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quarta-feira, 4 de junho de 2014

HÉRCULES - SÉTIMO TRABALHO


HÉRCULES

O JAVALI  DE  ERIMANTO - Erimanto era uma região desolada, montanhosa, da Arcádia. Nela vivia um javali gigantesco, que aterrorizava os habitantes da região, destruindo ou matando tudo o que encontrasse pela frente. A missão de Hércules era a de capturá-lo e de levá-lo vivo para Argos. Antes de se dirigir ao local, nosso herói procurou aconselhar-se com o deus Apolo quanto à melhor maneira de dar cumprimento ao que lhe determinara Euristeu. O deus lhe falou que o animal era do deus Ares, sendo também muito caro à sua irmã, a deusa Ártemis. Disse-lhe Apolo que a melhor maneira de enfrentar o monstro e de vencê-lo era a de lutar sem lutar. Hércules se impacientou com as palavras de Apolo, não as compreendeu, e resolveu que decidiria o que fazer quando se visse frente a frente com a fera.



Chegando a Erimanto, nome que lembra não só a cor vermelha como traduz uma ideia de violência e de excitação, Hércules entrou em contacto com o centauro Folo, um centauro pacífico, muito diferente dos demais. Ele havia recebido do deus Dioniso, segundo
DIONISO
Diodoro Sículo, há muito, uma botija de vinho com a recomendação de que só a abrisse quando procurado pelo filho de Alcmena, que viria lhe pedir hospitalidade. Assim aconteceu: aberta espontaneamente pelo centauro a botija de vinho, conforme recomendação de Dioniso, uma grande surpresa; inúmeros centauros que viviam por perto, atraídos pelo odor do vinho, invadiram a gruta na qual Folo e Hércules se encontravam, trocando brindes.

Outra versão, a de Apollodoro, nos revela que, embora preferindo carne crua, como era costume entre os centauros, Folo ofereceu a nosso herói carne assada, como a consumiam os humanos, reclamando nosso herói a falta de vinho para acompanhar a refeição. Folo mostrou-se muito temeroso, pois se servisse vinho, os centauros que viviam por perto seriam fatalmente atraídos pelo odor da bebida, o que certamente lhes causaria muitos problemas. Lembrou Folo que não era  recomendável aproximar o vinho tanto de cíclopes como de centauros, pois, ainda que consumindo doses mínimas, eles se tornavam sempre muito violentos, descontrolados. Hércules não deu ouvidos ao centauro e tomou a iniciativa de abrir o recipiente de vinho guardado. Em pouco tempo, atraídos pelo buquê do precioso líquido, os centauros invadiram a gruta de Folo, armados de pedras e de porretes.

Antes de prosseguir, será importante nos fixarmos um pouco na figura dos centauros já que eles têm um papel importante não só neste trabalho como na história de nosso herói como se verá. Muitos mitógrafos, aliás, quando abordaram este sétimo trabalho, destacaram muito mais a luta que Hércules travou contra os centauros do que a sua vitória sobre o javali. Justificavam este entendimento por alguns fatores: primeiro, porque o javali de Erimanto não fora enviado pelos deuses, sendo apenas um desvio da energia animal presente no universo. Segundo, não era ele propriamente um ser da família dos monstros, pois estes, como sua própria designação indica, são sempre enviados pelos deuses.
TOURO   DE   CRETA
Etimologicamente,  monstro é objeto ou ser de caráter sobrenatural que anuncia a vontade divina. O javali do sétimo trabalho, embora tenha uma conformação anormal, por excesso, ele não tem a marca do divino como outros monstros que Hércules enfrentou, a saber, o touro enlouquecido de Creta, a corça Cerinita, o caranguejo enviado por Hera, Cérbero, o cão tricéfalo e outros. A título de esclarecer melhor esta questão, lembre-se que  a palavra monstro está relacionada com o verbo monere, que em latim significa fazer pensar, fazer lembrar, advertir. É desse verbo, por exemplo, que sai a palavra monumento.

Segundo versões dignas de todo crédito, da progênie de Ixion fazia
TESEU
parte também Piritoo, filho que tivera com Dia, figura sinistra, muito ligado a Teseu, famoso rei de Atenas. Herói lápita da Tessália, Piritoo e suas as histórias  acabaram, com o tempo, por se integrar ao mito de Teseu, de quem ele se tornou escravo, fascinado pelo seu majestoso porte e por suas inúmeras façanhas. Como se explicará no décimo trabalho de Hércules, a descida ao Hades para lutar contra Cérbero, Piritoo, até o final dos tempos, permanecerá prisioneiro no Tártaro. 
   
Para Diodoro, além de pedras e porretes, os centauros costumavam carregar também machados próprios para matar bois. Ainda que fossem filhos de Nephele, um simulacro criado por Zeus, não se pode considerar a mãe dos centauros como divindade. O que temos então é que os centauros, pelo seu duplo corpo, nada têm de divino, pois são constituídos apenas por uma parte animal e por uma parte humana, esta sobreposta aquela.


KIRON   E   AQUILES

Os centauros, no mito, com exceção de Kiron (filho de Cronos e de Filira) e de Folo (filho de Sileno e de uma ninfa Melíade), se distinguiam de todos os outros, o primeiro por sua grande sabedoria e o segundo por sua grande bondade. Os demais eram todos filhos de Ixion e de Nephele, a Nuvem. Ixion, por seu lado, era filho do deus Ares e seu reino ficava na Tessália.  Tentando fazer da belíssima jovem Dia sua esposa, fez Ixion ao seu futuro sogro, Dioneu, várias promessas. Quando este, depois das núpcias, foi
IXION   
reclamar o cumprimento do prometido, Ixion o matou, lançando-o traiçoeiramente num poço cheio de brasas. Além de eliminar o sogro, tornando-se um assassino, Ixion cometeu o crime do perjúrio, ao não aceitar, como havia prometido, as divindades da família da sua esposa. Ademais, como se tudo isto não bastasse, como rei dos lápitas, ele tinha uma história de inúmeros crimes. Tantos foram os seus desatinos que acabou expulso da cidade que governava pelos seus próprios súditos. Não tendo para onde ir, pôs-se a perambular pelas estradas, transformando-se num pedinte, amaldiçoado por todos.

Zeus, que das alturas tudo via, acabou se condoendo dos sofrimentos de seu neto e resolveu oferecer a ele uma oportunidade de regeneração, acolhendo-o no Olimpo. Mal chegado à mansão dos deuses, porém, Ixion, tomado por incontrolável desvario, que os gregos chamam de hybris, tentou violentar sexualmente Hera, a Senhora do Olimpo. Avisado por ela, Zeus confeccionou uma nuvem (nephele, em grego), dando-lhe uma forma em tudo igual a Hera. Ixion, sem nada perceber,  relacionando-se com ela, tornou-se pai dos famigerados centauros. Castigando-o, Zeus lhe deu ambrósia, tornando-o assim imortal, e o lançou no Tártaro, a prisão dos maus, onde ele, amarrado por serpentes, preso a uma roda de fogo, a girar eternamente, ali ficará até o final dos tempos. Aqueles que lá o viram, como Ulisses, por exemplo, dizem que no seu grande tormento, Ixion profere em altos gritos, na sua sofrida solidão, a frase: honrai vosso benfeitor pelo tributo da gratidão

Etimologicamente, a palavra centauro parece ter relação com um verbo grego, kenteo, que tem o sentido de picar, aguilhoar, lembrando esta ação o aguilhão do instinto. Com efeito, o centauro, metade-animal (cavalo), metade-homem, por seus costumes brutais, por andar sempre em grupos, barulhentos e avessos a qualquer disciplina, por sua paixão imoderada pelo vinho, pela carne crua e pela sua sexualidade descontrolada, sempre foi considerado, com relação ao ser humano, como um símbolo das ameaçadas da vida instintiva à vida racional. 


SÁTIRO   ( RUBENS )

É neste sentido que os centauros se assemelham aos sátiros, aos faunos, aos silenos e a outros seres da mitologia, fortemente marcados por características animais, caprinas, no caso. Percorrendo sem cessar os campos e as montanhas a fim de satisfazer seus apetites, são considerados como verdadeiros demônios da natureza. Luxuriosos, insolentes e violentos, ambos, centauros e sátiros, representam, negativamente, sob o ponto de vista social, as constantes ameaças das forças da barbárie à civilização  e da desordem à lei.  

  Hércules foi um justiceiro que sempre procurou combater, além dos monstros e bandidos, os ímpios, os maus e os perjuros. Durante toda a sua vida, lutou sobretudo contra os centauros, uma luta contra si mesmo, no fundo. Símbolo da força, da energia e do heroísmo, grande consumidor de álcool, glutão insaciável, com uma sexualidade inesgotável, salvador de homens e fundador de cidades, Hércules, ainda que venerado como um semideus, jamais conseguiu, contudo, controlar as pressões instintivas que o assaltaram a vida inteira. 


NEPHELE   ( RUBENS )

Pondo para correr os centauros que invadiram a gruta de Folo, Hércules os perseguiu, no que foi atrapalhado por Nephele que, segundo Diodoro, enviou uma chuva torrencial  sobre a região. Em terrenos enlameados, como se sabe, os bípedes encontram muito mais dificuldade para correr do que os quadrúpedes. Hércules, contudo, superou esse obstáculo e, alcançando-os, travou com eles violenta luta, matando muitos deles.

Ainda segundo descrições de Apollodoro, os poucos centauros que escaparam do massacre promovido por Hércules foram se refugiar junto de Kiron. Nosso herói, entretanto, continuou a atacá-los, disparando várias flechas envenenadas. Uma delas atingiu a perna de Kiron, acidentalmente, na altura do seu joelho, ferindo-o mortalmente. De nada adiantou a medicação aplicada por Hércules, fornecida pelo próprio Kiron. A ferida era incurável. O mestre centauro se retirou então para a sua gruta, para morrer, embora sabendo que isto seria impossível, pois uma parte de seu corpo era divina, como filho de Cronos que era. Foi preciso que Prometeu, consoante proposta que fez a Zeus e aceita, cedesse a Kiron o seu lado mortal para que o centauro mestre pudesse morrer e que este cedesse a Prometeu o seu lado imortal, o que possibilitaria a sua libertação. Os detalhes desta troca nos são narrados, além de Ovídio, principalmente por Ésquilo na sua famosa tragédia Prometeu Acorrentado. Kiron, a seguir, foi colocado por Zeus nos céus como a constelação de Sagitário, entre Escorpião e Capricórnio.


PROMETEU  ( CERÂMICA   GREGA )

Ao retornar, Hércules encontrou Folo a abrir sepulturas na terra para enterrar alguns centauros mortos. Contudo, uma das flechas que se contaminara com o sangue de um deles atingira acidentalmente uma das patas de Folo, ferindo-o gravemente. O sangue dos centauros filhos de Ixion e de Nephele era veneno mortal contra o qual não havia antídoto (Hércules, lembremos, também será vitimado mais tarde da mesma maneira). Folo sucumbiu em pouco tempo nada conseguindo nosso herói fazer para aliviar o seu sofrimento. Não lhe restou outra alternativa senão a de organizar um magnífico funeral para honrar o seu hospedeiro. Depois destes acontecimentos, os centauros, como grupo, desapareceram. Viverão, os poucos que escaparam, isoladamente. Embora perigosos, não mais se atreveram a incomodar os humanos como o faziam. Por intervenção de Poseidon, passarão os remanescentes a viver no interior da terra, ctonicamente.


POSEIDON

Hércules dirigiu-se então à montanha, encaminhando-se para o seu pico. Aos gritos, subiu, mas adotando aquilo que lhe pareceu a melhor estratégia, subir de costas. O javali, atraído pelos gritos do nosso herói, pôs-se a persegui-lo; voltado para ele, foi recuando e subindo ao mesmo tempo. À medida que subiam, o terreno montanhoso tornava-se cada vez mais íngreme, principalmente devido à neve, acumulada no topo, sempre mais espessa. Num determinado ponto, o javali deteve-se subitamente, parecendo perplexo. Cansado, imobilizado, estava atolado, não conseguindo dar mais um passo. Hércules, então, deu uma volta, pegou-o pelas patas traseiras, descendo assim com ele a montanha, entre risos e aplausos da multidão que se juntara para presenciar a cena. Desta maneira, Hércules conseguiu levar o animal até Argos, entregando-o ao apavorado Euristeu, que chamou seus soldados para que dessem fim ao animal. 


HÉRCULES  SENTADO  SOBRE  O  JAVALI  ( LOUVRE )

O javali é um dos grandes símbolos do mundo indo-europeu, fazendo parte da chamada tradição hiperbórea. Os hiperbóreos, na mitologia grega,  constituíam um grupo racial que vivia além do vento norte, o Bóreas, portanto, numa região que seria o extremo norte para os gregos. A região dos hiperbóreos era considerada como uma espécie de paraíso nostálgico, de difícil localização. Talvez o país dos sonhos, da imaginação, da idade de ouro da utopia, de todas as tradições míticas. 

O caráter hiperbóreo do javali pode ser notado na medida em que ele representa o elã primordial, associado nesse contexto à simbologia do fogo nas mais diversas culturas. É neste sentido uma imagem primordial da força, do ataque intrépido e da coragem resoluta, sobretudo na Europa setentrional e no mundo celta, onde representava a autoridade espiritual. A sua carne era comida só ritualmente. A ferocidade do animal provocava tanto horror como
XENOFONTE
respeito. Associações entre o javali e o comportamento destrutivo dos guerreiros que o usavam como emblema fizeram com que ele, no cristianismo, se tornasse um símbolo da tirania, das paixões e da luxúria. Seu apelido era, por isso, o  O Cão do Diabo. Xenofonte, no seu tratado Da Caça, nos diz que quando um javali morre os pelos de seu focinho se crispam tanto que podem causar queimaduras a quem os tocar.  

   Consagrado aos deuses da guerra no mundo grego (Ares) e  romano (Marte), o javali sempre apareceu associado à primavera e 
à juventude. Nos países onde não temos a tradição cristã, o javali é um símbolo da coragem e da temeridade, como no Japão. Em outras tradições, o animal é visto como símbolo da autoridade espiritual, opondo-se ao urso, que representa o poder temporal. Ligado a Zeus no mundo grego, associa-se à águia, ao carvalho, ao raio e à trufa. Caçar o javali é atacar o poder espiritual. Na Índia, o javali é um dos avatares de Vishnu, com o nome de Varaha. Na mitologia hinduísta, é através dele que a terra é trazida à superfície das águas primordiais, fixando-se na coluna de fogo (lingam). No mundo celta, é o próprio druida, o sacerdote, enquanto este vive solitariamente nas florestas. 

VARAHA


O nome Erimanto, como vimos, nos remete a uma ideia de vermelho, ardor, a cor do deus Eros, do deus Ares grego e do deus Marte romano. O verbo grego para designar disputas, querelas, é eridzo. Se não dominamos o nosso "javali" interior, destruiremos os campos, as plantações, os vinhedos, poderemos matar pessoas,  não criaremos possibilidades para fazer de nossa vida social algo produtivo, útil, a nós e aos outros. Dominar o javali é transformar a energia vital impulsiva,  em vida espiritual, compreensão que sempre começa pela percepção do "outro", simbolicamente pela nossa "morte" consciente (outono).        Ou seja, transformar o fogo

instintivo  (signo de Áries), sob  a  orientação  do  racional  (signo de Leão),  em  espiritual  (signo de Sagitário), o que nos levará  a um afastamento da nossa condição animal, brutal,  instintiva. Todas estas considerações nos dizem também que não podemos matar o javali, temos que mantê-lo vivo, utilizando a sua energia racionalmente, ajustando-nos assim à vida social, sempre uma preparação para a vida espiritual, onde aparecem os conceitos de coletividade, humanitarismo, fraternidade etc.

Sem esse controle não haverá acordo, união, consenso, vida moral. Eros é força vital descompromissada, desejo em estado puro, força
EROS
cega, carência que se satisfaz unilateralmente. Eros (javali, um de seus símbolos) é pulsão fundamental do ser, libido, força que atualiza as nossas virtualidades. É essa força que cria o possível. Esta criação, contudo, só se dá pelo contacto com os outros, por uma série de trocas materiais, sensíveis, e depois, num plano superior, espirituais. Interações, choques, disputas, acordos, atenuações conscientes. É no signo de Libra, a sétima constelação zodiacal, que aprendemos a superar os antagonismos, a assimilar o diferente, a integrá-lo, a controlar o nosso javali, em suma.

Depois da purificação de Virgo, temos que buscar o equilíbrio (equinócio, dias e noites iguais), a união com o oposto, com o outro. Ideias de Justiça, cujo símbolo é a balança aparecem então. O signo de Libra é regido pelo planeta Vênus, que tem a ver com uniões, matrimônios, acordos, contratos, a dualidade que se faz una, um perder e um ganhar constantemente renovado. O planeta Saturno também tem a ver com este signo. Saturno (Cronos) é em Libra o tempo. Todo contrato terá que ser realizado no tempo. Surgirão então sentimentos de equidade, de harmonia (Harmonia é filha de Ares e de Afrodite). Raramente um libriano superior se imporá a alguém ou tentará confiscar algo do outro em proveito próprio. As virtudes superiores do signo, encanto, polidez, educação, diplomacia e mesmo a sedução podem muitas vezes levar ao objetivo, à vitória, se quisermos, sem necessidade de luta. O belo, a estética, os matizes, as nuances, o romantismo, a elegância são de Libra. Esse elemento de beleza e de elegância se encontra, por exemplo, em pintores do signo, como Watteau e Bonnard, e em músicos como Gabriel Fauré.


GILLES ,  LE   PIERROT   ( WATEAU )

Negativamente, Libra pode ser o signo da vacilação, da divisão, do amaneirado, do dúbio, do desejo de agradar de qualquer modo, da protelação, do adiamento, da enorme dependência do outro, da impessoalidade (veja o mito de Eco), da falta de combatividade, do desejo de buscar só o agradável, de evitar o trabalhoso ou o sujo. Mulheres de Libra podem se tornar rainhas da elegância. Figuras librianas podem ser citadas, cada uma seu modo: Oscar Wilde, John Lennon, Brigitte Bardot, Luis XIII, Lamartine, Gandhi, Erasmo de Roterdam (exemplo de um libriano saturnizado) etc.



O libriano pode ser classificado como outonal ou sentimental. No primeiro, prevalece a influência saturnina, tem menos vida, menos elã, pondera mais, legisla, procura a forma, é mais escuro. Já o outro tem invariavelmente um grande desejo de agradar, é mais fraco, sem vontade, resiste pouco às pressões externas, dobra-se, é adaptável, sendo mais “claro”, sociável, fazendo-lhe muita falta as festas e as reuniões.

Neste sétimo trabalho, as lições mais importantes tornam-se evidentes:  recuar é subir, atenuar é aumentar, dividir é somar. É o primeiro trabalho em que não há luta. Hércules, contudo não o entende bem. O episódio onde entra Folo é um desvio libriano (prazer, jovialidade, adiamento, é o famoso "dar um tempo" dos do signo). A solução de Hércules é prática, deu-lhe a vitória sobre o javali, mas ele não percebeu conscientemente o significado transcendente do trabalho. O abrandamento da nossa personalidade, a atenuação da nossa luz, o controle do nosso "javali" tem que ser consciente. O javali é símbolo aqui de tendências obscuras, egoístas, ignorantes. Em algumas culturas, há interdições, por isso, quanto ao consumo da carne do javali (porco). 

Eros (a libido, muitas vezes representada pelo javali) deve se submeter a Afrodite, a deusa que propõe relações por consenso. Na natureza, a luz, em Libra, começa o seu lento retorno à unidade. Dosar a atenuação, nunca transformá-la em morte. Por isso, a Balança quer dizer equilíbrio, lugar onde as oposições devem se
resolver continuamente. A comunicação é de Gêmeos; uma boa comunicação leva a acordos (Libra) e bons acordos levam a amigos (Aquário), os três signos de ar do zodíaco. No fundo, entendimento de que tudo o que se manifesta como vida está sujeito à dualidade e à oposição. O primeiro ato que temos de praticar para participar socialmente de algo é o da atenuação do nosso eu. 





Uma das constelações associadas ao signo de Libra é a de Lupus (Lobo). Mais um símbolo evidente, equivalente ao javali: em Libra temos que sacrificar o nosso "lobo", nossa vida instintiva (como o javali, o lobo é sinônimo de agressividade, de astúcia, de voracidade, de selvageria). O poder do lobo diminui na medida em que nos equilibramos melhor, isto é, na medida em que a alma não mais se deixa devorar pela matéria. Com Libra, entramos no hemisfério superior, sendo sete o seu número, que é o das totalizações provisórias a indicar um semiciclo que se fecha e um outro que se abre. Saímos em Libra da vida subconsciente para entrar na vida supraconsciente

TÊMIS
No signo de Libra vivem várias divindades. Têmis (limite), etimologicamente, estabelecer como norma ela é a deusa dos princípios superiores, por oposição ao nomos que é a lei humana, que é consuetudo, o costume, o hábito, o  usual. Têmis tem a ver com leis imprescritíveis; aparece como dona dos oráculos e dos ritos. Titânida honrada e respeitada pelos olímpicos, era a titular do oráculo de Delfos com sua mãe, Geia, tendo ensinado a mântica a Apolo. Têmis era também a mãe das Horas, divindades do tempo (Eunomia, Dikê e Irene), que asseguravam o equilíbrio da vida vegetal e da vida social, distribuindo a umidade corretamente, amadurecendo tanto os frutos como as ações humanas. Eram as divindades que velavam pela educação das crianças, que deviam aparecer, florescer e frutificar no tempo certo, sem pressa, com ritmo.


AS   GRAÇAS   ( BOTTICELLI )

Em Libra vivem também as Cárites (etimologicamente, graça, encanto), também divindades da vegetação e responsáveis pela alegria e pelo contentamento que devem morar no coração dos deuses e dos humanos. Eram chamadas as Graças, Aglaia (Cintilante), Talia (Festa) e Eufrósina (Alegria do Coração). Viviam em companhia das Musas e, como tal, tinham grande influência sobre as obras de arte. Um exemplo disto está, por exemplo, no antigo conceito latino Vita Brevis, que Lamartine usa, como ninguém, no seu famoso poema Le Lac, talvez o mais belo hino libriano já escrito.

Grande parte dos males librianos estão centrados na aparência (pele), tendo por motivação, invariavelmente, sentimentos refreados, frustrações afetivas, decepções no amor etc. A icterícia
ICTERÍCIA
(ictero, verde), por exemplo, infiltração de bile nos tecidos, é o fel: doença dos que remoem, não liberada a força de Marte (Eros). Eczemas, Psoríase e outros males que se projetam na pele são comuns em Libra. Sentimentos de não aceitação, de injustiça. O retido (amor, afeto, Vênus) não tem outra saída senão pela pele (Saturno). No libriano inferior, a dinâmica do psiquismo está sempre voltada para o agradar; fraco, sem vontade (Sol em queda), ele faz todas as "médias", sofre do chamado complexo do avestruz (fazer de conta que não vê) decorrendo dessa acomodação muitos de seus problemas físicos e psíquicos. Problemas renais são também comuns nos do signo, além de dores de cabeça (ação reflexa por Áries, signo oposto). Uma grande tendência dos librianos inferiores é a de transferir sentimentos de culpa para os outros, pois, procuram sempre passar uma imagem de bem intencionados e de compreensivos. 


Astrologicamente, recordemos que na Índia, Thula (Libra) é o signo através do qual é entendido o conceito de Dharma, a lei moral, considerada não como castigo, mas como reajuste, recomposição do equilíbrio rompido. Neste sentido, é que na antiga astrologia védica (Jyotish) o Sol e Marte são vistos como agentes do karma e Vênus e Saturno como agentes do Dharma

A diminuição do material a partir de Libra tem que ser conquistada, produto de uma conquista consciente. É só nesta perspectiva que diminuir significa aumentar. É neste signo, como já se percebeu, que, sob o ponto de vista cósmico, começa visivelmente o retorno à unidade, a reintegração da matéria. Declínio do mundo orgânico, a substância retorna à sua origem. Libra é assim um ponto médio entre o que foi construído e as forças que começam a provocar a sua desintegração. É por essa razão que o outono tem o nome de Fall (Queda) nas línguas anglo-saxônicas. Entre nós, é neste signo que encontramos conceitos como de poente (com relação ao dia), de outono (com relação ao ciclo das estações), de ocidente, lugar de queda, etimologicamente (com relação às direções do espaço).

Em Libra a vida se recolhe, devemos começar a aprender o que na prática significam conceitos como os de despojamento, renúncia, involução física e evolução espiritual. Em Libra tudo o que nasceu, cresceu e se desenvolveu chega ao seu ponto mais elevado e é obrigatoriamente em Libra que tudo começa a descer, declinar, desaparecer. 


ADONIS   E   AFRODITE

Um dos mitos gregos, herança mesopotâmica e fenícia, que melhor expressa o que aqui se expõe é o de Afrodite e de Adonis, seu grande amor. Atacado por um javali (o deus Ares), Adonis (Tamuz para os povos semíticos) era um deus da vegetação que, em muitas tradições religiosas orientais, morre anualmente, uma representação do ciclo vegetal. Morto, Adonis, tem que abandonar Afrodite, para descer ao mundo subterrâneo, para lá passar uma temporada com a
ANÊMONA
deusa Perséfone, rainha do mundo infernal. Do sangue do deus, nascerão as anêmonas (etimologicamente, vento), que representam o efêmero. Flor solitária, de beleza simples, a anêmona tornou-se ao mesmo tempo símbolo da riqueza, da precariedade e da beleza da vida. É a anêmona a flor, mais do que qualquer outra, que evoca o amor submetido às flutuações das paixões e dos caprichos dos ventos. 

domingo, 25 de maio de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - VÊNUS (3)


ADÔNIS

O mito mais completo e conhecido das divindades fenícias do primeiro milênio antes de Cristo, ao qual já nos referimos, é o de Adônis. Por ele, ficamos conhecendo a Afrodite fenícia, de nome Astarte. Adônis entre os fenícios aparece como uma espécie de sucessor de Aleyin e Mot. Estes eram, nos poemas de Ras Sahmra, duas divindades da vegetação que lutavam entre si anualmente.


ASTARTE

Mot, filho de El, grande divindade solar, era o espírito da colheita. Seu tempo era o verão, período em que os grãos ficavam maduros e deviam ser colhidos. Num combate, ele será vencido por Aleyin,
BAAL
filho de Baal, o maior dos deuses depois de El, sendo sua atribuição a de alimentar os cursos de água. É o espírito das fontes, aquele que favorece o desenvolvimento da vegetação, que cresce e se desenvolve na estação das águas. Era honrado através de monumentos  chamados pelos gregos de memnonia, levantados na foz dos rios da Fenícia, lugar onde eram celebradas as cerimônias em homenagem aos mortos. Aleyin, aquele que “cavalgava as nuvens”, morrerá também, por intervenção da deusa Anat, já que o risco de catastróficas inundações precisava ser contido.



NASCIMENTO DE ADÔNIS

Nascido de uma árvore (mirra) na qual sua mãe havia se transformado, Adônis era de uma beleza sem igual. A história aqui narrada se passa na Síria, onde a filha do rei Teias, pretendendo-se mais bela que a deusa do amor (Astarte, Afrodite), foi por ela punida. A punição consistiu fazê-la alimentar uma paixão incestuosa pelo pai, o rei Teias. Unindo-se a ele, por noites sucessivas, na escuridão do seu quarto, a princesa acabou sendo descoberta e condenada à morte pelo pai. Rogando aos deuses, foi por eles atendida, sendo transformada na mirra. A criança, lindíssima, como se disse, saltou do caule da árvore no tempo devido, sendo recolhida por Astarte (Afrodite). 
  
A mirra é uma árvore espinhosa que pode atingir cinco metros de altura, com flores vermelho-amareladas, de cuja casca provém uma resina especialmente usada na medicina e na produção de incenso
MIRRA
desde a antiguidade, considerada rara e valiosa. Nas línguas semíticas, mirra vem do adjetivo amargo (mar, em hebraico). A mirra é muito conhecida por suas propriedades antissépticas, sendo muito usada pelos egípcios nos rituais de mumificação. Desde fins da Idade Média, vem sendo usada em missas, funerais e cremações como incenso, tanto como purificação como meio de ligação terra-céu. Na história cristã dos três reis magos que visitaram Jesus quando do seu nascimento, a mirra aparece como um dos presentes por eles levados. No caso, por sua relação com o embalsamamento, como os egípcios a usavam, a mirra simbolizou o renascimento. Consta que em exames do santo sudário nele foi constatada a presença de mirra. O sudário, como se sabe, é uma espécie de lençol que serve para envolver cadáveres, mortalha. O santo sudário aqui referido teria sido um pano usado para limpar o suor e o sangue que saía dos ferimentos de Cristo, quando da sua crucificação, pano no qual seu rosto ficou impresso.

Encerrada numa arca, a criança foi entregue por Afrodite a Perséfone. Mais tarde, ao tentar recuperá-la, Afrodite viu seu intento negado. A disputa acabou arbitrada por Zeus, sendo decidido que o agora belíssimo Adônis passaria um terço do ano com Perséfone, outro terço com Afrodite e outro terço conforme desejasse. O jovem não titubeou, optando logo pela companhia de Afrodite. 


AFRODITE  E  ADONIS

O mito nos conta que Adônis gostava da caça, paixão da qual Afrodite sempre procurara demovê-lo. Certo dia, porém, quando se entregava à sua paixão venatória, Adônis foi atacado por um imenso javali e ferido mortalmente. Esse javali não era outro senão o deus Ares, antigo amante da deusa, que inconformado por não mais ser admitido no seu divino leito, atacou furiosamente o belíssimo jovem. Ao correr para socorrê-lo, Afrodite pisou num espinho. Dos seus formosos pés, alguma gotas de sangue caíram sobre pétalas de algumas flores brancas que floresciam ao lado do corpo do infeliz jovem; de imediato, essas flores se tornaram inteiramente vermelhas, passando elas desde então a simbolizar o amor. Na linguagem das flores, como se sabe, as rosas de pétalas brancas têm a ver com o amor suspiroso, não correspondido. As vermelhas, desde então, passaram a representar o amor apaixonado.


AFRODITE SOCORRENDO ADÔNIS

A rosa sempre apareceu nos mitos da região mediterrânea e da Ásia Menor como símbolo do amor que vence a morte e do renascimento. No Egito, por exemplo, a rosa era muito usada nos Mistérios de Ísis como símbolo do silêncio exigido pela iniciação e imagem da morte carnal, tornando-se o Egito, como se disse, o maior produtor e exportador dessa flor na antiguidade. É de se registrar ainda que, no mundo inteiro, os grupos esotéricos que usam a rosa em seus ritos de iniciação cunharam a expressão “sub rosa” para designar a transmissão de conhecimentos que não podia ser divulgada exotericamente. 


SUB  ROSA

Divindade do mundo vegetal, espírito da vegetação que, como Aleyin se manifesta nos grãos dos cereais, Adônis, no mito grego, era conhecido como Adoni, meu senhor, meu mestre, nome que as mulheres fenícias repetiam sem cessar, como lamentação, nas festas em homenagem ao deus. Na Bíblia, Ezequiel chama Adônis de Tamuz, este divindade mesopotâmica da vegetação e do grão. 



ADÔNIS  MORTO

O culto de Adônis estava difundido por toda Fenícia, mas era em Biblos que acontecia a sua celebração mais pomposa. Perto de Biblos e de Baalbek, elevava-se um suntuoso santuário levantado em honra a Astarte, destruído mais tarde pelo imperador Constantino, quando definiu o cristianismo como a  única religião do império romano. As mulheres fenícias, a cada ano, celebravam a volta do deus a estes lugares no final da colheita. 




Os gregos davam o nome de Adonias a estas festas. Imagens do deus em cera ou em terracota eram colocadas na entrada ou nos terraços das casas; as mulheres iam para as ruas da cidade, proferindo as suas lamentações, cabelos desgrenhados, golpes de mão no peito, tudo para demonstrar a sua grande dor; dançavam e cantavam ao som das flautas curtas e estridentes (giggros), muitas usadas em cerimônias fúnebres. 

Foi o maravilhoso poeta grego Teócrito (sécs. III-II aC) quem nos deixou uma descrição destas festas, celebradas com grande pompa
oriental, como ele as viu em Alexandria, no palácio de Arsinoé, esposa do imperador Ptolomeu-Philadelpho. O poeta nos descreveu os famosos Jardins de Adônis do palácio de Arsinoé, extensos terraços, onde em enormes caixas rasas eram cultivadas rosas, irrigadas com água quente para que florescessem mais depressa. Nesses jardins eram também cultivadas, em nome do deus, outros vegetais que também germinavam e cresciam  rapidamente, o funcho, o centeio, o trigo e sobretudo a alface, que tinha um papel importante no culto de Adônis. 

O mito nos informa que tendo recolhido o corpo inerte do seu infeliz amante, Afrodite o depositou num leito de prata recoberto com um manto púrpura e com folhas de alface. Ao lado do leito, vasos com perfumes raros, frutos, mel, bolos e inúmeras corbeilles de rosas. Os vegetais acima mencionados, morrendo logo, pelo fato de produzidos da maneira apontada, não tinham raízes, nada que os prendesse à Terra, sendo considerados como emblemas da efêmera existência de Adônis. Os Jardins de Adônis, assim artificialmente criados, eram expostos com imagens do deus, sendo depois jogados no mar ou nas fontes. A alface, usada em banquetes funerários, era considerada na antiguidade um alimento nefasto; ingerida em excesso, provocava a impotência, impedia a concepção ou, no caso de mulher grávida, tornava imbecil o filho. Era também usada para combater a concupiscência.

Entre os fenícios, Astarte era a mais importante deusa feminina como dona da fertilidade, da sexualidade e da guerra, adorada principalmente em Sidon, Tiro e Biblos. Do seu culto, muito diversificado, faziam parte ritos de natureza sexual e libações. Suas principais festas se realizavam no equinócio da primavera. Consta que o rei Salomão entregou-se ao seu culto, mandando inclusive levantar um templo em sua homenagem.

A história de Adônis foi introduzida na Grécia principalmente pela via poética, passando a fazer parte dos mitos ligados a Afrodite. 
O tema sempre inspirou poetas das mais diversas correntes. Do original mesopotâmico, passamos ao fenício e deste ao grego. Poetas como Bion de Esmirna e Ovídio, poeta latino, enriqueceram a histórico do jovem deus com variantes. O primeiro, do início do séc III dC, deixou-nos O Epitáfio de Adonis, inspirado por Teócrito (As Mulheres na Festa de Adônis). Ovídio, do início da era cristã, fala-nos de Adônis no décimo livro de suas Metamorfoses.

A história de Adônis chegou à Grécia pelo caminho das ilhas do Egeu. Quem pela primeira vez abordou o tema parece ter sido Safo,
SAFO
a grande poetisa de Lesbos. Apoderando-se dele, as mulheres gregas o difundiram, mas não escaparam do deboche dos comediógrafos machistas de então (séc. V aC). Foi por essa época que Plutarco, o historiador, escreveu sobre os Jardins de Adônis, ganhando o culto uma expressão espetacular em Alexandria. 


A história de Adônis, ao longo dos séculos, desde a antiguidade grega, sempre seduziu os poetas, principalmente. No Renascimento,
RONSARD
com a volta do mundo greco-romano, o lado caçador de Adônis é destacado, notando-se uma clara preferência pelo aspecto lunar de sua personalidade (da deusa Ártemis) e empobrecimento do seu aspecto venusiano, sendo esquecida inclusive a tragédia de Mirra. Franceses (Ronsard e La Fontaine), ingleses (John Milton e Spenser), espanhóis (Lope de Veja e Calderón de la Barca), ingleses (John Keats e Percy Shelley), italianos (G.B. Marino e Gabriel d´Annunzio) e franceses (Gustave Flaubert, Gérard de Nerval e Ernest Renan) se apoderão do tema, levando-o, alguns, para o teatro.


Os primitivos gregos, bem antes da “chegada” de Afrodite à região mediterrânea oriental, vinda da Ásia Menor, parecem ter tido uma divindade do amor, que não deixou traços. O que temos de mais certo quanto ao tema é que a irradiação dos cultos de Ishtar e de Astarte fez da deusa grega do amor uma divindade muito parecida com as duas deusas orientais. A mitologia grega, através de Homero (Ilíada), fez Afrodite filha de Dione e de Zeus, helenizando os traços da Astarte fenícia para representá-la, ficando ela conhecida pelo nome de Dioneia. Dione (brilhante, luminosa) era, numa versão, uma divindade da primeira dinastia, filha de Urano e Geia, e de Oceano e Tétis noutra variante.

Na ordem que introduziu na mitologia grega, Hesíodo (Teogonia), conservando no modelo grego muitos dos traços das deusas orientais, ligou o nascimento de Afrodite à castração de Urano por seu filho caçula Cronos. Este, como sabemos, instigado pela mãe, Geia, ao castrar o pai com a foi de silex que ela lhe dera, decretou o fim da primeira fase da mitologia grega (autogenia), representada pela dinastia cujos titulares eram os seus pais.

A castração (esquizogenia)  de  Urano,  segunda  fase  da  mitologia
grega, possibilitou o aparecimento da ordem cósmica ao pôr fim à indiscriminada fecundação celeste uraniana. O entrechoque das forças elementares, a desordem dos primeiros momentos da criação, representada pelos filhos que ele e Geia geravam, os titãs, chegou assim ao seu término. Gigantescos, estapafúrdios, descomunais, os titãs, que simbolizavam as forças elementares descontroladas, foram se acalmando, se acomodando, vencidas pela nova ordem, dando origem ao que os gregos chamaram de cosmos. 

Por oposição ao caos (indeterminação, indiferenciação), o cosmos significava para os gregos a ordenação do universo segundo
EROS
princípios e leis inteligíveis, sobretudo as irrevogáveis leis que haviam sido estabelecidas por Cronos. Na ordem cósmica não havia lugar para ideias de acaso ou destino. O cosmos não podia depender de uma vontade, de caprichos ou mesmo da arbitrariedade dos deuses, mas de regras que assegurassem o seu contínuo  desdobrar-se, o devenir universal, segundo uma ordem determinada. Com a castração de Urano, as coordenadas de espaço (1ª dinastia, Urano-Geia) e tempo (2ª dinastia, Cronos-Reia) se fixaram, passando as relações humanas, até então comandadas por Eros (satisfação unilateral), a se orientar por novas formas de convivência (reciprocidade) que a ordem cósmica pedia.


AFRODITE ANADIÔMENE 
 Da castração de Urano, da sua genitália lançada ao mar, em meio a secreções, sangue e abundante espuma, nos conta Hesíodo, nasceu Afrodite (aphros, espuma), conservando ela, sob uma aparência grega, muitos dos traços da Ishtar assiro-babilônica e da Astarte siro-fenícia. Um dos nomes pelos quais Afrodite será conhecida é derivado da sua origem marinha, Anadiômene. A ilha de Cithera, ao sul do Peloponeso, foi a primeira etapa da penetração do culto das deusas orientais do amor na Grécia. Quem “conduziu” Afrodite a Cithera foi o Zéfiro, deus do vento que sopra na direção oeste-leste, ao entardecer. 


Do sangue que da ferida de Urano caiu sobre a Terra, fecundando Geia ou Titaia novamente, nasceram, ao mesmo tempo que Afrodite, outros seres, as Erínias ou Fúrias, os Gigantes e as ninfas Melíades ou dos Freixos, as deusas da vingança, além dos descomunais inimigos do vida espiritual e as ninfas do sangue e da
FREIXO
guerra, respectivamente. As primeiras, como sabemos, ligar-se-ão muito à ação de Afrodite, pois terão a função fazer com que sejam respeitadas as leis da natureza e os limites físicos e morais na convivência humana. Todos aqueles que ultrapassassem os limites dos seus direitos em detrimento dos direitos dos outros seriam por elas punidos. Já os Gigantes, encarnação dos pavores que atormentavam o homem arcaico, personificavam os elementos irracionais que na vida psíquica fazem oposição aos impulsos evolutivos do homem, opondo-se à sua transcendência, prendendo-o à terra, como filhos de Geia que eram. As ninfas Melíades (melia, freixo) estão ligadas à raça que viveu na Idade do Bronze, gente violenta e belicosa, sempre guerreando. Tinham eles, como símbolo, a lança, cujo cabo era confeccionado com a madeira do freixo. O cabo da garrocha de Aquiles era de freixo, assim como o arco de Eros. Para os germânicos, o freixo era a primeira árvore da criação, chamada por eles de Yggdrasil.


Em virtude de seu nascimento marinho, Afrodite passou a governar o princípio da reciprocidade nos relacionamento humanos, equilibrando assim o seu oposto, o quente, como promessa do desenvolvimento de formas, mas, também, como ameaça de absorção. Por sua ligação com o elemento líquido, Afrodite foi chamada desde então de Anadiômene, a nascida das ondas do mar, fixada nessa forma pelo pintor grego Apeles.





De Cithera, Afrodite foi levada a Chipre, a Ilha do Cobre (em grego chalkos e em latim cuprum). Desde a antiguidade grega, conforme o simbolismo dos metais, o cobre correspondia a Afrodite, sendo mais tarde associados a ambos o planeta Vênus. O cobre, na medida em que no jogo das polaridades exerce a função magnética, por oposição à elétrica (Marte), é um excepcional condutor de energia. Sempre representou o cobre também a água como princípio gerador da vida. Em virtude de sua passagem por Chitera e Chipre, Afrodite era chamada pelos nomes de Citeréia e Cípria, conforme Homero registrou. 

Para uma melhor visualização deste período da vida de Afrodite, será sempre interessante uma visita à obra de alguns artistas para uma adequada compreensão do significado e do alcance do seu mito. Grande fonte de inspiração da poesia de Safo, Afrodite foi
AFRODITE (PRAXÍTELES)
sobretudo tema escultórico e pictórico de muitos artistas, destacando-se as estátuas que dela fizeram Calímaco (Venus Genitrix, assim chamada pelos latinos), Lisipo (bronzes de Afrodite) e Praxíteles (suas famosas Afrodites, orientalizadas, tiveram como modelo sua amante Frineia, a cortesã mais rica e célebre de Atenas). Na pintura, menção especial para a famosa obra de Sandro Botticelli O Nascimento de Vênus, de 1485, destinada a embelezar o palácio de um dos membros da família Médici. Essa tela, como se sabe, impregnada dos ideais neoplatônicos que então circulavam nos meios cultos da época, é uma representação dos valores materiais subordinados aos espirituais. A beleza corporal de Vênus (Afrodite) se vê sublimada pela pureza das linhas fluídas e leves. 


Boticelli, nesta sua tela, procurou, sem dúvida, seguir as ideias de Platão, que no seu diálogo O Banquete fez uma distinção entre duas das várias “faces” da deusa. De um lado a Afrodite Urânia, que não teve mãe, que é celeste, inspiradora de amores etéreos, imateriais, sublimes, que não é carnal; de outro, a Afrodite Pandêmia, popular, a dos amores vulgares, a que se dá com (para) todos, promíscua. Não será necessário muito esforço para se perceber onde hoje a Afrodite Pandêmia pontifica...

Ao surgir das águas, Afrodite se mostrou tão bela que as nereidas, os tritões e todos os demais habitantes do mundo líquido acorreram apressados para contemplá-la, rodeando sua concha nacarada, seu meio de transporte em direção das referidas ilhas. As ondas, ativadas pelo sopro de Zéfiro, começaram antão a empurrá-la docemente, o ar se tornou mais leve, uma luz suave cobria a terra e toda a natureza se regozijava.  

Ao chegar a Chipre, recebida pelas Horas,  seu  primeiro cuidado,                                                                                          
relatam antigos textos, se voltou para os seus cabelos. Secos e ajeitados, com o auxílio de suas atenciosas preceptoras, logo emolduraram o seu maravilhoso rosto em resplandecentes ondas acobreadas. A seguir, sempre com colaboração das Horas, Afrodite cuidou de seu corpo, cobrindo-o com muita naturalidade, primeiro com o chiton, como veste de baixo; depois o péplos e o himation, a túnica e o manto. Um cinto (zone), onde guardava todos os artifícios da arte da sedução (enkrateia), apertava a túnica à cintura. Nos formosos pés, as sandálias (krepis), muito elegantes. No mais, as jóias, os brincos (enonon), os colares (hormos), os anéis (daktylos), as pulseiras (amphidai) e as argolas para as pernas (periskelis).

A seguir, as Horas lhe ofereceram as primícias dos frutos que cada estação proporciona e com elas a deusa trocou ideias sobre a boa prática de comover os corações, de neles infundir prudência, de entender claramente os deveres da amizade, da vida conjugal, das obrigações familiares, de incorporar à vida social os necessários e cuidadosos cerimoniais das refeições, dos divertimentos, das festas e, por fim, da sábia arte do repouso.


AS  HORAS

Hora (divisão de tempo) era palavra grega que servia para designar as estações do ano (Primavera, Verão e Inverno). Depois, aos poucos, a palavra passou a dar nome às divisões do dia e da noite, estendendo-se seu número a doze,  reduzido, em seguida, a apenas quatro. No mito, eram filhas de Zeus e de Têmis, esta a deusa das leis imprescritíveis. Eram três a princípio: Eunômia, a Disciplina, Dikê, a Justiça, e Irene, a Paz. Popularmente, recebiam o nome, respectivamente, de Talo (a que faz brotar), Auxo (a que provoca o crescimento) e Carpo (a que prodigaliza os frutos). 

Homero considerava as Horas como porteiras dos céus, cabendo a elas abrí-los e  fechá-los. Gozavam de um privilégio especialíssimo: todo ano desciam ao Hades para trazer Adônis de volta a Afrodite. Eram encarregadas de distribuir a umidade necessária à vida vegetal, dosando-a convenientemente. Por isso, assumiram também a tutela da educação das crianças, para que elas “brotassem”, “florescessem” e “frutificassem” no tempo certo. Como reguladoras de toda a vida social, cujo equilíbrio mantinham, as Horas eram presença obrigatória em todas as cerimônias nupciais celebradas no mito. 


CÁRITES

Os gregos as reverenciavam oferecendo-lhes as primícias dos frutos de cada estação. Sempre acompanhadas por Têmis, eram representas por três graciosas jovens com asas de borboletas; levavam nas mãos quadrantes, relógios e outros símbolos da veloz fuga do tempo. Gostavam as Horas da companhia das Cárites e integravam ambas, sempre, o cortejo de Afrodite e ocasionalmente os de Apolo e de Dioniso.

A fama das excelências de Afrodite chegou ao Olimpo, manifestando os Imortais um vivo desejo de conhecê-la. As Horas, alvoroçadíssimas, a prepararam então, ataviando-a devidamente, perfumando-a, coroando sua cabeça com uma maravilhosa grinalda de rosas e pedrarias e cingindo sua cintura com o famoso cinturão que continha todos os truques e combinações possíveis das artes que faziam parte do jogo amoroso. Subiu então Afrodite à Mansão dos Deuses, acompanhando-a Eros e Hímeros, o Amor e o Desejo. 


HÍMEROS

No anverso do cinturão de Afrodite estavam fórmulas que favoreciam a vida afetiva; no verso, as que a envenenavam. No primeiro caso, por exemplo, se indicava como Eros e Hímeros, devidamente guiados pela Esperança (Elpis) e acompanhados pelo Pudor (Aidós), pelos suspiros, por débeis acentos amorosos, por carinhosas fórmulas hipocorísticas, por juramentos e pela disposição conciliadora, podiam favorecer a vida afetiva. No verso, estavam, ainda exemplificando, fórmulas através das quais Eros e Hímeros podiam ser inteiramente liberados, dando-se assim oportunidade a que as Erínias pudessem ser convocadas, pois sempre se estaria diante de casos de perfídia, de ciúmes, de inveja, de hipocrisia e de traição, tudo isto contribuindo para que a vida afetiva se tornasse um verdadeiro inferno. Usado adequadamente, porém, o cinto sempre proporcionaria graça, beleza e juventude, superando-se com eles quaisquer obstáculos na vida afetiva. 

Não foi por outra razão, por exemplo, que Hera, a Senhora do Olimpo, tentando reconquistar seu amado esposo, depois de grave entrevero por causa dos seus amores extraconjugais, pediu que Afrodite lhe emprestasse o seu famoso cinturão. A deusa do amor enviou-o com um bilhete: “Recebe-o, ocultando-o junto do teu corpo. O quanto puderes desejar nele se encontra e, por um encanto secreto que não se pode explicar, ele fará com que te saias bem em todos os teus empreendimentos.” Sabe-se que Afrodite usou o seu famoso cinturão em várias oportunidades, para se sair bem nos seus inúmeros affaires amorosos. Com muita facilidade, por exemplo, como se verá, obteve o perdão de Hefesto, seu marido, depois do seu rumoroso caso com Ares, o deus da guerra. 

Assim que pôs os pés no Olimpo, Afrodite arrancou grandes exclamações de admiração dos deuses, suscitando grande apreensão e mesmo cenas de ciúme explícitas por parte de várias deusas. Foi cercada por vários deuses, inclusive por Zeus que, contudo, teve que se conter, pois Hera exercia grande controle sobre ele, não o largando um minuto sequer a sós com a deusa recém-chegada. Todos disputavam a honra de a ela se unir, seja tomando-a como esposa ou como amante.


AFRODITE  E  HEFESTO  ( VÊNUS  E  VULCANO )

Zeus resolveu então casá-la com seu filho Hefesto, um prêmio por sua incansável atividade como ferreiro divino e fabricante de maravilhas técnicas e armas que tanto encantavam os olímpicos. Foi assim que o mais feio dos deuses se transformou no marido da mais bela das deusas. Rainha de Pafos (cidade de Chipre, muito famosa pelos cultos que nela se celebravam em honra a Afrodite) e Deusa do Amor, como Homero a chamou na Ilíada, soberana do prazer, da formosura, a deusa uniu-se, por razões de Estado, digamos, com um marido rico, “industrial”, muito chegado ao poder olímpico, mas coxo e feio, que andava coberto de fuligem e que vivia muito mais para as suas indústrias que para a convivência amorosa. Realmente, Afrodite não poderia amá-lo. Por isso, incontáveis foram os seus casos...


HEFESTO, O DE PÉS TORTOS

Muitos acreditam, todavia, que o primeiro amor de Afrodite foi Zeus, nascendo dessa relação as Cárites, as Graças. Para evitar problemas com Hera, sempre foi divulgado que a mãe das três belas jovens seria Eurínome, uma oceânida. Seja como for, as Cárites logo se integraram ao cortejo de Afrodite e, às vezes, ao de Apolo, atribuindo-se a elas as influências benéficas sobre a atividade intelectual e as obras de arte em geral. 

A maior parte dos habitantes do Olimpo e mesmo os seus frequentadores, divindades de nível inferior que lá não tinham moradia, eram de opinião que Afrodite consumou seu primeiro adultério com o deus Ares, o Senhor da Guerra. Todos são unânimes em afirmar que tal fato se deveu ao descaso de Hefesto para com a sua bela esposa. Metido sempre nas suas forjas, situadas em longínquas ilhas vulcânicas, Hefesto abandonava Afrodite, deixando de vê-la por longos períodos. 


PANDORA

Alguns, como Hesíodo, por exemplo, atribuem este estranho comportamento de Hefesto à sua origem. Filho de Zeus e de Hera, ele teria vindo ao mundo “sem amor”, isto é, conforme o poeta, teria sido gerado apenas pela deusa num momento de cólera, por causa do nascimento de Palas Athena. Suas relações com o mundo feminino sempre foram lamentáveis. Sua suprema vingança, entretanto, veio com Pandora, sua genial “criação”, a primeira mulher, fascinante e irresistível, que instaurou definitivamente a divisão entre os sexos. 

Afrodite e Ares encontraram-se numa das famosas reuniões do Olimpo. Marcado um encontro no palácio de Hefesto, este ausente como sempre, Ares apresentou-se a Afrodite todo armado, como se fosse participar de uma batalha. Deixando de lado os circunlóquios, Ares foi diretamente ao assunto. Afrodite, relatam as crônicas, sentiu-se um pouco atemorizada a princípio. Mas ele logo, sofregamente, retirando a sua couraça e depondo as suas armas, as suas perneiras, exibiu à deusa a sua excepcional forma física. Foi o necessário para que ela se entregasse a ele totalmente. Hélio, o Sol, já havia despontado no horizonte quando acordaram.

Segundo o poeta abaixo mencionado, estas foram as únicas palavras de Ares, quando do seu encontro amoroso com a divina Citereia: “Ó deusa que adoro, vem a meus braços, entreguemos nossos corações ao encanto do amor; Hefesto está ausente, foi a Lemnos e te abandona por seus bárbaros companheiros.” Consta que a única palavra de Afrodite foi: “Abrasa-me!” 


AFRODITE   E   ARES

Muitos cronistas nos relatam esse episódio, mas quem o fez melhor foi, sem dúvida,  Demodokos, um poeta cego que frequentava muito a corte do rei Alcinoo, dos feácios. No palácio real, perante o rei, convivas e Ulisses, ainda incógnito, o poeta contou histórias sobre este último. No mercado da cidade, perante grande público, o poeta, depois de ter contado muitas histórias sobre as façanhas do marido de Penélope, foi à praça da cidade e, com acompanhamento musical, narrou a história do encontro amoroso de Afrodite e Ares, a todos dando prazer e divertindo-os muito.



O poeta relata que o deus Hélio, que tudo via, pôs à mostra a cena dos dois amantes enlaçados no leito nupcial do palácio de Hefesto. Todo o Olimpo tomou imediatamente conhecimento do que ocorria,
HEFESTO
inclusive Hefesto, na distante ilha de Lemnos onde tinha as suas forjas. Os deuses accorrem pressurosos para ver a cena, o mesmo fazendo Hefesto, que, apesar de coxo, deslocou-se com espantosa velocidade. Todos chegam a tempo de encontrar ainda enlaçados os dois amantes. As deusas, ouvindo as recomendações de Aidos, o Pudor, eximiram-se de ir ao palácio. Assim que entrou no quarto nupcial do seu palácio, sem dizer uma palavra, Hefesto lançou uma rede sobre Afrodite e Ares, envolvendo-os de tal modo que, apesar dos esforços do deus da guerra, não conseguiram eles se libertar. A velha máxima hefestiana mais uma vez prevaleceu: aquilo que o deus das forjas, das ligas, dos metais incandescentes e dos nós unia, ninguém desatava.  



A  REDE  DE  HEFESTO

Ao ver a rede lançada por Hefesto, uma risada tomou conta do grupo de imortais que havia acorrido para presenciar a inusitada cena. Ouviam-se frases como estas: “as tramas crimonosas têm cedo ou tarde sua consequência fatal”, “Ora, ora, eis que a lentidão triunfa sobre a rapidez” e outras mais... Assim, o coxo Hefesto, com a sua arte e astúcia, surpreendeu a sua esposa e Ares, o mais veloz dos deuses do Olimpo, chamado de Gravidus por isso mesmo, “o de passos largos”.


PODEIDON

Dentre os deuses presentes, Apolo, dirigindo-se a Hermes, disse-lhe: “Mensageiro dos deuses e benfeitor dos humanos, aprisionado por estas indestrutíveis malhas, suportarias esta vergonha para passar a noite nos braços da ruiva Afrodite?” A resposta de Hermes veio prontamente: “Ó vergonha digna de inveja! Multiplicai essas inumeráveis ligaduras e que venham todos os deuses do Olimpo presenciar a cena, tudo valeria a pena para passar uma noite nos braços da deliciosa Afrodite.” Ouvidas estas palavras, renovaram-se as gargalhadas por todo lado. Só Poseidon permaneceu sério, logo pedindo a Hefesto que libertasse os dois amantes, livrando-os de tanto opróbrio, comprometendo-se inclusive a pagar o preço do resgate que Hefesto pedisse por tal libertação. Hefesto cedeu e, com as suas poderosas mãos, rompeu a rede maravilhosa. 

Quem nos conta o final desta história é Homero: livres dos laços que pareciam indestrutíveis, os amantes correm para longe do Olimpo, fugindo de todos os olhares. Ares se precipitou em direção da Trácia enquanto Afrodite se retirou para Chipre, indo para Pafos, onde, em um pequeno bosque, havia um templo levantado em sua homenagem. Recebida pelas Cárites, Afrodite foi por elas conduzida ao banho; depois, todo o corpo da deusa foi massageado levemente com perfumadíssimos óleos pelas três jovens, que a vestiram com maravilhosos e transparentes véus, preparando-a assim para voltar ao convívio dos seus pares. 

Antes de partir para a Trácia, a fim de, em longa temporada, visitar as suas estrebarias e casas de armas, Ares transformou num galo (obrigado a cantar três vezes antes do nascimento do Sol) o seu escudeiro Alectrion (galo, em grego), que se esquecera de avisá-lo, como fora determinado, para que Hélio não o surpreendesse com Afrodite. Consta que em virtude dessa união com Ares, Afrodite gerou Harmonia e os gêmeos Fobos e Deimos, este último personificação do Terror e o outro, do Pavor, que tomaram feição demoníaca e passaram a acompanhar o pai onde houvesse batalhas e derramamento de sangue.