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segunda-feira, 4 de abril de 2016

SATURNO (4)

                                         




   JARDIM   DA   COAGULATIO
Na antiga Índia, as questões saturninas, principalmente as relacionadas com o tempo e os diversos aspectos da coagulatio, como as desenvolvemos no ocidente com base na mitologia greco-romana, terão que ser abordadas a partir de algumas elaborações cosmológicas, ao mesmo tempo filosóficas e religiosas, a seguir expostas. Para esta exposição, recorro às lições que nos são transmitidas por alguns textos upanishádicos. Para tanto, comecemos por algumas ideias básicas: no início, o 

universo era apenas um Ser (Sat), sem dualidade, um Ser puro, sem segundo, como está no Chandogya Upanishad. É a partir deste Ser que se coloca no vedismo e no hinduísmo que o sucede a origem dos deuses, do cosmos e dos seres humanos.

Sat é um radical indo-europeu que significa bastante, suficiente, aparecendo em grego em palavras com o sentido de saciedade (haden, saden); em latim, temos satis, satiare etc., com as mesmas ideias. Se quisermos mais, encontramos em inglês satisfy, satisfaction; em francês, satieté; em espanhol, satisfacer etc. Sat, em sânscrito, quer dizer existência pura, forma que a energia universal, o  Brahman,  tomará no seu eterno processo de aparecer, se manter sob infinitas formas, material e imaterialmente, e desaparecer. 

Para os antigos pensadores da Índia védica havia, além da existência perceptível, além das formas e das aparências, um estado causal, um contínuo não diferenciado do qual o mundo fenomênico não passava de um desenvolvimento aparente. Ao mais aparente suporte das formas perceptíveis dava-se o nome de espaço, um contínuo absoluto, sem limites, indiferenciado e indivisível. Era a localização dos corpos e o seu movimento que criava a ilusão de uma divisão que só se tornava real do ponto de vista da percepção. Por isso, todas as divisões do espaço em átomos ou em órbitas planetárias são apenas aparentes e suas dimensões só existem do ponto de vista das percepções humanas. Diziam os pensadores védicos que o interior de um átomo era tão vasto quanto o de um sistema solar.


AKHANDA  -  DANDAYAMANA
Da mesma maneira, o substrato do tempo era chamado por eles de akhanda-dandayamana, que podemos traduzir como “semelhante a um bastão indivisível ou contínuo”. O tempo absoluto era uma eternidade sempre presente, inseparável do espaço. As formas relativas do tempo são o resultado da divisão aparente do espaço pelo ritmo dos corpos celestes. Para que um lugar, uma localização ou uma dimensão possam existir é preciso que algo seja neles colocado, um corpo, uma forma qualquer. O não existente não pode ter lugar ou medida. Daí, a constatação de que a existência sempre precede o espaço. O tempo só existe em função de uma percepção. Um tempo não percebido não pode ter duração nem ser medido. O princípio da percepção precede o tempo. É por isso que os pensadores védicos diziam que o princípio de tudo é a experiência e que nada pode ser afirmado sem ela (compare esta afirmação com a de Sartre, a de que a existência antecede a essência).

Uma forma material ou não qualquer que apareça na imensidão indeterminada universal, um movimento, uma vaga, um turbilhão, uma lesma, um sorriso, uma dor,  um ser qualquer, uma estrela, uma emoção, um afeto, uma divindade, uma civilização, é criada simultaneamente uma aparência de polarização, de localização, de ritmo, de gênero. A esta força criadora eles davam o nome de Maya, a Ilusão, a fonte misteriosa e criadora de tudo o que existe. Esta força criadora é tanto origem do cosmos como da consciência que a percebe. Ambos são interdependentes. A manifestação existe só em função de uma percepção. 


YAMA

Os hindus criaram um deus para descrever estas relações entre a consciência que percebe e as formas criadas. Deram-lhe o nome de Yama, palavra que quer dizer “aquele que constrange, que traz obstáculos”. É este deus que controla os seres humanos, que decide inclusive quais as ações dos humanos que geram frutos, consequências, efeitos, e as que não. Como se poderá constatar, Yama apresenta muitos traços do Cronos e do Hades gregos, semelhança esta extensiva ao seu reino.

Neste sentido, Yama simboliza a punição (danda), a lei imutável sobre a qual repousa o universo, a lei da causa e do seu efeito. É o juiz que encadeia e pune. Recebe também os nomes de Mrityu (Morte) e de Antaka (Fim). Outros nomes seus, muito comuns,  são Kritanka (Finalizador), Shamana (Regente), Dandin ou Dandahara (O Portador da Férula), Bhima-Shasana (O Dos Decretos Terríveis). Yama vem com um laço ou nó (pashin, pasha). É neste sentido a divindade que preside as cerimônias fúnebres. Um dos grandes códigos morais da Índia védica tem o nome de Dharma-shastra, nele se fazendo referência aos laços ou nós, como grande força mágica. Na medida em que laços e nós representam uma parada, eles são obstáculos, constrangimentos, indicando delimitação, bloqueio, fixação. Não ter nós é ser livre e sem entraves.

Alargando mais o seu campo de ação, Yama  é conhecido também como aquele que provoca retenções, que controla e que refreia. No
YOGA   CLÁSSICO 
Yoga clássico (darshana, escola filosófica) são enumeradas cinco interdições, na realidade cinco disciplinas negativas, que têm relação com ele: não fazer mal aos outros, não mentir, não roubar, não praticar a luxúria, não viver de esmolas (não viver “encostado” nos outros). Roubar, por exemplo, segundo esta ética, não significa tão só a apropriação indevida de um bem material de alguém. Ao invadir o espaço sonoro de alguém, ao obter lucros exagerados estamos, estamos roubando... 

Yama é o filho da Lei ancestral (Vivasvat), representado como uma emanação solar. Sua mãe é Saranyu (Nuvem). Yama tem como irmão Manu (Legislador), que partilha com ele o privilégio de ter
ASHVINS
criado o ser humano. Yama mantém relações muito próximas com os Ashvins (gêmeos divinos, equivalentes aos Dioscuros gregos e ao signo astrológico de Gêmeos), filhos de Vivasvat e de Samjna (Conhecimento Intuitivo). Yama tem uma irmã gêmea, Yami, que o ama com paixão, mas nem sempre ambos se usem. Yama desposou também, sucessivamente, as dez filhas de Daksha (Arte Ritual), que simbolizam as energias produzidas pelos sacrifícios. Uma delas, por exemplo, é Dhumorna (Mortalha de Fumaça), outra é Sushila (Boa Conduta) etc.




MANU   E   MATSYA, O PEIXE   ( 1º AVATAR   DE   VISHNU )



Muito próximo dos humanos é Manu, acima mencionado. A palavra vem da raiz sânscrita man, pensar. Manu em sânscrito adquire o sentido de ser humano, o primeiro homem, pai da raça humana de cada idade do universo, ou manwantara (manu-antara). Manu é conhecido como o autor do código jurídico Manu-Smirit.  


O aspecto de Yama é terrível e sinistro, seu corpo é disforme e feio, sua tez é escura, esverdeada, seus olhos vermelhos, brilhantes. Suas roupas são escuras, avermelhadas. No alto da cabeça, ostenta uma coroa resplandecente. Suas mãos tem a forma de garras. Leva consigo normalmente um laço, um bastão, um machado, uma espada e um punhal. Cavalga sempre um búfalo negro, chamado Terrível. Sob o aspecto do Tempo (Kala), aparece como um velho, com um escudo e uma espada. Em algumas descrições, é percebido como um homem vestido de amarelo, cabelos presos; sua aparência inspira sempre, porém, algum temor.

Pelos virtuosos ele é visto como muito semelhante a Vishnu. Tem quatro braços, pele escura, e carrega como emblemas a concha, o disco, uma clava e uma flor de lótus. Sua montaria (vahna) é o Verbo Alado Garuda. Seu cordão sagrado é de ouro, seu rosto é amável, usa brincos e uma guirlanda de flores dos campos na cabeça. Garuda é a grande ave mítica, metade homem, metade abutre, às vezes águia, grande inimiga das serpentes (nagas) que mantinham sua mãe (Vinata) prisioneira. Para libertá-la, Garuda roubou a bebida da imortalidade (amrita).



VISHNU   E   GARUDA

Yama reside no sul, nos confins da Terra, no mundo subterrâneo, vivendo sempre na obscuridade. Sua cidade tem quatro portas e sete arcos, sendo atravessada por dois rios, Pushpodaka (Rio das Flores) e Vaivasvati (Rio da Lei). Kalaci, a sala do destino, é o nome do lugar em que julga os mortos. A sua cidade é conhecida como Samyamini, a Cidade dos Liames. Seu escriba é Citra-Gupta (O Que Guarda Segredos Múltiplos). Seus ministros chamam-se Canda (Cólera) e Mahacanda (Furor). Dentre as suas esposas, as preferidas são Vijaya (Vitória) e Dhumorna (Mortalha de Fumaça). 

Os mensageiros de Yama,  que vão buscar os que devem morrer, usam roupas negras. Seus pés, seus olhos e seu nariz assemelham-se muito aos do corvo. O cocheiro de Yama chama-se Roga (Moléstia). Acompanha sempre Yama uma multidão de demônios, que representam as doenças que atacam os humanos. Na corte de Yama podem ser encontrados sempre, prestando-lhe homenagens, com o título de Rei dos Ancestrais, muitos sábios e reis. Muitos músicos e dançarinos distraem os visitantes. Na porta da sala do julgamento, encontra-se, eternamente ali postado, um sentinela, chamado Vaidhyata (Legalidade). Yama possui dois cães, com quatro olhos cada um, com a função de guardar o vale dos mortos.

Quando as almas se separam dos corpos dos mortais, os mensageiros as conduzem ao reino de Yama, onde chegam sozinhas, sem acompanhamento da família ou de amigos. Nada mais que as almas e os seus atos, que as seguem. O escriba Guardador  De Segredos Múltiplos (muito parecido com o Toth dos egípcios, na psicostasia) registra tudo num livro, chamado Coleção do Passado. Julgadas, as almas se apresentam diante de Yama, que toma, conforme o resultado do julgamento, um aspecto terrível ou benevolente. Os culpados tomarão o caminho de um portão de ferro vermelho e atravessarão o rio Vaitarani (Rio do Abandono), fétido e fervente, cheio de cabelos e ossos, no qual nadam monstros horríveis. Vaitarani, muito impetuoso, é, por excelência, o rio infernal, como o Aqueronte dos gregos. 

Citra-Gupta (O Guardador De Segredos Múltiplos) tem nove apelidos: Bhata (Panegerista), Nagara (Cidadão), Dependente (Senaka), Gauda (Pouco Claro), Shri-Vatstavya (Servidor da Beleza), Mathura (Jogador), Ahishthana (O Que Cavalga Serpentes), Shakasena (Escravo Tártaro), Ambashtha (Aguadeiro).


TRINDADE  HINDUÍSTA  ( TRIMURTI )

Na trindade hinduísta, Vishnu, o Imanente, a segunda pessoa, governa tendência coesiva ou centrípeta. Tudo que no universo tende a um centro , tende a um mais elevado grau de concentração, de coesão de existência, de realidade, é representado por Vishnu. Já Shiva, a terceira pessoa, rege o princípio contrário, centrífugo, representando a dispersão, o que tende à aniquilação, à dissolução, à não-existência.

A tendência centrípeta, que Vishnu representa, é a causa de toda a concentração, seja da luz, da matéria ou da própria vida. Esta tendência penetra todas as coisas, está em todas elas, é a natureza imanente de tudo. A palavra Vishnu parece provir da raiz vish (penetrar). Enquanto coesão interior pela qual tudo existe, Vishnu reside em todas as coisas, possui tudo. Vishnu é assim a causa interna, o poder pelo qual as coisas existem. Ele, a rigor, nada tem a ver com a forma exterior, que é da órbita de Brahma, primeira pessoa da trindade hinduísta como princípio criador. Vishnu nos revela que não há estado existencial que não dependa da destruição e ao mesmo tempo da duração. Vida e morte interdependentes, pois, Vishnu e Shiva. Enquanto este último é a destruição, Vishnu é o princípio da continuidade, símbolo da perpetuação da vida. Ele é o poder que mantém o universo coeso. É o fim ao qual tendem todos os seres, que dependem do tempo. Ele é ao mesmo tempo a esperança de tudo o que quer permanecer e durar, que Saturno tão bem representa para nós, e de tudo o que deve morrer, que Saturno também representa. 

Cada religião compreende uma teologia e uma ética. A primeira procura definir os princípios que regem a

existência e o destino do nosso eu sutil. A ética propõe regras de ação que levem o ser humano em sua viagem para a luz. Ambas, no Hinduísmo, desde as primeiras formulações do Vedismo, têm a ver com Vishnu.    

NARAYANA
Segundo o aspecto considerado, vários são os nomes de Vishnu. Hari, o que enleva, é um deles. Narayana, o que repousa sobre as águas ou a casa do homem são outros.  Narayana quer dizer aquele que foi (ayana) viver entre os mortais, nome dado a Vishnu enquanto atman (alma), é aquele que veio se instalar no âmago de cada ser humano. 

Quando Vishnu dorme, o Universo se dissolve, caminhando para o estado informal, representado pelo grande oceano causal. Os restos da manifestação, voltados para si mesmos, são representados pela grande serpente Sesha (Vestígios) que flutua sobre o abismo das águas. É sobre esta serpente que Vishnu repousa. Esta serpente é também chamada de Sesha ou Ananta (A Infinita, a que não tem fim), símbolo da eternidade. Ao final de cada idade (kalpa) ela vomita um fogo venenoso que destrói toda a criação. Sesha é tanto o soberano das serpentes como o das regiões infernais que têm o
NAGA
nome Patala, nas quais vivem as Nagas (Serpentes), Daityas (Demônios), Danavas (Gigantes inimigos dos deuses), Yakshas (assistentes de Kubera, deus das riquezas, no que lembram os Curetes e os Cíclopes com relação a Hefesto entre os gregos; são, no geral, inofensivos, recebendo por isso o apelido de punya-janas, boa gente,  e outras entidades infernais.  

Vishnu é a causa interna, o poder pelo qual as coisas existem. Por isso, não há estado de existência que não dependa da duração e da destruição. Ou, de outro modo, não há vida sem morte. É neste sentido que o Hinduísmo considera Vishnu e Shiva interdependentes. Enquanto este último é o princípio destruidor, Vishnu é o princípio da continuação e, como tal, pode ser considerado como símbolo da perpetuidade da vida. É ele o poder que mantém o universo coeso, reunido, continuamente.  


VISHNU   E   SHIVA

Tudo que teve um começo deve necessariamente ter um fim. Tudo o que existe está se dirigindo infalivelmente para a desintegração. O poder de destruição é a via que leva à cessação da existência, à não-existência, à imensidão indescritível à qual tudo retorna, na qual tudo se dissolve, o Brahman, que não é masculino nem feminino. Este poder universal destrutivo pelo qual tudo é levado à inapelável dissolução, à indeterminação, é chamado Shiva. Esta dispersão na insubstancialidade marca o fim de toda a diferenciação e do espaço e do tempo.

Nada escapa deste processo. Mas é desta desintegração que o universo renasce continuamente. É por esta razão que a causa última é também a causa primeira da existência. Sob esse ponto de vista, Shiva é o fim e o começo de toda a existência. Para o nosso entendimento é por isso descrito pelos Upanishads como um abismo sem fundo. Dizem os textos: Além desta obscuridade, não há dia nem noite, nem existente nem não-existente, mas somente Shiva, o indestrutível. Shiva tem mais de mil nomes, epítetos descritivos: Tryambaka (O De Três Olhos), Candra-Shekhara (Coroado pela Lua), Girisha (Senhor das Montanhas), Kapala-Malin (O Que Usa Um Colar de Cabeças) etc.

Do ponto de vista individual, a destruição se manifesta sempre por estágios sucessivos. Num primeiro momento, Shiva atua em todos os estágios, até o final, a morte, que traz a destruição do corpo físico. Num segundo momento, Shiva atua na dissolução da individualidade sutil. No primeiro caso, temos o fim da existência aparente. No segundo, a liberação dos liames sutis. Dois aspectos, pois, de Shiva, um terrível e outro desejável, um imediato e outro transcendente.

Shiva, enquanto destruidor, identifica-se com o tempo, Kala, o que existia antes que qualquer coisa existisse. No pensamento védico, estabeleciam-se duas espécies de tempo, o absoluto e o relativo, este último o percebido pelos seres humanos.  Um era o Maha-Kala, o Grande-Tempo, uma eternidade sempre presente, indivisível e sem medida. Este tempo era comparado a um bastão indiviso e contínuo. As divisões do tempo relativo que o homem percebe não passam de divisões aparentes do Grande-Tempo provocadas pelo movimento dos astros. O tempo relativo é percebido de modo diferente por diferentes espécies de seres. Os planetas, cujo movimento determina os ritmos do tempo relativo, são considerados como os agentes da lei cósmica que rege o destino humano e, vistos sob este ângulo, são reverenciados como deuses. Assim, na medida em que submetido aos ritmos planetários, permanece o homem fechado no mundo da existência relativa. É somente quando o ritmo do tempo relativo deixa de ser percebido ou de condicioná-lo, dizem os hindus, que o homem pode repousar no Tempo absoluto.

LINGAM   E   YONE
Shiva, como todas as divindades hinduístas, pode aparecer antropomorfizado ou através de símbolos diversos, de yantras (diagramas geométricos) ou de mantras (fórmulas mágicas). Seu símbolo mais comum é o lingam (órgão fálico) sempre inserido num yone (órgão sexual feminino). 

Um dos símbolos mais usados por Shiva é o tridente (trishula ou trikala), que representa as três tendências naturais da natureza

(gunas), a função criadora (rajas), a mantenedora (tamas) e a destruidora (sattva). No microcosmo, o tridente corresponde às três artérias (nadis) sutis do corpo humano, Ida (lunar), Pingala (solar) e Sushumna (central). Com o tridente nas mãos, montado no touro Nandi (Alegre), Shiva se mostra como o destruidor da matéria. O tridente toma então o nome de Trikala (Três Tempos). Ao dissolver a matéria, simbolizada pelo touro, Shiva põe tudo em comum, elimina as divisões do tempo relativo, gerando a confusão dos elementos formadores dos corpos. 

  
NANDI
Nandi, o touro, montaria (vahana) de Shiva, é branco como a neve, maciço, de olhos doces, e é chamado também de Vrishabha (nome do signo astrológico de Touro). Shiva é, neste sentido, mestre da vida instintiva, pois cavalga o touro. Ao olhar com o seu terceiro olho Madana (O Sedutor do Pensamento), o deus Kama (Eros), que vem perturbar sua meditação, Shiva o reduz a cinzas. Shiva é, assim, o mestre do touro, tomando o nome de Nandikeshvara (O Senhor da Alegria). 

Em sânscrito, planeta é graha, palavra que tem o sentido de capturador. Assim, para a astrologia védica (Jyotish) planetas capturam, se apossam com as suas emanações do ser humano, inclinando-o a agir nesta o naquela direção, levando-o a realizar ações que muitas vezes nada têm a ver com o seu dharma pessoal. São os grahas, como tal, para os hindus, agentes da lei do Karma. 

A astrologia hindu não usa os planetas que estão além de Saturno, que é, para eles, o limite do sistema solar. Shani é o nome de
SHANI
Saturno em sânscrito, palavra que também significa o que se move lentamente (Sanichara). De Shani sai a palavra shun, que significa ignorar, perder o conhecimento de alguma coisa. É nesse sentido que Shani significa que quanto mais descemos na escala da matéria, do homem ao mineral, menos conhecimento, menos sensibilidade temos. No sentido contrário, Shani significa ascetismo, conquista da espiritualidade e abandono dos planos materiais da existência. No primeiro caso, Shani governa o signo de Makara (Capricórnio) e no segundo o de Kumbha (Aquário). No primeiro caso, é simbolizado pelo Crocodilo e, no segundo, pelo Jarro.  

Em Jyotish, astrologia védica, Shani é karaka (significador) de longevidade, miséria, sofrimento, velhice, morte, disciplina, restrição, responsabilidade, atraso, ambição, liderança, autoridade, humilhação, integridade, sabedoria nascida da experiência, desapego, espiritualidade, organização, estruturação, realismo, trabalhos penosos e cansativos, lugares ermos e solitários, e, naturalmente, do tempo. A natureza de Shani é vata, aérea. Shani é poderoso na sétima casa (rasi) e nos ângulos (kendra). É particularmente benéfico no signo de Touro e no ascendente libriano (exaltação). A pedra de Shani é a safira azul; são dele também todas as pedras escuras e seu metal é o chumbo.

SURYA
Na mitologia védica, o Sol (Surya) teve quatro filhos: Samjña (Conhecimento), Rajni (Soberania), Prabha (Luz) e Chaya (Sombra). Esta última teve três filhos, Savarni (Legislador), Revanta (O Móvel) e Shani (Saturno). O esplendor do Sol era tão intenso que Samjña não conseguiu suportá-lo por muito tempo. Ela deixou então Chaya com o Sol e se retirou para uma floresta para se consagrar à religião. 

Shani incorporou o planeta Saturno, sendo representado nessa condição como um homem negro vestido de negro. Usa uma espada, carrega flechas, punhais e vem montado num abutre, sua montaria (vahana). É também conhecido como Ara, Kona e Kroda e pelo patronímico Saura. Por causa de sua influência é também conhecido como Kruradris, Kruralochana, o de maus olhos. Outros nomes: Manda (lento), Pangu (manco, pouco convincente), Asita (escuro), Saptarchi (o de sete raios) e Sanaischara (o muito lento).


SHANI   DEVA
Shani Deva é o senhor do sábado. As ideias de lentidão que o cercam devem-se ao fato de ele levar perto de 30 anos para fazer a sua revolução em torno do Sol. É o irmão mais velho de Yama, deus da morte, o justiceiro em algumas escrituras. Uma das funções de Shani é a de recompensar ou punir os humanos conforme as suas ações enquanto viverem. Yama faz o mesmo, só que depois da morte.

Várias histórias nos revelam que quando Shani nasceu e abriu os seus olhos pela primeira vez houve um eclipse solar, o que bastaria, por exemplo, para nos dar uma ideia da sua importância numa carta natal. Ele sempre foi conhecido como um grande mestre, sendo implacável com os que trilham o caminho do mal, principalmente com os traidores, os falsos e os injustos. Como protetor das propriedades, ele reprime a ação dos pássaros que roubam alimentos, destroem plantações etc. 

Havia apenas uma divindade no panteão védico que podia fazer alguma coisa para atenuar os males que o deus Shani costuma causar, Hanuman, o deus macaco, filho de Vayu sob o nome de Pavana, deus dos ventos, e de uma mona chamada Kesari. Era capaz de voar, tendo descoberto este poder quando, na infância, pensou que o Sol nascente fosse uma fruta. De um salto, lançou-se nas alturas para tentar colhê-la. Seu nome provém de um acidente de que foi vítima, provocado pelo deus Indra, que tentou atingi-lo a flechadas. Hanuman caiu sobre uma enorme pedra e rompeu a mandíbula, ficando desde então com essa parte de rosto deformada. O nome Hanuman quer dizer o de rosto grande (bochechudo).

Ao inteirar-se do que aconteceu, o pai de Hanuman ficou furioso; decidiu que as brisas não mais soprariam. Os deuses, atemorizados, foram apaziguá-lo. Brahma prometeu que Hanuman poderia entrar em qualquer batalha que nunca morreria; Indra, por seu lado, afirmou que seus raios nunca poderiam lhe fazer mal.

Hanuman prestou inestimáveis serviços a Rama, sétimo avatar de
HANUMAM   E   SITA
Vishnu. Foi ele quem descobriu a morada de Sita e incendiou Lanka (Ceilão), causando grande terror aos seres do mal (rakshasas) que ali viviam. Além disso, foi ele quem transportou Rama em seus ombros quando foram da Índia a Lanka. São inúmeros os poderes de Hanuman; dentre eles se destaca a sua grande mobilidade. Quando Rama e seu irmão foram feridos na batalha e nada podia reanimá-los, foi Hanuman quem se dirigiu do Ceilão ao Himalaia para conseguir as ervas maravilhosas que os reanimou. 

Além disso, Hanuman possui grande saber, particularmente a ciência dos astros. Ninguém o igualava no conhecimento dos shastras e em decifrar o sentido das escrituras sagradas. Em todas as regras referentes às austeridades compete sempre, em condições de igualdade, com o preceptor dos deuses (Brihaspathi, o planeta Júpiter). Astrologicamente, esta competição é representada pelo eixo Gêmeos (Mithuna)-Sagitário (Dhanus). Muito reverenciado, Hanuman é representado pelos macacos encontrados em toda a Índia, nos templos, nas ruas, nos mercados e feiras, sendo visto como um ato meritório a sua alimentação e um sacrilégio molestá-los.


Na grande epopeia Ramayana há uma passagem que nos conta que Shani foi salvo por Hanuman das garras de Ravana, demônio, rei do Ceilão, meio-irmão de Kubera, deus do inferno. Reconhecido e agradecido, Shani prometeu que aqueles que dirigissem preces a Hanuman aos sábados seriam aliviados dos maléficos efeitos que ele, Shani, porventura causasse. 

Lembro que entre os antigos egípcios, o babuíno era uma encarnação do deus Toth como deus lunar, patrono dos letrados. Símbolo tanto da sabedoria como do conhecimento, Toth era o
HANUMAM  E  RAMA
escriba dos deuses, da palavra do deus criador Ptah e da sentença da psicostasia no tribunal presidido pelo deus Osíris.  Na Índia, Hanuman era sobretudo reverenciado pelo seu saber, por sua agilidade, por sua rapidez,  por sua força física e por sua fidelidade com relação a Rama. É de se registrar ainda que o macaco, em alguns antigos calendários, como o chinês, aparece como símbolo do nono signo zodiacal,  associado à engenhosidade, ao otimismo, à diplomacia, à perseverança e ao gosto pela especulação. Entre os antigos astecas, o macaco era lembrado como um símbolo da alegria, do divertimento e da insolência. 


KALI
Como mencionado em alguns textos (Brahmanda Purana), há determinadas preces e mantras que podem livrar o crente de todos os malefícios de Shani. Quanto à sua ação neste sentido, há que se temer, tomando-se como ponto de partida o signo lunar, o seu trânsito pela primeira, segunda, oitava e décima segunda casas astrológicas. Segundo a astrologia védica, a fim de se obter proteção com relação ao acima disposto, podemos reverenciar a Grande-Mãe Kali durante a Lua nova; reverenciar Vishnu na forma de Krishna e reverenciar também o deus Hanuman.

Shani é muito temido na Índia por aqueles que procuram orientação na astrologia. Os hindus entendem que qualquer prazer ou dor que possam atingir uma pessoa por influência de Shani não podem eles ser considerados como uma arbitrariedade. Eles devem ser considerados antes como o resultado de um karma pessoal, agora manifesto no lugar da carta astrológica em que Shani estiver. Assim, um desfavorável Shani traz resultados kármicos negativos. Por exemplo, os males físicos que Shani provoca são degradação corporal, envelhecimento precoce, problemas circulatórios, atrofias, artroses etc. Mentalmente, Shani provoca depressão, estreitamento mental (tradicionalismo, conservadorismo etc.). Positivamente, Shani é paciência, erudição, seriedade, constância. Suas grandes virtudes são frias, como as entendemos também no ocidente.

Shani é considerado na Índia o mais “difícil” dos planetas, já que tem a ver com os infortúnios, o desemparo, a solidão e o luto. Quando agraciado no mapa, pode levar às alturas, mas, debilitado, pode produzir a ruína. Todos os deuses o temem porque, como Senhor do Tempo, já destruiu inúmeras divindades tão grandes quanto Indra. É o senhor dos nervos e das fibras, da direção oeste, do sábado como dia da semana. Dentre seus apelidos (alguns já mencionados), temos: o Lento, o Filho da Sombra, o Angular, o Negro, o Que não Tem Fim, o Que Termina Com Tudo, o Fixo, o Controlador, o Faminto etc.

Diz-se que tão logo que nasceu, Shani olhou o pai, o Sol, e ele se encheu de vitiligo. Este acontecimento mítico talvez seja uma contribuição dos antigos astrólogos dos tempos védicos para o fenômeno das manchas solares. Há, de fato, uma certa semelhança entre o vitiligo, afecção cutânea caracteriza por perda de pigmentação (hipocromia); é, como tal, uma leucopatia adquirida, às vezes denominada impingem, erupção na pele, nome genérico de várias dermatoses.     

A etiologia do vitiligo, lembro, ainda não é conhecida pela Medicina. Contudo, há indícios de que a doença costuma se manifestar em casos de insegurança, de  estresse emocional, de ansiedade e, ao que parece, de modo especial, por sentimentos de culpa ou remorso. Patologicamente, o vitiligo se caracteriza pela redução do número ou função dos melanócitos, células localizadas na epiderme responsáveis pela produção do pigmento cutâneo, a melanina. 

Sob o ponto de vista astrológico, ainda com relação ao vitiligo, é que ele costuma aparecer em associações desarmônicas entre os planetas Saturno (pele) e Vênus (epiderme), ambos relacionados com problemas de pele. Os locais atingidos podem ficar extremamente sensíveis ao Sol, neles podendo ocorrer graves queimaduras no caso de exposições prolongadas.






sábado, 9 de junho de 2012

MITOLOGIAS DO CÉU - A LUA (5)


SURYA

AGNI



Quando nos aproximamos hoje da literatura sagrada indiana, tanto em sânscrito como nas línguas modernas, como da sua arte em geral, ficamos espantados com o número de referências à Lua, com o grande número de imagens lunares. Sabemos contudo que nos primeiros tempos da civilização hinduísta, no chamado mundo védico, o da supremacia dos cultos solares, não havia nada disso. Os cultos solares, ligados ao fogo (Surya, Indra e Agni), sempre se impuseram, não admitindo concorrência.                                                    


ARIES
As primeiras tribos indo-arianas que chegaram à região do Indus por volta de 2000 aC, como as que se fixaram também na Pérsia, tinham o fogo como elemento central da sua religião. Iniciava-se então a era astrológica de Áries (1662 aC-498 dC), como já se disse. O Sol, sob os nomes de Surya, Savitar e outros, sempre teve um lugar de suprema importância no mundo védico, nenhuma referência se fazendo ao astro lunar; não havia deuses lunares. Nos cultos domésticos, naqueles antigos tempos, também nenhuma referência à Lua. Tudo se concentrava nas oblações ao fogo (agnihotra), ao deus Agni.

TANTRA
No decorrer dos séculos, porém, aos poucos, o princípio feminino, no eterno jogo das polaridades, começou a voltar para ocupar o seu lugar no mundo védico. Esse princípio feminino vai estabelecer as bases daquilo que mais tarde se denominaria tantrismo, sendo uma de suas concepções essenciais, a essencial talvez, a de que o homem tem que ascender através do mundo natural, feminino, e não rejeitá-lo em nome do céu, como o fizeram as três religiões monoteístas patriarcais, judaísmo, cristianismo e islamismo. As Grandes-Mães começaram a voltar, o seu simbolismo, como forças vitais universais.

O culto da shakti, da deusa, da energia feminina, lembro, passou a ocupar um papel de grande importância no Hinduísmo, contrastando bastante com a ênfase patriarcal da tradição védica, profundamente indo-ariana. Esse culto, que toma o nome de Tantra, tem certamente raízes no mundo religioso dos povos subjugados pelas tribos indo-arianas. Tantra quer dizer regra, ritual, tecido, na língua sânscrita. 

As primeiras representações que temos de uma divindade lunar nos mostram um jovem guerreiro montado num antílope; nas mãos ele carrega uma lebre ou uma estampa do animal. Às vezes, vem num carro de três rodas, puxado por “cavalos brancos como as flores do jasmim”, registram os mais antigos textos. Como divindade, o deus lunar ocupava uma posição subalterna no panteão hinduísta. Essa divindade não tinha nome: era chamada simplesmente em sânscrito pelo nome de Chandra, substantivo masculino, ao qual se acrescentou a palavra mas, que traduz uma ideia de medida, de mês, Chandra-mas. Seus outros nomes, menos importantes que o citado, eram também masculinos, Soma (ambrosia) e Indu (gota).

CHANDRA
                                                      
SHIVA

KRISHNA
Embora sendo uma divindade menos importante que as solares, a mitologia que se elabora em torno de Chandra-mas deu origem a muitas histórias, recolhidas pelos Puranas. Muitas delas têm relação com a astrologia, sendo bastante difundidas entre os devotos de Krishna e de Shiva. Numa dessas histórias, por exemplo, se narra a origem mítica da dinastia lunar, tronco familiar de Krishna, avatar de Vishnu; noutras, contam-se lendas sobre o desaparecimento mensal do astro, seus eclipses.
              

BRAHMA
O nascimento da Lua como divindade, chamada Soma, é contado num texto purânico (Harivansa). Atribui-se a paternidade de Chandra-mas ou Soma  a um divino rishi (profeta), de nome Atri. As energias geradas pelo corpo de Atri, que se submeteu a severas penitências, foram para o céu, tomaram forma. Brahma, o pai de todas as coisas, aceitou esta forma e a instalou definitivamente no espaço celeste.
Fixada numa órbita, a Lua começou a circular pelos céus para “o bem de todos os seres, como fonte de fecundidade.” Ela passou a reinar sobre o mundo vegetal. Brahma lhe deu total soberania sobre as sementes, as plantas e as águas. A Lua, como Soma, tornou-se então semente e alimento para os humanos e para os animais. Brahma, o deus criador, lhe deu poderes de multiplicação, para que ela pudesse inclusive reproduzir-se a partir de si mesma (cissiparidade, metástases etc.).

TEXTOS PURÂNICOS
Outros textos purânicos nos descrevem os ciclos lunares, neles se considerando o minguante como uma verdadeira doença, devido, aliás, a uma maldição que o próprio comportamento do deus gerou. Esta história é uma ilustração de fatos astronômicos, como fácil é de se ver.

O Deus-Lua tinha vinte e sete esposas de grande beleza, todas a ele submetidas. Dentre elas, porém, havia uma, chamada Rohini, que, por ser muito espirituosa e coquete, era a favorita. Seduzido por ela, o Deus-Lua, certa vez, não desejou mais visitar as suas outras esposas. Preso a Rohini, não se decidia. Não podendo suportar por mais tempo a ausência do amado marido, as outras esposas reclamaram ao pai Daksha (competente, inteligente, hábil), que, tomado de cólera diante do procedimento do Deus-Lua, o amaldiçoou. A Lua foi atacada assim por um definhamento progressivo. Emagrecendo dia a dia, o Deus-Lua só resolveu ir a Shiva quando já estava reduzido à metade. A grande divindade, compadecida, não só o curou como lhe deu um lugar sobre a sua própria cabeça.

Retomando o seu antigo aspecto, liberto de sua angústia, o Deus-Lua instalou-se na fronte de Shiva, que, por essa razão, passou a ser chamado de “aquele que tem a Lua como diadema”. Os textos purânicos nos dizem, entretanto, que a solução encontrada por Krishna não foi definitiva. As esposas insistiram no sentido de que o Deus-Lua abandonasse a fronte de Shiva e retomasse as suas funções maritais. Um acordo é então estabelecido: a cada mês, por uma quinzena, o Deus-Lua suportará a maldição de Daksha e na quinzena seguinte, pela benevolência de Shiva, retomará a sua plenitude.

As vinte e sete esposas do Deus-Lua são obviamente as constelações que a Lua visita na sua caminhada mensal, tendo relação direta com a fixação do calendário indiano. Pode-se dizer que não há cerimônia religiosa que não faça referência às fases lunares, o que torna o tempo litúrgico hindu totalmente lunar. Tudo isto veio adquirindo tamanho relevo que as grandes datas religiosas, antes dependentes do Sol, festas solsticiais e equinociais, por exemplo,  perderam sua importância. Isto explica porque a festa do início do ano no calendário religioso hinduísta é uma festa móvel.


DURGA PUJA
SHIVARATRI
      Concretamente, isto significou que a data de qualquer cerimônia passou a ser fixada conforme a presença da Lua nesta ou naquela constelação, conforme uma fase ou outra. As grandes celebrações como Navratri (Grande-Mãe), Durga Puja, Kali Puja, Diwali, Holi, Dassera, o nascimento e a grande noite de Shiva são todas festas móveis, calculadas pelo calendário lunar.  Esta última festa mencionada, Shivaratri (A Noite de Shiva), cai numa noite sem Lua, em fevereiro ou março, data em que a grande divindade realizou o seu tandava, a dança que simboliza o aparecimento das três dinâmicas universais. Em praticamente todos os festivais temos referências à Lua e/ou às grandes deusas.



ANANDA TANDAVA

 Diariamente, em algum lugar da Índia, há um festival. Com um panteão enorme, com milhares de divindades, santos, profetas e gurus e além de não haver contradição entre o sacro e o secular, os festivais são numerosíssimos ainda hoje, apesar de toda a modernização do país. Além de importantes eventos sociais e artísticos, esses festivais põem em relevo um grande número de cultos e de sub-cultos, jogando com um rico substrato de  lendas e eventos históricos. Por quanto tempo mais?


Ao lado deste contexto, das ocasiões solenes, há um grande número de ritos e de observâncias que são ritmados pelo tempo lunar. Muito difundida, por exemplo, em toda a Índia a prática de penitências durante a Lua nova com o objetivo de ser buscada uma proteção. Isto se deve à crença de que nas noites sem Lua nós ficamos desprotegidos. Assim como o Sol é o protetor diurno, a Lua é a protetora noturna. Nas noites sem Lua, conforme o quarto  Veda (Atharva) nos diz, o ser humano pode ficar sem defesa diante dos demônios. Muitos rituais domésticos explicam como essa proteção pode ser conseguida.


Todas as fases da Lua são sagradas. O plenilúnio, a mais benéfica delas, é o tempo ideal para se fazer um sacrifício a Ishvara, o deus pessoal. Jejuns, por exemplo, são realizados a partir do quarto dia do minguante. O jejum é realizado por quatro dias, podendo o crente se alimentar frugalmente apenas à noite (uma refeição), depois de ter tomado banho e de ter recitado preces à Lua e ao deus Ganesha, que preside este vrata (austeridade piedosa, prática religiosa, voto).
 
Observâncias como estas são muitas e demonstram o importante papel que a Lua desempenha na vida religiosa do hinduísta, desde os tempos védicos. Depois que o vedismo deu lugar ao Hinduísmo de um modo mais definido, as festas religiosas continuaram a utilizar as fases lunares para as cerimônias e ritos, privilegiando a Lua nova e a Lua cheia. As shraddhas, cerimônias de reafirmação da fé pessoal (“somos a nossa shraddha, dizem os hindus) têm por objetivo dar mais força ao hindu para que ele viva a sua fé mais corretamente, segundo o seu dharma. Estas cerimônias são sempre realizadas na Lua nova ou na quinzena sombria de cada mês. A escolha destas datas não é arbitrária. Para o hindu, a Lua nova é um período perigoso, demônios e almas penadas andam à solta. É também por esta razão que oferendas são feitas aos manes. Os ancestrais, quando apaziguados pela shraddha, dão vida longa, sabedoria, saúde, ajudando na libertação final (moksha). Os sacrifícios feitos em cada noite da quinzena sombria são propícios para a obtenção de um tipo de benefício. Na primeira noite, temos a obtenção da saúde; na segunda noite, prole masculina; na terceira noite, realização das expectativas etc.

O Hinduísmo sempre estabeleceu uma forte ligação entre a Lua e os ancestrais. Ela constitui, às vezes, a sua residência temporária e eles se transformam em “alimento”. Esse alimento é o soma, néctar que dá a imortalidade, isto é, a própria Lua. Antigos textos religiosos (Brihad Aranyaka Upanishad) nos dizem que há três destinos possíveis para os homens depois da morte: a) o dos iniciados, ou seja, aqueles que conquistaram com a sua morte o Sol e por ele o Brahman, lugar de onde não se volta; b) o do ímpio, o daquele que depois de morrer renasce logo, voltando numa forma lamentável; c) o do homem virtuoso e piedoso, que se encaminha para o mundo dos manes, para a Lua, de onde voltará para viver uma nova vida em melhores condições que a anterior, até a libertação final.

Estas ideias fazem da Lua a porta de entrada do céu. Além disso, a Lua é nestas concepções residência dos ancestrais, alimento dos deuses, uma espécie de recipiente cheio de ambrosia, um receptáculo de imortalidade. A Lua míngua e desaparece quando os deuses se alimentam da ambrosia que ela contém. Esta ambrosia é inesgotável porque o Sol “salva” a Lua, fazendo com que as águas dos mares e dos rios voltem a enchê-la. O Sol, como se vê, provoca a evaporação das águas. Estes vapores se transformam no néctar divino. Uma parte é consumida pelos deuses e outra acaba chegando à Terra através dos raios lunares como orvalho fecundante quando das noites de Lua Cheia. Os poetas da Índia sempre ligaram a Lua à fertilidade. Vários textos nos dizem que o deus Soma visita a Terra nas noites de Lua nova para fecundar as águas e as plantas, depositando nelas um germe de imortalidade. 
    
 Quanto ao ritual do casamento, a Lua nele não ocupa uma posição relevante; ao contrário, é até bem modesta a sua presença. Todos os passos desta cerimônia são dominados pelo  fogo, isto é, principalmente pelo deus Agni, masculinos, portanto. Há apenas uma referência breve do marido ao deus Soma, umas poucas palavras apenas, pedindo que ele os livre, o casal, de todo mal.





OSIRIS
Um registro importante nos mitos da Índia referentes à Lua é o de suas manchas, que muito preocuparam os poetas. É deles que vem uma explicação: viram eles nessas manchas, na superfície do astro, o desenho de uma lebre em plena corrida. Esta interpretação é, aliás, encontrada em muitas outras tradições, asteca, chinesa, indo-budista, celta etc. Entre os egípcios, lembremos, Osíris tomava a forma de uma lebre, esquartejada em catorze pedaços por seu irmão Seth (14 é a metade do mês lunar). Ao ser ressuscitado por Ísis e por Toth, o “novo” Osíris será composto por 28 pedaços. O número 28 corresponde ao último pedaço de Osíris, não encontrado, o seu órgão fálico, que Ísis, com as suas mãos, confeccionará. É nessa condição que a plenitude do mês aponta para Ísis, a deusa do astro lunar.



segunda-feira, 29 de novembro de 2010

VISÕES DO MITO


ACADEMIA - PLATÃO E ARISTÓTELES

No geral, atribui-se à palavra mito o sentido de invenção, ficção, fábula, ilusão. O mito é visto também como uma representação idealizada de estados pelos quais a humanidade passou. Às vezes, uma ilustração de acontecimentos importantes na história da humanidade dos quais participaram personagens sobrenaturais, seres divinos, semidivinos ou humanos, tudo produzido pela imaginação coletiva, dentro de uma longa tradição oral ou escrita. Registrados, os mitos, além de seu aspecto religioso, são incorporados à história da literatura das culturas em que aparecem. Seu caráter oral pode ser notado se formos à etimologia da palavra, relacionada com o verbo mytheo, que significa falar, conversar, contar, anunciar. É possível ainda relacioná-la com o verbo myo, fechar-se, calar, manter-se silencioso, os olhos cerrados. Mito significou, assim, inicialmente, palavra. Depois, quando a ideia de Logos se fixou como conceito que definia o pensamento racional, mito adquiriu o sentido de algo não racional, discurso imaginário, conto fabuloso. Desse contexto saiu a palavra mitômano, pessoa dada a fantasias, mentirosa. Mania em grego quer dizer loucura, obsessão, paixão. Em português, temos o pospositivo mano, que tem conexão com a palavra grega. A Filosofia se coloca contra o mito ao criar a oposição Mito-Logos (Ratio para os latinos), entendendo o primeiro como ilusão, narrativa inverídica, inventada, podendo ser até indício de distúrbio mental. Logos será, então, o relato racional, analítico, verdadeiro.


Os antigos gregos viam no Mito aquilo que chamavam de hyponoia, um sentido subjacente, encoberto. Hyponoia em grego é suposição, conjectura, e, também, significação simbólica. Muitos gregos antigos viam também os mitos como alegorias. Uma expressão, no âmbito artístico ou intelectual, de pensamentos, idéias ou qualidades sob forma figurada, em que cada elemento funcionaria como disfarce dos elementos da ideia representada. A alegoria foi aplicada metodicamente, por exemplo, por pré-socráticos e estoicos na interpretação de textos homéricos para a descoberta de idéias, pensamentos ou concepções filosóficas neles embutidos.


Allos é outro e egor (egorein, discurso público) traz a ideia de se falar em público com o sentido de se dizer uma coisa, mas o de estar dizendo, na realidade, uma outra. Isto é, dizer outra coisa além do sentido literal do discurso. O termo alegoria substituiu, entre os gregos, na era cristã, na época de Plutarco (46-120), o termo hyponoia.


Desde então, Mitologia e alegoria se aproximaram bastante, tomando esta última o sentido de uma operação racional pela qual se estabelece a figuração sob uma forma humana, animal, vegetal, híbrida, animada ou inanimada de um outro ser real ou abstrato ou de um conceito qualquer. Pode-se, assim, por exemplo, representar a vitória (Nike) por uma mulher alada; um chifre (cornucópia) representará a prosperidade ou a abundância; uma águia, a ave que voa mais alto e que pode olhar o Sol sem baixar os olhos representará o maior dos deuses, Zeus; um tridente será o símbolo de Poseidon, deus do elemento líquido etc.


Com o tempo, os mitos começaram a fazer parte da Etnologia, da Sociologia, da História, usados por elas como tradição sagrada, modelo exemplar, revelação primordial, descrição das origens. Quanto à História das Religiões, será preciso uma referência mais detalhada. Inicialmente, devemos lembrar que as religiões vencedoras, especialmente a tradição judaico-cristã, consideram como mito as elaborações religiosas que não são confirmadas por seus livros sagrados. O sentido que dão ao Mito é o que o pensamento racional lhe dá, mentira, invenção, fantasia. As religiões “oficiais” também se colocam em oposição ao Mito na medida em que o consideram de tendências imanentistas, já que elas são transcendentalistas. Imanente é o que está contido intrinsecamente na natureza de um ser, de uma experiência, de um conceito. É imanente o que permanece no âmbito da experiência do possível, referente a uma dimensão concreta, material, possível, empírica. Imanente é o que não está além, numa realidade exterior. Já transcendente é o que ultrapassa os dados oferecidos pela experiência. As religiões da transcendência põem o divino fora da existência, Deus separado da criação, além do universo e dos seres criados por ele. Transcendência é sobrepujamento, superioridade, é o que excede os limites normais. As religiões da imanência são aquelas que vêem o divino dentro da existência, como, por exemplo, a mitologia grega.

Quanto aos gregos, o que nos fica é que esvaziaram progressivamente os seus mitos de todo valor religioso transcendente e metafísico. As religiões da imanência são as religiões do eterno retorno, politeístas; suas imagens falam de morte e renascimento, tendo por base os ciclos do mundo vegetal; seus deuses participam do humano, tipificando modelos de comportamento para o bem ou para o mal. As da transcendência, monoteístas, apontam para uma vida depois da morte, para uma bem-aventurança da comunhão com Deus, que está fora da existência, dela não participando; Deus criou o mundo distinto de si mesmo, tendo como atributos a eternidade, a imutabilidade, a onisciência e a onipotência.

Nas religiões da imanência o mito é vivo e, como tal, fornece modelos para a conduta humana, dando-lhe um sentido e valores. Os deuses gregos, por exemplo, serão, nessa perspectiva, modelos de comportamento. Hermes tanto pode ser visto como símbolo da inteligência realizadora humana como poderá representar as perversões desta inteligência, encontradas em expressões demagógicas, maliciosas, trapaceiras ou mentirosas. Zeus, divindade da qual dependem todas as leis físicas, sociais e morais, poderá ser considerado como fonte da verdade, mas poderá ser considerado também como símbolo do autocratismo.




Outro aspecto importante a destacar é que os mitos, os gregos, principalmente, para a cultura ocidental, estão na base daquilo que chamamos de arquétipos, já que dão a eles o seu revestimento primário, a sua roupagem. A teoria dos arquétipos entra em circulação no mundo ocidental modernamente através dos trabalhos de Jung (1875-1971), que os vê como imagens primordiais, formando o conteúdo imagístico e simbólico do inconsciente coletivo, compartilhado por toda a humanidade, presentes nos mitos e lendas dos povos ou no imaginário individual, aparecendo em sonhos, delírios ou manifestações artísticas. Jung recolheu o conceito de arquétipo no Hermetismo greco-egípcio e no De divinis nominibus, de Dionísio Areopagita. O termo aparece também em Philon, o Judeu, em Irineu, em Santo Agostinho e em Platão.

O mundo dos arquétipos é sombrio, insondável e a ele não se tem acesso direto. Só o percebemos por via indireta, através de sua manifestação no nosso consciente. Os arquétipos são possibilidades latentes, tanto como fatores históricos ou biológicos, e é através deles que podemos relacionar nossa vida anímica com os mitos. Em função da vida que levamos, conforme as condições existentes internas e externas de tempo, lugar e espaço, as imagens arquetípicas são “apresentadas” ao consciente. O inconsciente coletivo é o conjunto de todos os arquétipos que nele se agrupam, como sedimentos, sempre ativados e propagados pela tradição, migrando de um lado para outro, manifestando-se muitas vezes espontaneamente. O inconsciente coletivo distingue-se do inconsciente pessoal; seus conteúdos nunca estiveram na consciência, devendo-se a sua existência à hereditariedade. Mitologicamente, os arquétipos aparecem como temas, idéias elementares, representações de caráter coletivo, não-pessoal.

As imagens arquetípicas aparecem historicamente neste ou naquele período, tomando a forma de símbolos, formas que lhes são dadas pelo consciente, que os atualiza, tornando-os, assim, perceptíveis. O arquétipo nunca será apreendido diretamente, pois, mas será sempre percebido através do símbolo que o reveste, símbolo este produzido ao longo da história do homem, neste ou naquele período. Todo arquétipo (etimologicamente, algo forjado, modelado, há muito tempo e que, por isso, tem poder) é, potencialmente, sempre um símbolo. Quanto mais individualizado o arquétipo, quanto mais abstrato e singular for, menos universal. O arquétipo materno, por exemplo, pode se apresentar simbolicamente, conforme a época, como caverna, goela, fada, bruxa, baleia etc. Quanto mais profundo, fisiológico e instintivo for o arquétipo, mais universal e coletivo será o símbolo. Os arquétipos que geram símbolos coletivos são fornecidos, sobretudo, pelos mitos. Para a cultura ocidental, a mitologia grega nos dá o revestimento básico dos arquétipos. As imagens míticas, principalmente, como arquétipos do inconsciente coletivo, podem atuar sobre a vida consciente, despojando-a de sua autonomia, gerando fenômenos de massificação, de alienação etc.

No ocidente, as explorações da teoria do inconsciente coletivo e dos arquétipos omitem por razões várias, que julgamos inoportuno aqui discuti-las, a prioridade do Hinduísmo no que diz respeito à sua formulação. Evidentemente, as elaborações hinduístas não se estruturam como as teses de Jung ou de outros estudiosos que no Ocidente se voltaram para a teoria dos arquétipos, nem têm a mesma apresentação, mas não se pode deixar de reconhecer a semelhança que a teoria jungiana tem com as formulações hinduístas. Em alguns Upanishads (Mundaka, Brihad-aranyaka, Taittiriya), encontramos referências a um substrato último da consciência, uma imensidão informal, experimentada ora como vazio, ora como silêncio, ora como obscuridade, considerada como região sem limites que se estende além da vida consciente. É chamada de atma com o significado, no Vedismo, inicialmente, de alma, elemento imaterial da individualidade. Posteriormente, no Hinduísmo, toma o sentido de alma profunda (atman), identificada com o Brahman, enquanto subjacente ao eu empírico, reservando-se a designação de atma àquilo que se torna puramente individual.

O atma se situa no fundo do ser, sendo comum a todos os seres. Os textos o descrevem como uma espécie de oceano informal de onde poderão emergir aspectos da natureza particularizada de cada ser. Esta imensidade é, no seu todo, impensável, distante, mas poderá estar muito próxima. Este eu profundo não é isto ou aquilo, dizem os textos, é impalpável, não podendo ser destruído. Como um oceano é uma unidade, um continuum indivisível que liga e é comum a todos os seres. O eu pessoal é um nó temporário, um ponto particular da consciência. O Hinduísmo fala de um ponto (bindu) onde a alma individual (atma) encontra a alma universal (atman).




COMO ESTUDAR OS MITOS



A palavra mitologia pode designar não só o conjunto de mitos e lendas relativos a uma religião como também o seu estudo metódico e comparado com o objetivo de se lhes determinar a origem, o sentido, a evolução e as suas respectivas relações. Neste ciclo, nos limitaremos mais a uma visão de conjunto do que à apresentação dos elementos que possam servir de base para um estudo comparativo. A mitologia se apresenta para nós como uma das primeiras manifestações do homem que procura dar um sentido à sua vida, o homem que pensa diante do espetáculo do mundo. As suas primeiras produções vão do temor ao terror, passando pelo respeito, pela admiração e pelo agradecimento. Não conseguindo captar o sentido do que tem diante dos olhos, o homem primitivo procura acalmar as forças naturais que estão à sua volta, atuantes incessantemente, inexplicáveis. O mito é a primeira representação de tudo isso, origem de todas as religiões, da literatura, de toda a poesia, da arte.

A interpretação dos mitos é matéria bastante complexa. Muitas propostas foram apresentadas, todas com a sua “verdade”. Cada uma delas destacando um ou mais aspectos interessantes, mas deixando muito a desejar ao pretender tornar-se a única e verdadeira forma de interpretação. Dentre as principais “escolas” de interpretação dos mitos, destacamos: a chamada escola bíblica, defendida por Banier (abade), que vê nos mitos (pagãos, não cristãos) formas desfiguradas da revelação divina; o evemerismo (Evêmero da Messina), que entende os mitos como recordação de acontecimentos históricos; a escola simbólica, proposta pelo platonismo na antiguidade e retomada nos tempos modernos; a escola filológica (Max Müller, Kuhn, Bréal), achando que os mitos podem ser explicados por fenômenos linguísticos; a escola religiosa (Bérard), que explica os mitos como produto de fórmulas rituais e cerimônias; a escola antropológica de Lang que, a partir do absurdo e do aspecto selvagem dos mitos, os vê como produzidos em períodos de barbárie total; a escola psicológica (Regnaud), para a qual os mitos são produto de uma atividade psicológica idêntica à nossa, do homem de hoje; a escola de Frazer (O Ramo de Ouro), que associa a origem dos mitos a um totemismo primitivo.

Qualquer que seja o ponto de vista adotado, o que se coloca inicialmente é que os mitos têm uma forte ligação com os fenômenos cósmicos e naturais e com as primeiras elaborações religiosas. O homem primitivo se via dentro de uma totalidade de caráter sobrenatural. Sua primeira relação com tudo que o cercava, principalmente os acontecimentos celestes, o movimento dos astros, foi afetiva, pois sua vida parecia depender senão totalmente pelo menos em grande parte do céu. Ele viu por trás dos fenômenos celestes, mesmo nos mais simples, forças sobrenaturais atuando. O céu era bom, o céu era mau. Ele começou então a representar tudo isto, adotando comportamentos que, a seu ver, poderiam reverter ou inibir o que o céu mandava de negativo, aplacando-o, diminuindo a sua inquietação, o seu temor. Por outro lado, aumentar o caráter propiciatório da atividade celeste, quando suas manifestações eram favoráveis.

Os mitos têm um modelo estrutural e uma linguagem próprios. Procuram ordenar o mundo, cosmizando-o Sua elaboração, entretanto, faz parte de um período pré-lógico. Sua linguagem é altamente metafórica, admitindo vários níveis de leitura, tendo, por isso, um caráter polissêmico. Sua riqueza analógica é imensa, pois, ao condensar significados, atuam tanto sincrônica quanto diacronicamente. O discurso mítico, elaborado com palavras que nunca deixam de perder seus significados antiquíssimos, primordiais, se torna suscetível de adquirir significados novos pelo uso, pela sua atualização.

As primeiras indagações desse homem pré-lógico se voltaram, também, para a origem de tudo que o cercava. Nasciam os mitos cosmogônicos, meteorológicos, mitos sobre a invenção do fogo que ele via no céu e na terra, mitos sobre o seu aparecimento e sua morte, histórias que são encontradas de forma mais ou menos idêntica em todas as latitudes. Para dominar as potências naturais, o homem primitivo se valeu de certas práticas e atitudes de caráter talvez mais mágico que religioso. Estas práticas e atitudes foram, contudo, sendo ritualizadas, sacralizadas, tornando-se solenes, categóricas, pois era preciso usar fórmulas certas, fazer oferendas corretas. Os cultos se divinizavam, nasciam os mitos, perdendo-se muitas vezes o seu sentido institucional primitivo.

Ao gerar cultos e ritos, os mitos constituíram-se em paradigmas de ação, em modos de ser. Seus personagens acabaram por tipificar comportamentos, fixando arquétipos, atualizados historicamente por símbolos. Neste sentido, os mitos vão além do visível ao apontar para um real sempre maior do que aquele que conseguimos apreender pelos nossos sentidos e pela nossa razão. Eles nos permitem entender o visível como uma expressão do invisível, sendo aquele um meio de acesso à realidade total.




As primeiras fabulações míticas têm, no seu todo, dois aspectos principais, um meteorológico e outro agrário, isto é, céu e terra. Nas primeiras construções míticas predomina a imaginação afetiva, de caráter utilitário (forças benéficas, luz, e forças maléficas, trevas). Equinócios, solstícios, nascente, poente, lua cheia, lua nova, nascimento, vida, morte, teofanias, epifanias, hierofanias... Aos poucos, tudo isso vai sendo expresso, ocorre a antropomorfização das forças que atuam no cosmos, os personagens ganham atributos, caracterizações, irradiação, ampliação, complexidade. Vem desses primeiros tempos a ideia de que as lutas nos céus se assemelham aos conflitos que o ser humano experimenta intrapsiquicamente. Ficou também evidente que a função consciente do homem se ligava à terra, que a função supraconsciente tinha relação com o céu iluminado e que a função subconsciente tinha analogia com o interior da terra (subterrâneos, cavernas, grutas, profundezas do mar). Mais tarde, tudo isto seria entendido assim: a função consciente (intelecto) estaria relacionada com o real, podendo levar o homem do utilitário e mais urgente ao distante e superior, isto é, ao espiritual (supraconsciente). Obstáculos a esta caminhada estariam no subconsciente (emoção, imaginação), função involutiva, regressiva, uma volta ao pré-consciente. A busca evolutiva, do consciente ao supraconsciente, poderia se deformar, adquirir formas extravagantes, doentias, devido a ameaças tanto internas quanto externas.


O PROBLEMA DO MITO NAS SOCIEDADES ARCAICAS

A importância do problema religioso e consequentemente dos mitos se coloca certamente para o ser humano desde o momento em que ele, ao longo da sua história, chega ao período em que ocorre a superação do seu estado de primata (ordem dos mamíferos que compreende o homem, o macaco, os lêmures; primatas africanos, arborícolas, corpo e membro esguios, pelagem, focinho longo). Os primatas (os primeiros) são arborícolas e onívoros, de cérebro grande e diferenciado, olhos bem desenvolvidos, voltados para a frente, visão binocular, cinco dedos, o primeiro oponível aos demais. É neste período em que se dá o que chamamos de hominização que os primatas adquirem características humanas (mamífero superior da ordem dos primatas). Esta hominização gera o homo sapiens, de cérebro volumoso, posição ereta, mãos preênseis, faculdade inteligente de abstração e de generalização, capacidade de produção de uma linguagem articulada. Além de sapiens, ele é habilis e erectus. Até onde conseguimos chegar, esta figura teria se fixado por volta de 100.000 anos atrás, segundos pesquisas feitas da Europa (homem de Neandertal, Alemanha) e na Ásia.

O homem, para se manter em pé, tem obrigatoriamente que ficar em estado de vigília, desperto, atento, vigilante. Essa postura o obrigou a organizar o espaço de modo diferente dos pré-hominídios. Quatro direções são estabelecidas a partir de um centro, uma à frente e outra para trás e mais duas laterais, à direita e à esquerda; duas mais são criadas, uma acima de sua cabeça e outra dos seus pés para baixo. O espaço se organizava a partir do corpo humano. O homem procurava controlar o espaço no qual se via lançado, um espaço ilimitado, desconhecido, que o enchia de medo, de terror. Essa experiência se torna fundamental, criar a noção de um centro em torno do qual tudo se organiza (visão antropocêntrica). Esse espaço será dividido, repartido, delimitado. Nele o homem agirá. Os pontos de referência do seu espaço-tempo ele os obtêm a partir do movimento dos astros no céu. É o fenômeno da cosmização. Ele vai tomando posse da terra em nome do céu, de onde parece vir o seu princípio de animação.

Sua atividade coletora e sua vida nômade, em busca de melhores condições climáticas, duram milênios, embora, quando de sua hominização, já começasse ele a fabricar instrumentos e utensílios de modo a poder intervir na terra, fixar-se nela. Esta fase agrícola só se definirá melhor num período posterior. A fabricação de instrumentos, contudo, é um dos dados que temos mais concretamente para distinguir, com clareza, o aparecimento do paleantropídeo (palaiòs, velho, e anthropos, homem), bem diferente do pitecantropo (pithékion, pequeno macaco), macaco antropoide encontrado na ilha de Java, precursor do homem (pitecismo, semelhança ao macaco). O homem dava os seus primeiros passos na tecnologia, o cérebro se desenvolvia.



Dentre as conquistas tecnológicas do homem, a mais importante foi, sem dúvida, a do fogo, que o homem aprendeu a produzir, a conservar e a transportar. Esta conquista marca definitivamente a separação do homem do mundo animal. Com o fogo o homem inventa, cria, transforma, se socializa. Segundo alguns documentos, essa conquista teria ocorrido a uns 600.000 anos atrás. Esse ser se descobre então dotado não só de inteligência, mas de imaginação também. Uma das principais leis do mundo animal, a de que era preciso matar para sobreviver, ganhava agora nova expressão. O homem supera definitivamente, então, os seus ancestrais quando se transforma em carnívoro. Durante alguns milhões de anos, os paleantropídeos se entregaram à caça, já que, diante das novas necessidades, a coleta de frutos, raízes, moluscos etc., se tornava insuficiente para garantir a sobrevivência da nova espécie.

É durante esse período de passagem do pitecantropo ao paleantropídeo que a caça determina não só a divisão do trabalho em função do sexo mas reforça também o processo de hominização. As relações entre o homem que abate a sua caça ou, mais tarde, o animal domesticado, cria aquilo que se denominou “solidariedade mística” entre o caçador e as suas vítimas através do sangue derramado. O sangue, veículo da vida, lembra o fogo, o calor, o vermelho. Instala-se a noção de sacrifício, ligada a uma ideia de troca.

Há muitas divergências entre os estudiosos quanto à existência ou não de uma religião, de mitos, nesse mundo tão distante de nós. É a partir do Paleolítico, o chamado período da pedra lascada (1 milhão de anos atrás ?), que a “documentação” fica mais precisa. As atividades humanas já parecem mais definidas. Na última fase do Paleolítico, a superior, a caça completa a coleta de frutos e sementes e o osso aparece como material usado pelo homem para a fabricação dos seus dois grandes instrumentos da época, a ponta e o raspador.

Dentre os “documentos” desses tempos destacamos as ossadas humanas, ferramentas de pedra, pigmentos vermelhos, restos de túmulos, pinturas rupestres, estatuetas de osso e pedra etc. Ao lado do valor puramente utilitário que esses “documentos” revelam, nota-se já uma certa preocupação “religiosa”, um valor mítico-religioso, embora ainda nada se apresentasse sistematizado, como se veria no período seguinte, o Neolítico.

A ideologia religiosa desse mundo apresenta como aspectos salientes, além de outros, a crença que o homem pode se transformar em animal e vice-versa. Importante também a crença em entidades (guardiãs) que protegeriam a caça e os caçadores. Outro destaque é a crença numa vida depois da morte, confirmada pelo sepultamento dos corpos numa posição curvada, fetal, e pelos objetos que o morto levava. Muito numerosas e importantes, sem dúvida, são as pinturas rupestres, encontradas em várias partes do mundo. Geralmente, as pinturas se encontram longe da entrada, o que permite supor a sacralização do recinto como uma espécie de santuário.


Venus de Willendorf


Outro ponto a salientar: a descoberta de imagens femininas, em períodos mais recentes, permite a conclusão, ainda que não aceita unanimemente, de que elas representariam uma espécie de contraponto do universo masculino, lembrando uma certa ordem cósmica, o mistério da criação e as regenerações cíclicas periódicas do mundo natural. Essas figuras, estilizadas, se caracterizam por formas exageradas, abdômen e nádegas (esteatopígias), principalmente, cabeça desprovida de traços distintivos. Preconceituosamente, essas estatuetas foram chamadas de Vênus mais o nome do lugar em que foram descobertas pelos arqueólogos (Vênus de Lespugue, de Willendorf). Em muitas destas estátuas e nas inscrições da época notam-se motivos geométricos, dentre eles a suástica.


Mais ainda: hoje, pelas pesquisas que continuam a ser feitas, é possível admitir que as populações do Paleolítico já haviam elaborado algo semelhante aos mitos cosmogônicos e escatológicos na forma em que se fixariam mais tarde; possuíam também mitos relacionados com a origem do homem, da caça, mitos que falavam da origem dos animais e da ascensão do homem ao céu, de vôos mágicos (xamanismo) etc.

Entre o Paleolítico e o Neolítico temos o Mesolítico, caracterizado pela mudança do clima glacial para pós-glacial. Aos poucos, com a substituição das estepes por prados e bosques, deu-se início à economia produtiva, de base agrícola, completada pela crescente domesticação dos animais, por volta de 8.000 aC. Os recursos aumentam e se diversificam. Ao lado da caça, os produtos da pesca e da apanha de moluscos e caracóis adquirem grande importância. Essas atividades levam as populações a se fixar no litoral, na beira de lagos, de rios e pântanos; a cabana substitui a morada nas cavernas e reentrâncias das rochas. Com isto, uma grande expansão populacional é registrada, desenvolve-se o comércio, aceleram-se as trocas e movimentos populacionais.

É neste período Mesolítico que a agricultura (plantas alimentares, cultura de gramíneas, cultura de cereais) e o pastoreio se definem, ao lado de outras atividades importantes: fabricação de arcos, flechas, cordas, cerâmica, redes, anzóis, embarcações, ferramentas várias, roupas, toldos etc. Toda esta atividade tem uma carga simbólica muito grande, cheia de significados profundos. Ao tomar posse da terra, nela se fixando como agricultor, o homem do Mesolítico precisava entender a linguagem do céu, elaborar um calendário lunar, compreender os ciclos. A relação entre o homem e o mundo vegetal se torna mais forte; a fertilidade da terra era semelhante à fertilidade feminina. O mistério da criação e da morte era das mulheres. O espaço começou a ser valorizado de outra forma, ficando clara a distinção entre a vida sedentária e a nômade. Surge a ideia do tempo circular e dos ciclos cósmicos.

As datas do Neolítico, designado durante muito tempo como o período da pedra polida, são fixadas mais ou menos entre 5.000 e 2.500 aC. Neste período acentua-se a domesticação de animais. Ao cão, cuja domesticação é bem mais antiga, juntam-se os porcos, bois, carneiros; a tecelagem e a cerâmica se impõem, adquirindo a agricultura grande complexidade e extensão. São levantadas grandes construções de pedra, menires, dólmens e cromlechs. O desenvolvimento da agricultura leva consigo mitos, idéias religiosas. O culto do touro ganha expressão no Oriente Próximo e dali se espalha pelo mundo mediterrâneo. Os cultos neolíticos têm como itens importantes temas como a morte, a fertilidade, os fenômenos meteorológicos e os lugares sagrados.

No final do Neolítico, intensifica-se o uso dos metais. Os heróis de Homero desconhecem o ferro, usam o bronze e o cobre. A chamada idade do ferro, caracterizada pelo uso corrente desse metal, começa por volta de 1.200 aC. O ferro, todavia, já era conhecido pelos sumérios. O mais antigo vocábulo conhecido para designar o metal vem de duas palavras sumérias, “céu” e “fogo”, o metal celeste. Os egípcios e os hititas, por exemplo, conheciam o ferro meteórico, o ferro negro do céu. A metalurgia, os metalúrgicos, mineiros e ferreiros formam agora a nova classe privilegiada. São os transformadores da Natureza. Aparece a Alquimia, que toma as formas exotérica e esotérica, isto é, material e espiritual. Os ferreiros estão nos mitos, fabricam armas para os deuses, jóias para as deusas. Por volta do ano 1.000 AC, o ferro já estava sendo utilizado na Índia e na Grécia.




Colagens de  Adriana Peliano