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quarta-feira, 12 de abril de 2017

CÂNCER (2)

                          

CÂNCER (ALFONS  MUCHA,1860-1939)
Câncer é um signo lunar, feminino, cardinal, do elemento água, representando a vida e o patrimônio familiar, a mãe, a vida doméstica, os primeiros anos da infância. Na ordem temporal do Zodíaco, situa-se Câncer nove meses antes do signo ascendente,  associado ao signo de Áries (equinócio da primavera). É neste sentido que o signo de Câncer simboliza a fecundação e a concepção, ato pelo qual se dá a junção de gametas (células germinativas) que resultarão na formação de um zigoto (célula resultante da união dos gametas masculino e feminino). 


STONEHENGE


É de se lembrar que em meados do séc. XX, estudiosos ingleses da Universidade de Oxford, pesquisando o famoso monumento megalítico que se encontra no sul da Inglaterra, Stonehenge, há milênios, descobriram que do seu interior era possível se determinar com exatidão, tendo-se em vista a importância que tal determinação tinha para a agricultura, a entrada do Sol nos eixos equinociais e solsticiais. Constatou-se mais que os construtores de tal monumento a ele haviam incorporado conhecimentos matemáticos mais avançados do que aqueles encontrados alguns milênios mais tarde em edificações religiosas egípcias e mesopotâmicas. Mais ainda: constatou-se que nesse monumento e em edificações semelhantes, como as de Carnac, na Bretanha francesa, nos seus dolmens e menhirs, em algumas das enormes pedras usadas, com toneladas de peso, estavam entalhados alguns sinais que mais tarde fariam parte da codificação da linguagem astrológica. Um dos sinais mais notáveis foi um constituído por duas pequenas formas, dispostas horizontalmente, uma entrando na outra, formas muito parecidas com os algarismos seis e nove, que lembravam  bastante o símbolo do signo de Câncer. 


CARNAC ,  BRETANHA , FRANÇA

Desde a mais remota antiguidade, o signo de Câncer ficou conhecido como o signo das Grandes Mães, da Mãe Terra, principalmente, no seio da qual as sementes recebidas se desenvolviam e tomavam forma. Na antiga Caldeia, entre 4.000 e 3.000 anos aC, o signo já era conhecido como o Portal dos Homens, a entrada pela qual todas as almas que desciam dos céus entravam no plano da matéria, assumindo a forma humana. 


VÊNUS   WILLENDORF
Imagens de figuras femininas, pequenas estatuetas, que a arqueologia vem trazendo à luz, permitem-nos afirmar que o culto às Grandes-Mães, no paleolítico, em várias partes do mundo, já era praticado por volta de 30.000 anos aC ou mais, desde tempos mais recuados. A produção dessas estatuetas, muito variada, estendeu-se até a era astrológica de Touro, que se estendeu mais ou menos entre 4.000 e 2.000 aC. Foi por esta época, na transição da era de Touro (signo feminino, lunar) para a era de Áries (signo masculino, marciano), que se concluiu a passagem da tutela da unidade familiar do
 ARTHUR  JOHN  EVANS
feminino matriarcal para o masculino patriarcal. As descobertas de A.C. Evans (1851-1914), em Creta, que aproximaram a História da Mitologia, em fins do século XIX, deixaram claro que por volta de 3.000 aC existia na ilha, na chamada civilização minoana, uma avançada ginecocracia. Esta civilização, como se sabe, foi destruída tanto, em parte, por catástrofes naturais (maremotos) como, principalmente, pela ação dos guerreiros aqueus (micênicos). 






Com base em trabalhos do suíço J.J.Bachofen (1815-1887) e outros, foi possível se estabelecer historicamente uma divisão do matriarcado em três grandes períodos: 1) Heterismo; 2) Amazonismo; 3) Demetrismo. O primeiro período se destacou por apresentar uma espécie de comunismo tribal, com fortes componentes nômades e acentuada promiscuidade sexual. As
JOHANN JAKOB BACHOFEN
mulheres dominavam a vida social nesse período, exercendo os homens, dentre outras funções, menos significativas, a de machos reprodutores. A Grande-Mãe era representada, nesse período, por pequenas figuras femininas obesas, esteatopígicas, uma espécie de proto-Afrodite, no dizer de Bachofen. As estatuetas acentuavam fisicamente sempre o que sobretudo na mulher lembrava a fecundidade, o ventre, os seios, as nádegas e a vulva.


Bachofen fala que na segunda fase do matriarcado, com a diminuição das atividades predadoras e coletoras, um incipiente processo de sedentarização deu origem ao aparecimento da agricultura e de cultos ctônicos, de forte inspiração feminina, adquirindo as Grandes-Mães características lunares, representadas por figuras que lembravam vagamente a Deméter grega. 



AMAZONAS  ( HEINRICH  WILHELM  TISCHBEIN , 1751 - 1829 )


AMAZONA  A  CAVALO
VASO  GREGO
Ao final desta segunda fase surgiu o que os estudiosos chamaram de amazonismo. Os antigos  gregos, como sempre, se encarregaram de explicar um acontecimento social através da sua mitologia. Filhas do deus Ares e da ninfa Harmonia, protegidas pela deusa Ártemis, as amazonas eram mulheres guerreiras que viviam perto do Cáucaso, formando comunidades que se opunham ao poder
HÉRCULES  E  A  RAINHA  DAS  AMAZONAS
( NICOLAS  KNUPFER , 1609 - 1655 )
masculino. O antagonismo entre os dois princípios foi aumentando, acabando o poder feminino por perder os seus antigos privilégios. Heróis dos mitos gregos, saturados de machismo, como Hércules e Teseu, principalmente, encarregar-se-ão de liquidar, no mito, o princípio feminino com as suas façanhas. No seu sexto trabalho (veja-o neste blog), Hércules, comandando um exército, em companhia de outros heróis, foi ao país das amazonas e as exterminou. 

Sob o ponto de vista astrológico, o início do culto às Grandes-Mães se define melhor na era de Câncer, situada mais ou menos entre 8.000 e 6.000 aC, no neolítico, com forte ênfase matriarcal, caracterizado pela crescente sedentarização de contingentes humanos que viviam dispersos, retirando o seu sustento de atividades predadoras. A agricultura e a domesticação de animais ganharam grande impulso no período.

POTNIA   THERON
Nos milênios seguintes, mesopotâmicos, sumérios, egípcios, védicos, fenícios, cretenses, gregos, romanos, celtas, nórdicos, afro-brasileiros e outros, cada um a seu modo, deixaram-nos, para designar as grandes deusas do período matriarcal, nomes como Deusa das Montanhas, Senhora  dos Animais (Potnia Theron), Deusa das Serpentes, Deusa Mãe. Aos poucos, conforme as várias culturas, os mitos,
DEUSA  DAS  SERPENTES
suas histórias e os nomes, em várias regiões da Terra, foram se tornando mais precisos: Tiamat, Aditi, Cibele, Sarasvati, Kali, Isis, Ishtar, Astarte, Eurínome, Geia, Reia, Afrodite, Dana, Freya, Magna Mater (nome de Cibele entre os romanos), Tellus Mater (Mãe Terra), Iemanjá, Iansã e outros.


Na Mesopotâmia, por volta do ano 3.000 aC, encontramos ilustrações da vitória do patriarcado. A mitologia dos mesopotâmicos nos deixou a história da deusa Tiamat, o princípio feminino, sempre confundido com o caos e a desordem, submetido, em nome dos demais deuses celestes, pelo herói Marduk. Os gregos, em sua mitologia, nos deixaram também histórias semelhantes, sobre a total submissão do princípio feminino ao poder masculino. Lembre-se, por exemplo, da conquista de Delfos, guardado pelo dragão Ladon, pelo deus Apolo. Delfos era um centro oracular tutelado pela Grande-Mãe Geia e por sua filha Têmis. Ou, cite-se, a vitória que o herói grego Teseu obteve sobre o Minotauro às custas da princesa cretense Ariadne, depois por ele abandonada. Ou, ainda, a conquista do Velocino de Ouro pelos argonautas, comandados por Jasão. Se não fosse Medeia, princesa e grande maga, sobrinha de Circe, os cinquenta e cinco heróis gregos jamais teriam conquistado o precioso tesouro.  


JASÃO  E  OS  ARGONAUTAS ( CHARLES DE LA FOSSE , 1636 - 1716 )

Ao desenterrar o mundo matriarcal, os pesquisadores nos ajudaram a reavaliar corretamente a história da humanidade e o papel que nela teve a mulher, embora muitas de suas conclusões venham sendo apresentadas com notáveis preconceitos machistas, algo que nem uma pretensa objetividade científica consegue camuflar. Dentre outros preconceitos, destacamos, por exemplo, o nome dado à primeira fase do matriarcado, heterismo, do grego hetaira, prostituta, algo absolutamente incorreto, pois a prostituição (ganho de dinheiro pela prática de atos sexuais) nunca fez parte do mundo matriarcal. O que temos de confirmado é que na ordem matriarcal sabia-se quem era a mãe, não o pai. A transmissão do poder social, inclusive de bens, quando havia, era matrilinear, sendo o pai uma figura bem menos importante, ignorada até sob vários aspectos. As uniões não eram monogâmicas. A vida dependia da mulher, cujo corpo analogicamente se confundia com a própria terra como fonte da existência. 

Foi durante o período matriarcal que a mulher, através das Grandes-Mães, comandou todos os ritos de fertilidade. No período matriarcal ela se tornou tanto dona da vida humana como do solo, da terra e dos animais. Foi neste período que se reforçou a união entre a mulher, o mundo vegetal e o mundo animal, preservando-se e reverenciando-se a fecundidade. Vêm desse mundo, por exemplo, as notáveis relações entre as deusas lunares Hécate e Ártemis com animais que lembram a fertilidade. 

Em Creta, os cultos à Grande-Mãe eram apresentados sob os aspectos da Montanha-Mãe, da Terra-Mãe ou da Deusa das Serpentes. Nas ilhas do Egeu, antes da ocupação pelos aqueus do território  que constituiria depois o mundo grego, os pelasgos
NISABA
cultuavam uma Grande-Mãe como divindade geradora da vida, da natureza, das águas, da fertilidade, doadora da agricultura e inventora da linguagem escrita. Lembre-se que em várias tradições a invenção da linguagem sempre foi atribuída às Grandes-Mães, como o encontramos na Índia (Sarasvati), entre os celtas (Brígida) e os sumérios (Nisaba). 


CIBELE
Na Ásia Menor, na Anatólia, de onde saíram, os cultos de Cibele talvez sejam os que  melhor representem o poder feminino, sob um aspecto tão dominador e cruel quanto o instaurado pelo poder patriarcal. Divindade frígia, seus cultos penetraram na Grécia e em Roma como representação do poder vegetativo e selvagem da natureza. Colocada nos panteões como uma deusa da fertilidade, ela chegou, no mundo mediterrâneo e na Ásia Menor, a dividir, em Roma principalmente, com Júpiter, na religião romana, o poder soberano sobre a reprodução das plantas, dos animais, dos homens e dos deuses. Conduzindo um carro puxado por leões, símbolo da força masculina, ela carregava consigo uma chave que lhe dava acesso, na superfície da Terra, através de uma porta, às riquezas que estavam nas suas profundezas. Na cabeça, ostentava uma coroa, encimada por um crescente lunar, formada por torres, a lembrar que o seu poder se estendia também à vida urbana. 


O  TRIUNFO  DE  CIBELE ( HANS  FRIEDRICH  SCHORER , 1634 )

Os cultos de Cibele, de natureza orgiástica, tinham um forte componente lunar e seus sacerdotes e adoradores, durante os seus solenes festejos, como Magna Mater ou Bona Mater, se
ATIS ( SÉC. II ) 
emasculavam e vestiam roupas femininas. No mito oriental, Cibele tinha por companheiro, Atis, divindade anatólia da vegetação, seu servidor e amante, que morria e renascia anualmente, no que lembra outros personagens míticos, também divindades da vegetação, como Tammuz e Adônis, na forma em que estes aparecem nas histórias de   Ishtar e de Afrodite.  





CÁRITES ( P.P. RUBENS )
Os aqueus, de origem indo-europeia, quando se instalaram no continente, fundando Micenas e Tebas, por volta de 2.000 aC, deram à Grande-Mãe dos pelasgos o nome de Eurínome (etimologicamente, a que governa um grande domínio), criando para ela mitos para enquadrá-la na nova ordem, terminando por rebaixá-la à condição de amante de Zeus, e tornando-a mãe das Cárites e do deus-rio Asopo. 

O que fica do que está acima é que a valorização do meio natural sempre esteve muito mais associada ao mundo feminino que ao mundo masculino. Quando a partir do neolítico as sociedades agrícolas começaram a se formar, criando uma economia baseada na produção da terra, a mulher passou a ocupar um lugar importante socialmente, pois, como a terra, era ela a doadora da vida. Os vegetais brotavam da terra, sendo colhidos no fim do verão. No outono a vida vegetal se recolhia ao interior do solo e lá ficava até o fim do inverno, quando os primeiros sinais do início de um novo subciclo, a primavera, se anunciavam. O degelo chegava ao fim, o carneiro começava a saltar nos campos, o Sol entrava na constelação de Áries. 

Nesse mundo, nascer era sair do ventre da mulher, como a planta saía do interior da terra. Morrer era retornar à terra, dona das forças universais. É desse entendimento que nos vêm as imagens das deusas dessas sociedades, nutridoras, doadoras da vida vegetal, animal e humana, das águas, do céu. Na mitologia grega, quem criou 
ADITI
o céu, em condições de igualdade, para que ele a cobrisse, foi Geia, a Grande-Mãe, suporte de toda existência, inclusive dos deuses celestes. Na Índia, Aditi, uma Grande-Mãe universal, a "liberta e ilimitada", como está no Rig-Veda, representava o céu, contrapondo-se à terra, "finita e limitada". Como Deva-Matri, era a mãe dos deuses celestes, os chamados Adityas, em numero de doze, simbolicamente visualizada pela passagem do Sol pelas constelações zodiacais.

Aos poucos, firmando-se o poder masculino, o céu, um território feminino (entre os antigos egípcios quem o dominava era a deusa Nut), foi passando para a tutela masculina, dando-se, no mundo
DYAUS   PITAR
indo-europeu, à divindade que sobre ele estendeu o seu poder, o nome de Dyaus. Etimologicamente, esse nome vem do radical proto-indo-europeu diw, deiwos, que significa brilhante, celeste, elevado, de onde saíram nomes como Dyaus, Dyaus Pitar, Zeus, Júpiter, Jovis e Deus. Na Índia, temos Dyaus-Pitri, Deus-Pai, considerada a Terra como mãe. Aditi, que dominava sozinha o espaço celeste e suas manifestações, foi rebaixada, passando a chamar-se Prithivi, não mais a "ilimitada", mas, agora, na nova situação, apenas a "ampla", a "vasta", o mundo natural. Prithivi, personificada como divindade, assumiu a tutela da Terra, tomando às vezes o nome de Bhumi, a camada terrestre por oposição à celeste, atmosférica, dominada por Dyaus.  

Na Idade dos Metais, que se seguiu à da Pedra (paleolítico, mesolítico e neolítico), primeiro tivemos o bronze e depois o ferro idade a partir da qual grandes transformações foram introduzidas, com a ascensão e supremacia do princípio masculino. As Grandes-Mães começaram a ceder lugar ao Grande-Pai e seus representantes, os deuses uranianos (Urano, em grego, quer dizer céu, aquele que fecunda), em torno dos quais tudo passou a se organizar. No chamado mundo ocidental, a história da humanidade, as religiões e o conhecimento passaram a ser explicados desde então sob um ponto de vista exclusivamente masculino. Lá pelo meio da era de Áries (1662 aC - 498 dC), as representações míticas começaram a ser deixadas de lado, sendo substituídas por outras, de natureza filosófica e cosmológica. Esse período passou a ser conhecido como da passagem do mito ao logos.

ATON
Na era de Áries, a humanidade ingressou na Idade do Ferro, radicalizando-se a destruição do princípio feminino com as religiões dessa era, inspiradas pelo monoteísmo egípcio (Aton), primeiro o judaísmo e depois as suas dissidências, o cristianismo e o islamismo. Esse rebaixamento fez com que as antigas Grandes-Mães passassem a sobreviver nos novos tempos, nos panteões dominados por divindades masculinas, de modo indigno, inteiramente a eles
DEMÉTER
submetidas. Numa desbotada homenagem às antigas Grandes-Mães, todo poderosas, deu-se o nome de demetrismo a essa última etapa do matriarcado. O nome foi retirado do nome Deméter, deusa grega  dos cereais, dos grãos, ao simbolizar essa deusa a passagem do mundo natural ao mundo da terra já dominada, explorada e organizada segundo uma visão patriarcal.

O rebaixamento das Grandes-Mães trouxe como consequência a desvalorização do mundo natural, que passou a ser considerado somente o ponto de vista material. Afastado o princípio da imanência  do mundo religioso, substituído pelo da transcendência, o mundo patriarcal, com a colaboração das religiões monoteístas, deu início na era de Áries a um longo processo de destruição dos recursos naturais da terra, processo que iria se acentuando nos séculos seguintes, até chegarmos à chamada revolução industrial e aos tempos modernos, onde essa destruição vem atingindo níveis alarmantes. 


SÍTIO  ARQUEOLÓGICO   DE   ELEUSIS  ,  GRÉCIA

A partir do ano 2.000 aC, os ataques à Grande-Mãe se tornaram devastadores. A misoginia religiosa fez com que o poder das Grandes-Mães se ocultasse. Não encontrando meios de se expressar abertamente, esse poder, em termos psicológicos, desceu à vida subconsciente, teve que se ocultar. Uma ilustração do que aqui se diz são os Mistérios de Elêusis, cerimônias instituídas pela deusa Deméter, pelas quais se estabeleceu uma ligação entre a agricultura e a vida psíquica. Não podendo mais se mostrar à luz do dia, encaminhou-se a Grande-Mãe para o mundo das sombras, guiada por Dioniso, o deus das metamorfoses.

TOTEM  E  TABU
A descoberta e a valorização, pelo homem, de seu poder fecundante, associado ao céu, e a desvalorização da função geradora (feminina), de natureza terrestre, desde então impuseram-se universalmente. As mudanças nas estruturas sociais, políticas e religiosas, a partir de então, alteraram radicalmente as relações entre os princípios masculino e feminino. Em Totem e Tabu, Freud, citando Frazer, discorreu sobre isto do seguinte modo: A fonte primeira do totemismo consistia na ignorância na qual se encontravam os primitivos quanto ao modo pelo qual os homens e animais procriavam e perpetuavam a espécie e sobretudo a ignorância do papel que o macho desempenhava na fecundação. Esta ignorância foi favorecida pela duração do intervalo que separa o ato da fecundação do nascimento. O totemismo será assim uma criação do espírito feminino e não do masculino.

O totemismo, como se sabe, é a crença na existência de um parentesco ou afinidade mística entre um grupo humano (ou pessoas) e um totem. Este é um animal, planta ou objeto que serve como símbolo sagrado de um grupo social, clã ou tribo e é considerado como seu ancestral e/ou divindade protetora. Tabu é instituição religiosa que, atribuindo caráter sagrado a determinados seres, objetos ou lugares, proíbe qualquer contacto com eles. A violação desse interdito acarreta (supostamente) castigo divino que pode recair sobre o culpado ou sobre seu grupo.

O caráter de sacralidade da Terra, do mundo natural, na nova ordem masculina, foi transferido para o Céu. O Cosmos começou a ser explicado como obra dos deuses, revelando-se o Céu como altura, onipotência, onisciência,  inacessibilidade, imperscrutabilidade, eternidade, incomensurabilidade, transcendência. Transcendente é o que ultrapassa. Diz-se que algo é transcendente quando este algo, Deus, no caso, ultrapassa o nosso poder de conhecimento. Quando falamos de um Deus transcendente estamos nos referindo a um Deus separado, distinto, de sua criação, conceito masculino que se opõe ao de imanência, panteísta, conceito feminino, segundo o qual Deus está presente no mundo criado. A doutrina da imanência
SPINOZA
revela que Deus e o mundo criado são a mesma coisa. Esta doutrina, na cultura ocidental, foi posta em circulação principalmente pelos estoicos, na antiga Grécia, para os quais Deus era a força vital imanente ao mundo. Foi Spinoza, seguidor desta doutrina (e por causa dela condenado pela Sinagoga Portuguesa de Amsterdam) que nos deixou a sua célebre afirmação: Deus sive natura. 


Os caldeus, na antiga Mesopotâmia, alinham-se entre os primeiros povos a estruturar a matéria astrológica. Desde logo, associaram o signo de Câncer ao caranguejo, no que foram seguidos pelos gregos. Os acadianos, do mesmo país, deram ao signo o nome de O Portão Norte do Sol (mês de Dazu). Como Porta dos Homens (entrada das almas no plano da matéria), os pitagóricos, os órficos e o platonismo assim o conheceram. Na Índia védica, o nome do signo é Kataka. 


AS  TENTAÇÕES  DE  SANTO  ANTÃO 

Desde a mais remota antiguidade, o caranguejo sempre apareceu simbolicamente ligado à Lua porque, como ela, tem uma marcha hesitante, podendo caminhar para a frente e para trás. Por causa de sua marcha retrógrada, em algumas tradições, o caranguejo é considerado como um símbolo da infelicidade, de malefícios. De outro lado, positivamente, o caranguejo sempre foi usado em cerimônias mágicas para provocar chuvas. Ao mesmo tempo, em virtude de seu aspecto repugnante, por causa de suas pinças e de sua carapaça, a "armadura dos demônios", ele foi considerado como uma criatura diabólica. É por essa razão que figura em As Tentações de Santo Antão (tela pintada por Hieronymus Bosch), este considerado como o fundador do monasticismo ocidental. A reputação maléfica do caranguejo é atestada em muitas tradições e se deve naturalmente à sua relação com a Lua, o que é explicado pelo fato de que ambos, a Lua ele, pelo seu caminhar vacilante, dão a impressão de que estão retrocedendo. Nesta perspectiva, o crustáceo e o signo, regido pela Lua, lembram sempre a involução, a indeterminação, a ameaça do caos. 


HÉRCULES  E  A  HIDRA  DE  LERNA

Na mitologia, o caranguejo foi colocado entre as constelações zodiacais em reconhecimento aos serviços que prestou à deusa Hera. Quando do mortal combate que travou Hércules contra a Hidra de Lerna (8º trabalho), o caranguejo foi enviado por Hera para auxiliar o monstro de nove cabeças; Hércules, como se sabe, num tremendo combate, conseguiu submeter a Hidra e matar o caranguejo. 


CARANGUEJO
Enquanto animal aquático, o caranguejo se relaciona com as águas originais, primordiais, não as águas regeneradoras, simbolizadas por Escorpião, outro signo ligado à água, nem as águas que tudo dissolvem, purificadoras, diluvianas, do signo de Peixes, do mesmo elemento. A água em Câncer se apresentas como água original, o que nos leva a associá-la analogicamente ao líquido amniótico, ao leite materno e à seiva vegetal. A água canceriana tem relação com valores que representam a intimidade, a interioridade, lembrando a vida nascente nas suas mais variadas expressões: fontes, regatos, brotos, ervas novas, germes, ovos, fetos, embriões, botões, manifestações que, em grande parte, sempre entram na vida devidamente protegidas por meio de cascas, revestimentos  protetores, carapaças. É por isso o signo de Câncer é conhecido como o "signo do meio", pois nele se faz a passagem do informal ao formal.  

HIPÓCRATES
Em grego, caranguejo é karkinos, cancer, em latim. Hipócrates, o pai da medicina, deu o nome do crustáceo a certos tumores, fazendo uma analogia entre as patas do animal, a sua movimentação e a proliferação anárquica, incontrolável e incessante de células no corpo humano, a partir do referido tumor, proliferação esta capaz de gerar metásteses, que poderão continuar ativas mesmo após a sua retirada cirúrgica.



domingo, 30 de outubro de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU - PLUTÃO (5)



TRAVESSIA   DO   INFERNO   ( GUSTAVE   DORÉ )

Lugar lúgubre e tenebroso, o Inferno era, na mitologia grega, o refúgio das almas que, separadas de seus corpos, tinham terminado sua existência terrestre. Os gregos antigos desenvolveram duas concepções, que se sucederam, sobre a geografia do mundo infernal. O Inferno, dizia Circe, a maga a Ulisses, se encontra na extremidade do mundo, além do vasto Oceano. O mundo, com efeito, segundo essa concepção, era considerado como um disco de superfície plana, com algumas elevações, que fazia seus limites com um vasto rio circular, uma espécie de serpente líquida. Esta concepção será substituída pela que encontramos em Hesíodo (Teogonia), que define o panteão grego de uma forma ordenada e coerente.


Antes de Hesíodo, sabia-se que era preciso ultrapassar este imenso rio oceânico na direção do ocidente grego para atingir as desoladas regiões infernais. Terra infecunda, de solo ingrato, lugar inabitado, os raios do Sol nunca chegavam a este lugar. Os únicos vegetais que cresciam nesses confins eram os choupos (álamos) negros e salgueiros que jamais davam frutos. Sobre a superfície, aqui e acolá, cresciam asfódelos, flores fúnebres, depois incorporadas aos cemitérios e encontradas ainda hoje nas ruínas do mundo antigo.

A divindade tutelar do rio-serpente que envolvia a Terra era o deus
OCEANO
Oceano. A matéria oceânica, lembre-se, sempre foi considerada um elemento original que apareceu mesmo antes da criação do mundo material. Na mitologia grega, Oceano, palavra que dá ideia de algo circular, como deus, tem na mitologia grega um lugar importante. Filho de Urano e Geia, divindades da primeira dinastia divina, toda criação partia dele e ao final tudo a ele retornava. 

Ele era o pai de todos os rios que alimentam de água os seres humanos e fertilizam a Terra. Tethys, sua esposa, lhe deu uma multidão de filhas, as ninfas conhecidas pelo nome de oceânidas. Tardiamente, foi representado na arte como um velho robusto, com barbas verdes. Ao seu lado, sempre, um corno taurino a simbolizar a abundância poderosa e nutritiva das águas.


OCEÂNIDAS

FOLHAS   DE  CHOUPO
O choupo, acima mencionado, lembre-se, foi também consagrado a Hércules. Quando de seu retorno triunfal do mundo infernal (décimo trabalho), nosso herói ostentava em sua cabeça uma coroa feita com ramos do choupo; as folhas voltadas para a sua cabeça eram brancas e claras como o dia enquanto as que haviam ficado voltadas para o exterior, isto é, para o mundo infernal, eram escuras como a noite. Foi desde então que as folhas do choupo passaram a apresentar um tom diferente em cada um de seus lados. Anote-se, en passant, que, para fabricar os melhores palitos de fósforo, os grandes fabricantes desse produto sempre deram preferência à madeira dessa árvore. O salgueiro, por sua vez, chamado de chorão, por sua própria morfologia, lembrou desde sempre sentimentos de tristeza, sendo considerado como uma árvore típica de cemitérios. Já o asfódelo, igualmente, sempre, entre os povos do Mediterrâneo, ligou-se também aos cemitérios, por seu perfume entorpecedor.


ULISSES  E  TIRÉSIAS
Perto do Inferno concebido pelos gregos vivia um povo estranho, os cimérios (etimologicamente, os que habitam as trevas), cujo território jamais recebia a luz do Sol, segundo Homero, na Odisseia. Ao buscar contacto com Tirésias, para que ele lhe indicasse o melhor caminho para volta à sua pátria, Ítaca, Ulisses passou pela região onde esse misterioso povo vivia. 

A concepção infernal horizontalizada dos gregos não durou muito, alguns milênios talvez. Esta concepção, como se pode concluir, baseava-se em ideias míticas, e não resistiu aos avanços da geografia. Os navegadores antigos, o próprio Ulisses talvez, descobriram que nos confins do ocidente, no oceano longínquo, onde eles haviam localizado o Inferno, havia países. 

Crenças populares já vinham alimentando há muito uma concepção diferente. O Inferno, o mundo das sombras, se situaria na região subterrânea da Terra, uma região escura, trevosa. A associação do mundo infernal com a inumação dos mortos em covas era evidente. A via de acesso para esse mundo, chamado ctônico pelos gregos, não se daria pelo oceano, ou seja, o Inferno foi deslocado dos confins do ocidente para o interior da Terra. O acesso a esse mundo se dava, era a nova e vitoriosa concepção, por grutas, fendas, regiões pantanosas na superfície da Terra, lugares misteriosos, que todos procuravam evitar. 


TÁRTARO

No ponto mais profundo da Terra, na camada mais inferior do mundo subterrâneo, ficava o Tártaro, região tenebrosa jamais atingida pela luz. A distância dessa região à superfície terrestre era igual à da Terra ao Céu, Urano, para os gregos. Entre a Terra e o Tártaro ficava uma região intermediária, o Érebo, as chamadas
DEMÉTER   E   KORE
trevas inferiores, que fazia contraponto com Nix, as trevas superiores, que se situavam entre a Terra e o Céu. Quando o deus do Inferno, Hades, se uniu a uma filha da deusa Deméter, Kore, por ele raptada, foi acrescentada mais uma divisão na geografia infernal. À região situada entre a superfície da Terra e o Érebo foi dado o nome de Bosque ou Jardim de Perséfone, onde passaram a viver diversas divindades menores, mas nem por isso menos maléficas que as “grandes” do Hades. Estas divindades do Bosque de Perséfone, nome que tomou Kore, como rainha do Hades (também nome da região infernal) e esposa do seu rei, invadiam constantemente a superfície da Terra para, literalmente, infernizar a vida dos  pecadores escolhidos.

Com o tempo, criaram-se os demais departamentos infernais: um para sediar o tribunal encarregado de julgar as almas que para lá eram encaminhadas por  Hermes, na sua função de deus psicopompo (condutor de almas). Noutro departamento se colocaram os Campos Elísios, onde ficariam as almas a aguardar uma próxima encarnação, um retorno à vida, lá permanecendo sem  sofrimento algum.  No Érebo, um lugar de permanência provisória, ficariam as almas que deveriam passar por sofrimentos até uma próxima encarnação.


BARCA   DE   CARONTE   ( JOSÉ   BENLLIURE   Y   GIL )

O reino de Hades era cortado por cinco rios, o Aqueronte, palavra que em grego lembra aflição, o Cocito, nome que lembra lamentações, o Piriflegetonte, o das chamas sulfurosas, o Estige, o que provoca horror, e o Lethe, o do esquecimento. O principal era o rio Aqueronte, que devia ser atravessado pelas almas para o seu efetivo ingresso no mundo infernal. As almas, para atravessá-lo, subiam, depois de pago um óbolo, a um barco conduzido pelo barqueiro Caronte, que as maltratava muito. 

Assim organizado, o Inferno propriamente dito começava por uma
CÉRBERO   ( WILLIAM   BLAKE )
região vestibular, o Bosque de Perséfone. Nele eram encontrados os álamos (choupos), os salgueiros e os asfódelos já mencionados. Era preciso atravessá-lo para chegar aos portões do Hades, guardados por Cérbero, monstruoso cão tricéfalo, de latido de bronze, corpo coberto de serpentes, nascido dos amores de Tifon, o maior dos monstros, e de Équidna, horrível figura feminina, a própria imagem da libido insaciável. Cérbero, quando as almas desciam da barca de Caronte para ingressar no Hades, nada fazia, olhava-as com indiferença. Mostrava todavia uma imensa fúria quando alguma delas tentava escapar do reino que gradava.

Há registros de que Cérbero se deixou “corromper” algumas vezes com bolos de farinha e mel, dos quais gostava muito. O deus Hermes conseguia acalmá-lo com o seu caduceu e Orfeu chegou a encantá-lo com a suas canções e a sua lira. Só Hércules ousou se medir com ele e, tendo-o vencido, o conduziu por  um momento à superfície da Terra. Quando de sua subida, com a sua baba pestilenta, Cérbero envenenou certas ervas, que só algumas feiticeiras conheciam para preparar seus maléficos filtros e poções.

Caronte, o barqueiro, que recebia as almas na forma de eidola (aspecto fantasmagórico tomado pelas almas – alma, em grego, é psikhe), era um velho duro e intratável; se não depositada uma moeda na sua mão, ele expulsava impiedosamente a alma, que ficaria condenada a ficar a meio caminho entre a vida e a morte, numa ilha que ficava no meio do rio Aqueronte, a Ilha dos Mortos. Nesta ilha, observe-se, ficavam também aqueles (as almas) que não tivessem passado pela chamada morte ritual (o cumprimento de vários itens, ritualizados para que fossem devidamente recebidos no Outro Lado). 



ILHA   DOS   MORTOS   ( ARNOLD   BÖCKLIN )

Referência especial merece o rio Lethe, cujas águas faziam esquecer o passado. Aquele que retornasse à vida, depois de uma permanência no Érebo ou nos Campos Elísios, deviam obrigatoriamente beber da água do rio Lethe, para esquecer o que vira e havia vivido no Hades.


 ZEUS  ,  POSEIDON   E   HADES    

O soberano inconteste do Inferno era o deus Hades, irmão de Zeus e de Poseidon. Seu nome deriva de um radical grego que sugere a ideia de invisibilidade. Era chamado eufemisticamente de Plutão (o nome Hades era raramente pronunciado), o rico (ploutos, em grego, quer dizer rico), lembrando essa designação que ele era o “rico de hóspedes”, uma referência à infinita quantidade de mortos que acolhia em seu reino. O adjetivo “rico” referia-se também à enorme quantidade de tesouros que o interior da Terra guardava. Se quisermos mais ainda, numa aproximação psicanalítica, não há como se deixar de relacionar esta concepção do Hades grego com o subconsciente, o mundo subterrâneo do psiquismo humano, lugar ao qual temos de descer para descobrir os tesouros que nele estão encerrados, lugar sempre associado  à escuridão, às trevas.

Foi a partir de todos estes sentimentos, incorporados à vida psíquica do ser humano, que o Inferno passou a simbolizar também o mar noturno do inconsciente que é preciso atravessar, a partir de uma situação de vida consciente, mas cada vez mais angustiante e restrita, para se chegar a um outro lado qualquer. É nessa perspectiva que o Inferno se liga ao nosso processo de individuação, que começa por uma descida à nossa interioridade, às vezes identificada como uma regressão.

Mais ainda: como reino de Hades-Plutão, o Inferno passou a ser considerado tanto como símbolo do recalque como da fertilidade. Nesta condição, é que entendemos o deus como o pai das riquezas, sendo uma de suas representações mais notáveis a que o apresenta com um corno da abundância nas mãos. O reino de Plutão contém todos os valores criativos de que necessitamos para harmonizar a nossa vida, embora eles sempre estejam mal distribuídos e repartidos. Será preciso trazê-los do inconsciente, fazê-los subir à luz do dia. Para tanto, isto só será possível se descermos aos bas-fonds do nosso eu e dali, depois de o vasculharmos e enfrentar os monstros que nele se escondem, procurarmos voltar à luz. Se em tempos passados esta descida fazia parte do comportamento heroico, hoje ela é raramente empreendida. Não há mais candidatos a heróis solitários. Os que se atrevem a realizá-la, na maior parte dos casos, entregam-se a guias totalmente despreparados para conduzi-los. Acho que não há necessidades de discorrer sobre esta assertiva; basta tão só olhar à nossa volta...

REIA   E   CRONOS   
Hades, também chamado Aidoneus, era um crônida, filho de Cronos e de Reia. Ele reinava sobre o seu domínio de modo absoluto, dele saindo muito raramente. Uma vez, com o assentimento de Zeus e auxiliado pela Grande-Mãe Geia, subiu às terras da Sicília para raptar sua jovem sobrinha Kore, filha de Deméter, que lá colhia flores (narcisos) com as suas amiguinhas. Outra
NARCISOS
vez, foi à procura do deus-médico Paeon para ser tratado de um ferimento no seu ombro causado por Hércules. No mais, se em outras oportunidades resolveu sair de seu reino, nada se pode saber, pois ele, ao usar um elmo que recebera de presente dos Cíclopes, gozava do dom de uma total invisibilidade. 


RAPTO    DE   KORE

Hades-Plutão foi um marido nada infiel. Sabe-se apenas que quando Kore chegou ao Hades, sua adaptação foi muito fácil. Ela assumiu logo, muito consciente para a sua pouca idade, o papel de primeira-dama do mundo infernal. A presteza com que expulsou do Hades uma velha amante do marido que lá vivia, Minthe, ninfa do rio Cocito, é uma prova de sua perfeita adaptação. 


NINFAS   DO   RIO   COCITO

É de se destacar, quanto a este episódio, aliás, que Minthe só foi expulsa porque não se conformou com a chegada de Kore. Aguardou por uns tempos a transformação da jovem em Perséfone e pôs-se sorrateiramente a tentar reconquistar um lugar no leito de Hades-Plutão. Expulsa, ou assassinada por Perséfone, segundo algumas versões, Minthe foi transformada pelo deus numa planta de forte odor, a menta. Outros comentam, numa versão mais aceita, que, já conformada com a perda da filha e até orgulhosa da sua posição real, Deméter interveio. Condenou a menta, como vegetal, a assumir uma dupla reputação. A planta, como se sabe, tem tanto um caráter funerário como aparece em muitas tradições como causadora de esterilidade feminina.

Registre-se mais que Hades-Plutão, muito antes do rapto de Kore, relacionara-se, de modo muito passageiro e inconsequente, com outra jovem, Leuce (Branca), uma oceânida, por ele raptada também. Como ela não era imortal, e expirado o prazo fixado pelas Moiras, ela faleceu tranquilamente no Hades. Para imortalizá-la, o deus a transformou num choupo ou álamo muito branco. Esta árvore passou a enfeitar os Campos Elísios. Foi com as suas folhas que Hércules se coroou ao retornar do mundo dos mortos. 

Antigas tradições mitológicas gregas nos falam  que Leuce se transformou na divindade tutelar da famosa Ilha Branca, situada no delta do rio Danúbio, no Ponto Euxino. É nesta ilha paradisíaca, uma espécie de extensão dos Campos Elísios, que vivem eternamente vários heróis gregos. O mais famoso é, sem dúvida, Aquiles que, com o seu grupo, desfruta de uma vida de prazeres, praticando esportes ligados à arte guerreira e amando nos seus momento de lazer Helena, Ifigênia e Medeia.

Nesse contexto, enquanto Hades era pouquíssimo venerado, Plutão
HOMERO
recebia muito mais homenagens. O primeiro, ao representar uma forma divina destrutiva, sempre apareceu associado ao terror, ao mistério, ao inexorável. Já os cultos plutônicos, por suas grandes ligações com a fertilidade, apareciam muito ligados à deusa Deméter. Para honrá-lo, Homero nos informa que a ele eram sacrificados animais negros, carneiros ou ovelhas. 

Perséfone era a esposa de Hades-Plutão. A etimologia (discutível) admite que seu nome lembra algo que se eleva, evocando uma caminhada, como a dos vegetais depois de rompido o hímen da semente, em direção da luz, embora se reconheça que o nome também aponte para uma ideia de destruição. Isto pode nos sugerir que a deusa não tem características puramente infernais, destrutivas, se levarmos em conta que anualmente ela “subia” em direção da luz para se encontrar com sua mãe, Deméter, a deusa da agricultura e dos grãos. Do trigo em especial.



DEMÉTER

Já se levantou a hipótese que mãe e filha não passavam de uma divindade única, em tempos muitos remotos da mitologia grega. Nessa mesma entidade se concentravam os dois aspectos da vida vegetal, um voltado para a superfície terrestre e outro para o seu interior. A história de Deméter nos conta que ela, não podendo obter de Zeus a posse integral da filha, obteve dele a permissão para que ela permanecesse com ela uma parte do ano (primavera-verão). No outono-inverno, a filha vivia no mundo ctônico, uma ilustração, como fica fácil perceber, da morte da semente.

A este episódio se refere a lenda que as seitas órficas procuraram
PERSÉFONE   E   ZAGREUS
enriquecer, tornando Perséfone mãe de Zagreus-Dioniso. Encerrada no reino do marido, Perséfone se tornou imune às paixões que costumam atingir as outras divindades. Isto porém não impediu que ela viesse a disputar com Afrodite a posse do belo Adônis, divindade da vegetação que morre e renasce anualmente, cujo modelo é o deus Tammuz dos povos semíticos.  

Como divindade infernal, Perséfone tinha por atributos o morcego, a granada (romã) e o narciso. Ela era honrada na Arcádia sob os nomes de Perséfone Soteira e Despoina. Era igualmente honrada na ilha da Sicília. De um modo geral, seu culto nunca se dissociou do de sua mãe Deméter. 

Perséfone, encerrada no mundo infernal, não é senão a imagem dos grãos de trigo, mergulhados no interior da terra na estação outono-
MISTÉRIOS   DE   ELEUSIS
hibernal. Com o retorno da primavera e durante o verão, a germinação das plantas corresponde à volta da deusa para junto de sua mãe. Para celebrar esta volta, Deméter instituiu os chamados Mistérios de Elêusis, que transcorriam entre as festas das flores, as Antestérias, no início da primavera, e o outono. No fundo, uma proposta de morte e de
DIONISO
renascimento simbólicos para aqueles que deles participassem. As principais ideias que fazem parte dessa proposta mistérica, da qual participam como divindades tutelares Deméter (pão) e Dioniso (vinho), são a mulher, o feminino, os ritmos lunares, a semente, o interior da terra, a morte, a escuridão, o retorno e o renascimento. 

Por trás desse pensamento mítico-religioso, como fato inspirador, está a atividade agrícola, que no final do período peleolítico substituiu as relações entre os homens e o mundo animal. Ao ingressar no chamado período neolítico, o eixo da vida social passou a se concentrar muito mais no mundo agrícola que na caça e na atividade predadora dos grupos humanos. Aos poucos, foi se estabelecendo uma solidariedade entre os seres humanos e o mundo vegetal. Com isto, a mulher e o mundo da agricultura se carregaram de sacralidade.

As mulheres, a esse tempo, passaram a ocupar um lugar de relevo na vida social, fixando-se um nexo entre a fertilidade da mulher e a fertilidade da terra. Essa mudança ocorreu provavelmente entre 9.000 e 7.000 aC. Ao contrário do que ocorrera no período paleolítico, com a agricultura, o ser humano teve que mudar bastante o seu comportamento. As mulheres tornaram-se responsáveis pela abundância das colheitas, pois tanto conheciam o “mistério” da morte como o do renascimento.

A analogia era inevitável. Destruído o corpo humano (soma, corpo
PSIQUÊ
( EDWARD  JOHN  POYNTER)
físico), desprendendo-se a alma (psiquê), fixou-se em varias civilizações, com base no mundo vegetal, a ideia de morte e renascimento. A perda da energia vital coincidia com a exalação do último suspiro. Daí, a relação entre respiração e alma, fundamento da vida. Psiquê, quando da ocorrência da morte e a destruição do corpo físico, tomava a forma de um fantasma (eidolon) que guardava uma “consciência” latente, podendo ser ativada por certas cerimônias. Era a nekyia, a invocação da alma dos mortos (vide Odisseia).


HESÍODO
Com Hesíodo, séc. VIII aC, passamos a ter uma ideia mais exata do mundo infernal. Abaixo de Geia, a Grande-Mãe, no mais distante dela, ficava o Tártaro, lugar sem volta, para onde iam os grandes criminosos, como se disse. Entre o Tártaro e a Terra, ficava o Érebo, lugar de permanência provisória dos maus. Nos Campos Elísios, ficavam os bons, sem sofrimento algum. 

No Tártaro, havia um compartimento denominado “O Inferno dos Maus”, lugar terrível, para onde iam aqueles que haviam cometido os piores crimes: contra os deuses, a família, a hospitalidade e contra a pátria. Era um lugar de torturas e lamentações. Era nele que as almas ficavam submetidas a castigos eternos, mergulhadas alternativamente em situações de calor e frio extremos. Nenhuma esperança de retorno, de fuga ou consolação. Tudo era triste, mecânico, repetitivo.

O Tártaro era na realidade uma prisão horrível onde eram lançados
CÍCLOPES
( CORNELIS   CORT )  
aqueles que cometiam sobretudo o pecado da hybris, da desmedida, do excesso, que, personificada, passa por filha da Koros, o Desdém. À expressão física da hybris os gregos davam o nome de Hamartia. Os primeiros a visitar o Tártaro foram os Cíclopes (Brontes, Estéropes e Arges), para lá enviados por Urano. Libertados por Cronos, que venceu o pai, logo foram devolvidos ao Inferno pelo seu libertador em companhia dos seus outros irmãos, os gigantescos Hecatônquiros, os gigantes de cem mãos.

Lembremos que para vencer os Titãs, chefiados por Cronos, Zeus teve que se unir aos Cíclopes, dos quais recebeu as armas com as quais conquistaria o universo: o trovão, o relâmpago e o raio. Ao longo dos milênios, para o Tártaro foram enviados os grandes criminosos, lá se encontrando Tântalo, Sísifo, Ixion, as Danaides, Titio, Salmoneu, os Alóadas, os Titãs e tantos outros. 

Tântalo, filho do próprio Zeus e de Pluto, uma ninfa, era rei da Frígia. Ao trair a confiança dos deuses (para testar a onisciência dos deuses serviu-lhes num banquete o próprio filho, Pelops), foi, depois de muitos outros crimes antes cometidos, condenado a sofrer o suplício da fome e da sede eternamente. Sísifo, rei de Corinto, o mais astuto dos mortais, um dos pais de Ulisses, além de outros muitos crimes, tentou enganar Thanatos, a Morte. Foi condenado a rolar eternamente montanha acima uma enorme pedra, na vã esperança de um dia empurrá-la para o outro lado. Ixion, neto de Zeus, cometeu um dos crimes mais hediondos que um ser humano ou mítico poderia praticar: não respeitou a hospitalidade que Zeus lhe ofereceu e tentou investir sexualmente contra Hera, a Senhora do Olimpo. Ixion tornou-se o pai dos centauros, uma raça maldita. Está no Hades, preso a uma roda de fogo a girar eternamente. 


DANAIDES  ( FRANS  DE  BOEVER )

As Danaides estão no Tártaro para toda a eternidade, a encher com água,  tonéis sem fundo. Seu crime: assassinaram os seus maridos. Titio, um gigantesco filho de Zeus, que, sob instigação de Hera, pôs-se a perseguir Leto com quem Zeus se unira para torná-la mãe dos luminares, Ártemis e Apolo. Salmoneu, filho de Éolo, extremamente descomedido, tentou ser, entre os mortais, o que Zeus era entre os imortais. Foi fulminado e lançado no Tártaro. Os Alóadas, gigantescos filhos de Poseidon, possuídos pela hybris tentaram assaltar o Olimpo. Foram mortos por Zeus e lançados no Tártaro, onde se encontram até hoje, amarrados com serpentes a
OS   TITÃS
uma coluna, tendo junto aos ouvidos uma coruja que lugubremente pia sem cessar, dia e noite. Por fim, os Titãs, divindades da segunda dinastia, filhos de Urano e Geia, chefiados por Cronos, foram vencidos por Zeus e seus irmãos, os futuros olímpicos, na famosa batalha denominada de Titanomaquia;  Zeus os lançou no Tártaro. Mais tarde, como se sabe, Zeus libertou seu pai, Cronos, que emigrou para a Itália.

O Tártaro sustentava os fundamentos da Terra e dos mares e nele ficava o palácio de Hades-Plutão, cercado por um tríplice muro de bronze. Era um lugar onde a luz jamais poderia chegar. Era um lugar de torturas e lamentos. Aridez, tanques gelados, lagos de enxofre, pez fervente. Mergulhadas alternativamente nesses tanques, para sofrer o frio e o calor extremos, as almas, quando não estavam nessa situação, permaneciam presas às chamadas “cadeiras do esquecimento”. Nenhuma esperança de retorno, de fuga e muito menos de consolação. 

O Érebo  (obscuridade) era a camada intermediária, como vimos, constituindo as trevas inferiores por oposição e complementares às de cima, representadas por Nix, a grande deusa da Noite.  Dele se passava ao Tártaro. Guardava a entrada desta região o cão tricéfalo Cérbero. Nela ficava também o palácio de Nix, onde ela vivia em companhia de dois de seus numerosos filhos, Thanatos e Hipnos, a Morte e o Sono. O Érebo era um lugar de permanência provisória (100 anos, segundo algumas tradições), onde as almas, por crimes menos graves, depois de julgadas e condenadas, ali ficavam em meio a grande sofrimento aguardando seu retorno ao mundo dos vivos.


HESPÉRIDES  ( HOWARD  DAVIE )

O território preambular pelo qual se tinha acesso ao mundo infernal através de entradas na superfície da Terra era, como vimos, o Bosque de Perséfone (uma zona de transição entre o consciente e o inconsciente, numa leitura psicanalítica). Nesse lugar, logo nos seus limites mais próximos da Terra, numa advertência muda aos que desciam, havia três grandes árvores, o cipreste, o salgueiro e o álamo. Associavam-se essas árvores, na Terra, às três ninfas do poente, as Hespérides, Egle (cipreste), Eritia (salgueiro) e Hesperaretusa (álamo). Isto é, a Brilhante, a Vermelha e a do Poente, o princípio, o meio e o fim do percurso solar, significando, respectivamente, Amor (Doação), Desapego (Sabedoria) e Compaixão (Serviço).

O Bosque de Perséfone era lúgubre, iluminado muito precariamente, nada se distinguindo nele, a rigor. Situado entre a
HÉRCULES  E  GERAS
superfície da Terra e o Érebo, ali viviam espectros. Fantasmas, seres que se haviam fixado num estado entre a vida e a morte. Dentre esses espectros, representados por divindades alegóricas, destacamos: Algos (Dor); Geras (Velhice); Limós (Fome), Ponos (Fadiga), Metanoia (Arrependimento), Koros (Desdém, Deboche) e sua filha Hybris (Desmedida); Penthe (Luto); Apate (Fraude); Sicofantia (Calúnia), sempre precedida de Ftnos (Inveja); Tryphe (Luxo); Lyssa (Fúria); Até (Erro); Penia (Pobreza), Strofe (Chicana), cujo templo ficava no Palácio da Justiça, sendo seus ministros os juízes, os procuradores, os tabeliães e os advogados. 

Compartilhando o território com as entidades acima, com a mesma importância ou até maior, perambulavam por ele divindades e
ERÍNIAS
monstros como Eris (Discórdia), as Erínias (As Fúrias), os Centauros, os Gigantes, a Hidra de Lerna, as Górgonas, as Harpias, a Quimera, os gêmeos Fobos (Horror) e Deimos (Pavor), Enio (Grito de Guerra), o casal Tifon e Équina. No centro do Bosque, havia uma árvore gigantesca, um olmo copado, árvore funerária, onde residiam os sonhos quiméricos. Este olmo era alimentado pelas águas do rio infernal Aqueronte. De sua madeira eram feitas as varas de punição, tudo o que as referidas entidades, usavam para açoitar e vergastar a triste raça dos mortais.

HÉCATE
Junto do palácio de Hades-Plutão vivia Hécate, a que “fere de longe”, deusa trívia lunar, muito respeitada, que a cada vinte e oito dias subia à superfície da Terra, para pontificar nas encruzilhadas, lugar de transformações, de viradas de destino, poder que dividia com o deus Hermes. Profundamente misteriosa, ela tinha correspondência com a Lua Nova. Presidia as aparições de fantasmas e espectros, sendo tanto a senhora dos benefícios como dos malefícios. Devidamente reverenciada, sempre aparecia ligada aos cultos lunares de fertilidade. A aparição da deusa nas noites de Lua nova lembra que as encruzilhadas são tanto lugares de parada e de reflexão como da escolha que se deve fazer de direções que mudam destinos. Nesse sentido, a encruzilhada é também o lugar onde é possível a alguém desfazer-se do passado para assumir uma nova personalidade.