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domingo, 27 de maio de 2018

CAPRICÓRNIO (1)

               
CAPRICÓRNIO
(CATEDRAL DE CHARTRES, FRANÇA)
Quando o Sol ingressa na constelação de Capricórnio, temos, no hemisfério norte, o chamado solstício de inverno, que se inicia com a noite mais longa do ano. Cada um dos círculos da esfera terrestre, paralelos ao equador, a 23º27´, tem o nome de trópico. Trópico vem de tropia (tropos, em grego, é direção, feição, maneira) e designa cada um dos paralelos da esfera celeste que passam pelos pontos solsticiais. O trópico de Câncer tem declinação + 23º27´, no hemisfério norte ou boreal. O trópico de Capricórnio tem declinação – 23º27', no hemisfério sul ou austral.


TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO


AURIGA
Astrologicamente, Capricórnio é um signo de terra em que o frio predomina sobre o seco, com participação do úmido, o que atenua um pouco a  sua rigidez, trazendo-lhe uma tendência impulsiva (cardinal), característica ausente nos outros signos do elemento terra, Touro e Virgem. Na antiguidade, a constelação foi chamada de Cabra Cornuda, designação que a diferenciava da estrela alfa da constelação do Auriga, chamada Capela (Pequena Cabra), hoje perto dos 22º de Gêmeos. 

A cabra com terminação de peixe só teve o seu desenho fixado por volta de 1.000 aC, conforme gravuras babilônicas. O signo, entre os mesopotâmicos, já era conhecido como o da cabra marinha, uma representação do deus Ea, cujo ideograma queria dizer aquele que fica acima das águas ou casa das águas, uma clara alusão aos dois signos do eixo solsticial. O domínio de Ea, segundo o mito, é o Apsu, a camada de água doce que envolvia a terra e lhe servia de suporte. Neste sentido, ele se opõe às águas tumultuosas oceânicas. As águas de Apsu espalham fertilidade e abundância. Além do mais, Apsu é fonte de sabedoria, nada escapando à sua vigilância. Ea tinha as características de um deus civilizador, sendo venerado por todos aqueles que trabalhavam com madeira, pedra e metal. Nesse sentido, Cronos e Saturno, como divindades civilizadoras, o lembram muito. Ea era representado normalmente por um cabrito montês com cauda de peixe. Promotor da educação e do progresso, Ea, ao dominar Apsu, tornou-se o senhor de toda a terra, instaurando-se com o seu domínio uma espécie de idade de ouro que, na mitologia grega, como se sabe, teve a regência de Cronos. Destronado depois por seu irmão Bel, que enviou um dilúvio para destruir os humanos, Ea, recuperando seu poder,  com muito esforço, conseguiu entretanto salvá-los, ensinando-lhes a construir uma arca, com a qual se salvaram.    

ASHTORAT
A cabra, desde a mais remota antiguidade, sempre apareceu associada a deusas da fertilidade. Os judeus davam o nome de Ashtorat a uma deusa assiro-babilônica cujas sacerdotisas sagradas (hierodulas) eram recompensadas por seus serviços com cabritas, animais muito valiosos então. Ashtorat era a principal deusa dos fenícios, representando os poderes reprodutivos da natureza. Era uma deusa lunar e no Egito era considerada como filha de Ra ou Ptah. Os judeus, porém, a transformaram num demônio. A Fenícia, como sabemos, era chamada também de Canaã, nome que quer dizer país baixo, e compreendia àquele tempo a área hoje ocupada pela Síria e pela Palestina. A região era também chamada de país do leite (de cabra) e do mel, considerada pelos judeus como a terra prometida. Esta região, cujo ancestral era Canaan, filho de Cham (Quente), foi invadida pelos descendentes da tribo de Abraão, o primeiro patriarca dos judeus, sob o pretexto de tê-la recebido em doação de Deus. Seus grandes centros eram Byblos, Ugarit e Tiro cidades muito importantes, muito citadas no antigo testamento. Cham foi o segundo dos três filhos de Noé, nascido antes do dilúvio. Depois desta catástrofe universal, Cham encontrou seu pai embriagado e nu, relatando o fato aos irmãos, que  repreenderam Noé publicamente. Em represália, o pai
ASTARTE
amaldiçoou Cham e o condenou a ser o servidor dos seus irmãos. Cham, como se disse, é o ancestral dos cananeus e de povos africanos. Nas regiões semíticas do noroeste, Ashtorat recebia o nome de Astarte (Ishtar nos textos mesopotâmicos), grande modelo da Afrodite grega, especialmente sob o aspecto de Erycina, que pontificava na Sicília, em Eryx, junto do monte de mesmo nome (atualmente, San Giuliano), cidade fundada pelos fenícios, objeto de disputa entre Siracusa e Cartago. 

PRAKRITI
A cabra, em antigas tradições védicas, era um símbolo da substância primordial, significando algo não nascido ainda, recebendo, por isso, o nome de Prakriti. Confundida com a natureza, com o mundo material, Prakriti se opunha ao espírito, Purusha. Enquanto a cabra canceriana lembra um universo aquático relacionado com o elemento líquido na sua função original, Capricórnio trabalha com ideias contrárias, tendo a ver com concentração, desnudamento, retração,  com o predomínio das virtudes frias, sobriedade, simplicidade, austeridade. O ser humano colocado sob a radiação de Câncer sempre terá problemas com a sua defesa corporal; seu psiquismo, no geral, se sentirá exposto, indefeso. É por isso que nele desde cedo encontramos um sentimento de desamparo, uma espécie de temor diante da vida. Capricórnio, ao contrário, inspira ação e metas firmemente delimitadas, linhas de ação que falam de cumprimento do dever, realização de propósitos lentamente amadurecidos e superação de obstáculos. Em muitos capricornianos, por isso, temos o cumprimento do dever como missão, o caráter inflexível, a tenacidade, um temor de não realizar, nada de concessões internas, a luta contra resistências elas, contra tudo o que possa ser visto com estados de ânimo oscilantes, caprichos. Uma das grandes ilustrações da máxima alquímica solve et coagula nós a encontramos perfeitamente no diálogo entre estes dois signos.

A coagulatio, lembremos, é a operação alquímica ligada ao elemento terra. Esta operação nos fala de sólidos, obtidos, por exemplo, pelo resfriamento de líquidos, que têm forma e posição fixas, com muita dificuldade de adaptação a recipientes, ao contrário da água. É por isso que os conteúdos psíquicos ligados ao elemento terra concretizam-se numa forma particular. Todos os mitos de criação (cosmogonias), a gênese bíblica, por exemplo,  usam imagens da coagulatio alquímica.   

O tipo capricorniano superior lembra a cabra que tem características montanhesas, animal das escaladas, das alturas, das elevações, dos picos, lugares que só podem ser atingidos depois de um adequado treinamento da vontade e do domínio da vida instintiva e da sensibilidade, por uma disciplina que tenha levado ao endurecimento das formas (diminuição do úmido), expressões de três grandes características inerentes ao signo: silêncio, solidão e trabalho. A participação do elemento úmido em Capricórnio, indicado pela cauda marinha da cabra, atenua, contudo, a excessiva concentração material, diminui um pouco a sua rigidez, favorecendo o impulso próprio (cardinal), tendência ausente nos outros dois signos do elemento terra, como se disse. 

Em várias tradições, Capricórnio sempre foi considerado um signo triste, de vida superior impessoal, de desapego de tudo o que é pessoal, isto é, canceriano (minha família, minha casa, meus bens, minha cidade etc). em nome de uma expansão em direção de outros níveis. Daí o uso de todos os meios herdados, dos valores materiais disponíveis, conquistados segundo modelos recebidos da tradição, como um meio de saída da vida pessoal ou social para que seja alcançada materialmente a máxima elevação máxima ou, nos tipos mais bem logrados, uma ligação com o coletivo, com a humanidade como um todo, ou seja, com a vida espiritual. É neste sentido que as montanhas, um dos grande símbolos do signo, são sacralizadas, os cumes principalmente, lugares de peregrinação, onde muitas culturas colocaram importantes templos. O alto das montanhas é visto, por isso, como um lugar de transfiguração do material em espiritual.


MAKARA
Diante do que se expôs até aqui, podemos classificar os  capricornianos em três tipos básicos, o defensivo, o aspirativo e o ascensional, simbolizados respectivamente pelo crocodilo (Makara, na Índia), pela cabra (astrologia ocidental) e pelo unicórnio (tradição medieval). O crocodilo, aligátor ou caimão sempre apareceu associado às trevas, à Lua, lembrando a voracidade da noite que, ao final de cada dia, parece devorar o Sol. Temível sob todos os aspectos, o crocodilo exprime uma força inelutável, como a noite e a morte porque sem elas não temos o dia ou a vida. 

SETH
No antigo Egito, o crocodilo emprestava sua forma ao monstro Seth, irmão gêmeo de Osíris, deus da desordem, da violência, personificação do mal e da morte, lembrando a desertificação por oposição àquele, símbolo da fertilidade (as cheias do rio Nilo). O deus Sobek, como crocodilo, emprestava uma parte de seu corpo para formar com o hipopótamo, o monstro devorador das psicostasias. Os principais centros de adoração de Sobek eram Crocodilópolis (hoje, Medinet el-Fayoum), Tebas e Kom Ombo, no antigo Egito, segundo nos narra Diodoro da Sicília, do século primeiro aC. O crocodilo, no país dos faraós, era considerado como um sobrevivente das águas primordiais, um animal dos primeiros tempos da criação, tendo, por isso, relação com a fertilidade e com o Sol. Sua carga simbólica era, entretanto, ambígua. De um lado, em Tebas, eram sagrados, embalsamados, transformados em joias usadas por sacerdotes; de outro, execrados, sua goela considerada como a entrada da morte, sua cauda como um prenúncio das trevas, tendo sempre o animal como símbolo um caráter funerário. 


PLUTARCO
O historiador Plutarco nos deixou relatos de que o crocodilo era adorado no Egito em virtude de sua capacidade de tudo observar em silêncio, com os olhos cobertos por um tecido membranoso, capaz, inclusive, de prever as enchentes do rio Nilo. Ainda segundo os egípcios, as fêmeas, durante a sua vida, punham sessenta ovos, número do tempo médio de sua existência em anos. Aristóteles também afirmava que as fêmeas do crocodilo dos rios punham sessenta ovos brancos. Negativamente, o crocodilo, em várias tradições, é símbolo da hipocrisia porque costuma derramar lágrimas ao devorar as suas vítimas. 

A palavra crocodilo veio do grego (krokodeilos) para o latim (crocodilu) e deste para a língua portuguesa. Os gregos grafaram o nome do animal com o antigo significado egípcio, verme das pedras, segundo o qual ele era conhecido, devido ao costume de se esquentar ao Sol sobre pedras lisas, segundo Heródoto. O grande terror que ele inspirava se devia à sua bocarra, que conta com 38 afiadíssimos dentes em cima e 30 em baixo. Ele pode matar e deglutir animais do porte de um boi ou de um búfalo. Ousado e traiçoeiro em seus ataques, passou a ser metáfora de pessoa pérfida e cruel, que chora lágrimas de crocodilo, pois ele verte lágrimas enquanto devora as presas que abate por força da pressão que sobre os seus olhos exerce o movimento de sua bocarra. 

MAKARA
Na Índia, o signo de Capricórnio é chamado de Makara, imagem que vem do mito, um monstro marinho muito semelhante ao crocodilo, montaria de Varuna, como deus das águas. No zodíaco hindu, ele corresponde ao solstício de inverno, início de um período no ciclo anual em que o Sol é “devorado” pela bocarra da escuridão hibernal. Não é difícil estender, de um modo geral, esta analogia aos capricornianos que têm uma natureza muito séria e taciturna, que são, em muitos exemplos, depressivos, esquizofrênicos, avessos a qualquer intimidade, que podem se tornar misantropos ou misóginos muito facilmente. Estes tipos são as costumeiras vítimas do chamado complexo de Cronos, isto é, tipos humanos que se recusam a perder aquilo a que se ligaram no decorrer da vida, especialmente no seu período inicial. Fixados e cristalizados na infância e na juventude, fases em que o poder paterno costuma ser muito marcante o para eles; apagam o seu ego, tornam-se pessimistas, recusam-se a viver, a não ser segundo os modelos herdados dos quais, embora sofrendo muito, nunca conseguem se libertar.

Astrologicamente, estes capricornianos de primeiro nível
KALA
apresentam de um modo geral em seus temas configurações nas quais, além do seu ascendente e dos seus luminares, seus demais planetas pessoais se mostram também “devorados” por Saturno de algum modo. É por essa razão também que os hindus associam a Kala, o tempo que devora a vida, e ao dragão Rahu, o demônio dos eclipses, ambos “devoradores”, a Shani, o planeta Saturno, e ao signo de Makara, Capricórnio. Tanto Kala

como Rahu, ambos de grande goela, a tudo devorando e engolindo,
RAHU
são representantes do vai-e-vem cósmico na sua fase de refluxo. Segundo este entendimento, tal refluxo nunca poderá ser confundido com a morte, mas sim como uma transformação. A vida, emanada do Uno, a ele retorna num ritmo ao mesmo tempo generoso e temível.

O crocodilo, o lobo, o jaguar, a hiena, a baleia e outros animais conhecidos como “devoradores”, vorazes e/ou com bocarras e grandes goelas,  foram usados, desde tempos pré-históricos, para representar a alternância entre a luz e a escuridão, entre a vida e a morte. É neste sentido que o lobo, na tradição védica, aparece como
USHAS
um devorador natural da codorniz, ave que representa o calor, o ardor, a luz, chamada de “ave vermelha”. Na Índia, segundo o mito, foram os Ashwins, os gêmeos equivalente aos Dioscuros gregos (signo de Gêmeos) que libertaram a codorniz (vartika) da goela do lobo, acontecimento astronômico simbolizado pela Aurora (deusa Ushas). Lembremos ainda que entre os gregos, a ilha de Ortígia é conhecida como a ilha das codornizes (ortyks, codorniz). Nessa ilha, Leto deu à luz a Ártemis e a Apolo, gêmeos divinos, filhos de Zeus, que simbolizam os dois luminares celestes do nosso sistema.

Entre os povos maias da América Central, o jaguar é uma espécie de divindade de caráter ctônico e, como tal, ligado à vida subconsciente do homem. Ele aparece no crepúsculo (obscuridade) como devorador do Sol. Representa o denominado Sol Negro, o astro no seu curso noturno. É também o jaguar nessa mesma perspectiva simbólica o senhor das montanhas, do eco, dos animais selvagens e dos tambores de convocação dos rituais. Em muitos ritos dos povos das três Américas, o jaguar é considerado como o guardião do fogo e herói civilizador (Grande Ancestral) que deu ao homem técnicas de iluminação. 

No capricorniano de segundo nível unem-se, como já se deu a entender, dois símbolos, a cabra e a montanha. A cabra a que aqui nos referimos não é evidentemente a chamada “cabra de fundo de quintal”, a cabra que come o que lhe dão, símbolo do primeiro nível tipológico do signo (makara). Este tipo “cabra de fundo de quintal” jamais ousa, subordina-se sempre a um forte sentido familiar, sentido que impõe limitações e cargas a todas as suas obrigações e responsabilidades sociais. A grande debilidade do signo está neste tipo, que sempre se mostra preso a um pesado senso de dever (mais imaginado que real) ou tendo diante si barreiras intransponíveis imaginárias. 

CABRA MONTANHESA
Já o tipo capricorniano “cabra montanhesa”, de natureza aspirativa procura definir papéis, é capaz até mesmo de criá-los, tornando-se mais público, mais exposto, lutando por uma claridade que aumenta à medida em que “sobe”. Este é o capricorniano de ambições, que procura escalar a montanha, chegar ao topo, lento mas implacável na subida, podendo, como é o caso dos tipos mais bem logrados do signo, construir paraísos materiais (Stalin, Adenauer, Mao-tse-tung, Amador Aguiar etc.). 

 A cabra, como se viu, em todas as tradições é símbolo da matéria primordial (Prakriti) que pode tomar formas evolutivas através da fecundação pela energia, representada pelo divino, pelo espírito (Purusha), sendo a subida da montanha uma das metáforas deste jogo simbólico. Esta atividade fecundante do espírito era vista como a ação do céu em benefício da terra, conforme as variadas formas que as manifestações atmosféricas poderiam tomar.



terça-feira, 23 de janeiro de 2018

SAGITÁRIO (3)

                  
SAGITÁRIO
VITRAL DA CATEDRAL DE CHARTRES
A flecha sagitariana, em muitas tradições astrológicas, cortada por um pequeno traço de modo a se introduzir no símbolo do signo uma cruz, nos remete a ideias de transcendência e de totalização com relação aos planos terrestres. A cruz, é bom lembrar, se liga, acima de tudo, ao simbolismo do quatro e, como tal, está na base dos quatro pontos cardeais, que determinam as nossas possibilidades de orientação espacial no planeta Terra. Quanto à dimensão temporal, seus braços, ao dividir o círculo em quatro partes, quadrantes, apontam para os eixos equinocial e solsticial, para um tempo circular, o do ciclo anual com os seus quatro sub-ciclos.    


FLECHA   DE   SAGITÁRIO
A cruz na flecha de Sagitário nos indica de modo indiscutível que a transcendência proposta pelo signo será sempre a da ultrapassagem do nível ou do limite existencial em que o homem se encontra. Não sugere este símbolo, ainda que seja Sagitário considerado com o signo das religiões, uma transcendência em “direção do céu”, de uma ordem extraterrena. O homem, na ordem zodiacal, que a perspectiva sagitariana confirma, é sempre um ser a se fazer e a se refazer aqui, na terra, entre os outros homens. Sagitário não propõe uma transcendência em direção de um absoluto que esteja fora do humano, mas de um absoluto sempre entendido com relação ao próprio homem. O homem será, então, sempre, aquele que tem a se fazer a si mesmo constantemente. É em Sagitário que o homem começa aprender a conquistar uma dimensão espiritual, a ir além de si mesmo e da sua vida social, a caminhar em direção da humanidade (de Aquário e de Peixes). Antes, porém, terá que vencer a prova da montanha com relação aos significados de Capricórnio.

ILUMINURA   MEDIEVAL  ,  SÉCULO  XI

O que está acima acredito será suficiente para se entender que o tempo da astrologia deve ser considerado ciclicamente, como o fizeram os antigos astrólogos gregos e   védicos e não linearmente, como o viram os astrólogos medievais. A noção de que  a astrologia e, consequentemente, Sagitário têm a ver com o tempo linear é produto do pensamento judaico-cristão e foi introduzida já no início da Idade Média com a vitória das religiões patriarcais. A
HORÓSCOPO  NA  TORRE  DOS  MOUROS , VENEZA
concepção linear do tempo o entende como uma sequência irrepetível e irreversível de eventos que vão se encaminhando para um determinado fim, em direção de uma divindade transcendente. Transcendente, neste sentido, refere-se a uma realidade que ultrapassa a nossa capacidade de compreensão ao apontar para um criador distinto da sua criação.  A concepção circular zodiacal nos indica claramente que no universo tudo está em permanente devenir e sujeito a um eterno retorno.   


CENTAURO   KIRON   ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 ) 

O fogo sagitariano não se liga tanto à ação (Áries) ou à individuação (Leão) mas, sim, estando já o mundo natural no seu declínio (outono, quase inverno), liga-se a uma ideia de que, com ele, o homem poderá ir além de si mesmo. Esta transcendência, pelo lado da flecha, sempre significará, nos tipos evoluídos, uma espécie de transporte espiritual, um fogo que tanto fale de purificação como de iluminação e sagração. Lembremos que o terceiro signo do terceiro quadrante indica que o social está chegando ao fim e que o coletivo está para começar (quarto quadrante). Nesta etapa, o distante começa a triunfar sobre o próximo. Com Sagitário chegamos ao fim da trindade do fogo. Se em Áries, ele é movimento visceral, se em Leão ele é a expansão do eu e a sua magnificência, em Sagitário ele será a decantação espiritual, a iluminação do espírito, pela qual o instinto e o ego devem ser ultrapassados. 


KIRON
Para uma melhor compreensão do signo de Sagitário, no cenário acima descrito, importante será não se perder de vista a polaridade entre Kiron e Ixion. Essa polaridade permite que, para fins práticos, seja possível definir os dois tipos humanos básicos do signo, consideradas as dominantes elementares de cada caso: do lado do primeiro, Kiron, temos ideais de sabedoria, de luz interior, o que lembra uma certa nobreza no trato das questões práticas; presente muitas vezes um espírito idealista,
SUPLÍCIO  DE  IXION, 330 aC
embora, pelo lado ígneo do signo, o entusiasmo e a falta de paciência com detalhes possa ocasionar até problemas mais sérios quanto à continuidade da ação. Do lado do segundo, Ixion, de início, uma observação que me parece muito adequada aos sagitarianos “ixiônicos”. Há neles, no eu visível, em maior ou menor grau, um certo teriomorfismo equino, muitas vezes visível por um rosto impregnado de tristeza, a refletir a grande pressão da vida instintiva, animal, sobre possíveis aspirações à transcendência. 




BELEROFONTE   E   A   QUIMERA  ( MOSAICO )

Além disso, há a considerar que o tipo “ixiônico” parece guardar muitas marcas do signo anterior, nele predominando um lado animal, mais “escuro”, menos consciente, enquanto no primeiro tipo, inspirado por Kiron, o aspecto humano, mais iluminado, costuma se revestir de impulsos ascensionais mais firmes. Da história dos centauros é que vêm para os do signo, onde o lado animal prevalece, traços como a irracionalidade, a insolência, a falta de domínio dos sentidos. Para aqueles que muitas vezes  julgam ter alcançado o terceiro nível do signo, comuns a falsa autoconfiança, a presunção, que a história do herói Belerofonte talvez descreva melhor do que qualquer outra.

É a partir deste ponto que podemos também definir, de outro modo, como fizemos com relação a Ixion e Kiron, dois grandes tipos do signo, complementares àqueles: o introvertido, que enxerga longe, e o extrovertido, que tem a paixão dos caminhos, a necessidades dos largos horizontes. Um é vertical (angulação de 45º), o outro se projeta só no horizontal. O que fica claro para nós, a partir destas cogitações, qualquer que seja o tipo sagitariano, é que as conexões próximas com o mundo, estabelecidas através de Gêmeos (signo oposto ao de Sagitário, que governa o mental inferior e as pequenas viagens), se ampliam na direção das conexões de longo alcance (grandes viagens) ou com a finalidade de integrar o social e o espiritual. Com relação a estes, supera-se a individualidade, sendo possível chegar-se ao metafísico. O ser se unifica pela correta compreensão dos seus três níveis: o animal (instinto) se submete ao racional e este se põe a serviço do espiritual, como já foi dito.


KIRON , MESTRE  DE  AQUILES
As cinco grandes artes ensinadas por Kiron a seus discípulos foram a Hípica, a Cinegética, a Mântica, a Agonística e a Iátrica, entendidas tanto literalmente como metaforicamente. A Hípica é, numa palavra, a arte de dominar cavalos. Metaforicamente, como se disse, será a arte do domínio do psiquismo inconsciente, das forças obscuras que “vivem” na interioridade do homem, que o animal simboliza. Se o cavaleiro não for mestre da montaria, ele será “conduzido” pela besta,  cavalgado pelo seu psiquismo inconsciente, se transformando num “cavalo”.


MISTÉRIOS  DE  ELÊUSIS
Nos cultos dionisíacos, como nos mistérios de Elêusis, dizia-se que os seus adeptos eram cavalgados pelo deus, sendo essa uma das razões pela qual há nas religiões de mistério e nos cultos das Grandes-Mães tantas figuras hipomorfas. Os sátiros, os silenos, as mênades, as figuras e personagens ligados a cultos orgiásticos ou nos quais a vida inconsciente domina a consciente, costumam ter nomes em cuja composição entra frequentemente o radical hipo ou hip: Hipólito (filho de Teseu e de Antíope, amazona); Hipe (filha de Kiron, raptada por Éolo); Hipo (jovem beócia, filha de Cédaso); Alcipe (filha do deus Ares); Melanipo (filho do deus Ares), Hipocoonte (envolvido em lutas pelo trono de Esparta), Hipodamia (princesa de Pisa, na Elida), Hipóloco (filho de Belerofonte) etc. 



BATALHA   DAS   AMAZONAS

Uma das histórias da mitologia grega mais ligadas a cavalos é a das Amazonas. Certas passagens da crônica dessas guerreiras deixaram lembrança na vida dos povos. A de Pentesileia (a que luta e sofre por seu povo, etimologicamente), filha do deus Ares, rainha das
AQUILES E PENTESILEIA
J.H.W. TISHBEIN, 1751-1829
mulheres guerreiras, é uma das mais notáveis. Depois da morte de Heitor, ela seguiu para Troia para lutar ao lado dos troianos contra os aqueus. Muito corajosa, excepcional guerreira, sempre deu demonstrações de muita bravura nos campos de batalha. Enfrentou Aquiles de igual para igual, mas morreu ao ter o herói aqueu trespassado o seu seio com uma lança. Diante da bravura de Pentesileia e de sua beleza, Aquiles se comoveu muito, chegando às lágrimas. Um de seus companheiros, Tersites, covarde e atrevido, ao tentar ridicularizá-lo pelas lágrimas derramadas diante do corpo de Pentesileia e além do mais tendo procurando desfigurá-la, foi morto a socos pelo nosso herói.

Outro exemplo, é o de Antíope, irmã de Hipólita, rainha das amazonas. Vencida por Teseu (sexto trabalho de Hércules), por ele será desposada, da união nascendo Hipólito (etimologicamente,
STRABON
aquele que libera os cavalos), mais tarde enteado de Fedra, iniciado nos cultos de Ártemis. Digno de registro é o fato de que todos os heróis gregos que lutaram contra essas guerreiras se impressionarem muito com elas, pela sua capacidade de luta, pela sua beleza, inclusive a elas se unindo muitas vezes. O famoso geógrafo Strabon (58 aC-25 dC), que muito estudou a origem dos povos da antiguidade, deixou registros sobre elas. Fala de várias gerações de mulheres belicosas que lutavam a cavalo, vivendo ao norte da África, na Líbia. Abandonando a vida nômade, passaram a viver na ilha da Samotrácia, ilha grega do mar Egeu.

Com efeito, as amazonas sempre foram consideradas como as primeiras cavaleiras da História. Extremamente hábeis, elas pareciam fazer um só corpo com as suas montarias, percorrendo as estepes ao norte do mundo grego, embriagadas de liberdade. Traços dessas mulheres podem ser encontrados na Europa, na região do Cáucaso e na Cítia, na Ásia Menor, e principalmente nas margens do mar Negro. 


AMAZONA  ( ESCULTURA  EM  MÁRMORE )
Grandes caçadoras, vivendo da pilhagem, habilíssimas no arco e na lança, uma vez por ano “encontravam-se” com homens, por elas raptados, a fim de garantir sua sobrevivência. As meninas que nasciam desses relacionamentos eram educadas para se tornarem futuras amazonas. Os meninos eram devolvidos ao mundo masculino ou mortos, raramente sobrevivendo. Atribuem-se a elas a fundação de muitas cidades e de templos, especialmente o de Éfeso, na costa da Ásia Menor, dedicado a Ártemis, deusa muito cultuada por elas, templo considerado uma das sete maravilhas do mundo, incendiado por Erostrato em 365 aC. Há registros de que elas teriam invadido e se apoderado da cidade de Troia, perecendo nos combates então travados a sua rainha, Marpessa.

CAVALARIA  MEDIEVAL
Como afirmamos em Sagitário (2), desde a antiguidade grega  que o aspecto noturno do cavalo, como símbolo do psiquismo descontrolado do homem, veio sendo atenuado, suavizado. Um grande esforço aconteceu nesse sentido já nos primeiros séculos da Idade Média quando a cavalaria medieval passou a ser considerada como um código de honra de uma aristocracia marcialmente orientada. Floresceu mais esse entendimento entre meados do sécs. XII e XVI. Seu estudo à luz da astrologia é muito importante para uma compreensão mais rica e abrangente dos valores sagitarianos.

A influência religiosa da Igreja católica foi muito grande sobre o mundo da cavalaria. Com sua ação, a Igreja católica procurou mudar a noção do chamado comportamento cavaleiresco. Procurou ela conter de algum modo o ímpeto guerreiro, dando um outro sentido às virtudes da bravura e da coragem, tornando o cavaleiro mais gentil, menos violento, trazendo ideias de respeito pela vida e da dignidade humana, até mesmo em ocasiões de envolvimento com inimigos mortais.


TORNEIO   MEDIEVAL

Nesse período, outro elemento que se inseriu fortemente na história cavaleiresca foi o feminino. As mulheres passaram a frequentar como espectadoras os torneios, as justas que começaram a se realizar. As ideias do cavaleiro servir à sua dama se firmam, ganhando elas uma expressão literária, as chamadas produções do amor cortês, do qual passa a fazer parte uma grande quantidade de símbolos, lembranças e emblemas femininos que o cavaleiro levava consigo ao partir para as suas viagens e aventuras. O ideário cavaleiresco da época (séc.XIII) procurou fixar, dentre as obrigações do cavaleiro,  quatro principais: a) repudiar o falso julgamento e a traição; b) honrar as mulheres; c) assistir à missa diariamente; d) jejuar às sextas-feiras.


LA   DAME   À   LA   LICORNE

Um dos documentos básicos medievais, de grande expressão artística, no qual o cavalo e a mulher aparecem associados é a famosa tapeçaria de La Dame à La Licorne, já mencionada. Essa peça é formada por seis tapeçarias confeccionadas entre os sécs. XV e XVI, para Jean Le Viste, um importante magistrado da época. Em cada uma das seis grandes partes do conjunto, sob um fundo azul de millefleurs e de animais, uma jovem mulher é representada, cercada por emblemas heráldicos, notadamente um leão e um licorne (unicórnio). O conjunto, hoje no Museu de Cluny, forma uma a alegoria sobre os cinco sentidos, apresentando a sexta parte a inscrição à mon seul désir, que podemos traduzir como segundo meu livre arbítrio, ou seja, sem submissão aos sentidos.

O licorne é um animal fabuloso, que possui o corpo de um pequeno cavalo branco, com um chifre, a cujo simbolismo sua imagem parece se ligar de modo especial. Símbolo fálico, o chifre evoca aqui ideias de fecundação espiritual no plano humano, no plano da matéria. Ctônico e infernal na origem, o cavalo se torna branco, solar, passando ele a simbolizar aqui o controle dos sentidos pela intervenção do feminino. A inspiração é grega, como a encontramos na história do corno da abundância, criado por Zeus, a partir dos chifres da cabra Amalteia). A Igreja católica, na Idade Média, encampou a lenda do unicórnio com a conotação de que esse animal fabuloso só poderia ser capturado por uma virgem, o que deu à história e às suas representações um sentido religioso, enaltecendo-se sempre o mundo feminino e a sua pureza. 

O cavalo, como vimos, na figura do centauro, simboliza a parte
KIRON  ( VASO  GREGO )
instintiva, o potencial energético, que deverá ser encaminhado para fins elevados. Toda esta simbologia transforma, sem dúvida, a figura do centauro Kiron numa das mais belas imagens criadas para representar a trajetória evolutiva do animal ao homem superior. O grande alcance desta representação se amplia se lembrarmos que, segundo a astrologia, as partes do corpo humano têm relação com os signos. As coxas (região coxo-femural) são exatamente o lugar onde se concentra a energia dos nativos do signo de Sagitário, área corporal de extrema importância para os cavaleiros, na medida em que envolvem as ilhargas do animal, região do abdome e das costelas.

A mitologia grega nos deixou várias histórias de heróis e de suas montarias, histórias que, se interpretadas à luz da astrologia, nos oferecem muitas ilustrações sobre o mundo sagitariano. Uma delas, muito instrutiva, é a de Belerofonte, acima mencionado. Como ocorre com muitos heróis gregos, Belerofonte tinha dois pais, um divino e um humano. Seu pai divino era Poseidon, deus dos oceanos e dos mares. A mãe chamava-se Eurínome, uma princesa, filha do rei de Mégara. Seu pai humano era Glauco, este por sua vez filho Sísifo, o inteligente e esperto rei de Corinto, conhecido como o mais inescrupuloso dos mortais, um herói que se transformou num dos maiores  criminosos da mitologia.



PÉGASO, PALAS  ATHENA  E  BELEROFONTE ( J. BOECKHORST , C.1680 )  

Da casa real de Corinto, Belerofonte, depois de inúmeras aventuras, feitos e malfeitos, conseguiu, com o auxílio de Palas Athena, domar Pégaso, o que lhe deu condições de praticar excepcionais atos heroicos como o de matar a Quimera, pavoroso monstro, de vencer  um povo selvagem, os Solymos, filhos de Ares, e suas aliadas, as Amazonas, e de eliminar os piratas que infestavam as costas da Cária.  Casado, com filhos, reconhecido como herói, tudo parecia ir bem, vivendo nosso herói, reverenciado por todos. Sem que ninguem explicasse, um certo dia, tomado por imensa e incontrolável hybris, tentou Belerofonte, montado no Pégaso, invadir o Olimpo, na esperança de conquistar a imortalidade. Desconhecendo o seu metron, tentou ultrapassar limites que nunca deveria ter rompido. Fulminado por Zeus, foi devolvido à Terra. Zeus não o matou, porém. Fez com que sobrevivesse, rebaixado, humilhado e esquecido por todos, perdido, a perambular pelos caminho da Terra. Sua morte não é registrada pelo mito. 

CONSTELAÇÃO
Quanto a Pégaso, foi ele colocado nos céus na forma de uma constelação boreal, numa região situada entre o final de Aquário e o início de Áries. Influencia essa constelação os humanos principalmente através de sua estrela alfa, Markab, predispondo-os a um comportamento ambicioso, vaidoso, entusiasta, caprichoso, mas falho quanto às suas avaliações. Os gregos, como se sabe, têm um ditado: Os deuses enlouquecem aqueles a quem querem perder. Tomar um lugar entre os olímpicos, torna-se imortal, desposar Hera? Mais outro: Quanto maior a ambição, maior a queda. Belerofonte sonhou alto demais, foi além do seu metron, um dos maiores pecados sagitarianos. 

Evidentemente, os discípulos de Kiron eram exímios cavaleiros. No entanto, pelas lições do centauro-mestre, aprenderam também que a Hípica por ele ensinada dizia mais respeito ao controle da sua vida interior do que propriamente à sua habilidade com os animais. Foi a partir destas lições de Kiron que Asclépio, como deus médico, pode desenvolver no seu santuário de Epidauro conceitos como o  de nooterapia (terapia da mente), que levava à metanoia  (transformação de sentimentos), conceitos sempre associados, por exemplo, dentre outras práticas, à oniromancia (interpretação dos sonhos).

Inseparável do homem como montaria por milhares de anos, esta dialética noturna e diurna do cavalo, lunar e solar, se quisermos, se fixou simbolicamente no funcionamento da sua vida psíquica. Para que o animal se tornasse solar, celeste, cabia ao cavaleiro assumir o seu controle, adquirindo uma técnica ensinada por Kiron. Na antiga
USHAS
índia, lembre-se, este cavalo solar era chamado de asha, palavra que significa percuciente, perspicaz, penetrante, numa referência ao poder que tem a luz de penetrar e clarear tudo. Asha era palavra usada também com o significado de desejo e espaço. É por essa razão que os Ashwins (nome do signo de Gêmeos), os Dioscuros védicos, mestres cavaleiros, na astrologia hindu, vêm montados a cavalo, trazendo consigo, Ushas, a deusa da aurora, uma ilustração da transição das trevas para a luz. 

Outra arte ensinada por Kiron aos seus discípulos era a cinegética, a arte de caçar com cães. Participando de um rico universo simbólico, o cão, dentre as suas múltiplas funções, trouxe da pré-história para o mito a de guia psicopompo, guia do homem na noite da morte depois de tê-lo acompanhado à luz do dia. Temos registros em muitas tradições de cães que quando da morte de seu dono foram sacrificados para ajudá-lo a encontrar o bom caminho na vida depois da morte. O dom de clarividência que o cão tem, a sua familiaridade com as forças invisíveis, fez dele um companheiro inseparável do caçador, um farejador, um indicador de trilhas que levam à boa caça. 

TAROT
A moderna psicologia liga o cão ao processo da individuação do ser humano considerando-o como representante do primeiro estágio da sua evolução psíquica. Na astrologia e no Tarot encontramos estas mesmas ideias, já abordadas neste blog, no item constelações austrais, nos tópicos referentes às constelações do Cão Maior e do Cão Menor. A arte cinegética que Kiron ensinava aos seus discípulos é, se a iluminamos com a astrologia, metaforicamente evidente: é a arte de caçar oportunidades de crescimento. 

A cinegética de Kiron tinha por objetivo maior, além de elevar as pressões do lado animal, possibilitar ao discípulo a aquisição de um mental superior que o pusesse em contacto com o mundo espiritual. Um mental  que tanto o ajudasse a discriminar como decidir quanto  ao rumo de suas ações, de modo que cada uma delas pudesse beneficiá-lo, mas que isto não significasse a perda da perspectiva espiritual, ou seja, a de que o Todo (as pessoas e o mundo natural) fosse igualmente ou até mais favorecido. O ensinamento de Kiron respondia a objetivos que valorizassem a vida espiritual, interesses muito diferentes daqueles a que se entregava a humanidade, sempre desejosa de satisfações passageiras, presa a insaciáveis prazeres sensíveis. 


DHANUS
Crescer no sentido aqui colocado tanto poderá significar progresso material, conquista de posições mundanas como, sobretudo, se quisermos melhorar realmente o mundo em que vivemos, buscar conhecimentos moralmente orientados para inspirar nossas ações. É neste sentido que a cinegética de Kiron se aproxima muito da visão que os antigos povos védicos tinham de Dhanus (Sagitário). 

Para tanto será preciso considerar que conhecimento deve ser informação processada e transformada em experiência pelo indivíduo. Como atividade intelectual, a aquisição de conhecimentos é processo através do qual, em função da informação recebida, questionamos, indagamos, relacionamos e comparamos as coisas do mundo. Só assim o conhecimento poderá ser acrescentado a um repertório individual que tanto eleve intelectualmente o homem como o espiritualize.  

Onde obter conhecimentos hoje? Lembremos que atualmente, se nos restringirmos aos conceitos urano-geminianos vigentes, baseados sobretudo na renovação constante das informações em função de critérios de obsolescência  programados pelo Mercado,  com um instrumental tecnológico adrede preparado, pouco ou nenhum tempo teremos para criticar e assentar as informações, a fim de transformá-las em conhecimento, e muito menos distribuí-las como sabedoria. Este é hoje um perigo que, como nunca aconteceu antes historicamente, ronda o homem moderno, incentivando-o a passar os seus dias e noites digitando computadores, tablets, notebooks e smarts etc sem nenhuma noção de quem seja Kiron com as suas flechas.

É preciso lembrar que Sagitário propõe um estágio de desenvolvimento através do qual podemos ativar nossas energias vitais num grau máximo de expansão e mobilidade. Visão ampla,
CONSTELAÇÃO   DE   SAGITÁRIO
alargamento de níveis de consciência, pulsações criativas, viagens físicas, mentais ou espirituais, exploração de novos meios de expressão. Tudo isto nos é indicado nos céus se sabemos olhar para  a constelação do centauro Kiron, que parece apontar a flecha para a estrela Antares, o coração vermelho de Escorpião, ao mesmo tempo em que parece, com as suas estrelas, se abrir para uma enorme nuvem estelar, composta de milhões de sóis, a nuvem mais luminosa da Via-Láctea, e também para gigantescas nebulosas e massas escuras de poeira cósmica.






sábado, 4 de março de 2017

GÊMEOS (1)





Os gêmeos, em todas as culturas, simbolizam a dualidade ou as contradições internas do ser humano. Todos os heróis gêmeos na mitologia indo-europeia são, no geral, protetores, curadores e salvadores. Representam oposições que, ao final, podem também se complementar em sínteses, vida-morte, aurora-poente, vertical-horizontal, montanha-vale etc. Os mais famosos gêmeos são os nascidos de uma divindade, um pai imortal, e de uma mãe mortal, virgem, uniões que constituem assim os que os antigos gregos chamavam de hierogamia. Os gêmeos, nos mitos, costumam também ter poderes especiais que lhes dão uma numinosa personalidade sempre inspiradora de temor.


CATEDRAL  DE  AMIENS
Podem os gêmeos atuar no sentido do bem ou do mal, conforme o caso. Em muitas culturas, o nascimento de gêmeos é um mau sinal, sendo, por isso, um deles sacrificado. Em muitas regiões da África negra ou do Nilo, por exemplo, a mãe que tem filhos gêmeos pode ser repudiada por seu marido. Por outro lado, entre os índios norte-americanos, os gêmeos eram encaminhados para a feitiçaria.

De um modo geral, independentemente do modo pelo qual apareçam, perfeitamente simétricos ou assimétricos (um obscuro, outro luminoso; um espiritualizado, outro materialista; um voltado para o céu, outro para a terra), os gêmeos representam não só aspectos da dualidade das forças que atuam no cosmos, forças que raramente se unificam, mas, sobretudo, a ambivalência dessas forças, o seu jogo, sempre em constante movimento, ora se equilibrando, ora se dispersando, uma contradição que não se resolve nunca.  Daí os gêmeos aparecerem associados às encruzilhadas.

HÉRCULES  E  ÍFICLES
Os mitos que nos falam de gêmeos, especialmente os gregos, costumam acentuar bastante o que os distingue, a começar pelo pai. Como no caso de Hércules e Íficles, nascidos da mesma mãe, Alcmena, ao mesmo tempo, mas o primeiro
GILGAMÉS E ENKIDU
sendo filho de Zeus e outro filho de Anfitrion, pai mortal, marido de Alcmena. Os mitos também podem tornar gêmeos os que nasceram separados, de mães e pais diferentes. É o caso de Gilgamés e de Enkidu que se tornaram gêmeos quando, em combate singular, descobriram, um no outro, o que faltava a cada um. 

Os gêmeos simbolizam também um grande desejo de unidade. Por isso, o número dois, que os descreve, é o mais ambivalente dos números, representando o princípio binário. Pode sugerir tanto a síntese como a divisão, a atração como a repulsão, o equilíbrio como o conflito. No simbolismo chinês, por exemplo, o dois é um número aziago (yin), fraco, desprovido de um centro. Divindades duplas representam amiúde princípios opostos ou aspectos contrários de uma só realidade. Como número associado à divisão da unidade primordial (Geia-Urano, Terra-Céu, por exemplo), o dois está ligado ao princípio feminino, à união, ao amor, à fertilidade, ao crescimento, à dinâmica da criação e  à sua destruição (já a passagem do dois ao três significa a multiplicidade).

Entre os mesopotâmicos, foram os assírios que nos deixaram, em

tempos muito remotos, uma bem elaborada ilustração celeste e portanto astrológica do mundo geminiano. A atividade intelectual entre os assírios e babilônicos estava colocada sob a égide do deus Nabu, filho de Marduk, o campeão dos deuses, vencedor de Tiamat, o Caos. O prestígio do pai sempre bafejou Nabu favoravelmente. Marduk era uma divindade de características agrárias, tendo por atributo a enxada. Era a maior das divindades, pois foi o único a enfrentar e vencer Tiamat. Nabu chegou mesmo a assumir algumas prerrogativas paternas. Uma de suas funções era a de gravar sobre as tabuinhas divinas os decretos divinos. Sua função, entretanto não era a de um simples escriba. Ele podia, a seu critério, aumentar ou diminuir o número de dias que cabia a cada um dos mortais viver. 


A irmã gêmea de Nabu, sua esposa também, chamava-se Tasmit. Era ela quem “iluminava os ouvidos” de modo a fazer com que as palavras pudessem ser mais facilmente ouvidas e compreendidas. Nabu havia inventado a escrita cuneiforme e a arte literária, principalmente o maior dos gêneros, o poético, sendo considerado como aquele que “iluminava os olhos”.


MAHABHARATA
Entre os hindus, a presença dos gêmeos é marcante. No Mahabharata, um antigo poema épico, fala-se da existência de dois celebrados irmãos gêmeos chamados Sunda e Upusunda. Segundo a história, viviam juntos e não podiam ser mortos por ninguém, a não que se matassem mutuamente. Regiam os mesmos domínios, viviam na mesma casa, dormiam no mesmo leito, sentavam-se juntos, comiam no mesmo prato. Por terem exatamente a mesma aparência e a mesma disposição e hábitos, pareciam um único ser dividido em duas partes. 

ASHVINS
Desde a antiga astrologia hindu (Jyotish), o signo de Gêmeos tem o nome de Mithuna. “Vivem” neste signo os Ashvins, divindades cujo nome vem de uma raiz sânscrita que significa “encher”, “ocupar o espaço.”, pois têm a ver com a multiplicação. A razão desta denominação se prende ao fato de que os Ashvins se estendem por todas as partes, estão em todos os lados, um dos gêmeos representando a luz e outro  a umidade. Alquimicamente, lembremos, o elemento ar, relacionado com o pensamento, a vida intelectual, é formado por duas  qualidades primitivas, o quente e o úmido. Como a astrologia nos explica, o signo de Gêmeos é do elemento ar, formado pelo quente e pelo úmido, com uma participação maior do primeiro, uma pequena contribuição do seco. Isto nos permite entender a natureza expansiva do signo, sobre a qual o seco pode exercer algum tipo de controle. 

Alguns comentaristas, entretanto, nos dizem que os Ashvins têm este nome porque vêm montados em cavalos. Outros, ainda, nos falam de uma dualidade sempre presente neles, o dia e a noite, o
BODHADRUMA
céu e a terra, o alto e o baixo e assim por diante. Não é por acaso, aliás, que, no budismo, essa árvore iluminação chama-se, em sânscrito, ashvatta ou pippala, árvore sob a qual os cavalos se aquietam. Outro nome sânscrito da árvore é bodhadruma, que significa a árvore da perfeita sabedoria. Os ocidentais dão a ela o nome de ficus religiosa, a mesma que aparece no mito de Prometeu e, segundo muitos, na Bíblia.   

Os cavalos em quase todas as tradições são símbolos do psiquismo inconsciente, da impetuosidade dos desejos, de um lado irracional no homem, animais associados ao mundo subconsciente, infernal, ctônico, que lembra as trevas, a escuridão. As palavras pesadelo, em francês e inglês, cauchemar e nightmare, respectivamente, guardam esta relação, significando a primeira "opressão do cavalo" e a segunda "besta noturna". 

SIDARTA   GAUTAMA
Na flora indiana, a mais antiga referência que temos sobre a pippala nos diz que a sua madeira é excelente para a produção do fogo, símbolo da consciência iluminada. No budisno, a árvore tem grande destaque. Sentado em baixo dela, foi numa noite de Lua cheia, no mês de maio, em Bodhi Gaya,
HUEN  TSANG
ao norte da Índia, que o príncipe Sidarta Gautama, se iluminou, ou seja, aprendeu a controlar o seu turbilhão mental e emocional. Histórias sobre essa árvore, chamada popularmente de bo tree no inglês dos indianos, chegaram até nós por causa de um historiador e viajante chinês daqueles tempos, chamado Huen Tsang.   

USHAS
Dentre todas as divindades védicas, os gêmeos hindus, os Ashvins, ocupam uma posição muito diferenciada. São eles que trazem a primeira claridade para o céu ainda escuro, a alva, que antecede a aurora. Preparam o caminho para que Ushas, a deusa da aurora, traga, por sua vez, a claridade para que o Sol possa surgir. Representam, pois, a transição entre a noite e a manhã, isto é, fazem com que a noite que passe a ser dia. Com eles, numa outra leitura, a mente humana se ilumina, saindo, como diz a alquimia, da nigredo, das trevas, da indeterminação, do negro, da vida subconsciente, para iniciar (ou não) a sua caminhada em direção da consciência plenamente iluminada, rubedo, representada pelo vermelho. Antes de chegar a esta última etapa, temos mais duas, a albedo, representada pelo branco, e a citrinitas, representada pelo amarelo. Estas quatro etapas, como se pode ver, simbolizam o caminho do Sol desde que sai da noite e chega ao meio-dia, consciência plena, como se disse, Sol vertical, ausentes as sombras. 


ASHVINS
Eram os Ashvins também médicos, informando-nos a sua história que podiam devolver a visão ao cego, a saúde ao coxo e ao caquético. Eram os protetores especiais do lento e do torpe e leais amigos das solteiras em idade avançada. Tinham a ver com o amor e o matrimônio enquanto providenciavam a união ou o reencontro dos se amavam. Por numerosos registros ficamos conhecendo que estas divindades eram capazes de curar os enfermos, de restituir a juventude e o vigor ao ancião e ao decrépito. Podiam salvar um homem de morrer afogado, levando-o são e salvo para a sua casa. 

Num dos mais famosos episódios de sua crônica, conta-se que a perna de Vispala, que havia sido cortada numa batalha, foi substituída por eles por uma de ferro. Devolviam a vista e a capacidade de andar ligeiro a cegos e a estropiados fisicamente. Como resultado destas e de outras narrações, os Ashvins eram invocados por quem queria obter descendência, riqueza, vitória, destruição dos inimigos, proteção de sua casa e de seu rebanho.

Uma outra história nos revela que os Ashvins foram inicialmente considerados impuros (é por isso que nenhum brâmane podia ser médico, pois a profissão o desacreditava para a função sacerdotal). Como, porém, ninguém podia passar sem médicos, foram eles purificados, sendo-lhes então permitida a convivência com os outros deuses. Lembremos que eles são filhos de Surya, o Sol, a primeira das divindades médicas. O mito dos Ashvins, como se pode ver, pertence tanto à esfera do divino ou cósmico como do humano ou histórico. Estas duas vertentes acabaram se fundindo. O vínculo que os une está certamente num grande mistério da natureza: a associação entre os efeitos da luz e da arte curativa em tempos muitos remotos. 

Símbolo do conhecimento ou da revelação, a luz vem sempre depois das trevas, sucedendo-a, uma verdade cósmica, mítica,
DIVINOS  CAVALEIROS
astrológica e psicológica (post tenebras lux), que podemos encontrar quando pensamos na nossa iluminação interior. A luz como vida, saúde e felicidade é tema encontrado em todas as tradições esotéricas ou não. É por essa razão que dois dos cinco Pandavas (personagens do poema épico Mahabharata, que representam o Bem), os irmãos Nakula e Sahadeva, são símbolos dos irmãos divinos cavaleiros (arquétipos). 


Na hierarquia celeste do mundo védico, os Ashvins representam a terceira função, a terceira casta, a dos agricultores-comerciantes, a dos Vaishyas. São eles que trazem a saúde, a juventude e a fecundidade. Conhecendo o segredo das plantas, são, como disse, os médicos celestes. Foram eles que, com o auxílio do sábio-mágico Angirasa, que descobriram o Soma, a bebida da imortalidade. Sempre cercados por uma atmosfera maravilhosa, eles salvaram o Prazer (Bhujyu), que se afogava, e o Apetite (Atri), que um demônio havia jogado num caldeirão fervente.


CHYAVANA
Diz o mito que Indra insistia em não lhes reconhecer a divindade nem o direito ao consumo do Soma, pois eram divindades menos importantes (3ª classe) e impuros ritualmente, como está acima. Mas o sábio Chyavana (Atividade), que havia recebido deles novamente a juventude, conseguiu fazer com que Indra os aceitasse entre os deuses. Conta o Rig Veda, que Chyavana estava decrépito, velho, bastante alquebrado, e que os Ashvins cuidaram dele, revitalizando-o, rejuvenescendo-o, tornando-o, de novo, "aceitável" para a sua mulher. 

Chamados de Os Inseparáveis (Nasatyas), os Ashvins têm uma tez dourada, são jovens, ágeis e rápidos, podendo tomar as formas que desejarem. Têm uma só mulher em comum, chamada Surya, que tem o mesmo nome do pai deles. Raramente são chamados individualmente pelos seus nomes. Um se chama Nasatya (O Sem-mentira) e o outro Dasra (O Milagroso). Os adjetivos que são acrescentados ao seu nome indicam sempre juventude, beleza, esplendor, velocidade, vivacidade e sua arte de curar. Filhos de Surya, atravessam o espaço num carro dourado, no qual trazem Ushas, a Aurora, ou vêm algumas vezes a cavalo, trazendo-a na garupa. Como vanguarda da luz, são os gêmeos parentes de Pushan (O Progresso).

O nome de Pushan lembra providência, aquele que, no caso, alimenta, nutre, com a sua luz, trazendo também a cura. Pushan é o protetor e o multiplicador das posses humanas e dos rebanhos, atuando também como guia dos que vão para o Outro Lado. 

Uma das mais interessantes genealogias dos Ashvins nós a encontramos no Mahabharata. Lá se conta que Samjña (O
SURYA
Conhecimento intuitivo), filha de Tvashiri (A Indústria), desposou Dharma (A Lei da Perfeição), que é Vivasvat (A Lei Ancestral), cujo símbolo visível é Surya, o Sol. Incapaz de suportar o brilho de seu esposo, Samjña deixou ao lado de Surya sua sombra e, tomando a forma de uma jumenta (Ashvini), entregou-se a uma vida ascética. Dharma, por sua vez, tomando a forma de um cavalo, foi à sua procura. Quando a encontrou e a ela se uniu, dois filhos gêmeos nasceram. Pela razão de sua mãe ter a forma de uma jumenta, os gêmeos receberam o nome de Ashvini-Kumaras (Os Filhos de Jumenta). A jumenta, ou asna, é, como se sabe, em muitas tradições, símbolo da paz, da humildade, da pobreza, da paciência e da coragem. 


ASHVAMEDHA
Um dos mais famosos rituais védicos ligava os Ashvins ao sacrifício dos cavalos (Ashvamedha). Este sacrifício tinha relação óbvia com o cavalo como símbolo da impetuosidade dos desejos, da juventude sobretudo no que ela tinha de ardor, de fecundidade e de disponibilidade. Era um sacrifício ligado socialmente à segunda casta, a dos Kshatryas, a dos guerreiros. Nestes rituais, a imagem do cavalo era associada também a ideias de água corrente e de fogo, isto é, de força, de poder, de emoções que levam à ação. 

Conforme antigos textos védicos nos revelam, um hindu poderia procurar deus através de qualquer uma das formas pelas quais ele
ISHVARA
se manifesta. Para os hindus, o divino se apresenta continuamente sob uma infinita multiplicidade de aspectos diferentes e renováveis. Assim, cada hindu pode ter a sua visão pessoal do divino, a que chamam de Ishvara, um conceito de deus estritamente pessoal, de acordo com a sua possibilidade de apreendê-lo, segundo seu nível de consciência, a sua informação, a sua cultura etc. Esta visão, ao longo de sua vida, pode mudar, se o seu nível de consciência muda. Não é preciso dizer que tal concepção, para as religiões monoteístas, judaísmo, cristianismo e islamismo, é absurda, escandalosa.

NAKULA   E   SAHADEVA
Muitos desses deuses pessoais podem descer à Terra e se misturar com os humanos, aparecendo sob inúmeras formas e com os seus mais variados atributos. Assim, por exemplo, Indra, Agni e outros tomaram uma forma real (rei Nala) para se unir a uma princesa. Qualquer que seja a forma que tomem os deuses, muitos a tomam a forma humana para, dentre outras coisas, gerar filhos com mortais. Madri, uma das irmãs do rei de Madras, casada com Pandu, gerou dois filhos, gêmeos, Nakula e Sahadeva, quando" visitada" pelos Ashvins.


BATALHA   ENTRE  PANDAVAS   E   KURUS

Nakula é o quarto dos príncipes Pandavas. Seu pai mortal era Pandu, o divino, os Ashvins. Este príncipe foi especialmente treinado para se tornar um grande mestre da arte hípica. Sahadeva especializou-se na leitura dos astros, que estudou com Drona, brâmane, mestre dos Pandavas e também dos Kurus, personagens centrais do Mahabharata. 

Na astrologia, desde os tempos védicos, o signo de Gêmeos tem o nome de Mithuna, nome que em sânscrito que dizer a formação de um par. Esse nome também é dado tanto a pequenas estátuas que se encontram na entrada de qualquer templo como à manteiga (ghee) clarificada, muito usada na cozinha hindu e em muitos rituais védicos como ingrediente fundamental. 


PREPARANDO   O   GHEE

Clarificar é tornar mais claro, limpar de impurezas, purificar, resolver ambiguidades, ganhar concisão, tornar homogêneo, eliminar a escuridão, afastar o nebuloso. Assim, a visita a templos tinha (tem?)  por objetivo a clarificação (iluminação) da mente. Na cozinha, clarificar é operação através da qual algo turvo, escuro, um caldo, por exemplo, se estabiliza num aspecto mais claro. A manteiga clarificada é considerada na medicina tradicional hindu um rasayana (etimologicamente, veículo da essência), um alimento que tanto favorece a longevidade como o rejuvenescimento. Rasa é suco, nectar, essência, gosto. Na mitologia, é o fluxo divino personificado como uma deusa. 

A operação da clarificação (da mente) é obtida tanto através de uma visita a templos como encontrada na culinária indiana, na medicina
GANDHI
ayurvédica e em antigos métodos educativos (limpar a mente), tudo explicado pelo signo de Mithuna.  Lembre-se que este método aqui referido, equivalente à clarificação da manteira (ghee) foi desenvolvido, num passado já para nós muito distante, através de uma pedagogia chamada Segaon, nome de uma pequena cidade do Maharashtra, depois chamada Sevagram, onde viveu Gandhi.