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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

ESCORPIÃO (3)



HADES

A reputação de Hades, como deus do inferno, do mundo subterrâneo, tanto entre os imortais como entre os humanos era péssima. Sinistro, taciturno, seus irmãos e pares jamais o viam, não participando ele, por seu lado, das famosas reuniões olímpicas. Ele não visitava ninguém, todos o temiam. Quanto aos mortais, todos evitavam pronunciar seu nome, usando eufemismos, como o nome Plutão, o rico, para se referir a ele. Entretanto, se considerado mais de perto, se levada em conta toda a sua história, Hades era um deus justo. Com ele, nada de favores, de tratamentos especiais. Todos, ricos ou pobres, eram recebidos do mesmo modo no seu reino. Nem justo ou injusto, simplesmente inexorável por que desconhecia sentimentos como piedade ou compaixão. Cumpria a sua função, governando com eficiência a parte que lhe coube quando da divisão do universo entre ele, Poseidon e Zeus.


REINO   DE   HADES ( GRAVURA / ANÔNIMO )
Os mortos, no reino de Hades, não eram senão sombras sem consciência ou sangue, eidola. Moviam-se mecanicamente, tudo era repetitivo, não passavam de fantasmas errantes que perambulavam por planícies de asfódelos, tão tristes e soturnas como eles. Os gregos, desde Homero, davam à alma (psyche), além de eidolon, nomes como skia (sombra), opsis (aparência),  phantasma (fantasma) e onar (sonho), sempre uma forma frágil, volátil, à qual faltava o corpo (soma), razão do seu esplendor. 

CÉRBERO   E   HÉRCULES ( P. P. RUBENS , 1636 )

Cérbero, o cão tricéfalo, além de cuidar para que as almas não escapassem do destino que lhes cabia, impedia que os mortos descessem ao mundo ctônico sem terem passado ritualmente pela morte. Caronte, o barqueiro, por sua vez. só admitia no seu barco,
CARONTE (G. DORÉ, 1832 - 1883)
para o devido cruzamento do rio Aqueronte, as almas que lhe entregassem o devido óbolo. Julgadas no Tribunal da Verdade presidido por Minos, eram elas encaminhadas, conforme o caso, ao Érebo, ao Tártaro ou aos Campos Elíseos. Para este último iam algumas almas de elite, onde ficariam aguardando o retorno à vida sem sofrimento. Mas eram poucos, muitos poucos, aqueles que podiam sonhar com esse território idílico. Mesmo muitos heróis não os atingiram, o que fazia supor que apenas ter coragem não bastava para que alguém escapasse dos castigos do Hades.


HIPNOS   E   THANATOS   CARREGAM   HERÓI   MORTO

Alguns falavam que o Érebo acolhia os mortos privados de sepultura. Era nele, segundo depoimentos, que ficavam os Palácios
MORFEU , 1777  ( J.F.HOUDON )
de Thanatos, de Hipnos e de seu filho Morfeu, os dois primeiros irmãos gêmeos. O Palácio das Eríneas, deusas do remorso, ficava por perto. Um pouco mais ao longe, tínhamos os domínios de Nyx, a grande deusa da Noite, que, segundo Hesíodo, nasceu diretamente do Caos e gerou muitas calamidades que atacavam os humanos. Nas camadas mais profundas do Hades ficava o Tártaro, lugar jamais alcançado pela luz, prisão eterna dos maus, lugar sem saída. Foi nele, um lugar ao mesmo tempo glacial e fervente, que Urano lançou os seus filhos e que Zeus aprisionou os titãs. Nele, com permanência até o final dos tempos, estão criminosos famosos como Sísifo, Tântalo, Ixion, as Danaides e outros,  devorados por seus remorsos e culpas.

HÉCATE  ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1828 )

Tão ou mais poderosa que Perséfone, vivia nesse mundo Hécate, deusa dos encantamentos e da magia, a maior e a mais bela de todas as feiticeiras, uma Deusa Tripla, Grande Mãe, na origem. Para uns filha de Nix e do Tártaro, para outros, descendente dos Titãs; o que se sabe de certo é que quando os olímpicos assumiram o poder ela já pontificava e no reino deles conservou os seus privilégios e até os aumentou, sempre muito respeitada. Apesar das tentativas de “enegrecê-la”, ela, quando adequadamente honrada, continuou favorecendo os humanos, proporcionando-lhes prosperidade material, o dom da eloquência nas assembleias, vitórias nos jogos e nas batalhas, pesca abundante e rebanho numeroso. 


HÉCATE
Hécate (a que fere à distância, de longe, etimologicamente) é uma deusa lunar trívia (as três fases lunares visíveis), honrada nas encruzilhadas, que visitava a cada vinte e oito dias, quando subia à superfície terrestre, acompanhada de animais que simbolizavam a fecundidade. As encruzilhadas, como se sabe, são lugares de mudança, de transformação, de viradas de destino. O poder que a deusa tinha sobre elas era dividido com Hermes, também nelas honrado, na sua forma itifálica. Profundamente misteriosa, tinha Hécate relação direta com a Lua Nova, período em que aparecia nas encruzilhadas. Presidia às aparições de fantasmas e de espectros, assumindo então a função de senhora dos malefícios, dos pesadelos, deusa perigosa, terrível, sempre temida, que destruía aqueles que ficavam “prisioneiros”, imobilizados, sem nada decidir, nas encruzilhadas. Era, como tal, invocada secretamente no curso de todas as operações de magia negra. 


ERÍNIAS
Tinha Hécate como atributos a tocha que iluminava o caminho que levava aos infernos, o punhal sacrificial, o chicote para despertar as consciências sonolentas e a chave que abria as portas de acesso a lugares proibidos ou secretos. Como Ísis e outras Grandes Mães, Hécate possuía poderes que lhe permitiam intervir em todo o universo. As Erínias, grandes divindades dos remorsos e das culpas, nas incursões que faziam em conjunto, a acompanhavam sempre respeitosamente, com grande deferência. Ativa colaboradora do Hades, Hécate sempre se manteve muito à vontade nas suas atividades, mesmo depois de Perséfone ter recebido o título de rainha dos infernos. 

HADES  RAPTA  KÓRE
( 1621/22 , G.L. BERNINI )
Por sua associação com o mundo subterrâneo e com os temas de morte e renascimento, Escorpião sempre foi conhecido como o signo da vida subconsciente. Inicialmente, na mitologia grega, como sabemos, o mundo subterrâneo foi governado apenas por uma divindade masculina, Hades. Quando ele raptou Kóre para transformá-la em Perséfone, restaurava-se com esse ato, quanto ao mundo infernal, a dignidade do princípio feminino, entendendo então os gregos que o vasto, inexplorado e inexplicado mundo da vida subconsciente pertencia, de fato, ao elemento feminino. 

Esse entendimento, aliás, já estava implícito na ação da deusa
PLUTÃO
Hécate, e mesmo quando o patriarcado tomou posse do oráculo de Delfos. Apolo só conseguiu sentenciar oracularmente quando se valeu das sibilas, isto é, quando recorreu ao feminino. O mito do Hades como um todo nos revela que os princípios masculino e feminino devem sempre operar através do equilíbrio e de compensações. É por isso que Plutão, num mapa astrológico, é tão feminino quanto masculino. 

 Na astrologia, assinale-se, Plutão é o grande reformador que destrói para reconstruir melhorando, que questiona tudo, abolindo usos e costumes para reformulá-los mais eficazmente, forçando as reciclagens. É por essa razão que Dioniso tanto é chamado de Faleno como é considerado como o mais feminino dos deuses gregos, lembrando-nos sempre que toda produção terrestre tem como origem mais profunda e última (ou primeira) as profundezas infernais. 

MEMÓRIA
( MAGRITTE , 1898-1967 )
Na Psicologia, como se sabe, pertence ao subconsciente (feminino) aquele conjunto de fatos ou vivências pouco conscientes ou que estão fora do limiar da consciência atual ou aos quais ela não pode ter acesso. Nem tudo que está na esfera do subconsciente, entretanto, é inconsciente; alguma coisa pode subir, dela se pode ter consciência. Diz-se, por isso, que no inconsciente estão abrangidos todos os conteúdos ou processo psíquicos que não são conscientes, isto é, que não estão referidos ao eu de um modo perceptível.

A questão de se apurar em que estado se encontra um conteúdo inconsciente escapa de toda possibilidade de conhecimento direto. Também é impossível se determinar a dimensão desse mundo inconsciente. Só através das constatações existenciais pode ele ser percebido, embora nunca muito claramente. O que se sabe é que conteúdos conscientes podem se tornar inconscientes em razão de uma perda de energia. É o que chamamos de esquecimento. Esses conteúdos, também nos diz a experiência, podem emergir do seu afundamento sob determinadas condições, através de sonhos, hipnose, práticas de livre associação etc.


SONHO  (1956 , SALVADOR  DALÍ)
É possível também que os conteúdos conscientes possam ficar submersos sem grandes perdas de sua energia em virtude de esquecimentos intencionais, como é o caso da repressão de conteúdos penosos (recalques). Em casos de dissociação da personalidade, pela dissolução da unidade da consciência, em virtude de um violento choque nervoso ou de uma profunda e intensa afeição podemos ter também casos de submersão ou de repressão como mencionamos. 

Os conteúdos inconscientes permitem que uma tentativa classificatória possa ser estabelecida. É possível, por isso, falar de um inconsciente pessoal, que compreenda todas as aquisições de uma existência pessoal, tudo aquilo que, em suma, é esquecido, reprimido, sentido, pensado para além do limiar da consciência. Além desses conteúdos pessoais inconscientes podemos admitir que existam outros que não provêm de aquisições pessoais, mas que se originam de ideias inatas e que fazem com que as experiências vividas sejam organizadas através  de determinados padrões de comportamento comuns a toda a humanidade. O inconsciente coletivo é, nesse sentido, uma espécie de reservatório ancestral de experiências, herança racial jamais tornada consciente, mas que se manifesta nos sonhos por imagens arquetípicas em ligação com mitos, lendas etc.

FREUD,1926 (SCHMUTZER)
Freud distingue no psiquismo três instâncias: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente, correspondentes a níveis decrescentes a partir do primeiro. Tanto na Psicologia como na Psicanálise, o consciente (masculino) é o aspecto da psiquê que constitui o lado da vida mental a que se tem acesso instantâneo e que está em maior contacto com a realidade exterior. Esta realidade exterior é simbolicamente a superfície terrestre, o mundo natural, onde o ser humano vive, se locomove e age. Logo abaixo da superfície terrestre (feminino), sempre simbolicamente, começamos a descer, como os mitos explicam, em direção do Hades através de certas aberturas, cavernas, grutas e regiões pantanosas. Os gregos chamaram essa região vestibular do Hades de “O Bosque de Perséfone”, um lugar lúgubre, desolado, onde vivem espectros, fantasmas, e seres que se fixaram num estado entre a vida e a morte, que não morreram ritualmente. 


BOSQUE DE PERSÉFONE
( G. DORÉ , 1832 - 1883 )
Dentre os fantasmas e espectros desse mundo, destacamos Algos (Dor), Geras (Velhice), Ponos (Fadiga), Metanoia (Arrependimento), Ftonos (Inveja), Penia (Pobreza), Hybris (Desmedida) etc. A analogia entre o “Bosque de Perséfone” e a vida pré-consciente parece bastante aceitável, principalmente se lembrarmos, segundo a própria doutrina freudiana, que faz parte dela tudo aquilo que não está presente na consciência, mas que pode ser lembrado sem resistência ou repressão internas. O pré-consciente é uma espécie de antecâmara, está dotado de uma certa memória que provém da vida pulsional. As entidades que o habitam, conforme o caso, embora não presentes na consciência, a invadem muitas vezes, podendo gerar muitos problemas. 

INFERNO  ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1928 )

Não é por acaso que muitos mitólogos consideram as entidades acima mencionadas como divindades alegóricas. A alegoria (do grego, dizer outra coisa além do seu sentido literal) é um processo que nos permite representar pensamentos, ideias ou qualidades sob forma figurada em que cada elemento funciona como disfarce da ideia representada. Nesta linha de raciocínio, o Érebo e o Tártaro constituiriam a vida inconsciente, as camadas mais profundas do Hades. Lembremos que qualquer coisa que escape de nossa consciência, ela não cessa de existir, ela não desaparece. Nós a perdemos de vista somente. Grande parte da nossa vida inconsciente é assim constituída por uma multidão de pensamentos, de impressões, imagens temporariamente obliteradas, não conscientes, mas que continuam a nos influenciar. O Érebo (obscuridade, escurecimento, etimologicamente) é no mito, como sabemos, uma prisão onde as almas ficam aprisionadas por longo tempo, submetidas a sofrimentos indescritíveis. O escurecimento do Érebo tem um caráter involutivo, regressivo, negativo. O interior da terra é escuro, negro, mas é nele que irá se operar a regeneração do mundo diurno, o mundo de cima. Na escuridão temos o desaparecimento de todo o conhecimento distinto, analítico, exprimível, privação de toda evidência 


TÁRTARO  ( J. VAN SWANENBURG , 1571 - 1638 )

A última camada do Hades é o Tártaro, encontrando-se a Terra simetricamente distante dele e do céu. Ele é o abismo mais profundo das entranhas da Terra, lugar de escuridão absoluta, que a luz jamais alcança, símbolo da inconsciência total, prisão dos grandes criminosos, de onde ninguém escapa. Sempre a cercar o Tártaro ideias de impotência, de impossibilidade de mudança, de tortura. As almas nele encerradas não alimentam nenhuma esperança de fuga, de consolação ou socorro. 


SOLUTIO
Alquimicamente, lembremos, o signo de Escorpião tem relação com a solutio, operação típica do elemento água. É neste sentido, da solutio, por exemplo, que Dioniso atua quando leva, através do kykeon, na fase da orgia,  os participantes dos Mistérios de Elêusis à dissolução do seu ego, proporcionando-lhes um verdadeiro banho de imersão orgiástico na vida instintiva. Essa experiência apaga diferenças em nome de uma identificação coletiva dos mystai. Os aspectos fixos e estáticos da personalidade dos participantes são dissolvidos ou reduzidos a estágios primordiais que podem até anteceder a própria vida instintiva. É nestas ocasiões que a solutio dionisíaca poderá ser vivida como aniquilação do ego,  passível de proporcionar o surgimento de uma nova forma. 

A solutio, vivida como  putrefação,  mortificação ou outra operação qualquer do gênero, na linguagem dos alquimistas, equivale à nigredo, ao desaparecimento da forma, uma experiência que lembra sempre a morte. Como o próprio nome indica, a cor da nigredo é o negro, cor do signo de Escorpião. O negro caracteriza, num primeiro momento, as trevas, a tristeza, o nada, a anulação de toda evidência e esperança. Entre os gregos, o negro era a cor do luto, da mágoa, da lástima; no latim, temos o verbo latino lugere, chorar a perda, de onde saiu a palavra luto. Uma operação que os alquimistas associam à solutio e à mortificatio é a putrefactio, a decomposição que destrói os corpos orgânicos mortos; está ela vinculada ao apodrecimento, que, sob o ponto de vista astrológico, é o prelúdio do renascimento, uma imagem escorpiana altamente positiva. Era por essa razão que muitos ritos de iniciação na antiguidade se realizavam à noite; o postulante atravessava uma morte simbólica num lugar escuro para se tornar um homem novo e renascer para a vida espiritual depois dessa travessia.

SERQET
Entre os egípcios, lembremos, o escorpião era consagrado à deusa Serqet, conhecida desde os tempos pré-dinásticos. O ideograma de seu nome lembra um escorpião aquático (nepa, para os latinos) e seus sacerdotes assumiam uma importante função na área médica, em particular quanto à cura de picadas de animais venenosos. Esta deusa era companhia inseparável de Ísis, que a levava em todas as suas peregrinações, devendo-se a ela, talvez, em parte, o poder desta última de transmitir a vida através da morte (renascimento), como nos informam os chamados Mistérios de Ísis.

Acolitada por Nephtis, Neith e Serqet, Ísis aparece também como  guardiã e protetora das vísceras e dos corpos a serem reanimados. Serqet desempenhava um importante papel nas cerimônias de embalsamamento como protetora das entranhas dos mortos. Era ela quem tomava conta do canopo (vaso destinado a conservar as vísceras), encarregada de manter “saudáveis” os intestinos. Aparecia a deusa, por essa razão, como grande protetora do morto e de seu sarcófago. Não é por acaso que no Egito um dos mais antigos hieróglifos é o do escorpião, encontrado no alto de alguns cetros de faraós.  
  
PUTREFACTIO
A putrefactio é a operação que melhor caracteriza o signo de Escorpião na medida em que durante o período em que o Sol o atravessa fica mais claro, mais nítido para nós, o desaparecimento da vida vegetal da face da terra. Chuvas e frio, galhos que se retorcem, que se quebram, folhas que rodopiam ao vento, tudo se espalhando sobre a terra para dar origem ao húmus, o elemento que possibilitará o aparecimento de novas formas de vida mais adiante. As águas perdem a sua fluidez, fixam-se, tornam-se escuras, lamacentas, trazendo, de um lado, imagens de estagnação, silêncio, decomposição, lodo, onde micro-organismos trabalham invisivelmente, e, de outro, invadindo tudo, odores fétidos materializados pelo gás metano, o gás dos pântanos. 

Os pântanos, como o de Lerna (oitavo trabalho de Hércules), carregados de matéria em decomposição, ao estender a sua influência pestilenta, sempre apareceram relacionados com o império do mal, do pecado e da perdição. A cercá-los sempre uma ideia de imobilismo, de uma passividade feminina. Foi por essa razão que o Budismo fez dos pântanos símbolos dos prazeres sensuais, obstáculos para a caminhada pela via óctupla. Lembremos que os pântanos, na Psicanálise, são imagens da vida inconsciente e lugar de germinações invisíveis. Na China, os pântanos são “centros espirituais”, onde o poder do céu se manifesta.
  
Toda operação alquímica, como se sabe, tem aspectos positivos e negativos. A solutio, quando experimentada como putrefacfio, é sempre negativa, dolorosa, um retorno, num primeiro momento, à prima materia dos alquimistas, para, quem sabe, dali se partir para  uma outra forma. Não é por acaso que figuradamente apodrecer pode tomar o sentido de permanecer muito tempo num lugar, inibir mudanças, transformações, apodrecer num emprego, por exemplo, ainda que sempre presentes, de médio para longo prazo, ideias de corrupção, de deterioração, de perversão. A putrefação é, nesse sentido, o triunfo da morte, de Thanatos.

THANATOS
(VON DER MARK, SÉC.XVIII) 
Thanatos é palavra que em grego sugere extinção, dissipação, transformação, escuridão. Insensível, Thanatos, dizia-se (Hesíodo), possuía um coração de ferro e entranhas de bronze. Era uma espécie de gênio da morte que estava sempre presente quando Átropo, a Moira, punha fim à vida de alguém, cortando o fio que o prendia à existência. A palavra Thanatos toma o sentido de ocultação, de algo que vai se desvanecendo, se apagando. Isto se devia ao fato de que o morto se tornava um eidolon, um corpo evanescente, insubstancial, uma energia fraca, bruxuleante, que guardava vagamente a forma física. 



G. DE  CHIRICO ( 1888 - 1978)
Thanatos, ao mesmo tempo que apontava para os gregos o aspecto perecível e impermanente da existência, sugeria também uma ideia de revelação e de regeneração. Era, como tal, a divindade que introduzia os humanos em mundos desconhecidos, enviando sua alma (psyche) ao Hades. Para Homero, psyche, ao se retirar do corpo físico na ocorrência da morte, transformava o agregado de membros e órgãos, o corpo do herói (soma) num cadáver sem movimento que logo iria de putrefazer. 

Para muitos, Thanatos lembrava que a morte podia ser vista também como um rito de passagem, ao abrir as portas para um reino diferente, indicando que a vida e a morte eram complementares. Para os que não o viam apenas desse modo, para os que sempre haviam orientado a sua vida só no sentido material, sua presença era espanto, terror e olhos esbugalhados. Não sendo um fim em si, Thanatos era também neste sentido libertação do sofrimento e das preocupações. 
                         
É no signo de Escorpião que encontramos, além das histórias de Hades, de Thanatos, de Osíris e de Dioniso, as Shiva que, talvez mais do que quaisquer outras divindades, nos fale da morte como de preparação para uma vida nova. Terceira pessoa da trimurti hinduísta, na qual exerce a função destruidora e, como tal, renovadora, é (foi) neste sentido, muito mais reverenciado pelos antigos povos védicos que Brahma (criação) e Vishnu (conservação), as outras duas pessoas da mencionada trimurti. 

SHIVA
Shiva nos diz que tudo que teve um começo, tudo o que entrou na existência e que adquiriu uma forma deve necessariamente ter um fim. Tudo que nasceu deve morrer. Tudo que tomou forma deve se desintegrar. O poder de destruição é a via que conduz à cessação do existir. Este poder universal de destruição pelo qual toda existência termina e do qual toda existência emana é chamado pelos hindus de Shiva. Ele é a tendência à dispersão, ao apodrecimento, à desintegração, à decomposição, à aniquilação. Quando o universo se estende indefinidamente, ele se dissolve gradualmente e cessa de existir enquanto organismo. Nada que existe escapa deste processo. Por

isso, a existência é apenas um estágio num universo que se estende (coagulatio) e se decompõe continuamente (solutio). É por isso, como nos dizem os hindus, que a destruição é tão divina quanto a criação e a manutenção. Ou seja, a destruição é a causa última, origem primeira, invisível, de toda a criação. Ele, Shiva, é para os hindus o estágio supremo do real, pois além dele só podemos falar do não-existente. Por isso, os Upanishads o descrevem como um abismo sem fundo.

Na sua forma destrutiva, Shiva aparece montado num touro branco (Nandi) e carrega nas mãos um tridente (trikala, trishula), símbolo da dissolução universal, um retorno à indiferenciação. Enquanto destruidor de todas as coisas, ele é Kala, o Senhor do Tempo. Lembremos que para os hindus há duas espécies de tempo. Um é corolário do espaço, o que nós percebemos, outro é o chamado Grande Tempo (Maha-Kala), uma eternidade sempre presente, indivisível e sem medida. Shiva é o dono dos dois. Nesse cenário, para os hindus, são os planetas que determinam os ritmos do tempo relativo, as condições do mundo como as percebemos, sendo os agentes das leis cósmicas que regem o destino humano 

SHIVA   E  TOURO  NANDI
Shiva encarna a tendência centrífuga, tem três olhos (Sol, Lua e Fogo). Seu olho central, frontal, é o da percepção transcendente. Quando ele olha através dele tudo é destruído, reduzido a cinzas. Sob sua fronte, ele leva um crescente lunar, como um diadema, para mostrar o seu poder de procriação, que sempre anda junto com o da destruição. O rio Ganges desceu dos céus em direção da Terra através de seus cabelos, sempre molhados por isso. Rios, simbolicamente, indicam o fluir das formas. A descida do Ganges em direção do oceano representa o retorno à indiferenciação; subi-lo, no sentido contrário, é  acesso ao Princípio, à Fonte Original. 


SHAKIT  DE  SHIVA
O lado feminino (Shakti) de Shiva tem como montaria (vahana) o tigre, sendo a pele do animal um de seus símbolos. Os quatro braços do deus representam a dominação universal; nesse sentido ele é dono das quatro direções do espaço e eles indicam também o seu poder sobre os elementos. O tridente, símbolo da solutio universal, é também nas suas mãos um instrumento de punição. A arma predileta de Shiva é, entretanto, o bastão (Pashupata), uma espécie de porrete com ponta de ferro, com o qual ele aniquila os seres do mal (daityas) e com o qual, no fim dos tempos, como ele o faz ciclicamente, destruirá o universo inteiro. Ao assim agir destrutivamente, ele usa, como Kali, uma de suas formas femininas, um colar de cabeças  em torno do pescoço. Além do porrete e do tridente, Shiva usa também o machado, o laço e o arco. Ao se apresentar sempre com uma serpente enrolada no seu corpo, ele nos dá a entender que ela é um emblema da imortalidade, ao representar o conjunto dos ciclos da manifestação universal, o samsara, encadeamento do ser no vir-a-ser, indefinidamente, da morte ao renascimento. 

Shiva nos anuncia também que a serpente é o símbolo do conhecimento perigoso, o da descoberta da sexualidade. Em muitas tradições, por isso, ela aparece como a tentação, portadora de forças perigosas e maléficas. Os hindus fizeram da serpente uma imagem da kundalini, a energia cósmica e sexual, o poder vital ou libido, adormecido no chakra básico (muladhara), entre a região anal e o sexo, devendo ele ser despertado, vitalizado e dirigido na direção do chakra da coroa (sahasrara), passando por centros vitais intermediários, sublimação compreendo sempre muitos tropeços e fracassos. 


ANANTA
Na Índia, há a imagem da grande serpente Ananta, que estendida sobre as águas primordiais, personifica a eternidade, formando ela com Shiva Narayana, a tripla manifestação da energia cósmica, una e imperecível. A  cidade luminosa de Shiva é Kashi (kash, brilhar), chamada de Varanasi, às margens do rio Ganges, onde se encontram os seus mais famosos templos.



VARANASI   OU   BENARES







segunda-feira, 18 de setembro de 2017

LIBRA (2)

                                                 
AFRODITE  DE  CNIDOS
Para contrabalançar as forças eróticas presentes no universo, os gregos criaram uma deusa, Afrodite, colocando sob sua tutela o prazer, o amor, a beleza, a sexualidade e a sensualidade das mulheres, levando-as a se envolver com funções criativas e procriativas. No mito, Afrodite nasceu no mar, em meio a espumas (aphros, em grego, espuma). Essa imagem de Afrodite, adulta, nua, lindíssima, nascida das águas, será representada por muitos artistas. A deusa, pelo seu nascimento, define que o princípio da vida afetiva e, consequentemente, da vida amorosa estará para sempre ligado ao elemento líquido. Ou seja, amor é umidade. Os secos, os quentes e os frios têm muita dificuldade com relação à vida afetiva, ao amor, que fala de reciprocidade, de permeações e de fusões. Afrodite passou por Chipre, a ilha do cobre, definindo-se a partir de então como “boa condutora de eletricidade”, isto é, constituindo a polaridade passiva, feminina, por oposição à polaridade masculina, ativa. Ou seja, o princípio da água atenuando o princípio do fogo, Afrodite e Eros. 




Deusa de sedutora beleza (enkrateia, sedução), Afrodite era honrada em inúmeros santuários em todo o mundo mediterrâneo e da Asia Menor. A deusa surge no mundo grego para colocar as relações afetivas numa perspectiva de reciprocidade. Ela passa a simbolizar as forças irrefreáveis da fecundidade, não com relação aos frutos, mas com relação ao desejo apaixonado compartilhado. 

A deusa é tanto o amor sob a forma física como o prazer dos sentidos cabendo-lhe o poder da transformação dos seres que nesses processos se envolvem. É neste sentido uma deusa alquímica, consumando relacionamentos, gerando formas novas de existência. Ela é também o impulso que vai além do sexual, apresentando um ímpeto tanto psicológico como espiritual que nos fala de comunicação e de comunhão. Qualquer pessoa que já tenha se apaixonado por alguém, por um lugar, por uma ideia, por um objeto artístico está lidando com os poderes da deusa. A consciência de Afrodite está presente também em todo trabalho criativo, mesmo aquele feito solitariamente. É a deusa das interações, podendo transformar uma simples conversa numa “obra de arte”. Com a deusa atuando em nós, também podemos nos tornar mais espontâneos, como numa improvisação musical. Onde quer que apareça a consciência de Afrodite, os parceiros irradiam bem-estar, energia intensificada, a conversa fica mais  espirituosa, estimulando-se os pensamentos e sentimentos. 

AFRODITE   CALIPÍGEA
A deusa tem vários nomes, apelidos, Calipígea, Trívia, Urânia, Pandêmia, Citereia, Cípris etc. Toda pessoa que se envolve num processo afetivo, de trocas, a deusa a transforma num ser especial, quase “divino”, como diziam os antigos gregos. Quando Afrodite se apossa da personalidade de uma mulher, ela se abre para o mundo, para os outros, socializando-se também. Ela aumenta o magnetismo pessoal. Quando por razões culturais e religiosas a mulher é rebaixada, satanizada, Afrodite se “ausenta”. O arquétipo pode pôr uma mulher (dependendo do meio) inclusive em divergência com os padrões de moralidade nele vigentes. Por isso, as mulheres “Afrodite” podem ser marginalizadas, consideradas como perigosas, quando não como raptoras do masculino, como acontece com as religiões patriarcais.

Afrodite era muito mal vista em Atenas, a cidade de Palas Athena, deusa virgem, das acrópoles. Nos meios populares da cidade,

Afrodite era muitas vezes chamada de “A Prostituta”. Por causa de sua personalidade, fortemente marcada por traços orientais, sobretudo de Ishtar e de Astarte, aquela mesopotâmica e esta fenícia, Afrodite, para os padrões gregos, era considerada como uma bárbara. Tudo isto transparece, por exemplo, de modo muito claro, na tragédia Medeia, de Eurípedes, nas falas de Jasão, quando ele, num ataque xenófobo, comunicou à princesa da Cólquida que estava se separando dela, uma “bárbara”, para se casar com a filha do rei Creonte.


Quando duas pessoas se apaixonam, a deusa cria um campo de energia fantástico, intensificado. Ambas sentem-se mais bonitas, as impressões sensoriais se ampliam, a música se transforma em
PITAGÓRICOS
linguagem privilegiada, os odores ficam mais penetrantes, o tato passa a ser um dos sentidos mais importantes. Cultivar Afrodite é criar interesses pela arte, pela música, pela poesia, pela dança. É gostar do próprio corpo, cuidar dele, sem exageros, uma decoração corporal contida, harmoniosa. É por essa razão que Afrodite é a deusa da vida cosmética, palavra grega que vem de kosmos, esta significando ordem, o universo como ordem. Os pitagóricos foram os primeiros a usar esta palavra com este sentido porque o universo poderia ser reduzido a proporções matemáticas, devidamente ajustadas. Uma pessoa cosmética seria, pois, aquela que saberia encontrar o seu lugar de forma harmoniosa na ordem cósmica, como os astros souberam fazer. Por extensão, encontrar uma ordem justa na sociedade, sempre um reflexo da ordem cósmica. Para isto, ainda segundo os pitagóricos, deveria ser usada a katharsis, a purificação da alma, palavra que tinha entre eles fortes analogias com a música , a base da virtude maior, a sophrosyne (autodomínio, moderação). 


As mulheres que assumem o arquétipo de que tratamos podem enfrentar muitas dificuldades com outras mulheres, presas a outros
HERA
arquétipos, especialmente as mulheres do tipo Hera. No geral, as mulheres Afrodite têm a capacidade de ver sempre a beleza e de se ligar criativamente a alguma coisa, a alguma atividade, mesmo na velhice. Crescem com grande vitalidade e graça. Na velhice, estão de bem com a vida, são sábias, não vivem se queixando nem são rabugentas. Interessam-se pelos outros, ligam-se ao mundo, interessadas sempre pelo que vem à frente. No geral, a mulher identificada com a deusa é mais extrovertida, sua atenção é sempre sedutora, ainda que muitas vezes possa ser mal interpretada. 



ACROCORINTO

A negação de Afrodite está nos meios repressores que condenam a sexualidade e a sensualidade, que negam o corpo, que criam situações de culpa e de conflito, de ansiedade e depressão, diante do apelo da vida. Por isso, as mulheres Afrodite tendem a viver o presente. A cidade de Afrodite era Corinto, a Opulenta, uma cidade
EPÍSTOLA   AOS   CORÍNTIOS
rica, alegre, de muitas festas. Nas alturas da cidade, na Acrocorinto, a quase oitocentos metros de altura, encontrava-se um famoso templo no qual viviam as hierodulas, as prostitutas sagradas, sacerdotisas da deusa. Foi nessa cidade que o apóstolo Paulo, na era cristã, deu vazão a toda a sua misoginia, escrevendo a Epístola aos Coríntios.


No período clássico da história grega, Corinto era considerada a terceira cidade, depois de Atenas e Esparta. Tinha uma formidável acrópole e uma situação geográfica privilegiada, abrindo-se simultaneamente para a Ásia e para a Europa ocidental, o que parecia justificar seu grande progresso material. Miticamente, histórias nos contam que Corinto foi fundada por Foroneu, filho do deus-rio Ínaco e da ninfa Mélia, e que suas muralhas teriam levantadas por Sísifo, o mais inescrupuloso e inteligente dos mortais. 




Quando abordamos os mitos gregos ou não de modo mais aprofundado,  sabendo ir de modo mais percuciente às suas fontes mais responsáveis e sérias, podemos entender, como tantas vezes já mencionado neste blog, o quanto eles nos permitem entrar no conhecimento do nosso próprio padrão arquetípico. Esse conhecimento nos ajuda a compreender qual é a nossa natureza divina. Quanto às mulheres, imprescindível o conhecimento do culto e dos rituais de Afrodite, o arquétipo que ela representa, que sempre as ajudará, certamente, a “viver” um pouco melhor, a se libertar, principalmente nas sociedades fortemente marcadas por valores patriarcais, da culpa por querem ser o que realmente são e não podem. Isto, no mínimo, as ajudará a se tornarem mais conscientes, fazendo-as cuidar de seus interesses, reconhecidos de modo mais claro os seus limites e os dos outros. 

AFRODITE
Como doadora da graça social, Afrodite se alinha naturalmente com os que lutam a favor da vida, procurando combater não só aqueles que se aniquilam entre si, que promovem guerras estúpidas sob justificativas religiosas (econômicas sempre, no fundo) como os que dizimam os recursos naturais de nossa mãe Terra. Neste sentido, a proposta maior da deusa está certamente no convite que ela nos faz, muitas vezes não muito bem compreendido, no sentido de que saibamos evitar que as tendências destrutivas que estão à solta no mundo acabem, inconscientemente, se voltando contra nós mesmos. Com isto saberemos inclusive evitar as idiotas propostas de políticos, economistas e empresários que, em escala mundial, nos propõem um crescimento contínuo de nossos índices econômicos. 

Não é preciso ser filósofo, psicólogo, médico, advogado ou sacerdote para perceber que o ser humano, ainda que dizendo amar a vida, vem atualmente se matando a si mesmo como nunca aconteceu antes. E o que é pior, pois, como constatamos, a maneira de morrer escolhida pelo próprio ser humano é hoje muito rápida, tão rápida que muitos que já morreram para a vida continuam sobrevivendo por muito, muito tempo, em dolorosos estágios de vida vegetativa, doentes ou não. Vemos isso diariamente diante dos nossos olhos, muitas vezes dentro de nossas casas. Os métodos que as pessoas escolhem para se matar são inúmeros e não devem interessar só a especialistas, já que o ser humano tem que ser considerado como uma totalidade. 


THANATOS   E   EROS  ( 1911 ,  GUSTAV   KLIMT )

Vida é conflito, sabemos, luta. Amor e ódio, produção e consumo, criação e destruição, anabolismo e catabolismo, uma guerra entre tendências opostas que se confunde com a própria dinâmica do universo. As tendências que lutam a favor da vida ou contra a vida não podem ser representadas só por Eros e por Thanatos, como defendeu Freud. É certo que o ser humano carrega dentro de si estas divindades. É certo que Thanatos sempre acabará por se impor, pois somos seres datados. Nossa vida é um hífen entre duas datas. Cabe-nos, na medida do possível, colaborar ao máximo para que as forças eróticas e tanáticas em operação no universo sejam atenuadas pelos valores que Afrodite representa. Isto nos ajudará não só a controlar melhor tanto as forças eróticas como as tanáticas soltas no universo, patrocinadas e incentivadas, como se sabe, pelo grande capital, criador do nefasto sistema de mercado, e pela indústria armamentista nas suas diversas expressões. 

Há, contudo, uma enorme quantidade de seres humanos, nas mais diversas latitudes e longitudes da Terra que desde muito cedo, nas várias camadas sociais, mais altas ou mais baixas, seres inclusive mal entrados na vida, que por razões diversas colaboram com as forças tanáticas. Esse instinto de autodestruição aparece sob diversas formas, muitas toleradas ou mesmo aceitas socialmente. Não falamos aqui do desejo consciente de morrer, mas do desejo inconsciente de morrer. Como formas crônicas inconscientes de autodestruição podemos apontar, por exemplo, muitas inclinações masoquistas de comportamento (submissão à punição) por causa de um sentimento de culpa, criado no mais das vezes desnecessariamente.


CASAMENTO  CAMPONÊS ( PIETER  BRUEGEL, O VELHO, 1525 - 1569 )

Em muitas das chamadas tendências religiosas ou espirituais encontramos também fortes tendências autodestrutivas, tanto no caso de ascetas, de jejuadores (casos de autoflagelação, de martírio etc) como no de pessoas que, temendo a vida, se refugiam em organizações religiosas, seitas etc. Há inclusive, noutras áreas, formas muito disfarçadas de autodestruição. Dentre as muitas, destacamos a curtição gastronômica (a peregrinação pelos restaurantes; o caso de pessoas que se matam pela comida para compensar falta de amor ou de segurança), pelos esportes radicais, pela autoimolação por razões familiares (alguém que abre mão de tudo por problemas de família), pela droga e pelo álcool socialmente consumidos, pela deterioração crescente da qualidade de vida pelo uso inadequado da tecnologia, pela simulação de doenças ou ferimentos etc. 

A automutilação estética é, sem dúvida, uma das formas mais insidiosas de autodestruição inconsciente. Nesta área, podemos exemplificar com as tendências anoréxicas ou com as operações cirúrgicas. Ou seja, embora não nos mutilemos a nós próprios, entregamo-nos a algum cirurgião para que ele o faça (caso de pessoas que não podem passar sem uma ou mais operações plásticas anuais). Ainda nesta área, principalmente no mundo feminino, podemos mencionar o desejo inconsciente que as pessoas têm de se autodestruir quando aderem à moda das roupas, da maquiagem ou da decoração corporal sem perceber o quanto se destroem, ao invés de lutar pela conquista de uma individualidade. No fundo, seguir a moda (puro consumismo) não passa de um desejo de ser como todo mundo, rico ou pobre, isto é, um desejo de não ser nada, ninguém. 

HORÁCIO
Para finalizar, quando pensamos em Afrodite, nada melhor do que lembrar as máximas Carpe Diem, de Horácio (gozemos o momento favorável, aproveitemos com moderação tudo o que se apresente de positivo, mesmo que pouco e transitório) e Utere temporibus (aproveitemos o momento feliz), de Ovídio. Trazendo estas máximas, em nome de Eros
OVÍDIO
e de Afrodite, para o centro de nossas vidas, estaremos, sem dúvida, controlando melhor as forças tanáticas que um dia acabarão por se impor . Viveremos certamente um pouco melhor, pois, afinal, os poetas (os bons, é claro) serão sempre os nossos melhores conselheiros. 





quinta-feira, 20 de abril de 2017

CÂNCER (3)

 
SIGNO  DE  CÂNCER , CATEDRAL  DE  CANTUÁRIA , INGLATERRA
                                      

Associadas ao signo de Câncer, algumas importantes divindades da mitologia grega  merecem referência especial. Em primeiro lugar, é preciso destacar as Moiras, conhecidas como Fiandeiras, na medida em que eram a personificação do destino individual, do "pedaço" de vida que cabia a cada ser humano que entrava na existência. A palavra moira quer dizer, lote, quinhão, parte, um quantum de felicidade ou de desventuras, representado por um fio que Cloto (etimologicamente, fiar) ia tecendo até que Láquesis (etimologicamente, sortear), por insondáveis razões, determinasse
THANATOS
que a ação de Cloto fosse interrompida, cabendo então a Átropos (etimologicamente, a inflexível, a que não volta atrás), o corte do fio. Sempre presente nesse momento estava o deus Thanatos. O nome desse deus lembra dissipação, extinção, tornar-se sombra. Podia Thanatos aparecer no momento em que Átropos cortava o fio de vida diversas formas.  A mais comum era como uma nuvem escura, uma bruma que envolvia a cabeça e perturbava totalmente a visão do moribundo. Muitos o consideram um inimigo do gênero humano. É importante observar que o signo de Câncer tem analogia com os assuntos da casa IV dos mapas astrais, onde tradicionalmente os astrólogos, desde a antiguidade, colhem, dentre outras, informações  sobre a infância e a velhice, sobre o começo (graus iniciais) e o fim (graus finais) da existência.



AS   FIANDEIRAS ( 1657 , DIEGO  VELÁSQUES )

Além das Moiras, participam miticamente do contexto canceriano três divindades que representam a Lua. A mais antiga é Selene, a Lua considerada fisicamente. O nome sugere, em grego, ideias de
SELENE
brilho, clarão.  Em antigos textos Selene é também chamada de Mene. Tal nome era aplicado a ela quando, nos céus, percorria uma constelação zodiacal. O tempo que levava para essa travessia deu origem à palavra mensis, mês, para os latinos. Selene é a luz noturna, ligada a referências maléficas, perigosas. Os antigos gregos tinham o verbo seleniadzein para designar todos aqueles que Selene feria, tornando-os perturbados mentalmente, encantados, lunáticos, epilépticos ou mesmo feiticeiros e videntes. O radical indo-europeu que está embutido na palavra mene é me, que traduz uma ideia de medida. A Lua, nesse sentido, foi o astro que, com as suas fases, ensinou o homem a medir o tempo. Desse radical provêm palavras como mês, medida, imenso, mesura, menstruação, catamênio, metro etc. 



SELENE  EM  SEU  CARRO
  
Era Selene filha de Hiperíon (o que contempla do alto) e de Teia (a divina), da raça dos titãs, filhos de Urano e de Geia. Belíssima, percorria os céus à noite num carro de prata. Simbolizava a
SELENE   E   ENDIMION
( 1770 , UBALDO  GANDOLFINI )
fertilidade. Era famosa por seus inúmeros amores. De Zeus teve uma filha, Pandia, a totalmente divina. Foi amante do deus Pã. Seu grande amor parece ter sido o jovem Endimion, pastor do Peloponeso, formosíssimo, a quem Zeus, a seu pedido, deu o sono eterno, o maior desejo do jovem, para que assim pudesse preservar a sua juventude. Belo, tranquilo, adormecido na encosta de um monte, Endimion recebia as visitas noturnas de Selene. Consta que Hipnos, o deus do sono, também apaixonado pelo jovem, deu-lhe o dom de dormir de olhos abertos para que quando o visitasse pudesse olhá-lo nos olhos. 

O culto de Selene espalhou-se por todos os povos da Antiguidade. As bruxas da Tessália, por exemplo, gabavam-se de, pela sua feitiçaria, terem-na livrado do dragão que a queria devorar
BAKUNAWA

(eclipses) ou mesmo fazê-la descer à Terra. 

O tema de dragões atacando a Lua é  muito comum em várias tradições míticas, como na Índia. Ao lado, à direita, na mitologia filipina,  a imagem do dragão Bakunawa  devorando a Lua. A segunda-feira era consagrada à Lua, (Lunes dias, lundi, lunedi), relacionando-se todo o seu simbolismo com o do Sol. Os dois traços distintivos mais característicos da Lua são a privação de luz própria e as suas diferentes fases, a sua contínua mudança de forma. Daí porque representa a Lua o princípio feminino, a periodicidade, a renovação, sempre lembrando transformações, crescimento, desaparecimento e renascimento. É, por isso, usada para representar o tempo circularmente, o tempo que passa medido em fases sucessivas e regulares, lembrando sempre um eterno retorno.

ÁRTEMIS   E   APOLO
A segunda divindade do complexo lunar é Ártemis. Esse nome está relacionado tanto com artos (urso) quanto com artamos (sanguinária) ou artemes (são e salvo). Ártemis é a protetora, por excelência. Nasceu antes do irmão gêmeo, Apolo, o Sol, ajudando a mãe, Leto, no parto dele. Horrorizada com os sofrimento maternos quando do parto do irmão, obteve de seu pai Zeus o privilégio da virgindade. 


LETO  E  SEUS  FILHOS
Leto é filha do titã Ceos e de sua irmã Febe. Tinha Leto por irmãs Astreia (nome dado à constelação da Virgem na Idade de Ouro) e Ortígia. Grávida de Zeus, sentindo a hora do parto, Leto percorreu o mundo inteiro à procura de um lugar para dar a luz aos gêmeos. Hera, enciumada, proibira a Terra de acolher Leto. A ilha flutuante e estéril chamada Ortígia, por não estar fixada em lugar algum, a recebeu. Agradecido, Apolo a fixará mais tarde como centro do mundo, mudando-lhe o nome para Delos, a brilhante, a luminosa. Foi em Delos, abraçada a uma palmeira, que Leto deu a luz aos gêmeos. Hera, ainda assim, tentou impedir o nascimento deles, enviando sua filha Ilícia, a deusa dos partos, para “fechar o caminho” dos nascituros. Demovida de sua intenção por Palas Athena, Hera acabou consentindo no nascimento de Ártemis e de Apolo. Para escapar das perseguições da esposa de Zeus, Leto se transformou numa loba, o que explica um dos apelidos de Apolo, o Licógenes, o nascido da loba.

ÁRTEMIS
Ártemis é representada por uma jovem com vestes curtas, pregueadas, joelhos descobertos, à maneira espartana. Carrega, como o irmão, o arco e as flechas. Rebelde, não aceita Afrodite. Dentre as suas vítimas destacamos o gigante Oríon, o imprudente caçador Acteon, Oto, um dos Alóadas, a ninfa Calisto. Puniu Agamemnon, protegeu Hipólito, filho de Teseu. Seu cortejo era, como o de Dioniso, acompanhado por ninfas muito buliçosas e alegres, das quais exigia castidade absoluta. Percorria sempre os bosques e as florestas, com cães muito excitados. Era conhecida como  a Senhora das Feras, o que lhe deu um caráter de grande deusa oriental, muito ligada, por isso, à vida animal e vegetal. Suas festas se celebravam em Atenas no mês Elafebólion (março). Seu animal predileto era a corça, mas a ela se ligavam também todos os animais que se agitam demais, inquietos. Nas suas festas mais antigas era comum o ritual do diasparagmos, o despedaçamento das vítimas.


CORTEJO   DE   ÁRTEMIS  ( ELIHU  VEDDER , 1836 - 1923 )

Ártemis tem dois aspectos: o asiático, seu lado mais cruel, mais sanguinário (sacrifício de animais vivos, consumo da carne de animais) e o cretense, ocidental, ligado à fertilidade do solo, à fecundidade humana. É neste sentido que a deusa é protetora de tudo o que entra na vida (crias, ervas novas, brotos, rebentos etc.), das nascentes, dos córregos, dos riachos, de tudo o que aparece e que tem de fluir. 


FASES   DA   LUA
A deusa estava neste sentido intimamente ligada a Selene e a Hécate, as três expressões de um mesmo arquétipo. A primeira, como vimos, é personificação do astro lunar, cujo culto a filha de Leto suplantou, enquanto Apolo suplantava Hélios. O que se destaca neste relacionamento é o caráter da Lua como o astro das variações periódicas (O Sol não muda, não tem fases). Neste sentido, a Lua deu ao homem a primeira noção de morte ao desaparecer (Lua nova). Daí a Lua ser vista como símbolo do que passa e retorna. 


Outro aspecto é que a Lua representa sempre uma forma de conhecimento indireto, isto é, ela é um reflexo do Sol. Um dos melhores exemplos do que aqui exponho é o famoso mito da caverna, narrado por Platão. A Lua é passiva, receptiva, fecunda; representa a noite, a umidade, o psiquismo, a imaginação, o sonho, a fantasia, o transitório, o influenciável. Ela representa também aquilo que herdamos, os nossos atavismos, as forças que em nós atuam regressivamente; ela fala do passado, de memórias, da nossa alma onde domina a vida infantil, pré-egoica, vegetativa, modelo de uma sensibilidade profunda. 

A Antropologia chama de participação mística esse traço de comportamento que Ártemis representa: esse envolvimento com os substratos mais profundos da nossa vida arcaica, relações com mares, campos, florestas, animais. É por essa participação que a deusa se liga às formas que entram na existência (brotos, crias, ervas novas, etc.), como protetora de tudo o que nasce e que tem de passar à vida adulta. 


HÉCATE
Tão antiga quanto Selene no mito é Hécate, outra representação lunar. Descendente dos titãs, o nome dessa divindade parece vir de um verbo que significa ferir, arremessar com o intuito de atingir, agredir de longe. Deusa lunar muito misteriosa tanto por suas funções quanto por seus atributos, Hesíodo a dá como descendente de Asteria e do titã Perses, o devastador. Neste sentido, Hécate é independente das divindades olímpicas, conservando-lhe Zeus, todavia, na ordem olímpica, não só os seus privilégios mas acrescentando-lhes outros. 

Tornou-se Hécate divindade muito benéfica na medida em que, devidamente honrada, passou a conceder aos mortais prosperidade material, o dom da eloquência nas assembleias, vitórias nas batalhas e nos jogos, abundância de peixes aos pescadores, podendo também aumentar os rebanhos. É invocada como dea nutrice, estendendo-se os seus poderes a tudo o que deve crescer e prosperar. Neste sentido, como Ártemis e Apolo, deve ser honrada pela juventude. 

Aos poucos, seus atributos se ampliaram, especialmente na direção da magia e dos encantamentos, assumindo uma posição importante no mundo ctônico. Ligada aos feiticeiros e aos bruxos, aparece sempre, vinda do Mundo das Sombras, com uma tocha na mão, chegando mesmo a se apresentar zoomorficamente (cadela, loba, égua). Dona de todas as formas da magia, com ela se envolveram, cultuando-a, personagens importantes desse mundo como Eetes, Circe e Medeia.


HÉCATE  ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 )

Acima, na superfície da Terra, divide Hécate com Hermes o poder sobre as encruzilhadas, lugar de aparições e de sortilégios. No mundo infernal, ctônico, tem relação não com os mortos, que são de Perséfone, mas com os espectros e fantasmas que sobem, porque não tiveram morte ritual. Hécate vem das profundezas ctônicas nas
HERMES   ITIFÁLICO
noites de Lua Nova, aparecendo nas encruzilhadas onde eram encontradas as suas representações (imagens) como a dea trivia  (as três fases visíveis da Lua). Lembremos que nesses locais também eram encontradas imagens itifálicas do deus Hermes, a indicar fecundação, fertilidade, ideias sempre ligadas às mudanças que podem ser feitas nas encruzilhadas. Assim, Hécate é a deusa dos terrores noturnos, dos monstros apavorantes, que se mostram àqueles que param e permanecem nas encruzilhadas, lugar de mudança de destinos.

O tema da encruzilhada é encontrado em todas as tradições e culturas. Ela se torna uma espécie de centro do mundo, a interseção de planos, lugar que tem como matriz a cruz. São lugares habitados por gênios, feiticeiras e demônios, seres perigosos com os quais
LARES   COMPITALES
deve procurar se conciliar o peregrino, o viajante, o que se aventurou pelos caminhos à procura de um outro modo de ser. Lugar edipiano por excelência, de parada e de reflexão, de decisões heroicas ou de imobilismo, nele são também comuns os crimes, as emboscadas, as traições. Por isso, nas encruzilhadas encontramos obeliscos, hermas, pedras, pequenos altares, capelas, inscrições, oferendas etc. Os romanos, por exemplo, honravam nas encruzilhadas os Lares Compitales, as almas dos antepassados que atuavam como divindades protetoras. Lugares "religiosos" de muito movimento, os mendigos e pedintes na antiga Roma os escolhiam muito bem para aumentar a sua arrecadação.

DESPACHO
É na encruzilhada também que podemos, protegidos pelo anonimato, geralmente à noite, nos livrar de forças negativas, residuais, perigosas, com o auxílio de Hécate, de Hermes e dos seres que nela vivem. Na tradição afro-brasileira, este trabalho (despacho) é feito, para o bem ou para o mal, através de um dos orixás mais importantes do Candomblé, Exu, o chamado "homem das encruzilhadas". Na Umbanda e na Quimbanda, atua também nesta área a chamada Pombajira, guardiã das passagens, uma espécie de Exu-fêmea. 


AFRODITE   TRÍVIA
A encruzilhada é ainda entre os gregos um lugar onde Afrodite costuma aparecer, na sua forma trívia, a Afrodite dos amores passageiros, triviais, lúbricos, amores impuros, vulgares, e não como a Afrodite Urânia, a dos amores espiritualizados. Por isso, na encruzilhada, em muitas tradições, encontramos também símbolos que significam, conforme o caso, um desejo de esconjuração, de sacrifício expiatório, de exorcismo, de afastamento, enfim, das energias e presenças maléficas. Oratórios, imagens de santos, de entidades protetoras, ex-votos, flores,  círios e velas que jamais deixam de brilhar. Neste sentido, a encruzilhada pode ser também um lugar em que podemos encontrar a luz, um lugar de renascimento, onde aparecem os bons gênios e as fadas protetoras que nos auxiliarão na virada do nosso destino, inspirando-nos a tomar a decisão mais acertada.   

Em Hécate, a grande deusa lunar, sintetizam-se os três aspectos da nossa vida psíquica, o infernal, o telúrico e o celeste. Porque ela
LUA   NOVA
aparece nas noites de Lua nova, acompanhada por animais "noturnos", cadelas, lobas, éguas, que lembram fertilidade, a deusa tem a ver, consideradas estas duas ideias,  com a dimensão inconsciente de nossa existência, lugar onde se agitam monstros, fantasmas, espectros que podem subir à superfície. Cultuada e reverenciada nas encruzilhadas, Hécate indica para nós que as decisões humanas não se inscrevem só no plano horizontal, nas quatro direções dos pontos cardeais, as direções que recebemos quando entramos na vida, mas, acima de tudo, revela-nos a deusa que cabe a nós, pelas escolhas que fizermos, acrescentar às quatro direções mencionadas mais duas, que estão no plano vertical, a da subida ou a da descida. 

Ao considerarmos o signo de Câncer como matriz, lugar de nascimento, em todas as tradições as grutas e cavernas sempre a ele apareceram associadas. Encontradas em lugares sombrios e

profundos,  sejam subterrâneas, em encostas escarpadas ou encravadas em montanhas, as grutas são arquétipos matriciais. Nesse sentido, tanto fazem parte de mitos de origem como dos ritos de iniciação como lugares de renascimento. Morada dos humanos desde tempo pré-históricos, as grutas são consideradas como verdadeiros reservatórios de energia e de lembranças, de complexos, de sentimentos e emoções que muitas vezes se agitam inexplicável e confusamente na nossa interioridade, perturbando a nossa vida consciente.

Tanto antigos lugares de culto da humanidade, ornadas de pinturas e gravuras, como, nos mitos de gênese de antigos povos, desde recuados períodos, consideradas como um lugar materno, por excelência, as grutas sempre apareceram associadas  aos órgãos genitais femininos e, como tal, à fertilidade. Vários povos, os astecas, por exemplo, relacionavam num mesmo contexto simbólico a caverna, a mulher, a chuva e a Lua.



No simbolismo dos sonhos, por exemplo, um caminho a ser percorrido,  no  qual  se tenha  que  passar  por  grutas pode ser visto
como uma busca de um novo sentido para a vida. Sob o ponto de vista psicanalítico, tal percurso representa sempre uma descida às profundas camadas da vida subconsciente relacionadas com o inconsciente materno. Este percurso também poderá ser entendido, quem sabe,  como uma regressão a uma situação pré-natal, intra-uterina, um desejo de retorno à indeterminação, volta a um mundo obscuro e morno, onde não há escolhas nem decisões, onde tudo é recebido de graça.   

O mito da caverna, como sabemos, tem um papel importante na filosofia de Platão. As pessoas que vivem em cavernas, jamais ultrapassando a sua entrada, sempre receosas de ir além, não podem
conhecer o mundo. Só podem perceber dele senão sombras, conhecer apenas reflexos da realidade exterior, maior, mais vasta. Para conhecer esta realidade que está fora, além, para conhecer a verdade que a luz do Sol permite captar, é preciso sair da gruta. É por essa razão que se afirma que o conhecimento lunar, obtido só através de uma vida protegida pela gruta,  é  indireto, herdado, atávico.

PAN
Se num primeiro momento a gruta é proteção, agasalho, nutrição, segurança, noutro ela poderá se constituir em abafamento, sufocação, castração e mesmo lugar mortal. Sair da gruta será sempre um problema, qualquer que seja o modo pelo qual a abordemos. Foi certamente pensando nisto e em muitos outros aspectos dos quais o mito cuida que os antigos gregos deram forma ao mito do deus Pan, palavra (radical grego) que traduz uma ideia de totalidade. Pan quer dizer o todo, tudo.

DIONISO E PAN
No mito, Pan é filho do deus Hermes e da ninfa Dríope. Consta que por ser muito feio, peludo, teriomorfo, com orelhas pontiagudas, patas como as de bode no lugar de pés, foi rejeitado pela mãe. Hermes o levou para o Olimpo. Saltitante, alegre, desde logo deu demonstrações de ter nascido com um intenso furor erótico. Deram-lhe os deuses o nome de Pan. O deus Dioniso se encantou com o jovem deus, obtendo a permissão de Hermes para, de vez em quando, integrá-lo ao seu séquito, sempre ruidoso e barulhento, com as sua mênades. 

Pan passou a viver na Arcádia, região de pastores e poetas, sendo-lhe atribuída, de comum acordo com a deusa Ártemis, a tutela das regiões que ficavam além do oikos, dos territórios que ligavam o
PAN
conhecido ao desconhecido, lugares que levavam ao Grande Mundo, ao Todo. Pan passava os seus dias perambulando pelos campos, ser um lugar fixo, ora dormindo em grutas, banhando-se nos rios, sempre com muitos companheiros, tocando flauta (syrinx), perseguindo as ninfas e assustando os viajantes que se aventurassem pelos caminhos, pelas florestas e pelas montanhas. 

Antes, porém, uma palavra sobre o oikos. Na Idade do Bronze, antes do período arcaico da história grega, no fim do qual as cidades começara a se formar, o oikos era a unidade básica da família, constituída pela propriedade (casa, terras, plantações, pastos, escravos e animais). O pai era a autoridade suprema, fazendo-se a transmissão da propriedade sempre pela via patrilinear. A palavra economia, como a usamos hoje, tem na sua origem as palavras oikos (família)  e nomos (lei), a lei da família, a lei da casa.

PARA   ONDE   EU   VOU ?
O sentimento de solidão e de desamparo que costumava atacar os viajantes quando longe do oikos, principalmente nos dias escuros, de mau tempo, em noites sem Lua, quando nenhuma voz era ouvida, os campos silenciosos, os animais recolhidos, esse sentimento de solidão e desamparo, continuando, começou a ser considerado, não sabe bem por qual razão, como inspirado por Pan. Ansiosos, alarmados, aterrorizados, os viajantes, os peregrinos, sem um motivo justificável, ficavam paralisados por essa presença oculta de Pan, que se anunciava, como logo começou a se propalar, por um som terrível, entre o humano e o animal. Aos poucos, esse sentimento passou a ser chamado de terror pânico, um estado entre o pavor e o espanto, inexplicável, geralmente somatizado de diversos modos. 


DIANA   E   SUAS   NINFAS   SURPREENDIDAS   PELOS   FAUNOS
( PETER  PAUL  RUBENS , 1577 - 1640

Os companheiros de Pan eram os sátiros, os centauros, os silenos, as ninfas (oréadas,  dríadas, potâmidas, creneias e muitas outras), as retraídas ninfas, mas sempre muito atraídas por eles. Da história de Pan consta que ele prestou serviços aos deuses quando da titanomaquia, que, juntamente com seu pai, salvou Zeus (seu avô), quando do ataque de Tiphon, o maior dos monstros da mitologia grega. Quando de seu périplo asiático, para divulgação de seu culto, Dioniso fez questão de levá-lo. 


TITANOMAQUIA  ( CORNELIS  VAN  HAARLEM , 1562 - 1638 


PAN  ( PICASSO , 1881 - 1973 )
Um dos nomes de Pan era Hylaeos, como divindade das florestas. Da Grécia seu culto foi levado para a Itália, como protetor de rebanhos. Lá foi assimilado aos faunos (protetores de rebanhos e da fertilidade), aos egipans (pans, como pequenos homenzinhos que lembram a forma caprina). Consta que no norte da África, na Líbia, havia uns egipans com cauda de peixe, dos quais teria saído a representação do signo de Capricórnio. Em Roma, estes seres eram chamados de silvanos (protetores do verde da Natureza), conhecidos também pelo nome de paniscus. 


PRÍAPO
Muito semelhante a Pan era Príapo, um filho espúrio de Dioniso e de Afrodite, protetor das colheitas e da fecundidade em geral, dono de uma magia simpática (apotropaica) infalível. Grande divindade asiática, Príapo pontificava na cidade de Lampsaco, na Misia, nas margens do Helesponto. Tinha uma ereção desmedida, persistente. Deu nome ao priapismo, uma patologia sexual. Diferente da satiríase, também uma patologia sexual, é caracterizada por uma grande e mórbida excitação, nela não entrando nenhum desejo sexual, o que acaba levando à impotência, à esterilidade.

Todas estas divindades campestres se ligavam a Pan, presentes na fertilidade animal e vegetal. Delas, por exemplo, sai a designação sátiro que usamos para qualificar o homem obsceno, lúbrico, voyeur ou exibicionista. Segundo Homero, teria existido nas montanhas da Cítia um povo inteiro de sátiros, que, quando envelheciam eram chamados de silenos. Os sátiros (etimologicamente, nome ligado a um verbo que significa distender, entumescer, inchar) eram divindades menores da natureza que acabaram se integrando também ao cortejo de Dioniso. Híbridos, eram humanos, com acentuados traços que lembravam sobretudo os bodes: orelhas pontudas, pequenos chifres na testa, peludos, cascos ao invés de pés. É dos sátiros que vem o nome satiríase, caracterizada por uma super-excitação mórbida, com ejaculação constante e ininterrupta que pode levar à morte.


CORTEJO   DE   DIONISO

Os centauros, filhos de Nephele, a Nuvem, e de Ixion (que viverá no Tártaro até o final dos tempos), lembre-se, costumavam também frequentar os territórios de Pan, chamados pelos gregos de agros. Brutais, quase sempre embriagados, vivendo em bandos, alimentando-se de carne crua, os centauros simbolizam a concupiscência carnal, ameaça da vida instintiva, sempre presente no homem que não sabia controlá-la. É neste sentido que os antigos gregos consideravam o centauro como uma antítese do cavaleiro que sabia dominar e controlar a sua montaria. 


OS   AMORES   DOS   CENTAUROS  ( 1635 , P.P. RUBENS )

Em parte zoomorfo, em parte humano, Pan era uma divindade turbulenta, que com os seus aparecimentos súbitos provocava o pânico entre os humanos, entre as ninfas e mesmo entre os deuses. Nos humanos, o terror neles infundido será diagnosticado, muito mais tarde, como uma síndrome, um conjunto de sinais e sintomas observáveis como vários processos patológicos. No seu aspecto mais visível, uma condição crítica passível de despertar inicialmente insegurança, medo, e terminar como prostração, imobilidade, às vezes com a sensação de morte súbita. 


PÂNICO
A chamada síndrome do pânico impede que a energia vital, certamente por pressões inconscientes vindas da gruta, se readapte diante de situações existenciais que exigem prontas mudanças, rápidas respostas, novos procedimentos, novas maneiras de ser diante de situações novas. Astrologicamente, é de se lembrar que o deus Pan “vive” entre a quarta e a quinta casas astrológicas, ou, de outro modo, entre o signo de Câncer e o de Leão e, também, é claro, de uma Lua mal posicionada e  aspectada num mapa astrológico.