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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

TOURO (2)

           
ZEUS  E  IO
( F. MASON , 1875-1965 )
Os gregos têm uma outra história ligada à segunda constelação do Zodíaco. Ela nos fala de Io, um dos amores de Zeus, uma belíssima princesa argiva. Valendo-se dos préstimos de Oniro, deus do sonho enganador, um dos filhos de Hypnos, deus do sono, Zeus conseguiu fazer com que ela fosse transportada para Lerna, onde conseguiu manter relações carnais com a jovem. Io contara inclusive ao pai o episódio do “rapto” de Oniro e o seu “transporte” para Lerna, onde fora possuída pelo Senhor do Olimpo. Nesse meio tempo, Hera, desconfiada de mais essa aventura do marido, preparou-se para destruir a jovem princesa. Zeus agiu rapidamente, transformando a jovem numa novilha, mantendo-a por perto. Hera, vendo o belíssimo animal, exigiu de Zeus que ele lhe fosse entregue, o que aconteceu. Hera colocou-o sob a vigilância do dragão Argos, o de Cem-Olhos. Zeus, porém, insaciável, tomando a forma de um touro, visitava-a regularmente. 


HERA ,  IO  , ZEUS


Um dia, Zeus resolveu libertar Io-novilha do dragão, pedindo a Hermes que tomasse as devidas providências para tanto. Hermes convocou Hypnos, o deus do sono, que, adormecendo o monstro, lhe deu possibilidades de matá-lo, decepando-lhe a cabeça, sem problemas. Tomando conhecimento da morte do vigilante dragão, Hera, no sentido de homenageá-lo, lançou os seus cem olhos na cauda de uma ave até então sem nome. Desde então essa ave, denominada pavão, passou a ser um dos símbolos da Senhora do Olimpo. 


IO ,  ARGOS ,  HERMES ( G.A. RUSCONI , 1553 )

Desde que se tornou atributo de Hera, o pavão, ao dormir, só fechava cinquenta dos olhos de sua cauda. Tornou-se, na antiguidade mediterrânea, a ave-símbolo do esplendor celeste e da
PAVÃO
glória divina, evocando a multiplicidade da criação. Sempre relacionado com as serpentes, o pavão, segundo a tradição grega, não só absorve o veneno delas como as destrói. Sempre em função da sua cauda e de sua magnífica plumagem, o pavão, restrito como símbolo ao plano humano, passou a representar o narcisismo,  o amor pela própria imagem, o orgulho, a vaidade, um sentimento de beleza que costuma levar ao isolamento. 






Continuando a dar vazão aos seus ciúmes, Hera enviou então um gigantesco moscardo para enlouquecer Io-novilha com as suas dolorosas e ininterruptas ferroadas. Desesperada, ela fugiu, atravessando a nado um estreito que separa a Europa da Ásia. Por essa razão, tal acidente geográfico passou a ser chamado, desde então, de estreito de Bósforo, literalmente, do grego, a passagem da
ISIS
vaca). Depois de vagar por toda a Ásia, Io-novilha chegou finalmente ao Egito, onde, depois de tanto sofrimento, retomou a sua belíssima forma humana, que permaneceu intacta. Lá, deu à luz um filho, de nome Épafo, que se unirá, mais tarde, a Mênfis, filha do deus-rio Nilo. Dessa união nascerão Líbia, Lisianassa e Tebe. Io será adorada no Egito como a deusa Ísis, tendo por emblema a Lua crescente.

A história que está acima, ao atribuir a ísis, Grande-Mãe egípcia, uma origem grega explica-se obviamente pelas tendências imperialistas que os gregos sempre demonstraram com relação à sua civilização, tanto sob o ponto de vista econômico como religioso. Fatores como a pobreza do solo, dificuldades na obtenção de alimentos e domínio total das terras pelos aristocratas, fez com que os gregos, desde períodos muitos remotos, se aventurassem num grande movimento migratório, patrocinado por uma política imperialista,  na direção  do mar Negro e do Mediterrâneo. Ao buscar terras cultiváveis, fundaram cidades, colônias, sendo um item importante dessa política o religioso. Em muitos casos, a colônia grega (apoikia), lembres-se, era um estabelecimento autônomo somente unido à metrópole laços religiosos. Embora o Egito só tivesse se tornado de fato uma colônia grega com a sua anexação (e de outros países como a Pérsia e parte da Índia) ao império greco-macedônico no século IV aC,  as civilizações grega e

egípcia, esta muito mais antiga que a outra, sempre haviam mantido contactos. O texto homérico, A Odisseia (sécs. IX-VIII aC), é um exemplo do que aqui se expõe. Esta "interferência" grega na mitologia de outros países, neste caso do mito de Io-novilha, se completa com a transformação de seu filho Épafo, pelo seu casamento com Mênfis, como está acima, num ancestral do povo líbio, país vizinho do Egito.    


Segundo algumas versões gregas, Zeus colocará nos céus, como a constelação de Touro, a forma taurina que tomou quando de sua ligação com Io. Ísis, como sabemos, será adorada como deusa suprema e universal, mãe da natureza e de todos os elementos, espalhando-se o seu culto, a partir do Egito, por todo o mundo do Mediterrâneo e da Ásia Menor.

Os gregos associavam também o signo de Touro ao deus Dioniso, na medida em que este animal (o bode também) representava as forças incontidas da fecundidade. Por isso, ambos os animais eram as vítimas propiciatórias que apareciam no seu culto. Deus da vegetação, da vinha, da exuberância da vida animal, Dioniso era, por excelência, o renovador da vida, o deus das metamorfoses. 

Por ter retirado sua mãe do Hades, Dioniso era considerado uma divindade libertadora do mundo infernal, um deus ctônico, portanto, que simbolizava a alternância da vida e da morte (ressurreição). O culto de Dioniso,  significa, no fundo, uma das mais profundas e significativas tentativas do homem grego e exemplarmente para a humanidade em geral, no sentido de destruir as prisões materiais e psicológicas nas quais ele (ela) mesmo se encerra. Neste
MISTÉRIOS  DE  ELÊUSIS
sentido é que o culto de Dioniso (Mistérios de Elêusis) significa, para homem, um esforço de espiritualização pela liberação das energias que deverão se alinhar com seu eu superior e não mais se colocarem a serviço  exclusivo de sua vida material. Por isso, em seu culto, um dos animais do sacrifício era o touro, como símbolo da vida material. 

Lembremos que o signo de Touro tem relação com tudo o que é massa, peso, espessura, estabilidade, força, resistência, calma,
DIONISO
reações fortes, tempestades instintivas. “Sacrificar o touro” significa buscar uma vida mais espiritual no sentido de ser obtido o triunfo sobre as paixões materiais, sobre a sensualidade incontida. O culto de Dioniso propõe, assim, um empenho no sentido de uma conquista da besta interior (vida instintiva) que há em todo ser humano. Astrologicamente, por isso, o signo está ligado à plenitude da sensorialidade terrestre alimentada por uma grande capacidade de trabalho, por um espírito prático e realista e por uma vontade de possuir e de acumular que costuma ser superlativa. 

Dioniso se afirma como um deus infernal ao prometer o renascimento. As suas festas, como as de Osíris no Egito e as de Shiva na Índia, são muito semelhantes. O mito de Orfeu nos fala
DIONISO
desta semelhança ao se referir à viagem que ele teria feito à terra das pirâmides para de lá trazer ritos que falam da dissolução da personalidade, da sua regressão a formas caóticas e primordiais. A liberação dionisíaca pode ser evolutiva ou involutiva, espiritualizante ou materializante. Outra não é a ideia que nos traz a bebida “inventada” pelo deus, o vinho, a bebida da imortalidade, que pode levar ao inferno também.



PERSÉFONE   E   ZAGREU

A melhor compreensão da multifacetada personalidade de Dioniso e consequentemente do signo de Touro só ficará mais completa se atentarmos para o que o mito nos revela sobre o seu nascimento. Dioniso nasceu como Zagreu (o Grande Caçador, etimologicamente), filho de Zeus e de Perséfone, nome pelo qual era muito reverenciado em Creta, muito difundido o seu culto. A intenção de Zeus era a de preparar este filho para sucedê-lo como divindade universal. As Moiras, porém, ao que parece pela primeira e única vez, contrariaram os desígnios do Senhor do Universo, apesar das providências que ele tomou para protegê-lo da sanha persecutória da sua imperial esposa, a deusa Hera. Embora protegido por Apolo e pelos Curetes, o menino-deus foi localizado pelos Titãs nas florestas do Parnaso, raptado e despedaçado. Antes que se consumasse o diasparagmos pelos Titãs, Zagreu, para tentar escapar dos seus algozes, tomou várias formas. A última foi a de touro, uma das formas que desde então o representará. 


INFÂNCIA   DE   DIONISO

O mito prossegue: os pedaços de Zagreu foram cozinhados num enorme caldeirão e depois devorados pelos Titãs. Zeus fulminará os assassinos de seu filho, transformando-os em pó. Desta poeira, ou melhor, destas cinzas misturadas à terra, nascerão os humanos (os nascidos do húmus). É por esta razão que os seres humanos terão uma parte humana, a maior, o seu lado material, o do Mal, e uma pequena parcela divina, o seu lado do Bem (os restos de Zagreu). Diz o mito que antes de todos os pedaços de Zagreu-Touro terem ido para o caldeirão a deusa Palas Atena conseguiu recuperar o seu coração, levando-o para Zeus. É desse coração que nascerá o segundo Zagreu, com o nome de Dioniso, aquele “que nasceu duas vezes”, também chamado de Ditirambo, “o que passou duas vezes pela porta.”

Esta forma taurina de Dioniso faz parte, desde então, de manifestações que encontramos em mitos, religiões e no folclore, em várias tradições. No Brasil, por exemplo, do sul ao norte, as histórias sobre o boi, principalmente no norte e no nordeste,
BUMBA - MEU - BOI

estão inseridas no seu contexto cultural como tema fundamental de folguedos, canções, literatura de cordel e tantas outras celebrações com diferentes nomes: Boi-Bumbá, Bumba-meu-Boi, Boi-de-Reis, Reisado, Boi-de-Mamão, Boi-Calemba, Surubim e muitas outras. Vários ritos, festas e cerimônias de caráter popular que encontramos ainda hoje em muitas culturas, lembremos, não são mais que reminiscências do touro como animal totêmico e de suas relações com os cultos dionisíacos. Cito, por exemplo, a Farra do Boi que veio do mundo mediterrâneo para o Brasil através dos imigrantes ibéricos, “diversão” ou “comemoração”, que repete o assassinato de Zagreu. 

TOURADA
Dentre todas reminiscências a que nos referimos avulta sobre todas a da tourada, o El Toreo dos espanhóis. Em nome de uma verborragia “heroico-estética” e do culto da virilidade, temos, na realidade, com as touradas, em que pese o seu “charme”, nada mais que carnificina, crueldade e hipocrisia. O toureiro, transformado em herói, figura na qual o público se projeta, mata a besta exterior para que sua besta interior (as paixões escravizadoras de cada um) permaneça intacta. O mal é então levado pelo touro sacrificado; seu sangue é interpretado como uma purificação. Esta tradição, a da vítima sacrificial, nós a encontramos em todas as tradições (no Levítico, por exemplo). Ela tipifica uma tendência universal, inerente à condição humana, a do homem projetar a sua própria culpa sobre outrem a fim de apaziguar a sua consciência, que sempre tem necessidade de um responsável, de uma punição, de uma vítima.  

No simbolismo chinês, o signo de Touro tem relação com o hexagrama Kuen, o receptivo, terra sobre terra, composto por seis traços descontínuos, femininos (os traços masculinos são contínuos). A imagem deste hexagrama lembra a terra voltada para o céu, a mãe e o pai em relação, o tempo se abrindo para o espaço. O simbolismo aqui envolvido sugere também que a força (masculino) deve reconhecer a superioridade da nutrição (feminino), pois ela, a força, sem a nutrição não é nada. Assim, ambos se encontram indissoluvelmente ligados. Depreende-se desta ligação a importância que tem a nutrição (Touro) para que a força seja conquistada e mantida. Este entendimento está expresso, por exemplo, nos Vedas (livros sagrados dos hindus), em hinos, neles se falando que o Touro deve enlaçar o Fogo (Áries, Mesha) para que seja possível a construção humana, que deverá manter uma analogia perfeita com a construção divina do Cosmos. 

Entre os judeus, Touro é Iyar, formado pela letra Vav. O órgão humano que no simbolismo cósmico corresponde a este signo é o rim direito, que, segundo o Talmud, é a fonte de bons pensamentos.
TORÁ
A tribo com ele relacionada é a de Issakar, a que se dedica ao estudo da Torá. Issakar, no Gênesis, é chamado de “asno forte, bom para o trabalho penoso.” Noutra passagem (Reis, cap. I), o mês do signo é chamado de Ziv, brilhante, devido ao aumento do poder solar, que nele se torna mais intenso, ou seja, no mês de maio, o auge da primavera. A mesma ideia de luz, de brilho, é encontrada na designação Ohr, usada pelos babilônicos.   

A tribo de Issakar, que trabalhava arduamente com a Torá, era a detentora do conhecimento que conciliava os calendários solar e lunar e que estabelecia o início de cada mês lunar. Lembremos que o calendário judaico é lunar e o ano, por isso, pode conter doze ou treze meses lunares, começando cada um deles com a Lua nova. Segundo a tradição judaica, quando da criação do mundo, os luminares eram iguais em luz, mas como não poderia haver essa igualdade, a luz da Lua foi diminuída. A Lua simboliza o povo de Israel, cuja sorte oscila como ela. A luz da Lua voltará a se igualar à do Sol no final dos tempos, quando da vinda do Messias. Por isso, eclipses lunares são aziagos para os judeus, pois quando a Lua míngua as forças do mal crescem. Dormir à lua da Lua é sempre perigoso por causa da ação de forças demoníacas femininas, diz a tradição judaica.



JUDEUS  APANHAM  MANÁ  NO  DESERTO  ( ÉVORA )

O signo de Iyar está relacionado, num primeiro momento, com o temor. A palavra temor em hebraico tem as mesmas letras do signo. O temor de Deus deve nascer logo neste signo porque ele é um pré-requisito para o recebimento da Torá, como nela se estabelece: O temor dos céus é o começo da sabedoria. Astrólogos judeus dizem também que o mês do signo é auspicioso para curas já que a
MOISÉS ( P. CHAMPAIGNE )
primeira causa das doenças está no consumo de alimentos impróprios e depois numa digestão e assimilação deficientes. Foi durante este mês, no seu décimo quinto dia, numa Lua cheia, que os judeus, vagando pelo deserto com Moisés, começaram a comer o maná, o “pão dos céus”, chamado de o “alimento dos anjos”. O maná é uma espécie de orvalho que alimentou os judeus durante o êxodo. O maná foi produzido ao crepúsculo do sexto dia da Criação e é o alimento dos justos e dos anjos do céu. Era totalmente assimilado pelo corpo, não deixando resíduos que tivessem que passar pelo sistema digestivo, tendo o sabor que as pessoas quisessem. 

A astrologia judaica nos diz que o elemento de Iyar é a terra, significando isto que o elemento do signo anterior, fogo, entendido espiritualmente, deve no signo que lhe segue procurar um foco, uma objetivação, algo tangível. Negativamente, as energias de Iyar se manifestam na esfera do desejo, quando os judeus, no deserto, reclamaram a Moisés a falta de carne para comer. Foi durante este mês que os judeus, no deserto (Sinai), manifestaram também fortes desejos de conforto e relaxamento. Lembram os judeus que o elemento terra é, energeticamente, o de menor vibração. Este comportamento, manifestado no Sinai, dizem os astrólogos, tem relação direta com a natureza teimosa e rebelde do touro. 

Em oposição aos signos de Nissan e de Iyar estão os de Tishrei (Libra) e Heshvan (Escorpião), que caracterizam as tribos de outros dois irmãos, Manassé e Efraim. A tribo de Heshvan tem relação com o olfato, entendido, simbolicamente, como discernimento intuitivo. O episódio que deu origem à interpretação do olfato desta maneira está no episódio bíblico que tem como personagens José, o pai dos dois mencionados irmãos, e da mulher de Putifar. 



JOSÉ  E  A  MULHER  DE  PUTIFAR ( J.B. NATTIER )

José é filho do patriarca Jacó e de sua esposa preferida, Raquel. É o modelo do homem justo e probo (tsadik), que é protegido do mal por Deus e cujos descendentes não são afetados pelo mau-olhado. Dez de seus irmãos tramaram matá-lo, jogando-o num poço cheio de serpentes e de escorpiões. Conseguiu escapar e acabou sendo vendido como escravo a Putifar, oficial egípcio. Lá, conseguiu resistir bravamente ao assédio da mulher de Putifar, Zuleika, porque o pai lhe apareceu em sonhos e salvou-o da tentação. Desde então, todos os membros da tribo de Hashvan adquiriram esse discernimento que pode ser usado não só em questões de sexo mas em todas as outras da vida material. Esse discernimento se traduz pela pureza das intenções, de pensamentos e sobretudo pelo temor divino. Na Bíblia, em muitas passagens, o sentido do olfato aparece sempre associado à santidade, à pureza e ao discernimento. O nariz, como o olho, é um símbolo de clarividência e da perspicácia, mais intuitivamente que racionalmente. 

Entre os judeus, José é o sexto dos seus sete pastores (Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Aaron, José e David). Estes sete pastores correspondem aos sete atributos: graça, poder, beleza, vitória, glória, fundação e realeza. O nome de José está ligado entre os judeus a ideias de fecundidade e beleza. Etimologicamente, José (Joseph), significa juntar (yasoph) e reunir e apagar (asoph). Raquel, a mãe de José, diz Deus apagou a minha vergonha, ao dar à luz, depois de estéril por muito tempo. O “ph”, ao final de José, indica um vivo movimento de libertação (oph quer dizer voar) e soph traduz uma ideia de limite, de fim de uma realização. 



JOSÉ  INTERPRETA  SONHO  DE  FARAÓ ( A. VAN  BLOCKLANDT ) 

José, por seus méritos de oniromante, demonstrados na prisão, foi chamado à presença do faraó. Interpretou para ele um sonho que ele tivera e que ninguém explicava: ele sonhara com sete vacas gordas, com sete vacas magras, com sete espigas de trigo cheias e com sete espigas de trigo secas, queimadas pelo vento. José explicou ao faraó as suas visões: sete anos de grande abundância viriam para o Egito; a eles seguir-se-iam sete anos de fome. José propôs ao faraó a administração do problema do seguinte modo: conservar os níveis dos silos reais de modo que quando chegasse o tempo das “vacas magras” ou das “espigas secas”, eles estivessem cheios para que o povo não passasse fome. 

Satisfeito com a resposta, o faraó nomeou José como vizir, dando-lhe o nome de Safenath-Peneah (Deus disse:ele viverá). Aos 30 anos, recebeu como esposa Asenath, que lhe deu dois filhos, Menassé (Aquele que esquece) e Efraim (O fecundo). Durante os sete anos de abundância ele poupou o trigo de tal modo (sem que o povo passasse fome) que, no período das “vacas magras” o Egito era o único país do mundo de então a não ter problemas com a escassez de alimentos. Muita gente, por isso, se dirigiu ao Egito em busca do trigo. José então abriu entrepostos para a venda do trigo excedente, ganhando o país muito dinheiro. Iniciadas as vendas, dentre os primeiros a buscar o alimento, estavam os seus irmãos (que o haviam aprisionado no poço e depois vendido como escravo), vindos do país de Canaã. José não revelou quem era e os irmãos pagaram com muito sacrifício pelo alimento. Retornando, os irmãos encontraram o dinheiro que haviam gasto, devolvido secretamente por José. 

Numa segunda visita ao Egito, os irmãos de José foram denunciados por um roubo que não haviam cometido. José mandou chamá-los e revelando-se lhes pediu que fossem buscar Jacó, o pai
JACÓ  LUTA  COM  ANJO
( REMBRANDT )
de todos, e com ele viessem a se instalar no Egito, em Goshen, a leste do vale do Nilo (Gênese, 45, 1). Jacó, ao receber a notícia, gritou: Meu filho José ainda vive; quero partir e vê-lo antes de morrer. Antes de morrer, Jacó perfilhou seus netos, os filhos de José (Menassé e Efraim), e os abençoou. José morreu com 110 anos, depois de ter obtido dos irmãos, ao morrer, a promessa de que seus ossos seriam levados com eles para onde fossem. Tal aconteceu efetivamente, encarregando-se Moisés de fazê-lo. A conclusão da história de José, segundo a Bíblia é a de que Deus, algumas vezes, transforma as piores ações em boas ações (Gênese, 45. 5-8).


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

CANIS MAJOR , CANIS MINOR





CANIS  MAJOR fica perto de Orion, a sudeste, tendo merecido, como acontece  com outras constelações, várias leituras, conforme a tradição que para ela se voltou. Para dela retirar todas as
ARGOS   RECONHECE   ULISSES
(THEODOR VAN THULDEN , 1606 - 1669)
possibilidades significativas, lembremos inicialmente que o cão foi um dos primeiros  animais a ser domesticado pelo homem. Desde então, passou a simbolizar a fidelidade, a confiança e a vigilância. A propósito, lembremos do cão Argos, de Ulisses, o único ser a reconhecê-lo, sob o disfarce de um mendigo,  quando de seu retorno a Ítaca.

ANÚBIS
Há que se destacar também o cão na sua função de animal psicopompo. Esta função foi, miticamente, a primeira a ele atribuída, como guia das almas na noite escura da morte. O deus Anúbis, entre os egípcios, se encarnava como cão selvagem (chacal). Nesta forma, ele protegia, nos desertos, os túmulos, evitando violações e roubo. Os gregos o associaram a Hermes, sendo ele venerado em Cynopolis, a cidade dos cães. Elevado ao status de divindade entre os egípcios, o cão era honrado em todas as casas, gozando de quase tanto prestígio quanto o gato, este uma
CÃES   MUMIFICADOS
( MUSEU  DO  LOUVRE )
manifestação de Rá, a grande divindade. O cão selvagem, o chacal, entre os egípcios aparecia também associado a Upuaut, patrono das portas, principalmente dos portões do mundo subterrâneo. Animal noturno, o chacal vivia nas margens dos desertos, fazendo, na sua forma divina, a passagem das almas para o mundo dos mortos. Domesticado no Egito desde tempos pré-faraônicos, quando o cão da casa morria os egípcios costumavam se depilar e jejuavam em sinal de luto. Em Tebas e Abydos foram encontrados cemitérios só para cães mumificados.    

Muito comum em várias culturas, como nas do antigo México, o sacrifício de cães aos mortos era feito para que eles conduzissem a alma do morto pelos caminhos certos quando da sua viagem para o Outro
ZODÍACO   MEXICANO
Mundo. É por essa razão, aliás, que a constelação do Cão Maior aparece como a décima terceira e última constelação do Zodíaco mexicano, lembrando morte, fim, mundo subterrâneo e também renascimento. Outra qualidade do cão, responsável pela sua valorização simbólica, é a de que ele é um animal capaz de pressentir perigos invisíveis. Esta qualidade vai além do faro, que é a capacidade que tem um animal, especialmente o cão, de conhecer qualquer coisa pelo olfato. 


CÉRBERO   ( VASO  GREGO )
Apesar de todas as suas qualidades positivas, o cão é visto também negativamente, às vezes pela mesma cultura. É o que acontece com os gregos antigos que tanto conheciam o cão como um animal bajulador e desavergonhado como viam nele o maior exemplo de devotamento ao seu dono e guardião da casa (phylax) e dos rebanhos. Os gregos têm em sua Mitologia o  monstruoso cão tricéfalo Cérbero, que não só guarda a entrada do Hades como simboliza  o inferno interior de cada ser humano no qual ele vive aprisionado. Na mitologia dos povos escandinavos e
GARM  ( J. GEHRTS , 1889 )
germânicos, por exemplo, temos o cão infernal. Garm, também monstruoso, ctônico, que no fim dos tempos (Ragnarok) atacará os deuses, enfrentando o deus Tyr, numa luta em que ambos morrerão. Garm guardava a entrada do Niflheim, país dor mortos, de geleiras eternas. Entre esses povos, Hela ou Hel era deusa da morte. Filha de Loki e irmã de Midgard, a Serpente, e de Fenris, o monstruoso cão, ela era invisível aos humanos. Só os cães podiam percebê-la, uivando desesperadamente quando a viam.

Os uivos e latidos dos cães sempre foram considerados por muitos povos da antiguidade, babilônicos, gregos, romanos e  gauleses, por exemplo, como lúgubres, ameaçadores, pois sinalizavam a passagem deste para o Outro Mundo.   


HÉCATE
Ainda na Grécia, não podemos esquecer a deusa lunar Hécate, que nas noites de Lua nova, saindo do Hades, subia à superfície da Terra, sempre acompanhada de cães negros e de outros animais. Cães negros, aliás, sempre representaram o lado negativo do animal, acompanhando  figuras   demoníacas, como feiticeiros e magos.


Os gregos viram nas constelações do Cão Maior, também chamada
MORTE   DE   ACTEON
de Canis Australior, e do Cão Menor, os animais de caça que acompanhavam o gigante caçador Orion, uma das constelações austrais, a ser estudada mais adiante. Em períodos mais recuados da tradição grega, esta constelação, entretanto, teve vários outros nomes. Uns a viram como uma ilustração da história Acteon, o desditado caçador que surpreendeu a deusa Ártemis quando se banhava desnuda num lago. A deusa transformou o caçador num veado, imediatamente morto a dentadas pelos seus próprios cães, açulados pela deusa. 

A constelação do Cão Maior, entre os gregos, também aparecia ligada ao centauro Kiron, mestre de heróis. Dentre as cinco artes que ensinava aos que o procuravam na sua caverna do monte Pelion, uma delas tinha relação com o cão. Era a cinegética, a arte de caçar com cães. Evidentemente, esta arte aqui mencionada não pode ser entendida pelo seu sentido literal, o de se abater simplesmente animais. O herói (nós, o homem comum) deve entender que a morte do animal deve significar aqui a destruição da sua ignorância, de suas inclinações negativas, de suas tendências de se aproximar de coisas nefastas e deletérias. Caçar, sim, então,
SMARTPHONE
oportunidades de crescimento, de desenvolvimento mental e espiritual, uma espécie de ascese, enfim. Isto será particularmente válido quando pensamos no homem moderno "caçando", com os seu aparelhos eletrônicos (smartphones) as "maravilhas" que a comunicação de massas lhe oferece. O cão entra nesta arte como um indicador de trilhas. Será então, neste papel, um símbolo da nossa animalidade conciliada que nos ajuda a ultrapassar o território liminar que separa a nossa vida consciente da nossa vida inconsciente, um primeiro estágio de nossa evolução.    

Outros  viram na constelação uma lembrança da história de Prócris. Filha de Erecteu, rei de Atenas, casada, traiu o marido. Temendo a vingança do esposo, fugiu para a ilha de Creta. Recebida por Minos, rei da ilha, logo foi assediada por ele. Tudo em vão, porém, porque pesava sobre Minos uma maldição lançada por sua mulher, a rainha Pasífae, que tinha poderes mágicos (era filha do deus
CIRCE
Hélio, irmã da maga Circe e tia de Medeia). Qualquer mulher, excetuando-se ela, Pasífae, que com ele viesse a ter relações sexuais morreria picada por serpentes que escapariam pelos seus poros. Prócris, contudo, impediu que isto acontecesse com Minos, pois Circe lhe dera uma erva que anulava qualquer encantamento. Minos, como recompensa, deu-lhe de presente um dardo que jamais errava o alvo e um cão, do qual nenhuma caça podia escapar, se por ele perseguida. 

Uma terceira variante, ligada à precedente, nos faz saber que Zeus presenteara a belíssima Prócris com um cão que tinha o dom de localizar e de agarrar qualquer caça. Este cão Prócris o deu de presente a Céfado, com quem se casou, depois que a deusa Eos, a Aurora, antes por ele apaixonada, o abandonou.

ARATUS
Por volta de 270 dC, Aratus, poeta e astrônomo grego, afastou as versões acima mencionadas, definindo, a partir de então para Astrologia ocidental, no que foi acatado pelas tradições mais consequentes, que o cão que “aparecia” na constelação que estava próxima de Orion era o animal que acompanhava o gigante nas suas caçadas. Os latinos adotaram a nomenclatura grega, passando a chamar o

Cão Maior de Canícula, ao que me parece erroneamente, já que a palavra em latim é diminutivo de canis, cão (o nome seria mais apropriado ao Cão Menor). Uma hipótese linguística seria a de se associar a constelação ao verbo latino candeo, ser de uma brancura brilhante, que aparece seguida de muito calor, algo abrasador; é deste verbo que sai candente, ardente. 

Alguns astrólogos latinos associaram esta constelação ao cão infernal Cérbero, chamando-a de Janitor Lethaeus (O Porteiro do Lethe), ou seja, o guardador do mundo do esquecimento, do sul, a região situada à esquerda do Sol. A palavra Lethe tanto significa aqui esquecimento, olvido, sono, como designa também um rio infernal, cujas águas tinham a propriedade de fazer esquecer o passado. 

CUCHULAINN
( E. MILLAR , 1905 )
O mundo celta via o cão positivamente, ligando-o ao mundo dos guerreiros. O maior herói dos celtas, Cuchulainn, um herói solar, que lembra Hércules e Aquiles, tinha seu nome derivado do animal. Os heróis eram comparados a cães, sempre uma homenagem ao seu valor guerreiro. A constelação do Cão Maior e a sua principal estrela associavam-se naturalmente à figura de Cuchulainn, herói que ninguém conseguia olhar diretamente, encarar. O calor que se desprendia de seu corpo derretia neve a uma distância de dez metros. Quando ele entrava na água, nela mergulhando seu corpo, ela borbulhava e emitia silvos.


SANTO   HUBERTO 
No mundo cristão, é de se lembrar que o cão aparece ligado a alguns santos, Huberto, Eustácio ou Eustáquio, Roque, Domingos e outros. Huberto (séc. VIII) é considerado o padroeiro dos caçadores e peleteiros. Eustácio, militar romano, depois canonizado, foi conduzido por seus cães de caça até um enorme veado (Cristo), que lhe perguntou a razão de tanta perseguição, decorrendo desse episódio a sua conversão. São
SÃO   DOMINGOS
Domingos tem como emblema um cão procurando o fogo (um cão com um archote na boca). É o fundador da ordem dos dominicanos (os cães do Senhor). Astrólogos cristãos medievais, contudo. associaram a constelação do Cão Maior ao animal que ficava junto de São Pedro (janitor, porteiro) guardando as portas de entrada do céu. Há aqui, também, uma evidente ligação com o signo de Sagitário, representado pelo apóstolo Pedro, o signo que abre as portas para a subida da montanha (Capricórnio).

Na Bíblia, o cão aparece também, em algumas passagens, negativamente, como símbolo da fraqueza e do servilismo. A história do dr. Fausto é um bom exemplo da demonização do cão a partir da visão bíblica.
FAUSTO   E   MEFISTÓFELES
O cão que o dr. Fausto encontra na rua e traz para casa era o próprio Diabo disfarçado, que depois toma a forma de Mefistófeles. No Islã, a não ser o animal usado nas caçadas, o cão é, no geral, objeto de repulsão, sendo sinônimo de impureza, de sujeira. É por esta razão que a cinofagia sempre foi proibida entre os muçulmanos. Embora as qualidades positivas do animal possam ser celebradas popularmente, através de ditados, provérbios e aforismos, prevalece sempre entre os povos do Islã uma visão negativa do animal.

A visão acima mencionada parece ter chegado ao Brasil, no período colonial, através  de negros islamizados que para cá vieram como escravos. Entre nós, o cão de um modo geral é tido como um animal demoníaco, confundindo-se ele muitas vezes com o próprio Diabo quando este é chamado pelo nome de Cão Tinhoso, Cão Sarnento. Estar com o cão no corpo é estar endiabrado, endemoninhado. Cachorrada, por extensão, é sinônimo de comportamento vil, indigno, indecente.

Sob o ponto de vista psicológico, lembre-se que o cão pode ser associado também ao processo de individuação do ser humano na medida em que o relacionamos simbolicamente com a vida instintiva na sua expressão mais negativa, a do perigoso aspecto de um animus inconsciente. Nesta visão, ele pode ser considerado como uma representação do primeiro estágio do desenvolvimento do psiquismo humano. 

A constelação do Cão Maior estende-se de 0º de Câncer a 0º de Leão, fazendo portanto a ligação entre a quarta e a quinta casas astrológicas. Ptolomeu entende que todas as estrelas desta constelação, com exceção de Sírius, têm a natureza de Vênus, proporcionando afabilidade na convivência, mas trazendo também o risco de paixões extremadas, além nictofobia e perigo por cães.
ARCANO   XVIII
Uma aproximação bastante frutífera poderá ser feita entre esta constelação e o arcano XVIIII do Tarot, a Lua, na medida em que nele temos simbolicamente ilustrada a passagem da vida inconsciente à vida consciente, com a consequente conquista de um eu que poderá nos dar acesso às torres douradas. Em outros termos: ultrapassada a quarta casa, a da Lua, fica aberto o caminho, a partir de Leão, para a ascensão até Capricórnio. Deixando para trás os atavismos, os condicionamentos, os hábitos, representados na figura pela água e pelo lagostim, surge à frente a experiência da travessia (a saída da quarta casa). Há que cruzar o limite  entre os dois mundos, guardado pelos cães que ladram, estes sem dúvida advertindo os “donos” da casa quanto à ousadia do “herói”, por sinal ausente da figura. Com exceção das oito patas do lagostim e naturalmente da Lua, tudo é duplo na imagem, tudo é gêmeo, A saída desta área pede que ao número que a representa, o quatro, se acrescente o número um, perfazendo-se o cinco, o número de um eu a ser criado, não herdado. Não há lugar nesta passagem para a dualidade, pois, do contrário, nunca será possível se passar do quatro ao cinco, sair da indeterminação para a conquista de um eu autônomo.


CANIS   MAJOR
A mais importante estrela de Canis Major é Sírius, alfa, a mais brilhante do céu, hoje a 13º 24´de Câncer. As demais são, em ordem de magnitude, Murzim, Wezen e Aludra. Para Ptolomeu, Sirius (do grego Sereios, latinizado) tem a natureza de Júpiter e um pouco de Marte. Sepedet para os egípcios, os gregos a chamavam de Sothis, A Brilhante, associando-se seu brilho máximo, no solstício de verão, às enchentes do rio Nilo e, portanto, ao renascimento do deus Osíris, que trazia de novo a fertilidade, vencendo seu irmão Seth, que simbolizava a esterilidade e a seca do deserto. Ísis-Sothis era um outro nome pelo qual então se designava a estrela. A importância de Sothis era tamanha entre os egípcios que eles a tomavam para fundamentar seu calendário (início do ano).

Sirius sempre teve seus efeitos, em várias tradições, ligados à causa da raiva animal, à loucura de cães, e à morte (Seth) e à ressurreição (Osiris), de um modo geral. Hesíodo assim advertia os seus vizinhos com relação às influência da estrela: Quando Sírius
HIPÓCRATES
resseca as cabeças e curva os joelhos, e o corpo está seco por causa do calor, vocês devem sentar numa sombra  e beber. Hipócrates, o pai da Medicina, no seu texto sobre as epidemias e nos seus aforismos, discorreu sobre o poder de Sírius, informando-nos sobre o tempo e os efeitos físicos que produzia, afetando a saúde dos humanos. Os romanos chamavam de dies canicularae o período que se estendia de 3 de julho e 11 de agosto, quando Sírius se mostrava, para eles talvez o período do ano menos saudável.  

Uma das histórias mais interessantes sobre Sírius é a que liga a estrela ao deus Pan. No mito grego, a par de outras versões sobre sua origem, Pan, filho do deus Hermes e de Dríope, foi muito usado por mitógrafos e por filósofos para simbolizar a própria encarnação do universo como um todo. Turbulento e jovial, teriomorfo (bode), era o deus dos pastores e dos rebanhos. Dotado de agilidade prodigiosa, percorria vales, bosques e grutas perseguindo ninfas para satisfazer a sua inesgotável energia sexual. Os imortais do
PAN  ( LOUISE  D'AUSSY , 1944 )
Olimpo se identificavam com ele enquanto representava, acima de tudo, a energia presente em todo o universo, a energia fecundante do Todo. Seus aparecimentos súbitos provocavam o pânico, um terror que se apossava de tudo, da natureza, dos animais, dos seres humanos, perturbando o espírito e enlouquecendo os sentidos. Pan acabou por personificar a parte do Todo que há em cada ser. Filósofos neoplatônicos e cristãos farão dele a síntese do paganismo.

PLUTARCO
Plutarco (46-120), o grande historiador grego, narra que ao tempo do reinado de Tibério um piloto que conduzia um barco, perto da ilha de Naxos, ouviu uma voz misteriosa que, vinda do mar, anunciava soturnamente, mas de modo perfeitamente audível: O Grande Pan está morto e que essa mesma voz lhe pedira que, ao chegar ao Épiro, transmitisse a todos a mensagem que ouvira. A história prossegue, dizendo-nos que quando os marinheiros tinham acabado de transmiti-la um grande lamento se elevou, vindo dos animais, da vegetação, das pedras, de toda a natureza. 

Muitos historiadores que se voltaram para este episódio interpretaram a frase como um lamento que anunciava o fim dos antigos deuses greco-latinos, o fim das velhas instituições, o alvorecer de uma nova era, que traria o silêncio dos oráculos e o fim das grandes divindades. Outros, porém, apresentaram uma outra leitura desta história. O anúncio O grande Pan está morto teria sido a versão grega de uma história muito mais antiga, egípcia, a morte dos deuses e das instituições do país do Nilo, versão esta que tinha como personagem Ísis-Sothis. 

O poder de Isis se estendia a todo o universo. Cada ser humano tinha o gota do sangue da deusa. Tanto no oriente médio como na Grécia ou em Roma e em toda a bacia do Mediterrâneo, Isis foi adorada como deusa suprema e universal. Era a deusa de toda a natureza, mãe de todos os elementos, suprema, rainha dos manes, primeira dentre as divindades celestes. Em todos os círculos
CRUZ   ANSADA
esotéricos, ela era considerada como a Iniciadora, aquela que tinha o segredo da vida, da morte e da ressurreição. A cruz ansada (ankh) ou o nó de Ísis são os símbolos de seu poder infinito. Em todas as religiões de mistério da antiguidade, ela, mais do que qualquer outra deusa, representava o princípio feminino, fonte de toda a fecundidade e transformação. Para os povos semitas, lamento semelhante estava presente nos cultos de Tammuz (Adônis dos gregos), divindade que simbolizava o grão.




SEPEDET  ( SIRIUS OU SOTHIS )  ADORADA   NO   VALE   DO   NILO

Os egípcios tinham um calendário, desde mais ou menos 5.000 aC., baseado na elevação heliacal de Sirius no solstício de verão. Este calendário foi abandonado pelos sacerdotes egípcios em 23 aC, depois de milhares de anos, adotando-se o calendário alexandrino, em virtude de ter Sothis se submetido a efeitos precessionais (precessão: a lenta mudança de direção do eixo da Terra devido à ação gravitacional da Lua no bojo do equador terrestre). A lenta mudança do eixo causa o movimento em direção do oeste dos equinócios, entre as constelações). Sírius não se levantou com o Sol naquela data. O acontecimento teve enorme repercussão religiosa. Tendo sido Sírius afetada, a deusa (Ísis) também o foi. 

PTOLOMEU , 1559
Segundo Ptolomeu, Sirius tem a natureza de Júpiter e de Marte, proporcionando renome, riqueza, realce e também  fortes paixões, podendo inclinar à curatela de alguém ou de algo e a atividades protetoras. No mais, perigo através de cães. As melhores influências de Sírius aparecem quando o individual dá lugar ao coletivo, ou seja, conquistas mundanas são colocadas a serviço de interesses maiores. O aspecto elevado que Sírius oferece pede o sacrifício do lado “mortal”. Quanto mais dermos passagem ao todo, ao coletivo, ao humanitário, ao espiritual, se quisermos,
TÉTIS   E   AQUILES
( PETER  PAUL  RUBENS )
com a atenuação do nosso lado racional, egoico, maiores os benefícios de Sirius. Algumas “metáforas” mitológicas são cabíveis aqui para uma melhor visualização do que está se colocando. Através delas temos como ideia central a de que o divino só aparece com o sacrifício da matéria. Uma delas está na passagem em que Tétis, a mais bela das nereidas, tentou imortalizar seu filho Aquiles, temperando-o no fogo (calcinatio) no sentido de destruir o seu lado mortal. Outra é a de Deméter quando tentou 
imortalizar Demofonte, filho do rei de Elêusis, esfregando-lhe no corpo ambrósia (e depois levando-o à calcinatio). Um terceiro exemplo está na história de Hércules, quando do seu suicídio apoteótico, que lhe abriu o caminho do Olimpo. A morte de Hércules teve como causa o fogo, através do qual ele se purificou por inteiro, despindo-se do se lado mortal, que lhe havia sido dado pelo lado materno (Alcmena).

TRIÂNGULO   DA   AFIRMAÇÃO
Astrologicamente, todas estas histórias, a partir da constelação do Cão Maior, que nos fala do nascimento de um eu (Câncer para Leão), prenunciam a trajetória evolutiva do fogo, através do chamado triângulo da afirmação, constituído pelos signos de Áries (Ascendente), Leão (casa V) e Sagitário (casa IX) e acenam também para o significado acidental da casa V (Leão), na medida em que apontam para o pessoal dando lugar ao coletivo, casa XI (Aquário). O tema astrológico de Gandhi é, sem dúvida, um bom exemplo para o estudo do Cão Maior e de sua principal estrela, Sírius.

A estrela beta do Cão Maior é Murzin, de 2ª magnitude, a 6º 29´ de Câncer, às vezes chamada de Mirzan. O nome vem do árabe, Al Murzim (a que anuncia), já que surgia antes de Sírius. Ptolomeu a considerou como jupiteriana. A estrela incorpora o simbolismo do cão enquanto ele chama a atenção, latindo muito. As influências desta estrela costumam se apresentar em mapas de pessoas cuja vida parece estar ligada a declarações, revelações, de natureza variada. Declarações ou revelações muitas vezes proteladas,
EDUARDO VIII  E
SRA. SIMPSON
retardadas, mas que acabam sendo produzidas, desmentindo o ditado de que o cão que ladra muito não morde. Há casos de pessoas com esta estrela evidenciada de algum modo que podem passar a vida “ladrando”, mas um dia acabam “mordendo”. Um exemplo histórico é o mapa de Eduardo VIII, da Inglaterra, que renunciou ao trono inglês (renuncio em consideração à mulher que amo) para se casar com uma divorciada, a americana Sra.Simpson, tornando-se depois o duque de Windsor. 







CANIS MINOR sempre foi chamada por Ptolomeu de Procyon, o segundo cão de Orion. Os latinos, como Cícero, davam-lhe o nome de Anticanis, ou, outros, de Praecanis, Procynis etc. Ou seja, a que vinha antes do Cão Maior. Aos poucos, as denominações se fixaram: Cão Menor para a constelação, apenas, e Procyon para a sua principal estrela. Foram os latinos (Lucanus, poeta, sobrinho de Sêneca) que lhe deram também o nome de Catulus ou Catelus, pequeno cão. Os gregos viram nesta constelação o cão Mera, cuja história foi apresentada no texto sobre Bootes. 

Os árabes deram a esta constelação o nome de Al Kalb al Asghar, o Pequeno Cão. É preciso, porém, entender que os árabes, com exceção do cão de caça, um galgo, por exemplo, fazem do animal um sinônimo de impureza. Um hadith (dito atribuído ao Profeta, recolhido por um isnad, testemunho auditivo) chega até a afirmar que os latidos de um cão afastam os anjos. Lembremos que o cão no folclore brasileiro é tido como sinônimo de algo demoníaco, luciferiano (Cão-Tinhoso é um dos nomes do Diabo), embora também o encontremos positivamente como símbolo da fidelidade e da dedicação devotada. O desprestígio moral do cão foi trazido ao Brasil durante o período colonial pelos negros islamizados. 

Os antigos chineses consideravam que a constelação do Cão Menor caracterizava o cão como um símbolo de tudo o que era passageiro,

efêmero ou fenomênico. Um ritual chinês muito famoso usava cães de palha com este sentido. No quinto poema do Tao-te-Ching, de Lao-Tse, obra máxima da antiga sabedoria da China, encontramos uma referência muito esclarecedora sobre esse ritual. Fala o grande mestre no poema que o universo não não tem predileções ou afetos por ninguém, por nada; que todas as coisas do mundo são para ele como cães de palha. Assim como o universo não tem predileções ou afetos, o santo também não os terá: o povo, para ele, não passa de um cão de palha. Lao-Tse fecha este pequeno poema afirmando que quanto mais falamos sobre o universo menos o apreendemos. O melhor, conclui, será nos inserirmos nele, ao contrário de ficarmos sobre ele discorrendo.  

O cão de palha é objeto ritual usado em cerimônias fúnebres para representar a precariedade da existência. Terminada a cerimônia, deve ser queimado, destruído, uma vez que deixou de ser útil; conservá-lo, seria torná-lo nefasto, correr o risco de, usando-o de novo, atrair espíritos que perturbariam o sono dos familiares do morto. O recado de Lao-Tse é óbvio: o cão de palha simboliza o caráter transitório das coisas do mundo, às quais o sábio deverá renunciar, delas se desapegando. Uma tradição chinesa dá o nome a esta constelação de Nan Ho, o Rio do Sul, associando-a a influências que proporcionam fortuna, fama, saúde, sempre com a ideia de que tudo isto pode, como acontece como um rio, “correr” muito depressa, passar logo. 




Procyon encontra-se atualmente a 25º06´ de Câncer; é de 1ª magnitude, alfa, e é uma das estrelas mais próximas da Terra, cerca de 11,2 anos-luz. Ptolomeu associa a influência de Procyon a Mercúrio, com uma leve contribuição de Marte. O significado astrológico de Procyon, em todas as tradições, incorpora ideias de rapidez, de algo que dura pouco, perecível, efêmero. Procyon sai na frente de Sírius, mas logo desaparece diante do esplendor desta última. O
MORIN   DE   VILLEFRANCHE
favorecimento de Procyon deve ser aproveitado logo, não se podendo esperar para colher o que ela oferece. Evidentemente, quanto ao mais, a estrela aponta para o perigo com relação a cães, o mesmo se diga também com relação a Sírius quanto a este particular. O mapa de Morin de Villefranche é um bom exemplo para se estudar a influência de Procyon. 

MARIA   DE   MÉDICIS
Sob a proteção da rainha Maria de Médicis, Morin assumiu em 1.629 o posto de professor de matemática do Colégio de França, deixando os serviços do duque de Luxemburgo. É neste período de sua vida que se aproxima mais do virginiano Cardeal de Richelieu (Armand-Jean Du Plessis), prelado e homem político que, como sabemos, foi a eminência parda do reino francês por longo período no século XVII. A parte mais ativa da vida de Morin transcorre praticamente dentro da primeira metade do século XVII, durante o reinado de Luiz XIII, que se estende de 1.610 a 1.643. Por trás de Luiz XIII encontramos a figura do cardeal que, com mão de ferro, promoveu uma depuração política e religiosa de modo a tornar o libriano rei muito poderoso. Quando Luiz XIII morreu,  em 1.643, o leonino Luiz XIV, o futuro rei-Sol, não tinha mais que cinco anos.

As relações entre Morin e o cardeal Richelieu nunca foram
RICHELIEU
esclarecidas devidamente. O que se sabe de concreto é que Morin alimentava com relação ao poderoso cardeal muito ressentimento. O fato foi causado pelo seguinte fato: os reis da Europa, inclusive o da França, haviam oferecido uma enorme soma em dinheiro para quem criasse um método confiável para cálculo das longitudes geográficas. No ano de 1.634, no dia 30 de março, Morin faz uma demonstração do que chamou de “Ciência das Longitudes” diante de uma grande plateia (cientistas, nobres, religiosos etc.), mais de 300 personagens importantes da Corte. Depois de seis horas de discussão, o trabalho foi aprovado. Poucos dias depois, porém, o Cardeal, sem uma justificativa pública plausível, substituiu retroativamente cinco dos comissários julgadores da apresentação de Morin e a decisão foi reconsiderada. O trabalho foi rejeitado. Morin não foi ouvido e nada lhe foi comunicado, por escrito ou verbalmente. 

Só depois da morte do Cardeal, ocorrida em 1.642, é que o assunto
LIVRE
voltou a ser considerado. Foi o próprio Morin, com base na oportunidade mais propícia para fazê-lo, analisada astrologicamente, obteve, em 1.645, do Real Conselho a reconsideração da decisão do Cardeal. Seu trabalho foi então aprovado e lhe foi concedido no ato um prêmio de 1,000 livres e uma pensão mensal de 2.000 livres. Uma belíssima soma, sem dúvida.

Morin tinha Procyon a mais ou menos 18º de Câncer, no Nadir, em conjunção com Netuno, dispositor e em trígono com os planetas que tinha na sua casa XII, Vênus, Sol, Júpiter, Saturno e Lua.