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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

ARGO NAVIS





ARGO NAVIS é uma constelação que participa do simbolismo da barca e pode ser explicada por este nome, cuja origem está num radical egípcio (barc) que no grego deu baris, idos (embarcação) e passou ao latim vulgar como barica e, depois, ao latim tardio como barca. O nome é genérico e se aplica, em todas as culturas, aos mais variados meios de transporte marítimo ou fluvial. O campo
BARCA   DO   SOL
semântico é vasto. Falamos de barcas que, no lugar de carros, transportam corpos celestes (Barca do Sol) e também de barcas que podem levar as almas para o Outro Lado. Os deuses egípcios tinham barcas para navegar pelo Nilo. Encontramos em muitos túmulos megalíticos, já no período final da nossa pré-história, desenhos de barcas que descreviam a viagem à Ilha dos Bem-aventurados.

LIVRO   DOS   MORTOS
O Livro dos Mortos egípcios, por exemplo, descreve a travessia das regiões do mundo inferior que defuntos deviam fazer para chegar ao Duat (Outro Lado), enfrentando vários perigos, demônios, serpentes etc. Já os hindus adeptos do Yoga comparam o corpo humano a uma embarcação que serve de veículo ao homem para chegar à outra margem do do oceano da existência. É por esta e por outras razões que, em muitas tradições, a barca, simbolicamente, aparece associada à figura materna, representando a segurança na viagem cheia de perigos que é a vida humana.


SANTO   AGOSTINHO  ( SANDRO  BOTTICELLI )

No geral, a barca simboliza não só a viagem que o ser humano faz do nascimento à morte, a travessia da vida, mas a que ele pode fazer depois da morte. A vida neste mundo é como um mar
BARCA   EGÍPCIA
tumultuoso que é preciso atravessar para levar nossa barca a um bom porto. Se conseguirmos resistir às tentações, ela nos conduzirá à vida eterna, diz Santo Agostinho. Para os povos do hemisfério norte, as terras do sul eram misteriosas, cheias de encantamentos, de magia. Para chegar a elas, só com boas embarcações. A geografia mítica, em todas as tradições, está repleta de nomes sugestivos Atlântida (Grécia-Platão), Dilmun (mito de Gilgamés); a Insulae Fortunatae (latinos); a Ilha dos Imortais (China); Aztlan, ilha-montanha primordial dos astecas; Eldorado (América do Sul); Shangrilá (Tibet) etc.

CARONTE  ( G. DORÉ )
O meio privilegiado de transporte de que se valiam às almas para chegar ao Hades, por imposição divina, era a embarcação de Caronte, o famoso barqueiro. De olhar tenebroso, mal humorado, as almas quando entravam  na sua embarcação deviam lhe entregar um óbolo,  pois, se não o fizessem, nunca chegariam ao Outro Lado. Isto significaria para elas, evidentemente, a impossibilidade de reencarnar, desde que, é, claro, o julgamento infernal a que seriam submetidas lhes fosse favorável. 

O sonho coletivo das grandes distâncias, das grandes viagens, dos maravilhosos reinos, ilhas e montanhas, sempre foi, por outro lado, uma constante na história da imaginação do ser humano. A
TRANSPORTE   DE   MÚMIAS
literatura que existe sobre o tema é vastíssima. Os egípcios viram na constelação Argo a barca que os deuses Osíris e Isis usaram depois de um grande dilúvio que cobriu a Terra. Filho de Geb, considerado “o pai dos deuses”, o equivalente egípcio do Cronos grego, e de Nut, a deusa celeste da noite, identificada pelos gregos como uma espécie de Reia, Osíris, quando recebeu o poder do pai, teve que enfrentar com a sua irmã, Ísis, um dilúvio, apesar de ter sido aclamado como “mestre universal.”

Outra versão egípcia, entretanto, nos revela que a constelação representava a barca solar que Osíris usara para descer ao mundo infernal depois que sua irmã e esposa, Ísis, reconstituíra o seu
OSÍRIS , HÓRUS , ÍSIS
corpo, despedaçado por seu irmão Seth. Graças aos seus sortilégios, e ajudada por Thot, por Anúbis e por Hórus, Ísis conseguiu ressuscitar Osíris que, assim, adquiriu a imortalidade eterna. Ao invés de retomar o seu trono, preferiu se retirar da Terra e assumir a condição de deus do mundo subterrâneo, deus dos mortos e da psicostasia (pesagem das almas). Deus solar em sua viagem noturna,   Osíris descia ao mundo subterrâneo por meio da barca do Sol. Os faraós, quando morriam, faziam a mesma viagem que Osíris. Há que se mencionar ainda que no Egito as múmias eram colocadas numa barca funerária puxada por um pequeno carro em direção do túmulo.Aliás, a própria Terra era considerada pelos egípcios como uma barca que navegava nas águas primordiais. Havia duas barcas para Osíris: a do entardecer, crepuscular, para a sua viagem noturna, e a matinal, para a sua ressurreição.


MATSYA
Entre os hindus, esta constelação que chamamos de Argo Navis está relacionada com Matsya, o Peixe, o primeiro avatar do deus Vishnu. O objetivo desta encarnação do deus foi o de salvar Manu, progenitor da raça humana, homem mítico, ameaçado de morte pelo dilúvio. Adquirindo a forma humana, o avatar o salvou, fazendo-o subir numa barca (Argo, a constelação), juntamente com os Rishis (profetas), levando as sementes de todas as coisas que existiam sobre a Terra. 

O dilúvio ocorreu numa das noites de Brahma, durante o período em que ele, como a primeira pessoa da trindade hinduísta, estava
VEDAS
repousando no intervalo de duas criações sucessivas. Tudo submergiu então. Quando as águas baixaram, o Peixe passou instruções aos Rishis para que a verdade dos Vedas (escrituras sagradas) não se perdesse. O avatar ordenou a Manu que descesse da embarcação. Sentindo-se só, diante de tanta desolação, Manu fez sacrifícios aos deuses. Apareceu-lhe então uma mulher, que declarou ser sua filha. Unindo-se a ela, como dizem os textos, celebraram e praticaram árduos ritos religiosos, dando-se início assim ao repovoamento da Terra.  

Astrólogos cristãos, na Idade Média, viram nesta constelação a arca de Noé, embarcação por ele construída por ordem de Deus para salvar do dilúvio a si próprio, sua família e um par de cada espécie
ARCA DE NOÉ NO MONTE ARARAT
 ( SIMON  DE  MYLE )
animal. A arca tinha três andares; o de cima para os humanos, o do meio para os animais e o último para o lixo. Na cobertura da arca havia uma claraboia feita de uma pedra luminosa, já que os céus estavam obscurecidos por pesadas nuvens de chuva. Além da mulher, de seus três filhos e noras, dos animais, a arca conduziu também o gigante Og, rei de Bashan, que se manteve durante todo o dilúvio na parte externa da arca. Após a catástrofe, a arca pousou no monte Ararat. 

A versão sobre a origem desta constelação, incorporada pela
   ARGO
Astrologia, foi a que os gregos nos passaram através de sua Mitologia. A história tem como figuras centrais os argonautas, heroicos parceiros de Jasão que foram à Cólquida (Ásia Menor) em busca do Velocino de Ouro (mito a ser estudado no capítulo das constelações zodiacais – Áries). A nau Argo (branco cintilante, em grego) foi construída por Argos, filho de Frixo, num porto da Tessália, com a orientação de Palas Athena, a guia dos heróis.  


CARVALHO
Uma curiosidade quanto a Argo é que a madeira necessária à sua construção foi tirada de um bosque do monte Pelion, onde vivia o centauro Kiron. A madeira da proa, um carvalho, entretanto, foi trazida por Palas Athena de um bosque  sagrado de Dodona. Essa madeira era falante, tinha o dom da palavra, inclusive o da mântica, o que, com as informações que transmitia, auxiliava o piloto (kubernetes) a manter o curso da nau perfeito e seguro. 

ARGO   NAVIS
Devido ao seu tamanho (nos céus, vai de 10º de Câncer a 20º de Libra – l5º a 65º Sul),  Argo Navis foi dividida em quatro partes, mais asterismos que constelações: Carina, Puppis, Vela e Pyxis, ou seja, respectivamente, A Quilha, A Popa, A Vela e o Mastro, esta última parte também chamada de A Bússola ou O Compasso. Situada inteiramente no sul, a direção das estrelas desta constelação, como um todo, apontava para o hemisfério norte, para uma viagem na direção das terras do desconhecido.

Argo Navis, como símbolo, deve ser associada ao tema das viagens, ao rompimento de limites e à ampliação de horizontes. No fundo, tanto um grande desejo de mudança interior, de experiências novas, como insatisfação interior, recusa do que se é e/ou do lugar em que se está. Esta constelação sempre apareceu, em muitas
SONDA   ESPACIAL
tradições e culturas, associada à história de grandes de viajantes, nas mais variadas épocas, mítica ou historicamente: Hércules, Ulisses, os Vikings, Vasco da Gama, Colombo,  Richard Burton etc. Por causa do seu brilho e da sua posição, a principal estrela de Argo Navis, Canopus, foi utilizada pelas sondas espaciais americanas para fins de navegação. Essas sondas usam câmeras especiais conhecidas pelo nome de Canopus Star Treker. É de se lembrar ainda que Canopus está na bandeira brasileira como símbolo do estado de Goiás.  


PTOLOMEU  ( JOOS  VAN  GENT )
Para Ptolomeu, Argo Navis, através de sua principal estrela, alfa, de 1ª magnitude, Canopus, situada na Quilha,  a 14º 16´ de Câncer, e das demais, bem menos importantes astrologicamente, Miaplacidus, também na proa, Muhnithain, e Al Suhail, ambas na Vela, tinham características de Saturno e de Júpiter, sugerindo viagens longas, prosperidade, conhecimento. Os gregos deram o nome de Canopus à estrela que está na proa de Argo Navis para prestar homenagem ao piloto da nau capitânea da armada grega que, sob o comando de Menelau, partiu para atacar Troia. Canopus morreu quando retornava à Grécia, depois de terminada a guerra. 

RUÍNAS  TEMPLO  DE  CANOPUS
A morte de Canopus ou Canopo se deu quando o barco por ele pilotado fez uma parada na embocadura do rio Nilo, perto de Alexandria. Era ele quem trazia de volta à Grécia os reis de Esparta, Menelau e sua mulher, Helena, que fora raptada por Páris, príncipe troiano. Belíssimo, Canopus foi amado pela filha de Proteu, rei egípcio à época. Não tendo correspondido ao amor da jovem princesa foi amaldiçoado. Certo dia, quando se preparava
ÍNULA
para retomar a viagem de volta, foi picado por uma serpente, morrendo no ato. Menelau mandou levantar um suntuoso túmulo numa ilha da foz do Nilo, que tomou o nome de Canopus. O mito nos conta que Helena chorou tanto a morte do jovem piloto que de suas lágrimas nasceu uma planta até então desconhecida, a que deram o nome de helenion, depois chamada de ínula (inuma helenion), usada tanto na culinária (condimento) e na medicina (tônico aromático).



A estrela Canopus foi registrada por várias tradições. Os egípcios, bem antes dos gregos, já a haviam associado ao piloto do barco que fazia o transporte das almas para o Outro Mundo. A estrela de Canopus entre os egípcios e persas foi chamada por nomes que destacavam o seu brilho, a sua luminosidade, sempre no sentido da sabedoria. Canopus tinha para eles, ao lado de Sothis (Sirius), grande importância, alinhando-se a construção de muitos templos egípcios na sua direção quando do seu nascimento heliacal.  

Muitas culturas viram Canopus como a Estrela Polar do sul, o ponto onde terminava a linha que unia os polos, um ponto que se movia também conforme a precessão dos equinócios. Assim como o polo norte celestial completa um círculo a cada 26.000 anos aproximadamente, o mesmo acontecia com Canopus, no polo sul celestial. Os gregos associavam a estrela Canopus a Cronos, o maior dos titãs, (segunda dinastia), derrotado pelos olímpicos chefiados por Zeus (terceira dinastia). Lançado no espaço, Cronos caiu exatamente onde estava Canopus, decorrendo desse fato a identificação de Cronos como o Senhor do Tempo, o limite da duração, o Cronocrator, aquele que fixa os ritmos do universo. A direção sul, o lado que está à esquerda do Sol, é o caminho por onde vão as almas, conduzidas por Canopus, o piloto. É neste sentido que a estrela Canopus simboliza também os limites das possibilidades humanas, definindo o momento de transição entre a matéria, forma (Cronos-Saturno), e a alma que, como energia, faz o seu caminho de volta ao grande Todo.


SENHOR   DO   TEMPO

ANANKE
Canopus encontra-se atualmente a 14º 16´ de Câncer. Depois de Sirius, é a estrela mais  brilhante do céu. Sua influência, de natureza saturnina e jupiteriana, aponta para  ideias  de forma, limites (Saturno) e de expansão (Júpiter). Nos mapas, Canopus fala de novos caminhos, habilidade para conduzir, atitude cibernética (arte de pilotar, de conduzir bem uma ação), mas pede cuidado e controle para evitar a ação da Ananke. 




Ao lado das quatro grandes estrelas reais, conforme os persas as definiram (Aldebaran, Antares, Fomalhaut e Regulus), Canopus, juntamente com Sirius e Spica, ocupa uma posição muito importante nos céus, na medida em que todas elas apontam, com as devidas reservas, para benefícios e expansão. Canopus se situa no leme de Carina, trazendo augúrios de boa caminhada. O conceito grego que está por trás desta caminhada é o de patos, do verbo patein, andar. Patos é o caminho a ser seguido por cada ser humano, não o mais importante, idealizado, mas o pessoal, acabando por significar o próprio curso da vida de cada um de nós, um caminho que tanto pode ser seguido na terra, nas água ou no ar. Canopus nos leva à figura do que a língua inglesa denomina de pathfinder (path, caminho, mais finder, aquele que encontra; ou seja, aquele que sabe se conduzir, que encontra o seu caminho na selva, na imensidão dos mares, nas longas distâncias, ou através da arte, da ciência, da religião, da filosofia (9ª casa astrológica). 


SANTA   CATARINA
( CARAVAGGIO )
Os astrólogos da Índia identificaram Canopus como Agastya, um de seus Rishis (profetas). Etimologicamente, Agastya quer dizer o removedor de montanhas ou do imutável, representando como figura histórica o poder do ensinamento. Sua atividade era jupiteriana: foi mestre da gramática, da medicina e de outras ciências. 


Já os cristãos, desde os primeiros tempos deram o nome de estrela de Santa Catarina de Alexandria a Canopus. Esta estrela aparecia para os peregrinos gregos e russos que se dirigiam ao Sinai, naqueles antigos tempos, a um convento e a um santuário ortodoxo, erigidos para honrá-la. Catarina foi decapitada, tendo sido seu corpo, segundo a lenda, transportado por anjos até o alto do referido monte. 

Relacionada com sucesso, Canopus pede cuidado com relação a Ananke, conceito grego que significa coação, fatalidade. Na filosofia grega, ananke aponta para uma ação providencial que a própria vida cósmica deflagra (lei de causa e efeito) para 
ERÍNIAS  ( G. DORÉ )
restabelecer limites, o equilíbrio rompido, a desproporção. É um conceito feminino, atuando através dele várias divindades que combatem os excessos, as desmedidas, a hybris, o orgulho, a desmedida, a arrogância, a vaidade, a insolência. A figura maior da Ananke é Nêmesis, filha de Nyx, a deusa da Noite,  e que simboliza a revolta contra qualquer a injustiça cometida. Seus atributos são, por isso, a régua graduada, o esquadro, o compasso, o chicote e a espada. Ela cuida no sentido de fazer com que os que desejam fazer a experiência da felicidade a façam meritoriamente, sem perder o senso da realidade, sem invadir o espaço dos outros, sem prejudicá-los, respeitando limites.
CLAUDE   MONET
Por isso, ela curva os orgulhosos, ela pune todos aqueles que teimam em ultrapassar o seu métron. Quando a justiça deixa de ser equânime, Nêmesis (como as Erínias, por exemplo), em nome da Ananke, intervém porque todo descomedimento põe em perigo a estabilidade do cosmos, a ordem do mundo. Canopus pode ser estudada, por exemplo, dentre outros,  em mapas como os de Mao Tse-Tung e de Claude Monet. 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

SATURNO (4)

                                         




   JARDIM   DA   COAGULATIO
Na antiga Índia, as questões saturninas, principalmente as relacionadas com o tempo e os diversos aspectos da coagulatio, como as desenvolvemos no ocidente com base na mitologia greco-romana, terão que ser abordadas a partir de algumas elaborações cosmológicas, ao mesmo tempo filosóficas e religiosas, a seguir expostas. Para esta exposição, recorro às lições que nos são transmitidas por alguns textos upanishádicos. Para tanto, comecemos por algumas ideias básicas: no início, o 

universo era apenas um Ser (Sat), sem dualidade, um Ser puro, sem segundo, como está no Chandogya Upanishad. É a partir deste Ser que se coloca no vedismo e no hinduísmo que o sucede a origem dos deuses, do cosmos e dos seres humanos.

Sat é um radical indo-europeu que significa bastante, suficiente, aparecendo em grego em palavras com o sentido de saciedade (haden, saden); em latim, temos satis, satiare etc., com as mesmas ideias. Se quisermos mais, encontramos em inglês satisfy, satisfaction; em francês, satieté; em espanhol, satisfacer etc. Sat, em sânscrito, quer dizer existência pura, forma que a energia universal, o  Brahman,  tomará no seu eterno processo de aparecer, se manter sob infinitas formas, material e imaterialmente, e desaparecer. 

Para os antigos pensadores da Índia védica havia, além da existência perceptível, além das formas e das aparências, um estado causal, um contínuo não diferenciado do qual o mundo fenomênico não passava de um desenvolvimento aparente. Ao mais aparente suporte das formas perceptíveis dava-se o nome de espaço, um contínuo absoluto, sem limites, indiferenciado e indivisível. Era a localização dos corpos e o seu movimento que criava a ilusão de uma divisão que só se tornava real do ponto de vista da percepção. Por isso, todas as divisões do espaço em átomos ou em órbitas planetárias são apenas aparentes e suas dimensões só existem do ponto de vista das percepções humanas. Diziam os pensadores védicos que o interior de um átomo era tão vasto quanto o de um sistema solar.


AKHANDA  -  DANDAYAMANA
Da mesma maneira, o substrato do tempo era chamado por eles de akhanda-dandayamana, que podemos traduzir como “semelhante a um bastão indivisível ou contínuo”. O tempo absoluto era uma eternidade sempre presente, inseparável do espaço. As formas relativas do tempo são o resultado da divisão aparente do espaço pelo ritmo dos corpos celestes. Para que um lugar, uma localização ou uma dimensão possam existir é preciso que algo seja neles colocado, um corpo, uma forma qualquer. O não existente não pode ter lugar ou medida. Daí, a constatação de que a existência sempre precede o espaço. O tempo só existe em função de uma percepção. Um tempo não percebido não pode ter duração nem ser medido. O princípio da percepção precede o tempo. É por isso que os pensadores védicos diziam que o princípio de tudo é a experiência e que nada pode ser afirmado sem ela (compare esta afirmação com a de Sartre, a de que a existência antecede a essência).

Uma forma material ou não qualquer que apareça na imensidão indeterminada universal, um movimento, uma vaga, um turbilhão, uma lesma, um sorriso, uma dor,  um ser qualquer, uma estrela, uma emoção, um afeto, uma divindade, uma civilização, é criada simultaneamente uma aparência de polarização, de localização, de ritmo, de gênero. A esta força criadora eles davam o nome de Maya, a Ilusão, a fonte misteriosa e criadora de tudo o que existe. Esta força criadora é tanto origem do cosmos como da consciência que a percebe. Ambos são interdependentes. A manifestação existe só em função de uma percepção. 


YAMA

Os hindus criaram um deus para descrever estas relações entre a consciência que percebe e as formas criadas. Deram-lhe o nome de Yama, palavra que quer dizer “aquele que constrange, que traz obstáculos”. É este deus que controla os seres humanos, que decide inclusive quais as ações dos humanos que geram frutos, consequências, efeitos, e as que não. Como se poderá constatar, Yama apresenta muitos traços do Cronos e do Hades gregos, semelhança esta extensiva ao seu reino.

Neste sentido, Yama simboliza a punição (danda), a lei imutável sobre a qual repousa o universo, a lei da causa e do seu efeito. É o juiz que encadeia e pune. Recebe também os nomes de Mrityu (Morte) e de Antaka (Fim). Outros nomes seus, muito comuns,  são Kritanka (Finalizador), Shamana (Regente), Dandin ou Dandahara (O Portador da Férula), Bhima-Shasana (O Dos Decretos Terríveis). Yama vem com um laço ou nó (pashin, pasha). É neste sentido a divindade que preside as cerimônias fúnebres. Um dos grandes códigos morais da Índia védica tem o nome de Dharma-shastra, nele se fazendo referência aos laços ou nós, como grande força mágica. Na medida em que laços e nós representam uma parada, eles são obstáculos, constrangimentos, indicando delimitação, bloqueio, fixação. Não ter nós é ser livre e sem entraves.

Alargando mais o seu campo de ação, Yama  é conhecido também como aquele que provoca retenções, que controla e que refreia. No
YOGA   CLÁSSICO 
Yoga clássico (darshana, escola filosófica) são enumeradas cinco interdições, na realidade cinco disciplinas negativas, que têm relação com ele: não fazer mal aos outros, não mentir, não roubar, não praticar a luxúria, não viver de esmolas (não viver “encostado” nos outros). Roubar, por exemplo, segundo esta ética, não significa tão só a apropriação indevida de um bem material de alguém. Ao invadir o espaço sonoro de alguém, ao obter lucros exagerados estamos, estamos roubando... 

Yama é o filho da Lei ancestral (Vivasvat), representado como uma emanação solar. Sua mãe é Saranyu (Nuvem). Yama tem como irmão Manu (Legislador), que partilha com ele o privilégio de ter
ASHVINS
criado o ser humano. Yama mantém relações muito próximas com os Ashvins (gêmeos divinos, equivalentes aos Dioscuros gregos e ao signo astrológico de Gêmeos), filhos de Vivasvat e de Samjna (Conhecimento Intuitivo). Yama tem uma irmã gêmea, Yami, que o ama com paixão, mas nem sempre ambos se usem. Yama desposou também, sucessivamente, as dez filhas de Daksha (Arte Ritual), que simbolizam as energias produzidas pelos sacrifícios. Uma delas, por exemplo, é Dhumorna (Mortalha de Fumaça), outra é Sushila (Boa Conduta) etc.




MANU   E   MATSYA, O PEIXE   ( 1º AVATAR   DE   VISHNU )



Muito próximo dos humanos é Manu, acima mencionado. A palavra vem da raiz sânscrita man, pensar. Manu em sânscrito adquire o sentido de ser humano, o primeiro homem, pai da raça humana de cada idade do universo, ou manwantara (manu-antara). Manu é conhecido como o autor do código jurídico Manu-Smirit.  


O aspecto de Yama é terrível e sinistro, seu corpo é disforme e feio, sua tez é escura, esverdeada, seus olhos vermelhos, brilhantes. Suas roupas são escuras, avermelhadas. No alto da cabeça, ostenta uma coroa resplandecente. Suas mãos tem a forma de garras. Leva consigo normalmente um laço, um bastão, um machado, uma espada e um punhal. Cavalga sempre um búfalo negro, chamado Terrível. Sob o aspecto do Tempo (Kala), aparece como um velho, com um escudo e uma espada. Em algumas descrições, é percebido como um homem vestido de amarelo, cabelos presos; sua aparência inspira sempre, porém, algum temor.

Pelos virtuosos ele é visto como muito semelhante a Vishnu. Tem quatro braços, pele escura, e carrega como emblemas a concha, o disco, uma clava e uma flor de lótus. Sua montaria (vahna) é o Verbo Alado Garuda. Seu cordão sagrado é de ouro, seu rosto é amável, usa brincos e uma guirlanda de flores dos campos na cabeça. Garuda é a grande ave mítica, metade homem, metade abutre, às vezes águia, grande inimiga das serpentes (nagas) que mantinham sua mãe (Vinata) prisioneira. Para libertá-la, Garuda roubou a bebida da imortalidade (amrita).



VISHNU   E   GARUDA

Yama reside no sul, nos confins da Terra, no mundo subterrâneo, vivendo sempre na obscuridade. Sua cidade tem quatro portas e sete arcos, sendo atravessada por dois rios, Pushpodaka (Rio das Flores) e Vaivasvati (Rio da Lei). Kalaci, a sala do destino, é o nome do lugar em que julga os mortos. A sua cidade é conhecida como Samyamini, a Cidade dos Liames. Seu escriba é Citra-Gupta (O Que Guarda Segredos Múltiplos). Seus ministros chamam-se Canda (Cólera) e Mahacanda (Furor). Dentre as suas esposas, as preferidas são Vijaya (Vitória) e Dhumorna (Mortalha de Fumaça). 

Os mensageiros de Yama,  que vão buscar os que devem morrer, usam roupas negras. Seus pés, seus olhos e seu nariz assemelham-se muito aos do corvo. O cocheiro de Yama chama-se Roga (Moléstia). Acompanha sempre Yama uma multidão de demônios, que representam as doenças que atacam os humanos. Na corte de Yama podem ser encontrados sempre, prestando-lhe homenagens, com o título de Rei dos Ancestrais, muitos sábios e reis. Muitos músicos e dançarinos distraem os visitantes. Na porta da sala do julgamento, encontra-se, eternamente ali postado, um sentinela, chamado Vaidhyata (Legalidade). Yama possui dois cães, com quatro olhos cada um, com a função de guardar o vale dos mortos.

Quando as almas se separam dos corpos dos mortais, os mensageiros as conduzem ao reino de Yama, onde chegam sozinhas, sem acompanhamento da família ou de amigos. Nada mais que as almas e os seus atos, que as seguem. O escriba Guardador  De Segredos Múltiplos (muito parecido com o Toth dos egípcios, na psicostasia) registra tudo num livro, chamado Coleção do Passado. Julgadas, as almas se apresentam diante de Yama, que toma, conforme o resultado do julgamento, um aspecto terrível ou benevolente. Os culpados tomarão o caminho de um portão de ferro vermelho e atravessarão o rio Vaitarani (Rio do Abandono), fétido e fervente, cheio de cabelos e ossos, no qual nadam monstros horríveis. Vaitarani, muito impetuoso, é, por excelência, o rio infernal, como o Aqueronte dos gregos. 

Citra-Gupta (O Guardador De Segredos Múltiplos) tem nove apelidos: Bhata (Panegerista), Nagara (Cidadão), Dependente (Senaka), Gauda (Pouco Claro), Shri-Vatstavya (Servidor da Beleza), Mathura (Jogador), Ahishthana (O Que Cavalga Serpentes), Shakasena (Escravo Tártaro), Ambashtha (Aguadeiro).


TRINDADE  HINDUÍSTA  ( TRIMURTI )

Na trindade hinduísta, Vishnu, o Imanente, a segunda pessoa, governa tendência coesiva ou centrípeta. Tudo que no universo tende a um centro , tende a um mais elevado grau de concentração, de coesão de existência, de realidade, é representado por Vishnu. Já Shiva, a terceira pessoa, rege o princípio contrário, centrífugo, representando a dispersão, o que tende à aniquilação, à dissolução, à não-existência.

A tendência centrípeta, que Vishnu representa, é a causa de toda a concentração, seja da luz, da matéria ou da própria vida. Esta tendência penetra todas as coisas, está em todas elas, é a natureza imanente de tudo. A palavra Vishnu parece provir da raiz vish (penetrar). Enquanto coesão interior pela qual tudo existe, Vishnu reside em todas as coisas, possui tudo. Vishnu é assim a causa interna, o poder pelo qual as coisas existem. Ele, a rigor, nada tem a ver com a forma exterior, que é da órbita de Brahma, primeira pessoa da trindade hinduísta como princípio criador. Vishnu nos revela que não há estado existencial que não dependa da destruição e ao mesmo tempo da duração. Vida e morte interdependentes, pois, Vishnu e Shiva. Enquanto este último é a destruição, Vishnu é o princípio da continuidade, símbolo da perpetuação da vida. Ele é o poder que mantém o universo coeso. É o fim ao qual tendem todos os seres, que dependem do tempo. Ele é ao mesmo tempo a esperança de tudo o que quer permanecer e durar, que Saturno tão bem representa para nós, e de tudo o que deve morrer, que Saturno também representa. 

Cada religião compreende uma teologia e uma ética. A primeira procura definir os princípios que regem a

existência e o destino do nosso eu sutil. A ética propõe regras de ação que levem o ser humano em sua viagem para a luz. Ambas, no Hinduísmo, desde as primeiras formulações do Vedismo, têm a ver com Vishnu.    

NARAYANA
Segundo o aspecto considerado, vários são os nomes de Vishnu. Hari, o que enleva, é um deles. Narayana, o que repousa sobre as águas ou a casa do homem são outros.  Narayana quer dizer aquele que foi (ayana) viver entre os mortais, nome dado a Vishnu enquanto atman (alma), é aquele que veio se instalar no âmago de cada ser humano. 

Quando Vishnu dorme, o Universo se dissolve, caminhando para o estado informal, representado pelo grande oceano causal. Os restos da manifestação, voltados para si mesmos, são representados pela grande serpente Sesha (Vestígios) que flutua sobre o abismo das águas. É sobre esta serpente que Vishnu repousa. Esta serpente é também chamada de Sesha ou Ananta (A Infinita, a que não tem fim), símbolo da eternidade. Ao final de cada idade (kalpa) ela vomita um fogo venenoso que destrói toda a criação. Sesha é tanto o soberano das serpentes como o das regiões infernais que têm o
NAGA
nome Patala, nas quais vivem as Nagas (Serpentes), Daityas (Demônios), Danavas (Gigantes inimigos dos deuses), Yakshas (assistentes de Kubera, deus das riquezas, no que lembram os Curetes e os Cíclopes com relação a Hefesto entre os gregos; são, no geral, inofensivos, recebendo por isso o apelido de punya-janas, boa gente,  e outras entidades infernais.  

Vishnu é a causa interna, o poder pelo qual as coisas existem. Por isso, não há estado de existência que não dependa da duração e da destruição. Ou, de outro modo, não há vida sem morte. É neste sentido que o Hinduísmo considera Vishnu e Shiva interdependentes. Enquanto este último é o princípio destruidor, Vishnu é o princípio da continuação e, como tal, pode ser considerado como símbolo da perpetuidade da vida. É ele o poder que mantém o universo coeso, reunido, continuamente.  


VISHNU   E   SHIVA

Tudo que teve um começo deve necessariamente ter um fim. Tudo o que existe está se dirigindo infalivelmente para a desintegração. O poder de destruição é a via que leva à cessação da existência, à não-existência, à imensidão indescritível à qual tudo retorna, na qual tudo se dissolve, o Brahman, que não é masculino nem feminino. Este poder universal destrutivo pelo qual tudo é levado à inapelável dissolução, à indeterminação, é chamado Shiva. Esta dispersão na insubstancialidade marca o fim de toda a diferenciação e do espaço e do tempo.

Nada escapa deste processo. Mas é desta desintegração que o universo renasce continuamente. É por esta razão que a causa última é também a causa primeira da existência. Sob esse ponto de vista, Shiva é o fim e o começo de toda a existência. Para o nosso entendimento é por isso descrito pelos Upanishads como um abismo sem fundo. Dizem os textos: Além desta obscuridade, não há dia nem noite, nem existente nem não-existente, mas somente Shiva, o indestrutível. Shiva tem mais de mil nomes, epítetos descritivos: Tryambaka (O De Três Olhos), Candra-Shekhara (Coroado pela Lua), Girisha (Senhor das Montanhas), Kapala-Malin (O Que Usa Um Colar de Cabeças) etc.

Do ponto de vista individual, a destruição se manifesta sempre por estágios sucessivos. Num primeiro momento, Shiva atua em todos os estágios, até o final, a morte, que traz a destruição do corpo físico. Num segundo momento, Shiva atua na dissolução da individualidade sutil. No primeiro caso, temos o fim da existência aparente. No segundo, a liberação dos liames sutis. Dois aspectos, pois, de Shiva, um terrível e outro desejável, um imediato e outro transcendente.

Shiva, enquanto destruidor, identifica-se com o tempo, Kala, o que existia antes que qualquer coisa existisse. No pensamento védico, estabeleciam-se duas espécies de tempo, o absoluto e o relativo, este último o percebido pelos seres humanos.  Um era o Maha-Kala, o Grande-Tempo, uma eternidade sempre presente, indivisível e sem medida. Este tempo era comparado a um bastão indiviso e contínuo. As divisões do tempo relativo que o homem percebe não passam de divisões aparentes do Grande-Tempo provocadas pelo movimento dos astros. O tempo relativo é percebido de modo diferente por diferentes espécies de seres. Os planetas, cujo movimento determina os ritmos do tempo relativo, são considerados como os agentes da lei cósmica que rege o destino humano e, vistos sob este ângulo, são reverenciados como deuses. Assim, na medida em que submetido aos ritmos planetários, permanece o homem fechado no mundo da existência relativa. É somente quando o ritmo do tempo relativo deixa de ser percebido ou de condicioná-lo, dizem os hindus, que o homem pode repousar no Tempo absoluto.

LINGAM   E   YONE
Shiva, como todas as divindades hinduístas, pode aparecer antropomorfizado ou através de símbolos diversos, de yantras (diagramas geométricos) ou de mantras (fórmulas mágicas). Seu símbolo mais comum é o lingam (órgão fálico) sempre inserido num yone (órgão sexual feminino). 

Um dos símbolos mais usados por Shiva é o tridente (trishula ou trikala), que representa as três tendências naturais da natureza

(gunas), a função criadora (rajas), a mantenedora (tamas) e a destruidora (sattva). No microcosmo, o tridente corresponde às três artérias (nadis) sutis do corpo humano, Ida (lunar), Pingala (solar) e Sushumna (central). Com o tridente nas mãos, montado no touro Nandi (Alegre), Shiva se mostra como o destruidor da matéria. O tridente toma então o nome de Trikala (Três Tempos). Ao dissolver a matéria, simbolizada pelo touro, Shiva põe tudo em comum, elimina as divisões do tempo relativo, gerando a confusão dos elementos formadores dos corpos. 

  
NANDI
Nandi, o touro, montaria (vahana) de Shiva, é branco como a neve, maciço, de olhos doces, e é chamado também de Vrishabha (nome do signo astrológico de Touro). Shiva é, neste sentido, mestre da vida instintiva, pois cavalga o touro. Ao olhar com o seu terceiro olho Madana (O Sedutor do Pensamento), o deus Kama (Eros), que vem perturbar sua meditação, Shiva o reduz a cinzas. Shiva é, assim, o mestre do touro, tomando o nome de Nandikeshvara (O Senhor da Alegria). 

Em sânscrito, planeta é graha, palavra que tem o sentido de capturador. Assim, para a astrologia védica (Jyotish) planetas capturam, se apossam com as suas emanações do ser humano, inclinando-o a agir nesta o naquela direção, levando-o a realizar ações que muitas vezes nada têm a ver com o seu dharma pessoal. São os grahas, como tal, para os hindus, agentes da lei do Karma. 

A astrologia hindu não usa os planetas que estão além de Saturno, que é, para eles, o limite do sistema solar. Shani é o nome de
SHANI
Saturno em sânscrito, palavra que também significa o que se move lentamente (Sanichara). De Shani sai a palavra shun, que significa ignorar, perder o conhecimento de alguma coisa. É nesse sentido que Shani significa que quanto mais descemos na escala da matéria, do homem ao mineral, menos conhecimento, menos sensibilidade temos. No sentido contrário, Shani significa ascetismo, conquista da espiritualidade e abandono dos planos materiais da existência. No primeiro caso, Shani governa o signo de Makara (Capricórnio) e no segundo o de Kumbha (Aquário). No primeiro caso, é simbolizado pelo Crocodilo e, no segundo, pelo Jarro.  

Em Jyotish, astrologia védica, Shani é karaka (significador) de longevidade, miséria, sofrimento, velhice, morte, disciplina, restrição, responsabilidade, atraso, ambição, liderança, autoridade, humilhação, integridade, sabedoria nascida da experiência, desapego, espiritualidade, organização, estruturação, realismo, trabalhos penosos e cansativos, lugares ermos e solitários, e, naturalmente, do tempo. A natureza de Shani é vata, aérea. Shani é poderoso na sétima casa (rasi) e nos ângulos (kendra). É particularmente benéfico no signo de Touro e no ascendente libriano (exaltação). A pedra de Shani é a safira azul; são dele também todas as pedras escuras e seu metal é o chumbo.

SURYA
Na mitologia védica, o Sol (Surya) teve quatro filhos: Samjña (Conhecimento), Rajni (Soberania), Prabha (Luz) e Chaya (Sombra). Esta última teve três filhos, Savarni (Legislador), Revanta (O Móvel) e Shani (Saturno). O esplendor do Sol era tão intenso que Samjña não conseguiu suportá-lo por muito tempo. Ela deixou então Chaya com o Sol e se retirou para uma floresta para se consagrar à religião. 

Shani incorporou o planeta Saturno, sendo representado nessa condição como um homem negro vestido de negro. Usa uma espada, carrega flechas, punhais e vem montado num abutre, sua montaria (vahana). É também conhecido como Ara, Kona e Kroda e pelo patronímico Saura. Por causa de sua influência é também conhecido como Kruradris, Kruralochana, o de maus olhos. Outros nomes: Manda (lento), Pangu (manco, pouco convincente), Asita (escuro), Saptarchi (o de sete raios) e Sanaischara (o muito lento).


SHANI   DEVA
Shani Deva é o senhor do sábado. As ideias de lentidão que o cercam devem-se ao fato de ele levar perto de 30 anos para fazer a sua revolução em torno do Sol. É o irmão mais velho de Yama, deus da morte, o justiceiro em algumas escrituras. Uma das funções de Shani é a de recompensar ou punir os humanos conforme as suas ações enquanto viverem. Yama faz o mesmo, só que depois da morte.

Várias histórias nos revelam que quando Shani nasceu e abriu os seus olhos pela primeira vez houve um eclipse solar, o que bastaria, por exemplo, para nos dar uma ideia da sua importância numa carta natal. Ele sempre foi conhecido como um grande mestre, sendo implacável com os que trilham o caminho do mal, principalmente com os traidores, os falsos e os injustos. Como protetor das propriedades, ele reprime a ação dos pássaros que roubam alimentos, destroem plantações etc. 

Havia apenas uma divindade no panteão védico que podia fazer alguma coisa para atenuar os males que o deus Shani costuma causar, Hanuman, o deus macaco, filho de Vayu sob o nome de Pavana, deus dos ventos, e de uma mona chamada Kesari. Era capaz de voar, tendo descoberto este poder quando, na infância, pensou que o Sol nascente fosse uma fruta. De um salto, lançou-se nas alturas para tentar colhê-la. Seu nome provém de um acidente de que foi vítima, provocado pelo deus Indra, que tentou atingi-lo a flechadas. Hanuman caiu sobre uma enorme pedra e rompeu a mandíbula, ficando desde então com essa parte de rosto deformada. O nome Hanuman quer dizer o de rosto grande (bochechudo).

Ao inteirar-se do que aconteceu, o pai de Hanuman ficou furioso; decidiu que as brisas não mais soprariam. Os deuses, atemorizados, foram apaziguá-lo. Brahma prometeu que Hanuman poderia entrar em qualquer batalha que nunca morreria; Indra, por seu lado, afirmou que seus raios nunca poderiam lhe fazer mal.

Hanuman prestou inestimáveis serviços a Rama, sétimo avatar de
HANUMAM   E   SITA
Vishnu. Foi ele quem descobriu a morada de Sita e incendiou Lanka (Ceilão), causando grande terror aos seres do mal (rakshasas) que ali viviam. Além disso, foi ele quem transportou Rama em seus ombros quando foram da Índia a Lanka. São inúmeros os poderes de Hanuman; dentre eles se destaca a sua grande mobilidade. Quando Rama e seu irmão foram feridos na batalha e nada podia reanimá-los, foi Hanuman quem se dirigiu do Ceilão ao Himalaia para conseguir as ervas maravilhosas que os reanimou. 

Além disso, Hanuman possui grande saber, particularmente a ciência dos astros. Ninguém o igualava no conhecimento dos shastras e em decifrar o sentido das escrituras sagradas. Em todas as regras referentes às austeridades compete sempre, em condições de igualdade, com o preceptor dos deuses (Brihaspathi, o planeta Júpiter). Astrologicamente, esta competição é representada pelo eixo Gêmeos (Mithuna)-Sagitário (Dhanus). Muito reverenciado, Hanuman é representado pelos macacos encontrados em toda a Índia, nos templos, nas ruas, nos mercados e feiras, sendo visto como um ato meritório a sua alimentação e um sacrilégio molestá-los.


Na grande epopeia Ramayana há uma passagem que nos conta que Shani foi salvo por Hanuman das garras de Ravana, demônio, rei do Ceilão, meio-irmão de Kubera, deus do inferno. Reconhecido e agradecido, Shani prometeu que aqueles que dirigissem preces a Hanuman aos sábados seriam aliviados dos maléficos efeitos que ele, Shani, porventura causasse. 

Lembro que entre os antigos egípcios, o babuíno era uma encarnação do deus Toth como deus lunar, patrono dos letrados. Símbolo tanto da sabedoria como do conhecimento, Toth era o
HANUMAM  E  RAMA
escriba dos deuses, da palavra do deus criador Ptah e da sentença da psicostasia no tribunal presidido pelo deus Osíris.  Na Índia, Hanuman era sobretudo reverenciado pelo seu saber, por sua agilidade, por sua rapidez,  por sua força física e por sua fidelidade com relação a Rama. É de se registrar ainda que o macaco, em alguns antigos calendários, como o chinês, aparece como símbolo do nono signo zodiacal,  associado à engenhosidade, ao otimismo, à diplomacia, à perseverança e ao gosto pela especulação. Entre os antigos astecas, o macaco era lembrado como um símbolo da alegria, do divertimento e da insolência. 


KALI
Como mencionado em alguns textos (Brahmanda Purana), há determinadas preces e mantras que podem livrar o crente de todos os malefícios de Shani. Quanto à sua ação neste sentido, há que se temer, tomando-se como ponto de partida o signo lunar, o seu trânsito pela primeira, segunda, oitava e décima segunda casas astrológicas. Segundo a astrologia védica, a fim de se obter proteção com relação ao acima disposto, podemos reverenciar a Grande-Mãe Kali durante a Lua nova; reverenciar Vishnu na forma de Krishna e reverenciar também o deus Hanuman.

Shani é muito temido na Índia por aqueles que procuram orientação na astrologia. Os hindus entendem que qualquer prazer ou dor que possam atingir uma pessoa por influência de Shani não podem eles ser considerados como uma arbitrariedade. Eles devem ser considerados antes como o resultado de um karma pessoal, agora manifesto no lugar da carta astrológica em que Shani estiver. Assim, um desfavorável Shani traz resultados kármicos negativos. Por exemplo, os males físicos que Shani provoca são degradação corporal, envelhecimento precoce, problemas circulatórios, atrofias, artroses etc. Mentalmente, Shani provoca depressão, estreitamento mental (tradicionalismo, conservadorismo etc.). Positivamente, Shani é paciência, erudição, seriedade, constância. Suas grandes virtudes são frias, como as entendemos também no ocidente.

Shani é considerado na Índia o mais “difícil” dos planetas, já que tem a ver com os infortúnios, o desemparo, a solidão e o luto. Quando agraciado no mapa, pode levar às alturas, mas, debilitado, pode produzir a ruína. Todos os deuses o temem porque, como Senhor do Tempo, já destruiu inúmeras divindades tão grandes quanto Indra. É o senhor dos nervos e das fibras, da direção oeste, do sábado como dia da semana. Dentre seus apelidos (alguns já mencionados), temos: o Lento, o Filho da Sombra, o Angular, o Negro, o Que não Tem Fim, o Que Termina Com Tudo, o Fixo, o Controlador, o Faminto etc.

Diz-se que tão logo que nasceu, Shani olhou o pai, o Sol, e ele se encheu de vitiligo. Este acontecimento mítico talvez seja uma contribuição dos antigos astrólogos dos tempos védicos para o fenômeno das manchas solares. Há, de fato, uma certa semelhança entre o vitiligo, afecção cutânea caracteriza por perda de pigmentação (hipocromia); é, como tal, uma leucopatia adquirida, às vezes denominada impingem, erupção na pele, nome genérico de várias dermatoses.     

A etiologia do vitiligo, lembro, ainda não é conhecida pela Medicina. Contudo, há indícios de que a doença costuma se manifestar em casos de insegurança, de  estresse emocional, de ansiedade e, ao que parece, de modo especial, por sentimentos de culpa ou remorso. Patologicamente, o vitiligo se caracteriza pela redução do número ou função dos melanócitos, células localizadas na epiderme responsáveis pela produção do pigmento cutâneo, a melanina. 

Sob o ponto de vista astrológico, ainda com relação ao vitiligo, é que ele costuma aparecer em associações desarmônicas entre os planetas Saturno (pele) e Vênus (epiderme), ambos relacionados com problemas de pele. Os locais atingidos podem ficar extremamente sensíveis ao Sol, neles podendo ocorrer graves queimaduras no caso de exposições prolongadas.