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domingo, 1 de janeiro de 2017

ARA





ARA - Também conhecida como Altar, estava esta constelação para os gregos ligada à Titanomaquia, batalha travada entre os crônidas (filhos de Cronos), também conhecidos como titãs, e os olímpicos, comandados por Zeus. Estes, vencedores, encomendaram a construção de um altar aos Cíclopes,  diante do qual confirmaram a sua união e a disposição de manter a nova ordem imposta. Depois, então, foi o altar, como constelação, colocado nos céus. 


CRONOS   MUTILA   URANO  ( G, VASARI  E  C. GHERARDI , 1560

Após a mutilação de Urano por seu filho caçula, Cronos, os titãs (Cronos seus irmãos), se apoderaram do poder, impondo um regime cruel a todo o universo. Cronos converteu-se na realidade num déspota pior que o pai. Uniu-se à sua irmã Reia, tendo tido com ela vários filhos, que devorava assim que nascidos para evitar que se transformassem em seus sucessores, pois, segundo uma sentença oracular, um deles o destronaria. Pela ordem, foram devorados Héstia, Demeter, Hera, Hades e Poseidon. 

REIA   E   CRONOS
Diante do "canibalismo" de seu esposo, bastante desanimada, quando do nascimento de seu sexto filho, Zeus,  Reia teve uma ideia: oferecer no lugar dele, para que Cronos o devorasse, uma enorme pedra, envolta em grossos panos, certa de que ele nada perceberia. O plano de Reia teve sucesso. Cronos nada notou, fixado, como sempre, na sua função de "grande devorador". 


MÉTIS
É oportuno observar que este acontecimento mítico é uma ilustração de como os gregos valorizavam o que denominaram pelo nome de métis, o procedimento de Reia. Podemos traduzir métis como astúcia, inteligência prática, avisada, solércia, o chamado pensamento "oblíquo" dos filósofos, conceito que se opõe opondo-o à violência, ao despotismo e à arbitrariedade. Os gregos, diante da força bruta que os titãs então representavam, trouxeram para o primeiro plano de sua Mitologia esse elemento, que sempre ocupou um lugar de grande importância na sua civilização. Grandes figuras do mito grego, entre deuses e heróis, destacando-se Ulisses mais que todos dentre estes últimos,  participaram de inúmeras histórias exemplares quanto ao uso da métis.

ZEUS   E   AMALTEIA
Longe do pai, em Creta, protegido por ninfas e por demônios guerreiros (Curetes), alimentado pela cabra Amalteia, Zeus, jovem, sentido-se forte, resolveu libertar os irmãos e destronar o pai. A vitória que obteve se deve mais uma vez à astúcia. Zeus recebeu um precioso auxílio de Métis, divindade que tutelava o pensar "oblíquo". Titânida, filha de Oceano e de Tétis,  Métis forneceu a Zeus uma droga, uma espécie de vomitório, graças ao qual Cronos, ingerindo-o sem o saber, foi compelido a devolver todos os filhos que engolira (Héstia, Hera, Deméter, Poseidon e Hades). Depois de vencer o pai, Zeus teve que enfrentar os seus tios, irmãos de Cronos, senhores do universo. Nova confrontação entre a força
CÍCLOPE
primitiva que estes representavam e a inteligência dos representantes da nova ordem, que Zeus e seus irmãos doravante assumiriam. O combate foi difícil, os anos se passavam e nada. Foi preciso que Zeus recorresse a novos aliados. Fez um apelo aos Hecatônquiros (os de Cem Braços) e aos Cíclopes (os de Olho Redondo), entidades uranianas, que o ajudaram então, oferecendo-lhe estes últimos armas poderosíssimas, o trovão, o relâmpago e o raio, com os quais Zeus obteve finalmente a vitória. Este episódio é conhecido pelo nome de Titanomaquia.




TITANOMAQUIA  ( PETER  PAUL  RUBENS )


Aos poucos, Zeus conseguiu impor uma nova ordem que ia se contrapondo à dos titãs, que tinha por base a violência pura. Instauram Zeus e seus irmãos, agora donos do universo, sob a supremacia do primeiro, a noção de complexidade, noção sob a qual se resolveriam doravante as relações entre os próprios deuses e entre os humanos. A esta noção de complexidade foram também incorporadas, ao lado do uso da força bruta, certas práticas de alianças e de recompensas, uma “doutrina de poder” que dará forma à ordem olímpica, a ser observada, com as inerentes limitações e imperfeições, também pelo mundo terrestre. Os gregos levarão estas noções e procedimentos como modelo às civilizações do tempo, fixando valores e métodos de governo e de relações políticas ainda hoje presentes na vida das nações.


 A   QUEDA   DOS   TITÃS  ( CORNELIS  VAN  HAARLEM )

Pouco a pouco,  no espírito grego, os titãs  passaram a simbolizar as forças brutas em ação no cosmos, voltadas exclusivamente para a satisfação dos desejos terrestres, materiais, forças sempre em oposição às de caráter evolutivo, espirituais,  que Zeus e seus irmãos representavam. Juntamente com os Cíclopes e os Hecatônquiros, os titãs se tornaram a imagem viva da movimentação e dos entrechoques cósmicos dos primeiros tempos. Eram eles as forças selvagens, indomáveis, do mundo natural então em formação. É neste sentido que os titãs aparecem como ambiciosos, presos à materialidade, adversários do espírito, que Zeus e seus irmãos, os deuses olímpicos, tentavam impor à ordem universal. 


GUERRA   DOS  TITÃS  ( CERÂMICA )

No processo da individuação do ser humano, por uma natural analogia, passaram  os titãs a representar as forças que dentro dele se opunham a qualquer impulso evolutivo no sentido de uma espiritualização harmonizante. O combate dos olímpicos contra os titãs era, nessa perspectiva, era uma ilustração do esforço evolutivo do ser humano para sair dos planos da animalidade, da vida instintiva. Zeus, nessa mesma linha de pensamento, identificou-se assim como o modelo do elã espiritual na direção da transcendência, um impulso no sentido de superação das servidões da matéria e dos sentidos.

No seu todo, os titãs aparecem como potências primordiais, imagens da forças e das energias originais, cegas no geral, que atuam grosseiramente (a castração de Urano, Cronos devorando seus filhos etc.), que é preciso saber superar, ultrapassar, seja no sentido da criação da Lei Social, a ser observada por todos, seja no sentido de uma espiritualização progressiva que vá além daquela e que transforme as  forças brutas em ação no cosmos em forças da alma. Além do mais, os titãs representam, a par de sua luta contra o espírito, encarnando as tendência à dominação, ao despotismo, ao arbítrio, uma tendência obsessiva que muitas vezes se esconde por trás de uma desmedida ambição de melhorar a vida humana só materialmente. Este impulso está hoje, no mundo moderno, como sabemos, centrado nas várias expressões do poder da tecnocracia. 

KIRON
Outra versão sobre a origem de Ara pode ser encontrada no mito grego do centauro Kiron, pelo qual tomamos conhecimento do altar que ele erigiu para sacrificar  simbolicamente o lobo, símbolo da vida instintiva. Sempre considerado por todas as tradições como um monstro devorador, o lobo é uma das imagens mais caras a antigos cultos solares. No Egito, por exemplo, sob o aspecto negativo, o lobo representava poder destruidor do Sol, este, como sabemos, um símbolo de egos poderosos nas suas expressões mais hipertrofiadas. É este aspecto perigoso que o lobo nos é apresentado em inúmeros contos e lendas nos quais personifica a ferocidade, a gula.  É neste sentido que o lobo é a imagem arquetípica da libido insaciável nos seus vários aspectos devoradores, concretizados através de comportamentos egoístas, associais, violentos, destrutivos.  

Lembremos que as constelações do Centauro, do Lobo e do Altar, todas constelações austrais, formam um conjunto que, tendo-se em vista a sua melhor compreensão, devem ser analisadas através das
LOBO
suas várias relações. O lobo, qualquer que seja o enfoque, é sempre símbolo da vida instintiva, que deve ser controlada no ser humano pela sua razão e colocada a sua energia a serviço de um desenvolvimento progressivo da vida social, coletiva. Força vital que não pode morrer, mas que deve ser corretamente orientada, o “lobo” no ser humano tem que ser sacrificado no altar, um microcosmo catalizador do sagrado. Em direção do altar devem convergir todos os gestos litúrgicos e todas as linhas do edifício social (nossa relação com o Todo) que nos cabe levantar. É o altar uma miniatura do templo e do universo, uma síntese da totalidade. É no plano terrestre o lugar onde o sagrado deve  se condensar com maior intensidade. É no altar que o profano se torna sagrado, isto é, social, na perspectiva em que colocamos aqui esse tema. Por ficar geralmente acima do que o rodeia, o altar deve simbolizar não só ascensão como um sacrifício constante que o ser humano deve fazer para melhorar socialmente tanto a sua vida como a dos outros com os quais tem que conviver.


SANCTUARIUM
O altar se confunde com o santuário, tornando-se deste modo o lugar mais sagrado do templo. Entre os romanos, designava a palavra altar o gabinete do imperador (sanctuarium). Depois, no latim eclesiástico, passou a dar nome a um lugar recôndito, protegido, para a realização de cerimônias religiosas. Entre os judeus, o altar se confunde com o tabernáculo, santuário portátil que foi erigido no deserto e que os acompanhava em suas perambulações após o êxodo. O tabernáculo representava a morada de Deus em meio à comunidade e tinha como modelo o santuário celestial. Seu traçado simbolizava a criação, a estrutura do cosmos e a história futura do povo de Israel até a idade messiânica, ideias há muito perdidas pelos detentores do poder na moderna nação israelita. 

DIONISO
Uma terceira versão grega liga a origem desta constelação ao altar do deus Dioniso. Deus da vida selvagem, da vegetação, da vida animal, da vida florescente, das mudanças cósmicas, cíclicas, sazonais, é Dioniso a energia em operação no universo. Lembra no mundo humano a pulsão fundamental de viver que não pode ser contida, que impele toda a existência a se realizar pela a ação. Nesse sentido, aponta para o irrefreado, para tudo o que escapa  do controle racional, tudo o que é insaciável, sem inibições ou limites. Enquanto Apolo representa a ordem, o racional a serviço do espiritual, Dioniso ressalta as pressões do inconsciente que empurram para o caótico, para a auto-aniquilação, para a dissolução das formas, para um sentido involutivo por trás do qual existe sempre uma ideia de verdade e de justiça, de renovação, de metamorfose. Neste sentido, é Dioniso visto como uma divindade infernal, destrutiva das formas que não sabem se renovar.   


CULTO   DIONISÍACO  ( W.A. BOUGUEREAU , 1884 )

Os cultos de Dioniso eram celebrados no alto das montanhas, nas florestas, jamais em templos, que o deus nunca os teve. Por isso, os gregos colocaram o altar de Dioniso nos céus, entre as constelações, abaixo do “pavoroso” ferrão de Escorpião. Deus da vinha, do vinho, da renovação cíclica em todos os sentidos, Dioniso se confunde, no mito, com Shiva, com Osíris e com Hades-Plutão.
RITO  DIONISÍACO  ( CAMAFEU )
Na Astrologia, “vive” no signo de Escorpião, tendo, por isso, relação com a oitava casa. Espírito da seiva e das formas que brotam, Dioniso é o princípio e mestre da fecundidade animal e humana. É, por excelência, sob o ponto de vista social, o deus da exuberância, da liberação, da supressão das interdições e das proibições, enquanto atua como divindade que leva ao consciente, numa ascensão libertadora, as representações ligadas a pulsões mantidas inconscientes. 

Neste sentido, Dioniso é o que liberta do inferno, é o deus ctônico, representando o grande esforço do ser humano para romper, com
MISTÉRIOS  DE  ELÊUSIS
violência, a barreira que o separa dos planos superiores, espirituais, da existência. É o deus, através de sua ação, o grande gerador de comportamentos que simbolizam as forças da dissolução da personalidade, num primeiro momento, levando-a a formas regressivas e primordiais, através da orgia e do êxtase (Mistérios de Elêusis), para, a partir delas, se chegar  a outras formas renovadas de vida.  

Neste sentido, Dioniso tem íntima relação com aquilo que no ser humano é chamado pela Psicanálise de libido, matriz das pulsões que devem ser levadas ao altar do deus para que aprendamos a domesticá-las, controlá-las. A libertação destas energias pode tomar
EROS  E  PSYKHE ( BOUGUEREAU )
um caminho racional-espiritualizante ou materializante, evolutivo ou involutivo. Quando estas pulsões não são controladas, quando as mudanças e as transformações não vêm, quando são retardadas, proteladas ou “esquecidas” (sublimação, na Psicanálise), Dioniso intervém com violência, destrutivamente, chegando mesmo a causar a morte das formas, sejam humanas, consideradas individualmente, ou sociais, coletivamente. Na Astrologia, como sabemos, Dioniso atua através do planete Plutão, regente do signo de Escorpião.


HERÁCLITO
( RAFAEL  DE  SANZIO )
Heráclito, pensando certamente nos ritos orgiásticos e nas práticas omofágicas do culto dionisíaco, entendeu que Dioniso e Hades eram, no fundo, o mesmo arquétipo, atuando através de máscaras diversas. O culto de Dioniso se irradia por todo o mundo grego, mediterrâneo e asiático na medida em que ele se torna condutor e salvador das almas. Seu culto se reveste de cerimônias que têm seu ponto alto numa das quatro mânticas que aparecem na mitologia grega, a mântica mistérica ou dionisíaca; a de Apolo a profética; a erótica de Eros; e a poética das Musas.  É dentro deste jogo de relações que se sincretizam que Dioniso se confunde também com figuras como a de Attis e de Adonis (Tammuz) através dos cultos orgiásticos de Cibele, a Grande Mãe frígia, e de Ishtar (Astarte entre os gregos), deusa suméria da fecundidade.


PTOLOMEU
A constelação de Ara estende-se de 10º de Sagitário a 0º de Capricórnio, nenhuma de suas estrelas apresentando interesse astrológico. Segundo Ptolomeu, a influência de Ara como um todo tem características de Vênus e de Mercúrio, o que para mim não se ajusta nem às razões mitológicas das três versões acima apontadas nem ao nome que o próprio Ptolomeu usava para designá-la, Timiaterion (O Turíbulo,  O Incensário). Vejo mais nesta constelação influências de natureza jupiteriana e marciana, o que inclusive de ajusta melhor à tradição
AL   MIJMARAH
registrada anteriormente a Ptolomeu. O incenso tem o seu simbolismo ligado ao da fumaça que, elevando-se aos céus, significava a trajetória que a alma devia seguir, fazendo o mesmo caminho ascensional das preces. Astrologicamente, como se sabe, o incenso faz parte do simbolismo do signo de Sagitário, o que me parece caracterizar melhor as influências de Ara como jupiterianas. Não foi por acaso que os astrólogos árabes chamaram esta constelação de Al Mijmarah, O Incensário. Os latinos, por sua vez, a denominaram  de Ara Centauri, de Ara Thymiamatis e Thymale, estes dois últimos nomes fazendo referência à sua origem dionisíaca. 


HIPARCO
Além do mais, Hiparco e outros nos dão a saber que Ara, desde tempos muito remotos, havia atraído a atenção popular porque a sua aparição num céu nublado servia para que se fizessem prognósticos sobre o tempo. Ara tinha especial importância para marinheiros porque costumava aparecer em meio a trovões, relâmpagos e raios, anunciando tempestades. Em alguma tradições, por isso, Ara também é conhecida pelo nome grego de Pharos, sinal luminoso, luzeiro, farol, em grego. Zeus (Júpiter), lembremos, como divindade uraniana, luminosa, manifestava-se principalmente através de fenômenos atmosféricos, de três em especial, o trovão, o relâmpago e o raio, advindo daí os seus epítetos Brontaios (Trovejante) e Astrapaios (O que lança raios). Ara, assim, no mapa, pode ser um ponto (uma região) onde Zeus (Júpiter) “fala” conosco., onde podemos ouvir a sua voz. 

Os astrólogos latinos chamaram a constelação de Ara Centauri, de Ara Thymiamatis e Thymale, estes dois últimos nomes fazendo referência à sua origem dionisíaca. Os árabes a denominaram Al Mijmarah, O Incensário.

NIETZSCHE  ( MUNCH )
Na minha opinião, um mapa que ilustra de modo muito significativo tudo o que vai acima é o de Nietzsche, que tem o signo de Sagitário interceptado no seu Ascendente, iniciado a 28º50' de Escorpião. A figura de Dioniso aparece com grande relevância na obra do filósofo alemão como possibilidade oferecida ao ser humano de aceder, a despeito das perversões e dos excessos implícitos no seu culto, a níveis superiores de existência, de modo a eliminar as barreiras que o separam de uma vida transcendente. Os astrólogos latinos chamaram a constelação de Ara Centauri, de Ara Thymiamatis e Thymale, estes dois últimos nomes fazendo referência à sua origem dionisíaca. Os árabes a denominaram Al Mijmarah, O Incensário


quarta-feira, 22 de julho de 2015

MITOLOGIAS DO CÉU - JÚPITER (5)

                       
Para as pessoas de mentalidade literal, é preciso ressaltar que os antigos gregos nunca consideraram as histórias de sua mitologia como fantasiosas, irreverentes ou estapafúrdias. Os mitos, para os gregos, sempre traduziram sob uma forma poética, metafórica, simbólica ou alegórica, e construídos com absoluta maestria técnica sob o ponto de vista literário, os sentimentos e as emoções que eles experimentaram diante dos grandes mistérios do universo.



TITANOMAQUIA  ( CORNELIS  VAN  HAARLEN )

As várias provas pelas quais os seus heróis passaram ao longo de sua vida nunca deixaram também de ilustrar aquilo que eles chamavam de dokimasia, provas iniciáticas, preparatórias, às quais os seus jovens tinham que se submeter. Uma demonstração de que estavam aptos para enfrentar tarefas mais difíceis, os grandes embates da vida, na proporção humana, como as descritas nos episódios da Titanomaquia e da Gigantomaquia. A dokimasia, a rigor, na sociedade grega, era um exame ao qual deviam se submeter os candidatos a determinadas funções (magistratura e cavalaria) bem como os estrangeiros que pretendessem se naturalizar. Este exame era aplicado sob a supervisão dos chamados thesmotetes (arcontes) diante de uma assembleia ou tribunal. Mesmo Zeus se submeteu a provas semelhantes para assumir a posição de o maior dos deuses. 


ZEUS,  CÉRBERO  E  A  ÁGUIA

As lutas que Zeus travou contra os titãs e contra os gigantes ilustram o inconformismo das forças primordiais, constitutivas do universo, cegas e violentas, que precisam ser constantemente vigiadas e constrangidas a se manter dentro de seus limites. É dentro desse cenário que Zeus é uma espécie de reorganizador e recriador do universo. Se interpretarmos o que significa astrologicamente este papel de Zeus, podemos entender porque Júpiter, numa carta astral, não exerce uma função criadora, mas, sim, uma função disciplinadora, redistribuidora, reorganizadora, ao recolocar, se dignificado, a criação numa ordem superior.

Vencido momentaneamente Tifon e notando que os humanos tornavam-se cada vez mais perversos, Zeus alimentou o forte desejo de destruí-los. Para Zeus, os mortais, oriundos do reino de seu pai, criados, segundo Hesíodo, com o limo da terra por Prometeu, eram seres nascidos para o efêmero, pois sua força vital (aion) era precária; colados à terra, rastejavam, alimentavam-se de coisas putrescíveis, vivendo no cuidado e na preocupação. Os deuses vivem no Olimpo, nas alturas, onde as estações não existem, onde o tempo não muda. Os deuses são athanatoi, aiegennetai, imortais e nascidos para sempre. Além disso, são akedees, isentos de preocupação, e eternamente makares, felizes.

Como benfeitor da humanidade, Prometeu resolveu intervir quando Zeus começou a tramar a destruição dos humanos. Para resolver a questão, organizou-se uma reunião entre deuses e mortais na cidade de Mecone, tendo Prometeu assumido a defesa de suas criaturas. Seu desempenho nessa reunião foi, entretanto, lamentável, pois pretendeu enganar os deuses em benefício dos mortais. Para o banquete programado, dividira-se um boi enorme em duas partes; a primeira continha as carnes e as entranhas, cobertas com o couro do animal; a segunda, apenas ossos, disfarçados com a gordura. Zeus escolheria uma das partes, cabendo a outra aos humanos. Zeus optou pela segunda parte. Sentindo-se humilhado, encheu-se de cólera. A punição foi imediata: privou os humanos do fogo, o que equivalia fazê-los voltar à animalidade. A privação do fogo significava também retirar dos humanos o nous, a inteligência, a capacidade de conhecer os eide, as formas, tornando-os anoetos, imbecis.


PROMETEU   ROUBA   O   FOGO   DOS   CÉUS

Prometeu roubou uma centelha do deus Hélio, o Sol, ocultando-a no galho oco de uma figueira, e a trouxe para a Terra, distribuindo-a entre os mortais. Zeus revidou, e resolveu fazer com que os mortais se perdessem para sempre. Até esse momento andróginos, os mortais foram então separados em macho e fêmea, usando Zeus para modelo desta última uma figura por ele idealizada, Pandora (etimologicamente, presente de todos), de cuja confecção participaram todos os deuses. O fogo trazido dos céus por Prometeu ficou com os mortais, mas, desde então, implantou-se entre eles a divisão. 


PANDORA    ( JOHN   WILLIAM   WATERHOUSE )

Pelo seu crime, sob o ponto de vista divino, Prometeu foi punido. Mandou Zeus acorrentá-lo nas montanhas do Cáucaso, missão cumprida por Hefesto, devidamente assessorado por Crato, o Poder, e Bia, a Força. Durante o dia, o fígado do titã era roído por um monstruoso abutre, filho de Tifon e de Équidna, recompondo-se durante a noite, quando a gigantesca ave se afastava, recomeçando-se tudo a cada aurora. Mais tarde, séculos e séculos depois, Zeus aceitou a libertação do titã, mas o obrigou a carregar para sempre nos tornozelos uma argola confeccionada com o aço da corrente que o agrilhoou, preso a ela um fragmento da rocha no qual ela fora fixada.

Dotado de dons divinatórios, Prometeu (o previdente, etimologicamente) tornou-se para os humanos o símbolo da filantropia. Do século XVIII em diante, principalmente a partir do
PROMETEU - BEETHOVEN
Renascimento e depois no Romantismo, para a poesia (Voltaire, Schelegel, Herder, Byron), para as artes plásticas (Ticiano, Rubens, Böcklin) e para a música (Beethoven, Liszt, Orff), Prometeu passou a simbolizar a revolta do pensador criativo, do técnico, do inovador, contra as forças do destino que o querem esmagar. Do ponto de vista dos deuses, porém, o titã sempre foi considerado um criminoso. Para os humanos, um herói, chamado pelo apelido de o Filantropíssimo. Prometeu é hoje o patrono da civilização moderna que deseja desvendar todos os segredos do universo com base no seu prodigioso poder criador técnico, em cuja origem está o fogo, para o qual nenhum limite pode ser admitido.


Os tempos se passaram. O desgosto de Zeus com relação aos mortais crescia. Os vícios e os crimes dos heróis da Idade do Bronze pareciam ter chegado a limites insuportáveis. O Senhor do Olimpo desencadeou então sobre o mundo um dilúvio, chamado dilúvio de Deucalion por ter ocorrido quando este personagem, filho de Prometeu, casado com sua prima Pirra, filha de Epimeteu e de Pandora, reinava na Tessália. Os homens procuraram fugir da terrível catástrofe, fugindo para lugares elevados. Mas lá também foram alcançados. Seguindo um conselho de Prometeu, Deucalião construiu uma grande embarcação, juntou nela vários animais, aos pares, e esperou que a tormenta passasse. 


DEUCALIÃO   E   PIRRA  

Ancorando a embarcação no alto do Parnaso, diminuindo a altura das águas, Deucalião e Pirra desceram e foram consultar um oráculo de Themis, milagrosamente preservado, para saber como a Terra poderia ser repovoada. O oráculo lhes deu a seguinte resposta: Saiam do templo, cubram o rosto, atem vossas cinturas e lancem para trás os ossos de vossa Mãe. Deucalião meditou por algum tempo. Entendeu que o oráculo, ao se referir à Mãe, estava falando da Mãe Terra e que seus ossos eram as pedras. Pôs-se então a lançar pedras às suas costas e notou com espanto que as lançadas por ele se transformavam em homens e que as lançadas por Pirra se transformavam em mulheres. 

Aparentemente fantasiosa, uma invenção poética, esta passagem se fundamenta entretanto em algo que parece ter sido historicamente bem real. Sabe-se que na Tessália, em remotíssimos tempos, havia um rei chamado Deucalion. Um grande terremoto atingiu a região, interferindo no curso dos  rios. No mesmo período em que ocorreu tal terremoto, a região foi assolada por chuvas torrenciais como nunca se vira antes, ficando tudo inundado. O povo da região procurou se refugiar nas montanhas. Muitos morreram, entretanto. Terminada a tormenta, os sobreviventes repovoaram a região. Tudo teve que ser reconstruído a partir do nada, das pedras. A chave da explicação da sentença do oráculo de Themis estava na palavra grega laos, que tanto designa povo como pedra. Juntando as pedras, tudo com o tempo foi reconstruído pelos homens. Perdeu-se o fato histórico, encarregando-se a tradição oral de lhe dar o viés alegórico, mítico.

O comportamento dos filhos de Deucalião e Pirra, a nova humanidade, também voltou a incomodar o Senhor do Olimpo, que resolveu fazer uma viagem à Terra para verificar pessoalmente as notícias que lhe chegavam. O que constatou foi lamentável, desapontador. Não teve outra alternativa senão a de lhes infligir duros castigos. Para isso, escolheu alguns personagens tidos como ilustres e os puniu exemplarmente, para que os demais, amedrontados, temerosos, segundo pensou, se corrigissem.


LICAON   ( HENDRIK   GOLTZIUS )

Dentre os castigados, merece destaque Licaon, rei da Ardádia. Seu grande crime: jamais prestar reverência a Zeus na sua forma de Xenios, protetor dos estrangeiros, pois matava indiscriminadamente todos aqueles que atravessassem as fronteiras do seu reino. Misturando-se entre o povo da região, um povo ingênuo que se dedicava à agricultura, Zeus, embora disfarçado de camponês, chamou a atenção pelo seu porte. Intrigado, desconfiado, Licaon mandou chamá-lo e o convidou para se hospedar no seu palácio, mas com a intenção de matá-lo, como fazia com todos os estrangeiros, conforme nos conta Ovídio. Antes, porém, Licaon tentou obter confirmação sobre a origem  do personagem (seria um deus disfarçado?) que visitava o país. Serviu-lhe, no jantar, os membros de um de seus escravos. Indignado, Zeus transformou-se numa nuvem de fogo que incendiou o palácio e transformou Licaon em lobo. 


LICANTROPIA   ( LUCAS   CRANACH  DER  ÄLTERE )

Esta história, como muitas outras, está na origem de uma antiquíssima tradição mítica de se sacrificar vítimas humanas a Zeus Lício (Lupino) na Arcádia com o objetivo de se afastar os lobos que então infestavam a região, pondo em perigo os homens e os rebanhos. A licantropia (transformação do homem em lobo), lembre-se, está atestada na antiguidade greco-romana por Heródoto, Strabon, Virgílio e outros. Sua origem sempre apareceu associada à história de Licaon, o cruel rei da Arcádia, e à magia agrícola, para se pôr termo às secas e às catástrofes naturais de toda sorte. Feito o sacrifício, Zeus então enviava as chuvas que fertilizavam os campos.  


ZEUS   ( DESENHO  DE  MAARTEN  VAN  HEEMSKERCK )

Zeus é o deus maior dos olímpicos, o organizador do universo. É dele que dependem todas as leis físicas, sociais e morais. Suas tendências negativas aparecem exatamente devido a essa irrefreável inclinação de incorporar tudo (as suas inúmeras uniões e ligações com deusas e mortais), de abranger tudo, o seu cosmocratismo, a sua natural disposição para monopolizar a autoridade e destruir tudo o que pudesse aparecer como autonomia e independência. São comuns no mito os seus rompantes de autoritarismo e a sua enorme suscetibilidade quando as reverências de que se julga merecedor não são feitas. Comuns por isso as suas explosões de cólera, as suas cenas, as cobranças quanto à vassalagem, tudo, no fundo, certamente a configurar um sentimento de inferioridade e de insegurança, que precisa das compensações do seu cerimonial, do seu culto, dos seus ritos, dos quais não abre mão.

Zeus é o grande modelo do patriarca na cultura ocidental, ainda muito poderoso apesar dos ataques que o arquétipo vem sofrendo. Na história do ser humano, quando pensamos em organizações e sociedades que se constituem para governar um país, para administrar uma empresa, mesmo para formar uma família, onde quer que haja comandante e comandados, a cultura que Zeus representa, a do grande chefe, eternamente presente e onipotente, pode e continua a aparecer arquetipicamente.  
  
É oportuno observar que muitos deuses da mitologia grega representam diferentes maneiras de comandar e de administrar, podendo servir de modelos de tipos humanos quando pensamos em administradores de empresas. Cada deus representa um determinado tipo de poder, de influência, mas nenhum como Zeus, que está acima de todos como cappo dei cappi. 

É na cultura das organizações empresariais modernas que o complexo de Zeus encontra o terreno mais propício para se desenvolver. Afora algumas das desejáveis características pessoais do Administrador-Zeus (empatia; demagogia; priorização de contactos informais, diretos, do tipo olho no olho; visitas constantes às bases etc.) o complexo só se configurará em toda a sua plenitude se  incorporar, fundamentalmente, os elementos que fazem parte da vida e do currículo do Senhor do Olimpo. 

HERMES


É preciso salientar que chefes de organizações públicas ou privadas tomados pelo completo de Zeus não podem prescindir, como temos no mito, de uma eficiente assessoria. Zeus jamais dispensou os valiosos préstimos de Hermes, deus que representa a inteligência sagaz, esperta e engenhosa. Hermes é uma peça importante, imprescindível, para que o modelo Administrador-Zeus funcione.


Deslocando-se muito rapidamente (polytropos), Hermes representa o conhecimento objetivo, recolhido de todos os cantos do universo, como também tem a ver com as múltiplas maneiras pelas quais qualquer informação pode ser recebida (subjetividade) e transformada em mensagem. Pode-se dizer que o complexo de Zeus nas suas formas mais pomposas e grandiloquentes, incorporado para ser reverenciado pelo público interno ou externo das organizações, depende sempre, do trabalho sujo (corrupção, comprar jornalistas, cronistas sociais, chantagem, suborno, apropriação de informações privilegiadas em benefício próprio, propagação de boatos desabonadores sobre inimigos ou aliados não mais úteis, eliminação de adversários etc.) do deus Hermes. É Hermes (assessoria) quem limpa a barra de Zeus para que ele ofereça sempre a sua melhor face para o mundo. Não nos esqueçamos que Zeus, divindade do espírito, da luz celeste, do reino do espírito, precisa recorrer constantemente, para firmar e consolidar as suas posições, a ações indignas, conduzidas sombriamente, mesmo criminosamente.

É Hermes, por exemplo, quem se encarrega de fazer o Administrador-Zeus usar os símbolos mais adequados à imagem a
ASSESSORIA   DE   COMUNICAÇÃO
ser projetada, é Hermes quem o faz ser sempre notícia, ser amado pelos comunicadores de jornais, TVs, revistas especializadas. Isto, como se sabe, implica o patrocínio de muitas gentilezas, almoços, jantares, ingressos para espetáculos, fins de semana em hotéis de luxo, meetings, congressos, restaurantes da moda, empréstimo de dinheiro (jamais cobrado), de apartamentos, casas de praia, fornecimento de garotas ou garotos de programa, droga etc. Uma regra de ouro da assessoria hermesiana é aquela que nos diz que, depois da cama, o melhor lugar para se conhecer uma pessoa é a mesa.



HERA  ( GUSTAV  KLIMT )
Outro elemento importante, altamente desejável, na vida do Administrador-Zeus, é que ele tenha uma esposa oficial, como Zeus tinha, apesar de todos os problemas conhecidos. A Esposa-Hera é importante para as solenidades oficiais, para as recepções, para o clube, ficando aos cuidados dela o cenário familiar, a casa ou o apartamento da cidade, a fazenda, a casa de praia,  os filhos bem educados e formados etc., etc. Deverá ser de preferência uma mulher de alta linhagem, de bela estampa, bem tratada e vestida, com sobrenome importante, bem treinada, com algum curso na Europa, que saiba se vestir bem, que não seja monoglota (falar inglês é importante), que esteja, ainda que muito superficialmente, a par do que aconteça nos circuitos artísticos oficiais.  

Faz parte do complexo de Zeus no mundo empresarial outro componente do mito. Refiro-me ao nepotismo. Zeus, no mito, sempre cultuou através de deuses mais próximos, olímpicos ou não, essa forma de criar dependências. O nepotismo é constituído por uma entourage de personagens próximos, familiares, parentes, amigos de infância, colegas de faculdade, compadres, gente conhecida e testada há muito tempo (cuidado com amizades
PAPA   ALEXANDRE   VI
recentes!). O termo nepotismo vem de nepos, nepotis, neto, em latim. O nome foi usado na Idade Média para designar os filhos ou netos dos Papas que passaram a acompanhá-los, mas evidentemente não como tal reconhecidos. Eram considerados como sobrinhos, protegidos, favoritos, "aspones" privilegiados. Um dos casos mais escandalosos de nepotismo foi protagonizado pelo Papa Alexandre VI (fa mília Bórgia, sécs. XV-XVI), que nomeou cardeais seu filho (16 anos), sobrinhos, cunhados e amigos.  



LOUIS XIV (HYACINTHE RIGAUD)
Exemplos do complexo de Zeus podem ser encontrados em muitos personagens ao longo da História. O imperador romano Otávio Augusto, Luiz XIV, o rei Sol, são bons exemplos. Nos tempos modernos, William Randolph Hearst, magnata da imprensa americana (o Cidadão Kane do filme de Orson Welles). Thomas Mann, com o seu Os Buddenbrook, e Robert Musil, com O Jovem Törless nos dão grandes exemplos. Um dos mais bem acabados modelos do complexo nós o encontramos na biografia de David Selznick, grande figura do cinema americano entre os anos 1920-1950.