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quinta-feira, 14 de abril de 2016

URANO (5)





Na Grécia, tudo começou com o Caos (khaino, entreabrir-se). As primitivas doutrinas cosmogônicas e teogônicas nos revelam que o Caos é uma espécie de protomatéria onde se encontravam revoltos todos os elementos. Desde que o homem se pôs a pensar na criação do universo, a ideia do Caos como uma confusão de elementos se impôs. Afastou-se a ideia da criação a partir do nada, de difícil entendimento. 

Quem talvez tenha melhor explicado este problema da criação (nada, vazio ou protomatéria) tenham sido os filósofos da Índia védica. A eles sempre incomodou bastante a ideia da criação ex-nihilo. Como poderia o ser provir do nada? Nada pode originar-se do nada, arrematam eles. Segundo as suas darshanas (escolas de filosofia), a criação só pode ser explicada pela passagem do não manifesto ao manifesto, do uno ao múltiplo, da energia à matéria, processo a que eles dão o nome de sristhi. 

Essa mesma dificuldade experimentaram os místicos judaico-cristãos quando tiveram que explicar a criação a partir do Verbo divino. Acabaram optando, sob o ponto de vista simbólico, pela ideia de um Caos original, o Tohu-Bohu bíblico, de onde teria se formado o cosmos. Tohu-Bohu é palavra que significa desordem, o caos primordial antes da criação. É um estado completamente anárquico, que antecede o aparecimento das formas.

Em algumas mitologias, o Caos, ao invés de uma massa confusa, é representado por um oceano primordial. Assim o idealizaram os mesopotâmicos. Tiamat, uma Grande-Mãe de natureza oceânica, indomável, acabou vencida e foi obrigada a seguir uma ordem estabelecida pelo deus Marduk, em nome das outras divindades. Já os escandinavos representaram o seu Caos por um abismo sem fim, chamado Ginnungagap, de onde saem sons gorgolejantes abafados.


Na mitologia grega, conforme Hesíodo expõe na sua Teogonia, a passagem gradual do Caos primitivo à ordem olímpica é feita inicialmente através das provas que opõem Urano (o céu estrelado) a seus descendentes até a terceira dinastia (Zeus), com a participação da linhagem feminina a partir de Geia, a Grande-Mãe terrestre, de Reia e de suas filhas, que farão parte da ordem olímpica.



ZEUS

Entre os alquimistas, o Caos é a mesma coisa que a prima materia antes dela tomar uma forma. Lembremos que foi a partir da palavra
ROBERT   FLUDD
caos que os alquimistas (J.B. van Helmont) cunharam a palavra gás, estado da matéria que tem a característica de se expandir espontaneamente, ocupando a totalidade do recipiente que a contém. O Caos pode ser também representado por um turbilhão de nuvens, de água e de fogo, como Robert Fludd (1574-1637) expôs em sua obra (Tratado Apologético, 1617).  

Nas Metamorfoses de Ovídio, o Caos preexiste, não sendo os deuses ou a natureza agentes criadores, mas ordenadores, que separam os elementos confundidos, dando a cada um e aos corpos criados o lugar que lhes convém no espaço. Devido a essa concepção do Caos como confusão, ele nunca foi personificado como os deuses o foram. Um pintor da Renascença, Rafael Sanzio (sécs. XV-XVI), evidentemente preso à inspiração religiosa do tempo, deixou-nos talvez uma das mais belas representações pictóricas desse momento, o da separação da luz das trevas por Deus. Do mesmo modo, talvez tenha sido Ovídio (início da era cristã), poeta latino, aquele que com grande arte e fantasia melhor nos tenha falado poeticamente sobre o Caos. 


BOÉCIO
Boécio (sécs. V-VI dC), filósofo e político latino, identificou o Caos a Ofion, embora muitos mitógrafos considerassem este como posterior, dando-lhe por esposa Eurínome, filha do deus Oceano, com a qual governou o mundo antes de Cronos e dos Titãs. Ofion (ophis, serpente) tinha a forma de uma serpente e representava a renovação, como um ser ctônico que era. Ele e sua companheira governaram o mundo. Segundo o mito, talvez de tradição órfica, eles foram vencidos por Cronos e lançados no Tártaro.

Em textos medievais (De Genealogia Deorum Gentilium, de Giovanni Boccaccio, segunda metade do séc. XIV) encontramos uma interessante tradição que parece ter recuperado uma vertente mitológica esquecida, a que identifica o Caos com Demogorgon, nome composto de daimon, gênio, e georgos, o que trabalha a terra, o Gênio da Terra. Demogorgon é descrito como um ser primitivo, sem origem, pai dos deuses e do

universo. Tinha um aspecto sujo e musgoso, disforme, esquálido, vivendo nas entranhas de sua filha, a Terra, no mais profundo do Averno, lago da Itália, na Campânia, perto de Nápoles; os antigos habitantes da região, gregos inclusive que a dominaram, viam nesse lago uma das entradas do Hades por causa dos pântanos que o cercavam e das suas emanações sulfurosas; Virgílio descreveu o lugar na Eneida como o antro da Sibila de Cumas, que ficava na vizinhança. 




SIBILA   DE   CUMAS

Foi nesse tratado (uma importante fonte de consulta mitológica até o séc. XIX) que Boccaccio fez muitas referências a Demogorgon, terrível e antiga divindade, esquecida, dizia ele, já ao tempo dos gregos do período arcaico, e que estaria, ao invés do Caos, na origem da criação e que seria o pai de todos os deuses. Essa divindade não foi mencionada por nenhum dos grandes autores da antiguidade grega e latina, Homero, Hesíodo, Apolodoro, Ovídio e outros. Boccaccio nos informa que Demogorgon tinha uma companheira, a Eternidade (Aeternitas), divindade preexistente também aos grandes deuses, identificada às vezes como o Tempo. 

Sobre o Caos ainda poderíamos dizer que a palavra escapou da mitologia grega e invadiu o léxico de todas as línguas para simbolizar tudo o que resiste à ordem que se pretenda impor a alguma coisa. A ideia é de algo ilimitado, informe, indefinido, que precede a existência. Na filosofia platônica, é o estado geral de desordem e de indiferenciação dos elementos antes da intervenção do Demiurgo. 

Antes de se falar do Urano dos gregos, é preciso mencionar que bem antes das tribos indo-arianas, como a dos aqueus, se instalarem no continente europeu existia no Mediterrâneo oriental, no mar Egeu, uma civilização que tinha o seu centro em Creta, já formada desde o terceiro milênio aC., com o nome de minoana. Pelo que essa civilização nos legou, podemos falar de uma mitologia pré-helênica, sobrevivendo muitas de suas histórias na mitologia grega (nascimento de Zeus em Creta, o rapto de Europa e o touro divino, o Minotauro, Teseu, Ariadne etc.). Esta civilização atingiu o seu apogeu entre 2000 e 1700 aC., tendo sido destruída por duas invasões gregas e por um grande maremoto que praticamente arrasou toda a costa nordeste ilha. 



RAPTO   DE   EUROPA

A primeira invasão de Creta, a Ilha dos Deuses, como a chamava Homero, foi organizada pelos gregos aqueus que, a partir de Micenas, por volta de 1500 aC, a invadiram e aos poucos lá implantaram os seus costumes, promovendo uma fusão entre as duas civilizações, fusão esta que deu origem a uma outra, que passou a ser chamada de creto-micênica. Entre 1200 e 900 aC, o mundo micênico se desintegrou diante dos ataques das tribos dóricas,  que vieram do norte da Grécia. Os dóricos tanto submeteram as cidades dominadas pelos micênicos no continente como Creta e as ilhas do Egeu.

A civilização egeia atribuía um papel importante à religião. O que se sabe dos seus primeiros tempos, apesar dos poucos documentos e provas arqueológicas disponíveis, é que ela tinha inicialmente um caráter fetichista, voltada ao culto de objetos que representavam

entidades espirituais e possuíam poderes mágicos, como pedras sagradas, pilares,  animais, armas, o labrys, ou duplo machado, símbolo cretense etc. Aos poucos, assentando-se a vida social (Homero na Odisseia nos fala que Creta tinha noventa cidades), com a criação de mitos e com a antropomorfização de suas divindades, formou-se um panteão, cuja figura principal, como em muitas tradições asiáticas, era uma Grande-Mãe (um modelo da Geia grega?) de caráter universal, na qual se concentravam todos os atributos e funções da divindade. 

A Grande-Mãe, antes de tudo, simbolizava o aspecto gerador da natureza, dos seus reinos vegetal, animal e humano. Todo o universo estava sob o seu domínio. Era ela inclusive quem regulava o movimento dos astros e o ciclo das estações. As florestas, primeiro, e a agricultura, depois, eram dela, que proporcionava riqueza aos homens, protegendo-os nos combates, dependendo dela também o sucesso da vida marítima (comércio). Ela dominava as bestas ferozes e reinava também sobre o mundo infernal, estendendo-se a sua tutela também ao mundo ctônico. 


BRITOMARTIS
Dois nomes foram conservados dessa Grande-Mãe: Dictyna, mais tarde transformada pelos gregos numa divindade das redes, que residia no monte Dicté, lugar de nascimento de Zeus, segundo uma versão mítica. Britomartis foi o outro nome desta deusa, etimologicamente Doce Virgem, divindade universal. Lembremos que muitos dos traços desta Grande-Mãe foram levados pelos gregos para a sua Ártemis, como Potnia Theron, deusa dos animais selvagens.

Aos poucos, com a afirmação cada vez maior do mundo masculino
ATTIS
(patriarcado impondo-se ao matriarcado), a esta deusa se associou um culto masculino. De início talvez apenas um reflexo de alguns mitos do Oriente Próximo (Ishtar e Tammuz e Cibele e Attis), estes cultos acabaram por dar lugar a uma figura masculina colocada ao lado da deusa em condições de igualdade. Esta figura tomou o nome de Astérios (Estrelado), como grande divindade celeste, que teria servido de modelo para o Urano grego. Este nome nós vamos encontrá-lo no rei de Creta, Asterion, que desposou a princesa Europa depois de sua aventura com Zeus, e que adotou os três filhos, Minos, Radamanto e Sarpedon, que ela teve com o Senhor do Olimpo.

A principal característica de Asterion é que nele se misturavam traços animais (taurinos) e humanos. Foi certamente por influência

das religiões da Ásia central que o touro entrou no panteão cretense como divindade celeste para simbolizar a energia criadora, assumindo nele importância fundamental. Lembremos que os elamitas (povo da região leste do rio Tigre inferior) e os sumérios (povo da região da baixa Mesopotâmia, nas margens do golfo árabo-persa) tinham um deus-touro de natureza uraniana, sempre terrível em suas manifestações.

O touro, desde o período neolítico, salientemos, apareceu associado, em várias civilizações asiáticas, no momento em que a agricultura ganhou grande espaço, à figura das Grandes-Mães. Sempre ligado à força criadora, fecundante, o touro foi logo usado para representar as divindades celestes que atuavam através de fenômenos atmosféricos fecundando a Terra. Lembremos que entre os gregos Zeus e Poseidon tomaram muitas vezes a forma taurina para as suas manifestações.

APIS
Considerado na Pérsia como um dos primeiros seres criados (associado a Mithra), adorado no Egito (Apis) como deus procriador, o touro na Ásia central sempre representou o céu enquanto a vaca simbolizava a terra, que ele fecundava. Objeto de culto também na Índia (os termos sânscritos vrisha, vrishabha ou rishabha designam tanto o animal como descrevem o que é melhor, o primeiro, o príncipe, sob o ponto de vista social), o touro tanto se liga a ideias de abundância e fartura, de forças fecundantes, particularmente sexuais, como de descontrole, de impulsividade cega e indomável, que precisam ser contidas sob pena de catástrofes. 


Segundo Hesíodo, a primeira entidade a emergir do Caos foi Geia, que gerou espontaneamente Urano, o céu, “em condições de igualdade, de esplendor e de beleza para que ele a cobrisse”. O poema nos fala que ele, “ávido de amor”, não parava de fecundá-la. 

O aparecimento dos primeiros deuses da mitologia grega, a sua primeira dinastia, se deve a essa fecundação uraniana, que assumia um caráter anárquico e inesgotável, uma fecundidade perigosa que logo se tornou insuportável para Geia. Insuportável não só pela sua furiosa intensidade como pela prepotência de Urano, que, horrorizado e temendo ser destronado, diante dos filhos que eram gerados, obrigava Geia a reabsorvê-los. 

As criaturas geradas por Urano, logo chamadas urânidas, eram monstruosas, gigantescas, estapafúrdias, rebeldes, e muitas delas indigentes mentalmente. Imenso, opressor, Urano se estendia sobre Geia, que gemia e se queixava. Ao todo, foram gerados os seguintes filhos: Oceano, Ceos, Crio, Hiperion, Jápeto, Cronos,
HECATÔNQUIROS
Teia, Reia, Têmis, Mnemósina, Febe e Tétis, chamados depois, os seis primeiros, de Titãs e as seis ultimas de Titânidas. Foram gerados também os Cíclopes, de nome Arges, Estérope e Brontes, divindades ligadas aos raios, relâmpagos e trovões, e os Hecatônquiros, monstros de cem braços, de nome Coto, Briaréu e Giges.   
Geia, que sofria e gemia, cansada da violência de Urano, resolveu libertar os seus filhos. Pediu que a auxiliassem; todos se recusaram, com exceção do caçula, Cronos. Retirando de suas entranhas um metal até então inexistente, o ferro, com ele confeccionou uma enorme foice, entregando-a a Cronos, encarregado de enfrentar seu pai e irmão. Aguardando o momento em que Urano se preparava mais uma vez para penetrar Geia, Cronos se lançou contra ele, arrancando de um golpe a sua genitália.



CRONOS   E   URANO  ( CARAVAGGIO )

Sob o impacto da surpresa e da dor, Urano se retirou violentamente de cima de Geia, liberando o seu corpo, criando-se imediatamente entre ela e Urano um espaço que nunca mais voltaria a se fechar. Essa façanha de Cronos é muito semelhante a que Shu, o Ar, praticou na mitologia egípcia: representado de joelhos, sustentando com as duas mãos Nut, a abóbada estrelada, separando-a, a boa distância, de Geb, a Terra. 

Com um gesto rápido, Cronos lançou a genitália de Urano no oceano. Do sangue e do esperma que escorriam, misturados à espuma das ondas, nasceu a maravilhosa deusa do amor, Afrodite (aphros, espuma). Das gotas do sangue de Urano que caíram sobre a superfície de Geia nasceram as Erínias, os Gigantes e as ninfas Mélias ou Ninfas dos Freixos



NINFAS  ( BOUGUEREAU  -  1878 )

Com a mutilação de Urano, Geia uniu-se a um dos filhos que gerara sem o concurso de ninguém (os outros dois foram Montes e Urano), o deus Pontos, personificação masculina do mar, e com ele teve cinco divindades marinhas: Nereu, Taumas, Fórcis, Ceto e Euríbia.


CÍCLOPE
Ao assumir o controle do universo, pondo fim à primeira dinastia divina à qual se deu o nome de cosmogenia, formada a partir de Urano e Geia,  Cronos instituiu a segunda, caracterizada pelo nome de esquizogenia, implantando uma ordem tão ou mais violenta e despótica que a do pai. Temendo seus irmãos, os Cíclopes, que havia libertado a pedido de Geia, encerrou-os novamente no Tártaro, juntamente com os Hecatônquiros. 

Urano se distingue especialmente das outras divindades celestes por sua fecundidade monstruosa, anárquica, e o ódio que nutria

pelas próprias criaturas que gerava. Todos os deuses celestes exercem a função de  criadores; eles fazem o mundo, os deuses, os seres vivos. A fecundidade é uma especialização de sua função criadora. Esta é uma das razões (ou a principal) pela qual esses deuses são representados por touros. No Rig Veda, por exemplo, Dyaus é chamado de O Touro. 

O aparecimento dos urânidas, os filhos de Urano e Geia, representa aqueles primeiros momentos da criação em que ainda não se tinha a ideia de cosmos nem se conheciam quaisquer regras. Só muito mais tarde, com a organização das sociedades humanas e, filosoficamente, com os pitagóricos é que apareceria a ideia de que o universo era um kosmos porque podia ser reduzido a proporções matemáticas (harmonia), já que a arche de todas as coisas era o número (arithmos).

 Os primeiros tempos da criação, como se sabe, são caracterizados em todas as tradições pelo entrechoque das forças naturais e pelo aspecto monstruoso dos primeiros seres criados. Daí o caráter therogenésico da criação uraniana e de sua respectiva contrapartida, o aparecimento de Afrodite e, a seguir, depois que Cronos (2ª dinastia) “organizou” o espaço e tempo, de Zeus e da ordem olímpica.


AFRODITE   ( ALEXANDRE  CABANEL - 1863 - MUSÉE  D'ORSAY )


A criação uraniana era extravagante, inusitada, razão pela qual seu culto desapareceu bem antes dos tempos históricos. Seu verdadeiro sucessor foi Zeus, já que Cronos destruía a sua própria criação, ou seja, destruía na medida em que gerava. Apesar dos descontroles e dos excessos que se verificaram no reinado de Zeus (3ª dinastia), a ordem cósmica sempre se estabilizou de algum modo, as espécies acabaram se fixando, princípios de vida racional, de ordem, de hierarquia e de vida espiritual ganharam espaço, vividos pelo espírito grego mais teoricamente (filosofia, Logos) do que na prática. Platão, lembremos, chamou o kosmos de Deus visível, não por razões naturistas ou vitalistas, mas em virtude do papel ético que ele representava na sua teoria. 

Saliente-se que na filosofia grega as primeiras ideias sobre o céu (Ouranòs) foram apresentadas por Anaxímenes, que dele falou como o sustentáculo dos ouranoi, os corpos celestes. Depois, essa
PLATÃO
ideia foi substituída por outra, a de que o céu tem uma multiplicidade de camadas, de esferas que envolvem a terra e pelas quais transitam os astros, o Sol, a Lua e os planetas, enquanto na última esfera exterior ficava o chamado céu das estrelas fixas. Aristóteles usa a palavra ouranos como universo total e Platão em muitos momentos usa indistintamente ouranos e kosmos.

Com o crescente avanço da astronomia, o céu passou a desempenhar um importante papel na religião em virtude de sua “extraordinária ordem”. Daí surgiu uma ideia cara à filosofia: uma das principais funções do filósofo seria a de contemplar as eternas verdades do alto. Platão, no Filon, declara numa passagem que Deus criou os céus para que o homem, ao contemplar a sua harmonia, pudesse ser atraído para o estudo da filosofia. Para Platão, o espetáculo celeste tem um efeito educativo, já que na sua ordem podemos vislumbrar o destino da alma humana. 

Urano foi descoberto, como se disse, no final do século XVIII (1781), período em que tivemos duas grandes revoluções que mudaram a face do mundo, a francesa e a americana. Ao se revelar para a humanidade como um poderoso arquétipo renovador, Urano significou o fim da Idade Moderna, que havia começado no século XV. De um modo geral, utiliza-se para o início desta Idade o ano de 1453 (tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos) e para o seu fim o ano de 1789  (Revolução Francesa).



TOMADA   DE   CONSTANTINOPLA  ( EUGÈNE   DELACROIX )

Adotam-se, como marcos significativos para caracterizar a Idade Moderna três grandes acontecimentos históricos: expansão marítima (viagens de circum-navegação), o Renascimento e a Reforma Protestante. Estes três acontecimentos, como se sabe, alteraram profundamente a política, a economia, a sociedade e a cultura. 

Para começo da Idade Contemporânea, adota-se o ano de 1789, o da Revolução Francesa. Esta Idade, que se abre com a descoberta
DISCURSO  SOBRE
O  MÉTODO ( DESCARTES )
de Urano, se caracteriza sobretudo pelo desenvolvimento do espírito crítico e pela realização dos princípios cartesianos, que desde o século XVII haviam proposto (Discurso sobre o Método) que nada escapasse da razão e da dúvida metódica. Desde então, passa a ser incentivada, sob o impulso de uma curiosidade intelectual insaciável, a pesquisa experimental, para complemento da reflexão teórica na investigação científica.  A literatura torna-se cada vez mais filosófica e científica; a obra literária torna-se polêmica, tornando-se demonstração, discussão.


JOHN   LOCKE
Nesse cenário, ganham contornos precisos as ciências e o seu suporte científico. São difundidas as ideias de Locke e de Newton através da Física Experimental. John Locke (1632-174) já havia colocado em discussão ideias como a ampliação dos limites do conhecimento pelo seu empirismo. Mais: ele fala da reflexão pela qual a alma deve tomar consciência do mundo, não passivamente, mas por operações em que se combinem a abstração e a associação para a formação das “ideias complexas”. 



ISAAC   NEWTON

Circulavam por essa época nos salões cultos da Europa versos de um matemático e naturalista da época, Pierre Maupertuis que proclamavam a importância de Newton, físico e astrólogo, dizendo-

nos que tudo estava encerrado numa noite obscura e que o compasso de Newton, medindo o universo, havia aberto os céus, levantando enfim o grande véu. O progresso das ciências foi geral. É publicada na França a Enciclopédia, primeira obra de ensinamento técnico, inspirada na Cyclopedia of Arts and Sciences, inglesa, editada em 1727. São discutidos problemas pedagógicos. Em 1780, a França já tinha a sua Escola Nacional de Artes e Ofícios.  


No dia 26 de agosto de 1789 é proclamada a famosa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, um documento totalmente baseado nos princípios astrológicos que Urano deu aos valores do signo de Aquário, uma revolução social e jurídica. Jean-Jacques Rousseau já havia publicado em 1755 o seu Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens.

De todo o tumulto revolucionário que tomou conta da Europa nesse período há que se reter que todos os grandes problemas políticos e sociais do futuro foram colocados, sob a ótica uraniana, no final do séc. XVIII: direitos do homem e limites do poder do Estado, definição da liberdade individual, relações entre a Religião e Estado, definição da liberdade individual com relação à Religião e ao Estado, direitos de igualdade dos indivíduos diante da lei e da justiça.

Institucionalmente, o fim do século XVIII se caracterizou pelo crescente enfraquecimento dos regimes monárquicos (de natureza do signo oposto,  Leão). Nesse período se constata o surgimento de uma grande “antipatia” do povo pela figura real, sobretudo pelo povo dos grandes centros urbanos (Paris). 

Um artigo do Dictionnaire Portatif, de Voltaire, traduzia, já em meados do séc. XVIII, o desenvolvimento da opinião pública cada vez mais consciente das injustiças, a reclamar liberdade de pensamento e de opinião. Num dos artigo do Dictionnaire, Liberdade de Imprimir, Voltaire escrevia que era um direito natural alguém se servir de sua pena e de sua palavra para falar de seus perigos, dos seus riscos e de seus azares.    

Assim como Urano representava o poder criador do céu, passou ele logo analogicamente a simbolizar aquele impulso que no ser humano participava da mesma ideia, inclusive nas suas expressões mais extravagantes, libertárias, rebeldes e iconoclastas. Além disso, é preciso considerar que as particularidades físicas de Urano, analogicamente também, sempre o associaram a mudanças repentinas, a ações intempestivas, todas lembrando a ação taurina celeste. Lembre-se que a primeira consequência quanto à descoberta de Urano foi a de que ela alterou profundamente os conceitos da astrologia ptolomaica.

Outra questão, já mencionada, mas aqui reforçada, é que Urano é um “planeta diferente”, muito diferente dos demais do sistema solar até então conhecido. É por isso que quando nos referimos a Urano, à sua ação astrológica, usamos prefixos como hiper, ultra, super, extra, usados para caracterizar tudo o que foge da normalidade. 


AQUÁRIO
É desse modo que Urano, como regente do signo de Aquário, revela a condição humana num estágio mais evoluído, lembrando a humanidade, a fraternidade universal, enquanto outros signos de ar, como Gêmeos, por exemplo, tem a ver mais com a adolescência, e Libra com a vida social a dois, “o você e eu”. Daí a excessiva e notável característica aérea dos uranianos, traduzida, quase sempre, por um esforço no sentido da conquista de elevados objetivos. Não é incomum, por essa razão, o uraniano se ver dominado pelo excessivo crescimento do seu ego, sem saber como controlá-lo, a mercê de impulsos voltados para explorações, proezas, de um desejo de bater recordes, de ficar sempre à frente dos outros. 

Uma relação quase sempre desprezada é a de Urano com Afrodite (Vênus). Sabemos que a deusa do amor nasceu da genitália de Urano lançada ao mar, em meio à espuma (aphros) das ondas. Associados os dois arquétipos, podemos encontrar explicações do motivo pelo qual muitas relações amorosas apresentam um caráter faiscante, que os franceses descrevem muito apropriadamente pela expressão coup de foudre

Lembro que Urano, de um modo geral, considerando-se a aplicação e a separação de um aspecto astrológico, leva alguns meses para transitar por um planeta, formando com ele uma conjunção, ou por um grau qualquer. É muito comum, quando esse trânsito alcança Vênus, que uma pessoa se torne “vítima” da enkrateia, o poder de sedução da deusa, e inicie uma relação afetiva (tempestuosa muitas vezes). Terminado o trânsito por Vênus, aquilo que começou tão subitamente, inexplicavelmente, pode terminar da mesma maneira. O mesmo exemplo, no que couber, poderá ser aplicado no caso de trânsitos de Urano pelos demais planetas pessoais. 



ÍCARO  ( CARLO   SARACENI  1588 - 1620 )

Durante os trânsitos uranianos, podemos nos elevar a “alturas” jamais imaginadas. Terminados os trânsitos, podemos despencar dessas “alturas”, sendo geralmente mortais esses tombos. Como exemplos, podem os citar, retirados da Mitologia, os exemplos de Ícaro e de Faetonte, histórias que ilustram com muito clareza o que aqui se expõe. 


FAETONTE

Nos trânsitos de Urano, temos, de um modo geral, a tendência de ultrapassar o nosso metron, que deve ser dado pelo nosso Sol (Eu
SATÉLITE
interior + Mercúrio). Nos trânsitos de Urano corremos o risco de inadaptação às nossas rotinas (querendo compensar as opressões saturninas), tornamo-nos mais eufóricos, podemos ficar  tomados pela
hybris, pela desmedida. Sentimo-nos muito estimulados por produtos uranianos (computadores, aviões, satélites etc.), podendo incorporar, sem o perceber, toda a simbologia ligada ao signo de Aquário e a Urano.     


quarta-feira, 22 de julho de 2015

MITOLOGIAS DO CÉU - JÚPITER (5)

                       
Para as pessoas de mentalidade literal, é preciso ressaltar que os antigos gregos nunca consideraram as histórias de sua mitologia como fantasiosas, irreverentes ou estapafúrdias. Os mitos, para os gregos, sempre traduziram sob uma forma poética, metafórica, simbólica ou alegórica, e construídos com absoluta maestria técnica sob o ponto de vista literário, os sentimentos e as emoções que eles experimentaram diante dos grandes mistérios do universo.



TITANOMAQUIA  ( CORNELIS  VAN  HAARLEN )

As várias provas pelas quais os seus heróis passaram ao longo de sua vida nunca deixaram também de ilustrar aquilo que eles chamavam de dokimasia, provas iniciáticas, preparatórias, às quais os seus jovens tinham que se submeter. Uma demonstração de que estavam aptos para enfrentar tarefas mais difíceis, os grandes embates da vida, na proporção humana, como as descritas nos episódios da Titanomaquia e da Gigantomaquia. A dokimasia, a rigor, na sociedade grega, era um exame ao qual deviam se submeter os candidatos a determinadas funções (magistratura e cavalaria) bem como os estrangeiros que pretendessem se naturalizar. Este exame era aplicado sob a supervisão dos chamados thesmotetes (arcontes) diante de uma assembleia ou tribunal. Mesmo Zeus se submeteu a provas semelhantes para assumir a posição de o maior dos deuses. 


ZEUS,  CÉRBERO  E  A  ÁGUIA

As lutas que Zeus travou contra os titãs e contra os gigantes ilustram o inconformismo das forças primordiais, constitutivas do universo, cegas e violentas, que precisam ser constantemente vigiadas e constrangidas a se manter dentro de seus limites. É dentro desse cenário que Zeus é uma espécie de reorganizador e recriador do universo. Se interpretarmos o que significa astrologicamente este papel de Zeus, podemos entender porque Júpiter, numa carta astral, não exerce uma função criadora, mas, sim, uma função disciplinadora, redistribuidora, reorganizadora, ao recolocar, se dignificado, a criação numa ordem superior.

Vencido momentaneamente Tifon e notando que os humanos tornavam-se cada vez mais perversos, Zeus alimentou o forte desejo de destruí-los. Para Zeus, os mortais, oriundos do reino de seu pai, criados, segundo Hesíodo, com o limo da terra por Prometeu, eram seres nascidos para o efêmero, pois sua força vital (aion) era precária; colados à terra, rastejavam, alimentavam-se de coisas putrescíveis, vivendo no cuidado e na preocupação. Os deuses vivem no Olimpo, nas alturas, onde as estações não existem, onde o tempo não muda. Os deuses são athanatoi, aiegennetai, imortais e nascidos para sempre. Além disso, são akedees, isentos de preocupação, e eternamente makares, felizes.

Como benfeitor da humanidade, Prometeu resolveu intervir quando Zeus começou a tramar a destruição dos humanos. Para resolver a questão, organizou-se uma reunião entre deuses e mortais na cidade de Mecone, tendo Prometeu assumido a defesa de suas criaturas. Seu desempenho nessa reunião foi, entretanto, lamentável, pois pretendeu enganar os deuses em benefício dos mortais. Para o banquete programado, dividira-se um boi enorme em duas partes; a primeira continha as carnes e as entranhas, cobertas com o couro do animal; a segunda, apenas ossos, disfarçados com a gordura. Zeus escolheria uma das partes, cabendo a outra aos humanos. Zeus optou pela segunda parte. Sentindo-se humilhado, encheu-se de cólera. A punição foi imediata: privou os humanos do fogo, o que equivalia fazê-los voltar à animalidade. A privação do fogo significava também retirar dos humanos o nous, a inteligência, a capacidade de conhecer os eide, as formas, tornando-os anoetos, imbecis.


PROMETEU   ROUBA   O   FOGO   DOS   CÉUS

Prometeu roubou uma centelha do deus Hélio, o Sol, ocultando-a no galho oco de uma figueira, e a trouxe para a Terra, distribuindo-a entre os mortais. Zeus revidou, e resolveu fazer com que os mortais se perdessem para sempre. Até esse momento andróginos, os mortais foram então separados em macho e fêmea, usando Zeus para modelo desta última uma figura por ele idealizada, Pandora (etimologicamente, presente de todos), de cuja confecção participaram todos os deuses. O fogo trazido dos céus por Prometeu ficou com os mortais, mas, desde então, implantou-se entre eles a divisão. 


PANDORA    ( JOHN   WILLIAM   WATERHOUSE )

Pelo seu crime, sob o ponto de vista divino, Prometeu foi punido. Mandou Zeus acorrentá-lo nas montanhas do Cáucaso, missão cumprida por Hefesto, devidamente assessorado por Crato, o Poder, e Bia, a Força. Durante o dia, o fígado do titã era roído por um monstruoso abutre, filho de Tifon e de Équidna, recompondo-se durante a noite, quando a gigantesca ave se afastava, recomeçando-se tudo a cada aurora. Mais tarde, séculos e séculos depois, Zeus aceitou a libertação do titã, mas o obrigou a carregar para sempre nos tornozelos uma argola confeccionada com o aço da corrente que o agrilhoou, preso a ela um fragmento da rocha no qual ela fora fixada.

Dotado de dons divinatórios, Prometeu (o previdente, etimologicamente) tornou-se para os humanos o símbolo da filantropia. Do século XVIII em diante, principalmente a partir do
PROMETEU - BEETHOVEN
Renascimento e depois no Romantismo, para a poesia (Voltaire, Schelegel, Herder, Byron), para as artes plásticas (Ticiano, Rubens, Böcklin) e para a música (Beethoven, Liszt, Orff), Prometeu passou a simbolizar a revolta do pensador criativo, do técnico, do inovador, contra as forças do destino que o querem esmagar. Do ponto de vista dos deuses, porém, o titã sempre foi considerado um criminoso. Para os humanos, um herói, chamado pelo apelido de o Filantropíssimo. Prometeu é hoje o patrono da civilização moderna que deseja desvendar todos os segredos do universo com base no seu prodigioso poder criador técnico, em cuja origem está o fogo, para o qual nenhum limite pode ser admitido.


Os tempos se passaram. O desgosto de Zeus com relação aos mortais crescia. Os vícios e os crimes dos heróis da Idade do Bronze pareciam ter chegado a limites insuportáveis. O Senhor do Olimpo desencadeou então sobre o mundo um dilúvio, chamado dilúvio de Deucalion por ter ocorrido quando este personagem, filho de Prometeu, casado com sua prima Pirra, filha de Epimeteu e de Pandora, reinava na Tessália. Os homens procuraram fugir da terrível catástrofe, fugindo para lugares elevados. Mas lá também foram alcançados. Seguindo um conselho de Prometeu, Deucalião construiu uma grande embarcação, juntou nela vários animais, aos pares, e esperou que a tormenta passasse. 


DEUCALIÃO   E   PIRRA  

Ancorando a embarcação no alto do Parnaso, diminuindo a altura das águas, Deucalião e Pirra desceram e foram consultar um oráculo de Themis, milagrosamente preservado, para saber como a Terra poderia ser repovoada. O oráculo lhes deu a seguinte resposta: Saiam do templo, cubram o rosto, atem vossas cinturas e lancem para trás os ossos de vossa Mãe. Deucalião meditou por algum tempo. Entendeu que o oráculo, ao se referir à Mãe, estava falando da Mãe Terra e que seus ossos eram as pedras. Pôs-se então a lançar pedras às suas costas e notou com espanto que as lançadas por ele se transformavam em homens e que as lançadas por Pirra se transformavam em mulheres. 

Aparentemente fantasiosa, uma invenção poética, esta passagem se fundamenta entretanto em algo que parece ter sido historicamente bem real. Sabe-se que na Tessália, em remotíssimos tempos, havia um rei chamado Deucalion. Um grande terremoto atingiu a região, interferindo no curso dos  rios. No mesmo período em que ocorreu tal terremoto, a região foi assolada por chuvas torrenciais como nunca se vira antes, ficando tudo inundado. O povo da região procurou se refugiar nas montanhas. Muitos morreram, entretanto. Terminada a tormenta, os sobreviventes repovoaram a região. Tudo teve que ser reconstruído a partir do nada, das pedras. A chave da explicação da sentença do oráculo de Themis estava na palavra grega laos, que tanto designa povo como pedra. Juntando as pedras, tudo com o tempo foi reconstruído pelos homens. Perdeu-se o fato histórico, encarregando-se a tradição oral de lhe dar o viés alegórico, mítico.

O comportamento dos filhos de Deucalião e Pirra, a nova humanidade, também voltou a incomodar o Senhor do Olimpo, que resolveu fazer uma viagem à Terra para verificar pessoalmente as notícias que lhe chegavam. O que constatou foi lamentável, desapontador. Não teve outra alternativa senão a de lhes infligir duros castigos. Para isso, escolheu alguns personagens tidos como ilustres e os puniu exemplarmente, para que os demais, amedrontados, temerosos, segundo pensou, se corrigissem.


LICAON   ( HENDRIK   GOLTZIUS )

Dentre os castigados, merece destaque Licaon, rei da Ardádia. Seu grande crime: jamais prestar reverência a Zeus na sua forma de Xenios, protetor dos estrangeiros, pois matava indiscriminadamente todos aqueles que atravessassem as fronteiras do seu reino. Misturando-se entre o povo da região, um povo ingênuo que se dedicava à agricultura, Zeus, embora disfarçado de camponês, chamou a atenção pelo seu porte. Intrigado, desconfiado, Licaon mandou chamá-lo e o convidou para se hospedar no seu palácio, mas com a intenção de matá-lo, como fazia com todos os estrangeiros, conforme nos conta Ovídio. Antes, porém, Licaon tentou obter confirmação sobre a origem  do personagem (seria um deus disfarçado?) que visitava o país. Serviu-lhe, no jantar, os membros de um de seus escravos. Indignado, Zeus transformou-se numa nuvem de fogo que incendiou o palácio e transformou Licaon em lobo. 


LICANTROPIA   ( LUCAS   CRANACH  DER  ÄLTERE )

Esta história, como muitas outras, está na origem de uma antiquíssima tradição mítica de se sacrificar vítimas humanas a Zeus Lício (Lupino) na Arcádia com o objetivo de se afastar os lobos que então infestavam a região, pondo em perigo os homens e os rebanhos. A licantropia (transformação do homem em lobo), lembre-se, está atestada na antiguidade greco-romana por Heródoto, Strabon, Virgílio e outros. Sua origem sempre apareceu associada à história de Licaon, o cruel rei da Arcádia, e à magia agrícola, para se pôr termo às secas e às catástrofes naturais de toda sorte. Feito o sacrifício, Zeus então enviava as chuvas que fertilizavam os campos.  


ZEUS   ( DESENHO  DE  MAARTEN  VAN  HEEMSKERCK )

Zeus é o deus maior dos olímpicos, o organizador do universo. É dele que dependem todas as leis físicas, sociais e morais. Suas tendências negativas aparecem exatamente devido a essa irrefreável inclinação de incorporar tudo (as suas inúmeras uniões e ligações com deusas e mortais), de abranger tudo, o seu cosmocratismo, a sua natural disposição para monopolizar a autoridade e destruir tudo o que pudesse aparecer como autonomia e independência. São comuns no mito os seus rompantes de autoritarismo e a sua enorme suscetibilidade quando as reverências de que se julga merecedor não são feitas. Comuns por isso as suas explosões de cólera, as suas cenas, as cobranças quanto à vassalagem, tudo, no fundo, certamente a configurar um sentimento de inferioridade e de insegurança, que precisa das compensações do seu cerimonial, do seu culto, dos seus ritos, dos quais não abre mão.

Zeus é o grande modelo do patriarca na cultura ocidental, ainda muito poderoso apesar dos ataques que o arquétipo vem sofrendo. Na história do ser humano, quando pensamos em organizações e sociedades que se constituem para governar um país, para administrar uma empresa, mesmo para formar uma família, onde quer que haja comandante e comandados, a cultura que Zeus representa, a do grande chefe, eternamente presente e onipotente, pode e continua a aparecer arquetipicamente.  
  
É oportuno observar que muitos deuses da mitologia grega representam diferentes maneiras de comandar e de administrar, podendo servir de modelos de tipos humanos quando pensamos em administradores de empresas. Cada deus representa um determinado tipo de poder, de influência, mas nenhum como Zeus, que está acima de todos como cappo dei cappi. 

É na cultura das organizações empresariais modernas que o complexo de Zeus encontra o terreno mais propício para se desenvolver. Afora algumas das desejáveis características pessoais do Administrador-Zeus (empatia; demagogia; priorização de contactos informais, diretos, do tipo olho no olho; visitas constantes às bases etc.) o complexo só se configurará em toda a sua plenitude se  incorporar, fundamentalmente, os elementos que fazem parte da vida e do currículo do Senhor do Olimpo. 

HERMES


É preciso salientar que chefes de organizações públicas ou privadas tomados pelo completo de Zeus não podem prescindir, como temos no mito, de uma eficiente assessoria. Zeus jamais dispensou os valiosos préstimos de Hermes, deus que representa a inteligência sagaz, esperta e engenhosa. Hermes é uma peça importante, imprescindível, para que o modelo Administrador-Zeus funcione.


Deslocando-se muito rapidamente (polytropos), Hermes representa o conhecimento objetivo, recolhido de todos os cantos do universo, como também tem a ver com as múltiplas maneiras pelas quais qualquer informação pode ser recebida (subjetividade) e transformada em mensagem. Pode-se dizer que o complexo de Zeus nas suas formas mais pomposas e grandiloquentes, incorporado para ser reverenciado pelo público interno ou externo das organizações, depende sempre, do trabalho sujo (corrupção, comprar jornalistas, cronistas sociais, chantagem, suborno, apropriação de informações privilegiadas em benefício próprio, propagação de boatos desabonadores sobre inimigos ou aliados não mais úteis, eliminação de adversários etc.) do deus Hermes. É Hermes (assessoria) quem limpa a barra de Zeus para que ele ofereça sempre a sua melhor face para o mundo. Não nos esqueçamos que Zeus, divindade do espírito, da luz celeste, do reino do espírito, precisa recorrer constantemente, para firmar e consolidar as suas posições, a ações indignas, conduzidas sombriamente, mesmo criminosamente.

É Hermes, por exemplo, quem se encarrega de fazer o Administrador-Zeus usar os símbolos mais adequados à imagem a
ASSESSORIA   DE   COMUNICAÇÃO
ser projetada, é Hermes quem o faz ser sempre notícia, ser amado pelos comunicadores de jornais, TVs, revistas especializadas. Isto, como se sabe, implica o patrocínio de muitas gentilezas, almoços, jantares, ingressos para espetáculos, fins de semana em hotéis de luxo, meetings, congressos, restaurantes da moda, empréstimo de dinheiro (jamais cobrado), de apartamentos, casas de praia, fornecimento de garotas ou garotos de programa, droga etc. Uma regra de ouro da assessoria hermesiana é aquela que nos diz que, depois da cama, o melhor lugar para se conhecer uma pessoa é a mesa.



HERA  ( GUSTAV  KLIMT )
Outro elemento importante, altamente desejável, na vida do Administrador-Zeus, é que ele tenha uma esposa oficial, como Zeus tinha, apesar de todos os problemas conhecidos. A Esposa-Hera é importante para as solenidades oficiais, para as recepções, para o clube, ficando aos cuidados dela o cenário familiar, a casa ou o apartamento da cidade, a fazenda, a casa de praia,  os filhos bem educados e formados etc., etc. Deverá ser de preferência uma mulher de alta linhagem, de bela estampa, bem tratada e vestida, com sobrenome importante, bem treinada, com algum curso na Europa, que saiba se vestir bem, que não seja monoglota (falar inglês é importante), que esteja, ainda que muito superficialmente, a par do que aconteça nos circuitos artísticos oficiais.  

Faz parte do complexo de Zeus no mundo empresarial outro componente do mito. Refiro-me ao nepotismo. Zeus, no mito, sempre cultuou através de deuses mais próximos, olímpicos ou não, essa forma de criar dependências. O nepotismo é constituído por uma entourage de personagens próximos, familiares, parentes, amigos de infância, colegas de faculdade, compadres, gente conhecida e testada há muito tempo (cuidado com amizades
PAPA   ALEXANDRE   VI
recentes!). O termo nepotismo vem de nepos, nepotis, neto, em latim. O nome foi usado na Idade Média para designar os filhos ou netos dos Papas que passaram a acompanhá-los, mas evidentemente não como tal reconhecidos. Eram considerados como sobrinhos, protegidos, favoritos, "aspones" privilegiados. Um dos casos mais escandalosos de nepotismo foi protagonizado pelo Papa Alexandre VI (fa mília Bórgia, sécs. XV-XVI), que nomeou cardeais seu filho (16 anos), sobrinhos, cunhados e amigos.  



LOUIS XIV (HYACINTHE RIGAUD)
Exemplos do complexo de Zeus podem ser encontrados em muitos personagens ao longo da História. O imperador romano Otávio Augusto, Luiz XIV, o rei Sol, são bons exemplos. Nos tempos modernos, William Randolph Hearst, magnata da imprensa americana (o Cidadão Kane do filme de Orson Welles). Thomas Mann, com o seu Os Buddenbrook, e Robert Musil, com O Jovem Törless nos dão grandes exemplos. Um dos mais bem acabados modelos do complexo nós o encontramos na biografia de David Selznick, grande figura do cinema americano entre os anos 1920-1950. 

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A PROFECIA EM ROMA (1)






Os antigos gregos davam, de um modo geral, o nome de mantiké à adivinhação. Toda mantiké tinha por objetivo o conhecimento de acontecimentos futuros, concedido pelos deuses aos homens. Esse conhecimento podia ser transmitido por comunicação direta, isto é, por um porta-voz dos deuses, um medium humano, um possuído, chamado de prophetes. Esta palavra, etimologicamente, é constituída pelas raízes pha ou phê, que significam falar, e pelo prefixo pro, antes. Assim, profeta era o que falava antes, o que antecipava. Uma variante desse processo acontecia quando uma divindade se manifestava através de um sonho (oneiros) a um escolhido e lhe revelava alguma coisa. À interpretação das mensagens recebidas através dos sonhos os gregos davam o nome de oniromancia, técnica muito usada no santuário medico do deus Asclépio, em Epidauro. 
 
A adivinhação admitia também uma outra forma, muito difundida, a da leitura de fenômenos naturais, do comportamento de animais, de órgãos ou partes do corpo humano, chamadas todas essas variadas formas de mancias. Dentre as mancias mais praticadas podemos destacar, o augúrio, a partir do canto ou do vôo das aves; a hepatoscopia, a partir das entranhas de animais; a quiromancia, a partir das linhas da mão humana; a aeromancia ou eolomancia, a partir dos ventos e do movimento das nuvens; catroptomancia, a partir de imagens de espelhos; a ofiomancia, a partir do movimento das serpentes etc. Uma das formas mais respeitadas era a dendromancia, a adivinhação praticada pela leitura do movimento dos galhos e ramagens de árvores, de modo especial os do carvalho, árvore sagrada de Zeus (Santuário de Dodona).



SANTUÁRIO DE DODONA

Lembremos que Platão dava o nome de mania (loucura, excitação) à comunicação direta de um deus através de um medium. Os melhores exemplos desta comunicação estão em Delfos, no oráculo do deus Apolo,o dono da chamada mântica profética. As sacerdotisas do deus, tomadas por ele (entheos), em transe, transmitiam as suas sentenças, interpretadas pelos sacerdotes. Esta interpretação se tornava necessária porque, ao transmitir a mensagem divina, as sacerdotisas o faziam de modo pouco inteligível. Um dos nomes delas, aliás, sibila, provinha deste fato. Em transe, elas sibilavam as palavras, pronunciando-as, mais balbuciando-as, entre os dentes, com muitos esses. Em razão dessas dificuldades, um dos nomes de Apolo era Loxias (Oblíquo), em razão do sentido equívoco de seus oráculos.

Quanto aos antigos povos que habitavam a península ibérica antes do aparecimento de Roma, no séc. VIII aC, encontramos o mesmo interesse pelas mancias. Como os gregos, eles procuraram de algum modo conhecer e invocar as forças misteriosas da natureza que tanto afetavam as suas vidas. Abrir canais de comunicação entre o divino, o céu, a natureza, os entes dos vários reinos e o ser humano através das mais variadas mancias.

O que sempre esteve por trás desse modo de pensar, em antigas tradições como a grega, romana e outras, se baseava naquilo a que os antigos gregos deram o nome de sympatheia, conceito também presente nas suas primeiras elaborações filosóficas. Etimologicamente, sympatheia (syn, junto, mais pathos, afecção, entendida esta como qualquer alteração patológica do corpo humano) quer dizer acordo de sentimento, afecção idêntica. A sympatheia entende que o kosmos é um organismo, uma criatura (zoon) viva e visível, que tem dentro de si todas as coisas interligadas.

Quem melhor talvez tenha definido estas idéias foi Plotino (séc. II dC), com a sua famosa afirmação de que, no universo, da célula à galáxia, tudo era a mesma coisa, tudo estava interligado. Plotino, por isso, admitia a adivinhação (mantiké) astrológica que consistia na leitura do movimento dos planetas em torno da Terra, no círculo zodiacal. Ele sustentava a possibilidade da compreensão e do uso dos poderes simpáticos das coisas presentes no universo para que o ser humano pudesse alargar a sua visão do mundo. Sábio era para ele aquele que se dedicava à contemplação dessas coisas. 

Com os etruscos, povo que vivia na região central da Itália, correspondente mais ou menos à Toscana de hoje, os romanos aprenderam, além de outras coisas, as artes da profecia e da adivinhação. Os sacerdotes etruscos decifravam os desejos dos deuses estudando e interpretando os fenômenos da natureza, desde o traçado dos relâmpagos até o nascimento de uma vitela de duas cabeças. Uma das fontes mais confiáveis para eles, nesse sentido, eram as entranhas dos animais sacrificados, em especial o fígado, tomando a sua leitura o nome de hepatoscopia, devido principalmente à forma do órgão, sua cor e variações nos desenhos de suas veias.

Na religião romana, a adivinhação se associará bastante ao movimento das aves nos céus. Ler os auspícios era, literalmente, interpretar o seu voo. A palavra auspício era retirada de auspicium (avis, ave, mais spicium, do verbo specere, olhar, especular). Um empreendimento começava sob bons auspícios se os adivinhos constatassem que os pássaros entravam pela direita do espaço celeste observado. Se entrassem pela esquerda, os presságios não seriam bons. 

É interessante notar que se dava o nome de templum ao espaço celeste delimitado para nele se fazer a devida observação. Templum era um espaço celeste escolhido pelos áugures, um espaço entre duas montanhas, por exemplo. O templum era observado a partir de um edifício construído adrede para tal fim, passando depois o nome a designar qualquer edifício para fins religiosos. Contemplar era então fixar o olhar em alguma coisa, olhar atentamente, muitas vezes com encanto e admiração. Contemplar, nesse sentido, tem relação com considerar, palavra esta que também tem a ver com o céu. Sidus, em latim, é estrela (em um grupo); sideralis é o que concerne aos astros. Considerar é, pois, olhar atentamente os astros para entender a sua influência. No sentido contrário de considerar temos a palavra desastre, que significa afastamento dos astros (des, prefixo que denota separação, afastamento).

Em Roma, “ler os auspícios” significava literalmente observar as aves do céu. De acordo com a lenda, Rômulo e Remo decidiram qual dos dois deveria fundar Roma observando o voo de abutres. Remo, voltado para determinada direção, avistou seis deles; Rômulo, postado em outro lugar, distinguiu doze, o que lhe deu superioridade na disputa. 

Sabe-se que bem mais tarde a leitura dos auspícios em Roma se orientou para a observação de frangos. Há um fato histórico notável que confirma esta forma de leitura. Durante a primeira guerra púnica (Cartago), o comandante da esquadra romana, Cláudio Pulcro (fig. esq.), levou para o mar em sua nau um bando de frangos, esperando através deles ler augúrios que o aconselhassem a agir, conforme eles ciscassem a sua comida. 

Os frangos, contudo, por razões inexplicáveis, recusaram o alimento que lhes era dado. Enraivecido, Pulcro lançou-os ao mar. Os romanos atribuiram a desastrosa derrota romana diante dos cartagineses ao comportamento ímpio de Pulcro. Quando de seu regresso a Roma, Pulcro foi julgado, condenado e teve que pagar pesadas multas, não tanto pela derrota, mas, sobretudo, pelo seu inadequado comportamento com relação à matéria religiosa.


Galinhas e frangos eram símbolos de abundância não só na Roma antiga como na Índia e na Pérsia devido ao grande número de ovos e das ninhadas que produziam as primeiras. Os etruscos lhes atribuíam dons divinatórios porque elas cacarejavam ao botar os seus ovos. Quando os etruscos sacrificavam uma galinha ou um frango, serviam-se de sua clavícula para fazer um voto. 

Galinhas e frangos negros eram conhecidos, desde essa época, como agentes do Diabo. Na Idade Média, dizia-se que o Diabo tomava muitas vezes a forma de um frango negro para assistir aos sabás. Muitos alquimistas viam no frango um símbolo da Obra porque nele eram encontradas as suas três cores: o vermelho na sua crista; o branco nas suas penas; e o negro nas suas patas. Era por essa razão que o vaso dos alquimistas tinha o nome de poulet, frango em francês.



                                                     ETRUSCOS

Foi ainda através dos etruscos que os romanos se familiarizaram com a mitologia grega, cujos deuses, com o nome de novensiles (deuses novos), foram adotados em Roma com poucas modificações. Para o pragmatismo dos romanos, essa “importação” não trazia maiores problemas. Entenda-se: os romanos aceitavam com muita naturalidade a ideia da acomodação em seu panteão de divindades dos povos com os quais entravam em contacto, seja por conquista ou pelo comércio.

A religião romana se baseava sobretudo nos ritos, em aspectos formais que tinham, dentre outras, a finalidade de fazer o Estado funcionar bem, dando-se pouca ou nenhuma importância às questões espirituais. O que os romanos sempre pretenderam é que a divindade fizesse algo por eles, uma espécie de barganha segundo a máxima do ut des.


 DO UT DES

Primitivamente, em Roma, então uma aldeia de agricultores e pastores, as manifestações religiosas tinham um caráter puramente animista. Não havia propriamente divindades, mas espíritos impessoais que animavam a natureza como um todo e o movimento dos astros. Eram os numes, entidades amorais, nem boas nem más, sem afinidade com os humanos, tanto podendo ajudá-los como prejudicá-los na sua vida cotidiana.




Nos primeiros tempos de Roma eram os chefes de família que estabeleciam a melhor maneira de fazer a comunicação com tais entidades, para apaziguá-las, como invariavelmente acontecia. Aos poucos, essa função foi passada para um chefe comunitário, o rex e alguns assessores, áugures, adivinhos etc. Nasciam assim institucionalmente os grupos religiosos que assumiram a intermediação das relações da comunidade com tais entidades. Aos poucos, percebeu o “rex”, denominado também pontifex, que a melhor maneira de controlar e operar o sistema religioso montado seria a de antropomorfizar as representações das referidas entidades em operação no cosmos.

A esse sistema religioso se deu o nome de politeísmo. O número de divindades, dependendo do sistema religioso, cresceu bastante, partindo-se da ideia de que havia espaço para todos. Colégios sacerdotais proliferaram descontroladamente, o que evidente causou sérios problemas entre as administrações temporais e as religiosas.

Santo Agostinho, alguns séculos mais tarde, investiria contra essa situação, ridicularizando o grande número de divindades romanas, reverenciadas sobretudo pela gente do campo (pagãos). Dizia ele: Pensam que eles tinham coragem de confiar a um só deus as suas terras? Não! Rusina devia cuidar dos campos, Jugatino dos picos e Colatina do resto dos montes, Valônia dos vales. Segesta tampouco podia proteger sozinha o grão; quando já estava na terra, era Seia quem devia cuidar dele; depois de crescido e pronto para a colheita voltava aos cuidados de Segesta. Prosérpina (fig. dir.) foi por eles eleita a deusa das primeiras folhas e espigas de trigo, Nódoto era o deus dos nós, Volutina, das lâminas. Patelena, das orelhas em formação, Hostilina, das barbas, Flora (fig. esq.), das flores, Lactúrcia, das flores de cor branca, Matuca, das flores que estavam sendo cortadas e Runcina das já cortadas. Seus portais tinham três deuses: Fórculo, das portas; Cardéia, dos gonzos; e Limêncio, das soleiras.


As superstições romanas convergiam em grande parte para o mundo natural. Nos presságios, admitiam catástrofes anunciadas pelo grasnar de corvos e buscavam proteção do azevinho contra o mau-olhado. Ao lado
desta procura de augúrios, havia muita fé, sempre com base na tese da simpatia universal, nos efeitos mágicos de certas plantas e no uso medicinal de certos animais. A coruja, por exemplo, era tida como arauto de desgraças. O poeta Horácio afirmava que as suas penas eram muito usadas em bruxarias. Outros, ainda exemplificando, afirmavam que o ciclame (flor) não só ajudava nos partos como favorecia o despertar da sensualidade e do amor nas mulheres. A águia, pássaro sagrado das legiões romanas, aparecia sempre associado a tempestade e a relâmpagos.

Algumas explicações: embora associado a deuses, Apolo, Palas Athena, Wotan e outros, o corvo, em todas as tradições, é uma ave fúnebre, tida como mensageira da morte. Ligado às trevas, mensageiro do Outro Mundo, o corvo anunciava a morte se grasnasse com insistência perto da casa de alguém. Se porventura pousasse no telhado de uma casa onde se velasse um morto, inevitável era a danação de sua alma.

O azevinho, que traz felicidade e prosperidade, deve os seus poderes à cor verde, que conserva no inverno e que representa a vida eterna. Nesse sentido, aproxima-se muito do agárico ou visco, parasita do carvalho, árvore divina por excelência. Dentre os povos antigos, só os gregos consideravam a coruja positivamente, associando-a à deusa Palas Athena. Os romanos a consideravam uma ave ignóbil e de mau augúrio, mensageira das Parcas, divindades da morte. Virgílio evoca o seu canto fúnebre. Quando uma coruja entrava no templo de Júpiter no Capitólio, os romanos purificavam a cidade com água e enxofre, além de fazer sacrifícios.

O ciclame sempre foi famoso por suas virtudes afrodisíacas, muito usado por isso na fabricação de filtros amorosos. Dormir num quarto com ciclames assegurava um sono tranquilo. Suas folhas, tendo a forma de uma orelha, sempre foram muito usadas para as afecções do ouvido.



A águia sempre fez parte do universo simbólico das divindades maiores que se manifestavam através dos mais poderosos fenômenos atmosféricos.

JÚPITER TONANS

    Júpiter, como Zeus, é o deus do trovão, do relâmpago e do raio e, como tal, das grandes tempestades.

Com tantos deuses para escolher, desenvolveram os romanos inúmeros ritos relacionados com as suas devoções pessoais. Os ritos mais importantes eram naturalmente aqueles dos quais participavam as figuras políticas mais importantes da vida pública nacional. Evidentemente, o que acontecia em Roma era exemplar sob esse ponto de vista. Com o tempo, os colégios sacerdotais adquiriram grande poder político e social, nada se fazendo sem a intervenção de um de seus membros ou de todo o colegiado. Desde declarações de guerra até uma simples viagem familiar, nada na vida romana podia ser empreendido sem a sanção ou o beneplácito divino, sem a intervenção religiosa.


VIRGENS VESTAIS

Havia três instituições religiosas que em Roma deviam receber obrigatoriamente contribuições de todos os cidadãos: o colégio das Virgens Vestais, o órgão público encarregado da guarda dos oráculos sibilinos e o trono imperial na pessoa do imperador, que ostentava o título religioso de pontifex maximus.

Os oráculos sibilinos (esq.) eram constituídos por uma coleção de escritos crípticos, de difícil interpretação, que datavam dos tempos dos etruscos. Seu prestígio religioso e político era enorme. Eram consultados sobre questões nacionais importantes, no caso de calamidades, pestes, fome, situações críticas de guerra etc. A consulta só podia ser feita com a autorização do senado romano e através do mais importante colégio sacerdotal do país.



O conteúdo dos oráculos é para nós um grande mistério, pois nenhum deles se conservou.
No nível popular, sempre houve ao longo dos séculos, no mundo latino, um grande interesse pela leitura e pela invocação das forças do mundo natural, como sons e vozes, forças que muitas vezes nunca haviam recebido nenhuma configuração nem localização precisa. O homem do campo, de modo especial, tinha uma espécie de teogonia que se manifestava pelo rumor do vento na folhagem das árvores, no crepitar do fogo, pelo movimento e pelo comportamento dos animais, para ele sempre sinais de alguma coisa a vir. 

No mundo latino, a mantiké, como aconteceu em outras tradições, ficou também circunscrita à esfera do feminino. Entenda-se: a recepção, ao contrário da ação (masculina), sempre foi privilégio do mundo feminino, pois tem a ver psicologicamente com o úmido e não com o quente, este tipicamente masculino. O úmido favorece os contactos, é impressionável, receptivo, acolhedor. É por esta razão, por exemplo, que Tirésias, para se transformar no maior vidente da mitologia grega, teve que conhecer o feminino, passar pela experiência do conhecimento dos dois sexos. Ao se submeter a provas iniciáticas na juventude, Tirésias escalou o monte Citeron e lá viu duas serpentes em conluio amoroso. Separou-as. Imediatamente, tornou-se mulher. Sete anos mais tarde, voltou à mesma montanha é se deparou com a mesma cena, duas serpentes em conluio amoroso. Matou então o macho, recuperando o seu sexo masculino. 

Ressalte-se com relação a este aspecto da adivinhação que a aristocracia romana sempre revelou muita desconfiança com relação aos carmina oraculares, todos de natureza feminina. Cícero (esq.), por exemplo, entendia que o verbo vaticinor, atus sum, ari significava algo como divagar, falar de modo incoerente. Plínio Velho, o grande enciclopedista romano, entendia o verbo como uma forma de delírio, no sentido de demência.