal estrela, Hamal, equivalente ao nome Rubu (príncipe). Os astrônomos do país também chamavam esta constelação de Gam, A Cimitarra, a espada de lâmina curva. Áries foi adotado pelos babilônicos quando assumiu a condição de ponto de partida do equinócio vernal, ocupando uma posição, como se disse, entre Pisces e Pegasus. 







TAMMUZ - RELEVO 1500 AC
Os povos que viviam entre os rios Tigre e Eufrates associavam ao signo de Áries o mito de Tammuz,  O Filho da Vida, aquele que retorna sempre trazendo a primavera. Contam os mitos que na juventude a deusa Ishtar amou Tammuz, o deus da energia vital que voltava a cada ano com a vegetação.  Segundo o poema de Gilgamés, este amor causou a morte do jovem deus. Tomada por imensa dor, apesar de suas lamentações, elaborou a deusa um audacioso plano para libertar seu amor da morte. Os gregos, como sabemos, retomariam esta história através do mito de Adônis, transferido da Fenícia para a mitologia grega.

Na sua origem mesopotâmica, a mito nos conta que, morto
ISHTAR
Tammuz, Ishtar resolveu descer aos infernos, “o lugar de onde não se volta”, para resgatá-lo. Conseguiu ela abrir os portões infernais e ultrapassar os seus sete patamares descendentes, deixando em cada um deles, à medida que descia, uma peça de sua roupa ou uma joia que usava: primeiro a sua grande coroa, depois seus brincos, seu colar, suas vestes, seu cinturão guarnecido de brilhantes, os braceletes e os cordões de pedras preciosas dos seus tornozelos. Por fim, na última etapa, se despiu inteiramente, como diz o mito, deixando no chão as “vestes do pudor de seu maravilhoso corpo”. 

ERESHKIGAL
Chegou então diante de Ereshkigal, a Senhora dos Infernos, atirando-se sobre ela. Chamando seu assessor, Namtaru, a rainha do mundo infernal deu-lhe ordens para prender a deusa, fechando-a num palácio, e mandando que liberasse para atacá-la os demônios das doenças. Aprisionada a deusa, logo a desolação se espalhou por toda a Terra e pelo Céu, tudo tomado por uma imensa tristeza. Os deuses, apavorados, se reuniram para decidir. Ea, uma espécie de Poseidon mesopotâmico, criou então Asushunamir, o efeminado, deu-lhe instruções mágicas e o mandou libertar Ishtar.
ASTARTE

Magia contra magia, a de Ea era a mais forte. A deusa e Tammuz foram libertados. A fertilidade voltou à Terra. Ishtar é, entre os assírios e babilônicos, a soberana inconteste das artes do amor. Popularíssima na Ásia Menor, tomou o nome de Astarte na Fenícia e forneceu muitos dos seus traços para a Afrodite grega. 

Tammuz (Mesopotâmia), Dummuzi (Suméria), Átis (Anatólia) e Adônis (Fenícia-Grécia) representam o mesmo modelo,  o de uma divindade ligada ao ciclo da vida vegetal, deus morto e ressuscitado anualmente, o mundo vegetal que renasce a cada ano na primavera. São todos deuses que, em várias religiões e culturas, representam o ciclo anual da vegetação; desaparecem no fim do verão, indo para o
CIBELE
mundo subterrâneo, de onde voltam, ressurgindo periodicamente. Dummuzi é o amante da deusa Inana, depois Ishtar. Átis é um deus anatólio da vegetação, companheiro, servidor e amante da deusa Cibele, Grande-Mãe da Ásia Menor, cujo culto chegou a se alastrar por quase todo o  mundo mediterrâneo, alcançando inclusive Roma. Os ritos de Cibele-Atis tinham caráter orgiástico, eram dominados por paixões violentas e estranhas, deles fazendo parte cerimônias de castração e sacrifícios sangrentos (taurobolium), que simbolizavam a fecundidade pela morte. 
 

Tammuz, como se disse, é o “Filho da Vida” e seu culto, oriundo primeiramente da Mesopotâmia e depois da Fenícia,  aparece na Grécia, onde o deus toma o nome de Adônis (adon quer dizer senhor).  Grande amor de Afrodite, Adônis, foi assassinado pelo deus Ares, antigo amante da deusa, na forma de um monstruoso javali. Narram os mitos gregos que tudo começou quando Teias, rei da Síria, teve uma filha de nome Smyrna ou Smine (Esmirna), antigo nome da cidade de Éfeso, derivado por sua vez, segundo o mito, do nome de uma amazona que havia conquistado a região. 

Possuída por imensa hybris, julgou-se Smyrna mais bela que a deusa do amor. Foi punida terrivelmente por Afrodite, que a fez perde-se por incontrolável paixão carnal pelo próprio pai. Conseguiu a princesa se relacionar com Teias, insinuando-se no seu leito, sem que ele percebesse. Depois de certo tempo, o pai, contudo, tomou conhecimento de que a filha o enganava e tentou matá-la. Pedindo a proteção dos deuses, a princesa foi transformada numa árvore a que se deu nome Mirra. Meses depois, na casca da árvore desenvolveu-se um feto que, vindo a termo, foi recolhido
MIRRA
por Afrodite e confiado secretamente a Perséfone, rainha do Hades, para que dele cuidasse. A mirra, lembre-se, é o nome de um vegetal cuja casca exsuda uma resina aromática, rara e valiosa, muito usada na antiguidade pelos povos do Mediterrâneo na perfumaria, como incenso, e para fins medicinais. Entre os egípcios, a mirra era um componente muito importante, além de usada nas práticas da mumificação e nos cultos de Osíris, daquilo que os gregos chamavam de kyphi, o perfume dos deuses. 

AFRODITE  E  ADÔNIS
Tempos depois, indo buscar a criança, já um formoso jovem, Afrodite não conseguiu fazer com que Perséfone o devolvesse. A disputa foi arbitrada por Zeus. Ao final, ficou decidido que o jovem passaria uma parte do ano com Perséfone no reino dos infernos (quatro meses), no mundo subterrâneo, e o restante do ano com Afrodite, na superfície. 

Tudo corria bem até que num certo dia o lindíssimo jovem resolveu ir à caça, não conseguindo Afrodite demovê-lo de tão perigoso intento. Adônis foi atacado e ferido mortalmente pelo deus Ares, antigo amante da deusa, na forma de um enorme javali, que não suportou vê-la com novo amor. Ao tentar socorrê-lo, a deusa pisou num espinho. De seus divinos pés caíram gotas de sangue que tingiram de vermelho uma branca e perfumada flor, que a partir de então passou a simbolizar o amor, a rosa vermelha. 


ADÔNIS  E  AFRODITE   ( CORNELIS  PIETERS  HOLSTEIJN )

A pedido de Afrodite, Adônis foi transformado por Zeus numa flor primaveril, a anêmona (palavra que significa vento, em grego) delicada e frágil, que fenece rapidamente. Esta história se liga
ANÊMONA
(ADÔNIS AESTIVALIS)
obviamente ao ciclo das estações, ilustrando a luta entre Afrodite e Perséfone o nascimento (primavera) e a morte (outono) do mundo vegetal. A morte desse deus oriental da vegetação era solenemente celebrada na Ásia Menor através dos famosos Jardins de Adônis, com grandes procissões e lamentações rituais (para maiores informações sobre o mito Afrodite-Adônis e os famosos jardins aqui mencionados, veja, neste blog, Mitologias do Céu - Vênus 3). 

Astrologicamente, a história de Afrodite-Adônis é uma ilustração do que acontece anualmente na natureza, através do eixo equinocial, quando a energia universal, sempre considerado o hemisfério norte, inicia em março a sua caminhada expansiva ao transitar o Sol pelo signo de Áries (início da primavera) e, seis meses depois, em setembro, esta energia  ao passar o Sol pelo signo de Libra (início do outono) começa a morrer.  

Entre os judeus, na antiguidade, Nissan é o nome do signo de Áries,
criado através da letra Heh. Dentre os atributos deste signo, entre os antigos judeus, está o do poder da palavra, do som primordial. No Talmud, estabelece-se que a letra Heh caracteriza o divino primeiro ato da criação, que corresponde ao elemento fogo. O signo de
PESSAC
Nissan, no corpo humano, relaciona-se com a cabeça, que deve controlar o corpo como o rei controla seu reino. O elemento fogo encontra expressão no sacrifício do cordeiro nas festas do Pessach. Era Nissan o signo que marcava o início do ano oficial, coroando-se nesse período os reis. 

O mês de Nissan sempre foi considerado como o mês que marca o início da formação da nação judaica. Este processo principiou na véspera do êxodo do Egito, culminando ele com o recebimento, no terceiro mês (Sivan – Gêmeos), da Torá (Ensinamento) na forma de
MOISÉS
mandamentos, no monte Sinai. Os judeus consideravam que a formação nacional judaica ocorrera nos três signos que constituem o primeiro quadrante zodiacal. Áries, o carneiro, simbolizava a unidade e a coletividade, considerando-se, além disso,  que num rebanho de carneiros cada um dos animais é (deve ser) idêntico ao outro. Assim como um rebanho de carneiros segue seu pastor, o povo judeu deve aceitar a autoridade de Moisés, o pastor. O segundo mês, Iyar (Touro) simboliza a individualidade; a ideia aqui é a de que, assim como o boi, que vive isolado, cada um dos judeus deve procurar voltar-se para o seu interior (introspecção), buscando auto-desenvolvimento, como uma preparação para o recebimento das leis.

Foi durante o mês de Nissan que o povo judaico se integrou numa comunidade, como os carneiros se integram num rebanho. Entretanto, foi também no mês seguinte que os judeus expressaram também a sua rebeldia, quando no deserto do Sinai se rebelaram contra Moisés e Aharon. As leis só foram dadas ao povo judeu no terceiro mês, Gêmeos, mês de um signo humano, pois os anteriores são signos animais. Para a Torá, Nissan é o mês da primavera (aviv), nele se encontrando ideias de desenvolvimento e de maturação. 

Para os antigos judeus, Nissan era também o signo que descrevia a nação egípcia, a mais poderosa de então. Na sua expressão negativa, o signo apontava, segundo os judeus, para tendências ditatoriais e atitudes agressivas, características, segundo eles, do faraó e dos egípcios em geral, que acreditavam só em si mesmos, egoístas e prepotentes. 

A saída do Egito é celebrada pelos judeus pela festa do Pessach
CALENDÁRIO  LUNAR  JUDAICO
(uma das etimologias desta palavra é “passar sobre”), relacionada com a liberdade e apontando para a redenção do mundo na idade do Messias. É também esta festa a da colheita da cevada e o fim da estação das chuvas. Lembre-se: sempre que necessário, o calendário lunar judaico deve ser ajustado com o acréscimo de um mês extra, para que o Pessach caia sempre na primavera. 


Durante toda esta festa não se come o pão levedado. Um dia antes do início da festa, a casa deve ser limpa de todo levedo, após uma busca de todas as migalhas que possam estar escondidas em qualquer canto ou fenda. A festa tem a duração de sete dias e começa no anoitecer da véspera de quinze de Nissan, a noite do Êxodo, com a refeição ritual da família. Nessa refeição se relata a historio do Êxodo; há tipos especiais de comida e bebida (vinho, pão ázimo, ervas amargas). A festa termina simbolicamente com o cruzamento do mar Vermelho pelos judeus, lendo-se então o Cântico dos Cânticos.


CÂNTICOS   DOS   CÂNTICOS   ( MARC  CHAGALL )

Durante o Pessach, os judeus proíbem, como dissemos, o consumo de qualquer comida que contenha fermento, pois este produto
MATSÁ
simboliza o orgulho. É durante este período que os judeus devem comer o matsá, pão não levedado ou pão ázimo, feito só de farinha e água. Este pão é chamado de “pão da aflição” porque foi comido por judeus, na condição de pobres e escravos, alimento também consumido durante todo o Êxodo. O matsá simboliza humildade e pureza, livrando do egoísmo e da agressividade.

Dentre as doze tribos de Israel, aquela que se associa à de Nissan é a de Yehuda (Judá), de David. Rei de Israel e descendente de Rute, a moabita, convertida ao judaísmo, David começou como pastor em
BETSABÁ  ( REMBRANDT )
Belém (a casa do pão) e o desvelo que demonstrava ao cuidar dos rebanhos de carneiros mostrou a Deus que ele poderia assumir o trono de Israel. David foi um rei guerreiro que ampliou as fronteiras do reino que herdou. A esposa favorita de David foi Betsabá, que lhe deu um filho, Salomão, seu sucessor. Na Cabala se explica que a principal característica de um rei deve ser a humildade, conceito que está implícito no nome de David. Etimologicamente, este nome significa o “Bem-Amado” e anuncia a vinda do Messias, que se dará pela linhagem de David.

David sempre apareceu ligado ao carneiro, cujas tripas ele utilizou para delas fazer as cordas de sua harpa. O nome David tem dentro
REI  DAVI  TOCA  HARPA
( GERARD VAN HONTHORST )
dele raízes indo-europeias que significam conduzir (vadh, ved) e dizer (wod). Para o judaísmo, aquele que comanda é aquele que fala, que brilha e arde. As consoantes dv geram um “calor doloroso”. Segundo a Nomancia, que faz a criptoanálise de nomes, David é nome que sugere força de trabalho colocada a serviço de projetos ambiciosos, aspirações elevadas, som a possibilidade de risco de perda do poder criador em projetos pouco significativos ou rotineiros. Há no nome David iniciativa e autoridade, grande necessidade de movimento, de encontros e de mudanças. É um nome contrário à obediência e à passividade, podendo por isso trazer infelicidade, caprichos e extravagância. Há que se ter, com o nome, cuidado com escolhas demasiadamente materialistas ou egoístas.

O carneiro à frente do rebanho é considerado pelos judeus como símbolo daquele que comanda. Esse carneiro, enquanto caminha, vai balindo e se ouve mehh, um som onomatopaico, que os hebreus traduzem pela expressão “quem somos nós?” É por essa razão que a tribo de Judá foi a primeira a iniciar a caminhada através do deserto quando do Êxodo. Coube às outras tribos segui-la, segundo a ordem zodiacal. Outro, aliás, não é o significado do Pessach (Peh+Sach), a boca fala, segundo a Cabala. O poder da palavra aparece aqui associado ao que comanda, ao chefe, o que tem voz e que está à cabeça. Antes porém do chefe proferir a palavra, a ordem, é preciso o julgamento, que está no signo oposto.


Segundo o Sefer Yetzirah, O Livro da Criação, o limite do corpo humano está associado ao signo de Nissan, sendo esse limite representado pela perna direita. A perna favorece contactos, suprime distâncias, tendo, por isso, importância social. É com a perna direita que devemos dar o primeiro passo (começar algo com a perna esquerda é ruim), sendo ela considerada por muitas tradições como o agente formador das sociedades. É a perna direita “obreira do social”, a que cria os laços sociais, sendo o pé, com todo o seu simbolismo, o “senhor da chave”. A cabeça, de Áries, deve trabalhar com o pé (símbolo do último signo zodiacal), sendo, nesse sentido, opostos e complementares. A perna e o pé tanto significam o início de alguma coisa como o seu fim. Partida e chegada.


Lembremos que bem antes de Abraão, o primeiro patriarca judeu, o carneiro já aparecia como símbolo astrológico-religioso. O chofar, pequena trompa feita com chifre de carneiro, já era empregado em rituais religiosos e ainda é usado em sinagogas ao fim do Yom Kipur (dia do perdão), antes e durante o Rosh ha-Shana (ano novo). 

No cristianismo, o Pessach tomou o nome de Páscoa, comemorativa da ressurreição de Cristo. O concílio de Niceia (325) a fixou no primeiro domingo depois da primeira Lua cheia seguinte
EASTRE
ao equinóxio da primavera. Esta festa sempre foi celebrada por todas as tradições, não só judaicas ou católicas. Entre os saxões, por exemplo, foi Eastre, deusa da primavera e do renascimento da natureza, que deu origem à palavra easter, páscoa, em inglês. Esta deusa tinha o coelho por atributo. As fogueiras da Páscoa simbolizam a vitória da luz sobre as trevas (o retorno do Sol). Os antigos germânicos acendiam suas fogueiras em homenagem a Thor, que lhes trazia de volta a primavera. Extintas as fogueiras, as cinzas eram recolhidas e lançadas sobre os campos, a fim de se torná-los férteis. Esta ideia de fertilidade se associa também ao costume da distribuição de ovos na Páscoa, símbolo do renascimento periódico da natureza.

Na Inglaterra, corre a crença, se a véspera do dia em que a festa da Páscoa coincide com o dia da Anunciação (25 de março), uma
NOSTRADAMUS
grande catástrofe se abaterá sobre o país. Aliás, segundo uma previsão de Nostradamus, quando o dia da Páscoa coincidir com o dia de São Marcos (25 de abril) e, por consequência, a Sexta-Feira Santa coincidir com o dia de São Jorge (23 de abril) e a festa de Corpus-Christi coincidir com o dia de São João Batista (24 de junho), teremos o fim do mundo. Estas datas coincidiram nos anos de 1.666 (ano do grande incêndio de Londres), em 1.734, em 1.886 e 1.943, anos de catástrofes.  

SACRIFÍCIO   DE   ISAAC  ( LASTMAN  PIETER , 1583 - 1633 )

Relacionada com o carneiro temos, entre os judeus, a história de Isaac, o filho primogênito do patriarca Abraão e de Sara, este submetido ao teste da obediência (akedá), também chamado de “amarração”. Tal teste consistiu numa ordem dada por Deus ao patriarca para que ele oferecesse seu filho em sacrifício no monte Moirá. Nos momentos finais da cerimônia, quando Isaac estava para ser morto, o arcanjo Gabriel deteve a mão de Abraão, colocando no seu lugar um carneiro. Após a traumática experiência da akedá, Isaac retirou-se da vida mundana, mas ficou com sérios problemas nos olhos por ter olhado o céu e visto Deus enquanto estava amarrado no altar de sacrifício. Além disso, seus olhos foram também afetados pelas lágrimas de chorosos anjos, apiedados de sua sorte quando da cerimônia. 




sexta-feira, 28 de outubro de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU -- PLUTÃO (4)





A Mesopotâmia, a chamada “Terra Entre Rios” pelos historiadores gregos, que corresponde mais ou menos ao Iraque de hoje, era em sua maior parte uma desolada planície de aluvião. Ficava fora dessa paisagem apenas uma parte de pântanos e brejos, com sua vegetação de caniço, onde os rios Tigre e Eufrates desaguam no golfo pérsico. O clima, de um modo geral, era (é) quente e seco. Não há minérios nem madeira para as construções, sendo o solo, se não receber cuidados especiais, árido e improdutivo.

Mas foi nessa região, no quinto milênio aC, que o homem se tornou, ao que parece, realmente civilizado. Um povo conhecido como sumério ergueu os primeiros centros urbanos na região, com uma vida opulenta e complexa. Foi esse povo que resolveu por primeiro tentar regularizar as relações entre o poder tribal e as necessidades políticas de se unir os grupos humanos dispersos pelos desertos em centros políticos poderosos. 



A unificação política veio acompanhada de uma grande engenhosidade técnica (a construção dos famosos zigurates, os templos em forma de torre), de grande especialização industrial e
ESCRITA CUNEIFORME
comercial para a época, ao lado de um excepcional desenvolvimento artístico. Importante também, para esse progresso urbano, que superava o do próprio Egito, a invenção de uma escrita, um sistema prático, que operou uma revolução no campo das comunicações. 

As ideias práticas dos sumérios, suas técnicas e invenções foram depois cultivadas pelos demais povos da Mesopotâmia, os babilônios, assírios e outros, difundidas de leste a oeste, imprimindo a sua marca em todas as culturas da antiguidade. O Antigo Testamento está cheio de referências aos povos mesopotâmicos. Visitada por historiadores e viajantes gregos e romanos, a região só voltaria a ser notícia por volta do séc.XII,
TEMPLO   EM   NÍNIVE
quando europeus começaram a fazer seus relatos sobre as ruínas que encontraram na planície entre o Tigre e o Eufrates. No século XIX, porém, quando uma verdadeira paixão pelas antiguidades orientais dominou a Europa, pesquisadores começaram a investigar os misteriosos vestígios das antigas cidades da região. Revelaram-nos eles, então, os esplendores da antiga Babilônia, de Nínive e de outros importantes centros urbanos da “Terra Entre Rios”.


A religião da antiga Mesopotâmia é, pelo menos até agora, a mais velha dentre as que nos oferecem documentos escritos. As crenças sumérias, transformadas em religião, asseguravam uma orientação espiritual e ética para os negócios humanos e para os transcendentes mistérios da vida e da morte. Os babilônios e os assírios, sucessores dos sumérios, adotaram a maioria dos seus deuses e das suas práticas religiosas.


ANKI    

A Terra, para os sumérios, era um disco achatado que formava um todo com o céu, dando-se a esse todo o nome de Anki (céu+terra). O espaço entre o céu e a terra era preenchido por uma matéria chamada Lil. Ao redor da Terra agitava-se o mar, infinito, sem repouso, sustentando miraculosamente o universo. A onipresença das águas deixou claro para os sumérios que elas estavam na origem de todas as coisas. 

Apsu era o nome desse elemento aquático primordial,  dele fazendo parte a água doce, o Apsu propriamente dito, e a água salgada, oceânica, chamada Tiamat. Desse elemento primordial saíram todos os seres, deuses e humanos. Além do Apsu, ficava o mundo infernal, algo muito semelhante à elaboração mitológica grega. 

O Apsu era personificado como uma espécie de grande abismo
TIAMAT   E   MARDUK
cheio de água que cercava a Terra, concebida como um planalto, às vezes montanhoso, acima da qual repousava a abóbada celeste. Era do Apsu que provinham as fontes que brotavam na superfície da Terra. Tiamat e Apsu eram considerados como um par fêmea-macho, apesar de confundidas as suas águas. 


Mesmo com o auxílio dos deuses, inclusive de divindades intermediárias, as chamadas divindades pessoais, havia um guardião que velava pelo crente e por sua família. Quanto aos seres humanos, eles só podiam contar com uma certeza, a da morte e de sua descida ao submundo. Em geral, essa região era concebida como um vasto espaço cósmico que ficava sob a superfície da terra, correspondendo mais ou menos ao céu, acima da Terra. As almas dos mortos desciam às profundezas desse mundo subterrâneo, devendo para tanto atravessar de barco um grande rio, concepções muito semelhantes de onde os gregos retiraram talvez muitas das suas para construir o seu Hades. 

ENKI  OU  EA
Impossível escapar desse mundo protegido por sete muralhas, mesmo no caso de uma divindade. A grande deusa Ishtar, que imprudentemente se havia aventurado a descer a esse mundo, abandonando a cada etapa da descida, um peça de sua roupa, viu-se prisioneira dele. Se não fosse a intervenção de Ea ou Enki, grande divindade do Apsu, detentora de grande sabedoria e de poderes mágicos e encantatórios, Ishtar lá teria ficado até o fim dos tempos. 

A deusa Ishtar, personificação do planeta Vênus, também chamada
ISHTAR
Inana, era uma divindade muito mais ligada às tradições semíticas do que às suméricas. Ela aparecia associada tanto ao amor e à prostituição sagrada como à guerra. Para arrancar seu amante Tammuz, deus da vegetação, das colheitas especialmente, do mundo infernal, concebeu o audacioso projeto de descer ao Inferno. Chegando à presença de Ereshkigal, a soberana desse mundo, esta convocou seu auxiliar Namtaru e ordenou que ele encerrasse a deusa no seu palácio e liberasse, para que ela fosse atingida, sessenta doenças. Ea, contudo, intervindo, conseguiu libertar Ishtar e seu amante.



TAMUZ


GIGAMÉS

Às vezes, muito raramente, as divindades podiam conceder às almas que desciam ao Inferno o privilégio de, por uns momentos, subir à luz. Assim, Enkidu, o companheiro do herói Gilgamés foi autorizado a revelar a seu amigo o que se passava no reino das sombras. A descrição que ele nos deixou foi desoladora. No mundo infernal, de trevas absolutas, as almas que lá viviam tinham o nome de edimmu e usavam uma roupa alada para lá viver. Seus alimentos eram a poeira e a lama. Só alguns, por uma deferência especialíssima, tinham direito a um leito e um pouco de água pura. 


EDIMMU

Além das almas dos mortos, eram encontradas no Inferno, em cativeiro, divindades que haviam sido vencidas pelos deuses. A
ANU
principal destas divindades chamava-se Qingu, chefe dos exércitos de Tiamat e seu amante. Vencidos por Marduk, Tiamat e a sua monstruosa guarda pessoal foram exterminados e Qingu foi aprisionado no mundo infernal. Com essa vitória, como se sabe, Marduk se apoderou das Tábuas do Destino, das quais Tiamat se havia apossado, e as entregou a Anu (An), a grande divindade celeste. 

ERESHIKIGAL
Reinava sobre o mundo subterrânea a deusa Ereshkigal (etimologicamente, Rainha do Grande Mundo Subterrâneo), primitivamente a sua única e maior autoridade. Era ela mãe das deusas Nungal e Namtar, filhas, respectivamente, pelo lado paterno, de Birtum e de Enlil. Um dia, porém, o deus Nergal, “o senhor da grande residência”, divindade associada às guerras sob o nome de Erra, e ligado à destruição pelo fogo, às
ENLIL  E  NILIL
febres e às pragas, assaltou o mundo infernal com catorze demônios que ele postou nos seus diferentes portões. A fim de obter a paz, Ereshkigal consentiu em tomá-lo por esposo. Assim, Nergal, até então um deus ligado à destruição e às doenças, tornou-se baal (senhor) dos mortos. Ele tem por símbolo tanto uma espada como uma cabeça de leão. Assessora-o o deus Namtaru, como divindade das pestes.


Do seu palácio com sete portões sempre trancados, governavam o Inferno  o sombrio Nergal em companhia de Ereshhkigal, auxiliados por uma grande quantidade de divindades menores, inclusive os sete Anunnaki, que agiam como juízes. Além disso, havia tropas de demônios, chamados galla, com poder de polícia. O grupo inteiro, exceto os galla, recebia, para “viver” nesse mundo, tudo o que um ser humano precisava normalmente para viver na terra, comida, roupa, utensílios diversos etc.



ANNUNAKI

Os Anunnaki, etimologicamente, os nascidos antes, eram assim chamados porque faziam parte de um grupo de divindades primitivamente nascidas mas que não tinham se individualizado, diferenciado, não tendo por isso nomes. Prestavam serviços aos deuses. Seiscentos deles prestavam serviços a Nergal. Nos céus, atuavam apenas trezentos.

GESTINANA
No Inferno mesopotâmico não havia a rigor nenhum julgamento ou avaliação das qualidades morais dos mortos. O morto simplesmente se apresentava a Ereshkigal, que pronunciava a sentença, enquanto seu nome era anotado na Tábua por Gestinana, escriba do mundo infernal. Nesse cenário, o deus Ningiszida funcionava como mestre-de-cerimônias. Pabilsag era o deus-administrador, Namtar seu ministro ou mensageiro e Netar era o porteiro. 


GILGAMÉS

Ao longo dos séculos, vários trabalhos literários refletiram as mudanças pelas quais o cerimonial do Inferno mesopotâmico passou. Os textos mais notáveis estão no conhecido poema de Gilgamés, A Descida de Inana ao Mundo Subterrâneo, e no épico babilônico sobre Gilgamés onde se inclui o sonho de Enkidu sobre a sua morte e outros.

 O mundo infernal era conhecido pela expressão “a terra da qual ninguém retornava”. Para nele penetrar era preciso passar sucessivamente por sete portões, abandonando em cada uma deles uma peça de roupa. Fechada a última porta, o morto, isto é, sua alma, ficaria aprisionado para sempre na “morada das trevas”. 

Acreditava-se na antiga Mesopotâmia que a imortalidade estava reservada aos deuses e que a morte era o inevitável quinhão dos homens. Na concepção suméria, o morto quando ia para o inferno ficava obrigado a consumir poeira e lama, como se disse. Já na concepção assiro-babilônica, ele ficava à mercê de temíveis demônios  e monstros. 

Estas concepções contrapunham-se, sem dúvida, de modo radical, às concepções egípcias e às práticas de embalsamamento e mumificação. Este “pessimismo” mesopotâmico é atribuído provavelmente às duríssimas condições de vida das primeiras tribos que se instalaram no sul da Mesopotâmia. Com efeito, vivendo na aluvial planície suméria, eles pouco mais tinham para subsistir do que argila, embora com o tempo tenham criado uma grandiosa civilização.


GIDIM

As primeiras crenças relacionadas com a vida depois da morte admitiam que muitos seres humanos podiam sobreviver na forma de espíritos ou de fantasmas, passando a viver no mundo ctônico. Esses espíritos ou fantasmas eram chamados de gidim e deveriam ser reverenciados mediante determinado culto. As “condições de vida” dos gidim não poderiam ser consideradas como agradáveis. Eles precisavam receber constantemente oferendas de comida e bebida, pois, do contrário, se tornavam agitados, intranquilos, voltando do mundo infernal para perturbar os vivos. Era comum que os espíritos dos que haviam tido morte violenta voltassem para “agarrar” o seu assassino ou seus familiares. Para isso, o gidim entrava no corpo de suas vítimas, principalmente através do ouvido, enlouquecendo-as.  Só a magia poderia sossegá-los e assim mesmo com grande dificuldade.

A necromancia, a evocação dos mortos, era muito praticada, ganhando destaque na Babilônia. Questões sobre situações futuras poderiam ser propostas pelos necromantes aos espíritos nas sessões, ainda que tal prática sempre oferecesse algum perigo, principalmente se tivessem como objetivo a reversão de situações ou influências negativas. Atribuía-se também aos espíritos o poder de causar doenças, principalmente perturbações mentais.

O conhecimento que temos da vida além-túmulo dos mesopotâmicos deve-se sobretudo, como se disse, ao texto do poema sumério Gilgamés, Enkidu e o Mundo Subterrâneo. Parece certo que a prática de enterrar os mortos tinha por objetivo tanto a manutenção de um contacto com eles através de determinado culto e ritos (dar-lhes de beber água através de libações) como evitar que eles ficassem a perambular pela terra depois de mortos como fantasmas (gidims).

Em todas as religiões, como se sabe, acredita-se que há vários níveis de divindades entre o céu e a terra. No primeiro, vivem aquelas que têm relação direta com as manifestações celestes, fenômenos atmosféricos etc. e com a ordem cósmica. Constituem o topo dos vários panteões. Muitos próximos da terra, habitando geralmente o mundo subterrâneo, vivem umas divindades que sob o nome de demônios, seres sobrenaturais, espíritos etc., renegaram a luz e preferiram viver nas trevas.

As palavras para designar esses seres entre os mesopotâmicos eram rabisu (Suméria) e maskim (Acádia). Os mais recentes estudos sobre a civilização mesopotâmica nos dizem que os mencionados nomes tanto poderiam usados positiva ou negativamente. Os mesopotâmicos usavam expressões como Fora, maus rabisu! como Socorre-me, bom rabisu!, conforme o caso. 

Geralmente, maus demônios sempre foram concebidos como agentes executores da vontade maléfica dos deuses. Eles eram os encarregados de punir os humanos que incorriam no erro e no pecado. Estes maus espíritos eram idealizados sobretudo como entidades que agiam através do mau tempo, de catástrofes, tempestades, ventanias etc. Outra forma de atacar os humanos era a de causar-lhes doenças.




LAMATSU

Lamatsu era um demônio feminino, filha do deus Anu, que se situava acima da faixa onde atuavam os demônios comuns, que agiam sob as ordens de algum deus. Com Lamatsu era diferente, ela praticava o mal por iniciativa própria. Suas principais vítimas eram os fetos e os recém-nascidos. A morte pelo aborto era dela. Recém-nascidos, se atacados por ela, podiam inclusive morrer enquanto dormiam. Mulheres grávidas, se tivessem seu estômago tocado por ela, perdiam a criança. Muitas vezes, ela simplesmente sumia com a criança adormecida no berço.

Para se proteger contra os ataques de Lamatsu, as mulheres assim

PAZUZU 
que engravidavam passavam a usar uma cabeça de bronze de Pazuzu, na forma de amuleto. Esta deusa-demônio era representada sob a forma canina, com olhos enormes, corpo escamado, com componentes ofídicos e asas. Era reconhecida como um demônio do mundo subterrâneo. Era uma entidade protetora contra ventos pestilenciais que traziam epidemias. Era Pazuzu quem forçava Lamatsu a voltar para o Inferno (lembro que Pazuzu “apareceu” no filme norte-americano O Exorcista).


Enquanto divindades como Enlil, Utu, Eki/Ea promoviam o bem e a justiça, protegendo o homem, os fracos, as viúvas e os órfãos, os fantasmas, os espíritos e as divindades do mal, demônios como Udug, Lama, Alad ou Galla faziam o mal. Os mesopotâmicos  tinham também um demônio, Mimma Limnu (etimologicamente, tudo o que é mau), encarregado levar o mal a qualquer canto do universo.



REPRESENTAÇÃO   CÓSMICA

Temos notícias de que por volta do ano 1.000 aC os babilônicos já tinha perfeitamente definido um zodíaco com dezoito constelações através das quais a Lua e os planetas se movimentavam. Por volta do séc. VII aC (reinado de Nabucodonosor II), redesenhou-se o céu, ficando reduzidas as constelações zodiacais a doze. No oitavo setor zodiacal, denominado Arashama, relacionado com o mês Apindua, representado por um escorpião (girtab), os deuses infernais eram mostrados como senhores dessa região. 



ASTRÓLOGOS   MESOPOTÂMICOS
Sabe-se que os antigos mesopotâmicos adotaram o ano lunar de 12 meses lunares. De três em três ou de quatro em quatro anos era intercalado um mês para ser mantida a sincronização do calendário com o ano solar. 

O legado mesopotâmico alcançou o ocidente pelas vias do helenismo, do judaísmo e do cristianismo. Esse legado incluía noções astronômicas e astrológicas, as do círculo dividido em graus e a hora em minutos e segundos. As suas observações astronômicas permitiram que fossem criados os eixos equinociais e solsticiais, definida a regularidade das fases da Lua e desenvolvidos os conhecimentos que permitiram entender como  o céu e seus astros afetavam a vida na Terra, a humana de modo especial,  além de terem fixado eles, os mesopotâmicos, as primeiras designações das constelações zodiacais, adotadas até hoje.