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domingo, 24 de setembro de 2017

LIBRA (3)

                                           
AS  CÁRITES ( SANDRO BOTTICELLI , 1445 - 1510 )

Integram-se também à constelação de Libra as Cárites, as Graças, divindades inicialmente ligadas ao mundo vegetal e depois aparecendo sempre associadas à convivência harmoniosa entre os humanos. Kharis, em grego, significa graça exterior, beleza, encanto, boas maneiras, disposição para a convivência alegre, harmoniosa, divertimento saudável. Todas estas características encontradas tanto no mundo natural como no mundo dos humanos era delas. Nesta condição, eram as Cárites reverenciadas desde os primeiros momentos do dia. Em várias tradições mediterrâneas são registrados os seus cultos, destacando-se especialmente, por sua antiguidade, os de Creta, os jogos (agones) celebrados em sua honra, desde tempos do rei Minos. Seu mais antigo santuário estava em Orcômenos, antiga cidade da Beócia.


ORCÔMENOS  ,  ANTIGA  BEÓCIA

A beleza da variedade do mundo natural deve-se a elas, que, assim, agiam em comum com as Horas nesta área. Tinham responsabilidade direta pela suavidade primaveril, atenuando o que esta estação trazia de quente e áspero. Os poetas logo se apoderaram desta imagem, fazendo das Cárites as amigas e protetoras de tudo o que aparecia como suave, gracioso e belo. É o caso de Píndaro, gênio da poesia grega, que as considerou sempre como fonte do decoro, da pureza, da felicidade da vida diária e da boa vontade. Lembremos que palavras gregas eukharistia (ação de graças) e eukharistos (agradecido, obrigado) têm relação com as Cárites. O verbo é kharizomai, agradar, dar gosto, mais o prefixo eu, bem, bom.

Eram representadas por três jovens, nuas ou seminuas, sempre dançando, rodopiando, cantando, perto de fontes, usando uma decoração corporal e ambiental muito florida, com especial destaque para as rosas, as flores de Afrodite. Passavam grande parte do seu tempo com as Musas, perto do Olimpo. Na maior parte das versões, as Cárites passam por filhas de Zeus e de Eurínome, uma oceânida, que casada com Ofion administrava o cume nevoso do Olimpo.

CÁRITES
( C. VAN LOO , 1705-1765 ) 
As Cárites eram três: Aglaia (Brilhante, Esplêndida), Talia (Festa) e Eufrosina (Alegria da Alma). Em Atenas eram apenas duas, Kleta (a que causa impressão profunda, emitindo sons) e Phaenna (a que lampeja, a tremulante). Aglaia uniu-se a Hefesto, sendo a responsável, conforme atestado por muitas tradições, pelo elevado padrão estético das obras e peças que saíam das oficinas e forjas do deus. Palas Athena, muito desajeitada nas questões de beleza, recorreu várias vezes às Graças para suavizar o utilitarismo das suas ações e dos produtos que inspirava. O deus Hermes, muito pragmático, se valeu do conselho das Graças para aumentar a capacidade de penetração dos seus discursos.  No mais, as Cárites tanto influenciavam positivamente os trabalhos artísticos e as atividades intelectuais como participavam alegremente dos cortejos de Afrodite, Eros e Dioniso.

Na Grécia, numerosos templos e santuários mantinham com destaque as imagens dessas três divindades. Havia um festival anual que as honrava, chamado Charistesia, do qual faziam parte jogos teatrais, canto e dança. Eram também muito invocadas nos
SYRINX
banquetes e nos simpósios, sendo o primeiro brinde feito sempre em sua homenagem. Tinham como atributo a rosa, o mirtilo e os dados, como símbolos do alegre divertimento. Maçãs, vasos floridos, papoulas, espigas de trigo e instrumentos musicais (lira, flauta e syrinx) faziam parte da decoração dos ambientes em que pontificavam.     

AFRODITE   PANDÊMIA
( CHARLES  GLEYRE, 1806 - 1874 )
Entre os gregos, astrologicamente, o signo de Libra foi entregue à deusa Afrodite, aquela que veio para controlar o deus Eros, ou seja, para colocar as relações divinas e humanas numa perspectiva de reciprocidade, integrando numa justa proporção o amor sob a sua forma física, bem como o desejo e o prazer dos sentidos. O mundo grego enquadrou a deusa Afrodite em vários tipos, sendo os mais conhecidos
AFRODITE  URÂNIA , 1878
( CHRISTIAN GRIEPENKERL ) 
o “popular”, o da chamada Afrodite Pandêmia, e o “elevado”, “celeste”, o da chamada Afrodite Urânia, ou seja, a deusa como símbolo dos amores e das uniões onde podem prevalecer, respectivamente, o aspecto terrestre ou celeste da deusa. O cristianismo, lembremos, procurou construir a imagem da Virgem Maria sob a inspiração de influências egípcias e gregas, isto é, de Ísis, quanto às primeiras,  e da Afrodite Urânia e das Cárites quanto às outras.

Por fazer parte do eixo equinocial, marcando o início do outono, ao signo de Libra sempre foi atribuída grande importância. É nessa condição que ele é a porta de entrada do terceiro quadrante zodiacal, o da vida social, sucedendo o segundo quadrante, o da vida familiar, e preparando para o do coletivo, da humanidade, o quarto e último quadrante. Os hindus sempre associaram está área do Zodíaco, o terceiro quadrante, ao conceito de dharma, palavra que traduz ideias de lei, obrigação, dever e responsabilidade.


Os antigos gregos só muito tardiamente reconheceram o signo da Balança, dando-lhe a forma que tem hoje. Tal aconteceu ao tempo dos grandes astrônomos-astrólogos, Hiparco, Eratóstenes e Ptolomeu, quando, como se disse, as Pinças ou Garras de Escorpião ganharam autonomia. A elas se deu o nome grego de Zygon (Parelha), de onde saiu a palavra zigoto, usada na biologia para indicar o estágio do embrião em que os gametas masculino e feminino (esperma e óvulo) se encontram pela primeira vez no útero materno, ocorrendo então, verdadeiramente, a concepção.

Os romanos chamaram esta constelação de Jugum, palavra que traduz a ideia de algo que conecta, que enlaça, que junge, que atrela, designando ela  também uma espécie de cabresto com o qual desfilavam os prisioneiros. Outros nomes romanos da constelação eram, como se disse, Chelae (Pinças), Libra e muito raramente Noctipares. Este último era a palavra que os romanos usavam para designar pesos ou medidas de um modo geral. Alguns astrólogos gregos, lembremos, com formação mitológica, chegaram a ver na constelação de Libra o carro que levou Koré ao Hades, fazendo-se assim a ligação entre o signo de Virgem e o de Escorpião. Nas tabuinhas caldaicas, esta constelação era chamada de Zibanitu, palavra que parece significar algo como “chifres do escorpião”.

MARCUS   MANILIUS
Há uma tradição greco-romana que coloca a constelação de Libra sob a tutela de Hefesto (Vulcano), que passa por ter sido a divindade que a forjou. O defensor desta tradição é Marcus Manilius, poeta latino do primeiro século da nossa era, contemporâneo dos imperadores Augusto e Tibério, famoso autor de Astronomica, poema em cinco livros. Esta história de Hefesto como regente de Libra tem alguma justificativa mitológica se lembrarmos que Palas Atena chegou a ser considerada por muitos astrólogos gregos como a divindade regente do signo de Áries.

É no mito de Erictônio (o que provoca ruínas, o que despedaça) que encontramos a ligação entre as duas divindades acima referidas. Erictônio tem o seu nascimento ligado a um violento e incontrolável desejo de Hefesto por Palas Atena. Consta que a deusa certo dia procurou o deus metalúrgico para que ele fabricasse algumas armas de que necessitava. Ainda mal refeito do affaire Ares-Afrodite, Hefesto se inflamou quando viu a deusa virgem, tomado por um violento furor erótico. Tentou por todos meios possui-la e, embora coxo, a alcançou na corrida. Atena se defendeu bravamente, repelindo-o. No calor da refrega, entretanto, gotas do sêmen de Hefesto caíram sobre as coxas da deusa. Conseguindo se safar, depois, mais calma, segura de que não voltaria a ser atacada, Atena, horrorizada, com um floco de lã, limpou todo o esperma das suas belas pernas, jogando-o longe, no chão. No lugar em que a lã tocou a terra, uma criança dela brotou, um menino, recolhido de imediato pela deusa, que o chamou de Erictônio, o filho da terra.


GAIA   APRESENTA   ERICTÔNIO   A   PALAS   ATHENA

Sem que ninguém soubesse, nem os deuses, Palas Athena encerrou a criança numa arca, confiando a sua guarda às filhas de Cécrops, antigo fundador e rei mítico de Atenas. Apesar da recomendação de que jamais abrissem a arca, as jovens o fizeram; logo, porém, fugiram apavoradas diante da visão que tiveram: a criança era monstruosa, uma serpente da cintura para baixo. Punidas pela deusa com a loucura, as jovens princesas morreram ao se atirar da acrópole. Educado pela “mãe”, Erictônio, ao chegar à maioridade, recebeu o poder de Cécrops. A ele se deve, como rei de Atenas, a invenção da quadriga, a introdução do dinheiro na Ática e a organização das Panateneias em honra da mãe.   

HEFESTO
O mito de Erictônio une estreitamente Hefesto e Palas Atena na Ática, mais exatamente em Atenas. Homero, como sabemos, sempre exaltou Hefesto por causa de sua grande habilidade como construtor, criador, associando-o a Atena. Não é por outra razão que Platão (Critias) coloca as duas divindades compartilhando a tutela de Atenas, encontrando nelas uma conjugação de duas qualidades; de um lado, por Atena, a

philosophia (a razão guiando a força), e, de outro, por Hefesto, a philotekhnia (o amigo de todas as técnicas e artes). Ambos têm em comum também um grande pendor para tudo o que signifique artesanato, sendo divindades muito honradas pelos artesãos, que viviam no bairro do Cerâmico, onde anualmente se realizava uma grande festa (Khalkheia) em homenagem às duas divindades.

SURYA
Se pensarmos (astrologicamente) no fato de o fogo ariano ser atenuado ou controlado por Libra, talvez seja possível entender melhor esta relação entre Hefesto e Palas Athena e a de ser atribuída ao primeiro a regência do signo. Os mitos que cercam as origens de Hefesto têm, sem dúvida, suas raízes fixadas no mundo das tribos arianas. Lembremos que os primitivos povos árias reverenciavam o fogo através de três divindades.
AGNI
O fogo celeste era representado por Surya, o Sol; as suas emanações radiantes, ou seja, o fogo como intermediário entre o Sol e a Terra, tinha Indra por patrono; o fogo terrestre, o da vida doméstica, dos sacrifícios, das lareiras e das cremações, era de Agni; este último tipo de fogo podia ser preparado ou gerado pelos próprios seres humanos.  Era deste modo que no Rig Veda se faziam referências a Agni:
Tu que és o deus mais próximo de nós, vem nos socorrer, tu o nosso mais doce amigo.

Agni, na terra, podia tomar formas benéficas ou maléficas, como o fogo sacrificial no primeiro caso, promovendo a união terra-céu, ou como fogo dos incêndios, descontrolado, terrível, no segundo caso, quando destrutivamente rugia como um touro bravio ou como as ondas revoltas dos mares. Na língua sânscrita, Yavishtha, um superlativo de yuvan, jovem (juvenis, junior, em latim), é juveníssimo, ou seja, o eternamente jovem, aquele que sempre se renova, que não perde jamais a sua força, uma epiclese do deus Agni.

Chamado pelos gregos de Aphaistos (aph, água, e aistos, acender, produzir fogo), Hefesto, é o fogo celeste nascido das águas. O Hefesto grego adquire o status de artista dos deuses, atividade muito semelhante à de Agni na Índia védica, chamado, nesta condição, de Tvasthar, palavra que quer dizer artífice, o mais operoso dos deuses, criador não só de coisas inanimadas como de animais e homens. No mundo védico, havia um colégio sacerdotal que administrava os cultos relativos ao fogo como Agni, principalmente nos seus aspectos práticos, exercendo seu poder sobre o elemento ígneo como criador de riquezas, produtor de alimentos e gerador de bens temporais.

HEFESTO   E   TÉTIS
Hefesto, como sabemos, segundo uma versão mais aceita, nasceu da união legítima de Zeus e de Hera, mas, segundo Homero, uma união sem amor. Noutra versão, Hera teria gerado Hefesto sozinha em represália ao nascimento de Palas Atena, fruto de um famoso “parto cerebral” de Zeus, tipicamente ariano. Para o defeito físico de Hefesto há também duas versões. A primeira (Ilíada) nos diz que Hera, ao ver o filho coxo e
ZEUS   E   HERA
deformado, o lançou do alto do Olimpo em direção da terra. Caindo no mar, Hefesto foi recolhido por Tétis e Eurínome, divindades marinhas, que o protegeram, levando-o para uma gruta, onde fez a sua longa aprendizagem no trabalho do ferro, do bronze, dos metais e pedras preciosas. Numa outra versão, Hefesto teria nascido hígido. A causa estaria numa discussão entre Zeus e Hera a propósito de Hércules. Ao tomar o partido da mãe, Zeus, irritado, o lançou no espaço, caindo ele na ilha de Lemnos. Devido ao tombo, teria ficado manco, com os pés voltados para trás.   

Mais tarde, admitido no Olimpo, assumiu a condição de mestre do elemento ígneo e patrono de todos os que o utilizam para a produção de bens e utensílios. Para os deuses, fabricou maravilhas, armas terríveis. Temível, violento, atormentado e arrebatado, as indicações que temos nas antigas tabuinhas mesopotâmicas se ajustam porém a nosso ver, muito mais, a alguém nascido sob a influência das Pinças de Escorpião, que iriam mais tarde constituir o signo de Libra.

PALAS   ATHENA
( 1898  ,  KLIMT )
Quanto a Palas Atena, lembremos que Marcus Manilius, ao narrar a sua história, destaca os traços arianos que na deusa encontramos, desde o seu nascimento, da cabeça do pai. Zeus a “concebe” só. O momento do parto é anunciado por uma grande dor de cabeça. Hefesto é o “parteiro”. Abre a cabeça de Zeus e dali arranca a deusa, nascida adulta e armada, soltando gritos de guerra. Mal nascida, a jovem deusa guerreira pôs-se a lutar ao lado do pai e de outros deuses olímpicos no episódio da Gigantomaquia. Tanto as armas que usou como os seus sábios conselhos foram decisivos para a vitória dos olímpicos.

Outra característica ariana de Palas Atena estava no seu grande empenho em participar de competições e concursos. Citemos, dentre eles, a disputa pelo título de “a mais bela”, que teve por cenário o casamento de Peleu e de Tétis, e a disputa que travou com Poseidon, pela tutela da polis ateniense. Sua enorme vocação para ultrapassar a tudo e a todos, levou-a, por exemplo, a assumir a proteção dos lugares elevados, como a deusa das acrópoles. Se numa perspectiva idealizada é a deusa da inteligência, da prudência e da força guiada pela razão, na prática, na realidade, sua história está repleta de passagens em que se mostra rancorosa, impulsiva, violenta, amante das batalhas, das competições, traços que aproximam bastante do mundo ariano.

MARCUS   MANILIUS
Ainda segundo Marcus Manilius, em seu poema, as características do carneiro não devem ser perdidas de vista quando procuramos descrever os tipos do signo, pois o carneiro, cujo rico velo produz lã tão útil, espera renová-lo a cada vez que dela é despojado; situado sempre entre uma fortuna brilhante e uma ruína instantânea, não enriquecerá senão para perder tudo, sendo sua felicidade o prenúncio de sua queda. Nem a própria Palas Atena desdenhou trabalhar com a lã e considerou glorioso e digno o triunfo que obteve sobre Aracné.

Libra é o sétimo signo, oposto polar de Áries, e constitui, como sabemos, no zodíaco, o lugar mais distante do eu. Em qualquer circunstância ou momento em que, como indivíduos, tivermos que
VÊNUS
( BOTTICELLI , 1445 - 1510 )
iniciar um relacionamento  com outras pessoas o simbolismo do equinócio de outono e o de Libra é invocado. Há que se considerar, todavia, que o simbolismo de Libra deixa muito a desejar quando pensamos em amor. A Vênus libriana realmente não empolga; é bela, pode ter padrões estéticos refinados, é diplomática, socialmente agradável, companheira, mas falta-lhe aquilo que a Vênus taurina tem, o lado carnal, terreno, o prazer sensual, onde o erotismo sempre pode entrar, glorificado de algum modo.

Embora eu não seja um defensor da defenestração de Vênus da regência de Libra, julgo que a corregência do signo deva ser compartilhada de um modo mais definido entre ela, Vênus, Palas Atena e Hera, deusas-asteróides que começaram a ocupar o seu espaço no signo e nos assuntos da sétima casa pelo que ambas, com muita propriedade, têm a dizer. Hera, na mitologia grega, era a deusa das justas núpcias e da fidelidade conjugal, a legítima (legal) esposa do Senhor do Olimpo. É, como tal, a protetora das uniões oficiais, estendendo-se o seu domínio por isso aos partos e à educação dos filhos.  Por outro lado, Palas Atena é, sem dúvida, o lado lutador da sétima casa, o seu lado aguerrido  que, às vezes, aparece como a coação da lei, a  espada da justiça. É neste caso, que a balança e a espada se tornam inseparáveis. A primeira como símbolo do julgamento, da medida, da prudência e da medida. A outra, a espada, na sua dupla função, como destruidora da injustiça e restauradora da ordem. 


PALAS , VÊNUS , HERA (HANS VON AACHEN, 1552 - 1615)

Se pensarmos na questão da estética, Hera sempre foi vista como uma mulher de beleza majestosa, embora às vezes irascível e altiva, elegantemente vestida, cabelos impecáveis, classe na gesticulação, corpo rijo, uma presença que impunha respeito e, quem sabe, desejos eróticos mudos naqueles que a viam espetacularmente se movimentando nas reuniões olímpicas. Sendo esposa de Zeus, detinha Hera naturalmente certos atributos de soberania que lhe eram pessoais e intransferíveis, que a distinguiam muito das outras deusas. Exercia inclusive, para reforçar a soberania de sua posição, uma poderosa ação sobre alguns fenômenos atmosféricos. Era reverenciada sobretudo nas alturas celestes, lugar onde se amontoavam as nuvens, de onde vinham as chuvas benéficas, mas de onde também provinham violentas tempestades. As más línguas olímpicas diziam que as querelas entre Zeus e Hera, típicas da sétima casa, eram uma alegoria, representando as perturbações atmosféricas naturais das alturas celestes. Hera seria assim, também, a imagem da atmosfera tantas vezes carregada, agitada, escura, ameaçadora. Quanto a Zeus, se personificava o éter puro, a serenidade do firmamento, podia, muitas vezes, se manifestar através de seus três terríveis atributos, o trovão, o relâmpago e o raio.

ZEUS  E  HERA
O casamento entre Zeus e Hera foi um acontecimento que decorreu sobretudo de acordos e arranjos políticos, econômicos e sociais; uma história de poder e de lutas, como ocorre ainda hoje com muitas uniões no mundo das elites, algo bem distante de uma associação motivada por amor. A aproximação entre o amor e o casamento, na civilização ocidental, só foi feita muito tardiamente, como se sabe.  Nas classes superiores, os casamentos, como sabemos, ainda hoje, são arranjados. Por isso, embora associemos Vênus ao amor, não há dúvida de que ela se relaciona muito mais com o casamento-instituição, como aliás aconteceu com Afrodite, quando do seu casamento com Hefesto. Por uma questão de justiça, seria por isso muito mais apropriado talvez dar um poder maior a Hera sobre as questões de Libra e da sétima casa. Razão maior para isto a encontraremos se pensarmos o quanto as relações de Zeus e Hera tipificam mais adequadamente as relações “normais” da instituição chamada casamento, relações cheia de crises, arrufos, brigas, histórias de infidelidade, acessos de ciúme e vinganças.

A corregência de Palas Atena em Libra, como já foi possível deduzir do que sobre ela se falou acima, encontra a sua justificação principalmente no caso de librianos que tenham em suas cartas uma dominante fogo ou ar, isto é, mais ativos, “legalistas”, “justiceiros” (a espada a serviço da Justiça), ou que, devido ao componente aéreo, sejam mais frios, mais lógicos, menos propensos a se envolver nas confusões afetivas que o signo tradicionalmente costuma apresentar.

HÉCUBA  E  PRÍAMO  
Não podemos esquecer que os gregos sempre aproximaram do signo de Libra uma das figuras mais contraditórias de sua mitologia. Referimo-nos ao príncipe troiano Páris, também chamado Alexandre (o que repele), filho de Príamo e de Hécuba. Antes do seu nascimento, os adivinhos, consultados, anunciaram que a criança causaria um dia a destruição de Troia através do fogo. Por causa dessa predição, Príamo determinou que a criança fosse exposta, abandonada. Hécuba, porém, entregou o menino a uns pastores do monte Ida.

PÁRIS ( 1628 , VAN DYCK )
Se nos primeiros anos de sua juventude e vida adulta Páris demonstrou virtudes afirmativas que o levaram de volta ao palácio do pai, seu comportamento, depois, com a ninfa Enone foi lamentável. Com relação a Helena, então, Páris, outrora arrojado pastor, teve um comportamento pusilânime e só não morreu nas mãos de Menelau por causa da intervenção de Afrodite a seu favor. Ele, como sabemos, terminará a sua vida lamentavelmente na condição de um anti-herói, encarnando as expressões inferiores de Libra, apesar de ter sido o autor indireto da morte de Aquiles, o maior guerreiro dos gregos. 





quarta-feira, 23 de agosto de 2017

LIBRA (1)

                                              

LIBRA
Uma das mais antigas referências que temos sobre o signo de Libra (23 de setembro a 22 de outubro) nós a encontramos no antigo Egito, na balança como símbolo do julgamento. A balança era o centro de uma cerimônia religiosa muito importante. Esta cerimônia consistia na pesagem das almas quando, desprendendo-se do corpo, elas iniciavam a sua viagem para o Outro Lado (Duat). Esta pesagem se realizava na sala da deusa Maat, deusa da justiça e da verdade, por meio de uma balança na qual se depositava, no prato da esquerda, o coração (Ib) do morto e no outro prato, o da direita, uma pena branca de avestruz, símbolo da deusa. 


MAAT

Aparecendo sempre em oposição ao carneiro, símbolo do aspecto criador, animal portador da vida, da saúde e da força, a balança é um símbolo do poente, da morte, e abre caminho de para a ressurreição. Enquanto o carneiro transmuta o declínio solar em esplendor, em impulso luminoso, a balança marca os momentos inicias da sua extinção. A balança mantém as forças da luz e das trevas momentaneamente em equilíbrio. Logo, porém, a espada da justiça cortará sem qualquer outra influência o fio deste equilíbrio (equinócio). Este corte introduz os homens “naquilo que deve ser” queiram eles ou não. A matéria, a vida mundana, os corpos, tudo o que tomou forma, enfim, começa a caminhar para o seu fim. O sentido do “que deve ser” é inversamente proporcional ao “que quer (ou acredita) ser”. Pesa-se aqui, rigorosamente, um “tanto” de
AVESTRUZ
construção e um “tanto” de destruição, de modo que os pesos se anulem. Pesava-se, assim, no Egito, o hieróglifo da verdade, a pena que simbolizava a deusa, sendo o contrapeso o coração do morto. As penas do avestruz, porque exatamente iguais, eram símbolos da equidade, e, como tal, da deusa Maat, que personificava a verdade, a justiça e a norma.Ela representava o equilíbrio e a harmonia da criação com relação ao incriado, ao caótico.    

Ao lado dos cultos e de seus objetos, a religião egípcia sempre teve um caráter moral, a que era dado o nome de “maat”. É quase impossível traduzir com exatidão o significado desta palavra, nela se combinando conceitos de ordem, justiça, dever, retidão, responsabilidade, algo muito parecido com a palavra sânscrita dharma. Maat, como conceito, não tinha origem humana. Fora criado pelos deuses e desde o aparecimento do cosmos passou a fazer parte da criação. Antes de qualquer coisa, maat representava a lei divina, imutável e imprescritível, na qual deviam se inspirar as leis humanas, chamem-se elas ética, moral ou princípios de direito. Todos deveriam, desde o faraó ao camponês, se esforçar para viver de acordo com ela, cada um no seu nível social.

Concebida dessa maneira, como obra dos deuses, e não da consciência dos homens, maat sempre se revestiu para os egípcios de imutável perfeição. Isto excluía qualquer possibilidade de crítica ou de mudança da estrutura social. O mundo e o que havia nele tinha sido criado pelos deuses exatamente da forma como queriam. Tudo era, portanto, como deveria ser, fixo, eterno. As guerras, as pestes, as secas significavam simples perturbações temporárias da ordem cósmica estabelecida. Uma vez que o mundo tinha sido criado como deveria ser desde o momento da criação, não era possível por definição ter havido uma época anterior melhor. Na
VALE   DO   NILO
religião egípcia não havia ideias como Jardim do Éden, Idade de Ouro ou Apocalipse. A mesma atitude determinava a concepção que os egípcios tinham da morte e a importância que lhe atribuíam. As suas crenças sobre a vida do além-túmulo, como as que diziam respeito aos deuses, tinham velhas raízes no vale do rio Nilo. Sepulturas da era neolítica revelavam a existência, ao lado dos mortos, de instrumentos, de objetos e de víveres que só podiam mostrar a intenção de serem usados pelo falecido no além. 

No eixo da balança usada na psicostasia ficava sentado o deus Toth, o escriba divino, na sua forma cinocéfala ou com a cabeça de íbis. Ao fundo, sob a presidência do deus supremo, Osíris, quarenta e duas divindades, correspondentes aos quarenta e dois nomos, ou divisões administrativas do país, acompanhavam a cerimônia. Dela participava também o deus-chacal Anúbis, como senhor do mundo dos mortos. Aos pés de Osíris ficava o monstro Ammit, uma figura híbrida, meio crocodilo, meio hipopótamo, peitoral de leão, chamado de O Devorador; aguardava o resultado da pesagem. Este monstro era uma imagem das águas primordiais, lembrando o caos. Se o coração do morto fosse mais pesado que a pena da deusa Maat, ele era entregue ao monstro, que logo o devorava. Com isto, ele voltava à indeterminação para, um dia, quem sabe, passar pela metempsicose (passagem da alma de um corpo a outro). Se o coração fosse mais leve que a pena da deusa, a alma se encaminharia para o Outro Lado, reconstituindo-se o corpo, que então gozaria da imortalidade de Osíris. 


   LIVRO   DOS   MORTOS -  

A alma era pesada em função da sua maior ou menor proximidade com o divino. Quanto mais próxima dele, mais se elevava. Por isso, se ela tivesse se afastado do divino na sua caminhada terrena, perderia as suas asas, a sua leveza. Lembremos que a alma (ba), no Egito, era representada por um pássaro androcéfalo. Na psicostasia, a pena, por isso, simbolizava a elevação da alma. Segundo o prato da balança judicial que se eleve, ela será reconhecida como pura ou corrompida.


MORTE  DE  HÉRCULES , 1634  ( FRANCIS  ZURBARÁN )

A psicostasia é uma cerimônia que lembra elevação, e, portanto, o elemento ar. É, no fundo, um processo pelo qual uma substância
ELIAS  ( ÍCONE RUSSO )
inferior se traduz numa forma superior por um movimento ascendente. Um dos aspectos do simbolismo da ascensão é, como se sabe, o da translação para a eternidade. Exemplos deste aspecto estão no suicídio apoteótico de Hércules, suicídio que o levou para o Olimpo, e o da subida aos céus do profeta Elias, que a ele ascendeu vivo, num remoinho, transportado num carro puxado por cavalos de fogo. 

A origem do simbolismo da translação para os céus, isto é, para a eternidade, encontra, ao que parece, a sua primeira expressão na antiga religião egípcia. Esta forma de translação é chamada, alquimicamente, de sublimatio superior, descrita por várias religiões. Na sua existência temporal, contudo, o ser humano só pode experimentar a chamada sublimação inferior, aquela em que os anseios de altura, de voo ou de ascensão exigem sempre uma volta à terra porque ele não pode, enquanto coagulatio, abrir mão da alternância entre a elevação e a queda, isto é, da circulatio. A sublimatio superior propõe a eternidade, a inferior, traz de volta à terra, tendo um caráter ascendente num primeiro momento e descendente numa segunda fase.

ZIBANITU

Os antigos povos da Babilônia davam ao signo de Libra o nome de Zibanitu, a Balança, e nela viam duas estrelas importantes: Zuben do Sul e Zuben do Norte, os dois extremos polarizados que lembravam a pesagem das almas no julgamento depois da morte (a psicostasia para os egípcios e a querostasia para os gregos). 


HERMES   PSICOPOMPO

A balança, entre os persas, foi colocada nos céus sob a tutela do anjo Rashu, postado junto de Mitra, também com a finalidade da pesagem das almas sobre a ponte do destino. Lembremos que a mesma ideia aparece na Grécia. Num famoso vaso grego, Hermes, na função de deus psicopompo, procede à pesagem das almas de Aquiles e de Pátroclo. Entre os muçulmanos, a balança do julgamento é mencionada no Corão. Num sentido figurado, no Islã, a balança é um grande livro aberto sobre o qual se inscrevem diretamente as boas e as más ações do crente. Na vida cotidiana, ela simboliza o bom julgamento, a apreciação justa, o sentido da discriminação. Há entre os árabes do Magrebe (ocidente, lugar onde o Sol se põe) a expressão que revela a sua importância: Teu olho é a tua balança.


A ILÍADA
Entre os gregos, já em Homero (A Ilíada) a balança era usada para simbolizar o destino como se mostra no episódio em que se narra o combate entre Aquiles e Heitor: Quando, porém, chegaram pela quarta vez, às fontes,  o Pai dos deuses ergueu então a balança de ouro e nela colocou as duas sortes da morte, em um dos pratos a morte de Aquiles e em outro a de Heitor, o domador de cavalos; depois elevou-a, segurando-a pelo meio. O dia fatal de Heitor havia chegado e ele desceu ao Hades. Apolo Febo o havia abandonado.


 MIGUEL  E  JACÓ ( EUGÈNE  DELACROIX , 1798 - 1863 )

No cristianismo, o signo de Libra costuma aparecer associado a São Miguel, o arcanjo do julgamento. Este arcanjo, entre os judeus, é o de mais alta hierarquia, sendo conhecido como o Príncipe da Água e o Anjo de Prata. No período bíblico, Miguel anunciou a Sara que ela daria à luz Isaac; foi ele mesmo que no teste da akedá interveio para que o mesmo Isaac não fosse sacrificado, Miguel lutou com Jacó, ferindo-o; foi Miguel quem disse que ele, Jacó, receberia um novo nome, Israel. Como advogado do povo judaico, Miguel senta-se à direita do Trono da Glória. É Miguel que acompanha os devotos ao céu após a morte e faz a oferenda das suas almas no altar celestial. Assinalemos que no pensamento judaico, os demônios são privados de seu poder diante de tudo o que é equilibrado. 

Na Idade Média, havia a chamada prova da balança ou bibliomancia, que servia para condenar os feiticeiros. Colocava-se o acusado sobre um dos pratos de uma balança e no outro se depositava uma Bíblia. Se o acusado pesasse mais, seria condenado. Consta que muitas feiticeiras, bem mais leves que seus comparsas masculinos, conseguiram escapar da condenação. De um modo geral, porém, a bibliomancia consistia na adivinhação do futuro através da interpretação de uma passagem de um livro aberto ao acaso.


HOKSENWAAG
A cidade holandesa de Oudewater é famosa porque desde o final da alta Idade Média gozava de um privilégio incomum, não possuído por nenhuma outra na Europa. Milhares de pessoas acusadas de feitiçaria a procuravam na esperança de obter um livramento de tal acusação ou suspeita. É que nessa cidade havia um edifício público, conhecido como Hoksenwaag (Casa de Pesagem de Feiticeiros) que expedia certificados para esse fim. Um magistrado verificava primeiramente se o interessado não escondia nada sob suas vestes. Com vestes sumárias, quase nu, descalço, na presença de um conselho da cidade, a pesagem era realizada em público. O certificado expedido, no caso inocência, era muito detalhado, selado, com diversas assinaturas das autoridades, libertando o acusado de qualquer suspeita. Lembremos que na Bíblia (Provérbios) encontramos: A balança enganosa é abominação diante do Senhor; o peso justo é a sua vontade. O objetivo maior da pesagem realizada em Oudewater era o de se constatar se o incriminado havia sido colocado ou não em estado de levitação pelo Diabo. 

JABIR  IBN  HAYYAN
A simbologia da balança foi muito utilizada pela Alquimia. É do mundo árabe que nos vem o Livro das Balanças, de autoria de Jabir Ibn Hayyan (sécs. VIII-IX), chamado de Geber pelos latinos, que viveu perto de Bagdá. Para ele, por exemplo, o ouro representava o equilíbrio perfeito entre os dois princípios opostos e complementares, o enxofre e o mercúrio. Os outros metais seriam manifestações destes mesmos dois princípios, mas através de uniões imperfeitas. 

Os gregos, antes de definir melhor a área zodiacal de Libra, entendiam que ela pertencia às pinças da constelação de Escorpião, as Chelae Arum, segundo os romanos. Os sumérios já conheciam a região como separada de Escorpião, chamando-a de Zibba Anna, a Balança do Céu. Os árabes, apoiando-se nos babilônicos, davam o nome de Zuben el Genubi e Zuben Eschamali às duas principais estrelas de Libra, e também uma tradução dos nomes gregos dados por Ptolomeu. Para o ocidente, a “independência” de Libra só ocorreu por volta de 1.100 aC, quando a constelação começou a marcar o equinócio do outono. Sosígenes, um astrólogo alexandrino, provavelmente ciente das elaborações sumérias e egípcias, deu subsídios para que no calendário Juliano a constelação de Libra ficasse posicionada entre Virgem e Escorpião. Tudo isto explica porque o signo de Libra foi o último a ser introduzido e fixado no Zodíaco. Em sânscrito, Libra é Thula e em grego Zygos.


 LIBRA   E   ESCORPIÃO   

A balança, em todas as tradições, sempre apareceu associada à espada (Áries), unindo os dois símbolos a função administrativa e a função militar. É por essa razão que os celtas viam a espada tanto como um emblema da bravura e do poder guerreiro, sinônimo de
KSHATRIA , RAJPUT
destruição, como símbolo da justiça e da paz, na medida em que a destruição deve ser aplicada à injustiça, à ignorância, àquilo que é malefício, tornando-se por esse fato positiva. É por isso que a espada evoca também a guerra santa. Na Índia, é a casta dos Kshatrias, a segunda, a do poder político e a dos guerreiros, que une os dois símbolos, a balança e a espada, deixando-nos claro esta associação que a espada deve se colocar a serviço da justiça, o que nem sempre, porém, acontece. 

Entre os gregos, a primeira divindade associada ao signo de Libra foi Têmis. Filha de Urano e de Geia, Têmis (etimologicamente, estabelecer como norma) é a deusa das leis imprescritíveis, irrevogáveis e universais de origem divina. Estas leis opõem-se àquelas estabelecidas pelos homens (nomos) e às regras morais, o chamado direito consuetudinário. A ideia de uma lei divina já tinha sido aventada por Heráclito, na filosofia pré-socrática na medida em que o filósofo  vinculou as leis humanas à lei cósmica. 


TÊMIS , ZEUS  E  PALAS
A titânida Têmis foi a segunda esposa de Zeus Todo-Poderoso. Unindo-se a ele, tornou-se mãe das Horas  e das ninfas do rio Erídano (o rio Pó, da Itália), as mesmas que ensinaram a Hércules o caminho que levava ao Jardim das Hespérides (3º trabalho, referente ao signo de Gêmeos). Devido à sua união com Têmis, Zeus assumiu a condição de divindade máxima da qual derivam todas as leis, os ordenamentos e o direito em geral. Em nome de Zeus, os reis da terra deviam exercitar o seu poder, fazendo justiça e defendendo a ordem. É por essa razão que, já em Homero, Têmis é sempre invocada com Zeus para estender a sua proteção ao justo.

A Têmis cabia também o poder sobre os oráculos e os ritos em geral, além de supervisionar as assembleias. Os oráculos são locais onde a divindade pode falar diretamente por meio de um médium que caia em estado de entusiasmos. Os gregos chamavam tal local, onde se buscava um bom conselho (chresmos) de chresterion ou manteion. Os romanos o chamavam de oraculum, de onde veio a palavra para a nossa língua. O mundo oracular é, por excelência, feminino. Mesmo depois que o oráculo de Delfos, de Geia e de Têmis, passou para o mundo patriarcal (conquistado por Apolo), a transmissão das sentenças oraculares não pode deixar de prescindir do feminino, reveladas que eram por mulheres, as pitonisas ou sibilas. Foi Têmis quem passou a Apolo o domínio da mântica usada no referido oráculo. A mântica de Geia e de Têmis era a chamada mântica por incubação, transformada pelo deus em profética.   


GIGANTOMAQUIA  -  PARTENON

Como grande divindade das leis eternas, era Têmis também a dona do bom conselho sob o nome de Euphrone, atributo que dividia com Nix, a deusa da Noite. Têmis aconselhou a Zeus, na Gigantomaquia, a cobrir o seu escudo, que por isso recebeu o nome de égide. Esta palavra vem do grego aigis, cabra, pois foi com a pele da cabra Amalteia que tal escudo foi coberto e depois passado
JARDIM   DAS   HESPÉRIDES
( E. BURNE - JONES , 1833 - 1898 )
para as mãos de Palas Atena. Consta que foi também por conselho de Têmis que a guerra de Troia foi deflagradas como uma forma de equilibrar melhor, ao tempo, o excesso de população da terra. Deve-se também a Têmis, como antiga titular do oráculo délfico, o conselho dado a Zeus e a Poseidon para que não se unissem à nereida Tétis, pois, se o fizessem, ela daria à luz um filho mais poderoso que o pai. Previu ainda Têmis que um dia um filho de Zeus (Hércules) retiraria do Jardim das Hespérides os pomos de ouro, guardados no referido jardim, pelo gigante Atlas.

DIONISO  E  AS  HORAS

Assim como Têmis tem a ver com a constelação de Libra, as suas filhas as Horas também a ele se ligam, integrando-se ao séquito da deusa Afrodite, que assumiria a tutela da referida área zodiacal como o planeta Vênus. As Horas eram filhas de Têmis e de Zeus e eram consideradas as divindades das estações do ano. Eram três, correspondendo à primavera, ao verão e ao outono, pois o inverno não era considerado como uma estação, já que era um período em que a natureza morria. Por isso, o número das Horas se fixou em três, cada uma delas com um atributo: flores (primavera), grãos (verão) e uvas e frutos (outono). Havia uma quarta Hora, a do inverno, representada com despojos de caçadas, mas que nunca teve o realce das irmãs. 

Como divindades das estações, promoviam as Horas o desenvolvimento da natureza, colocando-se porém sob a tutela de divindades maiores. Ligadas à vida da natureza, exerciam elas o controle sobre as mudanças do tempo, abrindo ou fechando os portões do céu, provocando a alternância entre os períodos chuvosos e os ensolarados, tudo para o melhor crescimento da vida vegetal. Gentis e simpáticas, movendo através da dança, usando coroas de ouro enfeitadas com flores, eram sempre benevolentes e protetoras da humanidade. Apesar de às vezes provocarem a impaciência em principalmente em razão de atrasos, sempre acabavam por aparecer, trazendo doçura e beleza, jamais decepcionando.


IRENE ,  EUNOMIA  ,  DIKE 

De divindades do mundo vegetal passaram depois a representar as horas do dia. Seus nomes: Eunômia (disciplina), Dike (justiça) e Irene (paz). Eram chamadas pelos atenienses por outros nomes, respectivamente: Talo (a que faz brotar), Auxo (a que provoca o crescimento) e Carpo (a que prodigaliza os frutos). Aos poucos, a ação das Horas se estendeu ao mundo dos humanos, como divindades que asseguravam o equilíbrio e o ajuste da vida social. Participavam elas também de modo especial da paideia, na medida em que cuidavam da educação das crianças, “umedecendo-as” (no mundo natural, eram as Horas encarregadas de distribuir a umidade) corretamente para que brotassem no tempo certo, crescessem adequadamente e florescem no tempo devido. 

Assim como tinham a ver com a ordem das estações, as Horas participavam da moralidade da vida social, nos seus aspectos quanto à virtude, à honestidade, ao bem, à manutenção da palavra dada etc., o que se tornava ainda mais evidente por serem filhas de Têmis. Assim, neste domínio, Eunômia personificava a legislação de um modo geral; Dike, a justiça; e Irene a paz. Os serviços da primeira voltavam-se sobretudo para a vida política, sendo o resultado de suas intervenções muito celebrados por poetas e pelo Estado de um modo geral. Dike atuava mais na área do chamado Direito Civil, na esfera das relações individuais, passando informações ao Pai de todas as injustiças cometidas. 

IRENE   E   PLUTO
Irene, a mais álacre das irmãs, era muito reverenciada em festivais em que se celebravam a convivência humana. Irene tornou-se mais tarde, segundo algumas versões, mãe de Pluto, a personificação da riqueza, um robusto menino que passou a acompanhar Dioniso e Perséfone, carregando uma cornucópia. As imagens de Pluto o descrevem como cego porque favorecia tanto os justos quanto os injustos. Segundo consta, foi o próprio Zeus quem o cegou, para impedir que socorresse só os bons. Irene era reverenciada também sob o nome de Chloris (em Roma, a deusa Flora), como divindade dos brotos, dos botões e das flores, muito cortejada por Bóreas, o vento do norte, e por Zéfiro, o vendo do oeste. Como dissemos, uniu-se a este último, tornando-se sua fiel esposa. 


ZÉFIRO   E   FLORA
( W. A. BOUGUEREAU , 1825 - 1905 )