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quarta-feira, 30 de abril de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - NETUNO (6)

POSEIDON

O temperamento instável de Poseidon levava-o a entrar em disputas com várias divindades. O seu conflito com Palas Athena, no qual esteve em jogo a tutela de Atenas, ficou célebre. Despeitado, Poseidon inundou totalmente a Ática, região grega onde ficava a polis. Seu relacionamento com Hera, sua irmã e cunhada, também não era bom. Numa disputa sobre o território da Argólida, planície do litoral do Peloponeso, arbitrada pelo rio Ínaco, que teve como assistentes os rios Cefiso e Asterion, a decisão foi favorável a Hera, o que lhe trouxe sérios problemas. Muito irritado com Ínaco, Poseidon não só o amaldiçoou como secou-lhe o leito, só permitindo que ele recebesse alguma água quando do período das chuvas, o que evidentemente levou a região a enfrentar contínuos períodos de seca.


HÉLIO

Outra disputa de Poseidon aconteceu quando ele e o deus Hélio resolveram assumir a tutela de Corinto, mais exatamente do istmo que une a Grécia continental ao Peloponeso. O hecatônquiro Briareu foi escolhido como juiz e sua decisão foi além do discutido. Ele declarou que  Acrocorinto ficaria com Hélio e que a parte restante da cidade, inclusive o istmo, ficaria com Poseidon. Tal decisão está na origem do culto que no istmo passou a ser prestado ao deus dos oceanos e que tinha como principal manifestação os Jogos Ístmicos.


TEMPLO DE POSEIDON

Ainda com relação às tentativas de Poseidon conquistar espaços terrestres, não podemos deixar de mencionar as suas disputas, sem sucesso, com Zeus e com Dioniso. Quanto ao primeiro, o motivo foi a tutela da ilha Egina, que antes se chamava Enone. Egina era uma filha do deus-rio Asopo, raptada por Zeus. Sísifo, que tudo presenciara, revelou ao deus-rio o nome do raptor mediante um acordo: Asopo faria brotar em Corinto, reino de Sísifo, uma fonte, que recebeu o nome de Pirene. Zeus fulminou Asopo e levou a amante para a ilha Enone, depois, como se disse, denominada Egina. Quanto a Dioniso, a questão envolveu a ilha de Naxos, onde o deus do vinho e a princesa cretense Ariadne, abandonada por Teseu, se uniram. Quanto à região onde ficava o oráculo de Delfos, cuja posse ele dividia com Geia, Poseidon a perdeu para Apolo. No episódio da conquista, Apolo matou o dragão Ladon, filho das divindades marinhas Forcis e Ceto.

Quanto aos oceanos e mares, o domínio de Poseidon sobre eles sempre foi indiscutível. Hábil construtor, ele havia estabelecido a sua morada num enorme palácio dourado, magnífico, brilhante,
feito para durar eternamente nas profundezas do mar Egeu. Ao visitar o seu reino, Poseidon costumava dar às suas saídas um cunho espetacular; usava um carro puxado por cavalos rapidíssimos, suas criaturas, com cascos de bronze e crinas douradas; protegia seu grande peitoral com uma vistosa armadura de ouro; e estalando o seu chicote para açular os animais, sempre teatral, lançava-se com nas imensas planícies líquidas do seu reino. À sua volta, acompanhando-o e rendendo-lhe homenagem, vários monstros marinhos saídos das profundezas abissais. Os mares, sorridentes, se abriam diante da sua passagem. Muitas vezes, porém, Poseidon optava por aparições tempestuosas, agitando os mares, produzindo vagas enormes, sempre uma manifestação de suas inexplicáveis  cóleras.

Essas manifestações de Poseidon, como se pode depreender astrologicamente, representaram sempre, para os que sabem
aproximar a mitologia da astrologia, impulsos inconscientes, ilógicos, irracionais, envolvendo conceitos que não podem ser explicados de um modo lógico e racional. É por essa razão que Netuno, na astrologia, sempre nos remete a ideias do que não é concreto, do que é fluido, do que é cambiante, do que é incerto. Poseidon-Netuno sempre nos diz que nossa mente racional não está preparada para lidar com as coisas de seu reino, já que os significados que deles podemos extrair tanto podem dizer respeito só a um indivíduo em particular como se relacionar com o que é coletivo, universal.

Nós somos preparados desde o nosso nascimento para viver trocando palavras, procurando tornar as nossas mensagens perfeitamente inteligíveis. É com palavras, formuladas através de
GOYA
nosso processo mental, que damos forma às nossas experiências do mundo. A nossa mente inconsciente, todavia, invade o campo da nossa consciência com a sua matéria onírica, seus sonhos, suas fantasias, suas cores e formas, que não encontram correspondência no mundo real. Nessa invasão uma coisa parece certa: os símbolos da nossa vida inconsciente são recursos que, sem que o saibamos, o nosso instinto de sobrevivência, alimentado por sentimentos e emoções profundos, se vale para nos falar de coisas importantes. Cabe à nossa mente consciente avaliar esse produto netuniano, dando-lhe o destino adequado e procurando usar o meio mais apropriado para veiculá-lo.


Sabemos o quanto é difícil dar forma aos sonhos netunianos para
CINEMA - ARTE NETUNIANA
apresentá-los ao nosso meio físico. Isto porque Poseidon-Netuno não opera com a linearidade, com a lógica, com as técnicas que o nosso mundo aprecia cada vez mais. Entender os significados essenciais de Poseidon-Netuno será certamente o primeiro passo para procurar entende-lo, por mais extravagantes que possam ser as formulações que ele nos trouxer.  



ANFITRITE E POSEIDON

Anfitrite, etimologicamente, “a que circunda”, era a personificação feminina dos oceanos e mares. Uns a dão como filha de Nereu e outros, como filha de Oceano. Poseidon a notou quando ela, em companhia das suas irmãs, estava perto das praias da ilha de Naxos. Poseidon se aproximou, propondo-lhe casamento. Anfitrite fugiu, indo se refugiar perto do titã Atlas. Poseidon, perdendo-a de vista, mandou que os delfins a procurassem. Encontrando-a, eles conseguiram trazê-la, entregando-a ao seu mestre.

Por esta missão tão fielmente cumprida, Poseidon resolveu homenagear  os  delfins, dando o nome deles   a   uma   constelação
situada numa zona do céu chamada de A Água, nas proximidades da constelação da Águia. A constelação do Delfim é boreal e estende-se de 8º a 18º de Aquário. Sua estrela alfa chama-se Sualocin, encontrando-se hoje a l6º41´ de Aquário. Não suficientemente estudada, esta estrela, embora não muito “poderosa”, parece conferir um certo talento ou domínio da ação nos assuntos do quadrante em que se encontra. Se estiver em aspecto com algum planeta ou, principalmente, na cúspide de uma das casas angulares, pode proporcionar mente ativa, curiosa, dando um reforço às características do planeta ou aos assuntos da casa. Sua melhor expressão é encontrada quando em aspecto com Mercúrio.

O delfim é um mamífero marinho muito inteligente, tendo, sobretudo por essa característica, chamado a atenção dos povos mediterrâneos. Há inúmeras lendas sobre ele. Uma delas, muito divulgada, foi a de que teria salvo o aedo Arion num naufrágio, levando-o à praia. Arion foi um poeta lírico e músico grego do séc. VII aC. Consta que teria sido o inventor do ditirambo. A história dele é narrada por Heródoto: quando de seu retorno a Corinto, depois de uma viagem à Sicília, foi despojado dos seus bens e jogado no mar pela tripulação da embarcação em que viajava. Mas os delfins, que conheciam a sua música e o seu canto o salvaram.

A história de Arion, o poeta e cantor, é contada por Plutarco e dela os cristãos, desde a alta Idade Média, extraíram uma interpretação que, parece-me, tem tudo a ver com o sentido soteriológico do Netuno astrológico. Graças à intervenção dos delfins, Arion passa de um mundo violento, agressivo e cheio de males, à salvação. Nada a estranhar que Jesus Cristo tenha sido, por isso, representado inúmeras vezes pelo delfim.

Na arte etrusca, o delfim é bastante encontrado como psicopompo. Ele  aparece  conduzindo  as  almas  dos  mortos  para  a  Ilha  dos
Afortunados. Na heráldica, o delfim pode ser visto no desenho das armas do Delfinado. Sua figura era notada nas armaduras dos herdeiros do trono da França, chamados então de delfins. A expressão ad usum delphini, impressa nos livros destinados ao uso dos herdeiros do trono francês, significava que se tratava de obras “puras como a juventude”, expurgadas de todo o mal e imoralidade.


Segundo o mito, o delfim era também um atributo de Apolo. Consta que o deus, na forma de um delfim, conduziu os habitantes de Creta que foram a Delfos construir um templo em sua homenagem. Desde
ORÁCULO DE DELFOS
então o deus é conhecido pelo nome de Apolo Delphinius, utilizando-se os habitantes de Creta do peixe como símbolo do deus. O nome Delfos, como se sabe, vem do nome do peixe, associando-se a essa etimologia o nome delphys, vagina útero, pelo fato de as pitonisas do deus proferirem as suas sentenças oraculares num antro escuro parecido com o órgão feminino. Quem deu o nome ao local, depois uma cidade da Fócida, foi um herói chamado Delfos, que passava por filho do deus Poseidon. Unindo-se a Melanto, uma filha de Deucalião, o Noé grego, Delfos foi pai de Pites, que governou o local, sendo Pito, em sua homenagem, também um dos nomes da cidade .


O cavalo e o delfim, como símbolos de Poseidon, aparecem associados pelos cretenses nos hipódromos da ilha, representando o
peixe simbolicamente o número de voltas dadas em cada corrida. É de se lembrar ainda que a deusa Afrodite, por causa de seu nascimento marinho, era muito representada em companhia de delfins. Por essa razão ao peixe foram atribuídos “valores” afrodisíacos. É o delfim chamado no Brasil de golfinho ou boto, derivando-se este último nome de buttis, em latim, odre de vinho, devido à sua forma.

O séquito do casal Poseidon-Anfitrite é formado por todas as entidades marinhas, Proteu, Nereu, ninfas, oceânidas, nereidas, tritões, delfins, hipocampos. Desde que Anfitrite partilhou com Poseidon o reino dos oceanos e dos mares, podemos vê-la em muitas representações ao lado do marido, embora sua autoridade tenha sido considerada sempre como muito limitada. Seu culto era  inexpressivo; o mesmo se poderá dizer das suas representações na antiga arte greco-romana. A antiguidade da deusa é apontada no hino homérico a Apolo no qual se relata que, quando do nascimento do deus, estavam presentes várias divindades, inclusive Anfitrite.

Da união dela com Poseidon nasceu um filho, Tritão, e duas filhas, Rodo e Benthesicymé. Tritão é nome que lembra em grego fluir, escorrer, corrente, sendo considerado como uma divindade que tem
TRITÃO
uma importância menor em relação aos oceanos e mares. Humano da cintura para cima e peixe da cintura para baixo, Tritão vive soprando uma trompa feita de conchas marinhas, aterrorizando os navegantes. No fundo, porém, ele aparece mais como “o filho de um pai importante”, afirmação que me permito fazer diante das suas “travessuras” conforme algumas histórias de sua crônica. Tritão parece ter “aprontado” muito mais do que foi conservado dele, razão pela qual, em relatos tardios, lhe tivesse sido atribuída unicamente a tutela do lago Tritonis, na Líbia (uma espécie de confinamento). O principal motivo para este “rebaixamento” foi, ao que parece, duas de suas aventuras. Ele se engraçou com Palas, a amada companheira de divertimentos da deusa Athena, e com a lindíssima Triteia, que passa por sua filha, um dos amores do deus Ares.


No mito dos Argonautas, Tritão aparece sob a forma de Eurípilo, também filho de Poseidon, que reinou em Cirene, na Líbia. Quando os companheiros de Jasão chegaram a um lago (futuro Tritonis), ele ofereceu a Eufemo hospitalidade e lhes deu um talismã que lhes permitiu encontrar o caminho para o Mediterrâneo. Eufemo, lembre-se, era também filho de Poseidon e um dos Argonautas. Sua mãe era Europa, filha do gigante Títio. Eufemo, o de bons presságios, tinha o dom de caminhar sobre as águas. No episódio das Simplégades, foi ele quem soltou as pombas.


DIONISO

O comportamento de Tritão trouxe-lhe problemas com o deus Dioniso. Numa festa em honra ao deus, na Beócia, o filho de Poseidon tentou atacar sexualmente as mênades, as sacerdotisas do deus, que por elas foi chamado aos gritos. Intervindo, Dioniso, pôs Tritão para correr. Outra aventura: Tritão, certa vez, levou uns pastores ao desespero quando começou a roubar os animais que pascentavam. Os pastores conseguiram então embriagá-lo e, segundo uma versão dionisíaca, o mataram, o que pode ser considerado como uma possível superação do culto de Tritão   pelo de Dioniso no norte da África.


RODES

Rodo ou Rode (rodhon, rosa, em grego), filha de Poseidon e de Anfitrite, uniu-se ao deus Hélio. É do seu nome que vem Rodes, a chamada ilha das rosas. A outra filha, Benthesicyme (benthos, profundezas, e kyma, ondas, ou seja, a deusa das ondas que vêm das profundezas) era mulher de Enalos (o do mar), uma divindade marinha da Líbia.

Complacente demais, Anfitrite suportou as inúmeras infidelidades de Poseidon. Ao que parece, numa única vez ela teria manifestado seu ciúme, quando Poseidon teve uma aventura com Cila, primitivamente uma divindade marinha de rara beleza, filha de Forcis. Poseidon teria se apaixonado por ela; consta que Anfitrite pediu a Circe, a maga, que a transformasse numa figura monstruosa e devoradora. Circe deu a Anfitrite umas ervas mágicas que, lançadas às águas onde a jovem se encontrava, a teriam transformado em monstro.


HÉRCULES E ANTEU

Dentre os principais amores de Poseidon, cumpre destacar Geia, nascendo dessa união o temível Anteu, etimologicamente, aquele que se opõe, o hostil. Enorme, fortíssimo, desequilibrado como todos os filhos de Poseidon, Anteu matava os que se aventuravam pelos desertos líbios. Hércules, quando do seu terceiro trabalho, o enfrentou e venceu quando percebeu que, retirando-o do chão, sua energia declinava. Assim o fez, conseguindo estrangulá-lo.


HÉRCULES E GERIÃO

Foi sob a forma de um cavalo que Poseidon se uniu à Medusa, num templo da deusa Palas Athena. Foi por causa desta profanação que os cabelos da Medusa foram transformados em serpentes. Quando Perseu decepou a cabeça da Górgona, do sangue que escapou do corte nasceram o gigante Crisaor e o cavalo-alado Pégaso. O primeiro, desde o nascimento, carregava uma espada de ouro, significado de seu nome. Unido a Calírroe, uma oceânida, Crisaor foi pai de Gerião, gigante de três cabeças, e de Équidna, mulher de Tifon, o maior dos monstros, vencido por Zeus.

Quanto a Pégaso, sua história começa quando, tão logo nascido, e depois de ter prestado relevantes serviços a Perseu, ele voou para o Olimpo, colocando-se a serviço de Zeus. Foi enviado para auxiliar Belerofonte, permitindo-lhe realizar duas importantes façanhas: matar a Quimera e derrotar as Amazonas. Morrendo o herói, vitimado pela sua própria hybris (tentou escalar o Olimpo), Pégaso, mais uma vez, voltou à montanha divina.

Pégaso (etimologicamente, fonte), quando de suas andanças terrestres, por ordem de Poseidon, atingiu violentamente o monte
FONTE DE HIPOCRENE
Helicon com um coice, a fim de que ele deixasse de se envaidecer tanto por ter sediado uma disputa entre as Musas e as Piérides. No lugar do coice, brotou imediatamente uma fonte, a que deram o nome de Hipocrene, a Fonte do Cavalo, desde logo famosa porque suas águas, uma vez consumidas, ativavam a imaginação criadora dos poetas e músicos. Por essa razão também, o Pégaso foi considerado um símbolo da fecundidade e da elevação.


Pégaso é um dos grandes símbolos da inspiração poética e, como tal, pertence ao mundo da água. A água, em todas as tradições, sempre foi considerada como o ponto de partida de todas as formas, revelando-se como um infinito de possibilidades, como proposta de desenvolvimento. É ela, nos mitos e religiões, fonte de vida associada no ser humano ao seu psiquismo inconsciente, que precisa ser controlado, levando-o a assumir o papel de herói, cavaleiro. É a isto que se dá o nome de espiritualização do combate, que significa tanto o envolvimento em causas superiores (Júpiter, como regente de Sagitário e Peixes), de natureza transcendente, como a escolha de meios adequados e da necessária técnica para o domínio dos “cavalos” interiores, que tentam sempre escapar do controle a eles imposto (vide o primeiro trabalho de Hércules: a captura das éguas de Diomedes).


PEGASUS NO CÉU


Simbolicamente, aliam-se nele a velocidade, a vitalidade, o impulso ascendente e a independência dos pássaros. O seu poder de superar as forças que prendem à terra é que permite considerá-lo como o grande símbolo da inspiração superior de todos os artistas. Todavia, para montá-lo, é preciso perícia, qualidades de mente e de corpo e, acima de tudo, longa preparação espiritual para que sejam atingidos os elevados planos da criação artística. Quem o montar sem a devida preparação será imediatamente lançado ao chão e escoiceado por ele até a morte.  

Os antigos deram o nome de Pegasus a um grupo de estrelas situado perto da constelação de Andrômeda, emergindo do pescoço da princesa libertada por Perseu. Alguns astrônomos da antiguidade, entretanto, têm a opinião que essa constelação, antes de ser uma homenagem ao filho de Poseidon é um reconhecimento aos serviços prestados por esse animal que se colocou, na história da humanidade, num nível superior ao da espécie bovina (passagem da era de Touro para a era de Áries). Não se esqueça que os bovídeos selvagens, antes, e, depois, os cavalos foram os animais mais frequentemente reproduzidos nas pinturas rupestres da época glacial.

A domesticação do cavalo, como se sabe, só apareceu bem mais tarde do período em que o touro, o bisonte e outros animais semelhantes representaram o poder feminino, ligado à adoração das Grandes-Mães. Essa domesticação ocorreu antes no leste europeu e nos países da Ásia central. O valor do cavalo, inicialmente, era funéreo, associado ele ao reino dos mortos aos quais ele era sacrificado, desempenhando uma função de psicopompo (guia das almas).

Esta significação do cavalo como animal psicopompo, que permaneceu viva até hoje em muitos cultos pré-históricos remanescentes, pode ser notada em algumas práticas xamânicas do norte-nordeste asiático e vuduístas africanas. Os xamãs (o que sobrou deles) utilizam tambores revestidos com pele de cavalos para “penetrar” no mundo dos espíritos, montados num cajado, tornando-se possuídos pelas forças do Outro-Lado.

O cavalo, como símbolo do Outro-Lado, é encontrado, por exemplo, em expressões como “cavalo de São Miguel”, dos antigos
SÃO MIGUEL
franceses, para designar a padiola que transportava os defuntos. Lembremos que Miguel, entre os judeus, é arcanjo cavaleiro da mais alta hierarquia, chamado pelo nome de Príncipe da Água e Anjo de Prata. Miguel é Príncipe de Israel e atua como advogado do povo judeu diante de Deus.


Pegasus forma um quadrado no céu e se estende de 27º de Aquário a 10º de Áries. Os gregos o ligavam também à “hybris” de Belerofonte, considerando as suas influências perigosas, predispondo a julgamentos errados, vaidade, orgulho, caprichos, negativamente, e a intuição e entusiasmo, positivamente. A estrela mais brilhante de Pegasus é Markab, hoje a 22º 47´ de Peixes. Esta estrela dá aos que a possuem em evidência, por posição ou aspecto, a capacidade de manter o controle e a estabilidade do curso indicado pelo planeta com o qual se faz o aspecto. Ela lembra a necessidade de se diminuir o ímpeto, a hybris, no caso. Outra estrela relativamente importante de Pegasus é Scheat, hoje a 28º 41’ de Peixes, de natureza júpiter-mercuriana (hoje netuno-mercuriana), pois suas influências dizem respeito não só à valorização intelectual como à possibilidade de se escapar do pensamento lógico. Esta estrela compreende dois aspectos importantes do mito de Pegasus: inspiração criativa, diminuição dos modelos e formas racionais, e obtenção de meios técnicos (tekhné, educação) para se chegar à construção artística superior.

Poseidon teve relações com Alcyone, uma das Plêiades, tendo com ela os filhos Híperes, Antas e Hirieu. Observação importante para astrólogos, considerando-se que Netuno se exalta em Leão: Apolo e Poseidon tiveram muitos “casos” com as mesmas parceiras. As Plêiades, como se sabe, têm relação com o verbo navegar (plein, em grego), uma vez que, surgindo como estrelas nos céus, para onde foram levadas afim de fugir da sanha erótica do gigante Orion, indicam o período favorável para a navegação (fins de abril a novembro).


PLÊIADES

Alcyone se encontra hoje a 29º 18´ de Touro. Como faz parte de um cluster, sempre foi considerada através dele e, como tal, ligada a sua influência a problemas de visão. Estes problemas, desde a antiguidade, segundo astrólogos que estudaram a estrela, a relacionam com a visão interior, desejo de aprofundar o conhecimento da interioridade, achando alguns, mesmo, que ela teria ligação com o chamado “terceiro olho”.  Sigmund Freud, por exemplo, tinha as Plêiades (Alcyone, em especial) culminando, juntamente com Mercúrio.

Ligada a um planeta, Alcyone pede cuidado na sua avaliação, pois pode nos tornar “cegos” para o óbvio, causando confusão entre o que real e imaginário. Se, por um lado, ela oferece a possibilidade de insights profundos, pode ocasionar também julgamentos confusos quando se tratar de materia mystica.

Dos filhos que Poseidon teve com Alcyone, destaque apenas para Hirieu, que reinou na Beócia, e por ação divina se tornou pai do gigante Orion. A história de Hirieu é a seguinte: velho lavrador,
CONSTELAÇÃO DE ORION
pobre, hospedou com a mulher em sua pobre choupana Zeus, Poseidon e Hermes sem o saber, disfarçados, então em visita à Terra. Revelando-se os deuses, o velho Hirieu lhes pediu a graça de ter um filho, mais tarde o gigante Orion. Com a Harpia Celeno, Poseidon teve dois filhos: Lycos, que reinou na Ilha dos Afortunados, e Euripilo, que se destacou no cerco de Troia e tomou parte na expedição dos Argonautas. Um outro Euripilo, que reinou na ilha de Cós e foi morto por Hércules, nasceu , além do argonauta Anceu, de Poseidon e de Astypale, irmã de Europa.


Quione, filha do deus Bóreas, seduzida por Poseidon, teve dele o filho Eumolpo. Para não deixar que ninguém soubesse, ela lançou o filho ao mar; Poseidon, entretanto, o salvou, levando-o para a Etiópia, confiando-o sua filha Benthesicyne, acima mencionada, da qual Eumolpo se tornou genro mais tarde.

Uma das mais famosas relações de Poseidon, peculiaríssima, foi com Etra (etimologicamente, céu limpo, luminoso), filha de Piteu, rei de Trezana. Etra se casou com Egeu, rei de Atenas; este, embriagado por Piteu que o hospedava, foi introduzido no leito da filha. A jovem princesa, entretanto, no dia anterior tinha tido um sonho no qual a deusa Palas Athena lhe aparecera e ordenara que ela se dirigisse a uma ilha próxima do reino do pai. Sempre em sonho ela foi ao local indicado e lá lhe apareceu o deus Poseidon, que a engravidou.

Etra ficou grávida de Teseu, futuro rei de Atenas. Egeu sempre acreditou que a criança que nascera era produto da sua noite de amor com a jovem, quando embriagado dormiu com ela. O que se sabe é que Teseu permaneceu em Trezena, sob os cuidados de Etra e de Piteu, pois Egeu temia pela sorte da criança, devido às constantes crises políticas que ocorriam em Atenas. Só mais tarde, Teseu, como um jovem herói, chegou incógnito ao reino de Egeu, que a essa altura vivia com a maga Medeia.


JASÃO E O VELOCINO

Por causa de sua grande beleza, Teophane era procurada por inúmeros pretendentes. Para afastá-la dos que a cercavam, Poseidon transportou a jovem para uma ilha e lá se uniu a ela. Os pretendentes, todavia, para lá se dirigiram. O deus a transformou numa ovelha e para amá-la tranquilamente assumiu a forma de um carneiro. Fecundada pelo deus, a jovem tornou-se mãe do carneiro que transportou os jovens Frixo e Hele para a Cólquida e que mais tarde centralizaria o mito dos argonautas; sua pele daria origem ao famoso velocino de ouro.

Não será difícil entender que a história acima tem origem astrológica, ilustrando para muitos a busca de sabedoria, da espiritualidade, porque tem todos os ingredientes que lhe são comuns: viagem difícil, heróis, tesouro, dragão etc. Todavia, ao invés do velocino de ouro simbolizar um tesouro espiritual, tenho para mim que esse mito representa muito mais o imperialismo grego e a sua grande vocação colonizadora, eis que, como se sabe, a Cólquida, para onde voou o carneiro divino, era uma região riquíssima em minas de ouro.


TESEU E CERCION

Álope era filha de um bandido que assumira o trono de Elêusis. Notada por Poseidon, o deus a engravida sem que o pai o saiba. Nascida a criança, ela é exposta, como costume na época. Aleitada por uma égua, um dos animais-símbolo do deus, foi encontrada por pastores e, por causa do seu rico enxoval, acabou sendo levada a Cercion, pai da jovem. A égua que aleitava a criança conseguiu se aproximar do palácio real e, percebida a história pelo avô do menino, esta continuou a aleitá-lo. Por isso, o menino passou a ser chamado de Hipotoon, o rápido como um cavalo. Mais tarde, Teseu mataria Cercion e entregaria o reino ao jovem.

Por ter pilhado um bosque consagrado a Deméter, Erisicton (etimologicamente, o que salva a sua terra), rei da Tessália, foi punido, passando a experimentar uma fome insaciável. A fim de mitigá-la e com o intuito de obter mais dinheiro para comprar alimentos, pôs, além de muitos bens, a sua filha Mestra (matriz, útero, etimologicamente) à venda. Poseidon que nutria grande interesse pela jovem, deu-lhe o dom da metamorfose para que, transformando-se, pudesse escapar dos seus possíveis compradores. Isto é, vendida, ela se metamorfoseava e escapava deles. Mas quem se aproveitou do dom foi o pai da moça que a vendeu várias vezes. Um dia, porém, tudo foi descoberto. Não restou outra alternativa a Erisicton senão a de se devorar a si mesmo.

Dentre outros casos amorosos de Poseidon, podemos mencionar o que teve com Amimone, filha de Danao, que saíra à procura de água, devido a uma grande seca que assolava a Argólida, provocada
pelo próprio deus. Pondo em fuga um sátiro que perseguia a bela jovem, Poseidon obteve dela muitos favores amorosos. Para recompensá-la, o deus, com um golpe de tridente, fez brotar dos rochedos próximos uma fonte que recebeu o nome de Lerna. Amimone, como fruto das relações mantidas com Poseidon, teve um filho, chamado Nauplios, que deu nome à cidade de Nauplia. Essa fonte deu origem ao pântano de onde sairia a monstruosa Hidra, que Hércules enfrentaria no seu oitavo trabalho. Foi aí, lembre-se, que as cinquenta filhas de Danao jogaram as cabeças de seus maridos.  


PIRENE

A origem de uma outra fonte que se encontra em Corinto, chamada Pirene, também é atribuída a Poseidon. O deus tinha tido de Pirene, filha do deus-rio Aqueloo, dois filhos que haviam morrido miseravelmente. A mãe, inconsolável, não parava de chorar. Poseidon fez com que as lágrimas de Pirene se transformassem na mencionada fonte.

Como podemos perceber, Poseidon é, dentre outras coisas, um deus criador de fontes, cuja simbologia se liga à água em movimento, ao seu jorro, razão pela qual elas, as fontes, têm relação com um perpétuo devenir, que pode, conforme o caso, favorecer a inspiração, a criatividade, a longevidade, a purificação, a regeneração e o saber. Além do mais, as fontes, por sua origem e ligação com a água, lembram também a simbologia do matricial, do vital. Enquanto a água aparece como a essência do poder passivo ou feminino, a água jorrante analogicamente se associa à seiva, ao seminal, ao sangue, ao líquido vital, ao vinho dionisíaco. Como tal, a água jorrante lembra a compaixão ativa e  se opõe ao subconsciente, à água gelada, às águas paradas, estagnantes, à morte da alma.  

Um capítulo importante na crônica de Poseidon é a sua descendência. Dentre os mais importantes, destacamos o já mencionado Eufemo. Repetindo e definindo melhor algumas informações sobre ele prestadas, esclareço que era filho de Europa, filha de Titio, este gigantesco filho de Zeus, de quem Hera se serviu para perseguir a infeliz Leto, mãe dos Luminares. Foi fulminado por Zeus e até hoje está no Tártaro. Seu fígado, que sempre renasce, como o de Prometeu, é destruído diariamente por duas águias. Eufemo recebeu do pai, como se disse, o dom de andar sobre a superfície das águas. O deus Tritão lhe deu um torrão de terra mágica que, lançado por ele ao mar, deu origem à ilha de Tera.

Halirrótio (o estrepitoso, o barulhento), filho de Poseidon com uma ninfa, tentou violentar Alcipe, filha do deus Ares, que o matou. Levado a um tribunal divino por Poseidon, Ares, para espanto de todos, se defendeu tão bem que foi absolvido por unanimidade. O local onde se realizou o julgamento, uma colina de Atenas, recebeu, desde então, o nome de Areópago, colina de Ares.


AREÓPAGO

Famosos eram os Alóadas, filhos de Poseidon e de Ifimedia. Esta, embora casada com Aloeus, perdeu-se de amores pelo seu sogro. Os gigantes chamavam-se Oto (mocho, ave noturna) e Elfiates (íncubo, pesadelo). Ifimedia demonstrava seu grande amor pelo sogro indo diariamente banhar-se no oceano. Sensibilizado por essa demonstração de amor, Poseidon se uniu a ela. Os gêmeos eram tão imensos e fortes que ousaram emular-se com os deuses, tentando conquistar Hera, o segundo, e Ártemis, o primeiro, além de constantes ameaças que faziam no sentido de assaltar o Olimpo. Zeus, cansado de tanta insolência, os fulminou.


POLICEMO

Além destes e de muitos outros não podemos esquecer de Polifemo, o cíclope, gigante que Ulisses enfrentou e cegou, quando de sua passagem por região próxima de Nápoles, como está na Odisseia, de Homero. Por essa façanha, o rei de Ítaca foi perseguido por Poseidon, que quase chegou a matá-lo.

O que devemos reter quando nos aproximamos da descendência de Poseidon é que toda ela é monstruosa, disforme, destrambelhada, imensa. Não havia regras ou limites para ela, eram todos antissociais, infensos a qualquer forma de convívio social. Talvez possamos considerá-los como uma ilustração da impressão de terror que causavam aos primeiros seres humanos do Egeu as cóleras dos mares tempestuosos. A única exceção, quanto ao que aqui se coloca, talvez tivesse sido Teseu. Mesmo assim, porém, o rei de Atenas era uma figura que estava longe de se enquadrar em padrões de normalidade.

Ainda mais: Poseidon foi formidável gerador de monstros que ele enviava para destruir os seus inimigos ou punir aqueles que se
MURALHA DE TROIA
excediam de algum modo. Lembre-se, por exemplo, neste particular, do monstro que ele enviou para destruir Troia quando, terminada a construção da muralha da cidade, na qual ele e Apolo haviam trabalhado, o rei Laomedonte recusou-se a lhes pagar o salário combinado.


 Foi Poseidon também quem enviou um pavoroso monstro marinho para dizimar a Etiópia, a fim de punir a hybris descomunal de sua rainha, Cassiopeia, mãe de Andrômeda, que se julgava mais bela que a deusa Hera. Foi também Poseidon quem enviou o dragão que causou a morte de Hipólito, filho de Teseu. Poseidon tinha ainda o costume de presentear com cavalos alados, como aconteceu com Xanto e Bálio, animais “inteligentes” oferecidos a Peleu.  


MORTE DE HIPÓLITO

Deus dos tremores de terra e deus do elemento líquido, Poseidon é incontestavelmente a grande divindade dos oceanos e mares em toda a sua imensidão e poder selvagem. Seu domínio estende-se, como se viu, não só às águas salgadas, mas também às águas doces, das quais depende a fertilidade dos campos, sendo por isso considerado como uma divindade agrária.

Ao lado de Poseidon, é de se registrar, atuavam no elemento líquido de modo independente outras divindades, não ligadas à sua
GLAUCO
linhagem, nem lhe sendo tributárias. Uma delas é Glauco, nome que lembra o azul sombrio, a cor que toma o mar quando o vento começa a soprar. Há muitas histórias sobre esse personagem. A que parece mais aceitável nos revela que ele era, na origem, um humilde pescador chamado Anthedon, que, morando em Delfos, recebera de Apolo dons divinatórios. Uma vez por ano, ele percorria o mar Egeu fazendo profecias. O dom, como nos conta o poeta Virgílio, ele o transmitiu a uma filha, Deífobe, que se transformaria na famosa Sibila de Cumes, na Itália.


Um dia, voltando da pesca, o pescador-profeta depositou os peixes que pescara, já mortos, num tufo de ervas perto de onde se sentara, junto de um rio. Espantadíssimo, viu que os peixes recuperavam a vida e se lançaram no rio, desaparecendo. Teve uma ideia: experimentou a erva e se viu transformado num tritão, tendo sido admitido, doravante, entre as outras divindades.

Glauco era uma divindade triste, todos concordavam, muito infeliz nos seus amores. A única exceção foi Syme, raptada por ele, que a homenageou, dando seu nome a uma ilha que fica entre Rodes e a península de Cnido. Quando Ariadne estava abandonada na ilha de Naxos, Glauco tentou seduzi-la, nada conseguindo, porém.


INO E MELICERTES RECEBIDOS POR DEUSES DO MAR

Glauco era muitas vezes confundido com um personagem de origem humana e que fazia parte do grupo das divindades marinhas. Seu nome era Melicertes, filho de Atamas de Ino, esta irmã de Sêmele, a  mãe de Dioniso. Odiada por Hera, por ter se encarregado de criar o menino-deus na ausência da mãe em virtude de sua morte, Hera perturbou a mente de Atamas, que matou um de seus filhos. Para evitar que o mesmo acontecesse com o outro filho, Melicertes, Ino se lançou com ele no mar, sendo acolhida pelas nereidas. Ino começou a ser chamada então de Leucoteia, tornando-se uma divindade protetora dos navegadores (Ulisses) e Melicertes se transformou num garboso delfim.






   








sábado, 9 de julho de 2011

A BOIUNA & O BOTO


A boiuna é uma serpente que faz parte de um mito hídrico de origem ameríndia americana, mais localizado nas águas da bacia amazônica. Trata-se de uma enorme serpente escura, voracíssima, capaz de tomar a forma de qualquer embarcação, uma canoa, um veleiro ou de sedutora mulher. Ao atravessar os rios, a boiuna produz um ruído que tanto lembra o das cachoeiras quanto o das hélices das grandes embarcações. Seu prestígio vem do pavor provocado pela sua voracidade e pela enorme capacidade que tem de se disfarçar, de mudar de forma. Nenhum culto lhe é devotado. O que se sabe é que para ela convergem mitos como os da mãe-d’água, da iara, do boto e outros. Para os indígenas, matá-la é pior que encontrá-la, pois isto significaria a própria morte e a destruição da tribo.

O nome vem mboya, cobra, e una, preta, na língua tupi. Os olhos do monstro são luminosos como dois faróis ou archotes que desnorteiam todos os que estão por perto. As populações ribeirinhas anunciam sua presença nos rios, lagos, lagoas e igarapés sempre com muito temor. Vive na parte mais funda dos rios e mede, segundo os depoimentos, entre 20 e 45 metros de comprimento. Quando sobe à terra, deixa sulcos que se transformam em igarapés.
É conhecida também pelos nomes de cobra-norato, mãe-do-rio e senhora-das-águas. O mito teria derivado de histórias relacionadas com a sucuri ou sucuruji, serpente da água que se alimenta de pequenos animais, que chega mesmo a atacar e matar os maiores. Em Belém, acredita-se que uma boiuna esteja com a cabeça na Sé e a cauda na igreja do Carmo. No dia em que a boiuna despertar e for para o mar, diz a lenda, a cidade desaparecerá. De certo, porém, ainda segundo a lenda, é que quando a boiuna se mexe a terra treme.
A sucuri ou sucuruji, como se sabe, é uma serpente da família das boídeos (família de cobras tropicais com cerca de quarenta espécies que incluem, entre outras, a jiboia), encontrada em muitas regiões da América do Sul. É a maior serpente do mundo, podendo alcançar de dez a doze metros de comprimento; vive à beira dos rios ou mergulhada em lagos e lagoas; alimenta-se de vertebrados de tamanho variado, que são mortos por ela por constrição. E também conhecida pelo nome de anaconda, nome este importado da Asia, da língua tâmil (sul da Índia e Ceilão), palavra que significa “a que mata elefante”.
O tema da sucuri, no folclore brasileiro, aparece num ciclo que tem o nome de “Cobra Grande”. Nesse ciclo, a cobra-grande ou sucuri é a senhora dos elementos e, como tal, tem poderes cosmogônicos, sendo dela o dia e a noite. Esse ciclo foi aos poucos se fragmentando, tomando a forma de histórias, contos maravilhosos, referentes a cultos astrolátricos que nos falam de constelações e de tarefas agrícolas.


Conta a lenda que a cobra-grande, também chamada de coisa-má, engravidou uma cunhã, que deu à luz uma cobra, que passou a perseguir a mãe por toda a parte. A cunhã, contudo, conseguiu esconder-se de tal modo que nunca mais foi encontrada. Desiludida, a cobra voou para os céus, tomando a forma da constelação do Serpentário, cujas estrelas anunciam o início do verão na região amazônica. Essa constelação também brilha muito em setembro, marcando o início do plantio nas roças, época importante para Guaraci, o Sol.


A constelação do Serpentário é austral, sendo chamada pelos gregos de Ophiuchus, visualizada como um homem que segura uma serpente dividida em duas partes, Serpens Caput e Serpens Cauda. Os gregos identificavam a figura humana como a do seu deus médico Asclépio, que aprendeu as artes da cura com o centauro Kiron. Na Idade Média, astrólogos judeus viram Moisés na figura humana desta constelação; os cristãos, uns, nela viram São Paulo com a víbora que lhe picou a mão e outros nela identificaram São Bento, de pé, entre espinhos. Ressalte-se que a constelação do Serpentário, astrologicamente, sempre apareceu ligada a influências médicas e à produção de drogas em geral a partir de ervas, como no caso dos monges beneditinos, que fabricavam um famoso álcool.
A sucuri não é venenosa, sua cor é pardo-azeitonada, com uma grande série dupla de manchas pretas. De hábitos semi-aquáticos, alimenta-se de peixes, aves e pequenos mamíferos que surpreende nos bebedouros (capivaras, antas, veados, bois etc.). Utilizando a sua extraordinária força muscular, enrosca-se nas presas, cujos ossos tritura, preparando assim o alimento para a deglutição. Apesar de poder dominar animais de maior porte (há registros de sucuris que atacaram crianças e adultos), só os ataca eventualmente, preferindo os menores.
Por oportuno, transcrevemos aqui um trecho do livro Viagem pelo Brasil, de J.B. von Spix e de C.F.P. von Martius, sobre os mitos amazônicos. Spix e Martius, alemães, vieram ao Brasil em 1817 com a missão científica austríaca, aqui permanecendo por três anos para fazer principalmente um levantamento da fauna brasileira, chegando a classificar 3.381 espécies de animais: “A dar-se crédito às inúmeras narrações de pessoas simplórias, as profundezas do Amazonas hospedam, além dos grandes anfíbios acima mencionados, ainda uma espécie de cobras-de-água, que são peculiares a esse rio e aos seus maiores afluentes, porém, que evitam as águas das ipueiras e lagoas vizinhas. Têm-se visto enormes serpentes, esverdeadas ou pardas, nadando como se fossem troncos flutuantes, e, segundo dizem, crianças e adultos já foram arrebatados, quando acaso elas saem em terra. A esse monstro os índios dão o nome de Mãe-d’Água (paranamaia, de paraná, rio, e maia, mãe), temem encontrá-lo e ainda mais medo têm de matá-lo, porque então é certa a própria ruína, bem como a de toda a tribo. Um velho remador de nossa canoa afirmava haver avistado essa terrível cobra-d’água perto do Gurupá, e, dois dias depois, ela enroscou e arrebatou o seu irmão. Este passeava com a noiva, à margem do rio, e, chegando a um ponto onde havia no fundo um barro preto fino, com que as índias tingem os tecidos de algodão, ela pediu-lhe que colhesse uma mão-cheia. O rapaz mergulhou, mas a noiva em vão o esperou por muito tempo. Quando, depois, observou, aflita, mais de perto, o lugar onde ele sumira, não viu mais a sombra dele no fundo, e, no meio do rio, a Mãe-d’Água sacudia a terrível cauda furiosamente e o noivo lhe tinha sido arrebatado para sempre. Já desde milênios se preocupa a imaginação dos povos com tais idéias de cobras gigantescas, habitantes do fundo das águas, e que só raramente emergem das mesmas, para terror e desgraça dos homens.
Na Europa, admiramos o primor artístico do Laocoonte, originado dessa lenda; na América, a fantasia toma proporções colossais no cenário agigantado, quando delineia esses monstros. O aparecimento, tantas vezes confirmado, da serpente do mar nas costas norte-americana deu ensejo a semelhante crendice acerca das águas, tão cheias de vida, do Amazonas. Cumpre dizê-lo, porém: os índios enfeitam os mais simples fatos com exageros fabulosos. Assim, eles contam que, de quando em quando, aparece a Mãe-d’Água com um diadema de brilhantes ou deixa emergir a cabeleira luminosa fora do rio, quando o nível da água baixa em extremo, com isso determinando a propagação das doenças decorrentes. A firme crença, com que os índios contam tais lendas, é uma das feições do seu caráter, e o viajante, neste país, deve ficar prevenido disso, para descontar a parte da imaginação nos fatos maravilhosos que ouvir da boca dos Peles-Vermelhas. Florear os mais simples fenômenos da natureza com galas da fantasia é a única poesia de que é capaz a alma soturna e obscura do índio. De igual modo, quase todos os fatos naturais, que se assinalam por qualquer distintivo, logo se transformam em fábulas. De muitos animais e plantas, os índios contam as maiores extravagâncias. As lendas das Amazonas, de homens sem cabeça e com a cara no peito, de outros que têm terceiro pé no peito ou possuem cauda, do conúbio de índias com os macacos coatás etc., são idênticos produtos da fantasia sonhadora dessa raça de homens.”
Alguns estudiosos aproximam o mito da lara ao das ondinas e sereias do Mediterrâneo. Iara (Yara, senhora, na língua tupi) seria o nome literário da Mãe-d’Água. As ondinas são ninfas da mitologia escandinavo-germânica, ninfas do amor que vivem nas águas, seduzindo, desencaminhando marinheiros e navegadores. Na mitologia grega, as sereias, um ser metade peixe (a parte inferior do corpo) e metade mulher lindíssima (a parte superior do corpo), são atraentes e perigosas. Antigos navegadores falam delas, do seu canto mavioso; quem o ouvisse não resistiria. Atraíam os marinheiros, que, lançando- se ao mar, pereciam afogados. De acordo com o mito, habitavam a costa sul da Itália. Aparecem em várias histórias, sendo a mais famosa a de Ulisses (Odisseia), de Homero.
O mito da Mãe d’Água, ou Iara, ganha, contudo, outro sentido, ampliando-se bastante, se o associarmos, como de fato devemos fazê-lo, ao do Boto. O boto (butis, em latim, barrica, odre de vinho) é um cetáceo encontrado no mar e em rios, em várias partes do mundo, sendo chamado também de golfinho e toninha. Nos mitos amazônicos, o Boto é um personagem que seduz as moças que vivem perto dos rios. Por esse motivo, o Boto passa por ser o pai de crianças com paternidade desconhecida. Há registros de depoimentos sinceros de mulheres ribeirinhas que confirmam essa história. É comum, por exemplo, no Pará, a alusão ao “filho do boto”, isto é, a criança sem pai.
O mito do Boto nos conta que ele, perto do anoitecer, transforma-se num belíssimo jovem, branco, grande dançarino e bom de copo; surge nos bailes, ficando todas as mulheres caídas por ele. Um fato notável: jamais esse Boto-Homem tira o chapéu da cabeça. Explicação: como o boto, o misterioso dançarino tem um orifício no alto da testa, razão pela qual usa o chapéu, para ocultá-lo. Depois de dançar e brincar com todas as belas jovens, desaparece misteriosamente. Volta à água, tomando a sua forma primitiva. Uma ou mais das jovens presentes aparecerão grávidas, tendo, no tempo devido, um filho, o “filho do boto”.

Este mito é muito diferente do mito do Ipupiara, uma espécie de homem marinho, como narram os índios, inimigo dos pescadores, que vira embarcações, que afoga e mata. O Boto, pelo contrário, é um sedutor irresistível, sente o cheiro de mulher a enorme distância. Pode virar às vezes as embarcações, quando vislumbra uma mulher que lhe apetece. Nesse momento, vira Boto-Homem, mantendo relações sexuais com a escolhida. Não há registros de acontecimentos dessa natureza que tenham provocado a morte da mulher. As mulheres que tiveram contacto com o Boto-Homem, conforme vários depoimentos, sempre guardaram do acontecimento uma lembrança muito agradável...
Uma versão tardia do mito do Boto nos revela, contudo, uma dominante feminina ao lado da masculina. Essa versão nos fala que o Boto se transforma muitas vezes numa sedutora mulher, a Mãe-d’Água, que atrai os jovens para os rios, seja para manter relações com eles ou para puni-los por terem feito mal a alguma cunhã. Esta versão introduz o hermafroditismo no mito, provavelmente uma contribuição das populações ribeirinhas mestiças da Amazônia. Dessas histórias sai por exemplo a grande fama que o olho de boto tem como talismã, uma infalível eficácia nas coisas do amor, no erotismo. Mas, para funcionar, o olho do boto deve ser convenientemente preparado numa pajelança (rituais que o pajé executa em determinadas ocasiões com o objetivo de cura ou magia).
Lembremos que há uma longa tradição que nos fala do sucesso do delfim, isto é do boto, na magia amorosa. Ele tem um papel de destaque na mitologia grega. Está relacionado com diversas divindades, Apolo (Delphinios), Poseidon, Eros, Dioniso e Afrodite. No mundo grego e romano, o delfim, quanto à magia amorosa, era de Afrodite. Os delfins eram tidos como voluptuosos e enamorados, sendo a eles atribuído também o sentimento da saudade (pothos). Os gregos viam nos movimentos do delfim, seu dorso descendo e se elevando acima da superfície das águas, uma grande semelhança com os movimentos que o corpo do homem faz no ato sexual.
Uma das melhores histórias que a tradição conserva desde a antiguidade pela via mitológica sobre o delfim é a do seu afeto pelo homem. Com efeito, muito se fala sobre ele como salvador de náufragos. Por isso, o delfim foi utilizado pela iconografia cristã para representar o amor de Cristo pelos humanos, amor que, através da Eucaristia, os tira da condição de náufragos. O delfim é, assim, um agente do retorno daquele que se perdeu na imensidão oceânica da vida. O perdido retorna à matriz da qual todos saíram Não é outra, aliás, a origem da palavra delfim (delphys, em grego, quer dizer matriz, seio, entranhas, o umbigo, e, por extensão, o centro da terra). Por isso é que o deus ApoIo instalou o seu oráculo em Delfos, lugar de renascimento para aqueles que iam procurar a sua sentença oracular. Mais ainda: a palavra grega para designar irmão é adelphos, uma palavra que exprime a ideia de extração ou a separação de uma mesma matriz, de um mesmo seio. Dentro deste campo semântico pode ser colhida também a palavra delfim como a usam os franceses como título do primogênito do rei da França.
É nesta perspectiva que esse mamífero aquático, o delfim, é o mais difundido símbolo da salvação, da transformação e do amor. É por essa razão, segundo os gregos, que o deus Poseidon colocou o delfim nos céus como constelação, junto das constelações de Aquário e da Águia. Amigável, brincalhão e inteligente, o delfim se integrou a várias expressões mitológicas e religiosas. Os etruscos, gregos e cretenses diziam que o golfinho salvava os náufragos de afogamento ou levava as almas dos que morriam para as ilhas dos Abençoados. O aproveitamento das histórias do delfim pelo Cristianismo encontra certamente justificativa pelo fundo mítico que já estava pronto, conforme se explica acima. Como emblema do Cristo sacrificial, o delfim pode aparecer perfurado por um tridente ou com o símbolo secreto da cruz veiculado pela âncora. Quando entrelaçado com a âncora, o delfim se torna um símbolo da prudência (velocidade controlada).
Voltando às serpentes, registremos que no folclore brasileiro, popularmente, há dois tipos delas, a de sangue quente, não peçonhenta, e a de sangue frio, venenosa. Quando a de sangue frio vai beber água num rio, diz a tradição popular, deixa seu veneno escondido numa folha. Ainda segundo a tradição possivelmente herdada de Portugal, as cobras costumam procurar mulheres que amamentam, para sugar-lhes o peito, dando o seu rabo à criança. Uma simpatia eficaz para prender cobra: a mulher deve virar o cós de uma saia branca; se estiver menstruada, basta tocar numa cobra para matá-la.
A lenda da cobra-norato é muito popular no norte brasileiro. Diz-se que engravidada pela boiuna (como Boto), numa região próxima ao município de Óbidos, entre os rios Amazonas e Trombetas, uma cunhã pariu duas crianças. Pressionada pelo pajé, atirou-as no rio, onde se criaram como cobras-d’água. O menino chamava-se Honorato (Norato) era de boa índole; sua irmã, porém, chamada Maria Caninana, perseguia animais, virava embarcações, matava os náufragos. Tantas fez Maria Caninana que seu irmão Norato para poder viver em paz a matou. Norato gostava muito de dançar. À noite, ele se transformava em rapaz elegante e frequentava as festas. Na margem dos rios, quando isso acontecia, deixava o seu couro imenso. Para se quebrar esse encanto, dizia-se que seria preciso que alguém com coragem se aproximasse dele como boto e deitasse leite em sua boca; na cabeça de Norato como boto seria preciso também dar uma cutilada de sair sangue. Se isso fosse feito, ele voltaria a ser inteiramente humano. Diz a lenda que foi um soldado que vivia em Cametá, no Pará, que realizou esta proeza, libertando Norato para sempre, mas isso nunca foi inteiramente confirmado.
A ideia de que a serpente expresse ao mesmo tempo a polaridade feminina e masculina é encontrada em muitas tradições. É a serpente neste sentido um ser cosmogônico, das origens, dos momentos da formação inicial do cosmos, dos tempos primordiais, quando as polaridades ainda não estavam bem definidas. Por isso, em muitos mitos ela oscila entre o macho e a fêmea. Como fêmea, ela se enrosca, envolve, estreita, abafa, engole, devora, digere. Noutros momentos, ela assume um papel masculino, se apropria, é poder, conquista. A fêmea é portadora da vida, é princípio anterior e, como tal, ela é quem dá origem ao masculino, como está aliás em todas as mitologias. O mito da boiuna, como tantos outros de mesma elaboração, não é mais que uma reminiscência dos momentos originais, quando os sexos ainda não estavam totalmente separados ou definidos.
Nas primeiras elaborações cosmogônicas, o ser é andrógino. A chamada arte primitiva, dos povos africanos ou indígenas, ou a oriental, principalmente a da Índia (Shiva), escandalizam ainda hoje muitos ocidentais ignorantes e/ou desinformados pela sua simbologia erótica. Não chegou e nunca chegará talvez ao grande público que no plano da sexualidade ninguém é totalmente masculino ou feminino. O mito da boiuna não é mais do que uma tradução desta dualidade num nível mais elevado e extensivo, no contexto dos povos ameríndios. O fenômeno da androginia aparece no início e ao final dos tempos. A mitologia, de um modo geral, sempre participou dessa compreensão, antecipando-se não só às conquistas da Biologia como da Psicologia. Na mitologia grega, por exemplo, inúmeros e fortes traços andróginos são encontrados em deuses e heróis como Dioniso, Adônis, Aquiles, Palas Atena, Tirésias, Castor e Polux, Ártemis etc. A rigor, toda divindade grega é bissexual. Por isso, as tendências ao transformismo ou travestismo que muitas delas apresentam.
Os mitos primitivos deixam claro que a dualidade em que o ser humano vive é falsa, mentirosa. As oposições fundamentais do céu e da terra, do dia e da noite, do calor e do frio, do masculino e do feminino nunca se resolvem totalmente. A plenitude do ser só se resolve momentânea e precariamente pela fusão das partes numa integração sempre buscada, conquistada e perdida. O masculino e o feminino não são mais que dois aspectos de uma multiplicidade de opostos que sempre se interpenetram.
Não é por outra razão que o mito da boiuna aparece dentro de um ciclo indígena maior sobre a origem da noite. Nesse mito, a boiuna casa a filha e manda-lhe a noite presa num caroço de tucumã. Os emissários da boiuna, no meio do caminho, muito curiosos, abrem o caroço e libertam a noite. A tucumã é uma palmeira que tem um caroço escuro. Como o ovo, o caroço simboliza a germinação, o princípio da manifestação a partir do qual aparecerá a dualidade e se desenvolverá a multiplicidade. Esta ideia está presente em todas as mitologias. Ovos e caroços nos mitos contêm em potencial a diferenciação progressiva dos seres.
Raul Bopp (1898-1984), descendente de alemães, nasceu no Rio Grande do Sul. Desejando conhecer o mundo, saiu pelo Brasil afora. Nesse meio tempo fez o curso de Direito, completado em três capitais (Recife, Belém e Rio de Janeiro). Na Amazônia, não demorou muito, como disse, para começar a acreditar nos seres fantásticos da floresta: o Minhocão, o Curupira, o Caapora, o Mapinguari. Ouviu muitos “causos” dos canoeiros. Poeta, participou do chamado grupo Verde e Amarelo do Modernismo brasileiro. Publicou, em 1931, o livro-poema Cobra Norato, em versos brancos, por ele mesmo definido como “obra de audácias extragramaticais e uma movimentação da matéria de camada popular”. Prendendo-se a esse grande tema das melhores tradições indígenas do norte do Brasil, o da boiuna, o poeta realizou uma fusão da linguagem poética e dialetal com a visão fantástica de uma Amazônia em que os cipós e as raízes se entrelaçam com as evocações de animais fabulosos. Em 1932, ingressou na carreira diplomática. 
Dentro do movimento modernista deflagrado em 1922, a literatura teve um papel muito importante, nela se destacando principalmente a produção poética. Uma das vertentes da produção poética foi a nacionalista, enfatizando-se especialmente o folclore e os mitos históricos brasileiros. Mário de Andrade, Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo, Menotti Dei Picchia, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Jorge de Lima, Raul Bopp, Augusto Meyer e outros, todos se voltaram para os temas brasileiros. Oswald de Andrade, em 1924, lança o Manifesto Pau-Brasil e Menotti DeI Picchia o Manifesto Verde-Amarelo. O objetivo de ambos era o de levantar e usar um ternário artístico exclusivamente brasileiro.
É no quadro sumariamente acima apresentado que o livro-poema de Raul Bopp se situa. Cobra-Norato e outras produções como Macunaíma, de Mário de Andrade, e Martim Cererê, de Cassiano Ricardo, constituem as três principais obras poéticas sobre a mítica brasileira segundo a proposta modernista.