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quarta-feira, 9 de julho de 2014

HÉRCULES - DÉCIMO SEGUNDO TRABALHO


BOIS   DE   GERIÃO

OS BOIS DE GERIÃO - Como último trabalho, Hércules havia recebido a incumbência de libertar os bois vermelhos aprisionados
GERIÃO
por Gerião, o gigante de três corpos e de seis braços. O gado estava na ilha Eritia que ficava nos confins do Ocidente, no reino do deus Oceano, além do jardim das Hespérides, as ninfas do poente. Os animais avermelhados eram guardados por um pastor chamado Eurítion e pelo seu monstruoso cão Ortro, filho de Tifon e de Équidna. Gerião governava a ilha. O rebanho deveria ser trazido por Hércules para Micenas.



ORTRO

Antes de partir, Hércules fez oferendas ao deus Hélio, o deus solar, pondo-se depois a caminho da ilha que, sabia, ficava muito além, nas brumas do Ocidente. Havia partido sem ter resolvido um dos grandes problemas, talvez o maior, que enfrentaria: como trazer de volta os animais, como transportá-los?  Ao atravessar o grande deserto líbio, entrou em luta contra vários monstros e assaltantes que infestavam a região. O Sol abrasava, causticante. Lembrou-se então de pedir por empréstimo ao deus Hélio a sua grande barca, a chamada Taça do Sol, gigantesca, que o astro-rei usava todas as noites para mergulhar no oceano ao retornar ao seu palácio no Oriente. Hélio negou-se a atendê-lo. Hércules então ameaçou vará-lo com as suas infalíveis flechas apolíneas. O deus resolveu então lhe ceder a grande Taça.


HÉLIO

O tema da Barca Solar traz a ideia da vida como viagem, uma travessia cheia de perigos, uma viagem que diariamente se renova. Fonte de luz, o Sol é aqui esperança de  renascimento para um outro tipo de vida, já que ele, ao fim de cada dia, toma a sua Barca para atravessar o reino das trevas, reaparecendo a cada manhã, vitoriosamente. Assim como ele, os que entram na sua Barca também retornarão da viagem que a cada noite terão que fazer.

O trabalho, mencione-se logo, refere-se ao signo de Peixes, o fim do inverno. Iconograficamente, o peixe em todas as culturas do mundo indo-europeu é um emblema da salvação. Por viver nas profundezas do elemento líquido, tem relação com as forças sagradas do abismo, portanto, com a vida inconsciente.  A cultura hinduísta, por exemplo, usará o peixe (matsya) como símbolo do primeiro avatar do deus Vishnu, a segunda pessoa da sua trindade, para designar aquele que salva do dilúvio Manu, o homem mítico, o legislador do ciclo atual.  No Cristianismo, o peixe (ichtus) adquire o 
VISHNU   E   MANU
mesmo sentido, o da salvação. O pastor é a imagem simbólica do guardião que protege dos agressores. A imagem nos vem dos povos nômades, pastores. David, que defendia os rebanhos contra os leões e os ursos, entre os judeus, é um exemplo. Jesus será chamado por isso de o Bom Pastor, imagem muito difundida nos meios cristãos. Na mitologia grega, lembremos, um dos nomes do deus Hermes era Crióforo, o pastor que carregava nos ombros o animal tresmalhado, uma imagem de solicitude com relação aos que se perdem na vida. Nesse sentido, era a divindade protetora dos pastores nômades do mundo indo-europeu. 



HERMES   CRIÓFORO

O simbolismo do pastor põe em evidência características de sabedoria intuitiva e experimental, de proteção ligada a um conhecimento. Além disso, nos fala sempre de uma função que para o seu exercício requer constante atitude vigilante. Por outro lado, o pastor é sempre um nômade, um desenraizado, sempre alguém que está de passagem, como a alma que um dia tem de abandonar o corpo físico para continuar a sua viagem num outro plano.

Preso ao Mediterrâneo com a enorme Taça, Hércules tem outra ideia engenhosa. Criar uma passagem deste mar para o grande oceano. Com a Taça do Sol força a passagem, abrindo um estreito, de 15 km. de largura e de 350 m. de profundidade, separando assim os dois continentes e levantando em cada uma das margens, da europeia e da africana, duas enormes colunas para celebrar essa separação. Essas colunas receberam o nome de Colunas de Hércules; a "coluna europeia" é hoje constituída de Gilbraltar, Algesira e Tarifa; a "africana", de Ceuta e Tânger.




Entrando no grande oceano, nosso herói chega à ilha Eritia, a ilha vermelha, enfrentando logo o monstruoso cão, morto a golpes de clava. O pastor Eurítion aproximou-se de Hércules, que logo se preparou para também lutar contra ele. Mas não houve luta, o pastor era inofensivo, Hércules acabou concedendo-lhe a graça da vida. Aproximando-se da manada, Hércules viu surgir diante si, colérico, em meio a uma grande nuvem de poeira, entre urros e berros, a figura monstruosa de Gerião.

Gerião quer dizer fazer ruídos com a voz, fazer ressoar, estertorar (estertor é a respiração dos moribundos, respiração agônica, como o estourar de bolhas). Uma outra etimologia admitida para Gerião nos diz que o nome se aproxima mais de palavras como canto e discurso ao invés de ruidoso ou barulhento. O gigante é, em geral, representado não só com três cabeças como com três corpos, além de dois pares de pernas, e, em algumas versões, com asas.  


PERSEU   COM   A   CABEÇA   DA   MEDUSA

Era filho de Crisaor (filho de Poseidon e da Medusa), a "espada de ouro", nascido do pescoço ensanguentado da Górgona quando decapitada por Perseu. Desde seu nascimento, tinha em suas mãos uma espada de ouro. No momento em que a nuvem de poeira baixou em torno de Gerião, Hércules conseguiu com uma de suas flechas apolíneas, disparada com grande violência e como que orientada por mão divina, atravessar os três corpos do gigante, prostrando-o ferido de morte, inapelavelmente.

O trabalho prosseguiu: Hércules tentava, com grande esforço, juntar os animais, extremamente indisciplinados. Aos poucos, com muita paciência, empurrou-os para dentro da Barca Solar. Partiu, então, em direção do continente. Fez o caminho de volta pelo norte,
RUINA  DAS  TORRES   DE   HÉRCULES
entrando pelo noroeste do que é a Espanha de hoje, pela Galícia, onde até hoje, segundo a tradição local, perto de la Coruña existem, como lembrança dessa passagem, ruínas de duas torres, conhecidas deste tempos imemoriais como as "torres de Hércules". Com o seu "gado vermelho", Hércules entrou pela Gália, descendo pela Itália. Além de tentar recuperar muitos animais que fugiam e se extraviavam constantemente, um trabalho insano, Hércules teve que travar muitas lutas para protegê-los não só de ladrões como de falsos pastores que tentavam atraí-los de várias maneiras. Na Ligúria, perto da futura Gênova, lutou contra dois gigantescos filhos do deus Poseidon, que tentaram, em nome do pai, se apossar do rebanho. No Lácio, perto da futura Roma, mais lutas. Recebido pelo rei Evandro, seguiu depois em direção do sul. Muitos animais fugiram, entrando nas águas, dispersando-se em direção da Sicília. Hércules os trouxe de volta, matando o rei da ilha, que deles se apossara. O nome Itália, lembremos, tem origem neste trabalho de Hércules. Em Latim, uitulus é vitelo, bezerro. De uitulus, uitela, portanto, saiu Itália.




  
Depois de muitos esforços, recuperando os animais que se extraviavam, perdendo alguns, o restante do rebanho, ainda assim muito numeroso, foi atacado por moscardos gigantescos, enviados pela deusa Hera. Este ataque quase enlouqueceu os animais. Com muita paciência e obstinação Hércules conseguiu recuperar quase todos, inclusive os que haviam se dispersado pelas montanhas da Trácia. Ao final, depois de tão acidentada e penosa viagem, nosso herói deu por terminado o seu último trabalho, entregando os animais a Euristeu em Micenas, que mandou soltá-los nos pastos.

O gado vermelho mencionado neste trabalho é, metaforicamente, a humanidade, a manada, submetida ao monstro de três cabeças, cada uma delas representando os três corpos que aprisionam o homem-massa, a vida instintiva, a vida afetivo-emocional e a vida conduzida pelo mental inferior, fixando-a nos seus desejos inferiores. O vermelho, como sabemos, é a cor do princípio vital, enquanto representa força, a circulação do sangue, a vida instintiva, o impulso vital. O vermelho é a cor das pulsões fundamentais e também das paixões, lembrando a indiferenciação, a vida inconsciente, não reflexiva. Neste sentido, o vermelho tem relação com o mundo infernal, algo devorador, a cor de uma goela chamejante e profunda que indiscriminadamente tudo engole.

        Astrologicamente, como dissemos, estamos no signo de Peixes,
final do inverno, o período que antecede o equinócio de primavera. Tudo o que ainda estava preso a uma forma aqui a perderá. Ideias de liquefação, de dissolução. Tudo é desfeito, a coesão se igualará a zero, fusão com o todo. Retorno ao ilimitado, comunhão, confusão. Dois peixes (matéria e espírito) unidos por um fio, em sentido contrário, um subindo e outro descendo, libertação final. Corta-se aqui o fio para que o corpo deixe de reter a energia. Não mais, então, o corpo como prisão da alma.

Peixes é o último signo do elemento água, associado ao mundo hibernal, onde aparecem os fluxos do degelo que criam o dilúvio purificador, onde tudo é posto em comum, onde as fronteiras são
abolidas. É neste momento que a alma aprisionada faz o seu retorno. Termina o processo iniciado em Câncer (águas ligadas ao nascimento, origem da vida orgânica), que passou pelas águas paradas de Escorpião, lugar de germinações ocultas, de fermentações, de estagnação. Em Peixes, temos as águas em permanente movimento, a imensidão oceânica, a alma se libertando das suas funções terrestres e retornando à sua fonte original, na sua mais perfeita representação, que é a do Brahman dos hindus. 

Enquanto Virgo, signo oposto ao de Peixes, é detalhe, minúcia, particularidade, limite, fronteira, medida certa, este último é o ilimitado, o global, o infinito, o inclassificável, o inapreensível, o inefável, o inconsciente. Duas dimensões: Virgo é a microscopia, a patologia, a relojoaria, a filatelia, a precisão mecânica; Peixes é a telescopia, a astronomia, a nuvem, a imensidão, a galáxia.  Em
MESSIANISMO
Peixes temos, no lugar da ideia de um homem, a de "todos os seres humanos", um oceano comunitário onde não deve haver diferenciação. Peixes engloba por isso o que não é mais, o que está além das fronteiras individuais. No signo, assim, sempre presentes ideias de dilatação, superação, misturas, indistinção, fusão do eu com o não-eu. São do signo os movimentos coletivos de solidariedade, o messianismo, a salvação, o socialismo nas suas diversas formas, o impressionismo na arte. Negativamente, o signo é caos, abulia, anarquia, escândalo, alucinação, droga, visionarismo, escapismo, afinidade com mundos utópicos, perda da identidade, com rendição, em favor do todo.



IMPRESSIONISMO   -   MONET

O planeta de Peixes é Netuno, cujo símbolo é o tridente (trikala, na Índia). Dois deuses na Mitologia grega o usam de modo especial, Poseidon e Hipnos. Nas mãos do primeiro, é indiferenciação, anulação de fronteiras, a indistinção primordial que antecede a criação. É de Peixes que parte a manifestação original, simbolizada, conforme o caso, pela ilha, pelo lotus, pelo carneiro, pelo impulso primaveril, pela montanha etc. Na Índia, quem usa o tridente (trishula) é Shiva, terceira pessoa da trindade hinduísta, o transformador dos mundos e destruidor das aparências. As três pontas do tridente representam o passado, o presente e o futuro ou os três gunas (rajas, tamas e sattva).


POSEIDON   (  NETUNO  )

Quando Hipnos, o deus do sono, irmão gêmeo de Thanatos, deus da morte, toca com o tridente as nossas pálpebras, fechamos os olhos, dormimos; o tempo é abolido, Morfeu, o de mil formas, seu filho, poderá então se manifestar, vindo como Oniro, o sonho enganador, ou Hypar, o sonho premonitório. É em Peixes e com os seus astros regentes (Netuno e Júpiter) que as fronteiras entre o pessoal e o cósmico desaparecem. Os do signo são, por isso, os que menos se pertencem, os que têm mais facilidade para fazer desaparecer o egocentrismo e o individualismo. Daí, os grandes temas piscianos como renúncia, sacrifício, martírio, adaptação extrema, subjetivismo cósmico, plasticidade psicológica excepcional, maleabilidade, receptividade absorvente, sugestionabilidade, vulnerabilidade. Tudo isto pode transformar o pisciano numa caixa indiscriminada de ressonâncias. Ao mesmo tempo, pode ocorrer uma expansão extrema do ser, que levará invariavelmente, os tipos mais malogrados do signo, ao abandono da vontade (não querer ser, não escolher, não decidir), a um deixar-se absorver, ao sacrifício do eu em prol do todo, a êxtases místicos. 

Manias de perseguição podem se apresentar, tendências à fuga, evasão, falta de impulsos energéticos. Em muitos, temos os casos de o menos direcionado dos psiquismos, onde tudo é difuso, oscilante, ficando os tipos mais inferiores sempre sujeitos à mínima vibração ambiental. Nascem neles então, o conformismo, a adaptação, o desejo de serem tratados de modo diferente já que se apresentam como seres muito indefesos. Nos tipos mais passivos, comuns as táticas, o teatro, o papel de vítima que nada faz,  mas que quer ser levada a sério, o irresponsável que pede considerações especiais; arte inconsciente, estratégias infantis, mimetismo, identificação; sensação de vítima sem meios de reação, impotência, resignação. Os mais negativos escolhem suas vítimas, submetem-se a elas, servem-nas, mas as escravizam, nelas criando sentimentos de culpa. Peixes é o signo que mais dificuldades encontra para obter alimento para o seu psiquismo. Por isso, o vampirismo psíquico é uma das grandes marcas do pisciano malogrado.

Os tipos superiores, ao contrário, redimem-se, escolhem, usando as antenas da sua enorme sensibilidade para aliviar males, curar, auxiliar, servir, salvar. Não mais a doença e o sofrimento como refúgio. Agora, um servidor da humanidade. Não mais o complexo de mártir ou de fuga. Transformar o martírio em serviço. Mesmo no pisciano superior, contudo, as características mais positivas estão, muitas vezes, latentes, inibidas, devido à grande pressão do ambiente que o faz captar demais, sentir, desenvolver tendências altamente empáticas. Neste sentido, Peixes é o signo dos embaraços e dos obstáculos. O excesso de água pode impedir que os  traços superiores se manifestem. A saída muitas vezes é feita pelo emocional ou pela imaginação.



As propostas são, pois, as que o décimo segundo trabalho sugere: libertar a alma das pressões dos três corpos, libertar a humanidade do cativeiro, a alma das suas pressões instintivas, afetivo-emocionais e mentais (inferiores). Transmutar o inferior em elevado, a negatividade e impotência em controle; a mediunidade inconsciente em intermediação consciente, a autopiedade e autocomiseração em trabalho aplicado. O dilema pisciano é, em certo sentido, afundar ou nadar. Se nadar, não mais o amor sacrificado, mas o amor oblativo (oblatus, oferecido). "Quem perder a sua vida se salvará! Quem quiser ganhá-la, se perderá!" 

Netuno, o planeta de Peixes, nas suas expressões superiores, é sublime, elevado, relaciona-se com o social, com os salvadores da humanidade, tem a ver com a dinâmica pela qual as obrigações sociais podem ser observadas como resposta a um sentimento obscuro de culpa ou de dever espiritual. Prestar serviços à sociedade, libertá-la, contribuir de algum modo, desenvolver a sensibilidade à injustiça, jogar-se nas utopias com os pés no chão, elevação acima das paixões negativas, ideias de mitigar, de dar alívio, entregar-se a uma causa, proteger, dedicar-se.

É de Peixes a frase: "Feche os olhos e veja!" A riqueza de
SURREALISMO   NO   CINEMA

possibilidades nos do signo pode levar muitas vezes à irresolução, à vida projetada nos sonhos, sempre uma espécie de neblina a envolvê-la, uma neblina que enfraquece os contornos (o Impressionismo e o Simbolismo aparecem como movimentos artísticos quando da descoberta de Netuno em meados do séc. XIX, 1846; são do signo, também, o Surrealismo e o Cinema, a "arte de mentir", que apareceriam mais tarde). 




PÉS   E   PLEXO   SOLAR


Saúde física e psiquismo em Peixes são, mais do que em qualquer outro signo, inseparáveis. Outro aspecto importante: a repercussão que a vida coletiva tem sobre a saúde. É o pisciano o primeiro a captar o sinal das epidemias, hipotéticas ou ainda distantes, o primeiro a estudá-las. Já se observou que o pisciano não é um doente que se escuta, mas um doente que escuta (leitura de publicações médicas, hipocondria, farta documentação etc.). Daí, os diagnósticos difíceis, os erros médicos e de exames laboratoriais, já que há grande tendência de que as causas das doenças estejam sempre em lugares diferentes dos apontados. Mais do que qualquer outro tipo astrológico, são os piscianos os que mais necessitam de médicos generalistas, médicos da família. Grande é a tendência a delírios psicológicos de natureza sensorial. No geral, disfunções glandulares, mucosas, pulmões, problemas alérgicos. A porta de entrada de várias doenças está em muitos casos nos pés. Comuns os inchaços, as varizes, as deformações nos pés. Estudar as relações entre plexo solar (Virgo) e os pés (Peixes). Tudo o que aparece sob o rótulo de veneno, toxina, álcool, droga, de produto sintético ou
artificial é muito prejudicial a Peixes.  Grande vulnerabilidade dos do signo a tipos astrológicos que tenham signos "fortes" e "dinâmicos". Grande afinidade com asilos, creches, prisões, serviços sociais, enfermarias, teatros, cinema, lugares isolados, ilhas, refúgios,  laboratórios. As lágrimas são do signo como líquido do sofrimento. Nos tipos superiores, a lágrima é a água que faz renascer para uma outra vida.

O pisciano superior vai fazer da sua grande capacidade de sentir, da sua piedade natural, da sua compaixão, o impulso básico da sua vida. Transforma assim a ideia de sina, de destino cego, de maldição, a sua hipersensibilidade, num fator positivo. Ele será então capaz de compreender tudo, de perdoar tudo, não mais na base da complacência absurda, mas na perspectiva de que as coisas não mais voltarão a ocorrer. Não mais fazer que não vê, não mais deixar passar, aquela horrível sensação de rendição, de desproteção diante da vida, não mais a simulação da doença. De Sagitário a Peixes, das coxas para baixo até os pés, estes que são os agentes que tudo suportam, resignados, espremidos, apertados, maltratados. Mas são eles, a dor do mundo, que nos põem de pé, verticalmente. É por esta razão que Leonardo da Vinci destacou os pés de Bartolomeu, iluminando-os, o apóstolo que representa o signo, na sua Última Ceia.   


ÚLTIMA   CEIA  -  ESBOÇO  A  CARVÃO  -  ( LEONARDO  DA VINCI )
   
Na galeria dos piscianos, pelo signo solar ou pelo ascendente, encontramos: Schopenhauer, o solitário de Frankfurt, com seu cão Atma; Georges Bernanos (Fico feliz por ter construído tão mal a minha vida...), Gorki, Lenin, Saint Just, Victor Hugo, Chopin (esquizoide, um ferido pela vida); Bach, Oscar Wilde, Flammarion, Rudolf Steiner, Leonardo da Vinci, Galileu, Michelangelo, Einstein, Lautreamond, Montaigne, Petrarca, Ronsard, Edgar Alan Poe, Lindbergh, Leão XIII, Santa Teresa de Lisieux, Renan,   Cesário Verde, Anna Magnani,  Camilo Castelo Branco, Ovídio, Dirk Bogard.

Quando o Sol chega à constelação de Peixes, como se disse, estamos no último mês do inverno, a totalidade criada chega ao fim. Nada mais ficará preso a uma forma. O signo de Peixes se situa no limite entre dois universos, um que está deixando ser e outro que ainda não é.  Por isso, o símbolo do signo, dois peixes nadando em sentido contrário, expressam tão bem esse setor do zodíaco.

É por essa razão que aos nativos do signo é impossível aplicar a lógica do signo oposto (Virgem), a análise, já que vivem mergulhados na sua interioridade, intimamente relacionados com o êxtase e a compaixão. Eis porque o signo acolhe gente como Johan Sebastian Bach, com as suas catedrais musicais, Michelangelo, o pintor do juízo final, e Einstein, com a sua formulação do infinito cósmico diante da finitude terrestre.


JUÍZO   FINAL   -   MICHELANGELO   

 É neste período do ano, fevereiro - março, em que o úmido reina soberano, que temos, com toda a sua evidência, sinais de difusão, de diluição, de fusão das partes na totalidade, de uma imensidão fluida. A água é o elemento em que os mais profundos mistérios da vida se radicam. Nascimento e morte, passado, presente e futuro, tudo se interliga com a água. É por essa razão que os espíritos da água profetizam; para eles, não há fronteiras entre o passado, o presente e o futuro. O tridente de Netuno põe tudo em comum 
  

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - MERCÚRIO (2)


Conforme a mitologia grega, Hermes nasceu numa caverna do monte Cilene. Era filho de Maia, a mais velha das Plêiades, e de Zeus, o Senhor do Olimpo. As Plêiades (plein, em grego, navegar) eram as sete filhas do titã Atlas e de Plêione, uma oceânida. Todas se uniram a deuses, com exceção de Mérope, que se ligou a Sísifo. Por essa razão, quando, mais tarde, transformadas em estrelas, formando uma pequena constelação, um asterismo, Mérope, sentido-se inferior às demais irmãs, escondeu-se, tornando-se praticamente invisível nos céus. 

HERMES
 Atuando astrologicamente no final da constelação de Touro, lembro que as Plêiades, desde tempos muito remotos, devido à sua grande visibilidade entre os meses de maio a novembro, sempre foram consideradas como muito propícias à navegação, indicadoras de bom tempo para os que voltavam a se se aventurar nos mares depois do longo período hibernal. 

Mensageiro dos deuses, deus da comunicação, do comércio, das trocas, Hermes liga os três mundos, o céu, a terra e os infernos. Simboliza a inteligência humana tanto nas suas melhores expressões como nas piores, no que ela tem de mais corrompido e perverso. Exerce também a função de  psicopompo como condutor das almas ao Hades. Sempre foi também muito representado na
O BOM PASTOR
forma de uma divindade agrária, carregando um carneiro nos ombros, chamado, por isso, de Crióforo (krios, carneiro; phore, portador), o Bom Pastor, imagem simbólica da solicitude com relação àqueles que se perdem da vida, muita usada por várias religiões. O simbolismo do pastor, quando pensamos em Hermes, pressupõe características de sabedoria intuitiva e exercício constante da vigilância. Hermes é, neste sentido, o desperto, o que vê tudo. É um observador atento dos céus, do movimento dos astros, prevê o tempo, percebe todos os ruídos e qualquer anormalidade, a mínima que seja, na movimentação do rebanho.


É Hermes o deus politécnico por excelência, guia e mediador, personificando a revelação da mente superior aos humanos,
HERÁCLITO
recebendo por isso o apelido de “Logyos”, o deus do logos. Neste sentido, Hermes tem relação, de modo especial, com dois conceitos gregos: logos e nous. Logos é palavra que pode adquirir inúmeros sentidos, discurso, relato, razão, definição, faculdade racional, proporção. Um dos primeiros a usar logos em seus textos foi o filósofo Heráclito. Para ele, logos é o princípio subjacente e organizador do universo, adquirindo aqui a palavra o sentido de proporção; é através do logos que se criam as tensões entre os opostos, as mudanças através das quais o universo está em constante devenir.    

 
   Platão usou também o termo logos de vários modos. Um deles foi o de opo-lo a mythos (fantasia, imaginação, criação poética), com o significado de relato verdadeiro, analítico. Platão salienta
PLATÃO
(Fedon) como característica do verdadeiro conhecimento (episteme) a capacidade que ele tem de nos permitir fazer, sobre o que quer que seja, um relato (logos), que toma então o nome de opinião verdadeira (doxa). Nous é inteligência, busca de um princípio ordenador. Já Heráclito nos fala de uma ordem oculta sob a aparência das coisas, ordem esta que ele descreve como logos. Noeton é então o objeto da operação da faculdade do nous.


Em que pesem as várias contribuições filosóficas de matizes diversos, a mitologia grega deixou evidente que Hermes sempre representou o conjunto de todas as funções que no homem tem por objeto o conhecimento, no sentido mais amplo do termo (sensação, atenção, memória, imaginação, entendimento, razão, consciência). Hermes é um conceito que serve para designar uma das três grandes classes dos fenômenos psíquicos (os outros dois são os fenômenos afetivos e os fenômenos ativos ou motores). A atividade de Hermes, neste sentido, se opõe, ou melhor, difere do que entendemos por  sensação, emoção, instinto  e imaginação. 

Por suas características, alguns vêem Hermes como uma representação das luzes matinais (Ashwins, os Dióscuros védicos) e outros o associam ao vento, pois as Plêiades, das quais descende, eram sinal, no período em que brilhavam nos céus, de tempo bom para a navegação. Não esqueçamos que Hermes foi o inventor da syrinx, chamada mais tarde de flauta de Pan (filho de Hermes), instrumento musical associado ao vento, ao sopro. A flauta (do latim, flare, soprar) é um dos instrumentos mais rudimentares que existe, fazendo parte de uma família que se opõe à dos instrumentos de cordas, nascidos da lira de Apolo (também inventada por Hermes), contrapondo-se assim àquilo que (soprado) em música é pinçado (cordas).  

Como acontece com outras divindades gregas, sempre foram propostas para o nome Hermes inúmeras etimologias. Uns o aproximam do nome sânscrito Sarameya, divindade da tempestade e da aurora. Sarameya era uma divindade dupla, formada por dois cães, que guardavam e recuperavam os animais que escapavam do rebanho do deus Indra. Outras versões, na Índia, nos dizem que os dois cães, Sarameyas (Os Rápidos), trabalhavam para Yama, guardando a via pela qual as almas dos mortos desciam ao reino infernal. 
 
YAMA

 Outras etimologias gregas aproximam o nome Hermes da palavra orme, que significa ímpeto, movimento, expedição e, figuradamente, o primeiro passo de um empreendimento. Há ainda quem afirme que as primeiras representações do deus evocam a palavra “erme”, pilastra, herma, ou o verbo eryomai, proteger. 

Alguns detalhes da vida de Hermes são muito semelhantes aos que encontramos na história de outros personagens da mitologia védica. O roubo de parte do rebanho de Apolo parece ser uma reprodução de fato idêntico ocorrido com os animais do deus Indra. É possível, nesta linha de pensamento, encontrar também uma certa semelhança entre as ações de Hermes e as dos Maruts védicos, divindades ligadas ao vento. Aliás, um dos mais antigos apelidos de Hermes, Ageirophantes (aquele que torna o céu claro), aponta para o deus como aquele que tranquiliza os viajantes, limpando o céu, sinônimo de boa viagem. Nesse sentido é que Hermes era visto como uma espécie de raptor de vacas (nuvens carregadas de chuva, símbolo da fertilidade). Esta ligação de Hermes à vaca confirma que ele teria atuado, em tempos muitos remotos, como divindade pastoril, decorrendo dessa atividade um dos seus antigos apelidos, “Nomios”, protetor dos rebanhos. Foi por essa razão que o deus teve também um culto muito especial na Arcádia, através das chamadas Hermeias”, festas em que era honrado como aquele que fazia os rebanhos crescerem. 

Hermes, na sua forma mais antiga, era não só um protetor dos rebanhos; guardava também as cabanas dos pastores. Decorre disso o antigo hábito de manterem os pastores, na porta de entrada de suas moradias, uma imagem do deus. Com a invasão das tribos dóricas, porém, o prestígio de Hermes como divindade pastoril e agrícola diminuiu, sendo seu atributo de Nomios passado para Apolo, deixando de ser assim o filho de Maia uma divindade ligada à fecundidade animal e vegetal, ganhando, porém, novos atributos.

Hermes foi assumindo aos poucos a função de divindade protetora dos viajantes, seu guia em perigosas peregrinações. Suas imagens se espalhavam ao longo dos caminhos e sobretudo nas encruzilhadas, onde se colocavam imagens itifálicas do deus. Foi
HERMES ITIFÁLICO
por uma extensão natural desta função que Hermes acabou sendo encarregado também de conduzir as almas dos mortos ao Hades, assumindo as funções de psicopompo. Como o grande motivo das viagens no plano terrestre eram naqueles tempos os negócios, Hermes acabou por se tornar também um deus do comércio, do acaso, dos lucros lícitos e sobretudo dos ilícitos. Além disso, como os mercadores se lançavam muitas vezes em longas discussões, precisando vencer as hesitações dos compradores com palavras hábeis e sutis, quando não enganadoras, Hermes também assumiu o papel de deus da eloquência, uma extensão do seu apelido Logyos


A todas estas atribuições é preciso acrescentar uma das mais importantes, a de mensageiro de Zeus. É assim que Hermes aparece
ZEUS
na obra de Homero, onde ele recebe o nome de Diactoros (mensageiro), vindo constantemente à Terra (dentre as divindades do Olimpo, Hermes foi sem dúvida uma das mais “terrestres”, isto é, vivia mais entre os humanos que entre os seus pares), em missões muito delicadas, já que era encarregado por Zeus, na maioria dos casos, de lidar com o lado “sujo” da vida espiritual. Por estas razões, como infatigável arauto, pela sua grande disposição física, Hermes sempre foi honrado nos ginásios e nas palestras. Ele pontificava nesses lugares com o nome de Agonios (aquele que preside as competições, os jogos, as lutas). Sua estátua ficava na entrada dos mencionados recintos, nos estádios olímpicos, atribuindo-se-lhe inclusive a invenção do pugilato e das corridas. 


PRÁTICAS ESPORTIVAS
 Foi ao que parece devido a esta forma, de deus dos ginásios, que a
HERMES COM CADUCEU
figura de Hermes se espalhou por todo o mundo grego. As antigas representações do deus, sob os traços de um homem maduro, de negra barba espessa, cabeleira contida por uma faixa, logo foram dando lugar às de um jovem efebo, de corpo esguio, atlético, vigoroso e gracioso, flexível. Nestas representações, os cabelos são
CLÂMIDE
curtos e crespos, os traços do rosto finos, a cabeça ligeiramente inclinada, sempre numa atitude de atenta benevolência. O corpo nervoso e leve, a clâmide lançada para trás e enrolada no braço esquerdo. Aparece o deus normalmente com um pétaso na cabeça, guarnecido de pequenas asas; nos pés, sandálias aladas. Numa das mãos, o bastão alado em torno do qual se enrolam duas serpentes, o caduceu.

APOLO
 O caduceu era, na origem, um bastão que o deus Apolo usava como atributo, na sua condição de senhor das bestas, pastor que protegia e conduzia os rebanhos. O bastão, nas mãos de Apolo,  era instrumento que tanto servia para conduzir como para punir, mantendo-se a manada sempre unida. Por analogia, Apolo foi guindado à condição de deus das assembleias dos homens por sua sabedoria e por sua eloquência, pela sua palavra justa, sobretudo. É nesta condição, por exemplo, que Platão faz dele o intérprete tradicional da religião e guia do gênero humano. 

Certa vez, diz o mito, quando Apolo se encontrava em seu exílio terrestre por ter atacado e morto os Cíclopes, Hermes, uma criança
CÍCLOPE
então, ainda não considerado uma divindade olímpica, e tendo escapado da vigilância da mãe na caverna do monte Cilene, viu a dourada divindade antropomorfizada, sentado numa pedra, cuidando do rebanho do rei Admeto. Distraído, Apolo não percebeu que o filho de Maia lhe furtara uma parte do rebanho, amarrando galhos de árvores na cauda dos animais para que, ao caminhar, por ele conduzidos, fossem apagando os seus próprios rastros.


Ao todo, Hermes se apoderou de cinquenta bezerros, conduzindo-os à noite até as margens do rio Alfeu. Antes de encerrá-los numa caverna, escolheu dois, dos mais gordos, e tendo engenhosamente produzido fogo ao friccionar dois bastões (futuro símbolo da constelação de Gêmeos) queimou a carne desses animais depois de tê-la dividido em doze pedaços no sentido de honrar os olímpicos. Como a esse tempo os deuses do Olimpo eram apenas onze, Hermes, desde cedo muito esperto, se autoproclamou como divindade olímpica. Depois dessa cerimônia, usou uma carapaça de tartaruga que encontrara à entrada da gruta e resolveu construir um instrumento musical, uma forma até então inexistente, a lira, usando como cordas as tripas de um dos animais sacrificados. Depois de ter feito tudo isto, voltou à gruta materna, nela se introduzindo pela buraco da fechadura como vento outonal. 

APOLO, MAIA, ZEUS E HERMES CRIANÇA
   Zeus, que do alto tudo via, não ficou muito contente com a precocidade de seu filho, ainda uma criança, mas não deixou também de reconhecer, com uma ponta de orgulho, a sua grande esperteza e inventividade. Apolo, entretanto, descobriu o paradeiro do ladrão e o acusou formalmente perante Maia. Para acabar com a discussão, foram todos a Zeus. Depois de um longo e tumultuado interrogatório, convencido da mentira pelo pai (Hermes não queria assumir a culpa do ocorrido) e obrigado a prometer que nunca mais faltaria com a verdade, Hermes concordou: nunca mais mentiria, mas acrescentou que reservaria a si o direito de não dizer a verdade por inteiro; diria, quando lhe conviesse, apenas a “meia verdade”. Zeus, evidentemente, não ficou muito satisfeito com a petulância do filho nem com o apoio incondicional que a mãe lhe dava, mas não deixou de reconhecer interiormente a grande habilidade do filho em se safar de situações delicadas.

Durante toda a discussão, Hermes, um pouco aborrecido por estar ali a perder tanto tempo, dedilhava displicentemente a sua lira. Os sons que dela tirava eram tão maravilhosos que Apolo ficou encantado. Notando o interesse do deus de Delfos, Hermes logo lhe fez uma proposta. A discussão seria encerrada com o seguinte arranjo: ele, Hermes, ficaria com os animais roubados e entregaria a lira a Apolo, tudo sem prejuízo de negociações que futuramente poderiam realizar. Assim aconteceu com a concordância de Apolo.

Pouco tempo depois, Hermes inventou outro instrumento musical, a syrinx, a chamada flauta de Pan (filho de Hermes). Lembrou-se imediatamente de Apolo e o procurou para lhe propor outro negócio. Trocaria o instrumento que acabara de inventar pelo bastão de ouro que Apolo usava para conduzir o gado e mais lições de mântica profética que ele lhe ministraria. Foi deste modo que o bastão veio para as mãos de Hermes, passando a ser chamado, desde então, de caduceu (kyrekeion, em grego). Hermes acrescentou ao bastão duas serpentes, nele enroladas de modo simétrico, voltadas as cabeças uma para a outra. 

A incorporação das duas serpentes ao caduceu se deu quando de uma visita de Hermes à Arcádia, onde ele as encontrou. Lançando o bastão para separá-las, viu que elas se enroscavam nele e se transformavam num ser único. A partir de então, Hermes proclamou o bastão como símbolo da paz. Mais ainda: declarou-o um símbolo da organização universal, eixo do mundo, em torno do qual as duas grandes forças antagônicas universais (luz-trevas, masculino-feminino, direita-esquerda etc.) haveriam de se complementar e equilibrar. Como emblema alquímico, as duas serpentes passaram a representar as duas substâncias complementares da Obra em Negro, o enxofre e o mercúrio, que se unem no bastão para criar a “droga da imortalidade”. O bastão de Hermes passou, em suma, a representar o equilíbrio dinâmico de todas as forças opostas que atuam no universo. Um equilíbrio que uma vez conquistado é logo perdido e que precisa ser constantemente reconquistado pela integração dos contrários. Foi, entretanto, como se disse, sob a forma de uma divindade dos ginásios que a imagem de Hermes se fixou definitivamente. Na cabeça, um pequeno capacete, o pétaso, guarnecido de duas pequenas asas; os pés sempre calçados com sandálias aladas.  

A despeito de toda a sua malícia e esperteza, Hermes caiu logo nas
HERA
graças de todas as divindades olímpicas, fazendo inclusive com que Hera esquecesse a profunda irritação que, ele, como filho espúrio de Zeus, lhe provocou ao nascer. Diga-se de passagem que este esquecimento da deusa foi um espanto para todos no Olimpo, já que ela jamais deixou de se vingar das mulheres e dos filhos que Zeus teve fora do seu casamento oficial. O espanto foi maior ainda quando a Senhora do Olimpo ofereceu os seus belos seios para que o menino se fartasse à vontade do seu precioso leite.


ARGOS E IO
Quanto aos bons ofícios de Hermes, que o tornavam um imprescindível servidor dos deuses, mencionemos o seu papel na luta entre os olímpicos e os gigantes. Usando o elmo da invisibilidade de Hades, Hermes matou o gigante Hipólito, um acontecimento decisivo para que na Gigantomaquia os olímpicos se saíssem vencedores. Zeus jamais esqueceu o serviço que Hermes
HERMES E DIONISO
lhe prestou ao adormecer o dragão Argos ao som de sua flauta para depois matá-lo, libertando assim Io, a belíssima princesa argiva. O deus Dioniso também sempre se considerou em débito para com Hermes, pois foi ele quem o salvou duas vezes. A primeira quando o levou, mal nascido da coxa de Zeus, a Queroneia, para ser entregue aos cuidados da tia (Ino); a segunda quando, depois de transformado em um bode por Zeus, foi levado por Hermes para o monte Nysa, onde foi entregue aos cuidados das ninfas e dos sátiros que lá habitavam. 

Quando Ares foi aprisionado pelos Aloadas (Oto e Efialtes, gigantescos filhos de Poseidon), coube a Hermes descobrir o local da prisão (um imenso pote de bronze) e libertá-lo. Como protetor de heróis, Hermes prestou inestimáveis serviços a Perseu; sem seu auxílio, o herói jamais teria vencido a Medusa. Outro que lhe é
ZEUS X TIFON
devedor é Hércules, que desceu ao Hades por ele acompanhado. Foi ainda Hermes, com a colaboração de Iris, quem encontrou, na casa de Tântalo, o cão de ouro que Pandareus havia roubado de Zeus. Inúmeras, sem dúvida, as intervenções de Hermes, tanto favoráveis aos deuses como aos heróis e mesmo aos humanos. O maior serviço prestado por Hermes à ordem olímpica, impedindo que Tifon se apoderasse do universo, foi quando ele e seu filho Pan reconstituíram o corpo de Zeus, religando os tendões de seus membros, cortados pelo monstruoso filho de Geia.  


 Para uma visão mais completa das habilidades, virtudes e defeitos de Hermes não podemos deixar de recorrer a um herói que herdou tais características superlativamente. Refiro-me a Ulisses
SÍSIFO NO HADES
(Odysseus, em grego), personagem do segundo poema homérico, A Odisseia. Era filho de Laerte e de Anticleia, que teria amado o astucioso Sísifo dias antes de seu casamento. A este último muitos atribuem a paternidade do nosso herói. Sísifo quer dizer em grego instruído, hábil, sábio, inteligente, sendo considerado como o mais astuto e inescrupuloso dos mortais, filho de Éolo (em grego, o vivo, o rápido), rei da Magnésia. Era Ulisses neto de Autólico (o nome vem de lykos, lobo, em grego), seu avô materno, o mais astuto dos ladrões e perjuros da mitologia, artes nas quais fora instruído pelo próprio Hermes, seu pai. Autólico possuía o dom de roubar sem ser percebido. Ulisses, portanto, era bisneto de Hermes. 

 
CHIRON

 Por trás de Ulisses temos uma linhagem de malícia, de esperteza, de habilidade, de ardilosidade, de malandragem. Ulisses foi, como todos os heróis, educado por Kiron. Jovem, viajou muito, tomando parte em caçadas, visitou personagens ilustres, tornando-se perito nas cinco artes ensinadas pelo mestre centauro. 

Na luta contra os troianos, foi chefe importante, participando do conselho supremo das forças gregas. Famoso por sua coragem, astúcia, inteligência e dons oratórios, era um especialista em missões noturnas e de reconhecimento; numa delas roubou o paládio dos troianos, infligindo-lhes com isso um duro golpe. Era Ulisses conhecido como polymetis (o de muitas habilidades, o de juízo previsor) e como polytropos (o que está e não está ao mesmo tempo; o que se movimenta muito; o que nunca se torna alvo).

ULISSES
  Terminada a guerra, incendiada Tróia, Ulisses começou a sua viagem de retorno a Ítaca. A Odisseia nos fala dessa viagem como a famosa peregrinação do nosso herói, que toma a direção leste-oeste, o caminho do Sol que se põe. Qualquer que seja a abordagem do poema, uma das mais e ricas possibilidades interpretativas está certamente em se considerar A Odisseia como a história arquetípica do homem que procura o seu processo de individuação. Talvez
Ulisses seja realmente um arquétipo, válido para o homem moderno, de alguém que vive agonicamente a se buscar. Não haverá surpresas se tivermos em mente que grandes escritores do século XX, como James Joyce e Alfred Döblin, por exemplo, atualizam simbolicamente o arquétipo ulisseano através de personagens como Leopold Bloom e Franz Biberkopf.

A história de Ulisses, sob o ponto de vista astrológico, terá que ser apreendida obviamente através do eixo Gêmeos-Sagitário. A viagem do nosso herói tanto pode nos propor ideias como nos falar da busca da verdade, da paz, da transcendência, da espiritualidade ou da imortalidade. O motivo da navegação, a visita às ilhas, a tentação de nelas o herói se deixar ficar, tudo evoca a viagem solar, os eixos equinociais e solsticiais.



GÊMEOS
 O tema das viagens nos mitos revela sempre, não podemos esquecer, muito mais que buscas físicas, o desejo de descoberta de novos horizontes, uma grande insatisfação do herói, um desejo de mudança interior, de experiências existenciais novas. Na perspectiva de que
SAGITÁRIO
falamos, esta viagem de Ulisses, profundamente marcada pelo eixo astrológico Gêmeos-Sagitário, como se disse, simboliza muito mais que o gosto pela aventura, pela vagabundagem ou pelo nomadismo, uma proposta de criação de um novo eu através de uma viagem feita em direção do exterior, mas, que no fundo, é muito mais interior, para dentro. 


Não esqueçamos que é Mercúrio que nos explica astrologicamente de que maneira podemos nos separar das coisas, do mundo (desvelando-o para nós, no dizer sartreano), e, ao mesmo tempo, entender o que sejam em nós instinto e vida afetiva. É neste sentido que Mercúrio atua  como uma espécie de ponte entre o mental inferior do homem, cujas características ele traz em si já ao nascer, e o mental superior, de natureza espiritual  (sagitariano sob o ponto de vista astrológico), a ser por ele construído, por meio do qual ele poderá conviver mais fraternalmente com os outros homens. É por isso que em cada ser humano o processo mercuriano se constitui num poderoso auxiliar do eu, ajudando-o (ou não) a lidar com as seduções do mundo e com a tentação da subjetividade, entendidas mais claramente o que sejam as pulsões interiores e as solicitações exteriores.   

  Ulisses parece ter começado a sua viagem um pouco inseguro com relação ao que procurava. Aos poucos, como a história nos revela, tudo foi mudando. Talvez estivesse fugindo de si mesmo. Aos poucos, porém, o que temos diante de nós é a história de um processo de individuação. Neste sentido, o caminho é a própria meta, uma procura ininterrupta na qual não existe nenhum objetivo fixado. O que se tem apenas são metas parciais, que não oferecem senão orientação para um determinado período, para uma determinada fase da vida. 

Além do mais, a viagem de Ulisses deixa claro também que toda viagem, como aqui a consideramos, é sempre pessoal, é nossa. Por isso, devemos ter também a coragem de afastar aqueles que se aproximam de nós para resolver os seus problemas através da chamada “síndrome da ajuda”. Esta síndrome nada mais é do que o comportamento que certas pessoas apresentam, baseado em posturas inconscientes, muito comum a tentação de prestar auxílio a outras, caso inclusive de muitas que o fazem profissionalmente (médicos, psicoterapeutas, professores, assistentes sociais, religiosos etc.), mas que, no fundo, nada conhecem de si mesmas. 

A maioria destas pessoas, sem o perceber no mais das vezes, tenta passar para o mundo uma imagem de força, de superioridade, de perfeição até. Se chegamos mais perto, porém, a constatação é outra. No geral, são pessoas tão ou mais inconscientes do que aquelas que pretendem ajudar. Há sempre no mundo heroico o perigo de nos tornarmos vítimas de pessoas que sofrem, sem que o saibam, da “síndrome da ajuda”. O que aqui se coloca também é igualmente válido para nós. É sempre muito tentador assumirmos o papel de heróis salvadores. 

Outro aspecto importante a considerar é que nossa sociedade tecnológica inibe ou pouco permite que possamos integrar de um modo criativo à nossa existência o nosso lado animal ou espiritual, a nossa vida instintiva e a nossa vida em termos de coletividade, que os heróis míticos pareceram liberar com muito maior facilidade, de modo até mais saudável. Negligenciamos necessidades corporais e espirituais importantes e satisfazemos outras que só acabam nos prejudicando (no mundo moderno, a grande dependência de Mercúrio da tecnologia, dos computadores, sem levar em conta o seu emprego para fins humanos e sociais).

O poema de Ulisses, composto provavelmente por volta de 850 aC, narra, como se disse, os vinte anos de sua vida desde que se
ausentou de Ítaca, dez anos em Troia e outros dez na viagem de retorno. Conforme notícia veiculada pela imprensa europeia (reproduzida pelo jornal o Estado de São Paulo, de 24/6/2008), dois astrônomos afirmam que o poema de Homero registra a data em que o nosso herói recuperou o seu palácio de Ítaca, o dia 16 de abril de 1178 aC, por volta do meio-dia. A informação não aparece explicitamente nos versos, mas pode ser deduzida de dados astronômicos contidos no poema. 

O ponto de partida dos pesquisadores, que descrevem sua hipótese na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, é um verso do 20º canto do poema, onde um vidente prevê que o retorno de Ulisses será acompanhado de um escurecimento do céu. A ideia de que essa profecia poderia conter uma referência velada ao eclipse de abril de 1178 aC não é nova, reconhecem os autores. O que eles afirmam é que encontraram diversas outras referências astronômicas no poema que dão à hipótese uma força até então inédita. 

A conclusão a que os autores chegaram, com base no movimento  das Plêiades e da constelação do Boieiro, e em deslocamentos do planeta Mercúrio (apresentados no texto como viagens do deus Hermes) é de que essas referências fornecem confirmação independente de que o dia do massacre dos pretendentes de Penélope foi o do mencionado eclipse solar.    

A constelação do Boieiro, Bootes em grego, do Pastor em português, como já vimos, tem muito a ver com a agricultura e sobretudo com a domesticação dos animais, tendo sido muito
URSA MAIOR
importante para os povos da pré-história, na passagem do mesolítico para o neolítico. Esta constelação era chamada por Ptolomeu de “O Guardião do Urso”, devido a sua proximidade com a constelação da Ursa Maior. As suas influências, além das acima mencionadas, partem principalmente da sua mais importante estrela, Arcturus, de 1ª magnitude, hoje por perto dos 24º de Libra. Tais influências têm relação com a “domesticação” da vida instintiva, com o ensino, falando-nos ela, como uma das estrelas mais brilhantes do céu, de orientação, de propostas de novos caminhos, instauração de novos modos de ver ou de considerar a realidade.