Mostrando postagens com marcador ZÉFIRO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ZÉFIRO. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

LIBRA (1)

                                              

LIBRA
Uma das mais antigas referências que temos sobre o signo de Libra (23 de setembro a 22 de outubro) nós a encontramos no antigo Egito, na balança como símbolo do julgamento. A balança era o centro de uma cerimônia religiosa muito importante. Esta cerimônia consistia na pesagem das almas quando, desprendendo-se do corpo, elas iniciavam a sua viagem para o Outro Lado (Duat). Esta pesagem se realizava na sala da deusa Maat, deusa da justiça e da verdade, por meio de uma balança na qual se depositava, no prato da esquerda, o coração (Ib) do morto e no outro prato, o da direita, uma pena branca de avestruz, símbolo da deusa. 


MAAT

Aparecendo sempre em oposição ao carneiro, símbolo do aspecto criador, animal portador da vida, da saúde e da força, a balança é um símbolo do poente, da morte, e abre caminho de para a ressurreição. Enquanto o carneiro transmuta o declínio solar em esplendor, em impulso luminoso, a balança marca os momentos inicias da sua extinção. A balança mantém as forças da luz e das trevas momentaneamente em equilíbrio. Logo, porém, a espada da justiça cortará sem qualquer outra influência o fio deste equilíbrio (equinócio). Este corte introduz os homens “naquilo que deve ser” queiram eles ou não. A matéria, a vida mundana, os corpos, tudo o que tomou forma, enfim, começa a caminhar para o seu fim. O sentido do “que deve ser” é inversamente proporcional ao “que quer (ou acredita) ser”. Pesa-se aqui, rigorosamente, um “tanto” de
AVESTRUZ
construção e um “tanto” de destruição, de modo que os pesos se anulem. Pesava-se, assim, no Egito, o hieróglifo da verdade, a pena que simbolizava a deusa, sendo o contrapeso o coração do morto. As penas do avestruz, porque exatamente iguais, eram símbolos da equidade, e, como tal, da deusa Maat, que personificava a verdade, a justiça e a norma.Ela representava o equilíbrio e a harmonia da criação com relação ao incriado, ao caótico.    

Ao lado dos cultos e de seus objetos, a religião egípcia sempre teve um caráter moral, a que era dado o nome de “maat”. É quase impossível traduzir com exatidão o significado desta palavra, nela se combinando conceitos de ordem, justiça, dever, retidão, responsabilidade, algo muito parecido com a palavra sânscrita dharma. Maat, como conceito, não tinha origem humana. Fora criado pelos deuses e desde o aparecimento do cosmos passou a fazer parte da criação. Antes de qualquer coisa, maat representava a lei divina, imutável e imprescritível, na qual deviam se inspirar as leis humanas, chamem-se elas ética, moral ou princípios de direito. Todos deveriam, desde o faraó ao camponês, se esforçar para viver de acordo com ela, cada um no seu nível social.

Concebida dessa maneira, como obra dos deuses, e não da consciência dos homens, maat sempre se revestiu para os egípcios de imutável perfeição. Isto excluía qualquer possibilidade de crítica ou de mudança da estrutura social. O mundo e o que havia nele tinha sido criado pelos deuses exatamente da forma como queriam. Tudo era, portanto, como deveria ser, fixo, eterno. As guerras, as pestes, as secas significavam simples perturbações temporárias da ordem cósmica estabelecida. Uma vez que o mundo tinha sido criado como deveria ser desde o momento da criação, não era possível por definição ter havido uma época anterior melhor. Na
VALE   DO   NILO
religião egípcia não havia ideias como Jardim do Éden, Idade de Ouro ou Apocalipse. A mesma atitude determinava a concepção que os egípcios tinham da morte e a importância que lhe atribuíam. As suas crenças sobre a vida do além-túmulo, como as que diziam respeito aos deuses, tinham velhas raízes no vale do rio Nilo. Sepulturas da era neolítica revelavam a existência, ao lado dos mortos, de instrumentos, de objetos e de víveres que só podiam mostrar a intenção de serem usados pelo falecido no além. 

No eixo da balança usada na psicostasia ficava sentado o deus Toth, o escriba divino, na sua forma cinocéfala ou com a cabeça de íbis. Ao fundo, sob a presidência do deus supremo, Osíris, quarenta e duas divindades, correspondentes aos quarenta e dois nomos, ou divisões administrativas do país, acompanhavam a cerimônia. Dela participava também o deus-chacal Anúbis, como senhor do mundo dos mortos. Aos pés de Osíris ficava o monstro Ammit, uma figura híbrida, meio crocodilo, meio hipopótamo, peitoral de leão, chamado de O Devorador; aguardava o resultado da pesagem. Este monstro era uma imagem das águas primordiais, lembrando o caos. Se o coração do morto fosse mais pesado que a pena da deusa Maat, ele era entregue ao monstro, que logo o devorava. Com isto, ele voltava à indeterminação para, um dia, quem sabe, passar pela metempsicose (passagem da alma de um corpo a outro). Se o coração fosse mais leve que a pena da deusa, a alma se encaminharia para o Outro Lado, reconstituindo-se o corpo, que então gozaria da imortalidade de Osíris. 


   LIVRO   DOS   MORTOS -  

A alma era pesada em função da sua maior ou menor proximidade com o divino. Quanto mais próxima dele, mais se elevava. Por isso, se ela tivesse se afastado do divino na sua caminhada terrena, perderia as suas asas, a sua leveza. Lembremos que a alma (ba), no Egito, era representada por um pássaro androcéfalo. Na psicostasia, a pena, por isso, simbolizava a elevação da alma. Segundo o prato da balança judicial que se eleve, ela será reconhecida como pura ou corrompida.


MORTE  DE  HÉRCULES , 1634  ( FRANCIS  ZURBARÁN )

A psicostasia é uma cerimônia que lembra elevação, e, portanto, o elemento ar. É, no fundo, um processo pelo qual uma substância
ELIAS  ( ÍCONE RUSSO )
inferior se traduz numa forma superior por um movimento ascendente. Um dos aspectos do simbolismo da ascensão é, como se sabe, o da translação para a eternidade. Exemplos deste aspecto estão no suicídio apoteótico de Hércules, suicídio que o levou para o Olimpo, e o da subida aos céus do profeta Elias, que a ele ascendeu vivo, num remoinho, transportado num carro puxado por cavalos de fogo. 

A origem do simbolismo da translação para os céus, isto é, para a eternidade, encontra, ao que parece, a sua primeira expressão na antiga religião egípcia. Esta forma de translação é chamada, alquimicamente, de sublimatio superior, descrita por várias religiões. Na sua existência temporal, contudo, o ser humano só pode experimentar a chamada sublimação inferior, aquela em que os anseios de altura, de voo ou de ascensão exigem sempre uma volta à terra porque ele não pode, enquanto coagulatio, abrir mão da alternância entre a elevação e a queda, isto é, da circulatio. A sublimatio superior propõe a eternidade, a inferior, traz de volta à terra, tendo um caráter ascendente num primeiro momento e descendente numa segunda fase.

ZIBANITU

Os antigos povos da Babilônia davam ao signo de Libra o nome de Zibanitu, a Balança, e nela viam duas estrelas importantes: Zuben do Sul e Zuben do Norte, os dois extremos polarizados que lembravam a pesagem das almas no julgamento depois da morte (a psicostasia para os egípcios e a querostasia para os gregos). 


HERMES   PSICOPOMPO

A balança, entre os persas, foi colocada nos céus sob a tutela do anjo Rashu, postado junto de Mitra, também com a finalidade da pesagem das almas sobre a ponte do destino. Lembremos que a mesma ideia aparece na Grécia. Num famoso vaso grego, Hermes, na função de deus psicopompo, procede à pesagem das almas de Aquiles e de Pátroclo. Entre os muçulmanos, a balança do julgamento é mencionada no Corão. Num sentido figurado, no Islã, a balança é um grande livro aberto sobre o qual se inscrevem diretamente as boas e as más ações do crente. Na vida cotidiana, ela simboliza o bom julgamento, a apreciação justa, o sentido da discriminação. Há entre os árabes do Magrebe (ocidente, lugar onde o Sol se põe) a expressão que revela a sua importância: Teu olho é a tua balança.


A ILÍADA
Entre os gregos, já em Homero (A Ilíada) a balança era usada para simbolizar o destino como se mostra no episódio em que se narra o combate entre Aquiles e Heitor: Quando, porém, chegaram pela quarta vez, às fontes,  o Pai dos deuses ergueu então a balança de ouro e nela colocou as duas sortes da morte, em um dos pratos a morte de Aquiles e em outro a de Heitor, o domador de cavalos; depois elevou-a, segurando-a pelo meio. O dia fatal de Heitor havia chegado e ele desceu ao Hades. Apolo Febo o havia abandonado.


 MIGUEL  E  JACÓ ( EUGÈNE  DELACROIX , 1798 - 1863 )

No cristianismo, o signo de Libra costuma aparecer associado a São Miguel, o arcanjo do julgamento. Este arcanjo, entre os judeus, é o de mais alta hierarquia, sendo conhecido como o Príncipe da Água e o Anjo de Prata. No período bíblico, Miguel anunciou a Sara que ela daria à luz Isaac; foi ele mesmo que no teste da akedá interveio para que o mesmo Isaac não fosse sacrificado, Miguel lutou com Jacó, ferindo-o; foi Miguel quem disse que ele, Jacó, receberia um novo nome, Israel. Como advogado do povo judaico, Miguel senta-se à direita do Trono da Glória. É Miguel que acompanha os devotos ao céu após a morte e faz a oferenda das suas almas no altar celestial. Assinalemos que no pensamento judaico, os demônios são privados de seu poder diante de tudo o que é equilibrado. 

Na Idade Média, havia a chamada prova da balança ou bibliomancia, que servia para condenar os feiticeiros. Colocava-se o acusado sobre um dos pratos de uma balança e no outro se depositava uma Bíblia. Se o acusado pesasse mais, seria condenado. Consta que muitas feiticeiras, bem mais leves que seus comparsas masculinos, conseguiram escapar da condenação. De um modo geral, porém, a bibliomancia consistia na adivinhação do futuro através da interpretação de uma passagem de um livro aberto ao acaso.


HOKSENWAAG
A cidade holandesa de Oudewater é famosa porque desde o final da alta Idade Média gozava de um privilégio incomum, não possuído por nenhuma outra na Europa. Milhares de pessoas acusadas de feitiçaria a procuravam na esperança de obter um livramento de tal acusação ou suspeita. É que nessa cidade havia um edifício público, conhecido como Hoksenwaag (Casa de Pesagem de Feiticeiros) que expedia certificados para esse fim. Um magistrado verificava primeiramente se o interessado não escondia nada sob suas vestes. Com vestes sumárias, quase nu, descalço, na presença de um conselho da cidade, a pesagem era realizada em público. O certificado expedido, no caso inocência, era muito detalhado, selado, com diversas assinaturas das autoridades, libertando o acusado de qualquer suspeita. Lembremos que na Bíblia (Provérbios) encontramos: A balança enganosa é abominação diante do Senhor; o peso justo é a sua vontade. O objetivo maior da pesagem realizada em Oudewater era o de se constatar se o incriminado havia sido colocado ou não em estado de levitação pelo Diabo. 

JABIR  IBN  HAYYAN
A simbologia da balança foi muito utilizada pela Alquimia. É do mundo árabe que nos vem o Livro das Balanças, de autoria de Jabir Ibn Hayyan (sécs. VIII-IX), chamado de Geber pelos latinos, que viveu perto de Bagdá. Para ele, por exemplo, o ouro representava o equilíbrio perfeito entre os dois princípios opostos e complementares, o enxofre e o mercúrio. Os outros metais seriam manifestações destes mesmos dois princípios, mas através de uniões imperfeitas. 

Os gregos, antes de definir melhor a área zodiacal de Libra, entendiam que ela pertencia às pinças da constelação de Escorpião, as Chelae Arum, segundo os romanos. Os sumérios já conheciam a região como separada de Escorpião, chamando-a de Zibba Anna, a Balança do Céu. Os árabes, apoiando-se nos babilônicos, davam o nome de Zuben el Genubi e Zuben Eschamali às duas principais estrelas de Libra, e também uma tradução dos nomes gregos dados por Ptolomeu. Para o ocidente, a “independência” de Libra só ocorreu por volta de 1.100 aC, quando a constelação começou a marcar o equinócio do outono. Sosígenes, um astrólogo alexandrino, provavelmente ciente das elaborações sumérias e egípcias, deu subsídios para que no calendário Juliano a constelação de Libra ficasse posicionada entre Virgem e Escorpião. Tudo isto explica porque o signo de Libra foi o último a ser introduzido e fixado no Zodíaco. Em sânscrito, Libra é Thula e em grego Zygos.


 LIBRA   E   ESCORPIÃO   

A balança, em todas as tradições, sempre apareceu associada à espada (Áries), unindo os dois símbolos a função administrativa e a função militar. É por essa razão que os celtas viam a espada tanto como um emblema da bravura e do poder guerreiro, sinônimo de
KSHATRIA , RAJPUT
destruição, como símbolo da justiça e da paz, na medida em que a destruição deve ser aplicada à injustiça, à ignorância, àquilo que é malefício, tornando-se por esse fato positiva. É por isso que a espada evoca também a guerra santa. Na Índia, é a casta dos Kshatrias, a segunda, a do poder político e a dos guerreiros, que une os dois símbolos, a balança e a espada, deixando-nos claro esta associação que a espada deve se colocar a serviço da justiça, o que nem sempre, porém, acontece. 

Entre os gregos, a primeira divindade associada ao signo de Libra foi Têmis. Filha de Urano e de Geia, Têmis (etimologicamente, estabelecer como norma) é a deusa das leis imprescritíveis, irrevogáveis e universais de origem divina. Estas leis opõem-se àquelas estabelecidas pelos homens (nomos) e às regras morais, o chamado direito consuetudinário. A ideia de uma lei divina já tinha sido aventada por Heráclito, na filosofia pré-socrática na medida em que o filósofo  vinculou as leis humanas à lei cósmica. 


TÊMIS , ZEUS  E  PALAS
A titânida Têmis foi a segunda esposa de Zeus Todo-Poderoso. Unindo-se a ele, tornou-se mãe das Horas  e das ninfas do rio Erídano (o rio Pó, da Itália), as mesmas que ensinaram a Hércules o caminho que levava ao Jardim das Hespérides (3º trabalho, referente ao signo de Gêmeos). Devido à sua união com Têmis, Zeus assumiu a condição de divindade máxima da qual derivam todas as leis, os ordenamentos e o direito em geral. Em nome de Zeus, os reis da terra deviam exercitar o seu poder, fazendo justiça e defendendo a ordem. É por essa razão que, já em Homero, Têmis é sempre invocada com Zeus para estender a sua proteção ao justo.

A Têmis cabia também o poder sobre os oráculos e os ritos em geral, além de supervisionar as assembleias. Os oráculos são locais onde a divindade pode falar diretamente por meio de um médium que caia em estado de entusiasmos. Os gregos chamavam tal local, onde se buscava um bom conselho (chresmos) de chresterion ou manteion. Os romanos o chamavam de oraculum, de onde veio a palavra para a nossa língua. O mundo oracular é, por excelência, feminino. Mesmo depois que o oráculo de Delfos, de Geia e de Têmis, passou para o mundo patriarcal (conquistado por Apolo), a transmissão das sentenças oraculares não pode deixar de prescindir do feminino, reveladas que eram por mulheres, as pitonisas ou sibilas. Foi Têmis quem passou a Apolo o domínio da mântica usada no referido oráculo. A mântica de Geia e de Têmis era a chamada mântica por incubação, transformada pelo deus em profética.   


GIGANTOMAQUIA  -  PARTENON

Como grande divindade das leis eternas, era Têmis também a dona do bom conselho sob o nome de Euphrone, atributo que dividia com Nix, a deusa da Noite. Têmis aconselhou a Zeus, na Gigantomaquia, a cobrir o seu escudo, que por isso recebeu o nome de égide. Esta palavra vem do grego aigis, cabra, pois foi com a pele da cabra Amalteia que tal escudo foi coberto e depois passado
JARDIM   DAS   HESPÉRIDES
( E. BURNE - JONES , 1833 - 1898 )
para as mãos de Palas Atena. Consta que foi também por conselho de Têmis que a guerra de Troia foi deflagradas como uma forma de equilibrar melhor, ao tempo, o excesso de população da terra. Deve-se também a Têmis, como antiga titular do oráculo délfico, o conselho dado a Zeus e a Poseidon para que não se unissem à nereida Tétis, pois, se o fizessem, ela daria à luz um filho mais poderoso que o pai. Previu ainda Têmis que um dia um filho de Zeus (Hércules) retiraria do Jardim das Hespérides os pomos de ouro, guardados no referido jardim, pelo gigante Atlas.

DIONISO  E  AS  HORAS

Assim como Têmis tem a ver com a constelação de Libra, as suas filhas as Horas também a ele se ligam, integrando-se ao séquito da deusa Afrodite, que assumiria a tutela da referida área zodiacal como o planeta Vênus. As Horas eram filhas de Têmis e de Zeus e eram consideradas as divindades das estações do ano. Eram três, correspondendo à primavera, ao verão e ao outono, pois o inverno não era considerado como uma estação, já que era um período em que a natureza morria. Por isso, o número das Horas se fixou em três, cada uma delas com um atributo: flores (primavera), grãos (verão) e uvas e frutos (outono). Havia uma quarta Hora, a do inverno, representada com despojos de caçadas, mas que nunca teve o realce das irmãs. 

Como divindades das estações, promoviam as Horas o desenvolvimento da natureza, colocando-se porém sob a tutela de divindades maiores. Ligadas à vida da natureza, exerciam elas o controle sobre as mudanças do tempo, abrindo ou fechando os portões do céu, provocando a alternância entre os períodos chuvosos e os ensolarados, tudo para o melhor crescimento da vida vegetal. Gentis e simpáticas, movendo através da dança, usando coroas de ouro enfeitadas com flores, eram sempre benevolentes e protetoras da humanidade. Apesar de às vezes provocarem a impaciência em principalmente em razão de atrasos, sempre acabavam por aparecer, trazendo doçura e beleza, jamais decepcionando.


IRENE ,  EUNOMIA  ,  DIKE 

De divindades do mundo vegetal passaram depois a representar as horas do dia. Seus nomes: Eunômia (disciplina), Dike (justiça) e Irene (paz). Eram chamadas pelos atenienses por outros nomes, respectivamente: Talo (a que faz brotar), Auxo (a que provoca o crescimento) e Carpo (a que prodigaliza os frutos). Aos poucos, a ação das Horas se estendeu ao mundo dos humanos, como divindades que asseguravam o equilíbrio e o ajuste da vida social. Participavam elas também de modo especial da paideia, na medida em que cuidavam da educação das crianças, “umedecendo-as” (no mundo natural, eram as Horas encarregadas de distribuir a umidade) corretamente para que brotassem no tempo certo, crescessem adequadamente e florescem no tempo devido. 

Assim como tinham a ver com a ordem das estações, as Horas participavam da moralidade da vida social, nos seus aspectos quanto à virtude, à honestidade, ao bem, à manutenção da palavra dada etc., o que se tornava ainda mais evidente por serem filhas de Têmis. Assim, neste domínio, Eunômia personificava a legislação de um modo geral; Dike, a justiça; e Irene a paz. Os serviços da primeira voltavam-se sobretudo para a vida política, sendo o resultado de suas intervenções muito celebrados por poetas e pelo Estado de um modo geral. Dike atuava mais na área do chamado Direito Civil, na esfera das relações individuais, passando informações ao Pai de todas as injustiças cometidas. 

IRENE   E   PLUTO
Irene, a mais álacre das irmãs, era muito reverenciada em festivais em que se celebravam a convivência humana. Irene tornou-se mais tarde, segundo algumas versões, mãe de Pluto, a personificação da riqueza, um robusto menino que passou a acompanhar Dioniso e Perséfone, carregando uma cornucópia. As imagens de Pluto o descrevem como cego porque favorecia tanto os justos quanto os injustos. Segundo consta, foi o próprio Zeus quem o cegou, para impedir que socorresse só os bons. Irene era reverenciada também sob o nome de Chloris (em Roma, a deusa Flora), como divindade dos brotos, dos botões e das flores, muito cortejada por Bóreas, o vento do norte, e por Zéfiro, o vendo do oeste. Como dissemos, uniu-se a este último, tornando-se sua fiel esposa. 


ZÉFIRO   E   FLORA
( W. A. BOUGUEREAU , 1825 - 1905 )


quinta-feira, 4 de junho de 2015

MITOLOGIA DO CÉU - JÚPITER (4)



ZEUS   E   A   ÁGUIA  (VICENZO  PACETTI)
                                  
Os áugures greco-romanos traduziam o voo e o canto das aves em profecias. Segundo Píndaro, a águia emite sessenta e quatro sons, “tendo cada um deles um sentido”. De todas as observações relacionadas com os pássaros, a da águia era a mais reputada. Se ela entrasse no espaço aéreo observado pela direita, voando com as asas abertas, tínhamos um sinal de prosperidade, soberania; se entrasse pela esquerda, maus presságios. 

RAPTO   DE   GANIMEDES


A águia entre os gregos e romanos era a insígnia guerreira de Zeus ou de Júpiter. Vários depoimentos nos chegaram da antiguidade sobre sucessos militares confirmados pelo aparecimento de águias, como no caso de algumas vitórias de Alexandre, o Grande. A sua vitória sobre os persas (Dario), por exemplo, que lhe permitiu ostentar o título de rei da Ásia, foi anunciada pela presença de uma águia no campo de batalha.


A   ÁGUIA   E   GANIMEDES

Lembre-se que Zeus tomou a forma de uma águia para raptar o jovem Ganimedes (etimologicamente, o que se ocupa do vinho, escanção). Inflamado pela beleza do filho de Tros, grande ancestral da raça troiana, Zeus o levou para o Olimpo para que lá o jovem, além de seu escravo sexual, assumisse as funções de distribuidor do vinho nos banquetes divinos. 

Ganos, em grego, é o jorro do vinho que escapa dos tonéis quando abertos, sugerindo também a palavra a ideia de líquido brilhante. Como presentes, Zeus ofereceu ao pai do jovem cavalos divinos, nascidos do sêmen do vento Zéfiro e de uma Harpia. Ao jovem, como presente de núpcias deu um anel (aliança), um galo e um par de asas, símbolos, respectivamente, de união, da ave que espanta as trevas com  o seu canto e de elevação.

O anel é ao mesmo tempo limitação, fixação de limites, barreira, exprimindo também uma servidão livremente aceita, um emblema de submissão. O galo é uma ave fálica, símbolo da vigilância (alektor, galo, em grego, quer dizer aquele que não dorme), da vida vitoriosa que vence a morte. Já as asas simbolizam elevação, liberação, ascensão. Em todas as tradições representam a espiritualidade que deve ser conquistada através de uma educação iniciática, muitas vezes difícil e perigosa. 


CONSTELAÇÃO   DE   AQUÁRIO

Para celebrar o seu grande amor por Ganimedes (o amado dos deuses, Amadeus) Zeus colocou Ganimedes nos céus como a constelação de Aquário, décima primeiro do Zodíaco, relacionado-a com o elemento ar, em oposição à de Leão, de número cinco, ligada ao elemento fogo. Lembrando emancipação, libertação, sublimação, desmaterialização, Aquário é muita vezes representada pelo anjo, que, na escala dos valores humanos, é símbolo da mais alta espiritualidade como um ser andrógino, liberto da vida instintiva e das pressões materiais. Numa versão posterior, a história da constelação de Aquário foi associada ao sacrifício que o lindíssimo Antinous teria feito (suicidando-se, ao se atirar no rio Nilo) para que, segundo acreditava, a vida do imperador Adriano fosse prolongada. Uma águia levou então o jovem para os céus, onde foi transformado na referida constelação.  



CONSTELAÇÃO   DA   ÁGUIA

Para tornar ainda mais forte a sua ligação com Ganimedes, signo de Aquário, Zeus colocou também nos céus, como constelação boreal, a  Águia, que se estende entre os 12º de Capricórnio e os 15º de Aquário, representada no Tarô pelo sexto arcano, Os Amantes. A
OS   AMANTES  -  TARÔ
estrela alfa da Águia é Altair, de 1ª magnitude. Registre-se que a figura masculina do referido arcano está descalça, com os pés firmemente apoiados na terra, sendo apresentada numa situação conflitual entre duas imagens femininas, uma tocando-lhe o coração e outra o ombro. Acima, o deus Eros tenta disparar uma flecha com um arco que não tem corda. Um conflito entre o físico e o espiritual? Será que em Aquário o deus Eros não atua mais? De concreto, no arcano, os pés descalços, bem plantados na terra. Uma sugestão, talvez, de que a transcendência aquariana, sempre muito ligada ao elemento ar, por maior que seja a atração das alturas, será sempre incompleta se “esquecer” dos pés no chão (elemento terra). Quanto a Altair, chamada “O Coração de Ganimedes”, hoje a 1º04´de Aquário, temos, segundo Ptolomeu, influências marcianas e jupiterianas, com idéias de coragem e de determinação através de riscos, muitas vezes desnecessários. 


REPRODUÇÃO DA ESTÁTUA DE FÍDIAS
A estátua que parece melhor ter definido Zeus era a que se encontrava no monte Olimpo, de autoria de Fídias. Levantada sobre um pedestal ricamente ornado, com cerca de 10 metros de altura e 7 de largura, a estátua tinha 13 metros. Sentado sobre um trono, onde se misturavam ouro, bronze, marfim e ébano, o deus segurava numa das mãos uma vitória coroada (Nike); na outra, tinha um cetro no qual estava pousada uma águia. Vestia o deus um manto de ouro esmaltado com flores. Sua fronte estava cingida por uma coroa de ramos de oliveira e seu rosto, enquadrado por uma longa barba, tinha uma expressão de serena majestade. Esta escultura, esculpida por Fídias, serviu de modelo de Zeus para quase todos os artistas que vieram depois dele. 


Fídias nos oferece Zeus na figura de um homem de corpo robusto, em plena maturidade, naquele ponto médio ideal entre o físico o espiritual. A cabeleira abundante enquadra o rosto, barba encaracolada. Usa um manto que deixa descobertos o peito e o braço direito. Seus atributos são o cetro na mão esquerda, o raio na mão direita, a águia a seus pés. Na sua fronte, uma coroa de ramos do carvalho.

Antes mesmo de desposar sua irmã Hera e de assumir a sua inconteste soberania, Zeus já deu início à sua carreira de macho fecundador, uma de suas mais marcantes características. Contraiu, por isso, inúmeras uniões. Como atividade celeste, em Zeus se concentram ideias de altura (regiões das nuvens, dos astros, morada dos deuses) e de hospitalidade, convivência de alguns eleitos, que a esse mundo têm acesso a convite do Senhor do Olimpo. 

O conceito de céu também implica uma ideia de ordem (o movimento circular dos astros, sua periodicidade e regularidade, salvo algumas poucas exceções), de poder (ideia de altura inatingível), de potência, de aspirações elevadas, de lugar a partir do qual o cosmos se organiza. Com um furor fecundante inesgotável, semelhante ao do céu, Zeus é reconhecidamente um digno sucessor de seu avô Urano. 


METIS   E  JÚPITER

Sua primeira esposa foi Metis (O Juízo Avisado, a Sabedoria), uma oceânida, deusa que, segundo Hesíodo, sabia mais que todos os deuses e humanos reunidos. Foi ela quem forneceu a Zeus a beberagem que obrigou Cronos a vomitar, devolvendo à vida todos os filhos que havia engolido. Tendo Metis engravidado, Urano e Geia advertiram Zeus, segundo uma velha profecia, que se a deusa tivesse um filho ele destronaria o próprio pai. Zeus a engoliu então, alojando-se na sua cabeça (meninges) o feto que se desenvolvia no seu ventre. Assim, Zeus, ao mesmo tempo em que afastava o risco de uma sucessão ameaçadora, incorporava a Sabedoria. Um proveito duplo.


NASCIMENTO   DE   PALAS   ATHENA

Tempos depois, sentindo fortes dores de cabeça, mandou Zeus chamar Hefesto para que o deus da metalurgia, a machadadas, abrisse a sua cabeça para de lá ser retirada a criança, que, espantosamente, nasceu adulta, armada, com a lança e com a égide, e dançando uma dança guerreira, soltando gritos belicosos. A ela se deu o nome de Athena, um nome cretense que significava grande mãe, proteção.

THEMIS
Zeus uniu-se em seguida a Themis (limite), uma titânida, divindade que regia tanto as leis do mundo físico como as do mundo moral. Como tal, cabia a ela o controle de todos os negócios humanos, que hão de se pautar pelo mais alto e elevado sentido do que é direito, justo. Como decorrência destes atributos, era considerada também como deusa da hospitalidade. Personificava o direito divino que devia inspirar as leis humanas, localizando-se em Delfos o seu santuário oracular, cuja tutela ela dividia com a Grande-Mãe Geia. Apolo, depois, se apossará desse santuário, matando o dragão Piton, que o guardava. Tal conquista consolidou a vitória do mundo patriarcal sobre o matriarcal, instaurando-se definitivamente o poder olímpico, operado por Apolo, em todo mundo helênico. 

Themis aconselhou Zeus a lutar sempre e em qualquer circunstância contra os Gigantes, a cobrir o seu escudo com a pele da cabra Amalteia, tornando-o invulnerável, e a levar a humanidade a uma guerra (Troia), com a finalidade de melhor equilibrar a densidade demográfica da Terra. Apesar de titânida, Themis sempre foi muito reverenciada pelos senhores da nova ordem, sentada sempre à direita de Zeus nas reuniões olímpicas.


AS   HORAS
Da sua união com Zeus nasceram as Horas, deusas do tempo, das estações do ano, Eunomia (As Boas Leis), Dike (A Justiça) e Irene (A Paz). Eram encarregadas de distribuir a umidade adequadamente para que a vegetação se desenvolvesse. Passaram depois, por analogia, a governar também a educação das crianças, com os nomes de Talo (a que faz brotar), Auxo (a que provoca o crescimento) e Carpo (a que prodigaliza os frutos). Acompanhavam com frequência Afrodite, tendo muito destaque no seu séquito. 

O culto de Themis se espalhou por toda a Grécia, sendo sendo ela representada pela arte como uma mulher madura, soberba fisicamente, de olhos bem abertos. Numa das mãos carregava sempre uma espada, na outra uma balança, traduzindo a sua imagem uma ideia de severidade e de acurácia na administração da Justiça. Astrologicamente, a deusa Themis “vive” no signo de Libra. É Themis quem “dá” a Libra o senso de justiça e a ideia de harmonia, conceitos que na prática se traduzem em desenvolvida capacidade de observação tão necessária à correção de desequilíbrios. 

Themis é a deusa tutelar da ciência da balança, como símbolo da
MUSEU DE OUDEWATER
justiça, da medida, da prudência e do equilíbrio, que tem como objetivo último a pesagem dos atos. Em todas as tradições, a balança se apresenta com essas características. Lembre-se que na Idade Média foi instituída pelos demonólogos cristãos, a pedido do braço secular do poder religioso, a bibliomancia, a prova da balança, com a finalidade acabar com as atividades da feitiçaria. Funcionava em Oudewater, na Holanda, o mais importante tribunal consagrado a essa prática. 



MNEMÓSINA
Unindo-se a uma outra titânida, Mnemósina (lembrar-se de), deusa da memória, para celebrar a vitória dos olímpicos na Titanomaquia, Zeus gerou as nove Musas (guardar bem). Elas presidiam a poesia épica, Calíope; a História, Clio; a lírica coral, Érato; a música, Euterpe; a tragédia, Melpômene; a retórica, Polímnia; a comédia, Talia; a dança, Terpsícore; e a astronomia, Urânia.


AS   MUSAS

As Musas são as cantoras divinas e inspiradoras de artistas e poetas para que, com as suas produções e seus cantos, os deuses se tornassem mais celebrados e os humanos menos inquietos e sofridos. Para Hesíodo são as musas que devem ditar também as boas palavras reais e presidir ao pensamento manifesto sob todas formas.

DEMETER
Unindo-se a Deméter, deusa dos cereais, da terra trabalhada, Zeus tornou-se pai de Kore, a Jovem, a Semente, que mais tarde ocuparia uma posição importante no mundo infernal, como esposa de seu tio Hades ou Plutão, com o nome de Perséfone. Mencione-se ainda a união de Zeus com Eurínome (a que dirige um grande domínio), oceânida, que, antes, unida a Ófion, seu esposo, administrava as alturas nevoentas do monte Olimpo. Expulsa por Cronos, quando da vitória sobre Urano, foi depois amada por Zeus, tornando-se mãe das três Cárites (Graças), Aglaia (Brilhante), Eufrósina (Alegria da Alma) e Tália (Festa). A estas três deusas atribuem-se todas as influências positivas sobre a atividade intelectual e a produção de obras de arte. Acompanham Apolo e Afrodite, sempre solícitas e alegres. 


ZEUS   E   HERA

Foi ao que parece depois de todas as uniões mencionadas que Zeus se dispôs o oficializar a sua relação com Hera,  até então resistente às suas investidas. Consta que Zeus, segundo uma versão mais aceita, se aproximou de Hera, então sob os cuidados de uma ama, Macris, em Creta, no monte Tornax, sob a forma de um pássaro, um cuco, transido de frio. Zeus armara uma grande tempestade para esse acontecimento. A deusa sem o perceber, tocada pela piedade, agasalhou a ave junto dos seus seios. Aproveitando-se disso, Zeus tomou a sua forma divina e tentou violentá-la, como estava acostumado a agir. Ela, porém, resistiu bravamente e Zeus, que a desejava muito, obsessivamente, não teve outra alternativa senão prometer solenemente, em nome das águas do rio Estige, segundo o privilégio do horkos,  que a desposaria. 

O cuco, como se sabe, é uma ave que simboliza a primavera, o despertar da natureza. Em muitas outras tradições, por se utilizar do ninho de outras aves para depositar os seus ovos, a ave também simboliza a preguiça e o parasitismo. Os gregos sempre associaram a ave à primeira hipótese, numa clara alusão ao fato de Hera, que tinha uma personalidade algo “gélida”, embora esplêndida e bela fisicamente, necessitar de “alguém” que a despertasse sexualmente, algo assim como a primavera despertando a natureza. Foi por essa razão, aliás, que o cuco foi parar no cetro que Hera usava como Senhora do Olimpo.

O porte altivo de Hera, sua grande beleza,  sempre haviam atraído enormemente seu irmão Zeus. O casamento de ambos tem duas versões. Segundo Homero, Hera gozou nos braços de Zeus os prazeres do amor antes da sagrada hierogamia. Segundo outros, por mais que ele tentasse seduzi-la, Hera permaneceu sempre inabalável, jamais permitindo que, sem uma união oficial, Zeus lograsse o seu intento. 

Realizadas as bodas com a participação de todo o universo, somente uma jovem chamada Quelonea, além de ridicularizar a festa, se recusou a comparecer. Hermes a transformou numa tartaruga (kheloné), lançando-a num rio, condenando-a a carregar a
AS   HESPÉRIDES
sua própria casa, tornando-a um símbolo do silêncio. Como presente de núpcias, Geia enviou aos seus netos, três maravilhosas maçãs de ouro, enviadas pelos noivos para ficar sob a guarda das ninfas do poente, Egle (A Brilhante), Eritia (A Vermelha) e Hesperaretusa (A do Poente), devidamente auxiliadas por um dragão, filho de Fórcis e de Ceto, no chamado Jardim das Hespérides. Próximo do local, como se sabe, ficava o titã Atlas, a sustentar nos seus ombros, a abóbada celeste, impedindo assim que o céu desabasse sobre Geia.


A paz matrimonial do divino casal esteve sempre perturbada pelas infidelidades de Zeus, por um lado, e, por outro, pelos orgulhosos ciúmes de Hera, que não suportava nenhuma rival e muitos menos os filhos espúrios que Zeus semeava pelo universo em razão seus amores itinerantes. 

Mesmo unido oficialmente, Zeus continuou a perseguir imortais e mortais. Seguindo conselho de Prometeu, seu primo, renunciou
THETIS  -  MUSEU  DA  TURQUIA
espontaneamente a Thetis, a nereida, com receio de que se ambos tivessem um filho ele o destronasse. Não conseguiu Zeus também levar adiante os seus intentos conquistadores com relação a Astéria, filha Ceos e Febe, que para escapar dele se metamorfoseou em codorniz. Lançando-se no mar, transformou-se Astéria numa ilha, Ortígia, a ilha das codornizes, chamada depois Delos (Brilhante), onde nasceram os gêmeos Ártemis e Apolo. Lembre-se que a deusa infernal Hécate, a deusa trívia, é filha de Astéria e de Perses, titã, filho de Crio e Euríbia. A codorniz no mundo mediterrâneo é um símbolo de ardor amoroso, sendo muito recomendado o seu consumo para preservar “aquecida” a união conjugal, em que pese o fato dos costumes migradores dessa ave. 



LETO

Menos resistente, Leto, Latona para os romanos, irmã de Astéria, se rendeu aos encantos de Zeus, o que a tornou vítima da cólera de Hera. Leto pôs no mundo mítico os gêmeos Ártemis e Apolo, respectivamente, as grandes divindades da Lua e do Sol. Mais adiante, Zeus conseguiu, escapando da vigilância de Hera, se unir no monte Cilene a Maia, uma das Plêiades, filhas de Atlas e de Pleione, nascendo dessa união o deus Hermes. 

Dentre as ninfas amadas por Zeus cabe citar as filhas do rio Asopo, Égina e Antíope. A primeira foi raptada pelo Senhor do Olimpo sob a forma de uma águia, para uns, ou de um língua de fogo, para
FONTE   PIRENE
outros. O pai percorreu a Grécia inteira à procura da filha e acabou encontrando-a devido a uma informação que recebeu de Sísifo. Como recompensa, o deus-rio fez brotar na Acrocorinto uma fonte para garantir o abastecimento de água da cidade, a famosa fonte Pirene. Zeus levou a amante para a ilha de Enone, tornando-a mãe de Éaco e mudou o nome da ilha para Égina. Mais tarde, Égina, indo para a Tessália, uniu-se a Actor e gerou Menécio, pai de Pátroclo, futuro companheiro de Aquiles. 



ANTÍOPE

Quanto a Antíope, Zeus se aproximou dela sob a forma de um sátiro, surpreendendo-a enquanto dormia. Fugindo da casa paterna, deu ela à luz dois filhos, Anfion e Zeto, em Sicione, onde se refugiara. O tio da jovem foi buscá-la e mandou expor as crianças numa montanha. Recolhidas por um pastor, acabaram, depois, salvando a mãe que estava aprisionada. 

Dentre as mortais amadas por Zeus, a primeira foi Níobe, que gerou
IO   E   ZEUS
Argos, o fundador da cidade de mesmo nome. Outro amor de Zeus foi Io, filha de Ínaco, muito famosa por sua beleza, sacerdotisa de um templo de Hera. Para livrar a amante da fúria de sua esposa, transformou-a numa vaca. Desconfiada, Hera exigiu que o animal lhe fosse entregue para ser vigiado pelo dragão Argos, o de Cem Olhos. Zeus contudo, sob a forma de um fogoso touro, continuou a se unir a Io. Zeus mandou que Hermes livrasse Io do dragão, o que foi feito. Fugindo, Io-vaca foi perseguida por uns insetos que com os seus ferrões quase a enlouqueceram. Continuando a fugir, Io se aproximou do mar na esperança de se livrar deles. Chegou a uma região costeira, um golfo, que passou a ser chamada pelo povo do lugar de golfo de Io. Atravessando o estreito que separa a Europa da Ásia, chegou Io finalmente ao Egito. O estreito atravessado por Io recebeu o nome de Bósforo (literalmente, a passagem da vaca). 



BÓSFORO  ( ASSINALADO  EM  AMARELO )

No Egito, tocada por Zeus, Io deu à luz Épafo, raptado pelos Curetes a mando de Hera. Conseguindo encontrar o filho, assumiu, como belíssima mulher, a todos deslumbrando, o reino do país, tomando o nome de Ísis. Seu filho Épafo, por seu lado, casou-se com Mênfis, filha do deus-rio Nilo. Dessa união nasceram três filhas: Líbia, Lisianassa e Teba.

DANAE  ( KLIMT )
Unindo-se à princesa Danae, filha de Acrísio, rei de Argos, Zeus, na forma de uma chuva de ouro, tornou-se pai do grande herói Perseu, o matador da Medusa. Unindo-se a Sêmele, filha de Cadmo, ancestral dos tebanos, Zeus deu ao mito Dioniso, deus das metamorfoses. Ao raptar a princesa fenícia Europa, trazendo-a para Creta, Zeus, tornando-a sua mulher, deu origem à dinastia cretense, com Minos, Radamanto e Sarpedon, seus três filhos, adotados pelo rei de Creta, Asterion.



LEDA  ( AUGUSTE  CLÉSINGER )
Doutra feita, Zeus percebeu que Leda, princesa da Etólia, lindíssima esposa de Tíndaro,  herói lacedemônio, se banhava num lago, acercou-se dela na forma de um maravilhoso cisne e a possuiu. Na mesma noite, Leda se uniu sexualmente ao marido. Da relação com Zeus-Cisne nasceram Polideuces e Helena e da relação com Tíndaro nasceram Castor e Clitemnestra. 

NASCIMENTO DE HÉRCULES
Para se aproximar da princesa Alcmena, Zeus tomou a forma do marido, Anfitrion, que lutava no campo de batalha. O resultado foi o nascimento do grande herói Hércules, programado filho de Zeus para representar o impulso evolutivo que une a terra ao céu, perseguido incansavelmente por Hera durante toda a sua existência. 

APOLO , TÍTIO  E  LETO
A descendência de Zeus é numerosíssima. Mencione-se ainda o infeliz Tântalo, filho que teve com Pluto, oceânida. Com as Danaides Olene e Hesíone teve, respectivamente, os filhos Oleno e Orcomeno, fundadores de cidades. Com Elara, sua neta, filha deste último, escondida sob a superfície da Terra, teve Títio, um gigante, de cujos préstimos Hera se valeu para atacar Leto.

Poderíamos prolongar esta enumeração da descendência de Zeus, muito enriquecida pelo orgulho das províncias e cidades da Grécia, que sempre desejaram atribuir uma origem divina à sua fundação. Toda cidade grega procurava ter um descendente de Zeus ligado às suas origens. Inúmeros filhos de Zeus tornaram-se, assim, ancestrais de povos ou de fundadores de cidades. Evidentemente, estas uniões de Zeus podem se tornar suscetíveis de outras interpretações. Assim, a união de Zeus como deus do Éter luminoso com Leto tem que ser entendida no contexto de mitos solares.
EUROPA   E   ZEUS
Outras uniões de Zeus são alegóricas transposições de fatos históricos, como, por exemplo, o estabelecimento da dinastia minoana, oriunda da Fenícia, em Creta. A ida da princesa fenícia Europa para Creta, raptada por um deus-touro, é uma colorida representação da chegada de povos da Ásia Menor a Creta, na era astrológica de Touro. Outras uniões de Zeus podem ser vistas como uma expressão metaforizada de fenômenos atmosféricos, como no mito de Danae, uma ilustração de como a chuva e o Sol (Zeus como chuva de ouro) alcançam a vida subterrânea (Danae encerrada no inviolável compartimento no qual o pai a encerrou).


Além de todos estes episódios, há que se destacar três que são únicos, algo ao que me conste jamais experimentado por qualquer outra divindade da mitologia grega. Referimo-nos à excisão dos nervos das mãos e dos pés de Zeus pelo monstro Tifon e à sua maternidade, em duas ocasiões: quando acabou de gerar Palas Athena em sua cabeça e a sua gravidez femural de Dioniso.

O primeiro acontecimento nos é  transmitido por duas fontes: a primeira é Apolodoro (séc. II aC), na sua Biblioteca Mitológica, a mais digna de fé, e a segunda é Nonnos (séc. V dC), nas suas As Dionisíacas, menos confiável, com seu barroquismo e gosto pelo insólito. Apolodoro nos conta que Zeus havia atingido Tifon com
ZEUS   E   TIFON
os seus raios e depois o lançou por terra com um golpe de sua harpé (foice) adamantina, talvez a mesma que Cronos havia usado para castrar Urano. Refugiando-se na Síria, o monstro, mesmo ferido, conseguiu envolver Zeus com o seu corpo serpentino e arrancando a foice de suas mãos cortou os nervos (neura) dos seus pés e das suas mãos. Em seguida, Tifon levou-o para a gruta de Korykie e lá o depositou, imobilizado. Os nervos de Zeus que haviam sido arrancados foram envolvidos com a pele de um urso e colocados sob a guarda de um dragão fêmea, Delphyne. A história prossegue nos contando que Hermes e Pan, seu filho, conseguiram se apoderar dos nervos, readaptando-os ao corpo de Zeus, que, recuperando as suas forças, venceu o monstro na famosa batalha da Sicília, fulminando-o e aprisionando-o sob o vulcão do monte Etna, através do qual Tifon, vez ou outra, ainda vomita as suas chamas. 



ETNA