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sábado, 8 de julho de 2017

LEÃO (4)



SISTEMA   SOLAR

Lembremos que Netuno, no século XX, entrou em Leão no mês de junho de 1.916 e nele permaneceu até 1.929. O mundo dos investimentos (ações, financiamentos, hipotecas, commodities, empréstimos para a aquisição de bens suntuários) é leonino e foi construído nesse período com base nas ilusões e nas fantasias netunianas de riqueza e poder, em várias formas de ganhos repentinos (ganância). Netuno em Leão trouxe muito talento musical e artístico, mas, por outro lado, através do cinema (governado por Netuno) criou-se o star system e a chamada Usina de Sonhos, nome pelo qual Hollywood passou a ser conhecida como produtora de expressões artísticas inferiores relacionadas
GRANDE   DEPRESSÃO
com um romantismo exagerado, um idealismo carregado de sentimentalismo, de superficialidade, de fantasias sobre o poder, tudo saturado de extravagâncias, luxo e prazer de gosto profundamente discutível. Na economia, tivemos desastres, implosão, começo daquilo que tomou o nome de a “Grande Depressão” (o crack de 1.929). Quando Netuno transitou por Leão tivemos também o primeiro concurso feminino de beleza em trajes de banho, o rádio se firmou como meio de comunicação ligado à massificação (alienação, divertimento). Durante esse período, denominado pela expressão Roaring Twenties, em cima de descontrolada especulação, se alimentou a fantasia de uma riqueza ilimitada. 

Mais: lembremos que durante da década de 20, Urano transitou por Peixes, de 1.920 a 1.927, e que hoje ele (séc. XXI) voltou a transitar por esse signo (2.003-2011). Netuno entrou em Aquário em 1.999, juntando-se catastroficamente nos céus tendências humanitárias, salvadoras (Netuno) com tecnologia (Urano), ficando o homem desde então aprisionando pelo complexo de Ícaro, tomando o nome de globalização, através da sigla WWW, o sonho da fraternidade universal.


A   QUEDA   DE   ÍCARO  ( P.P. RUBENS , 1636 )

Ícaro era filho de Dédalo, o famoso inventor. Ele e o pai estavam presos no palácio de Minos, em Creta. Dédalo fabricou para o filho um par de asas, que foram  presas aos ombros do jovem com uma cera especial por ele inventada, com a  recomendação de que ele, evadindo-se da prisão, não se aproxime demais do Sol, que procurasse manter uma altura média entre o astro solar e a Terra. Nada lhe aconteceria se observasse o metron recomendado. Apesar de todos os conselhos de prudência, o jovem afoitamente lançou-se nos céus, elevando-se cada vez mais. A cera foi se derretendo, as asas se soltaram. Resultado: queda, catástrofe e morte. 

Ícaro desde então deu nome ás ingênuas aspirações humanas de se atingir a vida espiritual, o Sol, no exemplo, através de meios técnicos. O complexo se configurou: ambição desmedida, exaltação vaidosa e megalomania. Uma dupla perversão, pois, em Ícaro: julgamento errado e coragem idiota. As asas de cera de Ícaro tornaram-se o símbolo da tecnologia moderna. A conclusão se impõe: não é com elas que chegaremos a uma vida espiritualmente orientada. 


A tradição astrológica que incorpora aproximações com o Tarot costuma associar o arcano 11, A Força, ao signo do Leão. Afirma essa tradição, a meu ver erradamente, que a figura da lâmina traduz uma ideia de controle das forças instintivas pelo lado feminino da personalidade masculina, a chamada anima. A vida instintiva domada pelo eu solar. Alguns atribuem este controle a uma sabedoria, representada pelo chapéu que a figura feminina leva sobre a cabeça, a que chamam de lemniscata.

A figura feminina do arcano 11 tem tudo a ver com a das grandes-mães, figuras típicas do mundo matriarcal, poderoso símbolo que, mesmo depois da vitória do mundo patriarcal, continua presente na vida masculina. A figura me lembra mais a ilustração de uma relação mãe-filho em que ela, invadindo o território da quinta casa astrológica (o da conquista de um eu autônomo), continua a exercer a sua função tutelar. A suavidade da figura feminina, sugerindo compreensão e benevolência, é desmentida pelo seu gesto. Ela força o leão a abrir a sua mandíbula. A mandíbula, lembre-se, é o maxilar inferior, o único osso móvel da cabeça, em forma de ferradura e que se articula com o osso temporal de cada lado do crânio. A boca, dos humanos ou dos

animais, é antes a abertura inicial do tubo digestivo. Entretanto, ela é mais que um orifício por onde passa o alimento, ela permite o ato de falar e é por ela que passa também o sopro vital. A boca, sob muitos aspectos, tem também relação com o seio materno. O que a figura evidencia não é a força do ego. Ao contrário, o que ela demonstra claramente é o poder da grande-mãe, das figuras como Cibele, Ishtar, Isis, Durga e outras. 

Quanto ao chapéu, ele é sempre um símbolo de poder, de soberania e também de uma função, de uma posição social ou de uma atividade. O chapéu que está na cabeça da figura feminina em questão faz parte, ao que parece, de indumentárias femininas
LEMNISCUS
europeias do séc.XVII/XVIII. A palavra lemniscata usada como símbolo da sabedoria me parece despropositada. Lemniscus, em latim, é faixa, fita, galão, atadura. A palavra é um cultismo que entrou em circulação a partir do séc.XIX, designando formas feitas com fitas,  arrumadas na forma de um oito. As fitas, como se sabe, participam normalmente do simbolismo dos nós, prendem, atam, submetem de algum modo. 

Lembremos ainda que o número 11 é um símbolo da desmedida, de excessos, de incontinência, de violência, na medida em que aparece depois do 10, que simboliza um ciclo fechado, completo. Santo Agostinho, por exemplo, o associa ao pecado pela razão apontada (excesso), ligando-o ao perigo, ao conflito e à rebelião. Em antigas tradições, era conhecido como a “dúzia do Diabo”. O número aparece na expressão “ser salvo na undécima hora” (eleventh hour, em inglês), uma alusão à parábola de Cristo sobre os trabalhadores que recebiam salário diário mesmo que tivessem sido contratados à última hora do dia de trabalho. 


SANTO   AGOSTINHO ( PHILIPPE  DE  CHAMPAGNE , 1650 )

Às vezes, o número adquire o significado de início de um novo ciclo, uma renovação, como ruptura do número 10. Algumas tradições judaicas falam em daath, a undécima sephirot, a do conhecimento. Analogicamente, o 11 tem a ver com o 2, mas considerada a experiência da trajetória indicada pelos números precedentes. São muito conhecidos os ciclos de atividade magnética do Sol, num período de 11 anos, que dão origem às manchas solares e cuja influência sócio-psicossomática foi comprovada (em 2.006 um novo ciclo começou).    



Muito mais apropriado ver no arcano 18, o Sol, através das duas figuras infantis, a caminhada do ego que acaba de nascer na quinta casa astrológica. Elas indicam um começo, algo ainda “a ser”, como em Áries, mas, agora, já presentes os dois lados a integrar nessa caminhada, o lado masculino e o feminino da personalidade humana. As imagens das duas crianças são diferentes, uma é mais esguia, a outra é um pouco mais cheia de corpo, tem, levemente, formas um pouco mais arredondadas. É verão, elas pisam a terra, lugar da trajetória humana.

As duas figuras devem ser entendidas, evidentemente, em planos que não o biológico. São crianças (no Tarot de Marselha), ainda não totalmente desenvolvidas, espontâneas, sendo o jogo uma das maneiras privilegiadas  destas formas ainda embrionárias se desenvolverem. Há que se vê-las, sobretudo, animicamente, pensando-se numa combinação dos dois princípios que atuam em todos os seres humanos e também segundo o entendimento que o homem e a mulher não são totalmente masculinos ou femininos. Todo símbolo masculino ou feminino participa do seu oposto. Como a figura sugere, em Leão ainda estamos na “infância” do ego. Há um muro atrás das duas crianças. Muros, de um lado, indicam proteção, segurança, defesa, mas podem significar também, de outro, prisão, fechamento. O valor simbólico desse obstáculo deve ficar subordinado à sua altura. Transpô-lo não será difícil, é baixo. A opção de permanecer ou de ultrapassá-lo terá também a ver, conforme entendo, com os dois pequenos pães, um ao lado de cada uma das crianças, produtos das origens, símbolos do mundo familiar, que deverão ser “ingeridos” antes da partida. O pequeno tamanho dos pães indica, numa leitura astrológica, a proporção e de que modo a quarta casa deve participar na caminhada. Sempre, porém, uma ideia de se incorporá-la, fazer dela algo integrado ao ser que vai buscar o seu caminho. 

O número 19 é também um número solar, tendo a ver com o ciclo dos saros, período compreendido entre a repetição dos eclipses do Sol e da Lua, que totaliza 18 anos, 11 dias e 8 horas. A palavra saros nos veio da Babilônia e lá  queria dizer repetição. Esse ciclo é também conhecido como ciclo metônico. Quem deu nome a ele foi um astrônomo ateniense, Meton (séc.V aC). Ele, certamente com base em informações recebidas dos babilônicos, inventou uma regra de sete intercalações de um mês em dezenove anos no calendário lunar. Esse ciclo tem por base o fato de que dezenove anos lunares, aos quais são acrescidos sete meses, correspondem a dezenove anos solares. Na prática, astrológica isto quer dizer: registrar os contactos das Luas novas a cada mês no mapa, tendo em vista que cada contacto se repetirá dezenove anos mais tarde. Estas Luas novas medirão as oportunidades para se empreender algo de novo no que diz respeito ao ponto que no mapa é tocado. Cada empreendimento deverá se relacionar com o contacto similar dezenove anos antes e será condicionado pelo que nesse período se tenha realizado. Esses contactos de eclipse poderão se constituir em momentos particularmente importantes no ciclo geral da Lua nova com relação ao mapa natal.  



A constelação do Leão estende-se hoje entre 12º de Leão e 22º de Virgem. Ptolomeu atribuiu às duas estrelas da cabeça influências como as de Saturno e Marte, esta parcial. As três estrelas do pescoço atuam como Saturno, com discreta participação de Mercúrio. As que estão no lombo lembram influências de Saturno e Vênus. As das coxas atuam como Vênus e, menos, como Mercúrio. 


CONSTELAÇÃO   DE   LEÃO

A estrela alfa de Leão é Regulus, de 1ª magnitude, hoje a 29º08´, conhecida como Cor Leonis, atuando como Marte e Júpiter. Esta estrela, como já foi dito, era uma das quatro estrelas reais dos
AHRIMAN
persas. Eles a consideravam como a “guardiã do Norte”, ligada ao todo-poderoso rei mítico Feridum. 


A história deste rei merece que nos detenhamos nela um pouco mais porque ela é arquetípica. Na eterna luta entre o Bem (Ahura Mazda) e o Mal (Ahriman), este último conseguiu se apoderar, através da magia, da personalidade de Zohak, príncipe do deserto, que, com isso, obteve muitas vitórias. Uma noite, Zohak teve um sonho: um jovem príncipe o derrotava. Interpretado o acontecimento pelos sábios, Zohak ficou sabendo que esse futuro príncipe de nome Feridum, acabara de nascer e que herdaria o seu trono. Zohak mandou então assassinar todas as crianças recém-nascidas do seu reino. 


AHURA   MAZDA

A mãe de Feridum, uma jovem e sábia mulher, conseguiu contudo salvá-lo. Ela o confiou a um jardineiro que cuidava de um terreno ajardinado onde vivia uma vaca maravilhosa, que alimentou a criança. Jovem, Feridum foi levado.as escondidas, pela mãe, às montanhas do Hindustão, onde passou a viver sob a tutela de piedoso mestre. Tornando-se adulto, Feridum soube pela mãe dos desmandos e crimes do rei Zohak. Depois de muitas peripécias, inclusive participação de seres angelicais, Feridum acabou vencendo Zohak, ajudado por um pequeno grupo de descontentes. Instalando-se no poder, Faridum reinou por muito e muitos anos, sempre proporcionando muita felicidade aos seus súditos. Morrendo muito velho, deixou, forçado, a coroa para seus descendentes, que disputarão desastradamente entre si o reino.

Desde de tempos muito remotos, Regulus sempre apareceu associada a sucesso em posições de mando, honras militares, altos postos em comando, podendo, contundo, atrair agressões e complôs. Regulus, em latim, é diminutivo de Rex, rei, isto é, rei ainda criança ou muito jovem. Às vezes, a palavra toma o sentido de chefe de pouca importância (reinos da África), mas de temperamento tirânico. Em Ptolomeu, Regulus é o equivalente de
CLAUDE   DEBUSSY
( H. DE GROUX, 1909 )
Basilikos


Na Índia, a estrela tem o nome de Magha, a Poderosa, dona da 8ª mansão lunar. Entre os árabes é Malikiy. Entre os romanos, é Basilica Stela. No ascendente a estrela reveste a personalidade de realeza, empurra para o sucesso, para o brilho, mas pode trazer problemas, uma grande (hiper)sensibilidade quando esta realeza não é reverenciada, reconhecida. Um mapa para estudo de Regulus é, por exemplo, o do compositor francês Claude Debussy.

A estrela beta de Leão é Denebola, situada na cauda da figura celeste, hoje a 20º 55´ de Virgem. O nome vem do árabe, Dhanab al Asad. Costuma ser chamada de Deneb. Para Ptolomeu, apresenta características de Saturno e Vênus. Esta estrela tem um forte componente aquariano, podendo levar a pessoa a viver fora dos padrões sociais, afrontando-os, um traço não conformista. Pode colocar por isso a pessoa adiante do seu tempo. 

A estrela gama de Leão é Algeiba, “escondida” na juba, não usada astrologicamente. A estrela delta é Zosma (a cinta ou a cintura, em grego), perto do cauda, hoje a 10º 37´ de Virgem. É uma estrela
JOHN   KENNEDY
( E. DE KOONING, 1963 )
potencialmente perigosa, podendo, conforme o caso, tornar a pessoa vítima de alguma coisa, algo injusto, mas de caráter inexorável, muitas vezes. Na casa em que está, indica possibilidade de abuso, de algum ataque, de alguma violência. Segundo a tradição mitológica, Zosma foi o ponto do corpo do Leão de Nemeia atacado por Hércules. O mapa do presidente americano John F. Kennedy é um bom exemplo para o estudo de Zosma.  

Uma curiosidade que se liga à constelação do Leão é uma chuva de meteoros, denominados Leônidas, que ocorre a cada ano, entre 9 e 17 de novembro, proveniente da região da cabeça da figura. Tal fenômeno se verifica de modo particularmente espetacular a cada 33 anos, tendo ocorrido o último no ano de 1.999. Há notícias dos Leônidas desde a antiguidade. 


LEÔNIDAS


quarta-feira, 13 de abril de 2016

URANO (4)



HERÓDOTO


Os antigos persas conheciam também um deus celeste supremo. Segundo Heródoto, esta divindade era honrada no alto das montanhas. Seu nome se perdeu. Na sua reforma religiosa, Zaratustra a reabilitou, dando-lhe o nome, no Avesta, de Ahura-Mazda, Senhor da sabedoria e onisciente.







ZARATUSTRA
Zaratustra (Zoroastro, para os gregos) foi um reformador religioso e profeta que viveu um pouco antes da época aquemênida, sexto século aC. Vivia no que é hoje o Azerbaijão, mas teve que se exilar no Afeganistão, onde encontrou proteção. Sua reforma promoveu uma conciliação entre a religião dos antigos Magos e a dos reis. Os Magos formavam uma corporação sacerdotal de tribos medas que se dedicavam à preservação de antigos cultos arianos. Esta conciliação foi muito difícil e só teve algum sucesso depois de alguns séculos. 

A vida de Zaratustra é muito semelhante à de Buda. Diz-se que ele nasceu rindo. Aos vinte anos deixou a casa paterna à procura da verdade. Passou sete anos no fundo de uma caverna, no alto de uma montanha (Sinai). Aos trinta anos recebeu de emissários celestes (arcanjos) várias revelações. Foi tentado por um demônio, que lhe ofereceu um reino temporal. Armado de exorcismos, Zaratustra o afastou. 

A doutrina do profeta, além do seu aspecto ritual, continha conhecimentos do mundo físico, das estrelas, das pedras e do mundo vegetal, sabendo ele curar com as plantas. A proposta moral de Zaratustra consistia na busca da perfeição através de pensamentos, palavras e atos. O profeta falava do julgamento da alma depois da morte, quando os bons e os maus seriam separados.


As crenças primitivas dos persas consistiam na adoração dos elementos e dos astros, de modo especial do Sol e da Lua. Zaratustra deu ao seu povo o chamado Livro da Verdade, o Zend-Avesta, que ele dizia ter recebido por revelação, base do Mazdeísmo sistematizado e da sua doutrina, sustentado por uma visão dualista do universo.


O ser eterno, supremo, sem princípio nem fim, anterior a toda
ZERVAN  AKARENA
criação, origem de todas as coisas, foi chamado de Zervan Akarena (seu primitivo nome se perdeu). Mazda, como deus da realeza persa (aquemênidas) ofuscou todas as demais. Mazda se transformou no deus dos deuses, senhor dos céus, de todos os seus fenômenos e criador de todos os seres. Mazda era nos céus, guardadas as devidas proporções, um reflexo do que era na terra o imperador, rei dos reis, senhor de todos os povos.

A etimologia do nome Mazda é discutível. Alguns o associam à palavra sânscrita medha, sabedoria. Outros optam por mada, embriaguez, ou mastim, iluminação. O que se sabe é que ele era um deus dispensador de poderes transcendentes, levando o crente por ele beneficiado a ir além da sua personalidade, algo semelhante ao que Urano produz astrologicamente quando dignificado. 

AHURA   MAZDA
Ao nome Mazda foi incorporada a palavra ahura, passando o deus a ser conhecido como o Senhor (Ahura) da Sabedoria (Mazda). A reforma de Zaratustra purificou-o de influências naturistas. Desde então ele passou a ser conhecido como o correspondente do Varuna védico no mundo persa. Ele tem por vestimenta a abóbada celeste. É ele quem envia as chuvas fecundantes e também as tempestades para a terra. Ahura Mazda era considerado como aquele que vê longe, que espiona, que tudo conhece e aquele que não se engana. É infalível, pois sua inteligência apreende tudo. Sempre desperto, nenhum narcótico pode abatê-lo. Nenhum segredo escapa ao seu brilhante olhar. Ele garante, na sua ação comunitária, a inviolabilidade dos contratos e o respeito à palavra dada.



MITHRA

Entre os persas, na reforma de Zaratustra, foi Ahura Mazda quem criou Mithra, deus dos contratos (mithra quer dizer contrato). Aquele que os rompe atrai infelicidade para si mesmo e para tudo que está à sua volta. Além destes atributos e funções, Ahura Mazda detém a soberania, razão pela qual ele guarda as leis e pune todos os culpados. No panteão estabelecido por Zaratustra, Ahura Mazda além de “pai” de várias entidades benéficas, gerou também os gêmeos Spenta Mainyu (espírito benfeitor) e Angra Mainyu (espírito destrutivo). O que se depreende dessa concepção é que Ahura Mazda transcende todas as contradições, se situa acima do bem e do mal, que provêm dele, tornando-se o homem, conforme as circunstâncias, segundo a sua escolha, santo ou demônio, pecador ou justo quanto às suas ações. 



ANGRA   MAINYU


AHRIMAN
O onisciente Ahura Mazda teve os seus dois nomes fundidos, tornando-se Ormazd, na literatura pálavi. De outro lado, opondo-se a ele, temos Ahriman, o Pensamento Angustiado ou Negativo. Marcam eles os dois polos da existência: o primeiro significa a vida, o outro, a morte. O primeiro é a luz e a verdade, o outro significa as trevas e a mentira. Eles se definem por seu eterno e constante antagonismo. Tudo é luta entre os princípios que representam.

No mazdeísmo, Zervam Akarena, ser supremo e eterno, anterior a todos, foi assim o criador dos dois princípios antagônicos, Ahura-Mazda e Ahriman, também denominado Ayra-Lanya. O primeiro, bom e sapientíssimo, de quem procede toda a luz; o outro é a fonte de toda a maldade e corrupção. São chefes das falanges sobrenaturais que sustentam entre si constante luta em ciclos de doze mil anos. Ao final de cada um destes ciclos, o mundo físico e moral resplandecerá em pura luz e a luta entre os dois princípios terminará com a vitória do bem.

ORMAZD
Obra de Ormazd, o criador, são o céu, a luz, o fogo, os astros, os metais, a humanidade, os reinos animal e vegetal, a água. Além disso, ele é também conservador e sustentador. Às suas ordens, tem os seis Amesha Spenta, chamados Irmãos Benfeitores, que velam das alturas por toda a criação. Assemelham-se e serviram de inspiração para, no mundo judaico-cristão, se constituírem em modelos dos arcanjos bíblicos e de entidades védico-bramânicas. São gênios benéficos que formam o grupo mais chegado a Ormazd, assim descritos: 1) Bahman (Bom Propósito), divindade do firmamento, da luz e da ordem, supremamente bom e pacífico; acompanha as almas dos justos à região da bem-aventurança; 2) Ardibehechet (Retidão), nume do fogo, da pureza, da saúde e da vida em geral; 3) Shariver, preside a prosperidade e a riqueza; 4) Spendarmad (Devoção), gênio da agricultura; 5) Kordad (Saúde), rege as águas e o tempo; 6) Amurdad (Imortalidade), gênio ligado ao mundo vegetal. Abaixo dos Irmãos Imortais, fica o grupo dos Izeds, vinte e oito espíritos benfeitores e amigos do ser humano, mediadores entre este e as divindades principais que governam, em sua esfera inferior de atuação, os elementos e os dias e meses do ano. 



TEMPLO   DE   AHURA  -  MAZDA


Ahura-Mazda (Ormazd) revelou a Zaratustra que ele tinha criado o universo onde nada existia. Em oposição a este, que é a própria vida, Angra Mainyu (Ahriman) criou um outro, onde tudo é morte e no qual só há duas estações: dois meses de verão e dez meses de inverno. Tudo é tão gelado que mesmo os meses de verão são muito frios. Esta a razão porque o frio no mazdeísmo é o princípio de todo o mal, na medida em que sempre simbolizou o silêncio, a morte, a falta de amor. Lembre-se que no Inferno de Dante as grandes punições têm relação com o frio.


AHURA - MAZDA

Ahura-Mazda prosseguiu no seu discurso, dizendo que criou Gahon, o lugar mais bonito da terra, repleto de rosas, onde nascem os pássaros com plumagem de rubi. Ahriman criou por seu lado os insetos que fazem mal às plantas e aos animais. A lista da criação de um e de outro é enorme. A cada maravilha que Ahura-Mazda criava para a felicidade dos humanos, Ahriman criava o seu correspondente maligno. 

Esta relação entre Ahura Mazda e Ahriman explica porque embora o primeiro seja responsável por tudo o que há de bom no universo, as forças da destruição estão fora de seu controle, não sendo ele, a rigor, uma divindade onipotente. Só quando o bem e a harmonia triunfarem na batalha final entre as duas forças é que ele, na condição de Ormazd, se tornará então onipotente.



YAZATAS

Nesta concepção, a natureza inteira é povoada de gênios, os
FRAVACHI
Yazatas, aos quais são devidos sacrifícios. Chamam-se Fravachis os bons gênios, assumindo eles um papel parecido com os anjos da guarda (anjos custódios) do cristianismo, estes criados por inspiração daqueles. Ao nascer, cada ser humano já tem o seu Fravachi, criado por Ormazd, para acompanhá-lo. O príncipe dos demônios é, como se disse, Ahriman ou Angra Mainyu. Chamados de Devas, os demônios se dedicam a provocar a mentira e a trapaça. Sua função é a de se contrapor ao bem, em qualquer circunstância.  

Diante dos rutilantes espíritos do bem, Ahriman colocou as suas hostes sombrias e maléficas, hierarquicamente organizadas. Aos Irmãos Imortais opõem-se os príncipes que vivem em Duzerek, a morada de Ahriman, presididos por Eskem, o Demônio da Inveja. Aos Izeds se opõe a numerosa falange do Devas, tenazes e belicosos. Mithra tem o seu oposto em Darudj, inimigo feroz, que contra ele levanta o seu ódio como Ahriman o faz com relação a Ormazd. A natureza inteira aparece também dividida entre estes dois princípios: frente ao homem justo e piedoso vive o ímpio e malvado; os animais sagrados, tímidos e dóceis, têm diante de si os ferozes e predadores.

A luta entre estes dois princípios não é eterna. Ela, como se disse, ficou, por determinação de Zervan Akarena, limitada a ciclos de doze mil anos, divididos, cada um, em quatro idades de três mil anos. Na primeira, Ormazd se dedica à obra da criação enquanto seu inimigo se prepara, com infernais ardis, para corrompê-la e degradá-la. Na segunda, Ahriman sai das trevas e ataca; mas, cego pela luz pura do outro lado, cai no abismo e se desespera numa raiva impotente. Passados seis mil anos, na terceira idade, o maligno tenta de novo invadir o paraíso dos deuses (Gorotman), a mansão de Ormazd e dos Amesha Spenta. 

O homem foi criado ao final da terceira idade. Ahriman resolveu deixar os deuses de lado e se dispôs a atacar o ser humano e a criação como um todo, alvos bem mais fáceis, vingando-se assim de Ahura Mazda. Tomando a forma de uma serpente, Ahriman se escondeu na terra e atacou, alterando a organização dos elementos. Com deletérios vapores, sufocou o touro divino Abudad e se dirigiu ao paraíso em que viviam Meskia e Meskianea, o primeiro homem e a primeira mulher. Dirigindo-se a eles, declarou que, com seu enorme poder, era o criador de tudo o que existia e, dando-lhes frutas e leite de cabra, tornou-os seus seguidores. Desde aquele momento, Meskia e Meskianea perderam sua inocência, a felicidade e a imortalidade, herdando sua descendência a maldade e a corrupção. O primeiro par humano morreu, seus corpos se mesclaram à terra e suas almas foram para os céus e lá esperam o grande dia da ressurreição da carne.

A luta entre os Amesha Spenta e os Devas é incessante, renovando-se constantemente. Atualmente, segundo o Avesta, vive a
AVESTA
humanidade o final de uma terceira idade. Depois de uma batalha que durará noventa dias e noventa noites, Ahriman será vencido. O cenário, ao longo dos séculos e séculos, nos mostra que no começa das quartas idades os Devas se mostram vitoriosos, já que obtiveram obtiveram antes algumas vantagens. As almas dos mortos vagam perdidas e chorosas. Em sua perseguição se lançam então os incansáveis Devas. Os Izeds as defendem e as encaminham para a ponte Tchinevad, suspensa entre a eternidade e o mundo. Ali, Mithra tem o seu tribunal e Bahman o assessora. As almas boas e justas atravessam a ponte sem sofrer ataques do seu guardião, o pavoroso cão Sura, e chegam, conduzidas pelos Izeds, à presença de Ormazd e os Amesha Spenta, que dos seus tronos as acolhem. As almas dos malvados e dos inconstantes se tornam sempre o butim dos Devas.

No final da quarta idade, o cometa maléfico Gurker escapará da vigilância da Lua, que rege o seu curso, e deslocando-se pelo espaço se chocará com a Terra, abrasando-a. Do interior da Terra, os metais, derretidos, formarão rios ferventes. Contorcendo-se, desde as suas entranhas, nosso planeta terá então purificadas as potências do mal. Ormazd e Ahriman, afinal, se reconciliarão no seio da Unidade, criando um novo ciclo e uma nova Terra, pura, perfeita, entoando as suas criaturas cânticos de louvor à verdade e à luz. A seguir, tudo recomeçará...



GÊMEOS   DE   AHURA   MAZDA

Tudo o que sabemos de Ahura Mazda nos foi transmitido pelo que sobrou da doutrina da Zaratustra, em textos chamados gathas. As concepções  expostas nos gathas revelam que as experiências religiosas de Zaratustra admitiam o êxtase, típico dos xamãs da Ásia central, no qual era adotado o cânhamo (bhang) como agente enteógeno. Em tais experiências o corpo do xamã adormecia enquanto sua alma viajava até o paraíso (goro demana, a casa do canto).

Zaratustra recebeu a sua revelação religiosa diretamente de Ahura Mazda. Esta revelação falava de uma espécie de imitatio dei, isto é, o crente, embora permanecendo livre, deveria procurar imitar o exemplo de Ahura Mazda, que é sempre spenta (santo). Se assim o fizer, será acompanhado o crente por uma escolta de seres divinos (amesha spenta) dentre os quais destacamos Asha (Justiça), Vohu Manah (Bom Pensamento), Armaiti (Devoção) e Haurvatat (Saúde) e Ameretat (Imortalidade).

A reforma de Zaratustra possibilitou que por meio do rito (yasna) fosse possível ao oficiante participar de uma experiência extática única chamada maga através da qual era obtida a iluminação, usando-se, para tanto, uma bebida que levava na direção de deus (enteógena), de nome haoma. Zaratustra afirmava ter tido várias visões de Ahura Mazda, sempre considerado, por isso, mais que criador e juiz do homem, um amigo, um colaborador cheio de benevolência.

A reforma religiosa se Zaratustra deixou de lado uma importante divindade dos antigos persas, de características solares, Mithra, já mencionado, que tutelava o mundo animal, as boiadas, em especial. O  nome do deus, além de se ligar à designação solar, tem relação com a palavra contrato, com a ordem social, no que sugere, astrologicamente, características aquarianas. Ignorado por Zaratustra, o culto de Mithra reapareceu no período aquemênida quando passou o deus a incorporar o papel de uma divindade salvadora sob o ponto de vista escatológico. Seu culto teve grande expansão no período helenístico da história grega e, depois, durante a dominação romana. 


MAPA   ANTIGO   DE   OSTIA

Entre os romanos, o mitraísmo se tornou uma religião de mistério com sete graus de iniciação. Muito popular no império romano, do séc. II ao séc. V dC, se alastrou por extensas regiões ao longo dos rios Reno e Danúbio, sendo a cidade de Ostia, perto de Roma, um centro importante de seu culto. Lembro que pesquisas arqueológicas iniciadas no séc. XIX nessa cidade trouxeram à luz vários tesouros artísticos, destacando-se dentre eles um esplêndido altar de Mithra, o Mithraeum.  



 ROMA , IGREJA  DE  SÃO  CLEMENTE ,  ALTAR  DE  MITHRA   











sábado, 15 de novembro de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - MARTE (2)




Os antigos persas constituíam um ramo do tronco ariano. Eran ou Iran era o nome do país dos árias (etimologicamente, nobres, leais, senhores), tribos que haviam emigrado da Rússia meridional, passando à Ásia pelos Dardanelos ou pelo Cáucaso. Estabelecidas no planalto iraniano, essas tribos traziam como culto principal o do fogo (atar), tanto o do céu como o que está encerrado na madeira. 


ZARATUSTRA

ZEND-AVESTA
As primitivas crenças dos persas consistiam na adoração dos elementos, do fogo em especial, e dos astros, Sol e Lua principalmente. Depois do reinado de Dario, um profeta de gênio, Zaratustra, Zoroastro para os gregos, deu a seu povo o Livro da Verdade, o Zend-Avesta, que, segundo ele, fora objeto de revelação divina. Este livro está na base do Mazdeísmo, a religião persa sistematizada, que dá corpo a uma doutrina dualista. 

Nesta concepção, há um ser eterno, supremo, sem princípio ou fim, anterior a toda a criação, origem de todas as coisas, Zervan Akarena. Como emanações deste ser eterno temos dois princípios, duas divindades superiores, Ormuz (Ahura Mazda), o bom, o sapientíssimo, e Ahriman (Ayra-Lanya), mau e inteligente.


ORMUZ   ( AHURA   MAZDA )

Do primeiro procede todo bem, toda luz, toda pureza; do outro, toda maldade e corrupção. Ambos compartilham a obra da criação, sendo chefes de duas falanges sobrenaturais em luta permanente, em ciclos de doze mil anos, divididos em quatro idades, que terminam com a vitória das forças da luz. 

Ormuz, o criador, gerou os céus, a luz, o fogo, os astros, os metais, a humanidade, o reino animal, as árvores, as águas. É conservador e sustentador. É o provedor do fogo que anima todos os seres e dá alento às retas intenções dos homens.

Sob as ordens de Ormuz, temos os seis Amshaspand, seres que das alturas velam por toda a criação. São gênios benéficos, formando o seu séquito. Abaixo destes seis auxiliares, há um grupo de vinte e oito seres, os Izeds, espíritos benfeitores e amigos dos homens, mediadores entre estes e as principais divindades, e que governam em sua esfera inferior os elementos da criação e o tempo.

O mais importante dos Izeds é Mitra, espírito luminoso e potente, gênio do Sol e do fogo. É um dos principais agentes de Ormuz, possuindo mil orelhas e dez mil olhos. É o mais ativo dos Izeds, cuidando de todas as criaturas. Exerce funções militares, marcianas, usando sempre uma fulgurante armadura, vigiando os povoados e caminhos. Exerce também funções judiciais, como sustentáculo dos vínculos morais; tem a seu cargo o julgamento das ações humanas quando finda a vida terrena e se dá a passagem dos que morreram pela ponte que leva à eternidade. O nome de Mitra era invocado três vezes ao dia: na aurora, ao meio-dia e ao crepúsculo.


AHRIMAN
Diante dos rutilantes espíritos do bem, temos as hostes de Ahriman, sombrias e maléficas, formando toda uma hierarquia dos poderes inferiores. Sete príncipes fazem parte do seu séquito, distribuindo-se entre um grande número de demônios todas as atividades maléficas. 


Fazem parte da falange do mal espíritos sombrios e maléficos, toda uma hierarquia de poderes infernais, graduada segundo as regras de Ahriman. Toda a Natureza aparece também dividida entre os dois princípios. Frente ao homem justo e piedoso vive o ímpio e o malvado. Os animais sagrados são atacados pela feras, as plantas se dividem entre úteis, nutritivas, e tóxicas ou simplesmente nocivas. 

A luta entre os dois princípios é constante, mas não eterna. Na primeira fase do ciclo de doze mil anos, Ormuz se dedica à criação enquanto seu inimigo, Ahriman, se prepara, ardiloso e falso, para combatê-lo, corrompendo a criação. Na segunda fase, Ahriman sai das trevas e ataca Ormuz. Cego, porém, pela brilhante luz das entidades celestes, precipita-se num abismo, impotente e raivoso. 

Passam-se seis mil anos e na terceira fase o Maléfico, recomposto, tenta novamente atacar as forças do bem à frente de um exército de Devas, tenazes e muito belicosos. Invadem Gorotman, a mansão de Ormuz. Mitra, chefe dos exércitos celestes, trava renhido combate com as forças de Ahriman. Vencido, despenca em direção da Terra. Rearticuladas depois de muito tempo, as forças de Ahriman tentam um assalto final.





AHRIMAN

Tomando a figura de uma serpente, Ahriman se dirigiu ao paraíso onde vivia o primeiro casal humano, Meskia e Meskianea. Disse-lhes que era o criador de todas coisas e que possuía poderes infinitos. Deu-lhes leite de cabra e frutos, submetendo-os. A partir desse momento, perdida a sua inocência original, Meskia e Meskianea morreram. Seus corpos se misturaram, suas almas foram para o céu e ali ficaram à espera do grande dia da ressurreição da carne.


Trava-se então uma batalha final entre Ormuz e Ahriman. As forças do mal haviam obtido algumas vitórias. As almas dos mortos vagavam perdidas. Os Izeds intervém, reunindo-as e as levando para atravessar a ponte Tchinevad, que separa a eternidade do mundo humano. É ali que Mitra, o campeão das forças do Bem, tem o seu tribunal, assessorado por Bahman, divindade do firmamento, da luz e da ordem. As almas boas atravessam a ponte. Não são atacadas pelo grande cão infernal Sura. As almas dos malvados serão o butim dos Devas, os membros do exército do Mal.

Durante grande parte da última fase do ciclo, as forças de Ahriman espalham a corrupção pelo mundo, considerando-se vitoriosas. Ormuz, no entanto, escolheu dentre os humanos um ser especial, Zaratustra, e lhe revelou a doutrina da salvação, o Zend-Avesta

 No final dos tempos, um cometa maléfico, símbolo de tudo o que foge à ordem cósmica, escapará da vigilância da Lua, que rege o seu curso, e, precipitando-se no espaço, chocar-se-á contra a Terra, abrasando-a em fogo. Chamas imensas destruirão toda a matéria, apagando completamente a criação, trazendo a confusão dos elementos e fazendo tudo voltar à indeterminação, reconciliando, assim, finalmente, Ormuz e Ahriman. Um  novo ciclo será então será criado...

MITRA
O nome que melhor representa as virtudes marcianas na antiga civilização persa é Mitra, que, dentre todos os campeões das forças do Bem, é o que ostenta de modo exemplar as virtude de uma autêntica pureza moral, conservada graças a uma atitude belicosa, como um verdadeiro soldado da fé. Daí, o grande prestígio de Mitra entre os generais e as legiões romanas. Com efeito, o mitraísmo propunha a veneração da luz, emblematizada pelo Sol Invictus, invencível, o grande inimigo das forças das trevas.



MITRA   DEGOLANDO   O   TOURO

Mitra é representado comumente como um herói degolando um touro, o primeiro ser vivo da mitologia persa, de cujo sangue nascerão os vegetais e os outros animais. Ormuz depositou no corpo desse  touro primordial, Abudab, os germes de todos os seres corpóreos. Como senhor do tempo, Mitra é também muito representado como um ser humano com cabeça de leão e o corpo envolto por uma serpente, representando esta imagem urobórica o curso do Sol no ciclo do tempo. Mitra nasceu de um rochedo num dia 25 de dezembro, dia em que se celebrava na antiga Pérsia o renascimento do Sol (Sol Natalis), isto é, a volta do Sol,  que  havia


AURELIANO
se deslocado para o hemisfério sul, ao hemisfério norte. Esta data, como se sabe, foi usada pelos cristãos, no séc. IV,  para estabelecer a festa da natividade de Cristo, com o objetivo de substituir a festa em honra ao deus Mitra, até então muito celebrada no mundo romano. O mitraísmo era tão popular em Roma que o imperador Aureliano, em 274, o declarou como religião do estado.