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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

SAGITÁRIO (3)

                  
SAGITÁRIO
VITRAL DA CATEDRAL DE CHARTRES
A flecha sagitariana, em muitas tradições astrológicas, cortada por um pequeno traço de modo a se introduzir no símbolo do signo uma cruz, nos remete a ideias de transcendência e de totalização com relação aos planos terrestres. A cruz, é bom lembrar, se liga, acima de tudo, ao simbolismo do quatro e, como tal, está na base dos quatro pontos cardeais, que determinam as nossas possibilidades de orientação espacial no planeta Terra. Quanto à dimensão temporal, seus braços, ao dividir o círculo em quatro partes, quadrantes, apontam para os eixos equinocial e solsticial, para um tempo circular, o do ciclo anual com os seus quatro sub-ciclos.    


FLECHA   DE   SAGITÁRIO
A cruz na flecha de Sagitário nos indica de modo indiscutível que a transcendência proposta pelo signo será sempre a da ultrapassagem do nível ou do limite existencial em que o homem se encontra. Não sugere este símbolo, ainda que seja Sagitário considerado com o signo das religiões, uma transcendência em “direção do céu”, de uma ordem extraterrena. O homem, na ordem zodiacal, que a perspectiva sagitariana confirma, é sempre um ser a se fazer e a se refazer aqui, na terra, entre os outros homens. Sagitário não propõe uma transcendência em direção de um absoluto que esteja fora do humano, mas de um absoluto sempre entendido com relação ao próprio homem. O homem será, então, sempre, aquele que tem a se fazer a si mesmo constantemente. É em Sagitário que o homem começa aprender a conquistar uma dimensão espiritual, a ir além de si mesmo e da sua vida social, a caminhar em direção da humanidade (de Aquário e de Peixes). Antes, porém, terá que vencer a prova da montanha com relação aos significados de Capricórnio.

ILUMINURA   MEDIEVAL  ,  SÉCULO  XI

O que está acima acredito será suficiente para se entender que o tempo da astrologia deve ser considerado ciclicamente, como o fizeram os antigos astrólogos gregos e   védicos e não linearmente, como o viram os astrólogos medievais. A noção de que  a astrologia e, consequentemente, Sagitário têm a ver com o tempo linear é produto do pensamento judaico-cristão e foi introduzida já no início da Idade Média com a vitória das religiões patriarcais. A
HORÓSCOPO  NA  TORRE  DOS  MOUROS , VENEZA
concepção linear do tempo o entende como uma sequência irrepetível e irreversível de eventos que vão se encaminhando para um determinado fim, em direção de uma divindade transcendente. Transcendente, neste sentido, refere-se a uma realidade que ultrapassa a nossa capacidade de compreensão ao apontar para um criador distinto da sua criação.  A concepção circular zodiacal nos indica claramente que no universo tudo está em permanente devenir e sujeito a um eterno retorno.   


CENTAURO   KIRON   ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 ) 

O fogo sagitariano não se liga tanto à ação (Áries) ou à individuação (Leão) mas, sim, estando já o mundo natural no seu declínio (outono, quase inverno), liga-se a uma ideia de que, com ele, o homem poderá ir além de si mesmo. Esta transcendência, pelo lado da flecha, sempre significará, nos tipos evoluídos, uma espécie de transporte espiritual, um fogo que tanto fale de purificação como de iluminação e sagração. Lembremos que o terceiro signo do terceiro quadrante indica que o social está chegando ao fim e que o coletivo está para começar (quarto quadrante). Nesta etapa, o distante começa a triunfar sobre o próximo. Com Sagitário chegamos ao fim da trindade do fogo. Se em Áries, ele é movimento visceral, se em Leão ele é a expansão do eu e a sua magnificência, em Sagitário ele será a decantação espiritual, a iluminação do espírito, pela qual o instinto e o ego devem ser ultrapassados. 


KIRON
Para uma melhor compreensão do signo de Sagitário, no cenário acima descrito, importante será não se perder de vista a polaridade entre Kiron e Ixion. Essa polaridade permite que, para fins práticos, seja possível definir os dois tipos humanos básicos do signo, consideradas as dominantes elementares de cada caso: do lado do primeiro, Kiron, temos ideais de sabedoria, de luz interior, o que lembra uma certa nobreza no trato das questões práticas; presente muitas vezes um espírito idealista,
SUPLÍCIO  DE  IXION, 330 aC
embora, pelo lado ígneo do signo, o entusiasmo e a falta de paciência com detalhes possa ocasionar até problemas mais sérios quanto à continuidade da ação. Do lado do segundo, Ixion, de início, uma observação que me parece muito adequada aos sagitarianos “ixiônicos”. Há neles, no eu visível, em maior ou menor grau, um certo teriomorfismo equino, muitas vezes visível por um rosto impregnado de tristeza, a refletir a grande pressão da vida instintiva, animal, sobre possíveis aspirações à transcendência. 




BELEROFONTE   E   A   QUIMERA  ( MOSAICO )

Além disso, há a considerar que o tipo “ixiônico” parece guardar muitas marcas do signo anterior, nele predominando um lado animal, mais “escuro”, menos consciente, enquanto no primeiro tipo, inspirado por Kiron, o aspecto humano, mais iluminado, costuma se revestir de impulsos ascensionais mais firmes. Da história dos centauros é que vêm para os do signo, onde o lado animal prevalece, traços como a irracionalidade, a insolência, a falta de domínio dos sentidos. Para aqueles que muitas vezes  julgam ter alcançado o terceiro nível do signo, comuns a falsa autoconfiança, a presunção, que a história do herói Belerofonte talvez descreva melhor do que qualquer outra.

É a partir deste ponto que podemos também definir, de outro modo, como fizemos com relação a Ixion e Kiron, dois grandes tipos do signo, complementares àqueles: o introvertido, que enxerga longe, e o extrovertido, que tem a paixão dos caminhos, a necessidades dos largos horizontes. Um é vertical (angulação de 45º), o outro se projeta só no horizontal. O que fica claro para nós, a partir destas cogitações, qualquer que seja o tipo sagitariano, é que as conexões próximas com o mundo, estabelecidas através de Gêmeos (signo oposto ao de Sagitário, que governa o mental inferior e as pequenas viagens), se ampliam na direção das conexões de longo alcance (grandes viagens) ou com a finalidade de integrar o social e o espiritual. Com relação a estes, supera-se a individualidade, sendo possível chegar-se ao metafísico. O ser se unifica pela correta compreensão dos seus três níveis: o animal (instinto) se submete ao racional e este se põe a serviço do espiritual, como já foi dito.


KIRON , MESTRE  DE  AQUILES
As cinco grandes artes ensinadas por Kiron a seus discípulos foram a Hípica, a Cinegética, a Mântica, a Agonística e a Iátrica, entendidas tanto literalmente como metaforicamente. A Hípica é, numa palavra, a arte de dominar cavalos. Metaforicamente, como se disse, será a arte do domínio do psiquismo inconsciente, das forças obscuras que “vivem” na interioridade do homem, que o animal simboliza. Se o cavaleiro não for mestre da montaria, ele será “conduzido” pela besta,  cavalgado pelo seu psiquismo inconsciente, se transformando num “cavalo”.


MISTÉRIOS  DE  ELÊUSIS
Nos cultos dionisíacos, como nos mistérios de Elêusis, dizia-se que os seus adeptos eram cavalgados pelo deus, sendo essa uma das razões pela qual há nas religiões de mistério e nos cultos das Grandes-Mães tantas figuras hipomorfas. Os sátiros, os silenos, as mênades, as figuras e personagens ligados a cultos orgiásticos ou nos quais a vida inconsciente domina a consciente, costumam ter nomes em cuja composição entra frequentemente o radical hipo ou hip: Hipólito (filho de Teseu e de Antíope, amazona); Hipe (filha de Kiron, raptada por Éolo); Hipo (jovem beócia, filha de Cédaso); Alcipe (filha do deus Ares); Melanipo (filho do deus Ares), Hipocoonte (envolvido em lutas pelo trono de Esparta), Hipodamia (princesa de Pisa, na Elida), Hipóloco (filho de Belerofonte) etc. 



BATALHA   DAS   AMAZONAS

Uma das histórias da mitologia grega mais ligadas a cavalos é a das Amazonas. Certas passagens da crônica dessas guerreiras deixaram lembrança na vida dos povos. A de Pentesileia (a que luta e sofre por seu povo, etimologicamente), filha do deus Ares, rainha das
AQUILES E PENTESILEIA
J.H.W. TISHBEIN, 1751-1829
mulheres guerreiras, é uma das mais notáveis. Depois da morte de Heitor, ela seguiu para Troia para lutar ao lado dos troianos contra os aqueus. Muito corajosa, excepcional guerreira, sempre deu demonstrações de muita bravura nos campos de batalha. Enfrentou Aquiles de igual para igual, mas morreu ao ter o herói aqueu trespassado o seu seio com uma lança. Diante da bravura de Pentesileia e de sua beleza, Aquiles se comoveu muito, chegando às lágrimas. Um de seus companheiros, Tersites, covarde e atrevido, ao tentar ridicularizá-lo pelas lágrimas derramadas diante do corpo de Pentesileia e além do mais tendo procurando desfigurá-la, foi morto a socos pelo nosso herói.

Outro exemplo, é o de Antíope, irmã de Hipólita, rainha das amazonas. Vencida por Teseu (sexto trabalho de Hércules), por ele será desposada, da união nascendo Hipólito (etimologicamente,
STRABON
aquele que libera os cavalos), mais tarde enteado de Fedra, iniciado nos cultos de Ártemis. Digno de registro é o fato de que todos os heróis gregos que lutaram contra essas guerreiras se impressionarem muito com elas, pela sua capacidade de luta, pela sua beleza, inclusive a elas se unindo muitas vezes. O famoso geógrafo Strabon (58 aC-25 dC), que muito estudou a origem dos povos da antiguidade, deixou registros sobre elas. Fala de várias gerações de mulheres belicosas que lutavam a cavalo, vivendo ao norte da África, na Líbia. Abandonando a vida nômade, passaram a viver na ilha da Samotrácia, ilha grega do mar Egeu.

Com efeito, as amazonas sempre foram consideradas como as primeiras cavaleiras da História. Extremamente hábeis, elas pareciam fazer um só corpo com as suas montarias, percorrendo as estepes ao norte do mundo grego, embriagadas de liberdade. Traços dessas mulheres podem ser encontrados na Europa, na região do Cáucaso e na Cítia, na Ásia Menor, e principalmente nas margens do mar Negro. 


AMAZONA  ( ESCULTURA  EM  MÁRMORE )
Grandes caçadoras, vivendo da pilhagem, habilíssimas no arco e na lança, uma vez por ano “encontravam-se” com homens, por elas raptados, a fim de garantir sua sobrevivência. As meninas que nasciam desses relacionamentos eram educadas para se tornarem futuras amazonas. Os meninos eram devolvidos ao mundo masculino ou mortos, raramente sobrevivendo. Atribuem-se a elas a fundação de muitas cidades e de templos, especialmente o de Éfeso, na costa da Ásia Menor, dedicado a Ártemis, deusa muito cultuada por elas, templo considerado uma das sete maravilhas do mundo, incendiado por Erostrato em 365 aC. Há registros de que elas teriam invadido e se apoderado da cidade de Troia, perecendo nos combates então travados a sua rainha, Marpessa.

CAVALARIA  MEDIEVAL
Como afirmamos em Sagitário (2), desde a antiguidade grega  que o aspecto noturno do cavalo, como símbolo do psiquismo descontrolado do homem, veio sendo atenuado, suavizado. Um grande esforço aconteceu nesse sentido já nos primeiros séculos da Idade Média quando a cavalaria medieval passou a ser considerada como um código de honra de uma aristocracia marcialmente orientada. Floresceu mais esse entendimento entre meados do sécs. XII e XVI. Seu estudo à luz da astrologia é muito importante para uma compreensão mais rica e abrangente dos valores sagitarianos.

A influência religiosa da Igreja católica foi muito grande sobre o mundo da cavalaria. Com sua ação, a Igreja católica procurou mudar a noção do chamado comportamento cavaleiresco. Procurou ela conter de algum modo o ímpeto guerreiro, dando um outro sentido às virtudes da bravura e da coragem, tornando o cavaleiro mais gentil, menos violento, trazendo ideias de respeito pela vida e da dignidade humana, até mesmo em ocasiões de envolvimento com inimigos mortais.


TORNEIO   MEDIEVAL

Nesse período, outro elemento que se inseriu fortemente na história cavaleiresca foi o feminino. As mulheres passaram a frequentar como espectadoras os torneios, as justas que começaram a se realizar. As ideias do cavaleiro servir à sua dama se firmam, ganhando elas uma expressão literária, as chamadas produções do amor cortês, do qual passa a fazer parte uma grande quantidade de símbolos, lembranças e emblemas femininos que o cavaleiro levava consigo ao partir para as suas viagens e aventuras. O ideário cavaleiresco da época (séc.XIII) procurou fixar, dentre as obrigações do cavaleiro,  quatro principais: a) repudiar o falso julgamento e a traição; b) honrar as mulheres; c) assistir à missa diariamente; d) jejuar às sextas-feiras.


LA   DAME   À   LA   LICORNE

Um dos documentos básicos medievais, de grande expressão artística, no qual o cavalo e a mulher aparecem associados é a famosa tapeçaria de La Dame à La Licorne, já mencionada. Essa peça é formada por seis tapeçarias confeccionadas entre os sécs. XV e XVI, para Jean Le Viste, um importante magistrado da época. Em cada uma das seis grandes partes do conjunto, sob um fundo azul de millefleurs e de animais, uma jovem mulher é representada, cercada por emblemas heráldicos, notadamente um leão e um licorne (unicórnio). O conjunto, hoje no Museu de Cluny, forma uma a alegoria sobre os cinco sentidos, apresentando a sexta parte a inscrição à mon seul désir, que podemos traduzir como segundo meu livre arbítrio, ou seja, sem submissão aos sentidos.

O licorne é um animal fabuloso, que possui o corpo de um pequeno cavalo branco, com um chifre, a cujo simbolismo sua imagem parece se ligar de modo especial. Símbolo fálico, o chifre evoca aqui ideias de fecundação espiritual no plano humano, no plano da matéria. Ctônico e infernal na origem, o cavalo se torna branco, solar, passando ele a simbolizar aqui o controle dos sentidos pela intervenção do feminino. A inspiração é grega, como a encontramos na história do corno da abundância, criado por Zeus, a partir dos chifres da cabra Amalteia). A Igreja católica, na Idade Média, encampou a lenda do unicórnio com a conotação de que esse animal fabuloso só poderia ser capturado por uma virgem, o que deu à história e às suas representações um sentido religioso, enaltecendo-se sempre o mundo feminino e a sua pureza. 

O cavalo, como vimos, na figura do centauro, simboliza a parte
KIRON  ( VASO  GREGO )
instintiva, o potencial energético, que deverá ser encaminhado para fins elevados. Toda esta simbologia transforma, sem dúvida, a figura do centauro Kiron numa das mais belas imagens criadas para representar a trajetória evolutiva do animal ao homem superior. O grande alcance desta representação se amplia se lembrarmos que, segundo a astrologia, as partes do corpo humano têm relação com os signos. As coxas (região coxo-femural) são exatamente o lugar onde se concentra a energia dos nativos do signo de Sagitário, área corporal de extrema importância para os cavaleiros, na medida em que envolvem as ilhargas do animal, região do abdome e das costelas.

A mitologia grega nos deixou várias histórias de heróis e de suas montarias, histórias que, se interpretadas à luz da astrologia, nos oferecem muitas ilustrações sobre o mundo sagitariano. Uma delas, muito instrutiva, é a de Belerofonte, acima mencionado. Como ocorre com muitos heróis gregos, Belerofonte tinha dois pais, um divino e um humano. Seu pai divino era Poseidon, deus dos oceanos e dos mares. A mãe chamava-se Eurínome, uma princesa, filha do rei de Mégara. Seu pai humano era Glauco, este por sua vez filho Sísifo, o inteligente e esperto rei de Corinto, conhecido como o mais inescrupuloso dos mortais, um herói que se transformou num dos maiores  criminosos da mitologia.



PÉGASO, PALAS  ATHENA  E  BELEROFONTE ( J. BOECKHORST , C.1680 )  

Da casa real de Corinto, Belerofonte, depois de inúmeras aventuras, feitos e malfeitos, conseguiu, com o auxílio de Palas Athena, domar Pégaso, o que lhe deu condições de praticar excepcionais atos heroicos como o de matar a Quimera, pavoroso monstro, de vencer  um povo selvagem, os Solymos, filhos de Ares, e suas aliadas, as Amazonas, e de eliminar os piratas que infestavam as costas da Cária.  Casado, com filhos, reconhecido como herói, tudo parecia ir bem, vivendo nosso herói, reverenciado por todos. Sem que ninguem explicasse, um certo dia, tomado por imensa e incontrolável hybris, tentou Belerofonte, montado no Pégaso, invadir o Olimpo, na esperança de conquistar a imortalidade. Desconhecendo o seu metron, tentou ultrapassar limites que nunca deveria ter rompido. Fulminado por Zeus, foi devolvido à Terra. Zeus não o matou, porém. Fez com que sobrevivesse, rebaixado, humilhado e esquecido por todos, perdido, a perambular pelos caminho da Terra. Sua morte não é registrada pelo mito. 

CONSTELAÇÃO
Quanto a Pégaso, foi ele colocado nos céus na forma de uma constelação boreal, numa região situada entre o final de Aquário e o início de Áries. Influencia essa constelação os humanos principalmente através de sua estrela alfa, Markab, predispondo-os a um comportamento ambicioso, vaidoso, entusiasta, caprichoso, mas falho quanto às suas avaliações. Os gregos, como se sabe, têm um ditado: Os deuses enlouquecem aqueles a quem querem perder. Tomar um lugar entre os olímpicos, torna-se imortal, desposar Hera? Mais outro: Quanto maior a ambição, maior a queda. Belerofonte sonhou alto demais, foi além do seu metron, um dos maiores pecados sagitarianos. 

Evidentemente, os discípulos de Kiron eram exímios cavaleiros. No entanto, pelas lições do centauro-mestre, aprenderam também que a Hípica por ele ensinada dizia mais respeito ao controle da sua vida interior do que propriamente à sua habilidade com os animais. Foi a partir destas lições de Kiron que Asclépio, como deus médico, pode desenvolver no seu santuário de Epidauro conceitos como o  de nooterapia (terapia da mente), que levava à metanoia  (transformação de sentimentos), conceitos sempre associados, por exemplo, dentre outras práticas, à oniromancia (interpretação dos sonhos).

Inseparável do homem como montaria por milhares de anos, esta dialética noturna e diurna do cavalo, lunar e solar, se quisermos, se fixou simbolicamente no funcionamento da sua vida psíquica. Para que o animal se tornasse solar, celeste, cabia ao cavaleiro assumir o seu controle, adquirindo uma técnica ensinada por Kiron. Na antiga
USHAS
índia, lembre-se, este cavalo solar era chamado de asha, palavra que significa percuciente, perspicaz, penetrante, numa referência ao poder que tem a luz de penetrar e clarear tudo. Asha era palavra usada também com o significado de desejo e espaço. É por essa razão que os Ashwins (nome do signo de Gêmeos), os Dioscuros védicos, mestres cavaleiros, na astrologia hindu, vêm montados a cavalo, trazendo consigo, Ushas, a deusa da aurora, uma ilustração da transição das trevas para a luz. 

Outra arte ensinada por Kiron aos seus discípulos era a cinegética, a arte de caçar com cães. Participando de um rico universo simbólico, o cão, dentre as suas múltiplas funções, trouxe da pré-história para o mito a de guia psicopompo, guia do homem na noite da morte depois de tê-lo acompanhado à luz do dia. Temos registros em muitas tradições de cães que quando da morte de seu dono foram sacrificados para ajudá-lo a encontrar o bom caminho na vida depois da morte. O dom de clarividência que o cão tem, a sua familiaridade com as forças invisíveis, fez dele um companheiro inseparável do caçador, um farejador, um indicador de trilhas que levam à boa caça. 

TAROT
A moderna psicologia liga o cão ao processo da individuação do ser humano considerando-o como representante do primeiro estágio da sua evolução psíquica. Na astrologia e no Tarot encontramos estas mesmas ideias, já abordadas neste blog, no item constelações austrais, nos tópicos referentes às constelações do Cão Maior e do Cão Menor. A arte cinegética que Kiron ensinava aos seus discípulos é, se a iluminamos com a astrologia, metaforicamente evidente: é a arte de caçar oportunidades de crescimento. 

A cinegética de Kiron tinha por objetivo maior, além de elevar as pressões do lado animal, possibilitar ao discípulo a aquisição de um mental superior que o pusesse em contacto com o mundo espiritual. Um mental  que tanto o ajudasse a discriminar como decidir quanto  ao rumo de suas ações, de modo que cada uma delas pudesse beneficiá-lo, mas que isto não significasse a perda da perspectiva espiritual, ou seja, a de que o Todo (as pessoas e o mundo natural) fosse igualmente ou até mais favorecido. O ensinamento de Kiron respondia a objetivos que valorizassem a vida espiritual, interesses muito diferentes daqueles a que se entregava a humanidade, sempre desejosa de satisfações passageiras, presa a insaciáveis prazeres sensíveis. 


DHANUS
Crescer no sentido aqui colocado tanto poderá significar progresso material, conquista de posições mundanas como, sobretudo, se quisermos melhorar realmente o mundo em que vivemos, buscar conhecimentos moralmente orientados para inspirar nossas ações. É neste sentido que a cinegética de Kiron se aproxima muito da visão que os antigos povos védicos tinham de Dhanus (Sagitário). 

Para tanto será preciso considerar que conhecimento deve ser informação processada e transformada em experiência pelo indivíduo. Como atividade intelectual, a aquisição de conhecimentos é processo através do qual, em função da informação recebida, questionamos, indagamos, relacionamos e comparamos as coisas do mundo. Só assim o conhecimento poderá ser acrescentado a um repertório individual que tanto eleve intelectualmente o homem como o espiritualize.  

Onde obter conhecimentos hoje? Lembremos que atualmente, se nos restringirmos aos conceitos urano-geminianos vigentes, baseados sobretudo na renovação constante das informações em função de critérios de obsolescência  programados pelo Mercado,  com um instrumental tecnológico adrede preparado, pouco ou nenhum tempo teremos para criticar e assentar as informações, a fim de transformá-las em conhecimento, e muito menos distribuí-las como sabedoria. Este é hoje um perigo que, como nunca aconteceu antes historicamente, ronda o homem moderno, incentivando-o a passar os seus dias e noites digitando computadores, tablets, notebooks e smarts etc sem nenhuma noção de quem seja Kiron com as suas flechas.

É preciso lembrar que Sagitário propõe um estágio de desenvolvimento através do qual podemos ativar nossas energias vitais num grau máximo de expansão e mobilidade. Visão ampla,
CONSTELAÇÃO   DE   SAGITÁRIO
alargamento de níveis de consciência, pulsações criativas, viagens físicas, mentais ou espirituais, exploração de novos meios de expressão. Tudo isto nos é indicado nos céus se sabemos olhar para  a constelação do centauro Kiron, que parece apontar a flecha para a estrela Antares, o coração vermelho de Escorpião, ao mesmo tempo em que parece, com as suas estrelas, se abrir para uma enorme nuvem estelar, composta de milhões de sóis, a nuvem mais luminosa da Via-Láctea, e também para gigantescas nebulosas e massas escuras de poeira cósmica.






quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O CHUMBO

CHUMBO
A mais antiga tradição alquímica de que se tem notícia a estabelecer uma relação entre os metais, os planetas e os signos astrológicos foi a dos caldeus, povo da antiga Mesopotâmia. 

A ordem era a seguinte: ouro-Sol-Leão; prata-Lua-Câncer; mercúrio-Mercúrio-Gêmeos e Virgem; cobre-Vênus-Touro e Libra; ferro-Marte-Áries, associado igualmente ao aço, Escorpião; estanho-Júpiter-Sagitário, associado igualmente ao bronze, Peixes;   chumbo-Saturno-Capricórnio  e Aquário.

Herdeiros dessa tradição, os gregos,  ou melhor,  um colaborador de Platão, Philippe d’Oponte, foi o primeiro, num texto, Epinomis (que faz parte da obra de Platão), a dar o nome dos deuses aos planetas: Cronos (Saturno), Zeus (Júpiter), Ares (Marte), Afrodite (Vênus), Hermes (Mercúrio), relação à qual se acrescentou Selene (Lua).




Os metais sempre simbolizaram energias cósmicas solidificadas, condensadas, sendo considerados como substâncias vivas e sexuadas pelas mais antigas tradições que os dividiram em dois grupos, os criados por Deus e os criados pelo Diabo. Assim, em algumas mitologias africanas, por exemplo, enquanto Deus criava o ouro e a prata, o Diabo criava o cobre e o chumbo.  
   

Por volta de 3000 aC, quando se fixaram melhor certas atividades humanas como a metalurgia, a tecelagem, a carpintaria a construção e a fabricação de tintas e de pigmentos, que uma arte a que se deu o nome de Alquimia, nome proveniente do Egito, ao que parece, reuniu todos esses conhecimentos. A arte alquímica era produto da acumulação de muitas informações técnicas, de várias civilizações. 

Tanto a descoberta de muitos materiais como as técnicas desenvolvidas pelo homem para utilizá-los e transformá-los não
ENLIL
significou a separação destas atividades do cotidiano das pessoas, da sua vida diária. Os trabalhos técnicos dos artesãos que se ligavam diretamente a essas atividades foram associados ao acompanhamento de práticas religiosas ou mágicas, encontrando-se conexões entre metais, minerais, plantas, planetas e deuses. Os babilônicos, por exemplo, ligavam o ouro ao deus Enlil, a prata ao deus Anu e assim por diante.




Dentre as teorias criadas a esse tempo para explicar o mundo material, uma adquiriu muita importância, a de que todas as substâncias existentes no universo eram compostas por cada um e por todos os elementos (fogo, terra, ar e água, na tradição ocidental), diferenciando-se essas substâncias pelas proporções em que nelas eles se apresentavam. 

Os elementos se distinguem uns dos outros por suas qualidades chamadas de primárias, a fluidez ou umidade, a secura, o calor e o frio, possuindo sempre cada um deles duas dessas qualidades. Em cada elemento há uma qualidade que predomina sobre outra: na terra, o seco predomina sobre o frio; na água, o frio sobre o úmido; no ar, a fluidez sobre o quente; no fogo, o quente sobre o seco. Esses  elementos podem se transformar uns nos outros, são intermutáveis por meio da qualidade que possuem em comum. Exemplificando, o fogo pode transforma-se em ar por meio do quente; o ar em água por meio da umidade e assim por diante. Essas operações fazem parte da Alquimia e estão presentes em nossa atividade física e psíquica e acontecem a todo momento em nossa vida cotidiana. 

O chumbo, molybdos, em grego, plumbum em latim, é um metal extremamente denso, pesado e macio, mas não flexível, um dos mais antigos que o homem conheceu. Do ponto de vista alquímico, o chumbo se liga ao elemento terra, formado pelo frio e pelo seco. Antes de 3000 aC, vários povos da antiguidade já obtinham a prata
AQUEDUTO
retirando-a do chumbo. Na Mesopotâmia, usaram-se placas de chumbo para revestimento dos famosos jardins suspensos da Babilônia. São conhecidas, desde essa época, moedas de chumbo chinesas. Os romanos utilizaram muito chumbo, proveniente da Espanha, para fazer os seus famosos aquedutos. 


De todos os metais, sabe-se, o chumbo é o mais impermeável à
SOLDADINHO   DE   CHUMBO
água. Encanamentos com mais de 2000 anos foram encontrados recentemente em excelentes condições em Roma. A grande desvantagem dos encanamentos desse metal é que eles congelam com facilidade e estouram. Por derreter facilmente, o chumbo foi muito usado para a confecção de brinquedos, sendo os mais conhecidos os famosos soldadinhos de chumbo.


As propriedades mágicas do chumbo estão atestadas em várias culturas na antiguidade. Quando se desejava fazer mal a alguém, gravava-se numa placa de chumbo o nome do mal, um meio sempre considerado como particularmente eficaz. Por outro lado, carregar uma pequena placa de chumbo presa por fio ao redor do pescoço protegia contra diversos encantamentos e impedia que paixões amorosas se apoderassem de alguém contra a sua vontade.


QUIMERA   BELEROFONTE   E   PÉGASO

É na mitologia grega, na história da morte da Quimera, que encontramos uma referência importante com relação às virtudes do chumbo. Belerofonte, famoso herói, montado no cavalo-alado Pégaso, que conseguira domar com o auxílio de Palas Athena, atacou o pavoroso monstro que vomitava labaredas de fogo. Disparando inúmeras flechas contra o seu corpo, Belerefonte conseguiu que algumas delas, com pontas chumbo, entrassem pela sua bocarra; em contacto com as labaredas expelidas furiosamente, o metal derreteu e, descendo por sua garganta, destruiu completamente as suas entranhas.

Desde a mais remota antiguidade, praticava-se a adivinhação por meio do chumbo, a chamada molibdomancia (molybdos, chumbo, mancia, adivinhação, grego). Deixavam-se cair gotas de chumbo quase líquido na água ou numa superfície lisa e faziam-se previsões segundo os ruídos produzidos. Até o início do séc. XX, essa forma de adivinhação era praticada em quase todos os países da Europa. Na França, no dia de Reis, as jovens casadoiras, segundo a forma que o metal aquecido tomasse quando em contacto com a água, usavam o processo para descobrir a profissão de seu futuro marido: se tomada uma forma que lembrasse um machado, ele seria lenhador; se tomada a forma de uma agulha, ele seria alfaiate e assim por diante. O mesmo acontecia em outros países, usado o processo para fins divinatórios diversos, sempre numa data religiosa importante. Na Bélgica, por exemplo, na noite do dia de Santo André; na Alemanha e na Rússia, na noite do dia de São Silvestre; na Suíça, na véspera do Natal etc.

Na Idade Média, para se saber se uma doença tinha origem sobrenatural, derramava-se chumbo derretido num recipiente com
AMULETOS   DE   CHUMBO
água; se uma imagem se formasse no fundo do recipiente, a origem sobrenatural (feitiçaria) estava confirmada. Há registros de que reis franceses (Luís XVI) mantinham sempre amuletos de chumbo em contacto com o corpo para evitar doenças.


Comercialmente, hoje, o chumbo é empregado no isolamento acústico de ambientes e como material protetor contra radiações em salas de radioterapia de hospitais. É usado também em lugares onde é manipulada a energia nuclear. A sua extrema densidade o torna impermeável à radiação. Dá-se o nome de saturnismo ou plumbismo às intoxicações agudas ou crônicas causadas pelo chumbo ou por alguns de seus sais. Quando queremos nos referir a uma pessoa tristonha, soturna, ou a um céu carregado de nuvens escuras, podemos usar o adjetivo plúmbeo. 

Simbolicamente, o chumbo apareceu sempre relacionado com o fim
SATURNO   E   SEUS   ANEIS
de um período, o fim de um ciclo de vida, identificado por isso com a velhice e a morte.  Não é por acaso que a pele e os ossos, as últimas coisas que desaparecem no ser humano ao morrer, são de Saturno, astrologicamente. Além do chumbo, não podemos descer mais na escala mineral, vegetal e animal. Por isso, é tutelado pelo deus Cronos, na mitologia grega, e pelo planeta Saturno, ambos símbolos do tempo, do tic-tac fatal dos relógios. 


Cronos, como se sabe, devorava os próprios filhos que gerava, uma imagem do tempo que tudo consome. Daí, Cronos aparecer representado com a ampulheta (o tempo) e o alfange (o instrumento dos ceifadores. Analogicamente, o deus,
CRONOS
o planeta e o metal simbolizam também o princípio da concentração, da fixação, da condensação e da inércia. Viver é tomar forma e também perdê-la, o que nos acontece diariamente, a cada momento da nossa vida. Por isso, a vida, na expressão dos alquimistas, se resume a duas operações: a coagulatio e a solutio. No início, uma energia que vai tomando forma, ganhando corpo, crescendo, se desenvolvendo, chegando à sua plenitude e depois, inexoravelmente, definhando, se contraindo, até que tudo o que foi acumulado volte ao Grande Todo.



LABORATÓRIO   ALQUÍMICO

Os alquimistas sempre colocaram o chumbo em relação com o ouro. Muitas histórias da arte alquímica nos falam de transmutações coroadas de sucesso na medida em que o chumbo, considerado como o mais vil dos metais, e neutralizadas assim as suas influências funestas, podia ser transformado no rei deles, o ouro, quando submetido à ação da “pedra da sabedoria”. Esta metamorfose era para os alquimistas um símbolo da purificação do homem, preso ao mundo terrestre e materializado, que se elevava a níveis superiores da existência pela espiritualização solar.

Cronos, Saturno e o chumbo representam tanto a força que cristaliza, que fixa na rigidez o que entra na existência, dando-lhe condições de resistir aos ataques externos, como pode também se opor, como resistência intransponível, a qualquer mudança. Num primeiro momento, o chumbo simboliza assim imprescindível força que nos estrutura, ajudando-nos a resistir aos embates da vida. Num segundo momento, esta mesma força pode impedir mudanças, transformações, lembrando sempre obstáculos, carências, retardamentos, impotência, paralisia, condensação, desalento, inércia, tanto física (problemas com o metabolismo do cálcio; artroses deformantes, osteoporoses, osteopenias etc.) como psiquicamente (complexos, apego ao passado, atavismos poderosos, a tirania dos hábitos, ideias fixas, obsessões etc.)

CHAVES PARA A CARACTEROLOGIA
O chumbo forma a última fase do processo metálico, o estágio final do desenvolvimento da matéria. Na Alquimia simbólica, o   chumbo é, por isso, usado para representar o nível mais baixo a que a matéria pode chegar, iniciando-se, a partir dele, a caminhada em direção do mais elevado, do superior, simbolizado pelo ouro. Sob o ponto de vista da Caracterologia, as pessoas-chumbo podem ser incluídas entre os fleugmáticos, neles dominando a não-emotividade e a secundariedade, já que costumam retardar bastante as suas respostas diante dos  estímulos recebidos.   

O poder do chumbo tem a ver também com tudo o que segrega, e separa, com tudo o que fecha e inibe, que limita. Onde a influência de Saturno aparece temos o enrijecimento, a formação de pedras (cálculos na bexiga, nos rins, na vesícula, o endurecimento das artérias, por exemplo). Com a idade, vamos entrando no período chumbo da vida, dominado pelo processo da introversão e pelo recolhimento. Ambos, o corpo e a mente vão ficando endurecidos e inflexíveis; as pessoas tornam-se dogmáticas, obstinadas em suas opiniões, não sabendo mudar, fase em que podem se impor ideias de insensibilidade, frieza, renúncia, pessimismo, melancolia ou, simplesmente, recusa de viver. 

O chumbo inibe vibrações. Por isso, é o metal mais usado para conter as trepidações produzidas pelo trânsito pesado e intenso em áreas onde são construídos grandes edifícios. Positivamente, o chumbo e Saturno fortalecem o nosso corpo e nossa alma para que possamos enfrentar as tempestades que podem nos alcançar. Neste caso, o chumbo pode nos ajudar a controlar nossos sentimentos, dando-nos a quantidade certa de resistência ao que ameace o nosso equilíbrio. Uma pessoa saturnizada em demasia mostra-se geralmente avessa à vida social, evita visitas, quase não fala, é solitária, características do chamado tipo esquizoide. No geral, uma vida feita só de deveres, na qual o relógio e o calendário governam tudo. Uma vida onde não entram flores e risos, que são do planeta Vênus, dominado pela deusa Afrodite.   

Costumam as pessoas-chumbo ter muito medo do futuro, já que uma de suas principais características é o espírito de economia que
HARPAGON (COMÉDIE FRANÇAISE)
pode atingir formas extremas como a avareza. Um exemplo: o Harpagon, de Molière. São comuns os casos de pessoas deste tipo que quando têm alguma despesa a fazer, mínima muitas vezes, mergulham em tormentos sem fim, perdendo horas de sono inutilmente. A rondá-las, quase sempre, uma atitude pessimista diante da vida, já que costumam ver dificuldades em tudo. Usam muito o advérbio não. A sua constante insatisfação é quase sempre responsável por um sentimento de incapacidade que está na origem de suas depressões. 


Tais pessoas costumam também se deprimir porque não avançam tão rapidamente como os outros. Muitas vezes, problemas de infância (são os tipos mais propensos a apresentar esses problemas, como os de fixação na infância, no passado, sempre presente o temor inconsciente do poder dos mais velhos) estão por trás desse receio de avançar, pois são as maiores vítimas da pressão que pais exercem sobre seus filhos. Sofrem geralmente de três complexos: o de Cronos (filhos “devorados” pela figura paterna), o de Inferioridade (sentimento de pessoas que se auto depreciam) e o de Isaac (filhos que se entregam docilmente à vontade paterna). Entraram na vida sempre temendo o poder dos mais velhos, pais, professores, mestres, familiares etc. No caso de mulheres, muitas vezes o marido também exerce esse papel, sendo uma extensão da figura paterna. 

SACRIFÍCIO   DE   ISAAC  ( 1603 , CARAVAGGIO )

Muitos que se enquadram nesta tipologia gostam de mostrar um caráter severo, consigo e com o mundo. Esta severidade, porém, oculta geralmente uma atitude destinada a dissimular a sua sensibilidade e o seu medo de serem magoadas. Protegem-se “endurecendo”, exigindo sempre dos que estão à sua volta um comportamento irrepreensível no cumprimento dos seus deveres. Não toleram uma brincadeira, um “pegar mais leve” na vida. A vida para elas é feita só de obrigações e deveres.

A maioria dessas pessoas acha doloroso qualquer processo de mudança, fugindo sempre de situações em que tenham de abrir mão de imagens, ideais e objetos materiais, sobretudo os herdados. Ao invés de procurarem na vida os intercâmbios adicionais que os ajudem a evoluir, constroem à sua volta muralhas que impedem qualquer penetração na personalidade que montaram. Temem perder a segurança. 

As cores preferidas dos tipos que estou descrevendo são o cinza, o preto, o castanho-escuro e o marrom. Na anatomia humana, os problemas costumam aparecer na pele, nos ossos, nas juntas, nos ligamentos, nos órgãos da audição, na pele, nas unhas e nos cabelos. Negativamente, tudo neste cenário lembra carências (penias, hipo), obstáculos, limitações, endurecimentos etc.


AUGUSTE  RENOIR , 1841 - 1919

Positivamente, porém, simbolicamente o chumbo, Saturno e Cronos lembram constância, disciplina, controle, firmeza. Neste sentido, o que eles nos derem ninguém tira de nós. Eles simbolizam aquele trabalho anônimo que podemos diuturnamente exercer sobre nós mesmos, a conquista interior que o tempo nos dá. As virtudes saturninas são, como se disse, frias, estão do lado das asceses: concentração, perseverança, prudência, sentido de dever, silêncio, domínio da vida instintiva. Não é por acaso que o grande símbolo de Saturno é a montanha e que o mais saturnizado dos pintores, Cézanne, a pintou dezenas de vezes (montagne Sainte -Victoire). 


MONTAGNE   SAINTE -  VICTOIRE ( 1895 , CÉZANNE ) 

As melhores informações que temos para entender o chumbo simbolicamente como ponto de partida para se alcançar níveis superiores da existência nós as encontramos nos textos da Alquimia.


Em todas as tradições, o trabalho alquímico, designado pelo nome genérico de Opus ou Obra em Negro, sempre considerou o chumbo como a base mais modesta da qual se pode partir em direção de uma evolução ascendente. As virtudes requeridas para que alguém se empenhe nesse trabalho são a paciência, a solicitude, a perseverança, a dedicação contínua e a coragem, isto é, as virtudes frias às quais nos referimos. O trabalho da transmutação do chumbo em ouro tinha, por isso, um caráter sagrado, já que pedia também o desapego das limitações individuais para que fossem atingidos níveis coletivos, mais universais.


             

quarta-feira, 30 de abril de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - NETUNO (6)

POSEIDON

O temperamento instável de Poseidon levava-o a entrar em disputas com várias divindades. O seu conflito com Palas Athena, no qual esteve em jogo a tutela de Atenas, ficou célebre. Despeitado, Poseidon inundou totalmente a Ática, região grega onde ficava a polis. Seu relacionamento com Hera, sua irmã e cunhada, também não era bom. Numa disputa sobre o território da Argólida, planície do litoral do Peloponeso, arbitrada pelo rio Ínaco, que teve como assistentes os rios Cefiso e Asterion, a decisão foi favorável a Hera, o que lhe trouxe sérios problemas. Muito irritado com Ínaco, Poseidon não só o amaldiçoou como secou-lhe o leito, só permitindo que ele recebesse alguma água quando do período das chuvas, o que evidentemente levou a região a enfrentar contínuos períodos de seca.


HÉLIO

Outra disputa de Poseidon aconteceu quando ele e o deus Hélio resolveram assumir a tutela de Corinto, mais exatamente do istmo que une a Grécia continental ao Peloponeso. O hecatônquiro Briareu foi escolhido como juiz e sua decisão foi além do discutido. Ele declarou que  Acrocorinto ficaria com Hélio e que a parte restante da cidade, inclusive o istmo, ficaria com Poseidon. Tal decisão está na origem do culto que no istmo passou a ser prestado ao deus dos oceanos e que tinha como principal manifestação os Jogos Ístmicos.


TEMPLO DE POSEIDON

Ainda com relação às tentativas de Poseidon conquistar espaços terrestres, não podemos deixar de mencionar as suas disputas, sem sucesso, com Zeus e com Dioniso. Quanto ao primeiro, o motivo foi a tutela da ilha Egina, que antes se chamava Enone. Egina era uma filha do deus-rio Asopo, raptada por Zeus. Sísifo, que tudo presenciara, revelou ao deus-rio o nome do raptor mediante um acordo: Asopo faria brotar em Corinto, reino de Sísifo, uma fonte, que recebeu o nome de Pirene. Zeus fulminou Asopo e levou a amante para a ilha Enone, depois, como se disse, denominada Egina. Quanto a Dioniso, a questão envolveu a ilha de Naxos, onde o deus do vinho e a princesa cretense Ariadne, abandonada por Teseu, se uniram. Quanto à região onde ficava o oráculo de Delfos, cuja posse ele dividia com Geia, Poseidon a perdeu para Apolo. No episódio da conquista, Apolo matou o dragão Ladon, filho das divindades marinhas Forcis e Ceto.

Quanto aos oceanos e mares, o domínio de Poseidon sobre eles sempre foi indiscutível. Hábil construtor, ele havia estabelecido a sua morada num enorme palácio dourado, magnífico, brilhante,
feito para durar eternamente nas profundezas do mar Egeu. Ao visitar o seu reino, Poseidon costumava dar às suas saídas um cunho espetacular; usava um carro puxado por cavalos rapidíssimos, suas criaturas, com cascos de bronze e crinas douradas; protegia seu grande peitoral com uma vistosa armadura de ouro; e estalando o seu chicote para açular os animais, sempre teatral, lançava-se com nas imensas planícies líquidas do seu reino. À sua volta, acompanhando-o e rendendo-lhe homenagem, vários monstros marinhos saídos das profundezas abissais. Os mares, sorridentes, se abriam diante da sua passagem. Muitas vezes, porém, Poseidon optava por aparições tempestuosas, agitando os mares, produzindo vagas enormes, sempre uma manifestação de suas inexplicáveis  cóleras.

Essas manifestações de Poseidon, como se pode depreender astrologicamente, representaram sempre, para os que sabem
aproximar a mitologia da astrologia, impulsos inconscientes, ilógicos, irracionais, envolvendo conceitos que não podem ser explicados de um modo lógico e racional. É por essa razão que Netuno, na astrologia, sempre nos remete a ideias do que não é concreto, do que é fluido, do que é cambiante, do que é incerto. Poseidon-Netuno sempre nos diz que nossa mente racional não está preparada para lidar com as coisas de seu reino, já que os significados que deles podemos extrair tanto podem dizer respeito só a um indivíduo em particular como se relacionar com o que é coletivo, universal.

Nós somos preparados desde o nosso nascimento para viver trocando palavras, procurando tornar as nossas mensagens perfeitamente inteligíveis. É com palavras, formuladas através de
GOYA
nosso processo mental, que damos forma às nossas experiências do mundo. A nossa mente inconsciente, todavia, invade o campo da nossa consciência com a sua matéria onírica, seus sonhos, suas fantasias, suas cores e formas, que não encontram correspondência no mundo real. Nessa invasão uma coisa parece certa: os símbolos da nossa vida inconsciente são recursos que, sem que o saibamos, o nosso instinto de sobrevivência, alimentado por sentimentos e emoções profundos, se vale para nos falar de coisas importantes. Cabe à nossa mente consciente avaliar esse produto netuniano, dando-lhe o destino adequado e procurando usar o meio mais apropriado para veiculá-lo.


Sabemos o quanto é difícil dar forma aos sonhos netunianos para
CINEMA - ARTE NETUNIANA
apresentá-los ao nosso meio físico. Isto porque Poseidon-Netuno não opera com a linearidade, com a lógica, com as técnicas que o nosso mundo aprecia cada vez mais. Entender os significados essenciais de Poseidon-Netuno será certamente o primeiro passo para procurar entende-lo, por mais extravagantes que possam ser as formulações que ele nos trouxer.  



ANFITRITE E POSEIDON

Anfitrite, etimologicamente, “a que circunda”, era a personificação feminina dos oceanos e mares. Uns a dão como filha de Nereu e outros, como filha de Oceano. Poseidon a notou quando ela, em companhia das suas irmãs, estava perto das praias da ilha de Naxos. Poseidon se aproximou, propondo-lhe casamento. Anfitrite fugiu, indo se refugiar perto do titã Atlas. Poseidon, perdendo-a de vista, mandou que os delfins a procurassem. Encontrando-a, eles conseguiram trazê-la, entregando-a ao seu mestre.

Por esta missão tão fielmente cumprida, Poseidon resolveu homenagear  os  delfins, dando o nome deles   a   uma   constelação
situada numa zona do céu chamada de A Água, nas proximidades da constelação da Águia. A constelação do Delfim é boreal e estende-se de 8º a 18º de Aquário. Sua estrela alfa chama-se Sualocin, encontrando-se hoje a l6º41´ de Aquário. Não suficientemente estudada, esta estrela, embora não muito “poderosa”, parece conferir um certo talento ou domínio da ação nos assuntos do quadrante em que se encontra. Se estiver em aspecto com algum planeta ou, principalmente, na cúspide de uma das casas angulares, pode proporcionar mente ativa, curiosa, dando um reforço às características do planeta ou aos assuntos da casa. Sua melhor expressão é encontrada quando em aspecto com Mercúrio.

O delfim é um mamífero marinho muito inteligente, tendo, sobretudo por essa característica, chamado a atenção dos povos mediterrâneos. Há inúmeras lendas sobre ele. Uma delas, muito divulgada, foi a de que teria salvo o aedo Arion num naufrágio, levando-o à praia. Arion foi um poeta lírico e músico grego do séc. VII aC. Consta que teria sido o inventor do ditirambo. A história dele é narrada por Heródoto: quando de seu retorno a Corinto, depois de uma viagem à Sicília, foi despojado dos seus bens e jogado no mar pela tripulação da embarcação em que viajava. Mas os delfins, que conheciam a sua música e o seu canto o salvaram.

A história de Arion, o poeta e cantor, é contada por Plutarco e dela os cristãos, desde a alta Idade Média, extraíram uma interpretação que, parece-me, tem tudo a ver com o sentido soteriológico do Netuno astrológico. Graças à intervenção dos delfins, Arion passa de um mundo violento, agressivo e cheio de males, à salvação. Nada a estranhar que Jesus Cristo tenha sido, por isso, representado inúmeras vezes pelo delfim.

Na arte etrusca, o delfim é bastante encontrado como psicopompo. Ele  aparece  conduzindo  as  almas  dos  mortos  para  a  Ilha  dos
Afortunados. Na heráldica, o delfim pode ser visto no desenho das armas do Delfinado. Sua figura era notada nas armaduras dos herdeiros do trono da França, chamados então de delfins. A expressão ad usum delphini, impressa nos livros destinados ao uso dos herdeiros do trono francês, significava que se tratava de obras “puras como a juventude”, expurgadas de todo o mal e imoralidade.


Segundo o mito, o delfim era também um atributo de Apolo. Consta que o deus, na forma de um delfim, conduziu os habitantes de Creta que foram a Delfos construir um templo em sua homenagem. Desde
ORÁCULO DE DELFOS
então o deus é conhecido pelo nome de Apolo Delphinius, utilizando-se os habitantes de Creta do peixe como símbolo do deus. O nome Delfos, como se sabe, vem do nome do peixe, associando-se a essa etimologia o nome delphys, vagina útero, pelo fato de as pitonisas do deus proferirem as suas sentenças oraculares num antro escuro parecido com o órgão feminino. Quem deu o nome ao local, depois uma cidade da Fócida, foi um herói chamado Delfos, que passava por filho do deus Poseidon. Unindo-se a Melanto, uma filha de Deucalião, o Noé grego, Delfos foi pai de Pites, que governou o local, sendo Pito, em sua homenagem, também um dos nomes da cidade .


O cavalo e o delfim, como símbolos de Poseidon, aparecem associados pelos cretenses nos hipódromos da ilha, representando o
peixe simbolicamente o número de voltas dadas em cada corrida. É de se lembrar ainda que a deusa Afrodite, por causa de seu nascimento marinho, era muito representada em companhia de delfins. Por essa razão ao peixe foram atribuídos “valores” afrodisíacos. É o delfim chamado no Brasil de golfinho ou boto, derivando-se este último nome de buttis, em latim, odre de vinho, devido à sua forma.

O séquito do casal Poseidon-Anfitrite é formado por todas as entidades marinhas, Proteu, Nereu, ninfas, oceânidas, nereidas, tritões, delfins, hipocampos. Desde que Anfitrite partilhou com Poseidon o reino dos oceanos e dos mares, podemos vê-la em muitas representações ao lado do marido, embora sua autoridade tenha sido considerada sempre como muito limitada. Seu culto era  inexpressivo; o mesmo se poderá dizer das suas representações na antiga arte greco-romana. A antiguidade da deusa é apontada no hino homérico a Apolo no qual se relata que, quando do nascimento do deus, estavam presentes várias divindades, inclusive Anfitrite.

Da união dela com Poseidon nasceu um filho, Tritão, e duas filhas, Rodo e Benthesicymé. Tritão é nome que lembra em grego fluir, escorrer, corrente, sendo considerado como uma divindade que tem
TRITÃO
uma importância menor em relação aos oceanos e mares. Humano da cintura para cima e peixe da cintura para baixo, Tritão vive soprando uma trompa feita de conchas marinhas, aterrorizando os navegantes. No fundo, porém, ele aparece mais como “o filho de um pai importante”, afirmação que me permito fazer diante das suas “travessuras” conforme algumas histórias de sua crônica. Tritão parece ter “aprontado” muito mais do que foi conservado dele, razão pela qual, em relatos tardios, lhe tivesse sido atribuída unicamente a tutela do lago Tritonis, na Líbia (uma espécie de confinamento). O principal motivo para este “rebaixamento” foi, ao que parece, duas de suas aventuras. Ele se engraçou com Palas, a amada companheira de divertimentos da deusa Athena, e com a lindíssima Triteia, que passa por sua filha, um dos amores do deus Ares.


No mito dos Argonautas, Tritão aparece sob a forma de Eurípilo, também filho de Poseidon, que reinou em Cirene, na Líbia. Quando os companheiros de Jasão chegaram a um lago (futuro Tritonis), ele ofereceu a Eufemo hospitalidade e lhes deu um talismã que lhes permitiu encontrar o caminho para o Mediterrâneo. Eufemo, lembre-se, era também filho de Poseidon e um dos Argonautas. Sua mãe era Europa, filha do gigante Títio. Eufemo, o de bons presságios, tinha o dom de caminhar sobre as águas. No episódio das Simplégades, foi ele quem soltou as pombas.


DIONISO

O comportamento de Tritão trouxe-lhe problemas com o deus Dioniso. Numa festa em honra ao deus, na Beócia, o filho de Poseidon tentou atacar sexualmente as mênades, as sacerdotisas do deus, que por elas foi chamado aos gritos. Intervindo, Dioniso, pôs Tritão para correr. Outra aventura: Tritão, certa vez, levou uns pastores ao desespero quando começou a roubar os animais que pascentavam. Os pastores conseguiram então embriagá-lo e, segundo uma versão dionisíaca, o mataram, o que pode ser considerado como uma possível superação do culto de Tritão   pelo de Dioniso no norte da África.


RODES

Rodo ou Rode (rodhon, rosa, em grego), filha de Poseidon e de Anfitrite, uniu-se ao deus Hélio. É do seu nome que vem Rodes, a chamada ilha das rosas. A outra filha, Benthesicyme (benthos, profundezas, e kyma, ondas, ou seja, a deusa das ondas que vêm das profundezas) era mulher de Enalos (o do mar), uma divindade marinha da Líbia.

Complacente demais, Anfitrite suportou as inúmeras infidelidades de Poseidon. Ao que parece, numa única vez ela teria manifestado seu ciúme, quando Poseidon teve uma aventura com Cila, primitivamente uma divindade marinha de rara beleza, filha de Forcis. Poseidon teria se apaixonado por ela; consta que Anfitrite pediu a Circe, a maga, que a transformasse numa figura monstruosa e devoradora. Circe deu a Anfitrite umas ervas mágicas que, lançadas às águas onde a jovem se encontrava, a teriam transformado em monstro.


HÉRCULES E ANTEU

Dentre os principais amores de Poseidon, cumpre destacar Geia, nascendo dessa união o temível Anteu, etimologicamente, aquele que se opõe, o hostil. Enorme, fortíssimo, desequilibrado como todos os filhos de Poseidon, Anteu matava os que se aventuravam pelos desertos líbios. Hércules, quando do seu terceiro trabalho, o enfrentou e venceu quando percebeu que, retirando-o do chão, sua energia declinava. Assim o fez, conseguindo estrangulá-lo.


HÉRCULES E GERIÃO

Foi sob a forma de um cavalo que Poseidon se uniu à Medusa, num templo da deusa Palas Athena. Foi por causa desta profanação que os cabelos da Medusa foram transformados em serpentes. Quando Perseu decepou a cabeça da Górgona, do sangue que escapou do corte nasceram o gigante Crisaor e o cavalo-alado Pégaso. O primeiro, desde o nascimento, carregava uma espada de ouro, significado de seu nome. Unido a Calírroe, uma oceânida, Crisaor foi pai de Gerião, gigante de três cabeças, e de Équidna, mulher de Tifon, o maior dos monstros, vencido por Zeus.

Quanto a Pégaso, sua história começa quando, tão logo nascido, e depois de ter prestado relevantes serviços a Perseu, ele voou para o Olimpo, colocando-se a serviço de Zeus. Foi enviado para auxiliar Belerofonte, permitindo-lhe realizar duas importantes façanhas: matar a Quimera e derrotar as Amazonas. Morrendo o herói, vitimado pela sua própria hybris (tentou escalar o Olimpo), Pégaso, mais uma vez, voltou à montanha divina.

Pégaso (etimologicamente, fonte), quando de suas andanças terrestres, por ordem de Poseidon, atingiu violentamente o monte
FONTE DE HIPOCRENE
Helicon com um coice, a fim de que ele deixasse de se envaidecer tanto por ter sediado uma disputa entre as Musas e as Piérides. No lugar do coice, brotou imediatamente uma fonte, a que deram o nome de Hipocrene, a Fonte do Cavalo, desde logo famosa porque suas águas, uma vez consumidas, ativavam a imaginação criadora dos poetas e músicos. Por essa razão também, o Pégaso foi considerado um símbolo da fecundidade e da elevação.


Pégaso é um dos grandes símbolos da inspiração poética e, como tal, pertence ao mundo da água. A água, em todas as tradições, sempre foi considerada como o ponto de partida de todas as formas, revelando-se como um infinito de possibilidades, como proposta de desenvolvimento. É ela, nos mitos e religiões, fonte de vida associada no ser humano ao seu psiquismo inconsciente, que precisa ser controlado, levando-o a assumir o papel de herói, cavaleiro. É a isto que se dá o nome de espiritualização do combate, que significa tanto o envolvimento em causas superiores (Júpiter, como regente de Sagitário e Peixes), de natureza transcendente, como a escolha de meios adequados e da necessária técnica para o domínio dos “cavalos” interiores, que tentam sempre escapar do controle a eles imposto (vide o primeiro trabalho de Hércules: a captura das éguas de Diomedes).


PEGASUS NO CÉU


Simbolicamente, aliam-se nele a velocidade, a vitalidade, o impulso ascendente e a independência dos pássaros. O seu poder de superar as forças que prendem à terra é que permite considerá-lo como o grande símbolo da inspiração superior de todos os artistas. Todavia, para montá-lo, é preciso perícia, qualidades de mente e de corpo e, acima de tudo, longa preparação espiritual para que sejam atingidos os elevados planos da criação artística. Quem o montar sem a devida preparação será imediatamente lançado ao chão e escoiceado por ele até a morte.  

Os antigos deram o nome de Pegasus a um grupo de estrelas situado perto da constelação de Andrômeda, emergindo do pescoço da princesa libertada por Perseu. Alguns astrônomos da antiguidade, entretanto, têm a opinião que essa constelação, antes de ser uma homenagem ao filho de Poseidon é um reconhecimento aos serviços prestados por esse animal que se colocou, na história da humanidade, num nível superior ao da espécie bovina (passagem da era de Touro para a era de Áries). Não se esqueça que os bovídeos selvagens, antes, e, depois, os cavalos foram os animais mais frequentemente reproduzidos nas pinturas rupestres da época glacial.

A domesticação do cavalo, como se sabe, só apareceu bem mais tarde do período em que o touro, o bisonte e outros animais semelhantes representaram o poder feminino, ligado à adoração das Grandes-Mães. Essa domesticação ocorreu antes no leste europeu e nos países da Ásia central. O valor do cavalo, inicialmente, era funéreo, associado ele ao reino dos mortos aos quais ele era sacrificado, desempenhando uma função de psicopompo (guia das almas).

Esta significação do cavalo como animal psicopompo, que permaneceu viva até hoje em muitos cultos pré-históricos remanescentes, pode ser notada em algumas práticas xamânicas do norte-nordeste asiático e vuduístas africanas. Os xamãs (o que sobrou deles) utilizam tambores revestidos com pele de cavalos para “penetrar” no mundo dos espíritos, montados num cajado, tornando-se possuídos pelas forças do Outro-Lado.

O cavalo, como símbolo do Outro-Lado, é encontrado, por exemplo, em expressões como “cavalo de São Miguel”, dos antigos
SÃO MIGUEL
franceses, para designar a padiola que transportava os defuntos. Lembremos que Miguel, entre os judeus, é arcanjo cavaleiro da mais alta hierarquia, chamado pelo nome de Príncipe da Água e Anjo de Prata. Miguel é Príncipe de Israel e atua como advogado do povo judeu diante de Deus.


Pegasus forma um quadrado no céu e se estende de 27º de Aquário a 10º de Áries. Os gregos o ligavam também à “hybris” de Belerofonte, considerando as suas influências perigosas, predispondo a julgamentos errados, vaidade, orgulho, caprichos, negativamente, e a intuição e entusiasmo, positivamente. A estrela mais brilhante de Pegasus é Markab, hoje a 22º 47´ de Peixes. Esta estrela dá aos que a possuem em evidência, por posição ou aspecto, a capacidade de manter o controle e a estabilidade do curso indicado pelo planeta com o qual se faz o aspecto. Ela lembra a necessidade de se diminuir o ímpeto, a hybris, no caso. Outra estrela relativamente importante de Pegasus é Scheat, hoje a 28º 41’ de Peixes, de natureza júpiter-mercuriana (hoje netuno-mercuriana), pois suas influências dizem respeito não só à valorização intelectual como à possibilidade de se escapar do pensamento lógico. Esta estrela compreende dois aspectos importantes do mito de Pegasus: inspiração criativa, diminuição dos modelos e formas racionais, e obtenção de meios técnicos (tekhné, educação) para se chegar à construção artística superior.

Poseidon teve relações com Alcyone, uma das Plêiades, tendo com ela os filhos Híperes, Antas e Hirieu. Observação importante para astrólogos, considerando-se que Netuno se exalta em Leão: Apolo e Poseidon tiveram muitos “casos” com as mesmas parceiras. As Plêiades, como se sabe, têm relação com o verbo navegar (plein, em grego), uma vez que, surgindo como estrelas nos céus, para onde foram levadas afim de fugir da sanha erótica do gigante Orion, indicam o período favorável para a navegação (fins de abril a novembro).


PLÊIADES

Alcyone se encontra hoje a 29º 18´ de Touro. Como faz parte de um cluster, sempre foi considerada através dele e, como tal, ligada a sua influência a problemas de visão. Estes problemas, desde a antiguidade, segundo astrólogos que estudaram a estrela, a relacionam com a visão interior, desejo de aprofundar o conhecimento da interioridade, achando alguns, mesmo, que ela teria ligação com o chamado “terceiro olho”.  Sigmund Freud, por exemplo, tinha as Plêiades (Alcyone, em especial) culminando, juntamente com Mercúrio.

Ligada a um planeta, Alcyone pede cuidado na sua avaliação, pois pode nos tornar “cegos” para o óbvio, causando confusão entre o que real e imaginário. Se, por um lado, ela oferece a possibilidade de insights profundos, pode ocasionar também julgamentos confusos quando se tratar de materia mystica.

Dos filhos que Poseidon teve com Alcyone, destaque apenas para Hirieu, que reinou na Beócia, e por ação divina se tornou pai do gigante Orion. A história de Hirieu é a seguinte: velho lavrador,
CONSTELAÇÃO DE ORION
pobre, hospedou com a mulher em sua pobre choupana Zeus, Poseidon e Hermes sem o saber, disfarçados, então em visita à Terra. Revelando-se os deuses, o velho Hirieu lhes pediu a graça de ter um filho, mais tarde o gigante Orion. Com a Harpia Celeno, Poseidon teve dois filhos: Lycos, que reinou na Ilha dos Afortunados, e Euripilo, que se destacou no cerco de Troia e tomou parte na expedição dos Argonautas. Um outro Euripilo, que reinou na ilha de Cós e foi morto por Hércules, nasceu , além do argonauta Anceu, de Poseidon e de Astypale, irmã de Europa.


Quione, filha do deus Bóreas, seduzida por Poseidon, teve dele o filho Eumolpo. Para não deixar que ninguém soubesse, ela lançou o filho ao mar; Poseidon, entretanto, o salvou, levando-o para a Etiópia, confiando-o sua filha Benthesicyne, acima mencionada, da qual Eumolpo se tornou genro mais tarde.

Uma das mais famosas relações de Poseidon, peculiaríssima, foi com Etra (etimologicamente, céu limpo, luminoso), filha de Piteu, rei de Trezana. Etra se casou com Egeu, rei de Atenas; este, embriagado por Piteu que o hospedava, foi introduzido no leito da filha. A jovem princesa, entretanto, no dia anterior tinha tido um sonho no qual a deusa Palas Athena lhe aparecera e ordenara que ela se dirigisse a uma ilha próxima do reino do pai. Sempre em sonho ela foi ao local indicado e lá lhe apareceu o deus Poseidon, que a engravidou.

Etra ficou grávida de Teseu, futuro rei de Atenas. Egeu sempre acreditou que a criança que nascera era produto da sua noite de amor com a jovem, quando embriagado dormiu com ela. O que se sabe é que Teseu permaneceu em Trezena, sob os cuidados de Etra e de Piteu, pois Egeu temia pela sorte da criança, devido às constantes crises políticas que ocorriam em Atenas. Só mais tarde, Teseu, como um jovem herói, chegou incógnito ao reino de Egeu, que a essa altura vivia com a maga Medeia.


JASÃO E O VELOCINO

Por causa de sua grande beleza, Teophane era procurada por inúmeros pretendentes. Para afastá-la dos que a cercavam, Poseidon transportou a jovem para uma ilha e lá se uniu a ela. Os pretendentes, todavia, para lá se dirigiram. O deus a transformou numa ovelha e para amá-la tranquilamente assumiu a forma de um carneiro. Fecundada pelo deus, a jovem tornou-se mãe do carneiro que transportou os jovens Frixo e Hele para a Cólquida e que mais tarde centralizaria o mito dos argonautas; sua pele daria origem ao famoso velocino de ouro.

Não será difícil entender que a história acima tem origem astrológica, ilustrando para muitos a busca de sabedoria, da espiritualidade, porque tem todos os ingredientes que lhe são comuns: viagem difícil, heróis, tesouro, dragão etc. Todavia, ao invés do velocino de ouro simbolizar um tesouro espiritual, tenho para mim que esse mito representa muito mais o imperialismo grego e a sua grande vocação colonizadora, eis que, como se sabe, a Cólquida, para onde voou o carneiro divino, era uma região riquíssima em minas de ouro.


TESEU E CERCION

Álope era filha de um bandido que assumira o trono de Elêusis. Notada por Poseidon, o deus a engravida sem que o pai o saiba. Nascida a criança, ela é exposta, como costume na época. Aleitada por uma égua, um dos animais-símbolo do deus, foi encontrada por pastores e, por causa do seu rico enxoval, acabou sendo levada a Cercion, pai da jovem. A égua que aleitava a criança conseguiu se aproximar do palácio real e, percebida a história pelo avô do menino, esta continuou a aleitá-lo. Por isso, o menino passou a ser chamado de Hipotoon, o rápido como um cavalo. Mais tarde, Teseu mataria Cercion e entregaria o reino ao jovem.

Por ter pilhado um bosque consagrado a Deméter, Erisicton (etimologicamente, o que salva a sua terra), rei da Tessália, foi punido, passando a experimentar uma fome insaciável. A fim de mitigá-la e com o intuito de obter mais dinheiro para comprar alimentos, pôs, além de muitos bens, a sua filha Mestra (matriz, útero, etimologicamente) à venda. Poseidon que nutria grande interesse pela jovem, deu-lhe o dom da metamorfose para que, transformando-se, pudesse escapar dos seus possíveis compradores. Isto é, vendida, ela se metamorfoseava e escapava deles. Mas quem se aproveitou do dom foi o pai da moça que a vendeu várias vezes. Um dia, porém, tudo foi descoberto. Não restou outra alternativa a Erisicton senão a de se devorar a si mesmo.

Dentre outros casos amorosos de Poseidon, podemos mencionar o que teve com Amimone, filha de Danao, que saíra à procura de água, devido a uma grande seca que assolava a Argólida, provocada
pelo próprio deus. Pondo em fuga um sátiro que perseguia a bela jovem, Poseidon obteve dela muitos favores amorosos. Para recompensá-la, o deus, com um golpe de tridente, fez brotar dos rochedos próximos uma fonte que recebeu o nome de Lerna. Amimone, como fruto das relações mantidas com Poseidon, teve um filho, chamado Nauplios, que deu nome à cidade de Nauplia. Essa fonte deu origem ao pântano de onde sairia a monstruosa Hidra, que Hércules enfrentaria no seu oitavo trabalho. Foi aí, lembre-se, que as cinquenta filhas de Danao jogaram as cabeças de seus maridos.  


PIRENE

A origem de uma outra fonte que se encontra em Corinto, chamada Pirene, também é atribuída a Poseidon. O deus tinha tido de Pirene, filha do deus-rio Aqueloo, dois filhos que haviam morrido miseravelmente. A mãe, inconsolável, não parava de chorar. Poseidon fez com que as lágrimas de Pirene se transformassem na mencionada fonte.

Como podemos perceber, Poseidon é, dentre outras coisas, um deus criador de fontes, cuja simbologia se liga à água em movimento, ao seu jorro, razão pela qual elas, as fontes, têm relação com um perpétuo devenir, que pode, conforme o caso, favorecer a inspiração, a criatividade, a longevidade, a purificação, a regeneração e o saber. Além do mais, as fontes, por sua origem e ligação com a água, lembram também a simbologia do matricial, do vital. Enquanto a água aparece como a essência do poder passivo ou feminino, a água jorrante analogicamente se associa à seiva, ao seminal, ao sangue, ao líquido vital, ao vinho dionisíaco. Como tal, a água jorrante lembra a compaixão ativa e  se opõe ao subconsciente, à água gelada, às águas paradas, estagnantes, à morte da alma.  

Um capítulo importante na crônica de Poseidon é a sua descendência. Dentre os mais importantes, destacamos o já mencionado Eufemo. Repetindo e definindo melhor algumas informações sobre ele prestadas, esclareço que era filho de Europa, filha de Titio, este gigantesco filho de Zeus, de quem Hera se serviu para perseguir a infeliz Leto, mãe dos Luminares. Foi fulminado por Zeus e até hoje está no Tártaro. Seu fígado, que sempre renasce, como o de Prometeu, é destruído diariamente por duas águias. Eufemo recebeu do pai, como se disse, o dom de andar sobre a superfície das águas. O deus Tritão lhe deu um torrão de terra mágica que, lançado por ele ao mar, deu origem à ilha de Tera.

Halirrótio (o estrepitoso, o barulhento), filho de Poseidon com uma ninfa, tentou violentar Alcipe, filha do deus Ares, que o matou. Levado a um tribunal divino por Poseidon, Ares, para espanto de todos, se defendeu tão bem que foi absolvido por unanimidade. O local onde se realizou o julgamento, uma colina de Atenas, recebeu, desde então, o nome de Areópago, colina de Ares.


AREÓPAGO

Famosos eram os Alóadas, filhos de Poseidon e de Ifimedia. Esta, embora casada com Aloeus, perdeu-se de amores pelo seu sogro. Os gigantes chamavam-se Oto (mocho, ave noturna) e Elfiates (íncubo, pesadelo). Ifimedia demonstrava seu grande amor pelo sogro indo diariamente banhar-se no oceano. Sensibilizado por essa demonstração de amor, Poseidon se uniu a ela. Os gêmeos eram tão imensos e fortes que ousaram emular-se com os deuses, tentando conquistar Hera, o segundo, e Ártemis, o primeiro, além de constantes ameaças que faziam no sentido de assaltar o Olimpo. Zeus, cansado de tanta insolência, os fulminou.


POLICEMO

Além destes e de muitos outros não podemos esquecer de Polifemo, o cíclope, gigante que Ulisses enfrentou e cegou, quando de sua passagem por região próxima de Nápoles, como está na Odisseia, de Homero. Por essa façanha, o rei de Ítaca foi perseguido por Poseidon, que quase chegou a matá-lo.

O que devemos reter quando nos aproximamos da descendência de Poseidon é que toda ela é monstruosa, disforme, destrambelhada, imensa. Não havia regras ou limites para ela, eram todos antissociais, infensos a qualquer forma de convívio social. Talvez possamos considerá-los como uma ilustração da impressão de terror que causavam aos primeiros seres humanos do Egeu as cóleras dos mares tempestuosos. A única exceção, quanto ao que aqui se coloca, talvez tivesse sido Teseu. Mesmo assim, porém, o rei de Atenas era uma figura que estava longe de se enquadrar em padrões de normalidade.

Ainda mais: Poseidon foi formidável gerador de monstros que ele enviava para destruir os seus inimigos ou punir aqueles que se
MURALHA DE TROIA
excediam de algum modo. Lembre-se, por exemplo, neste particular, do monstro que ele enviou para destruir Troia quando, terminada a construção da muralha da cidade, na qual ele e Apolo haviam trabalhado, o rei Laomedonte recusou-se a lhes pagar o salário combinado.


 Foi Poseidon também quem enviou um pavoroso monstro marinho para dizimar a Etiópia, a fim de punir a hybris descomunal de sua rainha, Cassiopeia, mãe de Andrômeda, que se julgava mais bela que a deusa Hera. Foi também Poseidon quem enviou o dragão que causou a morte de Hipólito, filho de Teseu. Poseidon tinha ainda o costume de presentear com cavalos alados, como aconteceu com Xanto e Bálio, animais “inteligentes” oferecidos a Peleu.  


MORTE DE HIPÓLITO

Deus dos tremores de terra e deus do elemento líquido, Poseidon é incontestavelmente a grande divindade dos oceanos e mares em toda a sua imensidão e poder selvagem. Seu domínio estende-se, como se viu, não só às águas salgadas, mas também às águas doces, das quais depende a fertilidade dos campos, sendo por isso considerado como uma divindade agrária.

Ao lado de Poseidon, é de se registrar, atuavam no elemento líquido de modo independente outras divindades, não ligadas à sua
GLAUCO
linhagem, nem lhe sendo tributárias. Uma delas é Glauco, nome que lembra o azul sombrio, a cor que toma o mar quando o vento começa a soprar. Há muitas histórias sobre esse personagem. A que parece mais aceitável nos revela que ele era, na origem, um humilde pescador chamado Anthedon, que, morando em Delfos, recebera de Apolo dons divinatórios. Uma vez por ano, ele percorria o mar Egeu fazendo profecias. O dom, como nos conta o poeta Virgílio, ele o transmitiu a uma filha, Deífobe, que se transformaria na famosa Sibila de Cumes, na Itália.


Um dia, voltando da pesca, o pescador-profeta depositou os peixes que pescara, já mortos, num tufo de ervas perto de onde se sentara, junto de um rio. Espantadíssimo, viu que os peixes recuperavam a vida e se lançaram no rio, desaparecendo. Teve uma ideia: experimentou a erva e se viu transformado num tritão, tendo sido admitido, doravante, entre as outras divindades.

Glauco era uma divindade triste, todos concordavam, muito infeliz nos seus amores. A única exceção foi Syme, raptada por ele, que a homenageou, dando seu nome a uma ilha que fica entre Rodes e a península de Cnido. Quando Ariadne estava abandonada na ilha de Naxos, Glauco tentou seduzi-la, nada conseguindo, porém.


INO E MELICERTES RECEBIDOS POR DEUSES DO MAR

Glauco era muitas vezes confundido com um personagem de origem humana e que fazia parte do grupo das divindades marinhas. Seu nome era Melicertes, filho de Atamas de Ino, esta irmã de Sêmele, a  mãe de Dioniso. Odiada por Hera, por ter se encarregado de criar o menino-deus na ausência da mãe em virtude de sua morte, Hera perturbou a mente de Atamas, que matou um de seus filhos. Para evitar que o mesmo acontecesse com o outro filho, Melicertes, Ino se lançou com ele no mar, sendo acolhida pelas nereidas. Ino começou a ser chamada então de Leucoteia, tornando-se uma divindade protetora dos navegadores (Ulisses) e Melicertes se transformou num garboso delfim.