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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - MARTE (5)





Alguns acontecimentos astronômicos ocorridos no séc. VIII aC, registrados na Ásia Menor, podem nos fornecer, acredito, alguns elementos para enriquecer a nossa crônica marciana. Os acontecimentos a que me refiro podem ser pesquisados a partir de registros bíblicos, como os encontramos principalmente nas profecias de Amós e de Isaías. 

AMÓS
Amós (séc. VIII aC) foi um profeta de origem humilde, criticou o seu povo por seus pecados e previu seu exílio. As profecias de Amós falavam de um terremoto (raash) que traria muita destruição. Isaías (séc. VIII aC) é outro profeta que nos fala da sua visão dos céus, uma visão tipicamente marciana. Ele viu anjos clamando uns aos outros: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; o mundo inteiro está pleno de sua glória. 


ISAÍAS


Isaías (13:10) nos fala que as estrelas do céu e as constelações não brilharão com a sua luz, que o Sol ficará escuro ao nascer pela manhã e que a Lua não brilhará. Diz ele que o mundo será lançado fora do seu eixo e o exército celeste sacudirá os céus; nesse dia da ira do Senhor dos Exércitos, dia da sua violenta cólera,  a Terra sairá do seu lugar.



Sabe-se que no ano de 747 aC um novo calendário foi introduzido no Oriente Médio. Esse ano é conhecido como o do começo da era Nabonassar, nome de um rei babilônico. O estabelecimento desse calendário decorreu da necessidade de se fazer alguns ajustes no antigo calendário à vista de uma catástrofe, o referido raash, ocorrida, como tudo indica, num dia ao que corresponderia ao nosso  23 de março de 687 aC. 


BAMBOO   BOOK

Sobre essa data há registros chineses (nos chamados anais Bamboo Books), americanos (antigos indígenas do México) e judaicos.
LIVRO    DOS    REIS
Nesse dia, os exército de Senaquerib, rei dos assírios, foram destruídos (há indicações desse fato no Livro dos Reis). Historiadores como Heródoto e Flavio Josefo, que se manifestaram sobre a destruição das tropas assírias, concordam quanto ao fato de que tal ocorreu (morte de milhares de homens) numa única noite, na referida data.


O raash a que se referem os judeus teria sido causado por uma anormal aproximação da Terra do planeta Marte, alterando-se o eixo e a órbita do nosso planeta. Um relação interessante é que tal aproximação coincidiu com a fundação de Roma, um período em que o deus-planeta estava realizando grandes proezas no céu. Não é por acaso que o mito registra que Rômulo e Remo nasceram quando o Sol se encontrava em eclipse total. 

De acordo com lendas populares, no dia da fundação de Roma a marcha do Sol foi interrompida e o mundo escureceu. Quando da morte de Rômulo, segundo essas mesmas fontes, ocorreram vários fatos estranhos. Uma fonte mais fidedigna (Plutarco, Vidas) nos relata que “súbitas, estranhas e extraordinárias perturbações, com incríveis mudanças, encheram o ar; a luz do Sol sumiu e a noite desceu sobre eles, não com paz e tranquilidade, mas com terríveis estrondos de trovões e rajadas furiosas.”



Ovídio, grande poeta latino, do início da era cristã, diz sobre o mesmo acontecimento: “Ambos os polos tremeram e Atlas mudou o peso do céu... O Sol desapareceu e levantaram-se nuvens obscurecendo o céu... o firmamento era rasgado por raios de fogo. O povo fugiu e o rei (Rômulo), sobre os corcéis de seu pai, voou para as estrelas.”

Entre os antigos judeus, a grande divindade é Javé. De características tipicamente uranianas, tonitroante e relampejante, é o deus das tribos do deserto, sendo dele também a função guerreira. Seu principal atributo é a soberania absoluta, exercida através das manifestações atmosféricas, sendo a mais espetacular o raio. É, por direito de conquista, um deus único, que se impõe pelo terror; é aquele dá a vida e a destrói, aquele que garante a ordem universal, guardião das normas e encarnação da própria lei. A lei e a espada são dele. 


JAVÉ

Os elementos recolhidos da pré-história nos informam, com certeza, que o antigo povo de Israel era nômade. A dinâmica da conquista da terra de Canaã por esse povo aparece nos textos bíblicos e nos permite entender como ele, entre poderosos impérios, Assíria, Babilônia e Egito, principalmente, conseguiu, na primeira parte do segundo milênio aC, conquistar, por “doação divina”, terras já ocupadas, para nelas se instalar. 

JACÓ   E  O   ANJO
A organização das doze tribos de Israel, oriundas dos doze filhos de Jacó, foi estabelecida com grande rigor para que fosse superada não só a vida nômade como também a hostilidade dos vizinhos. A organização das doze era quase militar. Cada tribo compreendia um certo número de clãs (mishpaha), que forneciam unidades militares encarregadas da defesa contra os ataques externos e os saques (elef). Cada clã era formada por “casas de pais” (bet ab). Os chefes dessas unidades, os chefes dos clãs e os chefes das “casas dos pais”governavam a tribo, assumindo as funções políticas e judiciárias.

Sabe-se que mesmo antes do chamado período real, que começou com Saul (1030-1010 ac), a organização tribal do povo israelita era a de um exército aguerrido, sempre em movimento e preparado para atacar como para se defender. As unidades militares eram formadas por homens livres, que adquiriam as suas próprias armas e equipamentos. Os chefes militares, nos períodos de guerra, gozavam de autonomia com relação ao poder civil. 


SAUL    E    DAVID    ( REMBRANDT )

Só no período real (Saul, David, Salomão) o exército se tornou nacional e o serviço militar obrigatório, admitida a convocação de conscritos. O poder real se apoiava fortemente nas forças militares, profissionalizadas. Os principais postos na organização militar passam a ser ocupados por membros da família real, criando-se, além disso, uma poderosa e privilegiada casta militar. 

A guerra, no período real, se constituiu sempre numa atividade religiosa. Uma derrota era sempre considerada como uma “ausência” de Deus. As regras que orientam a atividade guerreira estão fixadas na Bíblia. A “presença” de Deus nos deslocamentos militares, no período nômade, por exemplo, era indicada pela arca da aliança, carregada pelos membros da tribo de Levi. 

Outro exemplo das regras a observar em tempos de guerra pode ser encontrado no Deuteronômio. No cáp. VII, exige-se que vencidos os inimigos sejam eles “passados a cutelo sem que fique nem um só. Não celebrarás concerto algum com eles nem os tratarás com compaixão.”

Além do que acima se disse sobre Marte no mundo judaico (Javé
ANTIGO    TESTAMENTO
como senhor dos exércitos), há outras passagens no Antigo Testamento que julgo de interesse para ampliar a nossa compreensão sobre outras possibilidades significativas mítico-astrológicas desse astro. Uma leitura mais atenta do Gênesis, da história de Adão e de Eva, ser-nos-á, acredito, muito útil nesse sentido.


Realmente, a Bíblia é um livro único, fonte de três religiões, e, a rigor, não pertence a nenhuma delas nem a ninguém. Antigos rabinos de Israel, aliás, já abordaram essa questão, ao nos dizer que Deus se revelara num deserto inacessível para que ninguém pudesse dizer que a sua mensagem lhe pertencia.

De início é preciso lembrar que o Antigo Testamento foi escrito entre as idades do bronze e do ferro. Essa primeira observação já nos põe diante de Marte e, tendo-a em mente, será possível lançar um olhar diferente sobre o texto. A Bíblia, o Antigo Testamento, pede comentários abertos a todos os “sopros do espírito” para que possamos ter acesso às suas fontes mais secretas. 

O primeiro livro do Antigo Testamento, conhecido como Gênesis, intitulava-se, na tradução dos LXX (Setenta), Bereshit, palavra traduzida como “No princípio”, mas, na realidade, segundo sua etimologia, significando, conforme sua composição: Be, em; Rosh, cabeça: e it, desinência que dá um sentido abstrato à palavra. No grego: em kephalaio (kephale, cabeça). Uma referência, portanto, ao signo de Áries e ao seu planeta regente, Marte. No corpo humano, sabe-se, o signo ariano se relaciona com a cabeça e com o sentido da visão. 

ADÃO   KADMO
Diz o referido texto bíblico que Deus criou um ser andrógino, instalando-o num lugar paradisíaco. Esta criatura tinha como modelo um ser celestial chamado Adão Kadmon, a própria imagem de Deus, composto de duas partes, uma masculina e uma feminina. A palavra Kadmon lembra humanidade, coletividade. Estas duas partes foram criadas por Deus em condições de igualdade.

Esse ser terrestre foi criado no Monte Moriá, sendo feito do pó tomado dos quatro cantos da Terra. Insuflado nele o sopro da vida por Deus, ele recebeu materialmente contribuições de oito componentes universais: da água saiu o seu sangue; das pedras, os seus ossos; do Sol, os seus olhos; da terra, a sua carne; das raízes, os seus ligamentos; do vento, o seu espírito; das nuvens, os seus pensamentos; do fogo, o seu calor. Na sequência da criação, o andrógino apareceu depois do mundo mineral e do mundo animal. Todos os anjos aceitaram a criação do andrógino, menos Samael, razão pela qual ele foi expulso dos céus, transformando-se em príncipe do Mal. 

A parte masculina do andrógino, entretanto, no que foi apoiada pelo Deus criador, não deu o devido reconhecimento de igualdade à parte feminina, que, rebelando-se, fugiu, passando a ser considerada como um demônio (Lilith) pela parte masculina. Desde então, Lilith, segundo a doutrina judaica, se uniu a Samael, príncipe dos demônios, líder dos anjos que foram expulsos do céu, e chefe do Sitra Achra, o “Outro Lado”, reino do Mal. Consta que foi Samael quem enviou a serpente para seduzir a mulher no jardim do Éden. Samael, lembre-se, foi expulso do céu porque não aceitou Adão.

No capítulo II do Gênesis registra-se que Deus não achou bom que a parte masculina ficasse sozinha. Mergulhando-o em profundo sono, tirou dele uma de suas costelas e dela formou um novo ser feminino, uma aberração sob vários ponto de vista, principalmente fisiológica e psicológica. Nus, um diante do outro, não se envergonharam.  Disse-lhes então Deus que formassem a partir de então uma só carne.

Passando a viver num lugar paradisíaco, os dois, todavia, não respeitaram um tabu estabelecido por Deus (não comer os frutos da árvore da ciência, só os da árvore da vida). A responsabilidade por essa desobediência é atribuída ao ser feminino, que se deixou seduzir pelo que a serpente, grande agente do Mal, lhe disse:  que o fruto da árvore da ciência era bom, porque se ela o comesse se igualaria aos deuses, passando a conhecer o bem e o mal. As consequências desse acontecimento nós as conhecemos bem. O homem, por seu turno, deixou-se convencer pela mulher, sendo ambos expulsos do Paraíso.


ADÃO   E   EVA  ( JEAN   MABUSE )
Os dois seres desta história, como todos sabem, têm os nomes de Adão e Eva. As duas letras matrizes do nome Adam são D e M, uma terrestre e outra aquática. Em hebraico, elas formam palavras ligadas à cor vermelha, ao sangue, lembrando também intermediação entre o divino e o humano.  Aliás, ideias de intermediação estão no primitivo significado da palavra demônio. Em hebraico, terra é adamá, adom é vermelho, sendo dam o sangue. No antigo persa, dam é criatura. Em sânscrito, adimant é o que tem um começo. Se formos ao grego, o mesmo. No nome Deméter, a grande divindade da vida terrestre, da agricultura, destacam-se o D e o M.

Adam é, a rigor, um termo genérico que engloba toda a humanidade, podendo ser traduzido também como “terroso” ou “avermelhado”. No oriente, as argilas mais férteis e mais plásticas são vermelhas. Daí, as possíveis aproximações da palavra homem com humus (terra, em latim) e homoios (semelhante, em grego). 

               Quanto a Eva, Hawwah, foi o nome dado à mulher depois
ADÃO   E   EVA   (TICIANO )
da queda. Segundo a tradição, antes de deixar o Paraíso ela se chamava Aicha (Vivente) ou Icha (Esposa), palavra muito próxima de iccha, que, em sânscrito, significa desejo. Devido à sua falta, a mulher “perdeu” o seu lado divino, ganhando, por outro lado, só materialidade e aspecto físico. Seu novo nome evoca awwah, que lembra desejo em hebreu, palavra que podemos aproximar de avati, se regozijar, em sânscrito, e de aveo, em latim, desejar. 

Há outras hipóteses sobre o nome Eva. Uma delas é a que faz o nome derivar de Heba, esposa do deus hitita das tempestades, uma das hipóstases da deusa Ishtar, deusa do amor e da guerra entre os mesopotâmicos. Outra hipótese faz o nome Eva provir de Aruru, divindade sumeriana, que criou o herói Enkidu antes de iniciá-lo nas delícias do amor. 

Evidentemente, a arraigada misoginia patriarcal sempre preferiu considerar Eva como uma criatura culpada, satanizada por todas as religiões monoteístas, do que como uma iniciadora, uma instrutora, uma salvadora, sem cuja influência o homem nunca poderá alcançar níveis superiores de consciência, sobretudo sob o ponto de vista espiritual. 

Outra questão importante é a do tabu decretado por Deus.
TESEU    E    ARIADNE
Obedecendo-o, o ser humano não poderia jamais escapar da sua sua condição animal, prisioneiro de uma vida puramente instintiva. Ou seja, devia, como a besta, aceitar o cabresto e obedecer, não pensar. Adão é nesse sentido o homem-animal, instinto, pulsão fundamental de vida, que, na Astrologia, tem a ver com o signo de Áries e com o seu planeta regente, Marte. Esta pulsão, para que a convivência humana se estabeleça harmoniosamente, precisa do feminino. O diálogo Ares-Afrodite, Áries-Libra, Marte-Vênus é exemplar. Na Grécia, histórias como as Teseu e Ariadne, Édipo e Jocasta, Jasão e Medeia e outras são ilustrações do que aqui se coloca.  


Instinto, etimologicamente, como se sabe, é aguilhão interior, picada (sting, ferroada) sentido transportado por analogia do físico ao moral. Instinto será o conjunto de reações levado para o exterior, determinado, hereditário, comum a todos os indivíduos de uma mesma espécie, e adaptado a objetivos dos quais o ser que age geralmente não tem consciência. Nidificação, perseguição da presa, movimento de defesa, cio,  busca de acasalamento, alterações do corpo favoráveis à fecundação e à geração, sono e fome são exemplos. 

Os instintos podem ser primários, aqueles que resultam diretamente da estrutura primitiva do ser vivo. Não há reflexão, é algo que precisa ser atendido, algo que se impõe. Os instintos secundários são os que constituem um automatismo derivado, adquirido por adaptações inteligentes, tornadas depois inconscientes. 

De um modo geral, instinto, para o homem comum, é o impulso interior que faz um animal executar inconscientemente atos adequados às suas necessidades de sobrevivência própria, da sua prole ou da sua espécie. Tendência natural, inclinação...

Nos céus, no círculo zodiacal, a primeira imagem desse impulso
CÍRCULO   ZODIACAL
criador aparece através do signo de Áries, sigo de fogo, cardinal, marcando o equinócio da primavera, sendo o seu astro regente (diurno) o planeta Marte. Esse planeta  aparece, pois, como o doador da vida e da energia tanto no cosmos como no homem-animal, lembrando sempre a energia que põe tudo em movimento. Por essa razão, o planeta Marte se refere tanto ao nascimento do homem-animal como à sua morte, como os signos de Áries (primeira casa) e de Escorpião (oitava casa) nos revelam.


Sem a influência de Mercúrio, porém, o homem-animal não poderá  adquirir uma consciência individual, já que Marte se volta sempre para o atendimentos das necessidades básicas e primárias da sua existência. Quem ajuda o homem-animal a controlar e transmutar esses impulsos que tendem a paixões e a emoções negativas, de natureza egóica, é Mercúrio, colocando-os numa perspectiva social e espiritual. 

AARON
Lembro que na astrologia judaica, não aceita evidentemente pela ortodoxia rabínica, o nascimento de Israel como nação só se dá no signo de Gêmeos, signo governado por Mercúrio. Os astrólogos judeus consideram os signos que antecedem Gêmeos, Áries (Marte,  energia)   e   Touro     (Vênus, matéria)    como
instintivos. O mental que irá estabelecer as relações internas entre energia e matéria e externas entre elas, ajustadas, com o meio ambiente, só “nasce” no signo de Gêmeos. Não é por outra razão que o personagem  judeu que tipifica Gêmeos (Sivan) é Moisés, o patriarca.  Ele o irmão, Aaron, ambos descendentes da tribo de Levi, prepararam o povo de Israel para receber a Torah escrita. 

MOISÉS

Nissan é o primeiro mês do calendário hebraico, correspondente ao signo de Áries. As letras hebraicas que nos ligam aos aspectos positivos do mês são Hei, que criou o signo e que representa o desejo de receber, e Dalet, que criou Marte e que quer dizer “pobre”. Combinando-as e interpretando-as à luz da Cabala temos a ideia de que, durante esse mês, devemos nos esforçar para diminuir o nosso desejo de receber egoisticamente. Tendo as duas letras em mente, dizem os (bons) astrólogos judaicos, isso será possível, transformando-se milagrosamente esse desejo de receber unilateralmente num desejo de receber para compartilhar. Uma explicação: ainda nos valendo da gematria judaica, encontramos dentro da palavra nissan, nome do mês, a palavra ness, milagre.

                                                    
                                                    CALENDÁRIO   HEBRAICO
   
Os celtas nunca chegaram a definir bem uma divindade que assumisse a função guerreira. Entre os continentais, Gália, é bem possível que cada tribo designasse por um nome de sua livre escolha uma divindade para desempenhar esse papel. Assim, poderíamos pensar num Marte gaulês e nos seus diversos apelidos: Segomo (Vitorioso), no vale do Reno e na Borgonha; Beladon ou Belatus-cadros (O Destruidor), entre os bretões; Camulus (O Poderoso), no Auvergne. Além destes, outros apelidos, de difícil identificação: Leherennus (O primeiro dos deuses), Dunates (O protetor das cidadelas), Carurix (O rei dos combates).

Embora o culto dessa divindade celta, sob esses nomes, estivesse bastante diversificado, contribui também para uma falta de maiores dados sobre ela o fato de que as representações (imagens e esculturas) que dela temos tivessem procurado  sempre apresentá-la sob traços greco-romanos. 

Entre os celtas insulares temos que fazer referências a Morrigu ou
MORRIGU
Morrigan (Grande Rainha). Ela aparece sob um aspecto hediondo aos guerreiros falando-lhes de combates nos quais serão feridos ou mortos. Outras divindades cruéis não são mais que extensões desta Belona celta. Dentre elas destacamos: Fea (Odiosa),  Badb (Furiosa), que é representada sob o aspecto de um corvo; Macha (Batalha) e Nemon (Venenosa). Há ainda a destacar Mider ou Medyr, divindade infernal, que aparece sob o aspecto de um arqueiro extremamente hábil, uma espécie de Guilherme Tell.


A deusa suprema da guerra entre os insulares gaélicos é Morrigu, deusa da “loucura guerreira”, que lembra fisicamente um pouco a orgulhosa Hera grega. Ela é, porém, entre os gaélicos, muito mais uma representação lunar, no que lembra Ártemis com a etimologia de artamos, sanguinária. É reverenciada através de ritos mágicos e cruéis. Sempre armada, carrega espadas nas mãos. Seu grito de guerra equivale ao de dez mil homens. Sempre que houver uma guerra, entre humanos ou deuses, ela estará presente na sua forma humana ou na de um corvo. Fazem parte do seu mundo, espíritos, fantasmas, demônios opressores, duendes e espectros.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O VIAJANTE

     
             

O filme é de 1991, dirigido por Volker Schlöndorff, também autor do roteiro juntamente com Rudy Wurlitzer; com base numa novela de Max Frisch, sendo a produção greco-franco-alemã. Nos principais papéis: Sam Shepard, Julie Delpy e Barbara Sukowa. A música é de Stanley Myers; os figurinos de Barbara Baum; a montagem de Dagmar Hirtz; direção de arte de Nicos Perakis; a fotografia de Yorgos Arvanitis e Pierre L'Homme. 

BARBARA   SUKOVA


SAM    SHEPARD
O Viajante tem como destaque, no cast de atores, a interpretação de Sam Shepard e a sempre fascinante presença de Barbara Sukowa. Ele faz o papel de um engenheiro, um homem absolutamente racional que nunca se entrega à imprevisibilidade das paixões. Etimologicamente, Faber é aquele que faz, em latim. Está sempre em trânsito, sempre trabalhando. Avião, trem, navio automóvel, tudo é a mesma coisa, um lugar para se viver por pouco tempo. Ele não gosta de nada que não seja científico. Evita relações, detesta intimidades, recusando-se a conhecer o valor das emoções, dos sentimentos e da imaginação. Um workaholic que, embora tenha ido a Paris e Atenas muitas vezes, nunca teve tempo para visitar os museus dessas cidades. É um homem dos números, das quantidades, das planilhas, muito objetivo, procurando sempre controlar o que lhe vem de fora.

O autor da história é Max Frisch (1911-1991), importante escritor
MAX    FRISCH
suíço. Novelista, teatrólogo, ensaísta, Frisch começou como arquiteto, abandonando a carreira devido ao sucesso de uma peça de sua autoria, When the War Was Over, em 1949. Nascido em Zurich, cursou inicialmente história e literatura, indo depois para a arquitetura, que abandonou pelo teatro, pelas letras, tendo inclusive mantido contactos com Bertolt Brecht.  


Sua novela Homo Faber, em língua alemã, apareceu em 1957. Faber, o personagem, é, como se disse, um homem absolutamente racional até que estranhos acontecimentos perturbam a sua segurança. O texto de Frisch é apresentado num estilo lacônico, direto, seco, nenhuma concessão, pouca adjetivação. Uma frase de Faber: A vida nada mais é que uma forma de passar o tempo. Muito premiado, Frisch viveu entre a Suíça, Itália e USA.

Volker Schlöndorff, nascido em 1939, em Berlin, é o diretor do
VOLKER   SCHLÖNDORFF
filme. É, incontestavelmente, o mais “literário” dos diretores de cinema e um dos mais importantes da cinematografia mundial. Grande mestre da transposição de obras literárias para o cinema (Günther Grass, Arthur Miller, Robert Musil, Tolstoi, Marcel Proust etc.), leciona também cinema e literatura em univeridades europeias, sendo famosos os seus seminários de verão na Suíça. Recebeu vários prêmios, inclusive a Palma de Ouro em Cannes, em 1979, com O Tambor de Lata, baseado num livro de Günther Grass. De 1971 a 1991, Schlöndorff viveu com Margarethe Von Trotta, diretora e atriz do cinema alemão. 


RUDY    WURLITZER   
Um ponto alto do filme de Schlöndorff é a equipe técnica. Seu roteirista, Rudy Wurlitzer, nascido em 1937, nos USA, descende do fundador da famosa Juke Box Company, um imigrante alemão, que se dedicou também à fabricação de pianos e órgãos eletrônicos. Wurlitzer passou por universidades,  viajou  bastante  e por um bom tempo foi secretário 
de Robert Graves, mitólogo muito conhecido, com quem, segundo declarou, aprendeu a escrever frases curtas. Ao voltar aos USA, frequentou os meios artísticos. Começou a escrever novelas, passou para o cinema, mantendo contactos com Sam Peckinpah, Hal Ashby e Jim Jamusch, para os quais escreveu roteiros. Para o primeiro, roteirizou Pat Garrett & Billy the Kid. 

Na sua ficha, encontramos roteiros como o de Two-Lane Blacktop (A Estrada Que Não Tem Fim), dirigido por Monte Hellman. O filme, um road movie, se tornou cult, um clássico da contracultura, dele participando dois músicos muito importantes na época (anos 70), James Taylor e Denis Wilson. O primeiro, com sua música, lembro, conseguiu fazer de modo muito satisfatório uma fusão das musicas country-gospel e rock. Wurlitzer escreveu, dentre outras coisas, o libreto para a ópera (libreto baseado em novela homônima de Franz Kafka) In the Penal Colony , de Philip Glass, e o script para uma série de TV, dirigida pelo grande Sidney Lumet.

Wurlitzer foi uma escolha pessoal de Scholöndorf. Os dois, de comum acordo, fizeram muitas modificações no texto de Max Frische, por ele aprovadas, ao passá-lo para o cinema. Atenuaram o lado político da história, acentuando bem mais os traços que fizeram do filme a crônica de uma destruição.

Três outros importantes colaboradores de Schlöndorff foram Nikos
NIKOS    PERAKIS
Perakis, direção de arte, e Yorgos Arvanitis e Pierre l´Homme na fotografia. O primeiro é grego, nascido no Egito, e tem a seu crédito muitos filmes realizados na Alemanha. Arvanitis sempre participou bastante da vida cinematográfica grega, tendo trabalhado com Theo Angelopoulos, Michel Cacoyanis, Jules Dassin, Marco

YORGOS    ARVANITIS 
Bellochio, Marco Ferreri e Amos Gitai. Participou de quase todos os filmes de Angelopoulos, inclusive do conhecido A Eternidade e um Dia (Palma de Ouro, Cannes, 1988). Quanto a Pierre l´Homme, embora muito pouco mencionado pela crítica oficial, é um dos grandes quando falamos de fotógrafos do cinema. Como figura exemplar de sua arte é sempre citado por diretores muito importantes, com os quais trabalhou: Jean-Pierre Melville, Robert Bresson, Chris Marker, Jean-Paul Rappeneau, Bruno Nuyttens e outros. 


O título da novela, Homo Faber, que está no nome do
BARBARA   SUKOVA
personagem 
transformando-se no homo faber, aquele que trabalha a natureza e que nela intervém para sobreviver e procriar. A História do homem, sob este ponto de vista, não é senão a da sua capacidade de fazer e de construir ao longo do tempo e das gerações. Desde o início, das hordas, dos clãs, das tribos dos primeiros agrupamentos tem sido assim. Sem esse “ter” não haveria o “ser”, não podendo este “ser”, contudo, se subordinar àquele, como a mesma História vem repetidamente demonstrando. A razão humana tem que dominar a produção de riquezas e fixar as relações entre os seres humanos. O ser humano não pode ser apenas um produtor de bens ou um “caçador” de riquezas. Temas como este jamais fizeram parte das cogitações de nosso herói; ele era um homem que fazia, que resolvia. Por isso, Walter Faber, como tudo indicava, jamais procurou “ouvir” o seu eu interior, ignorava-o. Um dia, porém...


JEREMY    BENTHAN

Filosoficamente, Walter Faber poderia ser classificado como um utilitarista, um adepto da doutrina ou da atitude moral que considera que o útil ou o que pode proporcionar a maior segurança e tranquilidade (felicidade?) deve ser o princípio supremo da ação. Lembro que um grande teórico dessa corrente filosófica foi o inglês Jeremy Benthan (1748-1832), que falava num conhecimento baseado só nos fatos. Junto dessa corrente caminha o pragmatismo, doutrina que considera como verdadeiro só o que dá certo, que é eficaz. Kant (1724-1824), filósofo alemão, caminhava no sentido contrário, pois para ele o valor moral de uma ação não se mede pelas suas consequências (sucesso), mas pela intenção que a anima e pelo princípio que a sustenta.

O trabalho humano pode certamente tornar o mundo mais útil e belo. O homo faber, inventor de ferramentas e utensílios, é um produtor, um construtor. A durabilidade do que ele produz opõe-se de certo modo à fugacidade da própria vida e dos bens de consumo. Não basta, porém, ao homo faber apenas produzir racionalmente para tornar a vida mais fácil ou mais longa. O homo faber, assentado no seu racional, o lado masculino de qualquer personalidade, esqueceu-se do seu “outro lado”, do lado feminino, ignorando que na vida tudo é duplo, que tudo tem dois lados, que tudo oscila entre dois polos. 

Na personalidade masculina, como se sabe, o feminino personifica um aspecto do inconsciente denominado anima, as tendências psicológicas femininas no psiquismo do homem, os sentimentos vagos, o que não conseguimos explicar com palavras, as impressões difusas, o irracional, as intuições inexplicáveis, tudo aquilo que a ciência, não conseguindo explicar, rotula como
TESEU
esoterismo, ocultismo etc. Na mulher, esse lado toma o nome de animus, o componente masculino de sua personalidade. A alma humana, no homem e na mulher, terá que ser uma combinação destes dois princípios, que vão naturalmente além do plano biológico. Se o macho é princípio fecundante, a fêmea é geradora de vida. O personagem do filme, saturado de energia masculina, não conseguiu estabelecer uma ligação entre estes dois aspectos, como o herói grego Teseu, fixado que estava apenas num deles, no racional, no masculino. 


Além do herói acima citado, há também outro na mitologia grega, um arquétipo que, entendo, nos permite conhecer Walter Faber como um dos melhores exemplos de sua atualização simbólica. Refiro-me a Édipo, famoso  personagem da tragédia grega (Sófocles) e figura principal da psicanálise  moderna. O pai de Édipo, Laio, foi advertido por um oráculo que lhe revelou que, se tivesse um filho, ele o mataria. Nascendo a criança, Laio manda expô-la, para que morresse, o que o livraria da sentença oracular. Todavia, pastores encontram a criança e a levam, acabando ela, segundo uma versão, sendo entregue aos reis de uma outra cidade,Corinto, lá sendo educada como filho, um príncipe. 

Jovem e formoso, com uma vida já rica de sucessos materiais, saindo de Corinto em busca de cavalos que haviam sido furtados da casa real, Édipo entra em disputa, num trívio, com um desconhecido que vinha com dois acompanhantes. Era Laio, em viagem, seu desconhecido pai. Lutam e Édipo o mata, cumprindo-se assim a sentença oracular. Ao se dirigir depois a Tebas, julgando com isso afastar-se da sua cidade de origem, mas na realidade indo na direção dela, encontra no caminho um monstro que causava muita destruição às cidades da região. Enfrentando-o, Édipo o mata e recebe, como prêmio, em casamento, a viúva de Laio, Jocasta, sua própria mãe. Mais tarde, toda a verdade vem à tona. Édipo descobre que havia assassinado seu pai e desposado sua mãe. Jocasta se suicida. Diante da tragédia, Édipo se mutila, perfurando os olhos, sendo levado, cheio de sofrimento e dor, pela filha Antígone para Atenas, onde morre.


ÉDIPO

O mito de Édipo, como se sabe, ocupa um lugar de máxima importância na psicanálise freudiana, por ela considerado, sobretudo, como uma espécie de descrição das relações entre as crianças e seus pais: a fixação amorosa no sentido da figura familiar oposta e agressividade hostil contra a figura familiar do mesmo sexo. Em ambos os casos, é necessário, conforme a tese freudiana exposta, destruir esta figura para que a criança se liberte da tutela familiar, o que lhe permitirá ter acesso a uma vida mais consciente e amadurecida.

Édipo é entretanto muito mais do que isso, se examinarmos a sua vida como um todo, inclusive a sua história familiar (veja neste blog artigo sobre Édipo). Ele era o homem das vitórias exteriores, todo voltado para conquistas racionais. Era um perito em decifrar enigmas, mas desconhecia totalmente a sua vida interior, conforme a sua crônica revela. As suas conquistas externas acabaram se tornando a causa da sua derrota interior. Alguns estudiosos explicam a fixação de Édipo no seu lado racional por causa de um defeito físico. Ele tinha um problema nos pés, mancava. Não podia ser um atleta, um campeão olímpico, não podia correr. Édipo sabia responder e fazer, o que lhe permitia esconder assim a sua incapacidade física (expressão simbólica de sua lesão de alma). Os pés, lembremos, enquanto começo do corpo físico, se opõem à cabeça, que é o final. Ambos têm que funcionar juntos.

Walter Faber é um tecnocrata, um engenheiro, nenhum interesse demonstrando por questionamentos interiores, por sentimentos, pela arte, sempre a expressão de um modo de sentir, que ele procurava evitar. Seria esse personagem uma maneira pela qual
FREUD
Frisch não só homenageou a tragédia grega como procurou de algum modo “resolver” seus problemas pessoais (abandono da arquitetura pelo teatro, pela literatura)? Ao estruturar a psicanálise moderna, certamente em cima do que os gregos haviam nos deixado, Freud golpeou duramente a vida moderna, toda voltada para o seu controle através da razão. Válida para Walter Faber a observação de Freud: O importante não é o que você sabe, mas o que você não sabe.


O pensamento e as ações de Faber eram inspirados pelo chamado um pensamento científico, voltado exclusivamente para um conhecimento objetivo e universal. Era dotado de um espírito positivo, nele não havia lugar para as impressões subjetivas ou para a tradição. Ele só se identificava com um espírito crítico aplicado a objetivos reais, entendendo que a ciência podia satisfazer todas as necessidades da inteligência humana. Acreditava que o progresso da ciência poria fim a tudo o que ainda não era conhecido na natureza ou no homem. Impensável, por isso, para Faber, uma vida moral baseada no sentimento.  




Um dos pontos altos do filme é a interpretação de Sam Shepard. Nascido em 1943, nos USA, atua como ator e diretor, sendo também autor de muitos pequenos contos, ensaios e memórias. Alcoólatra, viveu, desde 1983,  com a atriz Jessica Lange, separando-se dela em 2010.  Começou no teatro off-Broadway em NY e trabalhou com Bob Dylan. Num mesmo nível de Shepard está Barbara Sukowa, uma das mais fascinantes atrizes do cinema europeu. Nascida em 1950, em Bremen, é muito conhecida pelas suas performances no Cinema Novo alemão. Trabalhou com Rainer Werner Fassbinder em Berlin Alexanderplatz, marco do cinema mundial. Muito premiada (Cannes, 1986, num filme de Margarethe von Trotta, Rosa de Luxemburgo), Sukowa desenvolveu uma excepcional carreira internacional como narradora de textos musicais (Schonberg, Prokofiev, Mendelssohn, Honegger, Kurt Weill etc.). Em 2012, Sukova voltou a ser dirigida por Margareth Von Trotta, no filme Hanna Arendt.  


JULIE   DELPY

Julie Delpy é francesa, nascida em 1970, mas faz carreira no cinema internacional. Trabalhou com Krzysztof Kieslowski, num dos filmes de sua trilogia, o Branco. Mas o que a projetou, justificadamente, no cenário do cinema internacional foi a sua participação na trilogia de Richard Linklater, Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite.   


  

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

SEXTO TRABALHO DE HÉRCULES




AMAZONAS

   O CINTURÃO  DA  RAINHA  DAS AMAZONAS - Hércules recebeu ordens de se apoderar do cinturão de Hipólita, a rainha das Amazonas.  As amazonas eram guerreiras que viviam isoladas em seus territórios e não aceitavam o mundo masculino. Sobreviventes de um período histórico chamado matriarcado, no qual as mulheres foram socialmente muito mais importantes que os homens, mantinham um regime político-social que ficou conhecido pelo nome de ginecocracia.

HÉRCULES SE APODERA DO CINTURÃO DE HIPÓLITA

Nos antigos sistemas matriarcais,  a principal figura da unidade familiar era a  mãe, aparecendo os homens apenas como entidades reprodutoras e desempenhando um papel inferior na organização tribal. Eram elas que decidiam sobre os bens comuns a todos, assumindo o controle tanto da sua produção como da sua distribuição. Além disso, centralizavam-se também nelas a identificação dos filhos (matrilinearidade) e a transmissão dos bens, decidindo  elas, no geral, tudo o que dissesse respeito ao mais conveniente para a melhor sobrevivência da tribo.

Os estudos clássicos sobre o matriarcado são os do antropólogo,
J. J. BACHOFEN
filólogo e jurista suiço J.J.Bachofen (1815-1887), defensor da tese segundo a qual esse sistema social estaria na base de todas sociedades humanas. Aos seus trabalhos se juntaram depois os de outros pesquisadores, adotando-se também o nome de sociedades matrifocais para designá-las. Como sempre acontece  quando uma tese inovadora como a de Bachofen é apresentada, os meios oficiais acadêmicos se manifestaram contrários (muitos até violentamente) aos argumentos do estudioso suíço. Outros, em menor número, do
qual fizeram parte alguns escritores, poetas e  mitógrafos,  de  mente mais aberta, como Erich Fromm, Robert Graves, Rainer Maria Rilke, Thomas Mann, Lewis H.Morgan, Joseph Campbell e Jane Elle Harrison (fig. direita) deram-lhes acolhida muito simpática e até entusiasta (Jane Harrison, por exemplo não só encampou muitos dos argumentos de Bachofen para as suas visões do mito como escreveu uma das grandes obras da mitologia; Themis – A Study of the Social Origins of Greek Religion, na qual as teses matriarcais aparecem com destaque. 

Pesquisas arqueológicas demonstraram e vêm demonstrando que as sociedades matriarcais parecem ter existido realmente. Um exemplo: J.A. Evans (1851-1941), arqueólogo, em fins do séc. XIX, constatou, quando de suas escavações em Creta, que por volta de 3.000 aC existira na ilha uma ginecocracia. Os trabalhos de Evans comprovaram também a veracidade de várias histórias, que, sob a forma de mitos, tidos como fantasiosos, “coisas de poetas”, nos descreviam as relações entre a  ilha e a Grécia continental. Foi ele quem, ao aproximar a matéria histórica e mito,  deu o nome de minoica à esplêndida civilização cretense, a partir de registros míticos que falavam de personagens como Minos, Pasífae, Ariadne, Minotauro e Teseu.

Com base nos trabalhos de Bachofen, os estudiosos modernos dividiram o matriarcado em três fases: 1) Heterismo; 2) Amazonismo; e 3) Demetrismo. A palavra hetera (hetaira, em grego) quer dizer concubina, prostituta. A primeira fase, também destacada nos trabalhos de Bachofen, se caracterizava por uma espécie de comunismo tribal, com fortes componentes nômades e acentuada promiscuidade sexual (poliamor, no dizer de Bachofen). As mulheres dominavam a vida social, exercendo os homens, como se disse, apenas a função de machos reprodutores. A Grande-Mãe era representada por figuras femininas enormes, obesas, esteatopígicas,figuras que no dizer de Bachofen eram uma  espécie de proto-Afrodite. É por essa razão, lembre-se, que essas mães começaram a ser chamadas pelos arqueólogos e pesquisadores acadêmicos  de Vênus, ao qual se acrescentava o nome do lugar em que eram encontradas as estatuetas, Vênus de Willendorf, Vênus de Brassempouy etc.

VÊNUS DE WILLENDORF

As estatuetas dessas Grandes-Mães, como indicaram as pesquisas, já apareciam no paleolítico ( desde 30.000 aC) e sua produção estendeu-se até a era de Touro (mais ou menos entre 4.000-2.000 aC), período em que se concluiu a passagem da tutela da unidade familiar do feminino matriarcal para o masculino patriarcal. Duas observações importantes a se fazer aqui quanto ao nome de Vênus dado às estatuetas: 1) elas são representações da Grande-Mãe, cujas funções nada tem a ver com as atribuições de Afrodite-Vênus, como está na mitologia. As representações acentuam fisicamente  o que sobretudo na mulher lembra fecundidade, ventre, nádegas seios, vulva. 2) Esses pesquisadores, ao desenterrar o mundo matriarcal, nos ajudaram a reavaliar corretamente a história da humanidade e o papel que nela teve a mulher. Contudo, a visão que eles nos apresentaram veio carregada de preconceitos machistas, algo que uma pretensa objetividade científica conseguiu camuflar. A ironia com que trataram o assunto deixa entrever tudo isso. Eles, por exemplo, deram às estatuetas um nome que nada tem a ver com o que elas representam.  Este preconceito pode ser notado também na designação dada à primeira fase do matriarcado, heterismo, pelo qual se procurou comparar o papel da mulher nessas sociedades ao de prostitutas, o que é absolutamente incorreto, pois a prostituição é atividade mais ou menos institucionalizada que visa o ganho de dinheiro com a cobrança por atos sexuais, o que não ocorria em tais sociedades.

TELLUS MATER
   
O que temos de confirmado é que na ordem matriarcal sabia-se quem era a mãe, sendo o pai uma figura apagada e, no geral, ignorada. Assim, as uniões não eram monogâmicas. A vida, a rigor, dependia delas, das mulheres,  cujo corpo analogicamente se confundia com a própria Terra como fonte da vida, de todos os seres. Daí os nomes da Grande-Mãe nas várias mitologias, Geia ou Gaia, Magna Mater, Tellus Mater, Deusa da Montanha do Mundo, Potnia Theron, Maya-Shakti-Devi, Ísis, Cibele, Aditi,  todas doadoras e tomadoras da vida, sempre representadas por figuras enormes, gigantescas, solenes. 

CIBELE
  
Bachofen fala que na segunda fase do matriarcado, com a diminuição das  atividades  predadoras e coletoras, um incipiente processo de sedentarização deu condições ao aparecimento da agricultura e de cultos ctônicos, adquirindo a Grande-Mãe características lunares, representada por figuras que lembravam vagamente a Deméter grega. A esta fase se seguiu outra, a que ele deu o nome de dionisíaca, uma fase onde se notam já interferências masculinas mais ou menos poderosas. 

DEMÉTER
  
Aqui, quanto à chamada fase dionisíaca, outra imprecisão, um erro mesmo. Dioniso não faz a transição do feminino para o masculino. Ele age, isto sim, para destruir as formas que não sabem
DIONISO (MIGUEL ÂNGELO)
se renovar, tanto masculinas como femininas (ele, por exemplo, destruiu Ariadne, divindade do mundo vegetal, do mundo matriarcal). Num mundo saturado de machismo como o grego,tanto histórica como miticamente, Dioniso aparece muito mais ligado ao mundo feminino, sendo, como tal, venerado pelas amazonas. Extremamente complexo como divindade, ele se liga ao mundo animal e ao mundo vegetal, à energia que os percorre. Como deus das metamorfoses, anima a natureza com a sua energia de poder embriagante, confunde-se com a seiva, a própria vida do mundo vegetal.                                           


Dioniso sempre viveu entre mulheres. Sua fidelidade a Sêmele (nome que podemos aproximar de semen, tanto semente animal  como vegetal), filha de Cadmo, sua mãe, é notável. Dioniso, como sabemos, retirou-a do Hades para transformá-la na primeira das suas sacerdotisas, das suas mênades. Lembremos que, no período clássico da história grega, foram as forças dionisíacas que destruíram as formas do poder masculino da polis ateniense, dominada por Apolo, o deus da aristocracia grega. Dioniso intervém sempre que as formas masculinas ou femininas não sabem se renovar, corrompendo-as, apodrecendo-as, aviltando-as, enlouquecendo, conforme o caso, tanto os indivíduos como as coletividades, as sociedades humanas. 

ARIADNE E DIONISO (ANTOINE-JEAN GROS - 1821)

 Muitos séculos e séculos se passaram. Quantos? Aos poucos, na eterna luta dos opostos (masculino-feminino, ativo-passivo), no jogo de alternância das forças cósmicas, o mundo masculino  foi adquirindo poder, fortalecendo-se, conquistando posições políticas e sociais, apossando-se do campo religioso. As mulheres foram sendo rebaixadas. As divindades masculinas, de características fortemente patriarcais, passaram a ocupar as principais posições nos panteões religiosos.

MARDUK E TIAMAT

A ultima fase do matriarcado é chamada por Bachofen de apolínea, fase que, segundo afirma, está na origem da civilização moderna. Com efeito, a liquidação do matriarcado pode ser rastreada em
THEMIS
muitos exemplos míticos como o temos na Mesopotâmia: o domínio de Tiamat, princípio feminino, visto como uma ameaça do caos, pelo herói Marduk. Outro exemplo, muito significativo, foi a tomada do Oráculo de Delfos, de  Geia e de Themis, a Grande-Mãe e sua filha, guardado pelo dragão-serpente Python, por Apolo. Com a vitória de Apolo, a mântica divinatória, por incubação, tipicamente feminina, foi substituída pela mântica profética, apolínea, tipicamente masculina.  


À terceira fase, na visão mais “moderna” das teses matriarcais,  já totalmente dominada pelos homens, deu-se o nome de Demetrismo. Uma homenagem à Grande-Mãe através da deusa Deméter, da agricultura, dos grãos, dos cereais. Honrava-se de alguma modo o feminino, dava-se-lhe uma posição divina, mas absolutamente secundária, subalterna e inferior nos panteões. Uma figura que, embora necessária, pouco ou nenhuma representatividade tinha.

Na mitologia grega, por exemplo, dá para perceber o que aqui se afirma quando pensamos nos grandes operadores do sistema
PALAS ATHENA (GIUSTINIANI)
olímpico. Apolo e Palas Athena, os mais chegados a Zeus, além de Hera, tinham posição privilegiada nos grandes centros urbanos, seus maiores templos ficavam na polis. Uma divindade como Deméter não possuía templos nestes centros. Suas festas eram realizadas no campo, longe Os mistérios de Eleusis eram dela e de Dioniso, mistérios que falavam de morte simbólica e renascimento, algo que, em absoluto, interessava à aristocracia grega. As festas de Palas Athena, ao contrário, eram urbanas, atraíam pessoas do campo para a cidade. Suas festas, as Panateneias, tinham um caráter pan-helênico, citadino, sendo festas totais do mundo grego.


A reação do princípio feminino é consequência da terceira fase apontada por Bachofen. As mulheres procuraram resistir ao crescente aumento do poder masculino. Agruparam-se, formaram sociedades. A estas mulheres se deu o nome de amazonas (em grego, ausência de seio) porque elas, diz o mito, para melhor manejar o arco, arma na qual eram exímias, extirpavam um dos seios. As amazonas, quando precisavam assegurar a continuidade do seu grupo, raptavam homens, usando-os como reprodutores. Se da relação nascesse uma menina, conservavam-na, uma futura amazona. Se nascesse um menino, abandonavam-no ou o matavam.


Quanto à questão das origens, alguns asseguram que elas eram teriam saído  do Irã e passado a viver na Cítia, numa região que ficava perto perto do Ponto Euxino ou Mar Negro, entre a Europa, a Anatólia e o Cáucaso. A palavra amazonas viria  de hamazan, que, em iraniano, quer dizer lutar em grupo, lutar juntamente com alguém. 

 A realidade histórica das amazonas sempre foi questionada; existiram realmente essas guerreiras ou não? O que temos, com relação à antiguidade, aparece nas obras de vários escritores. Heródoto, o pai da História, relata que os sármatas (povo que vivia na região da atual Polônia) eram descendentes delas e dos citas. Já Hipócrates as menciona íntegras, nada dessa história de seio decepado para melhor poder manejar o arco. Diodoro Sículo, ao falar dos trabalhos de Hércules, nos dá notícias de que a capital do país das amazonas era a Temiscira, ao que parece na costa turca. Os depoimentos sobre elas se acumulam, havendo inclusive um,  entre os romanos, o de Júlio Cesar, que disse tê-las conhecido.

 Hércules é um dos mais perfeitos representantes do mundo masculino patriarcal. É filho do maior dos deuses, Zeus; sua mãe era uma princesa mortal e, embora casada, ainda era virgem; foi escolhida pelo Senhor do Olimpo, que a fecundou para torná-la mãe de um herói que simbolizasse a união das forças terrestres com as forças celestes. Hércules é um guerreiro e nunca abriu mão do entendimento de que quem faz o Direito é a Força. 
 
Recebeu nosso herói neste sexto trabalho a incumbência de ir ao país das amazonas com o objetivo de se apoderar, como bem entendesse, de um famoso cinturão que Hipólita, uma filha do deus Ares, a rainha das amazonas, possuía. A previsão de Hércules e de seu pequeno grupo, todos truculentos e violentos guerreiros como ele, era a de uma luta terrível, pois as amazonas sempre se mostraram como temíveis combatentes.

 Nada do previsto, porém, ocorreu. O pequeno grupo chefiado por Hércules foi recebido amistosamente pela rainha. Declarou nosso herói o objetivo de sua missão. Hipólita (etimologicamente, aquela que desatrela os cavalos) respondeu que poderia negociar, discutir a questão, o que seria feito no dia seguinte. Em nome da paz, a rainha se prontificou inclusive a entregar o seu cinturão, símbolo do poder feminino, desde que ambos, o masculino e o feminino passassem a viver em condições de igualdade. 

Os cintos e cinturões dão uma ideia de união, de ligação, de poder, de submissão, de dependência, tudo ao mesmo tempo. Como peça que envolve a cintura, o cinto, no entender dos antigos, separava o corpo em duas partes, a inferior, onde se alojam os órgãos genitais, da superior, sede do coração. Ao envolver a cintura, onde se encontram os rins, órgãos do equilíbrio (signo de Libra, oposto ao de Áries, sede da energia individualizada), o cinto indica assim uma submissão conquistada, ou melhor, uma vontade de se integrar livremente a uma outra para formar um todo maior. 

HÉRCULES MATA HIPÓLITA

Na noite que antecedia o dia da reunião marcada, aproveitando-se da calma que reinava no palácio, Hércules e seu grupo, desconfiados da proposta de Hipólita, e querendo logo resolver a questão,  atacaram de surpresa a rainha e as suas companheiras mais chegadas, não lhes dando a mínima possibilidade de reagir, promovendo uma carnificina sem igual; mataram-nas quase todas, poupadas algumas que foram dadas como escravas aos que do grupo mais se haviam destacado pela violência.  Mais uma vitória, uma grande façanha, sem dúvida.

Esta história é, evidentemente, uma ilustração do conflito entre os mundos masculino e feminino, uma polaridade universal, que aparece em todos os níveis da criação. No ser humano, na sua fisiologia, no seu psiquismo, na vida social, na convivência humana, nas relações entre as nações, na vida religiosa etc., sempre estão em ação estes dois princípios. 

Quando o Sol atravessa a constelação de Virgem, último mês do verão, há uma retração da luz do verão, uma contenção. No mês seguinte, O Sol estará no signo de Libra, equinócio de outono, onde o dia e a noite têm a mesma equivalência. Fica fácil entender: para que possam se unir, os dois lados têm que se equilibrar continuamente, o que nem sempre é fácil. Quando pensamos em Libra, temos que pensar num mundo de medidas, de nuances, de atenuações, de ajustes permanentes, através dos quais o todo caminhará. É por isso que Libra é signo do elemento ar, que pressupõe comunicação. É este jogo de relações e de ajustes permanentes que gera o nascimento, como modelo de convivência, no dizer dos antigos gregos, da Afrodite Dourada. Quem prepara o nosso ingresso consciente no signo de Libra é o signo de Virgem. 

O que a história nos revela é que faltou sensibilidade a Hércules para perceber que lhe estava sendo oferecida uma oportunidade de equilibrar o masculino e o feminino tanto em termos de sua personalidade como de convivência humana, uma possibilidade de entendimento entre estes dois componentes que todo ser humano possui em variados níveis nos seus três corpos, o físico, o emocional e o mental. Mas ele nada disso percebeu. O que lhe interessava era a vitória, a qualquer preço. Faltou-lhe compreensão para notar que se oferecia a ele um meio, ainda que não muito claro, de dar um primeiro passo na direção de algo maior. 

No signo de Virgem, o sexto na ordem zodiacal, surgem, nas suas expressões superiores, ideias de sacrifício, de compreensão e de tolerância em nome do Todo que vier a ser formado. Para isso, há que se purificar o ego nascido no signo anterior (Leão), limpá-lo dos seus excessos luminosos, egoicos, preparando-o para que seja capaz de se ajustar constantemente, diariamente, em Libra, o signo da união. Em Libra, entramos no equinócio do outono, quando momentaneamente os dias e as noites têm a mesma duração. 

O número do signo de Virgem é o seis, que integra dois ternários. Como tal é o número dos dons recíprocos e também dos
antagonismos. A estrela de seis pontas tem relação com uma visão macrocósmica, enquanto a de cinco pontas nos remete à ideia microcósmica, do ser que adquire a luz somente para fins materiais. As seis pontas indicam os dois triângulos entrelaçados e invertidos, o encontro da matéria com o espírito, um encontro que pode significar um sentido evolutivo ou involutivo para a vida.

Os cinco primeiros trabalhos de Hércules cobrem um período de preparação, da construção de um ego autônomo. A partir de Leão uma nova etapa se apresenta. O lado material (ego leonino) deve começar a se subordinar ao espiritual. Nesta etapa virginiana é que temos que nos preparar para todas as formas humanas de contrato, purificando o nosso ego, atenuando-o para que possamos conviver melhor com o outro e, partir dele, nos integrarmos à grande família humana.

Virgo é o ponto intermediário entre a matéria e o espírito. A força de Virgo está na colheita e não na semeadura. Colher e preparar o alimento. Aproveitar o essencial, deitar fora o supérfluo, o inútil,
VIRGO: A COLHEITA
tanto uma função cerebral como intestinal. O perigo de Virgo está na imobilidade diante das escolhas. Em Virgo, surge a ideia de sacrifício, de cortar e de jogar fora, de selecionar e  criticar (verbo e função virginianos). A ação de Virgo tem que se voltar para coisas práticas, pois é através delas que decidimos quanto à organização da nossa vida diária. Em Virgo, temos que dominar os excessos leoninos, o egoísmo, as tendências narcísicas, os excessos da nossa subjetividade, sempre um intransponível obstáculo para  a compreensão e o entendimento.


Os perigos de Virgo estão na exagerada busca da lucidez, na tendência às abstrações, na valorização da memória prática e das infindáveis classificações. Neste sentido, é que o lacre, o selo, o não violado têm a ver com Virgo. Nos tipos malogrados do signo,  comuns as tendências ao celibato, à timidez, à castidade, ao puritanismo, à visão do sexo como sujeira, à mania de limpeza, à hipocondria,  aos transtornos obsessivos compulsivos (TOC).

 Hércules, fixado no seu eu leonino,  não soube se abrir para a oportunidade que Hipólita lhe ofereceu. Permaneceu na horizontalidade do seu ego, não entendendo que o leonino deve procurar a verticalização através da caminhada espiritual a partir de Virgo. Entender-se com o outro (social) para chegar à humanidade, ao coletivo (espiritual).  
 
Do grupo de Hércules, dentre outros, fazia parte Teseu, herói da Ática, tão importante no mito quanto ele, também filho de um deus, Poseidon. Como Hércules, saturado de energia masculina, recebeu como presente pela vitória sobre as amazonas  Antíope, irmã de Hipólita. Uma das versões desse mito nos conta ela foi levada por Teseu para Atenas, passando a viver com ele, tornando-se mãe de Hipólito,  personagem famoso que terá seu nome ligado mais tarde a Fedra, uma outra mulher de Teseu. 

         É neste sexto trabalho de Hércules que temos um dos famosos
MORTE DE LAOMEDONTE
episódios de percurso do nosso herói. Ao retornar do país das amazonas, ele passou por Troia, então vitimada pela peste. Apolo e Poseidon faziam a cidade padecer terrivelmente porque não haviam sido recompensados devidamente pelos serviços que haviam prestado ao rei Laomedonte, a construção das muralhas da cidade. Consultado, um oráculo revelara que o mal só seria afastado se o rei oferecesse em sacrifício a sua filha Hesíone, para ser devorada por um monstro. 


Foi a essa altura que Hércules, passando por Troia, se prontificou, como era de seu costume, a resolver o problema real, desde que Laomedonte lhe desse, em pagamento, umas éguas divinas recebidas de Zeus. Assim foi combinado, cumprindo Hércules a sua parte, isto, é, matando o dragão. Laomedonte, porém, se negou a cumprir o acertado. Furioso, Hércules se retirou da cidade. Tempos depois, contudo, a ela voltou com um pequeno exército. Matou Laomedonte e escravizou os troianos. Deu Hesíona de presente ao herói Telamon, permitindo que ela levasse algum troiano como escravo. Hesíona escolheu o seu próprio irmão, Podarces, resgatando-o antes, porém. Por isso, Podarces teve seu nome mudado para Príamo (etimologicamente, o resgatado, o comprado), quando, mais tarde, por uma virada do destino, assumiu o trono de Troia.


  
A constelação de Virgem estende-se nos céus de 20º Virgem a 6ºScorpio. Está hoje comprovado  que ela já era conhecida pelos egípcios desde remotíssimos tempos pré-dinásticos. Entre, mais ou menos, 10.000 e 8.000 aC, no ciclo das eras cósmicas (2.160 anos cada era)  os egípcios celebraram a passagem do Sol da constelação de Virgem para a de Leão, construindo a sua famosa esfinge no Baixo-Egito, tendo sido mais tarde levantadas ao seu lado as pirâmides  de Keops, Kephren e Mikerinos. 

É de se lembrar que tanto a localização dessas três pirâmides como a da esfinge foram
DENDERAH
determinadas astronomicamente (fato não aceito pela egiptologia oficial). A esfinge já fazia parte do zodíaco de Denderah como uma representação de Ísis, esposa de Osíris e mãe de Hórus. Ela era vista com uma espiga de trigo na mão, por ela lançada no espaço para formar a Via Láctea. O zodíaco de Denderah, um dos maiores monumentos astrológicos da história da humanidade, é um baixo-relevo esculpido no pórtico da câmara do deus Osíris, num templo da deusa Hathor, como mãe do Sol. Está hoje no Museu do Louvre. 

Os árabes chamavam a constelação de Virgem de Al Adhira al
ERÍGONE E DIONISO
Nathifah, A Inocente Donzela. Os chineses a chamaram de A Frígida Donzela. Os gregos tanto a viram como Deméter, deusa dos cereais, como Erígone, filha de Icário, camponês que hospedou o deus Dioniso quando ele desceu ao mundo para ensinar aos humanos a cultura da vinha. Dioniso se apaixonou por Erígone, uniu-se a ela para que nascesse Estáfilo, o “cacho da uva”. 


Uma outra versão grega nos informa que a constelação da Virgem é Astreia (plural de astros). Filha de Zeus e de Themis, deusa das leis imprescritíveis,   Astreia, justa e virtuosa, vivia entre os humanos na Idade do Ouro. Pervertendo-se os humanos, ela, com a sua irmã Aidós, O Pudor, se retirou da Terra, fixando-se como a constelação da Virgem nos céus.

A principal estrela (alfa) da constelação da Virgem é Spica, uma das mais importantes dos céus, hoje a 23º09´Libra. Simboliza a
DIONISO E AMPELO
espiga de trigo, nas mãos da deusa, como uma promessa de dons (agricultura) para a humanidade. Importante também em Virgo é Vindemiatrix, etimologicamente, aquele que colhe cachos de uva. No mito, ele é Ampelo, jovem filho de um sátiro e de uma ninfa, amado por Dioniso. Ao colher um cacho de uvas numa videira que o deus lhe dera de presente, caiu e morreu. Desolado, o deus o transformou então em estrela, que está hoje a 9º15´Libra.


As constelações que associamos a Virgem são a do Pastor, Coma Berenices, Corona Borealis e a Ursa Maior. Na primeira, que se estende de 27ºVirgem-7ºEscorpião, temos a história de Arcas (etimologicamente, o que vem da ursa, arktos), filho de Zeus e de Calisto. A ninfa, grávida, foi transformada em ursa por Ártemis. O filho nasceu, recebeu o nome de Arcas e foi entregue a Maia, mãe do deus Hermes. Tornando-se caçador, Arcas um dia quase matou  a própria mãe transformada em ursa. Para evitar acontecimentos como este, Zeus levou Calisto para os céus como a constelação da Ursa Maior, colocando-a sob a tutela de Arcturus, a estrela alfa da constelação do Pastor ou Boieiro (Arcas).

CALISTO

 Na constelação de Coma Berenices, que vai de 17ºVirgem a
BERENICE
12ºLibra, se registra a história de Berenice, a mulher de Ptolomeu Evergetes. Princesa egípcia, Berenice pertence tanto ao mito como à História. Tendo seu marido partido para fazer a guerra na Síria, Berenice prometeu doar os seus belíssimos cabelos aos deuses se eles o protegessem. Assim aconteceu e Berenice depositou os seus cabelos no templo. Um dia, eles desapareceram. Para acalmar Ptolomeu, disseram-lhe que Afrodite os levara para os céus, transformando-os em constelação.

Corona Borealis (2º a 17ºScorpio), para os gregos, foi o diadema que Afrodite deu a Ariadne quando ela se uniu ao deus Dioniso na
ARIADNE E TESEU
ilha de Naxos, depois de abandonada por Teseu. Ariadne e Teseu, como sabemos, são expressões do matriarcado e do patriarcado, respectivamente. Dioniso, como nos conta o mito, depois dar três filhos à princesa cretense, a sacrificou, colocando o diadema que Afrodite lhe dera como constelação nos céus. O mito narra, numa outra leitura, ainda dentro das aproximações matriarcado x patriarcado, a penetração da cultura da vinha (Dioniso) no Mediterrâneo oriental, simbolizando a morte de Ariadne, como antiga deusa da natureza, o sacrifício da vegetação para que isso se tornasse possível.


A Ursa Maior (10ºCâncer-27ºVirgem) é a mais importante
URSA MAIOR
constelação dos céus, sendo considerada por todos os povos da antiguidade como o “umbigo do céu”.  Desde a pré-história, é um centro universal, fazendo todas as demais constelações um movimento circular à sua volta. Nela, durante milênios, se situou a estrela Polar, a partir da qual todo o universo se movimentou. Hoje, a estrela que desempenha esse papel, como o nome de Polaris (a 27º52´Gêmeos), é da constelação da Ursa Menor.