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terça-feira, 25 de setembro de 2018

PALAVRAS CURAM?


MIRA SCHENDEL

A importância de As Mil e Uma Noites, na versão que nos deixou o sábio francês Antoine Galland, orientalista, do séc. XVIII, é um dos mais interessantes exemplos de como as palavras podem curar. Galland (1646-1715) aprendeu o árabe, o turco e o persa durante as suas viagens a Constantinopla, com o embaixador Nointele, e depois quando foi ao Oriente. Foi nomeado professor de árabe do Colégio de França. Publicou vários obras, lembranças de viagem, um diário, uma coleção de máximas orientais etc. Foram, contudo, as traduções de textos árabes que o tornaram célebre, Origem e Progresso do Café, Alcorão e, sobretudo, em 12 volumes, os contos de As Mil e Uma Noites.



SCHEHEREZADE ( MÉDARD  TVTGAT )

A narradora de As Mil e Uma Noites é Scheherazade. O rei persa Chariyar, convencido da infidelidade de sua mulher, mata-a. A cada noite une-se a uma nova mulher, sacrificada logo no dia seguinte com medo de ser traído. Scheherezade se oferece como sua esposa; à noite, começa a contar histórias que cativam o soberano, que, muito curioso e interessado, decide não entregá-la ao carrasco para que ela chegue ao fim das histórias que lhe eram contadas. A mesma cena repete-se todas as noites, os dias se sucedem. Quando chegam à milésima primeira noite, Chariyar, fascinado pela arte de Scheherezade, renuncia ao seu projeto de matá-la. Scheherezade é a Senhora do Tempo, dona da palavra que seduz, memória e encantamento. Tessitura de enredos, tramas de cores e sons, labirintos, prodígio de eloquência. Ela inverte a terapia tradicional: o doente é quem ouve, o sultão, no caso. Será curado pelas histórias da filha do Vizir.


SCHEHEREZADE  ( MAGRITTE )

No começo do século XVIII, a literatura francesa começa a se distanciar do heroico ao procurar assuntos capazes de suscitar a curiosidade dos leitores, de falar de emoções, recorrendo ao romanesco, ao insólito, às situações imprevistas. Um dos pontos mais altos dessa virada, desse distanciamento, está exatamente nas histórias que Galland traduz, desprovidas de toda a lógica que comandava o mundo da cultura europeia. As história de Galland eram cheias de magia, de acontecimentos que escapavam da ordem natural das coisas. Estávamos, com essas histórias, bem longe do homem cartesiano, livre e responsável por si mesmo. A fantasia desses contos orientais começava a colocar em questão a metafísica tradicional. Mais: as histórias respondiam a uma necessidade que os poetas da época não podiam satisfazer.


Scheherezade inaugura em 1704 o cosmopolitismo do século XVIII, um acolhimento sem reservas das influências estrangeiras. Os contos nos mostram como Scheherezade é superior ao rei, insistindo a maior parte das histórias no poder, na astúcia e até no cinismo das mulheres. Essa obra apresenta uma nova concepção de amor, uma forma que se imporá. Entre escritores ou filósofos franceses, o amor era uma virtude escorada pelo racional que sempre decidia entre o bem e o mal. Em Racine, por exemplo, será uma fraqueza.

Em As Mil e uma Noites, o amor se transformará, através do poder das palavras de Scheherezade, numa fonte de volúpia na qual se deve mergulhar, superando-se assim todas as interdições ou proibições. As histórias de Scheherezade nos falam do fogo da paixão, de chamas que queimam, tudo apontando para os prazeres da carne. O clima é de prazer carnal, os episódios são rápidos, sempre um forte apelo sensual. O amor nasce da beleza dos corpos, as ações se centram no imediato e no prazer experimentado sem remorsos. Temas como o da poligamia, lugares como haréns, personagens como eunucos podiam ser reais, faziam parte de um mundo onde o amor era experimentado sem culpa.

A poesia da natureza de As Mil e Uma Noites não estava exclusivamente nos seus aspectos materiais, mas, sobretudo, naquilo que eles poderiam sugerir, evocar. Uma visão que encantava e que fazia apelo a desejos sempre renovados através de impressões inéditas. O exotismo entrara em moda, o Oriente em especial, desde o séc. XVII. Os diários e as descrições de viagens aparecem, na esteira das traduções de Galland. As Companhias das Índias contribuem para o sucesso do exotismo. Era comum, nos salões, que nobres ou burgueses ricos circulassem fantasiados de persas ou turcos, que os servidores fossem negros com turbantes, torso nu. Uma boa parte deste cenário acabou entrando na pintura pelas telas de pintores famosos (Boucher, Huet, Desportes etc.). Tais temas chamavam-se então chinoiseries, turqueries.

KAMA  SUTRA

Lembre-se que no final do século XIX (1885) teríamos o ponto alto desta maré orientalista com a publicação, pelo editor Lisieux, por apaixonada sugestão de Guy de Maupassant, daquilo que o mundo árabe havia produzido de melhor com relação aos prazeres e ao erotismo, o famoso Jardim PerfumadoJ, obra que tanto encantara Richard Burton, o grande escritor e explorador inglês, tradutor, dentre outras obras, do Kama Sutra para o inglês.


O  JARDIM  PERFUMADO (AUTOR DESCONHECIDO)

Outro exemplo de como as palavras mudam comportamentos está naquilo que as histórias da Filosofia classificam como Sofística, que aparece na antiga Grécia por volta do século IV aC. A palavra está relacionada com a ideia de conhecimento. Foram os sofistas, como pensadores, que colocaram as necessidades do homem de então numa perspectiva de vida estritamente prática, não mais em exigências de ordem teórica ou científica. Os sofistas tornaram-se um fenômeno muito significativo no campo da educação. É com eles que uma ideia e uma teoria entram de modo consciente na pedagogia, recebendo um tratamento racional. A sofística só admite sensação e opinião. A alma não é algo imortal, separado do corpo, que nele entra e sai, mas é tão só um fenômeno acidental e mutável como todos os demais. Para os sofistas, tudo está num devenir constante. Não há senão sensações mutáveis. Não há critério seguro que permita distinguir o verdadeiro do falso. A verdade que se diz não é o importante (não há verdade objetiva), o mais importante é o modo de dizer. Uma opinião se impõe não por ser verdadeira, impõe-se, sim, porque “sabe” criar o convencimento naquele que escuta (persuasão). Este é o grande tema da retórica para os sofistas, da qual foram grandes mestres.


SOFISTAS ( MOSAICO DE POMPEIA )

O sucesso dos sofistas como retóricos e educadores pode ser explicado parcialmente devido ao momento histórico em que apareceram e ensinaram. Atenas tinha como regime político a democracia. A experiência demonstrava que nas assembleias populares o que sabia fascinar o povo com a sua eloquência se impunha, não importando tanto o que era dito. Os sofistas educavam os jovens de modo a prepará-los para a vida política. Iam de cidade em cidade, sendo pagos por suas lições (algo nunca visto antes). Logo a arte da dialética (arte de disputar) se converteu em arte de discutir com palavras (erística). Com o tempo, porém, a virtude sofística descambou para as sutilezas lógicas, para raciocínios fingidos, enganosos (sofismas), tomando o nome sofista um sentido pejorativo, como o encontramos em Platão, o maior inimigo da sofística. Com os sofistas, os problemas do homem ganhavam prioridade pois era diante dele que a Natureza aparecia, que o mundo se revelava, a exigir respostas imediatas. Os sofistas chamaram a atenção sobre o homem, sobre suas atividade, sobre suas normas de conduta e, acima de tudo, sobre a questão da subjetividade quanto ao conhecimento humano. Criticaram pois, a chamada metafísica da essência e afirmaram o primado do concreto e do particular, o que se capta no imediato e no momentâneo. Não há, para eles, uma verdade absoluta, mas uma verdade relativa ao homem. Todos os juízos e opiniões, afirmativos ou negativos, são subjetivos, dizem. A verdade varia de acordo com as nossas impressões sensoriais. O homem não é mais que sensação e os objetos nada mais são do que aquilo que se apresenta a a ele através das suas sensações variáveis.

Outro exemplo muito interessante de como as palavras mudam comportamentos e, por isso, podem aparecer associadas às artes da cura, nós o encontramos nos mitos ligados ao deus Asclépio, que tinha por centro irradiador a cidade de Epidauro, na antiga Grécia. Filho do deus Apolo e da mortal Coronis, Asclépio foi educado pelo centauro Kiron, também médico. Asclépio participa da natureza humana e divina, lembrando-nos a união indissolúvel que existe entre ambas. Fixando-se em Epidauro, chamado pelos gregos de Filantropissimo, Asclépio é a figura central, naquela cidade, de um grupo de sacerdotes-médicos (Asclepíades). Entre os descendentes deste grupo encontra-se Hipócrates, historicamente, o pai da medicina.


ASCLÉPIO
Asclépio teve quatro filhas de seu casamento com Epíone, a Benéfica: Áceso (a que cuida de), Iaso (a cura), Panaceia (a que socorre a todos) e Higeia (a Saúde). Eram seus filhos também Podalírio e Macaon, médicos. O culto de Asclépio era celebrado num templo em Epidauro onde havia uma famoso labirinto, no qual era guardada uma serpente, ser ctônico que tinha o poder de renascer constantemente. Os cultos do deus se estenderam dos sécs. VI aC ao V dC. Asclépio, chamado de deus Toupeira, porque esse animal “vê” no escuro, era o deus da nooterapia, isto é, da cura pela mente. Esta cura provocava a metanoia, a transformação de sentimentos. A ideia básica era a de que os erros, as faltas, as desmedidas, as hamartiai provocavam problemas que, interiorizados (incubação), tornavam-se agentes mórbidos detonadores de doenças. As causas das doenças estariam, pois, na mente. A nooterapia purificaria o mental e, em consequência, o físico, o homem inteiro.


APARIÇÃO  DA  FACE  DE  AFRODITE (SALVADOR DALI)

Grande importância no processo terapêutico em Epidauro era dada aos sonhos. Havia a famosa enkoimesis (deitar e dormir) no santuário. Os doentes eram levados ao sono e deste aos sonhos através de determinadas sugestões. Interpretados os sonhos pelos sacerdotes-médicos, os medicamentos eram prescritos. Isto era o que se denominava mântica por incubação (diferente da mântica por inspiração, de Apolo, e da mântica indutiva, feita por conclusão sobre observações). Em Epidauro, só havia cura se houvesse a metanoia, a transmutação de sentimentos e emoções. Neste sentido, havia nas terapias uma metusia, uma comunhão, convergência de vários processos e cerimônias através das quais os médicos procuravam, com suas palavras, reforçar o sentimento religioso dos doentes. Canto, dança, práticas esportivas, banhos, teatro, poesia, reforma de hábitos alimentares, tudo era utilizado para produzir o efeito terapêutico desejado. Procurava-se sobretudo a eliminação de paixões desastrosas. O lugar era ornamentado por muitas obras de arte cuja finalidade era a de elevar espiritualmente as pessoas que lá se internavam.Todo esse conjuntos de procedimentos tinha como meta final aquilo que os gregos chamavam de catarse, libertação, expulsão ou purgação do que era estranho à essência ou à natureza do corpo e que, por isso, o corrompia.


ASCLÉPIO  ( AUTOR DESCONHECIDO )

Faz parte do tema que estamos abordando, nele devendo merecer grande destaque, por sua importância, a instituição da confissão, como apareceu no Cristianismo, principalmente entre os séculos XIII e XIX. O confessionário foi, sem dúvida, o centro de um drama que se desenvolveu entre a dialética da culpa e do perdão. Pelo uso da palavra que há nessa instituição, tem ela um lugar importante na história das curas da humanidade. O confessor foi um médico das almas, juiz dos pecados, pai espiritual. Milhões de pessoas nos séculos apontados passaram por confessionários no mundo ocidental, lugar onde seres culpados, cheios de angústia, procuravam perdão e redenção. Santo Afonso de Ligório, sécs. XVII/XVIII, escreve no seu Guia do Confessor: Para cumprir os deveres de um bom pai, o confessor deve mostrar-se cheio de caridade, e o primeiro uso que deve fazer dessa caridade consiste em acolher com igual benevolência todos os penitentes, pobres, sem instrução e cobertos de pecados. Preconizava-se uma abertura para a benevolência, uma técnica de escuta e de questionamento do pecador. Outro texto nos diz que o confessor deve ser como um médico espiritual que acolhe um doente da alma.



A maneira prudente e amigável de confessar recomendada por Santo Afonso de Ligório prevaleceu dos séculos XVIII ao XX, mas não impediu uma crescente deserção dos confessionários, que já vinha do começo do primeiro. Já no século XIX, uma clara hostilidade se fazia sentir, principalmente pelos homens. Acusava-se a confissão de intervir na intimidade dos lares, de opor a mulher ao homem, a religião à política etc.


A  CONFISSÃO  ( ANTOON VAN  DYCK )

Ficou, contudo, a pergunta: a confissão confortava? Será que ela ajudou realmente as pessoas a se suportarem, a se sentirem mais à vontade interiormente? Não resta dúvida que as palavras dos padres nos confessionários tenham animado muitas almas que na instituição procuravam sinceramente o alívio dos seus problemas. O confessor era afinal um “diretor de consciência”, muitas vezes amigo e confidente, um guia seguro. Se pensarmos, porém, nos desejos de perfeição que muitos confessores demonstravam, muito além do razoável, ou se considerarmos aqueles que procuravam o confessionário mecanicamente (confissão para não atrair reprovações), o confessionário ficou muito aquém do pretendido. O grande problema foi que muitos fiéis, inúmeras vezes, foram convidados a fazer nos confessionários uma revisão de vida total. Questionários complicadíssimos, repletos de perguntas, de circunstâncias atenuantes, agravantes etc. Não se pode deixar de reconhecer, contudo, que o confessionário foi um dos meios que nossos antepassados tiveram para conhecer a alma humana. Quanto ao perdão, foi ele uma das grandes contribuições que o Cristianismo trouxe para a “saúde” interior do homem moderno. Pelo confessionário, o desfile de quanto sofrimento, quantas angústias e, também, quanta redenção, quanta cura! Será que ainda é possível trabalhar com a confissão depois de Freud? Nossa modernidade substituiu a confissão pela Psicologia. Melhoramos?



                                                                                                                                  
Quanto a esta problemática do perdão, a sua melhor formulação está, sem dúvida, na mitologia, como a temos no mito das Erínias, as Fúrias, divindades do remorso, deusas violentas, guardiãs das leis da natureza e da ordem do mundo, no sentido físico e moral. Puniam elas todos aqueles que ultrapassavam os seus direitos em prejuízo dos outros. São as vingadoras dos crimes cometidos, divindades da Ananke, conceito filosófico-religioso que lembra reposição de limites.


ORESTES PERSEGUIDO PELAS FÚRIAS ( BOUGUEREAU )

As Erínias não deixam o criminoso esquecer os seus crimes. São a consciência culpada, morbosa. Interiorizadas, simbolizam os remorsos, os sentimentos de culpa que podem levar até à autodestruição, se consideramos as falta inexpiáveis. Não se calam nunca, dia e noite, não deixando o criminoso dormir, se alimentar. Podem, contudo, se transformar nas Eumênides, as Benfeitoras, quando há o arrependimento sincero, que leve a uma apreciação mais comedida dos atos praticados. Não bastava, porém, para as Erínias a declaração do arrependimento. Imprescindíveis, para elas, objetivamente, a reparação pecuniária, sempre pesadíssima, as penitências, longas penitências, e o trabalho social gratuito por anos e anos. Só, então, as Erínias podiam deixar o criminoso em paz.

sábado, 14 de dezembro de 2013

AS LEITURAS DO CICLO DE HÉRCULES


   Os vários mitógrafos que desde a antiguidade abordaram a história de Hércules sempre se mostraram unânimes: a realização do ciclo dos doze trabalhos foi imposta ao herói como uma punição. Desde tenra idade, Hércules sempre deu demonstrações de um descontrolado comportamento. Já quanto à ordem de execução desses trabalhos, não encontramos, praticamente, nenhuma concordância. 

HÉRCULES
Embora muito variados, os doze trabalhos, no seu conjunto, podem ser vistos como uma espécie de ascese, tarefas que, pelas suas exigências físicas, tinham a finalidade de transformá-lo num homem novo, capaz de controlar sobretudo seu corpo físico, seu lado instintivo, e, quem sabe, seu espírito. Aliás, esta nos parece a razão principal do uso da história do nosso herói para ilustrar os mais significativos traços de uma personalidade masculina que, no seu processo educacional, os jovens das elites gregas deveriam cultuar, sempre em luta contra a adversidade e contra si mesmos.    
Antes de prosseguir, porém, é preciso que nos detenhamos na questão do caráter punitivo do ciclo dos doze trabalhos. Os gregos, como sabemos, tinham no seu panteão três divindades que, atuando em conjunto, eram as responsáveis pela punição dos crimes cometidos contra a família, a sociedade e contra os preceitos morais em geral. Eram as Erínias (etimologicamente, perseguir com furor), também conhecidas como as Fúrias. Munidas de chicotes, carregando tochas, as três, Aleto (a que não deixa esquecer), Tisífone (a que uiva e berra, não deixando dormir) e Megera (a que divide), aladas, o corpo coberto de serpentes, eram as executoras da vingança divina, percorrendo a Terra para atormentar os mortais culpados. 

AS FÚRIAS
  Divindades infernais, as Fúrias perseguiam incessantemente os criminosos que, por suas ações nefastas, haviam perturbado a ordem familiar e social. Provocavam o remorso nos criminosos, inspirando-lhes uma angústia sem fim. Sua ação demoníaca estendia-se também ao mundo subterrâneo onde torturavam as almas dos mortos que lá estavam, sob a acusação de terem cometido crimes de impiedade (falta de respeito aos deuses) e de perjúrio (falso testemunho).
Os doze trabalhos de Hércules devem ser analisados não só sob a óptica do que significam as Fúrias, as vingadoras do sangue parental derramado, como também, para completar esta análise, através de um conceito que os gregos tinham na sua mitologia, depois incorporado à sua filosofia. Referimo-nos a Ananke, princípio nunca personalizado, mas muito presente na vida social e religiosa grega, na sua arte e no seu teatro trágico, principalmente. A palavra Ananke, etimologicamente, quer dizer, ao mesmo tempo, coação, necessidade, violência, fatalidade e destino. Na filosofia pré-socrática (Parmênides), Ananke governava todas as coisas de modo providencial; era uma espécie de necessidade mecânica que atuava tanto no mundo físico, na base da ação e da reação, como no mundo moral.

ANANKE
Em nome de Ananke agiam duas divindades, as mencionadas Erínias e Nêmesis, esta com a   finalidade  de   recompor  o  equilíbrio  universal   quando  um   excesso,  um  crime,  um
descomedimento (hybris) era praticado. É através deste conceito de causa e efeito, muito semelhante ao do karma dos hindus, que o universo mantinha para os gregos o seu equilíbrio. As Erínias atuavam mecanicamente, cegamente, fazendo o criminoso adoecer, enlouquecer de culpa, tornando morbosa, doentia, a sua consciência. Já a punição da Nêmesis tinha uma função pedagógica, que podemos resumir através da expressão “sofrer para compreender”. A ação de Nêmesis tinha como objetivo principal fazer com que o criminoso voltasse, com grande sofrimento, para limites de onde nunca deveria ter saído.
LYSSA
Os escritores e mitógrafos que na antiguidade se aproximaram dos doze trabalhos de Hércules, na sua maioria, sempre entenderam mais a sua imposição pelo lado das Erínias. Isto é, descontrolado, num ataque de fúria, tomado por Lyssa, entidade infernal, Hércules cometera um crime (morte dos filhos para uns ou dos filhos e da mulher para outros); atacado pelas Erínias, não conseguia se recuperar apesar de haver tentado se purificar de várias maneiras. Queria nosso herói livrar-se do que os gregos chamavam de miasma, mancha, nódoa religiosa e moral, proveniente de um homicídio.
EURISTEU
Mergulhado numa profunda prostração, deprimido, dirigiu-se Hércules ao santuário de Delfos a fim de ouvir a sentença oracular divina. A Pítia, em transe, em nome do deus Apolo, disse-lhe que, para ser libertado do que o afligia, ele deveria se apresentar a seu primo Euristeu, rei de três cidades na Argólida, que lhe imporia a devida pena. Assim aconteceu: ao nosso herói foi determinado o cumprimento de um ciclo de doze trabalhos, que, uma vez concluído, não só o livraria da culpa como permitiria que ele chegasse à sophrosyne, ao autodomínio e à moderação.   

PITONISA
 Para a maioria dos intérpretes, as tarefas prescritas sempre foram consideradas sob o ponto de vista físico, uma visão bastante simplista diante de todas as possibilidades interpretativas que o tema sugere como se verá mais adiante. No momento, o que se pode dizer é que com esse ponto de vista ficou de lado o caráter pedagógico (paideia) dos trabalhos: em cada um deles uma lição, que o nosso herói sempre teve muitas dificuldades para assimilar, se é que isso tenha passado pela sua cabeça como possível.
As narrações dos doze trabalhos seguiram invariavelmente uma linha descritiva muito resumida. No geral, os mitógrafos se limitaram apenas aos fatos. Nada de se explorar nomes, de fazer relações, de pesquisas etimológicas e simbólicas, de se buscar analogias, de extrair sentidos das alegorias e das metáforas dos vários textos. Todas as atenções sempre se voltaram para a personalidade extravagante de Hércules e para as suas façanhas, espantosas sob o ponto de vista físico. Quase nada se mencionava sobre o que cada trabalho queria realmente propor, o que estava nas suas entrelinhas, no conjunto de suas informações, de grande riqueza, algo que só se tornou possível quando foram abordados pela via astrológica, a única leitura que os iluminou completamente.
Esta necessidade de uma abordagem pela via astrológica, já estava implícita aliás nos próprios elementos da história, na sua natureza zodíaco-solar; na sua estrutura arquetípica; na incomparável riqueza psicológica dos seus personagens; na variedade dos monstros e animais que intervêm nas histórias; nas possibilidades significativas do número doze; no preenchimento, como mito, da sua função básica, a de fixar modelos exemplares das mais significativas ações humanas; na sua geografia e toponímia (os cenários descritos) etc.
Em 1974, editado pela Lucis Press Limited, apareceu em Londres um livro, The Labours of
Hercules, de autoria de Alice A. Bailey (1880-1949), pesquisadora e escritora filiada à corrente teosófica de Helena Blavatski. O mérito desse trabalho está na associação que a
ALICE BAILEY
a
utora faz entre os doze trabalhos do nosso herói e o caminho solar zodiacal. A visão por ela defendida, entretanto, demasiadamente transcendente, fez de Hércules um aspirante a percorrer um caminho a que se dá na Teosofia o nome de "Sendero do Discipulado". Um processo de depuração, de sublimação e de transmutação que Hércules deveria ir assumindo para chegar ao “Monte da Transfiguração”, onde chegaria transformando num ser casto, puro e meditativo, uma espécie de sadhu indiano. Ou, se quisermos, como uma espécie de Sir Galahad, na visão cristã do ciclo do Santo Graal.  

GALAHAD
Ora, nada disto aconteceu, não é neste modelo que Hércules poderá ser enquadrado. Seria desfigurá-lo bastante. As preocupações metafísicas da autora, acabaram por fazer com que o conhecimento prático e ético que a realização dos doze trabalhos oferecia sob o ponto de vista astrológico, a chamada phronesis, se transformasse numa espécie de teoria das ideias platônicas, uma sophia teorética, contemplativa. O que os doze trabalhos propõem astrologicamente não é um diálogo com a eternidade, mas, ao contrário, é uma busca que tem a finalidade de levar Hércules (o ser humano) à compreensão de suas responsabilidades com relação aos outros homens e ao mundo.  
Muitos dos livros de Alice Bailey, como se sabe, foram “recebidos” ou “revelados” pelos chamados “mestres ascensos”, que viviam, segundo a autora, em outros planos (Djwhal Khul, Tibetano, Saint Germain, Jesus, El Morya, Kuthumi etc.). Neste sentido, fica difícil nós sabermos quem realmente foi o autor do texto. Além do mais, a mistura conceitual (Hinduísmo, Budismo Esotérico, Cristianismo, Espiritismo, Cabala etc.) de que se vale a autora para embasar a sua obra acentua demais o aspecto “religioso”, meio “fora do mundo”, transcendental, dos doze trabalhos. O resultado de tudo isto é que nosso herói   acabou sendo considerado como um discípulo, um aspirante, a trilhar um sendero de santidade, algo que o nosso herói nunca foi nem o caminho zodiacal admite como proposta.




O caminho zodiacal, é importante ressaltar, não pode ser considerado sob o ângulo de uma transcendência que leve o homem para fora da Terra, para paraísos celestes ou que o direcione para buscar um abrigo no seio divino. O caminho zodiacal aponta para uma realização terrestre. A espiritualidade de que nos fala o zodíaco (e como o ciclo dos doze trabalhos nos confirma) é terrena, bem terrena. Uma realização terrena que tem a finalidade de transformar o homem num servidor da humanidade. Além do mais, a natureza do conhecimento que o caminho zodiacal propõe não é algo que possa ser estabelecido aprioristicamente. Cada um viverá esse caminho a seu modo.
 O universo, como sabemos, é limitado à consciência do homem. Ao longo da sua história, por medo, ingenuidade, esperteza, má-fé ou ignorância, ou por tudo isso junto, muitos homens defenderam e continuam a defender ideias de que haja algo que a transcenda. Ora, tudo o que homem fala do mundo está limitado à consciência que ele tem desse mundo. O Todo é mente, como diz a filosofia hermética. Mesmo que falemos de Deus, só poderemos falar dele como objeto de nossa consciência e não de outro modo. Na perspectiva em que os encaramos aqui, os doze trabalhos são uma ilustração de um diálogo nem sempre fácil que o homem tem que estabelecer no mundo para fazer as suas escolhas tendo diante de si os outros homens. Nada de retirá-lo, da Terra, pois.
O zodíaco só pode ser entendido segundo uma perspectiva terrestre. Ele pressupõe a imanência e não a transcendência. Estamos encerrados na Terra, conforme a consciência que dela temos. Nossas possibilidades de mudança ou de transformação só podem ocorrer
dentro dela. As longas viagens para as quais nos aponta o signo de Sagitário, por exemplo, são viagens que devemos fazer no plano terrestre, sejam estas viagens físicas, mentais ou espirituais. Essa a razão pela qual é cortada por um traço horizontal a flecha que representa simbolicamente o nono signo, transformando-se então o desenho numa cruz. Se o traço vertical simboliza a energia conduzida verticalmente, lembrando distâncias a atingir, um princípio ativo, o traço horizontal, deitado, lembra o passivo, formando ambos um signo de vida, de conjunção fecundante e de poder realizador. A cruz liga-se ao número quatro, símbolo do terrestre, do mundo criado, da totalização espacial.   


EURÍPEDES

 Indo agora noutra direção, um grande problema a enfrentar quando abordamos mais detidamente a história de Hércules é a falta de concordância entre os que se valeram dele como personagem de suas obras (poetas, homens de teatro, escultores etc.) ou para discorrer sobre a sua personalidade (mitógrafos, filósofos, modernos psicólogos etc.). A confusão é impressionante. Eurípedes, por exemplo, o maior dos trágicos, na sua tragédia Heracles, além de entender que o ciclo dos doze trabalhos tinha causas políticas, inclui, além dos filhos, entre as vítimas do herói, Mégara, a sua esposa, o que o torna um uxoricida.      
Para certos autores (Diodoro, Eurípedes) os filhos do herói (em número variável) foram
APOLO
mortos a flechadas; para outros (Pherecides, Apolodoro), foram lançados ao fogo. As dúvidas se acumulam. Quando teria o jovem filho de Alcmena recebido o nome de Hércules? Isso só teria acontecido quando ele se dirigiu a Delfos, para ouvir o que a Pítia teria a dizer sobre o crime que cometera, ou antes? Numa das versões, a mais coerente, se narra que, ao proferir a sentença oracular, a Pítia deu ao jovem, até então chamado de Alkeides ou Alkaios (Alcides), o nome de Hércules, assim justificando porque o fazia: “Apolo, o Senhor do oráculo de Delfos, te dá o nome de Heracles, pois, ao levar socorro aos homens, terás uma glória imperecível”. Já em outras versões, o nome Hércules lhe teria sido dado na infância como uma homenagem à deusa Hera.
Ao sair de Delfos, Hércules já tinha assinalado por Apolo o papel que iria desempenhar, o de salvador da humanidade. Seu nome, a prevalecer a sentença da Pítia, seria formado por “socorro”, “salvação” (hera) e “glória” (kleos), ou seja, o glorioso salvador da humanidade. Este tema da salvação, como se verá, no décimo
GERIÃO
segundo trabalho, fala da libertação da humanidade de Gerião, gigantesco monstro de três cabeças, símbolos, respectivamente, do que no ser humano é instinto, emoção e mente inferior. Enquanto estas três cabeças não forem dominadas pelo homem não será possível se falar de vida espiritual.
É pela frase da Pítia que se esclarece inclusive um erro de tradução que em algum momento histórico acabou por fixar o nome do herói como uma homenagem à deusa Hera (etimologicamente, protetora, guardiã); Héracles ou Hércules (a glória de Hera). Como sabemos, “hera” em grego tanto significa socorro, salvação, ajuda, como é o nome da própria deusa.  Algo realmente incompreensível o nome do nosso herói ser uma homenagem à esposa de Zeus, Hera, que o perseguiu implacavelmente ao logo de toda a sua existência terrena, sendo a responsável
HERA
pela maior parte dos seus infortúnios.
É a partir do episódio délfico de sua biografia que Hércules teve o seu nome indissoluvelmente ligado a Apolo, deus solar, símbolo de uma ascensão de natureza espiritualizante, que o caminho do Sol no zodíaco representa. Tendo os olhos fixados na exemplar jornada de Hércules, caberia aos humanos conquistar progressivamente a correta ordenação dos seus três níveis existenciais, o instintivo, o emocional e o mental, para que a vida espiritual pudesse de manifestar (tema dos dois últimos trabalhos).  
Quanto ao número dos trabalhos, o problema também é grande; não há praticamente nenhuma concordância. Apolodoro menciona dez trabalhos inicialmente. A ordem dos trabalhos é confusa, sendo a mais difundida aquela estabelecida por razões mnemônicas, nada defensável. Há mesmo uma versão que nos fala de treze trabalhos ao invés de doze. Esta referência a um décimo terceiro trabalho nós a encontramos na Antologia de Máximo Planudio, monge grego de Constantinopla, do séc. XIV, muito divulgada; nosso herói deveria dormir (eufemismo para não se dizer fazer sexo) numa noite com cinquenta jovens. Teria este trabalho algo a ver com o mito das Danaides?

DANAIDES
 Já na antiguidade se falava também de uma ordenação geográfica dos doze trabalhos: os seis primeiros tendo por cenário o Peloponeso e os seis últimos realizados em várias partes
do mundo, um deles no Hades. Atribuiu-se a Panyassis, tio de Heródoto, uma ordenação que seria a definitiva. Mas tudo, com o tempo, se revelou insatisfatório. Os estudiosos modernos tentaram classificar os trabalhos em função dos inimigos que Hércules teve que enfrentar: bestas, figuras humanas ou seres antropomorfizados, dois inclusive de natureza escatológica. Outros, com base em estranhos critérios, falam de lutas do nosso herói contra bestas nocivas e bestas comestíveis, além de uma contra os elementos, a água e os excrementos animais (décimo primeiro trabalho).Todas estas abordagens, algumas até muito criativas, foram provavelmente alimentadas por nítidos arroubos egoicos, como se cada autor quisesse fazer prevalecer a sua versão como a definitiva, a “diferente”,  quando na realidade ela não passava de mais uma dentre tantas outras.
De nossa parte, o que podemos dizer é que foi esquecida uma recomendação que os próprios gregos aconselhavam observar quando alguém procurasse se aproximar da matéria mítica. Para se ir ao mais importante dos mitos era preciso ter em mente  a hyponoia, ou seja, saber encontrar o sentido oculto, subjacente, nas histórias. A mente racional, objetiva, o “logos” grego, nunca entendeu os seus mitos, rejeitou-os. A mente racional não se dá bem com o simbólico; seu mundo é o do analítico, de natureza
PLATÃO
fragmentária, separadora. Por natureza, o analítico não sabe unir, aproximar, encontrar relações. A hyponoia trabalha no sentido da analogia, do social, do reconhecimento da pluralidade, da integração de sentidos. Não foi por outra razão, aliás, que Platão, além de considerar os mitos gregos um perigo para a vida social (poetas não entrariam na sua “cidade ideal”), nunca os admitiu oficialmente nem aceitou a hyponoia como instrumento de interpretação, embora tivesse usado vários mitos, deformando-os até bastante para justificar as suas teses filosóficas. Numa tradução livre, com base na sua etimologia, hyponoia, quer dizer aquilo que fica abaixo do superficial. O conceito aponta para uma região de riquezas ocultas que a “mente média”, racional, não consegue alcançar.      
Desde a Antiguidade, o ciclo de Hércules foi abordado de diversas maneiras. Todas as leituras filosóficas procuraram fazer do herói um modelo de virtude. O seu caminho corresponderia, segundo essa perspectiva, àquilo que, mais ou menos, as modernas escolas de Psicologia chamam de processo de individuação. Ele seria idealmente o ser que deveria ter a coragem de vencer todos os obstáculos, internos e externos, apesar dos inúmeros perigos e sofrimentos a enfrentar, a fim de não só se conhecer melhor, mas, ao mesmo tempo, ampliar os seus horizontes existenciais. Alguém que deveria procurar viver a vida, abrindo-se para o desconhecido.
Na leitura dos sofistas, a história de Hércules seria uma espécie de ilustração de suaspropostas: menos indagações sobre o Cosmos, sobre a Natureza, a "Physis", e mais atenção ao contingente, ao individual, ao múltiplo. Esse o caminho do homem, sempre em atrito com os poderes mundanos, vitimado pelas suas paixões, sofrendo para usar a sua mente a fim de resolver os problemas que criava para si mesmo. Hércules seria, então, nessa leitura, uma espécie de representante de um novo humanismo sofista que se contrapunha ao naturalismo dos pré-socráticos. Agora, nessa leitura, o homem e a sua subjetividade passavam ao primeiro plano. O herói era o que escolhia, deliberava, no mundo moral. Pelo sofrimento, uma virtude estóica, poderia chegar ao conhecimento.
Na visão dos órficos e dos pitagóricos, a vida de Hércules também seria um exemplo de edificação. A vida de um sofredor que, pela mortificação, por caminhos difíceis, ia se superando em direção de uma purificação definitiva. Esta leitura órfico-pitagórica tem cunho fortemente religioso, já que vê a vida de nosso herói como um modelo de ação que leva ao comedimento e à temperança (que Hércules jamais cultivou). A leitura dos sofistas, por suas vez, mais "mental", nos fala de um modelo que leva o ser humano a buscar a informação, a instrução, uma espécie de paideia. É por esta razão que os sofistas, mais coerentes, colocam Hércules como um ser de escolhas, numa encruzilhada, lugar de parada e de reflexão, onde se tomam decisões e o destino pode ser mudado.
O que se destaca para nós na figura de Hércules é que ele é antes de tudo um guerreiro,
HÉRCULES E O LEÃO
um herói típico das aguerridas tribos do Peloponeso, um ser que sempre procurou se expressar fisicamente e com brutalidade. Quando os seus trabalhos são iniciados ele usa uma arma rudimentar, a clava, símbolo da força bruta e primitiva que esmaga. Apolo lhe revelou que só quando da realização do nono trabalho ele entenderia o que a flecha e o arco significariam. Contudo, embora os tivesse usado, com muita eficiência até (terceiro e nono trabalhos), nunca a rigor se deu bem com eles. Embora os tivesse aceito como armas, nunca chegou a se identificar com a  flecha enquanto símbolo de um conhecimento que assegurasse a libertação, as buscas mais distantes que levassem a outros modelos de vida. A flecha, no mundo do qual Hércules sempre participou, era vista como a arma dos fracos, daqueles que lutavam a distância, traiçoeiramente, jamais aberta e francamente, como os hoplitas (soldados de infantaria) gregos o faziam .  
Pelas referências acima e por outras que se farão no transcorrer de nossa exposição acreditamos que vai ficando claro que a mais consistente e apropriada abordagem que se possa fazer do ciclo de Hércules é aquela que tem por base a leitura astrológica. Os doze trabalhos do herói, na sequência em que os apresentamos, sequência já notada, aliás, na própria Antiguidade, mas abandonada por outras, têm uma espantosa correspondência com a ordem zodiacal dos signos e com os seus respectivos significados. A analogia entre os doze trabalhos do herói e o trânsito do Sol pelas doze constelações zodiacais é evidente. Hércules sempre foi considerado um herói solar. Nos seus trabalhos encontramos um simbolismo que tanto apresenta aspectos de uma evolução biológica como psicológica e espiritual, com todas as suas contradições, recuos, avanços, vitórias e fracassos.


JERUSALÉM CELESTE

 Só para nos fixarmos no número doze, é bom lembrar que este número é o produto do quatro pelo três, isto é, refere-se aos quatro elementos (fogo, terra, ar e água) constitutivos do universo e aos três estados dos corpos produzidos por eles, evolução, culminação e involução. É, em suma, o número do universo criado em toda a sua complexidade, no seu desenvolvimento espaço-temporal. Em todas as culturas encontramos esse número como símbolo de um ciclo que se encerra, o número do mundo acabado. As referências são inúmeras: a Jerusalém celeste do Apocalipse tem doze portas; doze são os apóstolos de Cristo, as tribos de Israel, os cavaleiros da Távola Redonda do rei Arthur, como doze é o número da lâmina do Tarot (Enforcado) que marca o fim de um ciclo involutivo, como é o número da manifestação da Trindade nos quatro cantos do horizonte; doze cantos tem a epopeia de Gilgamés, doze são as divisões do relógio, os deuses olímpicos, os nomes do Sol em sânscrito, as proposições da Tábua esmeraldina.
O número doze rege o espaço e o tempo, simbolizando a ordem e o bem. Já para os persas, todo o bem e todo o mal que a Terra poderia receber provinham dos movimentos regular dos astros no círculo zodiacal, formado por doze agrupamentos deles. Não é por outra razão, aliás, que todas as escolas filosóficas (darshanas) da antiga Índia trabalham com a ideia de que o bem na Terra só existe quando o dharma terrestre segue o dharma celeste (a ordem que há no zodíaco). Em todas as antigas tradições, o doze é um número de plenitude, de acabamento e de totalidade.  
Homero, no seu hino, chamou Hércules de "Leontothymos" (coração de leão), o que já
HÉRCULES
basta para identificá-lo com o Sol (o signo astrológico de Leão é, como se sabe, regido pelo Sol). O teatro grego também se apossou da figura de Hércules. Sófocles (Traquínias), Eurípedes (Heracles), Aristófanes (Nuvens). Píndaro, o grande poeta que celebrava os vencedores dos jogos olímpicos, também cantou Hércules. Zenão, o filósofo estoico, e Antístenes, o cínico, tomaram Hércules como um ideal, opondo-o radicalmente aos valores culturais. Noutras vezes, em períodos de decadência social, o burlesco se apoderou da figura de Hércules. Foi o herói satirizado, realçando-se o seu lado picaresco, façanhudo, fanfarrão, como uma figura de feira, de matador de monstros, enfatizado seu lado vagabundo, grosseiro, muito semelhante ao dos centauros, que tanto combateu. 
A Grécia clássica procurou transmitir uma visão sublime do herói. Na realidade, entretanto,
AQUILES
não era bem assim. Os heróis gregos são marcados por uma forte dualidade, por inúmeras contradições. São apresentados como invulneráveis, mas podem ser abatidos (Aquiles). Têm graça e beleza, mas podem ser monstruosos (o gigantismo de Hércules, de Aquiles, de Teseu). São, na realidade, teriomorfos ou andróginos, mudam de sexo, adotam o travestismo, transitam entre o masculino e o feminino, têm anomalias físicas (Hércules tinha três fileiras de dentes), têm problemas nos pés (Édipo), são transformados em serpentes (Cadmo); com facilidade, são atacados por monstros, pela loucura (Lyssa), pelo Erro (Até), pela Discórdia (Éris), como aconteceu com o próprio Hércules e acontecia também com as próprias divindades olímpicas. A maioria tem um comportamento sexual aberrante; Teseu, por exemplo, era famoso por seus estupros. Cometem incestos, mutilam ou massacram por inveja, cólera ou sem nenhum motivo, desrespeitando
ERIS
tudo e a todos de um modo que beira a inconsequência, a loucura mesmo, como se as normas de convivência e regras de civilidade não fossem para eles.
Os excessos heróicos, a rigor, não têm limites. Violentam deusas (Orion, Ixion), são sacrílegos (Ajax Oileu agride Cassandra em recinto sagrado), são traidores (Tântalo traindo a confiança dos deuses), são hétero e homossexuais (Hércules), no que, aliás, imitam os próprios deuses. Talvez o traço mais característico e específico do herói grego seja a hybris, a desmedida, em escala superlativa. Embora
AJAX E CASSANDRA
punidos e castigados, tentarão sempre enfrentar os deuses, como se fossem iguais a eles, podendo, contudo, salvá-los quando necessário (Gigantomaquia). Ambivalentes e monstruosos, seu comportamento, já se disse, é extravagante. Eles são estapafúrdios, incoerentes, descomunais. No "mundo dos homens", na antiga Grécia (Atenas) do período clássico da sua história, numa sociedade organizada, onde as desmedidas, as explosões temperamentais e os excessos devem ser proibidos, ou, pelo menos, controlados, os heróis tornaram-se figuras bizarras, deslocadas. Sobreviverão, porém, na tragédia, como exemplos, para que os pobres mortais (as classes mais desfavorecidas socialmente) não ousassem imitá-los, ultrapassando certos limites e incomodando a aristocracia grega.  Na idade do ferro já não haverá lugar para eles. Foi Hesíodo, aliás, quem lhes deu um lugar entre as quatro idades tradicionais, intercalando, entre as duas últimas, a idade do bronze e a do ferro, a deles, dos heróis.
Hércules é sem dúvida o mais popular dos heróis gregos. Entre os romanos, sua história destacou a sua ação civilizadora, ligando-se ela de modo especial à fundação de cidades e à toponímia de vários lugares. O herói, unindo-se a Fauna, esposa de Fauno, tornou-se pai de Latino, personagem da Eneida, de Vergílio; como  responsável pela morte de Cróton, honrou-o, fundando a cidade de Crotona. Antes de deixar a Itália, construiu na Campania, uma extensa barragem e um canal, ligando o lago Lucrino ao mar. O mais importante, neste particular, é que nosso herói tem o seu nome ligado eternamente à península itálica, cujo nome, Itália, encontra uma curiosa explicação que retiramos do seu último trabalho. Ao retornar da Ilha Vermelha (Eritia) com o gado vermelho que libertara das garras do pavoroso gigante Gerião, nosso herói teve que atravessar aquele território peninsular até então sem nome. O rebanho foi alvo da cobiça de muitos ladrões e dos potentados locais, que tentaram de várias maneiras roubar os animais. Só a muito custo nosso herói conseguiu afastá-los, embora tivesse perdido muitas cabeças. Com o tempo, o território atravessado começou a ser chamado de “terra dos vitelos” (bezerros, novilhos). Em latim, como sabemos, vitelo é uitulus, nome do qual teria saído Itália.
 A crônica de Hércules sempre encantou de modo especial os italianos. O romano Sêneca, que nos deu um Hércules Furioso e um Hércules sobre o Etna, procurou, na linha dos estoicos, nos mostrar a grandeza do herói diante da impiedosa fatalidade. Em Roma, o culto de Hércules era conduzido por duas famílias sacerdotais, os Potícios e os Pinários. Primeiro de natureza privado, o culto de Hércules tornou-se público no ano de 312 aC, celebrando-se a sua festa no dia 12 agosto, quando Sol transita pela constelação do Leão. 
No século XV, os humanistas espanhóis e italianos nos deram  uma visão cristã do mito de Hércules. O herói tentava agora combater os demônios e lutar contra a fatalidade imposta por deuses desumanos (os da antiguidade, deuses pagãos),  numa espécie de prefiguração do cristianismo que estava por vir. Na França, no séc. XVII, autores franceses, à maneira do preciosismo e do barroco, alegorizaram a vida do nosso herói, cercando-o de personagens emblemáticos como o Prazer, a Preguiça, a Vaidade e a Luxúria.

CONSTELAÇÃO DE HÉRCULES
 Os astronômos da antiguidade também se sentiram tocados pela saga do nosso herói. Deram seu nome a um grande conjunto de estrelas situado perto das constelações boreais de Draco, Corona Borealis e Ursa Minor. A constelação de Hércules é uma das mais antigas dos céus; antes de receber o nome do nosso herói, era chamada de a constelação d´ “Aquele que se Ajoelha” ou, “O Genuflector”. A estrela mais importante (alfa) da constelação de Hércules tem o nome de Ras Algethi, de magnitude variável, situando-se atualmente, com relação ao zodíaco, a 15º28´ de Sagitário, nos remetendo, quanto a possibilidades interpretativas, a ideias de serviço, de submissão auto-conquistada. A imagem celeste desta constelação foi divulgada pelos astrônomos dos sécs. XVII e XVIII, que a desenharam, segundo a distribuição estelar, como um herói em genuflexão, tendo numa das mãos uma clava e na outra a pele de um leão que lhe serve de escudo.


AS COLUNAS DE HÉRCULES
Os geógrafos da antiguidade foram seduzidos também pela gigantesca figura de Hércules. Deram o nome de “As Colunas de Hércules” ao estreito de Gibraltar, vendo nosso herói como chefe de uma colônia fenícia ali situada. As colunas foram construídas pelos membros dessa colônia, em honra a Hércules, para comemorar a abertura, feita por ele, de uma passagem do mar Mediterrâneo para o oceano Atlântico. É desta história que sai a expressão “as colunas de Hércules para designar metaforicamente os limites extremos além dos quais o pensamento nada pode conceber. Ainda sob o aspecto geográfico, lembremos, sem que saiba por qual razão, há no norte da Espanha, perto de La Coruña, ruínas de umas torres, chamadas desde tempos imemoriais de “As Torres de Hércules”. Miticamente, elas teriam relação com o último trabalho de Hércules (A libertação do gado vermelho, aprisionado pelo gigante Gerião), quando ele retornou de Eritia pelo norte ao continente, seguindo dali em direção da futura Itália. 
   Se quisermos mais, podemos ir ao léxico de várias línguas ocidentais, inclusive orientais. Do nome de Hércules saiu o adjetivo hercúleo que tem o sentido de excepcional, assombroso, de força extraordinária. “Um trabalho de Hércules” é expressão que se usa para designar tarefas ou projetos, que, para o seu cumprimento ou realização, exigem grande esforço.  



sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O REMORSO


Remorso tem origem latina, vem de remorsus, particípio passado de remordere, que significa tornar a morder. Morder, por sua vez, vem do latim mordeo, es, momordi (memordi e morsi), morsum, mordere, que deu morder, mastigar, comer, figuradamente morder com palavras, dilacerar, atacar, satirizar, ferir, torturar, atormentar. Entrou em várias línguas, como no italiano, no francês, no provençal, no catalão. A palavra inclui ideias como força para morder, palavras mordazes, satíricas, mordacidade, pedaço tirado com o dente etc. A própria etimologia da palavra já dá a ideia do sentimento doloroso, angústia acompanhada de vergonha, sentimento este causado muitas vezes pela consciência de se ter agido mal, acompanhado de arrependimento, culpa, lamentação, penitência e outras dores que povoam a alma humana.

ERÍNIAS

Na mitologia grega, o remorso é representado pelas Erínias (em grego, orinein, perseguir com furor), ou Fúrias, deusas da violência e do terror, nascidas de gotas de sangue que fecundaram a Terra, caídas de Urano, o Céu, mutilado, castrado por seu filho caçula Cronos, por instância de sua mãe Geia. As Erínias são três: Aleto (a incessante), a mais odiosa, Tisífone (a que julga o crime), a vingadora dos assassinados, e que guarda a entrada do Tártaro, e Megera (a que tem inveja), também sinônimo de pessoa má, de temperamento acre, mãe perversa, sogra. Moram nas sombras infernais, no Érebo. São gênios alados, cujos cabelos se entremeiam de serpentes. Levam nas mãos tochas ou archotes acesos, sempre brandidos por elas para impedir que os culpados durmam. Berram, fustigam os criminosos sem dó nem piedade e são odiosas ao próprio Hades. Protetoras da ordem social, castigam o crime que perturba a sociedade e a família principalmente. Arrependendo-se sinceramente o criminoso, as Erínias excepcionalmente transformam-se em Eumênides ou Benfeitoras, podendo perdoar o crime cometido.


ANANKE

No mundo grego, as Erínias funcionam como agentes da Ananke (constranger, apertar), esta personificada como fatalidade, necessidade mecânica, no que lembra muito o conceito de Karma do Hinduísmo. A lei da causa e do efeito. Ananke governa todas as coisas de um modo providencial. Para os romanos era o Fatum, a inalterável necessidade que aparecia para governar as ações humanas e os eventos do mundo. Atuava tanto física como moralmente. Deuses e homens estavam subordinados ao seu império, aos seus inalteráveis decretos.

As Erínias podem ser aproximadas da védica Saranyu, filha de Tvashtri, o artesão do céu, que forja as tempestades e que fabrica a taça da bebida sagrada (Soma). Sua filha, Saranyu (Nuvem) foi dada pelo pai em casamento a Vivasvat (Lei Ancestral). Ela é a mãe dos gêmeos Ashvins, os Dioscuros védicos. Seus mensageiros são o fogo e o vento. Ela pune aqueles que transgridem os princípios estabelecidos por seu marido.

As ciências do comportamento sempre se ocuparam direta ou indiretamente das divindades acima mencionadas, de modo especial com os sentimentos negativos que elas provocam. Invadindo o mundo religioso, o mundo moral e o próprio Direito, elas sempre impuseram também sua presença no mundo artístico.

Na História do Ocidente, na segunda metade da séc. XII, a sociedade, até então voltada para as guerras de conquista ou defesa, se modifica. Sob a influência da Igreja, sentimentos de generosidade e polidez suavizam os costumes. Surge uma vida mundana, com hábitos mais refinados, que passam a fazer parte de um código de comportamento. Assim, os cavaleiros, que por regras previamente estabelecidas deveriam ser féis a Deus, à sua pátria, ao seu soberano, estariam agora a serviço do amor, entendido como submissão completa à sua dama. Este amor era fonte de toda virtude e só existiria entre pessoas dignas, que não ferissem a honra feudal, familiar, nacional, social e que tivessem, assim, o respeito pelo próximo no mesmo nível de sua bravura. A literatura nos dá testemunho de todo este universo, através de suas canções de gesta ou principalmente de suas canções de amor.

Dentre as diversas lendas da Idade Média, uma das mais belas, sem dúvida alguma, e que serve de ilustração para o tema do remorso, é Tristão e Isolda. Esta antiga lenda foi escrita no século XII por dois importantes trovadores. Um deles é Béroul (trovador que viveu na corte de Alienor da Aquitânia), que evoca com realismo a dolorosa paixão dos dois amantes. O outro é Thomas, poeta anglo-normando também do séc. XII, cuja versão dá mais relevo ao ambiente "cortês" do que à história. Faz esta história parte do chamado ciclo bretão e descreve o amor-paixão em luta contra a sociedade, um amor que nem a própria morte poderia dissolver.

Segundo Béroul, Tristão recebeu a incumbência de levar a bela Isolda para se casar com o rei Marco, seu tio. A caminho, o navio que os conduz joga muito. Isolda e Tristão enjoam e decidem tomar o conteúdo de um frasco que lhes fora dado pela ama de Isolda, ignorando tratar-se de um filtro de amor. Ficam, desta forma, perdidamente apaixonados. No início, tentam resistir. A atração, porém, é mais forte. Tornam-se amantes, passam por várias peripécias, e o remorso, provocado pelo fato de haverem traído o rei, os persegue sempre, mesmo depois que Marco os perdoa. Têm morte trágica e são enterrados em túmulos vizinhos. Algum tempo depois, um tipo de amoreira brota do túmulo de Tristão e penetra no de Isolda, de onde sai ainda mais viçoso. Cada vez que é podado, renasce, dando-nos o exemplo do amor mais forte que a morte. Vários autores, de épocas e estilos diferentes, se inspiraram nesta lenda, criando algumas obras magníficas. Entre 1854 e 1857, Richard Wagner compôs um drama lírico, obra-prima universal, muito marcada pela filosofia do século XIX.

Uma das personagens mais ligadas ao tema do remoroso é Fedra, filha do rei Minos, de Creta, e da rainha Pasífae, e irmã de Ariadne. O grande herói Teseu com a ajuda da apaixonada Ariadne havia morto o Minotauro. Parte em direção de Atenas, levando-a consigo. Abandona-a, contudo, na praia de Naxos, onde ela encontrará a morte. Mais tarde, Teseu se unirá à sua irmã Fedra. O castigo logo vem: Fedra apaixona-se por Hipólito, filho de Teseu. Quando este vai ao Hades conquistar Perséfone, Fedra considera-o morto, pois não há volta do inferno. Dirige-se então a Hipólito para anunciar a morte de seu pai e, não mais podendo se conter, declara-se ao jovem, que não corresponde a este amor. Para se vingar do amor não correspondido, Fedra o acusa, junto ao pai que conseguira voltar do Hades, de tentar seduzi-la. Teseu, indignado, pede a Poseidon, seu pai divino, um castigo que o mate. Hipólito é então arrastado por seus cavalos e morre. Quando Fedra toma conhecimento de sua morte, arrependida, confessa a calúnia a seu marido e, cheia de remorsos, se enforca. São de Racine estas falas: "Eu quis diante de vós expondo meus remorsos,/ Por um caminho mais lento descer para a casa dos mortos". Teseu também é torturado: "Não posso tirar da memória ação tão negra!" "A que mortais remorsos minha vida está reservada!" Este episódio da mitologia inspirou algumas tragédias, como Hipólito, de Eurípides, século V aC; Fedra, de Racine, séc. XVII - a mais famosa; Hipólito e Aricie ,de Jean-Pierre Rameau, grande músico do séc. XVIII .
Quem nos fala também de remorso é Marie-Madeleine Pioche de la Vergne, Mme. de La Fayette, pouco conhecida, mas importantíssima escritora do séc. XVII, autora de um romance precioso e histórico,Princesa de Clèves, considerado obra-prima da literatura. Marca a origem dos romances de análise psicológica e tem o mérito de conciliar a sutileza romanesca do espírito da época e a verdade sóbria e eterna do classicismo. A personagem principal, a princesa de Clèves, "perfeição da natureza",severamente educada por sua mãe, casa-se com o príncipe de Clèves, a quem admira mas não ama. Pouco a pouco, é possuída por um amor violento pelo duque de Nemours, outra "maravilha da natureza", que também a ama. O príncipe de Clèves percebe a situação e, ciumentíssimo, a acusa de ser responsável por uma doença que o acometera e da qual virá a morrer. A morte do marido a mergulha em profundo abatimento e dor. Sentindo-se responsável, tomada de remorsos, nossa princesa se recusa a casar com o apaixonado Nemours, e atacada pelas Erínias, renuncia completamente a tudo, morrendo para o mundo. Este romance foi levado ao cinema. Suas versões mais famosas são A princesa de Clèves, de 1960, dirigido por Jean Delannoy, com Marina Vlady e Jean Marais, e A carta, de 1999, do diretor português Manoel de Oliveira, com Chiara Mastroianni no papel principal.



A CARTA - CHIARA MASTROIANNI

Da vasta galeria de tipos arquetipais trabalhados por Shakespeare, Otelo, o mouro de Veneza, conhecido como o maior exemplo do ciumento, também sucumbe ao peso dos remorsos. Convencido, por um falso e invejoso amigo, Iago, de uma suposta traição de sua bela e apaixonada esposa Desdêmona, estrangula-a. Compreendendo depois toda a trama, roído pelo remorso, apunhala-se desesperado. Esta peça, do início do séc. XVII, inspirou óperas a Rossini (1816) e a Verdi (1887), além de uma abertura sinfônica a Antonin Dvorak (1841 - 1904) e um quadro a Delacroix (1798 - 1863). Foi adaptada em versos franceses por Alfred de Vigny, em 1829. Em 1952, foi levada ao cinema por Orson Welles, que além de dirigi-la, interpretou Otelo. Em 1947 foi a vez de George Cukor dirigir outra versão, com Shelley Winters e Edmond O'Brien. Inspirou também balés e outras obras.

Na literatura do século XIX, encontramos um famoso romance escrito por Stendhal (Henry Beyle), em 1830, O Vermelho e o Negro. Seu principal personagem, Julien Sorel, também é roído pelo remorso. Filho de simples camponês, de temperamento apaixonado, revoltado contra seu status, compreende que na sociedade do período da Restauração só poderia afirmar sua dignidade pela hipocrisia e pelo cálculo. Recebe, desde cedo, educação superior à da média dos de sua classe e pretende tornar-se religioso, para conseguir uma melhor condição social. Trabalha como preceptor dos filhos da doce Mme. de Rênal, de quem se torna amante, mas deve deixá-la. Vai para um seminário, do qual sai para ser secretário do Sr. de La Mole, cuja filha se apaixona por ele. Decidem se casar, mas o nobre exige referências. Recorrem à Mme. de Rênal, que escreve uma carta desabonadora.

O VERMELHO E O NEGRO - DANIELLE DARIEUX E GÉRARD PHILIPE

Decepcionado e desesperado por perder a oportunidade de ascensão social pelo casamento, Julien compra pistolas, vai ao encontro de sua ex-amante, dispara dois tiros que a atingem superficialmente. É preso, julgado e condenado à morte. Mme. de Rênal e Mathilde de La Mole o perdoam e se dedicam inteiramente a lhe fazer companhia pelo resto de seus dias. Perto do fim, Julien descobre o grande amor que sempre sentira por Mme. de Rênal e se questiona sobre o egoísmo que guiara suas ações em busca de sucesso. "Sou então um egoísta? Ele se condenava, humilhando-se. A ambição havia morrido em seu coração, uma outra paixão saíra de suas cinzas; ele a chamava remorso". Há algumas versões cinematográficas deste romance. A mais importante é a dirigida por Claude Autant-Lara, 1954, com Gérard Philipe e Danielle Darieux nos principais papéis. Já, em 1948, Gennaro Righelli dirigira um filme baseado nesta obra, com Rossano Brazzi interpretando Julien.

Gustave Flaubert, em 1857, escreve um romance, Madame Bovary. Emma Bovary, jovem cheia de aspirações romanescas, sempre insatisfeita, conhece o tédio ao lado do marido, um bom e atencioso médico do interior. Busca se evadir desta situação insatisfatória mergulhando num duplo adultério e gastando todos os bens para tentar se igualar, pelas roupas e decoração da casa, aos da alta sociedade. Quando a situação chega a um limite máximo, com a falência da família e a penhora dos bens para pagamento das dívidas, Mme. Bovary toma arsênico, cheia de arrependimento e remorso, palavras que se apresentam quase sempre unidas, e morre. Esta obra tem servido de inspiração a vários cineastas. Em 1937 e em 1969 houve versões alemães. Em 1949, uma produção americana, com Vincent Minelli na direção, tendo como atores principais Jennifer Jones, James Mason, Van Heflin e Louis Jourdan. Em 1991 foi a vez de Claude Chabrol, com a grande Isabelle Hupert no papel principal.

Um dos romances que melhor nos fala de remorso é O morro dos ventos uivantes (1847),de Emily Brönte (1818 - 1848). Conta a história de amor entre Heathcliff e sua irmã de criação, Catherine. Heathcliff, um órfão humilhado pelo irmão de Catherine, decide vingar-se; parte em busca de fortuna, volta rico e arrogante, sem, contudo, conseguir destruir o amor que sentia por sua irmã de criação, que também continuava a amá-lo, embora já tendo se casado com outro. Ela adoece e morre. Heathcliff passa a viver atormentado pelos remorsos, num clima de temporal que justifica o título da obra e lhe confere intensa poesia. Foi o romance levado ao cinema em 1939 e em 1970, na Inglaterra. Em 1992, nos EUA, William Wyler dirigiu a versão mais famosa, com Laurence Olivier, Merle Oberon e David Niven. Algumas adaptações foram feitas para o teatro..

Obras-primas não nos faltam para exemplificar o remorso, ligado, conforme o caso, à responsabilidade, à preocupação para com o próximo, ao social, ao arrependimento, à culpa, à vergonha. As Erínias, interiorizadas, sempre representaram para os gregos a consciência que se sentia culpada e, como tal, lembravam sobretudo doença e autodestruição.

Os tempos mudaram e com eles os sentimentos. Será que ainda sentimos tanto o remorso como os exemplos acima citados? Nem sempre o remorso leva à morte, causa doenças, infelicita a vida de quem o experimenta. Para que o remorso surja é necessário levar em conta o outro, o mal que lhe foi feito e sentir a responsabilidade do ato. Egoísmo, indiferença, desdém, excessos individualistas são fatores que nos impedem de pensar no próximo, no mundo que nos cerca, e, quem sabe, de sentir remorso.

Um dos melhores exemplos do que acabamos de expor nós o encontramos no famoso Don Juan, personagem mítico do sedutor libertino, que surge em Sevilha e vai servir de inspiração a diversos autores: Tirso de Molina (1625), Villiers e Dorimond (1659/61). As versões de Molière (peça teatral, 1665), a de Mozart (ópera, 1787) e a de Richard Strauss (poema sinfônico, 1888) são as mais famosas e conhecidas. Don Juan mata um ancião, o Comandante, pai de uma jovem que ele havia seduzido; ao desrespeitá-lo, desrespeita a sociedade em geral; e, de conquista em conquista, continua seu caminho. Não pensa de modo algum no mal feito ao próximo, não sente qualquer remorso. Por brincadeira, nosso anti-herói convida a estátua do Comandante para jantar, desafiando assim até mesmo o mundo dos mortos. Quando está jantando, para sua surpresa, batem à porta: é o convidado que, aceitando seu convite, entra na casa e desaba sobre ele. O chão se abre, surgem labaredas infernais, envolvendo nosso herói, que desaparece em meio a gritos de terror. Don Juan nunca saíra de si mesmo, nunca se preocupara com o próximo, sempre incapaz de sentir remorso.

Outro exemplo é Valmont,personagem do pouco conhecido Choderlos de Laclos, escritor do século XVII. Valmont, personagem principal de As Ligações Perigosas(1782) é um insensível egoísta. Este romance foi adaptado para o cinema por Roger Vadim (1960, com Gérard Philipe e Jeanne Moreau), Stephen Frears (1988, com Glen Close, John Malkovich, Michelle Pfeiffer) e Milos Forman (1989, com Annette Bening, Colin Firth, Meg Tilly), e também para o teatro.

Valmont e sua amiga Merteuil trocam cartas, através das quais tecem todas as artimanhas possíveis para envolver mulheres a serem conquistadas, humilhadas e destruídas. A mais importante delas, e que merece portanto maior atenção, é a inocente Mme. de Tourvel. Esta obra retrata com extremo rigor literário e precisão certas perversões de caráter e é notável pela análise da luta entre a consciência de Mme. de Tourvel e sua paixão. Valmont e Merteuil submetem suas inteligências a um verdadeiro código do mal, sem a mais leve sombra de remorso.

Rastignac, Eugène de Rastignac (personagem do livro Le Père Goriot, da série da Comédia Humana, de Honoré de Balzac (1799 - 1850), composta de 95 volumes, panorama geral da realidade social da época entre 1830 e 1850) mostra que o caminho percorrido para a realização pessoal, torna-se cada vez mais individualista a partir das grandes mudanças ocorridas depois da queda de Napoleão. Levado pela tentação de sucesso mundano, sem mais ilusões idealistas, ao termo de uma lenta evolução, este personagem lança um desafio a Paris, ao decidir, haja o que houver, obter sucesso social e político: À nous deux maintenant. É o começo de sua degradação moral e de suas vitórias mundanas, sem quaisquer remorsos...


Em 1942, Albert Camus publicou um pequeno romance que ilustra o malentendido então presente na condição humana - O Estrangeiro , Meursault, seu principal personagem, sente apenas uma "terna indiferença" diante de tudo, até mesmo da morte. Nem depois de ter assassinado, sem razão alguma, um árabe, ele se sente culpado, ou demonstra a menor preocupação ou o menor remorso. Luchino Visconti, em 1967, realizou um filme sobre o livro, com Marcello Mastroianni no papel principal.