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domingo, 27 de maio de 2018

CAPRICÓRNIO (1)

               
CAPRICÓRNIO
(CATEDRAL DE CHARTRES, FRANÇA)
Quando o Sol ingressa na constelação de Capricórnio, temos, no hemisfério norte, o chamado solstício de inverno, que se inicia com a noite mais longa do ano. Cada um dos círculos da esfera terrestre, paralelos ao equador, a 23º27´, tem o nome de trópico. Trópico vem de tropia (tropos, em grego, é direção, feição, maneira) e designa cada um dos paralelos da esfera celeste que passam pelos pontos solsticiais. O trópico de Câncer tem declinação + 23º27´, no hemisfério norte ou boreal. O trópico de Capricórnio tem declinação – 23º27', no hemisfério sul ou austral.


TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO


AURIGA
Astrologicamente, Capricórnio é um signo de terra em que o frio predomina sobre o seco, com participação do úmido, o que atenua um pouco a  sua rigidez, trazendo-lhe uma tendência impulsiva (cardinal), característica ausente nos outros signos do elemento terra, Touro e Virgem. Na antiguidade, a constelação foi chamada de Cabra Cornuda, designação que a diferenciava da estrela alfa da constelação do Auriga, chamada Capela (Pequena Cabra), hoje perto dos 22º de Gêmeos. 

A cabra com terminação de peixe só teve o seu desenho fixado por volta de 1.000 aC, conforme gravuras babilônicas. O signo, entre os mesopotâmicos, já era conhecido como o da cabra marinha, uma representação do deus Ea, cujo ideograma queria dizer aquele que fica acima das águas ou casa das águas, uma clara alusão aos dois signos do eixo solsticial. O domínio de Ea, segundo o mito, é o Apsu, a camada de água doce que envolvia a terra e lhe servia de suporte. Neste sentido, ele se opõe às águas tumultuosas oceânicas. As águas de Apsu espalham fertilidade e abundância. Além do mais, Apsu é fonte de sabedoria, nada escapando à sua vigilância. Ea tinha as características de um deus civilizador, sendo venerado por todos aqueles que trabalhavam com madeira, pedra e metal. Nesse sentido, Cronos e Saturno, como divindades civilizadoras, o lembram muito. Ea era representado normalmente por um cabrito montês com cauda de peixe. Promotor da educação e do progresso, Ea, ao dominar Apsu, tornou-se o senhor de toda a terra, instaurando-se com o seu domínio uma espécie de idade de ouro que, na mitologia grega, como se sabe, teve a regência de Cronos. Destronado depois por seu irmão Bel, que enviou um dilúvio para destruir os humanos, Ea, recuperando seu poder,  com muito esforço, conseguiu entretanto salvá-los, ensinando-lhes a construir uma arca, com a qual se salvaram.    

ASHTORAT
A cabra, desde a mais remota antiguidade, sempre apareceu associada a deusas da fertilidade. Os judeus davam o nome de Ashtorat a uma deusa assiro-babilônica cujas sacerdotisas sagradas (hierodulas) eram recompensadas por seus serviços com cabritas, animais muito valiosos então. Ashtorat era a principal deusa dos fenícios, representando os poderes reprodutivos da natureza. Era uma deusa lunar e no Egito era considerada como filha de Ra ou Ptah. Os judeus, porém, a transformaram num demônio. A Fenícia, como sabemos, era chamada também de Canaã, nome que quer dizer país baixo, e compreendia àquele tempo a área hoje ocupada pela Síria e pela Palestina. A região era também chamada de país do leite (de cabra) e do mel, considerada pelos judeus como a terra prometida. Esta região, cujo ancestral era Canaan, filho de Cham (Quente), foi invadida pelos descendentes da tribo de Abraão, o primeiro patriarca dos judeus, sob o pretexto de tê-la recebido em doação de Deus. Seus grandes centros eram Byblos, Ugarit e Tiro cidades muito importantes, muito citadas no antigo testamento. Cham foi o segundo dos três filhos de Noé, nascido antes do dilúvio. Depois desta catástrofe universal, Cham encontrou seu pai embriagado e nu, relatando o fato aos irmãos, que  repreenderam Noé publicamente. Em represália, o pai
ASTARTE
amaldiçoou Cham e o condenou a ser o servidor dos seus irmãos. Cham, como se disse, é o ancestral dos cananeus e de povos africanos. Nas regiões semíticas do noroeste, Ashtorat recebia o nome de Astarte (Ishtar nos textos mesopotâmicos), grande modelo da Afrodite grega, especialmente sob o aspecto de Erycina, que pontificava na Sicília, em Eryx, junto do monte de mesmo nome (atualmente, San Giuliano), cidade fundada pelos fenícios, objeto de disputa entre Siracusa e Cartago. 

PRAKRITI
A cabra, em antigas tradições védicas, era um símbolo da substância primordial, significando algo não nascido ainda, recebendo, por isso, o nome de Prakriti. Confundida com a natureza, com o mundo material, Prakriti se opunha ao espírito, Purusha. Enquanto a cabra canceriana lembra um universo aquático relacionado com o elemento líquido na sua função original, Capricórnio trabalha com ideias contrárias, tendo a ver com concentração, desnudamento, retração,  com o predomínio das virtudes frias, sobriedade, simplicidade, austeridade. O ser humano colocado sob a radiação de Câncer sempre terá problemas com a sua defesa corporal; seu psiquismo, no geral, se sentirá exposto, indefeso. É por isso que nele desde cedo encontramos um sentimento de desamparo, uma espécie de temor diante da vida. Capricórnio, ao contrário, inspira ação e metas firmemente delimitadas, linhas de ação que falam de cumprimento do dever, realização de propósitos lentamente amadurecidos e superação de obstáculos. Em muitos capricornianos, por isso, temos o cumprimento do dever como missão, o caráter inflexível, a tenacidade, um temor de não realizar, nada de concessões internas, a luta contra resistências elas, contra tudo o que possa ser visto com estados de ânimo oscilantes, caprichos. Uma das grandes ilustrações da máxima alquímica solve et coagula nós a encontramos perfeitamente no diálogo entre estes dois signos.

A coagulatio, lembremos, é a operação alquímica ligada ao elemento terra. Esta operação nos fala de sólidos, obtidos, por exemplo, pelo resfriamento de líquidos, que têm forma e posição fixas, com muita dificuldade de adaptação a recipientes, ao contrário da água. É por isso que os conteúdos psíquicos ligados ao elemento terra concretizam-se numa forma particular. Todos os mitos de criação (cosmogonias), a gênese bíblica, por exemplo,  usam imagens da coagulatio alquímica.   

O tipo capricorniano superior lembra a cabra que tem características montanhesas, animal das escaladas, das alturas, das elevações, dos picos, lugares que só podem ser atingidos depois de um adequado treinamento da vontade e do domínio da vida instintiva e da sensibilidade, por uma disciplina que tenha levado ao endurecimento das formas (diminuição do úmido), expressões de três grandes características inerentes ao signo: silêncio, solidão e trabalho. A participação do elemento úmido em Capricórnio, indicado pela cauda marinha da cabra, atenua, contudo, a excessiva concentração material, diminui um pouco a sua rigidez, favorecendo o impulso próprio (cardinal), tendência ausente nos outros dois signos do elemento terra, como se disse. 

Em várias tradições, Capricórnio sempre foi considerado um signo triste, de vida superior impessoal, de desapego de tudo o que é pessoal, isto é, canceriano (minha família, minha casa, meus bens, minha cidade etc). em nome de uma expansão em direção de outros níveis. Daí o uso de todos os meios herdados, dos valores materiais disponíveis, conquistados segundo modelos recebidos da tradição, como um meio de saída da vida pessoal ou social para que seja alcançada materialmente a máxima elevação máxima ou, nos tipos mais bem logrados, uma ligação com o coletivo, com a humanidade como um todo, ou seja, com a vida espiritual. É neste sentido que as montanhas, um dos grande símbolos do signo, são sacralizadas, os cumes principalmente, lugares de peregrinação, onde muitas culturas colocaram importantes templos. O alto das montanhas é visto, por isso, como um lugar de transfiguração do material em espiritual.


MAKARA
Diante do que se expôs até aqui, podemos classificar os  capricornianos em três tipos básicos, o defensivo, o aspirativo e o ascensional, simbolizados respectivamente pelo crocodilo (Makara, na Índia), pela cabra (astrologia ocidental) e pelo unicórnio (tradição medieval). O crocodilo, aligátor ou caimão sempre apareceu associado às trevas, à Lua, lembrando a voracidade da noite que, ao final de cada dia, parece devorar o Sol. Temível sob todos os aspectos, o crocodilo exprime uma força inelutável, como a noite e a morte porque sem elas não temos o dia ou a vida. 

SETH
No antigo Egito, o crocodilo emprestava sua forma ao monstro Seth, irmão gêmeo de Osíris, deus da desordem, da violência, personificação do mal e da morte, lembrando a desertificação por oposição àquele, símbolo da fertilidade (as cheias do rio Nilo). O deus Sobek, como crocodilo, emprestava uma parte de seu corpo para formar com o hipopótamo, o monstro devorador das psicostasias. Os principais centros de adoração de Sobek eram Crocodilópolis (hoje, Medinet el-Fayoum), Tebas e Kom Ombo, no antigo Egito, segundo nos narra Diodoro da Sicília, do século primeiro aC. O crocodilo, no país dos faraós, era considerado como um sobrevivente das águas primordiais, um animal dos primeiros tempos da criação, tendo, por isso, relação com a fertilidade e com o Sol. Sua carga simbólica era, entretanto, ambígua. De um lado, em Tebas, eram sagrados, embalsamados, transformados em joias usadas por sacerdotes; de outro, execrados, sua goela considerada como a entrada da morte, sua cauda como um prenúncio das trevas, tendo sempre o animal como símbolo um caráter funerário. 


PLUTARCO
O historiador Plutarco nos deixou relatos de que o crocodilo era adorado no Egito em virtude de sua capacidade de tudo observar em silêncio, com os olhos cobertos por um tecido membranoso, capaz, inclusive, de prever as enchentes do rio Nilo. Ainda segundo os egípcios, as fêmeas, durante a sua vida, punham sessenta ovos, número do tempo médio de sua existência em anos. Aristóteles também afirmava que as fêmeas do crocodilo dos rios punham sessenta ovos brancos. Negativamente, o crocodilo, em várias tradições, é símbolo da hipocrisia porque costuma derramar lágrimas ao devorar as suas vítimas. 

A palavra crocodilo veio do grego (krokodeilos) para o latim (crocodilu) e deste para a língua portuguesa. Os gregos grafaram o nome do animal com o antigo significado egípcio, verme das pedras, segundo o qual ele era conhecido, devido ao costume de se esquentar ao Sol sobre pedras lisas, segundo Heródoto. O grande terror que ele inspirava se devia à sua bocarra, que conta com 38 afiadíssimos dentes em cima e 30 em baixo. Ele pode matar e deglutir animais do porte de um boi ou de um búfalo. Ousado e traiçoeiro em seus ataques, passou a ser metáfora de pessoa pérfida e cruel, que chora lágrimas de crocodilo, pois ele verte lágrimas enquanto devora as presas que abate por força da pressão que sobre os seus olhos exerce o movimento de sua bocarra. 

MAKARA
Na Índia, o signo de Capricórnio é chamado de Makara, imagem que vem do mito, um monstro marinho muito semelhante ao crocodilo, montaria de Varuna, como deus das águas. No zodíaco hindu, ele corresponde ao solstício de inverno, início de um período no ciclo anual em que o Sol é “devorado” pela bocarra da escuridão hibernal. Não é difícil estender, de um modo geral, esta analogia aos capricornianos que têm uma natureza muito séria e taciturna, que são, em muitos exemplos, depressivos, esquizofrênicos, avessos a qualquer intimidade, que podem se tornar misantropos ou misóginos muito facilmente. Estes tipos são as costumeiras vítimas do chamado complexo de Cronos, isto é, tipos humanos que se recusam a perder aquilo a que se ligaram no decorrer da vida, especialmente no seu período inicial. Fixados e cristalizados na infância e na juventude, fases em que o poder paterno costuma ser muito marcante o para eles; apagam o seu ego, tornam-se pessimistas, recusam-se a viver, a não ser segundo os modelos herdados dos quais, embora sofrendo muito, nunca conseguem se libertar.

Astrologicamente, estes capricornianos de primeiro nível
KALA
apresentam de um modo geral em seus temas configurações nas quais, além do seu ascendente e dos seus luminares, seus demais planetas pessoais se mostram também “devorados” por Saturno de algum modo. É por essa razão também que os hindus associam a Kala, o tempo que devora a vida, e ao dragão Rahu, o demônio dos eclipses, ambos “devoradores”, a Shani, o planeta Saturno, e ao signo de Makara, Capricórnio. Tanto Kala

como Rahu, ambos de grande goela, a tudo devorando e engolindo,
RAHU
são representantes do vai-e-vem cósmico na sua fase de refluxo. Segundo este entendimento, tal refluxo nunca poderá ser confundido com a morte, mas sim como uma transformação. A vida, emanada do Uno, a ele retorna num ritmo ao mesmo tempo generoso e temível.

O crocodilo, o lobo, o jaguar, a hiena, a baleia e outros animais conhecidos como “devoradores”, vorazes e/ou com bocarras e grandes goelas,  foram usados, desde tempos pré-históricos, para representar a alternância entre a luz e a escuridão, entre a vida e a morte. É neste sentido que o lobo, na tradição védica, aparece como
USHAS
um devorador natural da codorniz, ave que representa o calor, o ardor, a luz, chamada de “ave vermelha”. Na Índia, segundo o mito, foram os Ashwins, os gêmeos equivalente aos Dioscuros gregos (signo de Gêmeos) que libertaram a codorniz (vartika) da goela do lobo, acontecimento astronômico simbolizado pela Aurora (deusa Ushas). Lembremos ainda que entre os gregos, a ilha de Ortígia é conhecida como a ilha das codornizes (ortyks, codorniz). Nessa ilha, Leto deu à luz a Ártemis e a Apolo, gêmeos divinos, filhos de Zeus, que simbolizam os dois luminares celestes do nosso sistema.

Entre os povos maias da América Central, o jaguar é uma espécie de divindade de caráter ctônico e, como tal, ligado à vida subconsciente do homem. Ele aparece no crepúsculo (obscuridade) como devorador do Sol. Representa o denominado Sol Negro, o astro no seu curso noturno. É também o jaguar nessa mesma perspectiva simbólica o senhor das montanhas, do eco, dos animais selvagens e dos tambores de convocação dos rituais. Em muitos ritos dos povos das três Américas, o jaguar é considerado como o guardião do fogo e herói civilizador (Grande Ancestral) que deu ao homem técnicas de iluminação. 

No capricorniano de segundo nível unem-se, como já se deu a entender, dois símbolos, a cabra e a montanha. A cabra a que aqui nos referimos não é evidentemente a chamada “cabra de fundo de quintal”, a cabra que come o que lhe dão, símbolo do primeiro nível tipológico do signo (makara). Este tipo “cabra de fundo de quintal” jamais ousa, subordina-se sempre a um forte sentido familiar, sentido que impõe limitações e cargas a todas as suas obrigações e responsabilidades sociais. A grande debilidade do signo está neste tipo, que sempre se mostra preso a um pesado senso de dever (mais imaginado que real) ou tendo diante si barreiras intransponíveis imaginárias. 

CABRA MONTANHESA
Já o tipo capricorniano “cabra montanhesa”, de natureza aspirativa procura definir papéis, é capaz até mesmo de criá-los, tornando-se mais público, mais exposto, lutando por uma claridade que aumenta à medida em que “sobe”. Este é o capricorniano de ambições, que procura escalar a montanha, chegar ao topo, lento mas implacável na subida, podendo, como é o caso dos tipos mais bem logrados do signo, construir paraísos materiais (Stalin, Adenauer, Mao-tse-tung, Amador Aguiar etc.). 

 A cabra, como se viu, em todas as tradições é símbolo da matéria primordial (Prakriti) que pode tomar formas evolutivas através da fecundação pela energia, representada pelo divino, pelo espírito (Purusha), sendo a subida da montanha uma das metáforas deste jogo simbólico. Esta atividade fecundante do espírito era vista como a ação do céu em benefício da terra, conforme as variadas formas que as manifestações atmosféricas poderiam tomar.



terça-feira, 24 de junho de 2014

HÉRCULES - DÉCIMO TRABALHO



 
EURISTEU,  CÉRBERO  E  HÉRCULES  
                    
Capturar o cão infernal Cérbero - Filho dos monstruosos Tifon e de Équidna, Cérbero, o cão tricéfalo, cauda de dragão, cheio de serpentes pelo corpo, guardava as portas de entrada do Tártaro, no Hades, onde Plutão e Perséfone viviam no seu palácio.  Cérbero jamais permitia a saída dos que para o Tártaro fossem enviados. A tarefa de Hércules era muito difícil, já que só as almas podiam descer ao reino infernal. Nosso herói, para o cumprimento dessa missão, recebeu, por ordem de Zeus, o auxílio de Hermes, o deus psicopompo. Hermes era a divindade encarregada de transportar as almas para o Hades, reino subterrâneo, para onde elas iam obrigatoriamente, quando do desaparecimento do corpo físico.


O   HADES  

Antes, por sugestão da deusa Palas Athena, Hércules procurou informações sobre o que seria uma catábase infernal, visitando, para tanto, o Santuário de Eleusis. Lá tomou conhecimento de que o Hades era um lugar onde as almas eram julgadas conforme o que tivessem feito os seus donos na sua vida terrena. Um julgamento desfavorável poderia significar a danação eterna para os grandes criminosos e pecadores, como Sísifo e Tântalo, que foram enviados para o Tártaro, o “inferno dos maus”, a região mais profunda do mundo infernal. Ou então poderia significar, se os crimes cometidos não tivessem sido tão graves assim, uma permanência demorada, sofrida, mas provisória, num lugar chamado Érebo. Um julgamento favorável significaria a permanência provisória, isenta de qualquer sofrimento, nos Campos Elíseos, outra região infernal. Nos casos de uma permanência no Érebo ou nos Campos Elíseos, as almas, depois de beber das águas do rio Lethe, o rio do esquecimento, poderiam reencarnar.

Sabe-se por Eurípedes e por Isócrates que a iniciação de Hércules
ARISTÓFANES
nos Mistérios de Eleusis era necessária para que ele pudesse cumprir a tarefa que lhe fora determinada, pois os que deles participavam aprendiam a lidar com a morte, aceitando-a como algo natural e não aterrorizante. É de se lembrar que Aristófanes, o comediógrafo, com sua peça As Rãs, usou este episódio da descida de Hércules ao Hades para nos dar um grande trabalho crítico sobre o teatro grego, a tragédia, em especial.

Como Hércules era um estrangeiro (era natural do Peloponeso) e Eleusis ficava perto de Atenas, na Ática, nosso herói teve que ser adotado antes por um ateniense (estrangeiros não podiam participar dos Mistérios), o que de fato ocorreu, e passar por uma purificação por causa da morte dos centauros (sétimo trabalho). Depois dessas providências, sabe-se que a proibição acabou sendo revogada, transformando-se Eleusis num santuário pan-helênico, o que possibilitou que qualquer grego ou mesmo estrangeiros dele pudessem participar. 




Depois dessa iniciação, Hércules em companhia de Hermes, dirigiu-se ao cabo Tênero, na Lacônia, uma das mais conhecidas entradas do Hades na Grécia. Começaram a descer, indo em direção do rio Estige, um dos cinco rios infernais. Estige, etimologicamente o que causa horror, é um rio infernal de águas geladas, sendo enviados para as suas margens as almas dos que haviam cometido principalmente crimes de perjúrio. É de se lembrar que quando da vitória dos deuses olímpicos contra os Gigantes, Zeus, devido à grande colaboração que recebeu de Estige, então a mais velha das oceânidas, lhe concedeu, quando transformada em rio infernal, o privilégio do horkos, ou seja, era em seu nome que os deuses faziam os seus mais solenes juramentos; se os desrespeitassem seriam expulsos do Olímpo, com a ameaça de exílio ou mesmo de uma permanência no Hades. 

HERMES  PSICOPOMPO
As almas que se encontravam às margens do Estige fugiram assustadas, diante da insólita presença de nosso herói. Dali, Hermes conduziu Hércules até o rio Aqueronte, o principal rio infernal, aquele que verdadeiramente dava acesso ao Outro Lado. Tão espantado ficou o barqueiro Caronte que se esqueceu até de pedir o óbolo de praxe, que as almas deviam lhe entregar para poder ter acesso ao palácio dos reis do Inferno. Por causa dessa falta profissional, sabe-se que Caronte passou um ano encarcerado, preso a ferros.

Na ocorrência da morte, a alma (psykhe), desprendendo-se do corpo  físico   (soma),   tomava   a   forma   de   um   eidolon,   uma
NEKYIA
representação que lembrava vagamente o corpo físico. Chamada também de opsis (aparência) ou de skia (sombra), a alma como eidolon conservava de modo latente uma espécie de inteligência que podia ser ativada se os  familiares e amigos do morto procurassem manter a lembrança dele através de determinada cerimônia, regularmente realizada, chamada nekyia, da qual faziam parte sacrifícios e invocações para que fosse possível mantido o devido contacto. Energizadas pelos sacrifícios e invocações, as almas poderiam então falar, geralmente para se queixar e invariavelmente manifestando muito rancor com relação ao mundo dos vivos. 


MAPA   DO   HADES

O rio Aqueronte (etimologicamente, tanto pantanoso, lamacento, como o das dores) era o mais importante do Hades. A ele se juntavam os rios Piriflegetonte (o de chamas sulfurosas) e o Cocito (o dos gritos, uivos). A travessia do Aqueronte era feita por um barco conduzido Caronte, o barqueiro infernal, um dos agentes do Hades, que ia no leme; os remadores eram as próprias almas. Feio, magérrimo, de barba hirsuta, sempre com as vestes sujas, manchadas pelo limo esverdeado das águas do rio, Caronte era uma figura sinistra, muito temida e odiada. 


CARONTE
  
Hércules, ao sair da barca, percebeu duas figuras próximas, a Medusa e Meléagro. Ao tentar golpear a primeira com a sua espada, Hermes o dissuadiu, aquela figura era apenas uma sombra (skia), uma sombra, porém, muito importante pois ela era dona de uma ilha, a chamada Ilha dos Mortos, que ficava no meio do Aqueronte. Nessa ilha ficavam as almas daqueles que não haviam tido sua morte ritualizada, exigência indispensável para que pudessem realmente ingressar no mundo infernal.


ILHA   DOS   MORTOS   ( BÖCKLIN )

MELÉAGRO
Quanto ao outro, disposto também a atacá-lo, Hércules ouviu-o por um momento. Meléagro começou então a contar a sua história ao nosso herói, narrando-lhe os últimos momentos em que passara na terra. Hércules se comoveu tanto que lhe prometeu, quando de seu retorno, desposar Dejanira, sua irmã.  O que mais tocou Hércules foi Meléagro ter-lhe dito que sua irmã, a de nuca delicada, ficara só em casa e que era ignorante das coisas do amor, nada sabia das artes da Afrodite dourada, como enfatizou. 

Prosseguindo na sua caminhada pelo Hades, Hércules encontrou Teseu e Piritoo, o Lápita, aprisionados por Plutão nas famosas "cadeiras do esquecimento", de onde nunca mais deveriam se libertar, pois haviam tentado raptar Perséfone. Hércules, contudo, grande amigo do famoso herói ateniense, o libertou, arrancando-o tão violentamente da cadeira-prisão que pedaços das nádegas de Teseu nela ficam presos. Piritoo, filho de Ixion, o pai dos centauros, foi esquecido e lá permanecerá certamente até o final dos tempos.

O que se conhece desta passagem, como está em Racine, que quem
PERSÉFONE   E   ASCÁLAFO
alimentava esperanças de fazer sexo com Perséfone, a rainha do Hades, era Piritoo e não Teseu.  Mais à frente, Hércules encontrou Ascálafo, filho de uma ninfa do rio Estige e do deus-rio Aqueronte, e também resolveu libertá-lo. Este personagem presenciara o momento em que Plutão-Hades pusera nas mãos de Kore as famosas sementes vermelhas de uma romã, tornando-a fértil. Indiscreto, Ascálafo divulgara o acontecimento, narrando-o de um modo tão debochado que denegrira a pureza da jovem. Deméter o puniu, colocando-o sob um imenso rochedo. Libertado por Hércules, Ascálafo não conseguiu contudo viver sob a sua antiga forma. Deméter imediatamente o transformou numa coruja, substituindo um castigo por outro.

Em seguida, muito sensibilizado pelas multidões de almas que encontrou vagando às margens dos rios infernais, Hércules tentou fazer alguns sacrifícios sangrentos com animais do grande rebanho do deus dos infernos com o objetivo de energizá-las um pouco, dando-lhes alguma vida. Menetes, funcionário do Hades, que cuidava dos animais, ao tentar impedir a ação do nosso herói, foi ameaçado de morte por ele. Foi nesse momento que Perséfone, aparecendo e reconhecendo Hércules como seu irmão (eram ambos filhos de Zeus), o informou que seu marido estava pronto para recebê-lo.

HÉRCULES   E   CÉRBERO
Exposta a razão do trabalho, Plutão consentiu que Hércules levasse Cérbero à presença de Euristeu, desde que conseguisse vencê-lo numa luta em que não usasse armas metálicas, inclusive escudos de qualquer natureza. Para se proteger, Hércules pôs sobre os seus ombros e cabeça a pele do leão que costumava usar e muniu-se de algumas pedras pontudas. Atracando-se com o monstro, depois de terrível luta, conseguiu subjugá-lo, amarrando-o com grossas cordas que levara consigo. Afastando-se rapidamente do mundo infernal com a sua presa às costas, Hércules, com enorme esforço, guiado por Hermes, conseguiu chegar finalmente a Micenas. Vendo o monstruoso animal, Euristeu se assustou tanto que imediatamente ordenou ao nosso herói que o levasse até uma das muitas entradas do Hades e que o libertasse para que o monstro pudesse voltar a seu amo.

Os gregos sempre consideraram o acônito, planta venenosa, como infernal, nascida da baba de Cérbero, segundo uma versão. A deusa triforme Hécate, como contado por vários mitógrafos, possuía em seu jardim, no Hades, uma grande plantação desse vegetal, usado na feitiçaria e na magia negra. Muito tóxico, o acônito, extraído da planta, era chamado entre os romanos de “Carro de Vênus” ou de
ACÔNITO
“Capacete de Júpiter” porque, suas flores, invertidas, no primeiro caso, pareciam com um carro puxado por duas pombas ou, no segundo caso, como uma espécie de protetor da cabeça. Era muito usado, desde a mais remota antiguidade, para afastar vampiros e lobisomens, sendo, segundo a tradição, remédio infalível para curar a licantropia. Desde esses antigos tempos, o acônito sempre foi usado para combater a ansiedade, o cansaço, a fadiga, quando apresentam aspectos depressivos.



CAPRICÓRNIO

O décimo trabalho de Hércules tem a ver com Capricórnio, o décimo signo na ordem zodiacal. Este signo, como se sabe, é cardinal e do elemento terra. Astrologicamente, Capricórnio lembra ascensão, conquistas materiais, elevação. Ideias que representam a possibilidade máxima das conquistas materiais. Como tal, é um signo ligado ao zênite mundano. Os capricornianos positivos estão bem qualificados para assumir responsabilidades em empreendimentos de natureza prática, tanto os relacionados com a vida privada ou com a vida pública. Conceitos de ambição, de aspiração, de realização são comuns nos do signo, aliando-se a eles grande persistência, obstinação. Os capricornianos não são imediatistas e, de um modo geral, preferem trabalhar com metas de médio para longo prazo e procuram dar consistência e solidez ao que produzem.




As três cabeças de Cérbero simbolizam astrologicamente o triângulo formado pelos três signos zodiacais do elemento terra, Touro, Virgem e Capricórnio. O elemento terra representa o concreto, o sólido, o tangível e, por extensão, a vida material. Ou seja: ocupado com as pressões do ter, do possuir (Touro) e de, através das conquistas materiais, chegar ao topo da montanha (Capricórnio), muitos homens organizam as suas vidas nesse  sentido, montando uma agenda voltada exclusivamente para esse fim (Virgem).

Este foco na ascensão material costuma eliminar tudo o mais, família, filhos, divertimentos, amigos. Se aberto um espaço para eles, serão para a “conquista da montanha”. Uma festa familiar, por exemplo, será organizada com essa finalidade: convidar pessoas que poderão ser úteis, abrir algumas portas, favorecer de algum modo tal objetivo. A vida social, clubes, academias de ginástica etc.,tudo caminhará também nessa direção: frequentá-los para estabelecer relações “certas”, que possam facilitar a "subida da montanha".  

Esta terceira cabeça, relacionada com o signo de Virgem, costuma representar também tudo aquilo que deveria ter sido feito e que não foi para que a vida fosse orientada numa outra direção: nela estão as mudanças que não aconteceram, os hábitos que se instalaram tiranicamente, as purificações e depurações que não foram feitas, o cuidado corporal protelado, os espaços que não foram abertos no dia-a-dia para divertimentos saudáveis, para uma melhor convivência familiar etc. No lugar, como atitude dominante, sempre uma absurda ênfase em justificativas que falam de “dever cumprido”, o apego às tarefas difíceis, trabalhosas, ingratas ou penosas, a pretensão de satisfazê-las, a prioridade absoluta para tudo que signifique segurança material e, com ela, o reconhecimento social pelos resultados obtidos, a conquista do topo da montanha.

Uma das grandes debilidades de Capricórnio está, com frequência, numa natureza exageradamente séria e taciturna. Tal atitude
SATURNO
costuma gerar muita desconfiança, o que leva muitos que têm que conviver com capricornianos a achá-los, ainda que não o sejam, controladores, manipuladores, frios, calculistas. O planeta de Capricórnio é Saturno, que governa o princípio da cristalização. Este planeta tanto pode fazer dos capricornianos seres disciplinados, obstinados, metódicos e persistentes, como pode lhes proporcionar uma natureza excessivamente contida, tradicionalista, apegada aos valores do passado.

Vários temas se destacam neste trabalho. O tema da descida, da catábase, é o da morte simbólica, já prefigurada na passagem dos Mistérios de Eleusis. Ir ao Hades, lugar onde só entramos sem o corpo físico. Ou seja, aprender a nos livrarmos da forma, das prisões materiais, representadas pelas três cabeças do monstro. Não mais colocar a nossa consciência no material, nos desejos, no corpo físico. Usá-lo, mas a ele não nos prendermos. O centro (a cabeça central, Capricórnio) tem que estar mais acima, num plano que esteja acima da forma. Descer ao Hades é, pois, o início da subida da montanha.  

É neste sentido que Capricórnio deve representar um tipo de
SIGNO   DE   CAPRICÓRNIO
iniciação superior através da qual começamos o ciclo das realizações impessoais (Hércules se sensibilizando com os seres abúlicos que encontrou, com as almas penadas que perambulavam perdidas pelo Hades, muitas "vivendo" na ilha dos Mortos. A ideia de serviço, de consciência grupal "nasce" aqui, se se considerar que o signo de Capricórnio abre o último quadrante  zodiacal, que corresponde ao coletivo, à humanidade como um todo, com relação aos anteriores: o primeiro representa o individual, o segundo o familiar e o terceiro o social, um nos preparando para aceder ao outro. A partir de Capricórnio temos simbolicamente que aprender a nos “desmaterializar”. É por esta razão, por exemplos, que os hindus dão o nome de moksha a esta última etapa, palavra que tem o sentido de desatar nós, romper ligações.  

Três virtudes são requeridas quando pensamos em Capricórnio, conscientemente: silêncio, solidão e trabalho. Neste sentido, Capricórnio   é   um   signo   triste,   de  desapego,  de vida superior,
impessoal. Por isso, desapego de tudo o que é pessoal, pela expansão do pessoal (minha casa, minha família, meus bens, minha posição mundana etc) em direção de outros níveis, que podemos chamar de espirituais. Ao contrário, usar tudo isto, todos os valores materiais como um meio de saída, tornar-se mais leve, de modo a entender que o centro está mais acima. É neste sentido que em todas as tradições as montanhas são sacralizadas, o alto das montanhas, as acrópoles, como símbolos de saída para níveis de vida superior. Em Capricórnio termina o social e começa o coletivo, surge a noção de humanidade

Basicamente,  três  são  os  tipos  capricornianos:  o  defensivo,  o
aspirativo e o ascensional, simbolizados respectivamente pelo Crocodilo, pela Cabra e pelo Licorne. Animal de enorme bocarra, o crocodilo é usado para representar o período do ano em que o Sol é engolido pelas trevas, o inverno. Jamais ousando, prisioneiro do poder dos mais velhos, o capricorniano deste primeiro nível vive neste cenário: obediente, precavido em demasia, exageradamente metódico, tradicionalista, respeitador, não consegue empreender nada. É, como tal, um servidor, tornando-se geralmente vítima dos complexos de Cronos ou de Isaac. Pode ser representado também pelo chumbo, o ponto mais baixo a que se pode descer simbolicamente no processo de materialização. O chumbo, como sabemos, inibe qualquer tipo de mudança. Os hindus, com razão, dão o nome de Makara ao signo de Capricórnio, o primeiro mês do inverno, quando a luz solar é “engolida” pelas trevas hibernais, simbolizadas pela imensa bocarra desse animal.


O tipo aspirativo é representado pela cabra montanhesa, animal que procura  viver  nas  alturas.   Sem  os  exageros  do  primeiro tipo, disciplinado, perfeitamente centrado na caminhada aspirativa, muitos capricornianos do tipo “cabra montanhesa” podem se tornar grandes realizadores, até grandes construtores de impérios materiais. Stalin, Adenauer, Mao-Tse-Tung, Amador Aguiar
RICHARD   NIXON
(fundador de um império bancário no Brasil) são bons exemplos. Um exemplo bastante malogrado deste segundo tipo é o presidente Richard Nixon. Foi para o topo da montanha, mas, por não calcular bem os seus “pulos”, levou um tombo mortal.

O capricorniano de terceiro nível, representado pelo Licorne (o Leão de Chifre) é aquele que entende que em Capricórnio o poder de se criar materialmente termina. Como tal, para este tipo, Capricórnio será um signo de saída para o coletivo, para o transpessoal (Aquário). É aqui que ocorre a chamada transfiguração (transformação, metamorfose, mudança na maneira de pensar, de sentir, de proceder, do material para o espiritual). Se não ocorrer essa transfiguração, teremos a crucificação, a prisão na materialidade, o eu (Sol) inteiramente engolido pela vida material, pelas as três cabeças de Cérbero. Lembremos que na Alquimia a crucificação (crucifixio) e a mortificação (mortificatio) são praticamente equivalentes. 

Em todos estes exemplos, a montanha, uma das grandes imagens do signo, sempre apareceu simbolicamente como proposta de elevação, participando de ideais de transcendência enquanto lugar de teofanias, de hierofanias. É o lugar onde a terra e o céu se aproximam mais, lugar onde o divino é reverenciado e, ao mesmo, nele temos o fim das possibilidades aspirativas do ser humano.

A origem deste animal mítico, o Licorne, tem relação com a penetração da matéria pelo divino, que o chifre representa. É o tema do leão (lyon) de chifre (cornu),  sendo o chifre entendido como abundância espiritual e não material, ou seja, a espiritualização da matéria.  Não esquecer que o número de Leão é cinco e o de Capricórnio é dez, um duplo leão, portanto. O eu racional (Leão) se transforma em eu espiritual (Licorne) a partir de Capricórnio.


Uma explicação sobre o licorne: no século XII, ocorreu no ocidente uma transformação dos cavaleiros europeus, de guerreiros andantes em aristocratas rurais. O leão, que sempre aparecera simbolicamente associado ao poder, desde a antiguidade, sendo usado para representar deuses, reis, heróis e chefes militares, sofreu uma espécie de capitis diminutio. Sua imagem foi suavizada, espiritualizada. Surge o licorne, palavra que se decompõe em lyon e cornu, o leão de chifre. O simbolismo do chifre, ao mesmo tempo que encerra um sentido de poder, traz consigo ideias  de elevação, de eminência, de espiritualização (veja neste blog, no e-book, Exercícios de Leitura, a matéria “Os Chifres”, pag. 92, para melhores explicações).  

Historicamente, como sabemos, foi na virada do séc. XII para o séc. XIII, período em que alguns situam o primeiro Renascimento, que o amor se torna cortês e que a coleção de contos tendo como personagens o rei Artur e os Cavaleiros da Távora Redonda representou a expressão maior da cavalaria romântica e espiritualizada (busca do Santo Graal). Foi por essa época também que o românico deu lugar ao gótico e que os cultos marianos passaram a receber grande impulso, redefinindo-se os papéis da mulher na sociedade medieval.

NOTRE  DAME  DE  PARIS
A catedral de Notre Dame, em Paris, é um exemplo do que está acima: ela era não só uma invocação à Virgem, mas uma exaltação que se lhe fazia com a sua ornamentação. Maria foi retratada não só como Mãe de Deus, mas como Rainha do Céu e Advogada dos pecadores, tornando-se o próprio símbolo da Igreja. Um dos mais belos monumentos artísticos à glorificação do feminino é, nesse sentido, a catedral de Chartres, na qual a importância de Maria equivale à de Jesus.



NOTRE   DAME  -  CHARTRES

Foi em algum ponto na virada dos mencionados séculos que, por influência da Igreja Católica, certamente, a palavra  licorne começou a ser usada (indevidamente) para designar um símbolo do poder feminino que vinha de longe, encontrado em várias tradições, um pequeno cavalo unicornudo, que uma virgem acariciava, como imagem da pureza e da sublimação da vida carnal. Uma das mais conhecidas alegorias medievais do que estas figuras representam, com várias possibilidades interpretativas, é o conjunto de seis tapeçarias, do séc. XVI, La Dame à la Licorne (em português, A Dama e o Unicórnio), exposto no Museu de Cluny, em Paris. Numa das peças, vemos o leão (sem chifre) e o unicórnio, como imagem da união do princípio masculino (o leão, o noivo) e o princípio feminino (o unicórnio, a noiva) sob a tutela da Santa Madre Igreja (a Virgem).     


LA   DAME   À   LA   LICORNE  -  TAPEÇARIA

Em Capricórnio temos a desmaterialização daquilo que começou
VESTIMENTA   SUFI
em Câncer. Libertação da matéria, o poder da Lua, mãe das formas, termina. Daí as grandes virtude do signo, frugalidade, ascetismo, concentração. O emblema desta destas virtudes na vida ascética é o cilício, tecido feito com lã de cabra que os Sufis usam. Na Homeopatia, é a Calcárea carbônica, remédio das crianças "velhas", que se dá para o raquitismo, para os que têm falta de confiança, para os que custam a andar, para os debilitados, deprimidos.

Lutar, pois, contra a matéria que nos "prende", desmaterializarmo-
MORTIFICÁCIO : CINTO   DE  CILÍCIO
nos como disse. Penitência, mortificações, se necessário, para libertar a alma. A cabra, como símbolo aspirativo, pode chegar às alturas. Mas as alturas da cabra, como exemplificado,, são sempre perigosas, a rondá-las sempre uma ideia de imprevisibilidade, de capricho (palavra que vem de capris, cabra), tanto em razão de um salto mal calculado (o tombo é quase sempre mortal) como devido à própria imprevisibilidade do clima nas alturas. 

Capricórnio é assim um signo de conclusão. Não podemos ir além dele, impossível o progresso sob o ponto de vista formal. Temos que escolher os nossos meios de elevação. Primeiro, evitar distrações, trabalhar com seriedade, lucidez, inteligência, realismo, sem pieguices. Depois, concentração no mais significativo, sacrifício do supérfluo, silêncio. A misantropia e a misoginia  são perigos  do signo.  Lugares solitários, retiros e vida austera são muitas vezes procurados. No mais, ideias de firmar bases sólidas, de pedras assentadas, não afetadas pelo tempo. 

Dominadas as cabeças de Cérbero, surgirão outros valores, o altruísmo no signo seguinte (Aquário) e a doação desinteressada no último deles (Peixes). Desprendimento e desapego. Nada de futilidades, de leviandade, de irresponsabilidade. Linha dura, autocensura, humildade, "ajoelhar-se" para subir a montanha. Nada de descontroles emocionais, de caprichos, de den guices (Lua exilada), nada de descomedimentos, nem se acomodar à tentação de herdar posições por “razões de sangue” (Júpiter em queda). Observar Vênus, invariavelmente mal em Capricórnio: cuidado para não unir amor e alpinismo social ou ter medo de amar para não dividir; conflitos entre ambição, poder, cálculo e vida afetiva. Cuidados com a diminuição dos interesses afetivos, com a distância da vida instintiva (Marte), já que há a propensão de amortecimento de impulsos vitais importantes em nome de um sistema de segurança que procura organizar e consolidar posições. Fleugma, indiferença e insensibilidade podem aparecer. O que se perde em calor, elã vital, pode ser compensado (?) pela calma, pelo autodomínio, pela constância. Nem sempre contudo será possível manter o mundo à distância. 

De outro ângulo, podemos vislumbrar dois tipos básicos em Capricórnio, o material e o imaterial. O primeiro lembra muitas dificuldades afetivas. Não podendo amar o mundo, procura dominá-lo, colocando-o a seu serviço. Busca de elevação, posições eminentes; cálculo, frieza, caráter determinado, senso político, visão de futuro, calculista. Regras, regulamentos, controle, obediência, proeminência. Nos inferiores, cinismo, insensibilidade, manipulação, desconfiança, aspereza, castração. Bom administrador, assume tudo, inclusive a vida dos outros. São os solitários nas alturas montanhosas.. O segundo tipo é despojado, procura a renuncia ao material, nada de realizações mundanas (Saint Simon); serenidade, frugalidade (Proudhon, opção pela pobreza), desprezo pela ambição temporal, a vida como protesto contra os bens do mundo. Alguns costumam separar-se, isolando-se, buscando "picos" mais altos. Nos inferiores, desprezo, isolamento, melancolia, anulação da vida instintiva, pele e osso, predomínio total das virtudes frias.

Fisicamente, em Capricórnio, temos o corpo resistente, rugas precoces (Saturno é pele e osso), problemas cutâneos, cabelos precocemente embranquecidos, reumatismos, problemas nas articulações, joelhos, artrite, osteoporose, males do frio, lesões ósseas, deformações, luxações, anciloses, paralisias, problemas com o regime do cálcio, ossos em geral, dentes, unhas (paratireoide), dermatoses etc.

Fazem parte da galeria capricorniana, pelo Sol ou pelo Ascendente,dentre outros: Cézanne, Rodin, Adenauer, Bach, Tolstoi, Gavino Leda (veja o filme Pai, Patrão),  Savanarola,  Simone Weil, André Malraux, Montesquieu,  Pablo Casals, Johann Keppler,  Simone de Beauvoir,  Richard Nixon, Schopenhauer, Molière, Anton Tchekov, Edgar Allan Poe...

Quanto à origem da constelação de Capricórnio, temos que  ir ao mito do deus Pan. Ele era filho do deus Hermes e da mortal Dríope. Rejeitado pela mãe por causa de seu aspecto monstruoso, teriomorfo, foi envolvido pelo pai numa pele de cabra e levado para o Olimpo. Os deuses se encantaram com a criança, de modo especial o deus Dioniso, de cujo cortejo ele viria mais tarde a fazer parte. Recebeu dos Imortais, pela alegria que lhes causou, o nome de Pan, pois nele viram que um filho de Hermes, deus que unia o céu, a terra e o inferno e que, no plano terrestre, dominava as quatro direções (norte, sul, leste e oeste), só poderia encarnar a totalidade universal criada. 

Seu corpo era peludo, possuindo ele no lugar de pés cascos e chifres como os de bode e orelhas pontiagudas.  Prodigiosamente ágil, perambulava pelos bosques e vales tocando a sirinx, sempre à procura de ninfas para atacá-las e com elas copular. Quando não as encontrava, masturbava-se furiosamente. Primitivamente, foi reverenciado como deus dos rebanhos e dos pastores, passando a encarnar depois o princípio da ordem universal, invocado inclusive nas litanias órficas como um princípio amoroso, criador, incorporado à matéria e formador do mundo. Neste sentido, era fonte e origem de todas as coisas, representando a matéria animada pelo espírito divino (princípio da imanência), a natureza como um todo, nele se concentrando os quatro elementos constitutivos do universo. Era dele que provinham as criaturas mistas, sátiros, silenos, egipãs, faunos etc. 

 A aparição de Pan provocava o pânico, um  terror  inexplicável,
PAN
paralisante, que se apossava das pessoas que o viam. Gostava Pan de repousar nos períodos de calor intenso, ninguém ousando perturbá-lo, ficando tudo silencioso e calmo na natureza. Aqueles que o perturbassem incorriam na sua ira; eram por ele atacados, inspirando-lhe o deus o pânico. Consta que na batalha de Maratona, atacou os persas, o que praticamente determinou a vitória dos gregos sobre os seus figadais inimigos. Em agradecimento ao deus, os gregos erigiram um templo em sua homenagem na Acrópole.

Na história de Pan, há registros que nos falam de seu amor por Selene, a Lua, e pela ninfa Eco, às quais teria oferecido, como presente, rebanhos de bois brancos. Um dos acontecimento mais importantes na crônica desse deus tem relação com Tifon, o maior dos monstros descritos pela mitologia grega. Filho de Geia e do Tártaro, era Tifon um agente do caos, uma perigosa ameaça para a ordem cósmica. Podia andar pelos mares mais profundos sem que sua cabeça fosse coberta pela água; sua estatura ultrapassava em muito os picos das maiores montanhas, indo além das nuvens mais altas; ao abrir os braços, suas mãos alcançavam com facilidade o oriente e o ocidente. Seu corpo era coberto por víboras, possuía asas e seus olhos lançam dardos de fogo.

Para escapar do ataque de Tifon ao Olimpo, os deuses gregos fugiram espavoridos, inclusive Pan, que se lançou num rio com a intenção de se transformar em peixe. Tudo aconteceu tão rapidamente que Pan ganhou apenas uma cauda pisciforme. Quando retornou de seu mergulho, soube que Zeus havia sido mutilado pelo monstro, que lhe cortara os tendões dos braços e das pernas. Em companhia do pai (Hermes), Pan conseguiu, contudo, afastar Tifon com o seu famoso grito que causava terror e fuga. Dirigindo-se depois a uma gruta, onde o Senhor do Olimpo jazia inerte, ambos, pai e filho, conseguiram reconstituí-lo, ligando os seus tendões, dando-lhe assim uma nova forma, equivalente a um segundo nascimento, que o projetou num nível superior de existência divina. Assim recomposto, Zeus, como sabemos, voltou a
MONTE   ETNA
se defrontar com Tifon, que se refugiou na ilha da Sicília. Zeus o perseguiu, a batalha foi terrível. Ao final, Zeus conseguiu vencê-lo, lançando sobre ele o monte Etna. Aprisionado, mas não morto, Tifon, até hoje, através de labaredas e gases, continua a dar sinais de sua presença, lembrando-nos que as forças do caos, ainda que dominadas momentaneamente, se constituem numa ameaça permanente. Segundo os gregos, para recompensar Pan dos inestimáveis serviços que lhe prestou, Zeus o colocou nos céus como a constelação de Capricórnio.

Pelos seus múltiplos aspectos, é de Pã, no mundo grego, que parte a ideia que vai invadir a filosofia, ideia que acabou por constituir a doutrina que tomou o nome de panteísmo. Esta doutrina, como sabemos, na filosofia grega, é de inspiração da corrente estoica, para a qual a força vital imanente ao mundo se confunde com a própria divindade. Spinoza a retomará, sintetizando-a na frase Deus sive Natura, o mesmo fazendo Hegel, que descreve a realização divina não só através da história humana como através do que
NOVALIS
chama de “dialética da natureza.” Lembremos que todo o romantismo filosófico do final do séc. XVIII e início do XIX na Alemanha (Novalis, Schlegel, Jacobi, Scheling) foi profundamente afetado por estas ideias. A teologia cristã moderna (veja inclusive a condenação de Spinoza pela sinagoga) identificou o panteísmo como um ateísmo por que ele recusava a ideia de um Deus pessoal. O panteísmo evoca a ideia de uma força impessoal presente em todo o universo e no homem, ideia que encontra a sua melhor formulação no Brahman dos hindus.


Esta identificação de Pan com o Todo, como a antiguidade no-la legou, encontra a meu ver a sua melhor explicação se considerarmos que  Capricórnio é o signo que abre o quarto quadrante  zodiacal, quadrante que nos coloca na décima casa, o
QUADRANTES   ASTROLÓGICOS
meio-do-céu, o setor astrológico que marca a possibilidade da mais elevada realização individual, o mais elevado grau de influência que podemos ter sobre o mundo material. Esta influência, para a maioria, só tomará o caminho da vida material (cabra montanhesa), para outros, uma significativa minoria, ela unirá o material e o espiritual (licorne). Para chegar a esse ponto da montanha, temos que ter vivido conscientemente os quadrantes anteriores, desde o primeiro e o segundo, onde temos os nossos talentos individuais e a contribuição familiar, passando pelo terceiro, no qual encontramos aqueles com quem nos associamos e deles recebemos ou não colaboração e recursos. A partir de Capricórnio é que o Todo, isto é, Pan, poderá se abrir para nós. No quarto quadrante, que termina pelo signo da sabedoria, Peixes, é que, conforme o aprendizado do terceiro, sobretudo, conquistaremos efetivamente a nossa liberdade, cuja característica mais marcante nesta última etapa está na liberdade de assumir deveres e responsabilidades que independem de retribuição ou reconhecimento. È no último quadrante zodiacal que podemos trabalhar com conceitos de altruísmo, fraternidade, humanitarismo.

A antiguidade grega atribuía a Pan dons proféticos, os mesmos que encontramos em outros seres telúricos, mais instintivos, que, ao invés da razão, preferem ouvir aquele “saber” espontâneo que “sabe” mais que o racional, aquele saber que percebe as verdades essenciais, as que têm importância realmente quando pensamos em vida digna. A parte “úmida” de Capricórnio (a cauda pisciforme de Pan) tem, astrologicamente, muito a ver com o lado inconsciente do signo, lado que, ao invés de causar problemas maiores, contribui positivamente, principalmente quando pensamos nos tipos superiores do signo que se transformam em servidores da humanidade. É este lado úmido que faz com que, embora possa se encontrar numa posição de poder ou de influência, o capricorniano de terceiro tipo (licorne) sabe que além dos poderes superiores, representado pelo pico das montanhas, há uma autoridade mais alta,  uma autoridade real ou simbólica diante da qual terá que se curvar, o poder das origens (Câncer), que nunca poderá ser esquecido.

O lado úmido de Capricórnio (Pan), segundo o mito, teria vindo do delfim, o peixe sempre associado a Apolo e ao oráculo de Delfos. Uma versão mitológica nos informa que os delfins são antigos piratas que, depois de terem atacado Dioniso, caíram na água e se arrependeram. Tornando-se símbolos da regeneração, estes peixes, ainda segundo o mito, ajudam os náufragos, muitos deles inclusive, para salvá-los, empurrando-os até as praias. Plutarco, o escritor e moralista, sacerdote de Apolo em Delfos, conta que o poeta e músico Arion (séc. VII aC) foi salvo dessa maneira. Os delfins eram muitos conhecidos pela sua sabedoria e prudência (virtudes capricornianas), sendo considerados, pela sua maneira de se deslocar, como mestres navegadores.