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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

ASTROLOGIA HINDU (JYOTISH) - II


KARMA, DHARMA E REENCARNAÇÃO

O Destino


AUM
Em sânscrito, Daiva quer dizer destino. A palavra é do gênero neutro. Indica um poder transcendente que vem do passado, anterior aos próprios deuses e às personificações míticas. É um poder nunca representado, jamais tocado por orações, sacrifícios ou encantamentos. Embora possamos nos servir destes recursos mencionados, iludindo-nos, Daiva é sempre o que temos de enfrentar inevitavelmente. Os antigos gregos tinham um entendimento semelhante a este. Era o que eles chamavam de Moros, o destino, também jamais personificado. Dizia-se que essa entidade possuía um livro onde tudo o que acontecia, uma trama imensa de acontecimentos, estava escrito; os deuses nada podiam mudar quanto ao que estava registrado; quando muito, podiam, apenas, consultar o livro de Moros e revelar, através de alguns oráculos, muito pouco do que nele havia.

Jyotish propõe uma forma, um método (upaya) para enfrentar as combinações astrológicas adversas, de modo a se poder definir, com possível exatidão, não só os bons e maus momentos como a aproveitar melhor os primeiros e a mitigar os outros. Esse método (upaya) afasta a ideia de determinismo, de fatalismo, que muitos, ignorantes e desinformados, veem na Arte, dizem os astrólogos hindus. Evidentemente, para usar upaya precisamos de informações corretas, além de muita determinação, firmeza e motivação, pois o karma costuma interferir, provocando muitas vezes pensamentos derrotistas, trazendo desestímulos, sempre debilitadores de nossa vontade.

O método admitido pela astrologia hindu abrange diversas técnicas, além daquilo que o próprio mapa pode oferecer. São usados normalmente mantras (sílabas sagradas), hinos,  recitações diversas; gemas, pedras ou outros objetos e substâncias que tenham caráter fortemente simbólico; acima de tudo, porém, atos ou ações específicos, trabalho desinteressado, comunitário etc., tudo conforme o tipo de Yoga adequado à personalidade do dono do mapa. Assim, por exemplo, sob a orientação do astrólogo, uma pessoa que tenha a dominante fogo praticará a karma yoga (yoga da ação desinteressada), alguém com pendores intelectuais será encaminhado para a jnana yoga (yoga da mente), o que tenha a dominante água, com inclinações místicas, poderá praticar a bhakti yoga (yoga devocional) e assim por diante. Entenda-se: yoga quer dizer aqui conexão, isto é, o meio mais adequado para que alguém possa, de acordo com o seu mapa, se pôr em contacto com o Brahman, a energia universal. 


OM   MANI   PADME  OM

Muito importantes, de modo complementar, neste particular, são os chamados Bija Mantras (mantras que funcionam como semente). Cada planeta na Astrologia hindu tem o seu Bija Mantra, que é usado para “fortalecer” planetas que estejam enfraquecidos, debilitados. Os Bija Mantras são transmitidos através de certos e determinados processos de iniciação.

Os  Planetas                                                           

Em sânscrito, planeta é graha, palavra que traduz uma ideia de captura. Através deles, conforme o nosso mapa (Jataka, a astrologia natal), somos capturados por determinadas forças astrais que atuam em nós, exercendo maior ou menor poder, de várias maneiras. Os grahas nos inclinam nesta ou naquela direção, empurrando-nos para a realização de atos que, muitas vezes, nada têm a ver com os nossos deveres pessoais (dharma pessoal). Os planetas, como agentes da Lei do Karma, dirigem-nos para experimentar num determinado momento certas reações (consequências) em função de ações que realizamos anteriormente. Neste sentido, todo mapa astral é um mapa do nosso karma, desenhado pelos nove grahas de JyotishÉ a própria natureza do karma que determina o quanto um planeta nos captura. Se temos o caso do karma fixo (dridha), os planetas não permitem que nos libertemos, constrangem-nos poderosamente.

No caso do karma fixo-não fixo já temos possibilidade de algum trabalho libertador. Em certos casos, o método (upaya) adequado poderá nos orientar para um trabalho na direção de planetas que estejam favorecidos ou dignificados de algum modo. Jyotish recomenda como de grande valia, sempre,  que procuremos uma ligação com o nosso eu interior (o Brahman em nós), procurando controlar as pressões dos nossos corpos físico, afetivo-emocional e mental inferior, sobretudo as deste último.


CHANDRA

A atividade de manas é grandemente afetada por Chandra (Lua) e   por Shukra (Vênus). É sobre esta atividade, em última instância, que devemos nos concentrar para libertar o que do Brahman há em nós com o nome de atman, também chamada de narayana, literalmente aquele que fez a sua morada no homem. As propostas para esta
JIDDU  KRISHNAMURTI
libertação, de um modo geral, são encontradas em estudos filosófico-religiosos (inseparáveis na Índia) de natureza superior, a escolha de um mestre espiritual, um iniciador (guru) e na firme disposição de aumentar o controle sobre o corpo físico. Um dos melhores caminhos oferecidos para o que temos acima está na Yoga, como escola filosófica (darshana), nos seus oito anga (etapa, degrau) que é preciso galgar para ir em direção da independência (kaivalya). 






Todo este trabalho se enquadra sempre, sob o ponto de vista astrológico,  numa das três categorias, criação, conservação e destruição, três atividades, na prática, absolutamente inseparáveis. Esta prática tem por objetivo restringir as flutuações do pensamento pelas constantes trocas entre as gunas. Com isto, dizem os astrólogos hindus, será possível chegar ao que denominam de Ishta Bala (poder da divindade), uma espécie de faísca a que alguns dão o nome de intuição.

Evidentemente, para os astrólogos ocidentais não familiarizados com a cultura oriental, esta proposta pode parecer algo escandalosa, desligada da nossa realidade. Para outros, os que procuram ligações com a cultura oriental de modo superficial ou emocional, a proposta poderá se tornar sempre perigosa. O que temos de entender por trás do que aqui se coloca é que no politeísmo hinduísta as divindades, inclusive as pessoais, representam as múltiplas e infinitas possibilidades de expressão do Uno, o Brahman, o indiferenciado, o insondável, o inescrutável. A “nossa” divindade pessoal, que os hindus chamam de Ishvara, coloca a nossa relação com o Todo numa perspectiva bastante prática, possibilitando-nos formular melhor as questões e as respostas provenientes dessa relação. Ishvara para o homem comum é o seu deus pessoal. Para aquele que vai um pouco além, Ishvara é a noção de espiritualidade que cada um deve construir dentro de si considerados os seus infinitos aspectos. Ao longo da vida, a noção que um verdadeiro hinduísta tem de Ishvara pode inclusive mudar. Se sua compreensão do mundo muda, nada a estranhar se a sua visão de espiritualidade mudar. Para o hinduísta, sua relação com a vida espiritual nada tem de dogmático, como no caso das religiões transcendentalistas, isto é, as que colocam a divindade fora da criação. Estas religiões, como sabemos, satanizam a destruição. Para o hinduísmo (como para a astrologia, evidentemente) a destruição é tão sagrada quanto a manutenção e a destruição.   

Não podemos, contudo, confiar ou buscar só a intuição, dizem os astrólogos. Nem todos conseguirão obtê-la. Por outro lado, também não é possível termos um Jyotish-guru à nossa disposição o dia todo nem a nossa divindade pessoal poderá estar "disponível", ocupada muitas vezes talvez com assuntos mais urgentes que os nossos. É por isso, concluem, que os sábios do passado sistematizaram Jyotish para seres racionais, para as pessoas comuns, como nós, uma arte do conhecimento da qual devemos nos aproximar como a Vidya por excelência.

O karma no mapa 

Segundo Jyotish, ao entrar na existência (ahamkara, ascendente) somos o resultado de ações (karmas) do passado, conforme a quarta casa nos mostra, onde se encontra o nosso karma acumulado (sanchita); o futuro que temos que construir está indicado na décima casa, Meio do Céu, setor do mapa revelador de nossas possibilidades quanto à nossa posição no mundo. Na décima casa, temos o que de sanchita vamos “colher” na nossa encarnação presente.

O ascendente, a casa do eu visível, como sabemos, tem relação com a nossa ideia de personalidade (o que mostramos ao mundo); descreve as nossas características físicas, polarizando-se com a sétima casa, a do não-eu, como, aliás, a quarta se polariza com a décima através dos princípios materno/paterno ou raízes/altura.

É na sétima casa, por exemplo, que encontramos, sob o ponto de

vista físico e/ou psíquico, certas limitações que encontraremos na nossa vida atual. Uma ilustração disto está na Bhagavad Gita, quando Krishna explica ao angustiado Arjuna (simbolicamente o nosso eu, o ascendente) o que é o Campo (Kurukshetra, o não-eu, a sétima casa) onde ele terá que lutar. Kurukshetra (literalmente, o campo dos Kurus) é uma extensa planície ao norte de Delhi onde se travou a grande batalha entre os Kurus e os Pandavas, conforme se descreve na Bhagavad Gita. 



KRISHNA   E   ARJUNA

As relações ascendente-casa sete e casa quatro-Meio do Céu, casa dez, descrevem as principais dualidades a serem vividas, o universal princípio de polarização. Estas quatro casas formam uma cruz na qual o ser humano, Kala Purusha, o ser manifesto, o ser no tempo, como parte do Todo, terá que assumir um papel no reino da duração, na temporalidade. 

A astrologia hindu considera que é no Meio do Céu, a casa em que o Sol está na sua maior glória; é nela que obtemos informações sobre o Prarabdha karma, isto é, aquilo que temos de colher, aquilo que o destino reservou para nós numa presente encarnação. Já a quarta casa, o ambiente em que nascemos, o nosso palco familiar, revela o Sanchita karma. Nela estão todos os karmas gerados anteriormente por nós. Na décima, está a parte que deles é atuante na nossa vida atual. As casas quatro e dez estão sempre ligadas. Uma parte do nosso passado (quarta casa) está assim reservada, como dissemos, pelo tempo de vida que nos couber, a fim de ser cumprido como destino.

Os hindus entendem que os princípios materno/paterno formam uma unidade que se expressa dualmente e que da força da quarta casa depende a estamina de que disporemos para enfrentar os problemas que a vida nos apresentar na encarnação atual. Esta palavra que trazemos aqui, estamina, significa comumente a nossa capacidade de resistência, de modo especial a capacidade que temos de resistir por longo tempo, de nos mantermos ativos, de empreendermos esforços prolongados. Etimologicamente, lembremos, a palavra estamina vem da nossa língua-mãe, o Latim, stamen, mis, significando fio de roca, filamento. Nenhuma imagem
AS   MOIRAS
mais apropriada do que esta para tornar mais clara a ideia que antigos textos astrológicos registraram sobre a quarta casa, a do início e do fim da vida, a da infância e a da velhice, a do começo e a do fim da existência. Fazendo a ligação entre a mitologia grega e a astrologia, é nesta casa que “vivem” as Moiras, as Fiandeiras, Cloto, Láquesis e Átropos, as donas do nosso fio de vida, a casa, portanto, do início e do fim da vida. 


Alguns dos nomes que o ascendente recebe entre os hindus têm relação direta como que acabamos de expor: adi (começo), udyat (o que aparece), rupa (forma). É através do nosso ascendente que a energia em operação no Cosmos entra no mundo fenomênico da expressão. O raio que parte do ascendente procura seguir uma direção triangular em termos criativos da individualidade. O triângulo, como sabemos, é a figura-chave da geometria, pois encerra o que os antigos chamavam de proportio divina. É na casa cinco que encontramos propostas para este anseio criativo que parte do ascendente. O número cinco é a soma do quatro, número da matéria, da condensação, mais o um, este o número da energia universal, o número que representa o Brahman em ação. O cinco é o número daquele que se determina (Leão), o número da matéria penetrada pelo espírito. É por esta razão que a quinta casa a partir de qualquer uma revelará sempre uma possibilidade criativa com relação a ela. Nesta nossa linha de raciocínio, o vértice do triângulo que estamos construindo estará na ponta da quinta casa. A outra ponta do triângulo estará na nona casa. O ascendente terá assim que ser entendido como potência, como possibilidade daquilo que do grande Todo (Brahman) entrou na existência através de nós. Por isso, diz Jyotish, que a nossa reação com relação ao karma acumulado que nos foi destinado, nossos esforços para alterá-lo, estão na quinta casa.

A quinta casa é a oitava casa da décima. Já as dificuldades para a nossa atuação com base na quinta casa, nossos esforços para alterar o karma que nos toca (Prarabdha), serão encontradas na sexta casa a partir da oitava, isto é, no nosso ascendente, pois nós mesmos poderemos ser a dificuldade com relação à nossa ação transformadora. A sexta casa a partir de qualquer uma indicará sempre as dificuldades que temos de enfrentar quanto à realização que a casa considerada propuser. Além disto, temos que considerar também como dificuldades a enfrentar para usar o que a nossa quinta casa propuser aquilo que temos na oitava casa a partir dela, já que nesta casa, isto é, na décima segunda, poderemos encontrar inibições aos nossos impulsos transformadores.

Jyotish entende que a nona casa, além de significar, religião, filosofia, viagens distantes, buscas idealistas, é também a reveladora do karma positivo, auspicioso (punya), que nos é transmitido. Nela encontramos as possibilidades do discipulado (adhikarin, sadhaka) e também, sobretudo, os meios de trabalhar com Agami. Um exemplo disto está no fato de que um aspecto favorável entre os regentes das casas três e nove poderá levar a pessoa a evoluir, deixando o mundo da informação pelo do
MAYA
conhecimento superior, indo do particular para o universal, isto é, sair da multiplicidade para se aproximar da sabedoria, de caráter sempre unitário. As propostas superiores da casa nove significarão uma libertação daquilo que o hinduísmo chama de Maya, ilusão, fascinação pelo mundo da multiplicidade. Maya é magia, nome dado a um poder divino, nos Vedas, poder de Varuna. No hinduísmo, este poder é atribuído

VISHNU
 a Vishnu e está relacionado com a criação de fenômenos. É o poder de Maya que gera no ser humano o sentimento de ego, que o leva a ficar inelutavelmente preso a desejos de posse, de fruição, de gozo e de dominação. Um dos grandes aspectos de Maya, talvez o maior, dizem os astrólogos hindus, é a luxúria.
   
Para o hinduísmo, a libertação da cadeia de renascimentos só se tornará possível se as influências do passado forem totalmente aniquiladas. O esforço para a libertação terá que ser feito sempre no sentido de que as nossas ações não mais gerem frutos, isto é, que nossa consciência se concentre na Fonte Original, no Brahman, de onde ela veio. É o que o hinduísmo chama de caminho de retorno, isto é, sair da multiplicidade para buscar a unidade, ir do multiplicidade à unidade, voltar ao Brahman. Nada de paraísos depois da morte, pois, coisa de mentes capitalistas, dizem os hindus. Os investimentos que fazemos numa busca espiritual não podem ficar condicionados a expectativas de polpudas e eternas  aposentadorias douradas em lugares paradisíacos. 

O hinduísmo deixa claro que as ações do passado determinam as condições de vida do presente. As ações praticadas numa encarnação presente, contudo, podem agregar novas quantidades de karma ao seu total (Sanchita). Este último jamais se esvaziará a não ser que uma reorientação seja procurada no sentido de serem evitadas novas ações de caráter pessoal, mesmo que positivamente. A quinta casa mostra, por isso, também, o Kriyamana karma, o karma em formação que determinará a nossa vida futura.

Astrologicamente, a força vital está no ascendente; é nele que estão as nossas potencialidades, o nosso elã, inclusive as primeiras indicações sobre a nossa longevidade. A quantidade e a qualidade desta força, o Prana, com a qual vivemos e nos movimentamos é sempre resultante de ações do passado. É dentro desse raciocínio que a segunda casa é vista por Jyotish como a primeira das casas da “morte” de uma carta astrológica.

As Metas da Vida Humana

No hinduísmo, Jyotish tem também por objetivo fazer com que aqueles que dela se aproximem entendam e vivam melhor as chamadas quatro metas da vida humana. A primeira meta chama-se Artha, tendo relação com os bens e posses materiais. As artes praticadas no mundo de Artha são inúmeras. As mais importantes, a Política e a Economia, além de todas as técnicas que permitam
MATSYA - NYAYA
enfrentar a inveja, a competição, a violência, a tirania dos déspotas, a chantagem, a calúnia, a falta de escrúpulos etc.             Artha é tudo o que

pode ser apropriado pelos sentidos e que, por isso, pode ser perdido. A palavra lembra também vantagem, prosperidade, lucro, fortuna, reunindo significados de objeto da busca humana sob o ponto de vista material. No realista mundo de Artha a lei máxima é a do peixe, matsya-nyaya, isto é, peixe grande come peixe pequeno. 


A segunda meta é Kama, isto é, o prazer, o amor. Kama é também o nome do deus do amor, o deus que envia desejos, mestre e senhor da Terra e das esferas celestiais inferiores. Neste nível, a ideia é a de que temos de aproveitar a vida, colher dela as coisas boas e agradáveis. Este conceito lembra algo semelhante à filosofia hedonista dos antigos gregos.


KAMA

A terceira meta tem o nome de Dharma. Neste nível, introduz-se a ideia de dever, de obrigação, de vida moral. É nele que começa com clareza a vida social, isto é, astrologicamente, o terceiro quadrante, por oposição ao primeiro, que é de Artha. Neste nível, encontramos verdades atemporais traduzidas em regras e rituais através das quais a sociedade pode se organizar melhor. As mais altas honras neste nível são devidas ao homem sábio, que transcendeu as duas primeiras, de caráter pessoal-familiar. É no terceiro quadrante, o do Dharma, que começa por Libra, onde se define o conjunto dos deveres e dos direitos de cada indivíduo numa sociedade moral. 

A quarta meta, Moksha, oposta diretamente à segunda (Kama), propõe a libertação espiritual, tendo um caráter transpessoal, coletivo. É o quarto quadrante, que começa por Capricórnio. É considerada como a finalidade última do ser humano. As três primeiras metas têm caráter mundano. Moksha (o radical muc quer dizer desatar, soltar, largar) é a finalidade última do ser humano. Não é a metafísica dos livros, dos tratados de filosofia, mas a metafísica posta em prática. Seu objeto é o de criar os chamados libertos em vida. Moksha aponta para as estrelas, dizem os astrólogos hindus. Esta última fase corresponde ao nosso quarto quadrante astrológico, sendo a casa doze a mais importante dentre as doze de qualquer tema.

Astrologia e Dharma

A Astrologia hindu procura sempre fazer com que compreendamos claramente o que significam as quatro metas acima descritas e como poderemos vivê-las. Para o homem comum, de nível mental superior, o foco se concentra sobretudo no terceiro quadrante, o do Dharma, uma preparação para o último, Moksha, o mais importante. Sem entender bem o terceiro nível, sem vivê-lo conscientemente jamais chegaremos ao quarto.

A palavra dharma deriva da raiz dhr, que denota uma ideia de segurar, manter, constranger, suportar. Dharma é aquilo que sustenta o universo, as pessoas, a criação como um todo, desde o microcosmo ao macrocosrno. Dharma também significa dever, obrigação. Neste sentido, o conceito de dharma é inseparável do conceito de karma. Temos assim que sustentar, que assumir o resultado de nossas ações. O dharma é aquilo que é certo, que é correto. Qualquer coisa que crie conflitos, desarmonia, discórdia, é adharma. Dharma, ao contrário, será o sustentáculo da vida social. Se agirmos contra o dharma, estaremos agindo contra nós mesmos. Este conceito é o núcleo central da ética hinduísta, aplicado obrigatoriamente à vida cotidiana, que é o dharma na sua forma suprema.




Assim como um médico prescreve diferentes remédios para pessoas diferentes, conforme a sua constituição e a natureza da doença, assim o hinduísmo prescreve diferentes deveres para pessoas diferentes. Há, pois, deveres segundo a casta (varna) e o estágio de vida (ashrama) de cada pessoa, não se devendo esquecer que determinados deveres e abstinências são comuns a todas as castas e ashramas, como a não-violência (ahimsa), a adesão à verdade (satyagraha), controle dos sentidos, aquilo que faz parte dos dois primeiros degraus do Yoga, Niyamas e Yamas. O dharma depende, pois, do tempo, das circunstâncias, da idade, do grau de evolução da pessoa, da comunidade a que pertença. O dharma de um período histórico, por exemplo, é diferente do de um outro. O dharma de uma pessoa instruída será diferente do dharma de um analfabeto. No hinduísmo há ocasiões em que o dharma de uma pessoa pode mudar, se desviar de sua prática habitual.

Para o hinduísmo, o conceito de dharma pode ser encontrado em todas as religiões, inclusive em muitas propostas da Filosofia ocidental. Gandhi chamou a atenção para este tipo de Dharma, que muito poderia contribuir para a união dos povos e das nações. Só dentro do conceito de dharma há vida digna. Qualquer que seja o ângulo pelo qual o observemos (científico, legal, moral, psicológico, religioso etc.),o dharma é sempre Justiça e, sobretudo, Dever. É o dharma que fornece interiormente o critério para o discernimento entre o bem e o mal. Sem dharma, como está na Bhagavad Gita, a vida é caos, desordem. Quando não há Dharma não há Estado.

Particularizado, individualizado, o Dharma chama-se Svadharma. Cada um de nós tem o seu. Temos, dentro do nosso mundo de relações, de obrigações e de deveres, que encontrar os preceitos dhármicos que deveremos aplicar a cada situação. O hinduísmo deixa claro que ninguém é livre para escolher. Nossas escolhas se referem sempre a uma situação. O que a vida nos traz tem que se ser assumido e transformado em algo nosso. Cabe-nos dar um sentido ao que nos chega, ao que vem, dentro de uma gama maior ou menor de escolhas possíveis. 

A Reencarnação

Tudo isto que estamos colocando aqui terá que ser considerado obviamente segundo a doutrina da reencarnação ou da transmigração das almas, um dos princípios fundamentais do hinduísmo. Reencarnação aqui quer dizer que a alma volta a ocupar um novo corpo físico depois da morte. Todo este movimento contínuo das almas indo de um corpo para outro tem o nome de Samsara. A raiz sr significa passar, ir de um lugar para outro; o prefixo sam quer dizer intensamente. 

Para o hinduísmo não deixamos de existir quando morremos. Antes de nascermos, devemos ter passado por incontáveis nascimentos.
KRISHNA  E  ARJUNA
Diz Krishna na Bhagavad Gita a Arjuna: Você e eu tivemos muitos nascimentos antes deste; só eu os conheço todos, você não. Todo nascimento é seguido inevitavelmente pela morte e toda morte por um renascimento. A doutrina do renascimento é o corolário natural da Lei do Karma. As diferenças que encontramos entre as pessoas decorrem das suas respectivas ações passadas. 


Ações corretas, isto é, bom karma, leva a encarnações em níveis cada vez mais elevados. Más ações, ao contrário. Da sabedoria, ações sábias, resulta, pois, bem-estar, vida justa. Servidão e infelicidade resultarão de más ações. Assim, enquanto os karmas bons ou maus não forem esgotados não chegaremos a moksha, à emancipação, à libertação. Bom e mau karma ligam a jivatman (alma encarnada) às suas correntes. Uma é de ouro, outra é de chumbo. Nunca chegamos ao mundo em total estado de ignorância, em completa escuridão, diz o hinduísmo. Nascemos com certas memórias e hábitos adquiridos em vidas passadas. Nossos desejos de hoje têm origem em experiências prévias. Cada ser, ao contrário do que comumente julgamos, nasce com certos desejos que estão associados ao que experimentou em vidas passadas. A alma migra com o chamado corpo astral (Sukshuma Sarira, a contraparte sutil do corpo físico, que carrega consigo impressões (samskaras) e tendências (vasanas) da alma individual.

Para o hinduísmo, o corpo é uma habitação provisória da alma com o qual ela erroneamente se identifica. Os hindus não falam em entregar a alma a Deus quando da ocorrência da morte. Ao contrário, falam em abandonar o corpo. Na sua longa série de vidas
sucessivas, a jivatman pode passar pelos reinos mineral, vegetal, animal e humano. O plano mental só se manifesta quando das encarnações em seres deste último dos reinos. A rigor, só podemos falar de consciência e evolução no plano humano. Para caracterizar o estado de encarnações no reino animal, os Upanishads falam da chamada alma-grupo. Ou seja, a alma dos seres que se encontram num estado tão elementar que alguma manifestação só será notada se um grande número de unidades se reunir. Não precisamos fazer grande esforço para perceber a verdade desta conceituação com o fenômeno da massificação no mundo moderno. 


RODA   DA   VIDA

O corpo sempre será um meio de que a alma esclarecida poderá se valer para atingir a libertação, escapar do Samsara. É bom lembrar, segundo a doutrina, que as encarnações podem não se suceder ininterruptamente. Poderá haver um intervalo entre uma e outra, caso em que a alma permanecerá estacionada em determinados lugares parecidos com o Hades grego. Na sua caminhada, a alma poderá passar por certos estados que signifiquem avanços ou recuos. A opinião é unânime entre os mestres hinduístas: aquele que cometer certos crimes e não os tiver expirado em vida está condenado a renascer em estados muito deploráveis sob o ponto de vista moral e humano. 

A questão ética decorrente do que acabamos de expor está na definição de formas de ação, com base no mapa astrológico, que nos permitam enfrentar a relação karma-dharma. Uma das formas superiores que o hinduísmo nos oferece para isso parte do entendimento, conforme o próprio mapa revela, de que o que é justo para uma pessoa pode ser errado para outra. Contudo, todos nós estamos ligados por obrigações, todos somos interdependentes e, por isso, todos devemos contribuir para a ordem global. 


Estão em textos como o Dharmashastra, um misto de ciência e arte, iluminados por Jyotish, os princípios que nos ensinam a aplicar aquilo que é geral em situações particulares. Procurar escapar dessa interdependência em nome da liberdade pessoal é pôr em risco o todo. Isto só será possível se o fizermos em nome de um dever mais elevado, que exija mais de nós. Temos, por isso, nessa perspectiva, que realizar as nossas ações sempre de uma forma impessoal, desprendendo-nos de seus resultados, nem, por outro lado, deveremos agir só para nos desembaraçarmos, nos livrarmos, de nossas responsabilidades.   Mesmo   as   ações   que   muitas  vezes empreendemos para buscar a nossa libertação exigem muita atenção, pois pode nelas se ocultar, sem que o percebamos, por exemplo, a cobiça (kama).

O complemento do que expomos está, conforme o hinduísmo afirma, no fato de que, quando do nosso nascimento, contraímos uma dívida tripla: l) para com os deuses, isto é, com relação à Totalidade, o Brahman, para com as forças cósmicas que nos deram um ambiente natural, a Terra, as águas, o ar, o vento, o céu, a luz; 2) para com os nossos ancestrais, próximos ou distantes; 3) para com os verdadeiros sábios, pois são eles que nos permitem, pelo seu legado, que entremos em contacto com os valores e criações superiores do espírito humano. Antes de procurar algo para nós temos que satisfazer estas dívidas. 

É através das várias formas de Yoga (darshana) que podemos, por exemplo, encontrar meios para tanto. Dentre as principais formas de Yoga temos: Karma Yoga, Bhakti Yoga, Jnana Yoga e Raja Yoga. A Bhakti tem, como se disse, caráter devocional; a terceira tem caráter mental; a quarta tem um pouco de todas, incluindo-se nela aspectos físicos (Hatha). A primeira, como o nome indica, é o Yoga da ação desinteressada. Propõe uma intensa participação na vida. Para este tipo de Yoga, toda a ação deve ser transformada num sacrifício. É o Yoga da renúncia aos frutos das nossas ações.

Segundo o entendimento acima, cada ação nossa terá que ser realizada com uma disposição diferente daquela que comumente está presente em nossos atos. As nossas ações deixam de se concentrar apenas em nós, voltando-se, ao contrário, para o todo, para a sociedade, para a humanidade. Este tipo de ação nos leva além do simples cumprimento do nosso dever, vai muito mais longe do que a Moral convencional. A ação é praticada segundo um espírito de renúncia do ego. Com isto, escapamos da relação de causa e efeito (Karma-Dharma), tornamo-nos não só melhores sob o ponto de vista de nossa individualidade como nos transformamos

em “trabalhadores” para o bem do mundo, ao procurar melhorar o ambiente em que vivemos. Ao contribuir desta maneira para a sociedade não só a melhoramos de algum modo como, melhorando-a, crescemos sempre de alguma forma com ela. É como está na Bhagavad Gita: Quem encara suas ações como obra dos sentidos, executando-as sem apego, não é maculado pelo egoísmo, tal qual a flor de lótus, que não é poluída pelas águas que a rodeiam. 


O fim último da astrologia hindu é o de revelar o nosso karma, expresso em termos daquilo que é chamado de influências planetárias. Astrologia e karma ligam-se intimamente. Dizem os astrólogos hindus que o resultado das nossas ações passadas é chamado de Destino (Adrishtra) quando ignoramos a lei do karma. O conhecimento da lei do karma através de Jyotish afasta qualquer ideia de fatalismo ou predestinação e indica que sempre poderá haver uma margem maior ou menor, segundo o grau de nossa compreensão, para o nosso desenvolvimento pessoal. 


GANESHA,   SHIVA   E   PARVATI

À maneira da conclusão de trabalhos astrológicos como o apresentado acima, na Índia, cabe-me agradecer a atenção de todos que o ouviram (leram), paciente  ou impacientemente, e invocar as bênçãos do incomparável Ganesha, o deus elefante, o grande filho de Shiva e de Parvati, o Removedor de Obstáculos, Patrono dos Escribas e Senhor de Jyotish.


B.V. RAMAN

* In memoriam do Prof. Bangalore Venkata Raman (1912-1998) mestre de Jyotish, autor de vários livros e editor do The Astrological Magazine.


sábado, 26 de dezembro de 2015

ASTROLOGIA HINDU (JYOTISH) - I

KARMA, DHARMA E REENCARNAÇÃO 

A astrologia hindu, nos tempos védicos, chamava-se Jyotish (Luz), ou melhor, Jyoti (luz) e isha (o divino, a divindade), a Luz Divina ou o Estudo da Luz. Além de ter expressão própria, independente, ela fazia parte dos chamados Vedangas, os suportes dos Vedas (da raiz vid, conhecer), as escrituras religiosas que estão na base daquilo que hoje é o hinduísmo, compostas provavelmente entre 1.500 e 1.000 aC. Os Vedangas, matérias que todo hinduísta qualificado devia conhecer para poder entrar nos Vedas, são seis: Fonética (Siksha, Métrica (Chandas), Gramática (Vyakarana), Etimologia (Nirukta) e Astrologia (Jyotish). Veda, em sânscrito, quer dizer ciência, saber. A palavra, no plural, designa o conjunto de quatro escrituras (Rig, Yajur, Sama e Atharva) tidas unanimemente como reveladas pela tradição bramânica.


VEDAS

Jyotish, já nas suas primeiras formulações, sempre procurou incorporar aspectos religiosos, filosóficos, psicológicos e físicos da vida indiana. Tanto é assim que para estudá-la hoje devemos obrigatoriamente conhecer outras expressões culturais da tradição hinduísta, como as chamadas Darshanas, as seis grandes escolas de filosofia da Índia, formadas ao longo dos séculos, especialmente a Samkhya, a Vedanta e a Yoga, além de outras artes e técnicas, como a Arte Política (Niti Shastra) e escolas médicas como a Ayurvedica e a Siddha. Esta preocupação de integrar conhecimentos é dominante no hinduísmo. Tudo, estabelece a doutrina, se interliga, de modo a constituir o chamado conhecimento sanscrítico, de natureza holística. 

Outra questão importante é a terminológica. Vários termos que fazem parte de Jyotish como, por exemplo, manas (mente), buddhi (intelecto, a faculdade da discriminação, mente superior, por oposição a manas), atman ou jiva (a alma individualizada), governados, respectivamente, pela Lua, por Mercúrio e pelo Sol, diferem bastante daqueles que poderiam lhes corresponder na astrologia ocidental. Tais conceitos só poderão ser entendidos dentro do contexto da filosofia hinduísta. O conceito de manas, inexistente na astrologia ocidental, ainda no exemplo, é que permite a correta avaliação do estado mental de uma pessoa e de como ela reflete a luz solar com relação ao seu mundo externo. O nome da Lua é Chandra e ela, como manas, vai indicar, principalmente, com que intensidade as oscilações da alma (afetos, emoções) interferirão na atividade mercuriana (chandramamanaso jataa).  


CHANDRA  - ARTE DE MULHERES DE MADHUBANI 
                     
Etimologicamente, karma quer dizer ação. Na prática, é tudo aquilo que decorre do que fazemos, da nossa ação. É também o efeito que não pode ser separado da ação. Tudo o que fazemos envolve-nos com o karma. Quando comemos, bebemos, estudamos, olhamos, dormimos, mesmo quando não fazemos nada estamos ligados ao karma. Agindo deste ou daquele modo, estamos assumindo o resultado das nossas ações. 

Karma é também a soma total dos nossos atos, daquilo que estamos fazendo hoje, que afetará o nosso futuro, e também daquilo que, segundo a concepção hinduísta, trazemos de vidas anteriores, resultado de ações praticadas antes. É, em suma, a lei da causação. Sempre que há uma ação, uma causa, um efeito é produzido. 

No hinduísmo, o ser humano tem uma natureza tríplice. Ele é iccha (sensação, modo de sentir), jnana (conhecimento) e kriya (querer, vontade). Estes três elementos modelam o karma, estão sempre entrelaçados. Através dos sentidos captamos o mundo, tomando conhecimento dele. Isto poderá nos causar prazer, dor, indiferença etc., em variados graus. De um modo geral, se os estímulos nos agradam tendemos a nos aproximar deles. Se nos desagradam, rejeitamo-los. Em certos casos, porém, podemos nos aproximar de um estímulo, transformá-lo numa tendência, num hábito, mesmo sabendo que ele poderá nos prejudicar. Também aqui encontramos variadas nuances, matizes, gradações quanto ao bem e ao mal, praticamente infinitas.

AGNI
Mobilizados os nossos sentidos, interpretado o resultado de um estímulo de modo positivo, entramos num estado de carência. Precisamos obter aquele objeto, entrar em contacto com aquela pessoa, possuir aquele objeto, conquistar alguma coisa. É o desejo, que os antigos gregos representavam pelo deus Eros e que os hindus o
KAMA
 fazem pelo deus Kama, às vezes identificado como Agni, deus do fogo. Platão, por exemplo, criou uma genealogia para o Eros grego, dando-lhe Penia (carência, falta) como mãe e Poros (artifício, meio, expediente) como pai. Ou seja, desejosos, sofremos, sentimo-nos carentes; para sair desse estado, recorremos a algum meio, a algum expediente. Kama, segundo o Rig Veda, foi o primeiro movimento a emergir do Brahman, o Todo.  

Por trás de toda ação que nos leva a buscar alguma coisa há sempre um desejo. Saímos da situação de carência, de penúria, de sofrimento, quando satisfazemos o nosso desejo. Desejo, pensamento e ação sempre caminham juntos, ligados ao karma. O desejo, no fundo, é o grande agente produtor do karma, da ação. O karma produz os seus frutos, as consequências. No hinduísmo, segundo suas teses reencarnacionistas, teremos que renascer muitas vezes para colher os frutos do nosso karma de modo a liquidá-lo. Esta preocupação tem o nome de moksha e ainda hoje, arrisco-me a dizer isto, embora sem muita certeza: na Índia atual ela faz, ao que parece, parte da religiosidade do homem comum. 


SÍMBOLO  DO  KARMA  -  TEMPLO  JAINISTA  DE   RANAKPUR

O hinduísmo, é bom lembrar, nunca ofereceu aos que realmente o professam mais conscientemente, ao contrário do que muitas tradições religiosas o fazem, a ideia de um paraíso (etimologicamente, pomar) como um lugar idílico em que as almas, depois da morte, como recompensa por uma vida terrestre digna e justa de seus donos, vão viver em estado de felicidade eterna. O que o hinduísmo oferece para os que conseguem liquidar os seus débitos kármicos, quaisquer que sejam as seitas e as escolas que sigam, é o de que sua alma (atman) se integre ao Brahman, retorne a ele, de onde um dia saiu. Ou seja, que volte a ser energia. Lembro-me aqui de uma frase de Shankara: a alma não sendo senão Brahman, se funde nele.

Por atman, o hinduísmo entende o verdadeiro eu de uma pessoa como uma entidade espiritual eterna que se encarna indefinidamente enquanto não se libertar do ciclo dos renascimentos (samsara). Presente em todo ser, afetada pelas vicissitudes
HAMSA
inerentes à sua presença num corpo mortal, ela toma o nome de jivatman. Ela é comparada a um pássaro migrador (hamsa) cativo, prisioneiro. Não há como deixar de comparar esta ideia com aquela que os órficos da antiga Grécia defendiam: a de que o corpo era uma prisão da alma, sendo a morte considerada como um bem, pois a libertava do cativeiro. Os órficos resumiam esta condição da alma pela expressão soma, sema (corpo, prisão).  Este desapego com relação à vida era considerado nas seitas órficas como uma nostalgia de uma vida futura pós-morte. Numa expressão de Sócrates, talvez a vida presente seja a morte e a nossa morte seja realmente o começo de nossa vida.  


A proposta hinduísta de que a libertação do ciclo de renascimentos leva a uma dissolução do atman no Brahman nunca foi muito tentadora para os ocidentais, convenhamos, pois ela sempre se constituiu numa exceção sob o ponto de vista soteriológico. O hinduísmo pede aos seus crentes, além da dissolução do ego, um esforço ascético duríssimo, uma ética rígida, a conquista de um desapego cada vez maior com relação à vida material e nenhuma recompensa oferecia quando pensamos numa vida pós-morte. A maior parte das tradições religiosas sempre ofereceu aos seus crentes, nas suas soteriologias, além da eternidade, muita felicidade, bem-aventurança, harmonia, paz, simplicidade e pureza, tudo a ser “vivido” num lugar no qual todas as necessidades e carências se veriam satisfeitas e resolvidas sem esforço algum.  A concepção de paraíso da religião judaico-cristã, por exemplo, foi estabelecida por povos semíticos, que sempre viveram em lugares desérticos, secos, pedregosos, de quase nenhuma vegetação. Por isso, sua concepção não podia ser outra: o paraíso “tinha” que ser um jardim sempre verde, com água abundante, lagos, rios, um lugar de primavera eterna, um lugar muito diferente daquele onde viviam. Algo divino, sem dúvida, satisfação permanente sem carência nenhuma.


SANTO   AGOSTINHO
É de se lembrar ainda que o cristianismo só se firmou realmente como religião vencedora no império romano, quando os primeiros padres da Igreja católica, Santo Agostinho talvez mais que todos, implantaram, com base na concepção do Érebo, da mitologia grega, na sua teologia, um lugar intermediário entre o céu e o inferno onde as almas dos que cometiam pecados mais leves iriam purgar, por certo tempo, suas faltas antes de ir para o paraíso. A dicotomia céu-inferno sempre aterrorizou muita gente, afastando-a dessa visão religiosa excessivamente fundamentalista. Com a ideia do purgatório, o cristianismo tornou-se sem dúvida bem mais atraente e menos assustador.  

Para o hinduísmo, a busca de um retorno ao Brahman sempre foi considerada como a mais profunda verdade a que um ser humano podia aspirar. O estado daquele que alcançou moksha, estado também chamado de kaivalya (independência), transcende a dualidade sofrimento-felicidade, em que as religiões que acenam com a conquista de um paraíso encerraram a vida religiosa. Para o hinduísmo, a alma, com moksha, não fica mais submetida a contínuas transmigrações (samsara) nem estará mais condicionada pelo tempo, pelo espaço e pela causalidade.  

No ocidente, lembre-se, a palavra desejo esta intimamente ligada à astrologia na medida em que procuramos fixar a sua etimologia. Desejar tem relação com o verbo latino desiderare, que significava afastamento dos astros, ou melhor, deixar de ver uma estrela, lamentar a sua ausência ou incorrer num erro por causa disso. Não saber ler o céu, em suma. Já olhar atentamente o céu, observar as estrelas e entender as suas mensagens era considerare, verbo que tomou o sentido de olhar o céu atentamente. Sideralis, em latim, queria dizer relativo aos astros (sidus, sideris). Temos, em português, siderar, ficar sem ação, paralisado, estarrecido, pela ação funesta de um astro.  


BUDA

A lei do karma é também fundamental para o Budismo e para o
TIRTHANKARA -  JAINISMO
Jainismo, dissidências do Vedismo. No que se refere ao ocidente, podemos dizer que o conceito de karma pode ser encontrado, de certo modo, entre os antigos gregos, na sua mitologia, nos desdobramentos daquilo que nela aparece sob o nome de Ananke. Esta palavra lembra coação, violência e ao mesmo tempo relação de parentesco, isto é, relação de causa e efeito. Em torno desse conceito se reuniam na mitologia grega várias divindades femininas que de modo providencial tinham, por sua ação, a finalidade de
ANANKE
repor limites rompidos por parte daqueles que haviam se excedido. Implícito sempre o conceito de hybris, orgulho, descaso, insolência, vaidade, desdém etc., neste rompimento. Nêmesis, Erínias Dike, Keres, Ate eram, dentre outras divindades, as encarregadas de exercer a coação sobre o transgressor. Havia sempre algo de mecânico na ação dessas deusas, de inexorável. Era o próprio agir humano que determinava qual delas exerceria a coação para obrigar o criminoso, o pecador, a voltar a limites que nunca deveria ter ultrapassado. Tais divindades atuavam em nome da Necessidade. Ou seja, era preciso que elas agissem desse modo, necessariamente, para que o universo recuperasse constantemente o seu equilíbrio rompido. Necessário, neste sentido, é o que não pode deixar de acontecer.

Incorporado pela filosofia (Empédocles, Platão), o conceito de Ananke, desde os pré-socráticos, passou a designar o necessário,
ISAAC  NEWTON
aquilo que não poderia deixar de existir. Na vida social, Ananke é uma necessidade moral, um dever. Sob a ótica hinduísta, Ananke abrange, ao mesmo tempo, os conceitos hindus de karma e dharma. Mais perto de nós, entre os séculos XVII e XVIII, a lei do karma foi formulada por Isaac Newton, um praticante da astrologia, num dos princípios da sua Física (a toda ação corresponde uma reação igual e contrária). Outras religiões, sob outros nomes, também fazem referências à lei do karma, mas nunca com o alcance, a profundidade e a importância que ela tem no hinduísmo e na mitologia grega. 


A lei do karma é inexorável. Ela nos revela que as coisas não acontecem no universo por acaso, acidentalmente, de modo desordenado. Quando não conseguimos perceber a relação entre causa e efeito falamos de acaso. O fato é que no universo as coisas se sucedem, umas depois das outras, numa ordem regular, nada de caos ou de acaso. Há sempre uma certa e definida conexão entre o que somos hoje e o que fizemos anteriormente assim como há uma relação entre o que estamos fazendo hoje, agora, e o que acontecerá no futuro para nós. Nada caótico, pois. Nada acontece por acaso.

Toda ação produz um efeito. Esta ação nos dá uma recompensa, um fruto, que vai afetar o nosso caráter. Deixa uma impressão na nossa mente. Esta marca, esta impressão, sobretudo se agradável, nos incitará a repetir o ato. Esta impressão assumirá a forma de um pensamento-onda na mente em função de um estímulo interno ou externo. A lei do karma deixa claro que colheremos o que semearmos. É a doutrina da ação (karma) e do fruto (phala).

A lei do karma na astrologia hindu está intimamente relacionada com as chamadas Gunas. De acordo com a filosofia Samkhya, dá-se o nome de Prakriti (pra, antes e kri, feito), à expressão material da energia universal, nem masculina nem feminina. É um dos nomes do Brahman, a Totalidade, o que foi, é e será, inclusive os deuses, expressão de tudo o que entra material ou imaterialmente de modo ininterrupto sob uma forma ou não na existência, depois desaparece e retorna de outra maneira. O Brahman é eterno, incomensurável, inapreensível e tudo o que se falar dele estará sempre aquém do que ele poderá significar. É, através da sua manifestação, a base objetiva de tudo o que existe, sendo independente e não causado. Do Brahman tudo provém e sua atividade depende da ação das energias que que lhe são intrínsecas, as Gunas. Prakriti é dotada de certa potencialidade, que depende desses três princípios que a constituem. 

Quando estes três poderes da Prakriti estão em equilíbrio tudo é repouso, não há movimento, ação, criação. Rompido este equilíbrio, as três Gunas entram num estado de desigualdade, lutam entre si, reagem. Começa então o processo incessante de criação, de conservação e de dissolução, o desdobramento contínuo dos fenômenos do cosmos.


GUNAS

As três Gunas ou forças que compõem Prakriti são Rajas, Tamas e Sattva, respectivamente ação, violência, paixão e atividade a primeira; inércia, obscuridade, ignorância e inatividade a segunda; e pureza, luz, inteligência e harmonia a terceira. Em cada vida humana as proporções específicas das Gunas determinam, através dos navagraha, os  nove planetas (Sol, Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno e mais os dois nós lunares, o norte e o sul, estes últimos considerados como planetas na tradição astrológica hinduísta, ou seja, na mesma ordem: Ravi, Chandra, Budha, Shukra, Kuja, Guru, Shani, Rahu e Khetu) a aptidão para esta ou aquela ação que o ser poderá realizar. Na astrologia ocidental, as Gunas corresponde aos signos cardinais, fixos e mutáveis, as três dinâmicas cósmicas, impulso, estabilidade e queda. 


NAVAGRAHA

Nos seres considerados individualmente a lei do karma atua primeiramente no nível do Ahamkara (Ascendente). O que os seres humanos semearam e vão colher depende do balanceamento das três Gunas. Quando Sattva predomina, podemos encontrar pessoas que agem de modo mais altruísta, que podem, por exemplo, se voltar para o Karma Yoga, desligadas do resultado das suas ações; esta é a dinâmica dos signos mutáveis, mais interessados em estabelecer relações do que buscar metas ou definir limites e valores; são os signos de natureza sattívica que, karmicamente, terão a missão de dar mais do que receber. Predominando Rajas, podemos ter ações tocadas pelas paixões, por desejos superiores ou cegos; já os signos rajásicos são os que levam a experiências novas (individualidade-complementaridade em Aries-Libra e raízes-altura, Câncer-Capricórnio). No caso de Tamas temos acumulação, desejos fixos, trocas difíceis com o mundo, senão impossíveis; sempre presente a ideia de dar corpo a alguma coisa e de lhe atribuir um valor.

Para Jyotish, há quatro tipos de karma: Sanchita, Prarabdha, Kriyamana e Agama. O primeiro tipo, Sanchita, é o que vem do passado, o acumulado. É a soma total de todas as ações passadas, conhecidas ou desconhecidas. Parte dele é percebida no nosso caráter, nas nossas tendências, aptidões, habilidades, inclinações, desejos etc. O princípio da reencarnação, astrologicamente ativo na Índia, entende que as ações praticadas em vidas passadas têm seus efeitos experimentados numa presente encarnação. Este princípio, embora não enunciado claramente nos Vedas, é aceito integralmente por todas as escolas filosóficas da Índia. No famoso poema Bhagavad Gita, a mais preciosa joia da literatura hinduísta, que faz parte da epopeia Mahabharata, por exemplo, já o encontramos perfeitamente definido. 


BHAGAVAD   GITA   -   KRISHNA   E   ARJUNA

O segundo tipo de karma, Prarabdha é a parte de Sanchita, o karma passado, atuante; é responsável em grande parte pelo que somos hoje, pelo estado do nosso corpo atual, pela situação em que nos encontramos na existência presente. É aquilo que aparece sob o nome de Destino, Fado, em muitas tradições. Nós não experimentamos Sanchita totalmente, mas somente aquela parte que “aflora” num ou noutro dos papéis, dentre os vários, que podemos representar (Meio do Céu). Prarabdha é o que está maduro para ser colhido, é o que temos que colher, que assumir. Não pode ser alterado, mudado.

O terceiro tipo de karma, Kriyamana, consiste na totalidade das possibilidades de efeitos que nossas ações do presente estão criando, é o que está sendo preparado para o futuro. Já o quarto, Agama, é a nossa capacidade de antever o resultado de futuras ações, realizemo-las ou não. Estes dois últimos tipos acabam muitas vezes se interpenetrando, se confundindo.


MAHABHARATA  -  ARQUEIROS

Na literatura da escola Vedanta há uma história que ilustra o que acabamos de dizer. Um arqueiro acaba de disparar uma flecha; não pode trazê-la de volta, ela já iniciou a sua trajetória. Ele está prestes a disparar a flecha seguinte. O cesto de flechas às suas costas é Sanchita. Muitas flechas já saíram dele, já foram disparadas. Estas flechas disparadas constituem Parabdha; as flechas que estão para ser disparadas são Kriyamana-Agama. Sobre estas o arqueiro pode ter perfeito controle, assim como sobre as do cesto.


KRISHNA
Em vários textos hinduístas encontramos esta frase: Nós não temos a liberdade de determinar o resultado das nossas ações; o que temos, sim, é a liberdade de determinar o curso delas (Narma Svantatrya). Krishna, na Canção do Senhor, diz: O problema está sempre na ação, não nos frutos. Compare o que aqui está com a muito citada afirmação de Sartre de que só podemos nos escolher com relação à nossa maneira de ser e não com relação ao nosso ser. 

Segundo a lei do karma, o que somos hoje é o resultado do que pensamos e fizemos no passado. O que viermos a ser no futuro será o resultado do que pensamos e fazemos hoje. Ações egoístas, isto é, karma egoísta, levam a renascimentos que, por sua vez, gerarão novos karmas. Tudo o que recai sobre nós de bom ou de mau é consequência de ações que praticamos. As consequências das ações que praticamos numa existência podem nela não ser experimentadas. Podemos até ter que esperar muito tempo, dizem certos mestres hindus, para experimentá-las. O certo, porém, é que sempre as experimentaremos, mais cedo ou mais tarde. A lógica da lei do karma é inflexível. Sempre seremos punidos ou recompensados, mesmo que não nos lembremos das ações praticadas. Por isso, os realmente hindus não se espantam quando vêem alguém sofrer sem uma causa aparente ou presenciam o crime não punido.

TYCHE
Os antigos gregos, no séc. IV aC, período de grandes problemas políticos e sociais, entronizaram no seu panteão uma deusa de nome Tyche, nome que podemos traduzir como Sorte, Fortuna. O verbo que deu origem ao nome traduz uma ideia de alcançar por acaso, por sorte. Nos novos tempos, de descrédito nas instituições públicas, no período helenístico, Tyche contrapunha-se ao conceito de Ananke, indicando, se cultuada, a possibilidade do crente escapar da mão pesada do Destino, da lei de causa e efeito. O tom de fatalidade passou a dar lugar ao sonho, o de que era possível, com alguma sorte, mesmo que se agisse mal, desonestamente, ter esperança de sucesso. Era só não errar o alvo e estar no lugar e no momento certos. Cultos como o de divindades como Tyche, como se sabe, são típicos, na história da humanidade, de períodos de descrença, de corrupção e de decadência moral.

O hinduísmo também fala de karmas coletivos. São aqueles que transcendem o karma pessoal, são karmas indiretos. Como consequência, tudo isto nos leva ao segundo conceito de que tratamos, o de Dharma, a obrigação que temos de assumir os efeitos das ações praticadas por nós e/ou pelos membros do grupo a que pertencemos. Uma pessoa pode assim experimentar o seu karma individualmente e também o coletivo, num estágio de vida diferente. 

CERIMÔNIA    HINDUÍSTA

As análises que a astrologia hindu procura fazer levam em consideração os diversos tipos de karma. Sanchita, o karma acumulado, dizem os astrólogos hindus, nunca poderá ser apreendido na sua totalidade, cabendo a Jyotish, por isso, tratar mais dos três outros tipos(Prarabdha, Kriyamana e Agami) do que de Sanchita. A ideia que ilumina este entendimento é a de que o que somos provém de uma interação dinâmica entre destino e livre-arbítrio. O destino é basicamente uma manifestação de Sanchita e de Prarabdha enquanto o livre- arbítrio resulta de Kriyamana e de Agama. Estes dois últimos, com o passar do tempo, transformam-se nos dois primeiros mencionados, pois o que fazemos hoje em nome do livre-arbítrio será experimentado como destino mais adiante. Por isso, diz o hinduísmo e, com ele, Jyotish, ninguém é governado inteiramente pelo destino. 

Diante disto, mudanças de vida só poderão ocorrer quando Kriyamana e Agama neutralizarem Sanchita e Prarabdha, este a materialização do outro. A quantidade e a qualidade dos esforços requeridos para tanto, isto é, para alterar karmas anteriores, vai depender, em grande parte, da intensidade de Prarabdha.  

A intensidade de Prarabdha, isto é, seu “peso”, seja ele doloroso ou agradável, pode ser sentido num aspecto de nossa vida ou em vários. Com base no hinduísmo, Jyotish considera Prarabdha como: 1) Fixo (dridha); 2) Fixo-Não Fixo (dridha-adridha); 3) Não Fixo (adridha). O karma classificado como fixo é muito difícil de ser mudado, praticamente impossível. As ações que a ele deram causa foram muito significativas, graves, proporcionais ao que agora é experimentado com a mesma importância e intensidade. Terá este karma que ser vivido. A sensação que temos é a de que ele simplesmente “acontece”, apesar de todos os nossos esforços contrários. Dizem os astrólogos hindus que o karma fixo aparece no mapa numa confluência, isto é, quando muitos fatores astrológicos convergem para uma indicação que permita considerá-lo como tal, como uma espécie de nó cego.

 O segundo tipo, fixo-não fixo aparece também através de vários pontos, convergindo todos também para uma determinada área. Este tipo de karma poderá, contudo, ser mudado através de consideráveis esforços, por ações conduzidas através uma vontade firme, austeridade (tapas), de médio para longo prazo. Já o terceiro tipo, não fixo, gera efeitos que podem ser alterados ou superados com relativa facilidade, Nestes casos, os resultados obtidos são proporcionais aos esforços empreendidos. 

Além das divisões que acabamos de mencionar, o hinduísmo propõe outras, ao nos lembrar que todas a ações humanas podem ser subdivididas em três classes: 1) Kayaka, as que dizem respeito ao corpo físico, que tanto se referem às nossas ações como aos nossos sentidos; há, assim, um karma relativo à visão, outro ao paladar, ao tato, à audição e ao olfato; 2) Vachaka, as que dizem respeito às palavras; 3) Manasika, as que decorrem de influências mentais, pensamentos. Assim, dentro de cada um dos karmas (Sanchita, Prarabdha e Kriyamana) poderemos ter mais as características acima apontadas.