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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

ESCORPIÃO (3)



HADES

A reputação de Hades, como deus do inferno, do mundo subterrâneo, tanto entre os imortais como entre os humanos era péssima. Sinistro, taciturno, seus irmãos e pares jamais o viam, não participando ele, por seu lado, das famosas reuniões olímpicas. Ele não visitava ninguém, todos o temiam. Quanto aos mortais, todos evitavam pronunciar seu nome, usando eufemismos, como o nome Plutão, o rico, para se referir a ele. Entretanto, se considerado mais de perto, se levada em conta toda a sua história, Hades era um deus justo. Com ele, nada de favores, de tratamentos especiais. Todos, ricos ou pobres, eram recebidos do mesmo modo no seu reino. Nem justo ou injusto, simplesmente inexorável por que desconhecia sentimentos como piedade ou compaixão. Cumpria a sua função, governando com eficiência a parte que lhe coube quando da divisão do universo entre ele, Poseidon e Zeus.


REINO   DE   HADES ( GRAVURA / ANÔNIMO )
Os mortos, no reino de Hades, não eram senão sombras sem consciência ou sangue, eidola. Moviam-se mecanicamente, tudo era repetitivo, não passavam de fantasmas errantes que perambulavam por planícies de asfódelos, tão tristes e soturnas como eles. Os gregos, desde Homero, davam à alma (psyche), além de eidolon, nomes como skia (sombra), opsis (aparência),  phantasma (fantasma) e onar (sonho), sempre uma forma frágil, volátil, à qual faltava o corpo (soma), razão do seu esplendor. 

CÉRBERO   E   HÉRCULES ( P. P. RUBENS , 1636 )

Cérbero, o cão tricéfalo, além de cuidar para que as almas não escapassem do destino que lhes cabia, impedia que os mortos descessem ao mundo ctônico sem terem passado ritualmente pela morte. Caronte, o barqueiro, por sua vez. só admitia no seu barco,
CARONTE (G. DORÉ, 1832 - 1883)
para o devido cruzamento do rio Aqueronte, as almas que lhe entregassem o devido óbolo. Julgadas no Tribunal da Verdade presidido por Minos, eram elas encaminhadas, conforme o caso, ao Érebo, ao Tártaro ou aos Campos Elíseos. Para este último iam algumas almas de elite, onde ficariam aguardando o retorno à vida sem sofrimento. Mas eram poucos, muitos poucos, aqueles que podiam sonhar com esse território idílico. Mesmo muitos heróis não os atingiram, o que fazia supor que apenas ter coragem não bastava para que alguém escapasse dos castigos do Hades.


HIPNOS   E   THANATOS   CARREGAM   HERÓI   MORTO

Alguns falavam que o Érebo acolhia os mortos privados de sepultura. Era nele, segundo depoimentos, que ficavam os Palácios
MORFEU , 1777  ( J.F.HOUDON )
de Thanatos, de Hipnos e de seu filho Morfeu, os dois primeiros irmãos gêmeos. O Palácio das Eríneas, deusas do remorso, ficava por perto. Um pouco mais ao longe, tínhamos os domínios de Nyx, a grande deusa da Noite, que, segundo Hesíodo, nasceu diretamente do Caos e gerou muitas calamidades que atacavam os humanos. Nas camadas mais profundas do Hades ficava o Tártaro, lugar jamais alcançado pela luz, prisão eterna dos maus, lugar sem saída. Foi nele, um lugar ao mesmo tempo glacial e fervente, que Urano lançou os seus filhos e que Zeus aprisionou os titãs. Nele, com permanência até o final dos tempos, estão criminosos famosos como Sísifo, Tântalo, Ixion, as Danaides e outros,  devorados por seus remorsos e culpas.

HÉCATE  ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1828 )

Tão ou mais poderosa que Perséfone, vivia nesse mundo Hécate, deusa dos encantamentos e da magia, a maior e a mais bela de todas as feiticeiras, uma Deusa Tripla, Grande Mãe, na origem. Para uns filha de Nix e do Tártaro, para outros, descendente dos Titãs; o que se sabe de certo é que quando os olímpicos assumiram o poder ela já pontificava e no reino deles conservou os seus privilégios e até os aumentou, sempre muito respeitada. Apesar das tentativas de “enegrecê-la”, ela, quando adequadamente honrada, continuou favorecendo os humanos, proporcionando-lhes prosperidade material, o dom da eloquência nas assembleias, vitórias nos jogos e nas batalhas, pesca abundante e rebanho numeroso. 


HÉCATE
Hécate (a que fere à distância, de longe, etimologicamente) é uma deusa lunar trívia (as três fases lunares visíveis), honrada nas encruzilhadas, que visitava a cada vinte e oito dias, quando subia à superfície terrestre, acompanhada de animais que simbolizavam a fecundidade. As encruzilhadas, como se sabe, são lugares de mudança, de transformação, de viradas de destino. O poder que a deusa tinha sobre elas era dividido com Hermes, também nelas honrado, na sua forma itifálica. Profundamente misteriosa, tinha Hécate relação direta com a Lua Nova, período em que aparecia nas encruzilhadas. Presidia às aparições de fantasmas e de espectros, assumindo então a função de senhora dos malefícios, dos pesadelos, deusa perigosa, terrível, sempre temida, que destruía aqueles que ficavam “prisioneiros”, imobilizados, sem nada decidir, nas encruzilhadas. Era, como tal, invocada secretamente no curso de todas as operações de magia negra. 


ERÍNIAS
Tinha Hécate como atributos a tocha que iluminava o caminho que levava aos infernos, o punhal sacrificial, o chicote para despertar as consciências sonolentas e a chave que abria as portas de acesso a lugares proibidos ou secretos. Como Ísis e outras Grandes Mães, Hécate possuía poderes que lhe permitiam intervir em todo o universo. As Erínias, grandes divindades dos remorsos e das culpas, nas incursões que faziam em conjunto, a acompanhavam sempre respeitosamente, com grande deferência. Ativa colaboradora do Hades, Hécate sempre se manteve muito à vontade nas suas atividades, mesmo depois de Perséfone ter recebido o título de rainha dos infernos. 

HADES  RAPTA  KÓRE
( 1621/22 , G.L. BERNINI )
Por sua associação com o mundo subterrâneo e com os temas de morte e renascimento, Escorpião sempre foi conhecido como o signo da vida subconsciente. Inicialmente, na mitologia grega, como sabemos, o mundo subterrâneo foi governado apenas por uma divindade masculina, Hades. Quando ele raptou Kóre para transformá-la em Perséfone, restaurava-se com esse ato, quanto ao mundo infernal, a dignidade do princípio feminino, entendendo então os gregos que o vasto, inexplorado e inexplicado mundo da vida subconsciente pertencia, de fato, ao elemento feminino. 

Esse entendimento, aliás, já estava implícito na ação da deusa
PLUTÃO
Hécate, e mesmo quando o patriarcado tomou posse do oráculo de Delfos. Apolo só conseguiu sentenciar oracularmente quando se valeu das sibilas, isto é, quando recorreu ao feminino. O mito do Hades como um todo nos revela que os princípios masculino e feminino devem sempre operar através do equilíbrio e de compensações. É por isso que Plutão, num mapa astrológico, é tão feminino quanto masculino. 

 Na astrologia, assinale-se, Plutão é o grande reformador que destrói para reconstruir melhorando, que questiona tudo, abolindo usos e costumes para reformulá-los mais eficazmente, forçando as reciclagens. É por essa razão que Dioniso tanto é chamado de Faleno como é considerado como o mais feminino dos deuses gregos, lembrando-nos sempre que toda produção terrestre tem como origem mais profunda e última (ou primeira) as profundezas infernais. 

MEMÓRIA
( MAGRITTE , 1898-1967 )
Na Psicologia, como se sabe, pertence ao subconsciente (feminino) aquele conjunto de fatos ou vivências pouco conscientes ou que estão fora do limiar da consciência atual ou aos quais ela não pode ter acesso. Nem tudo que está na esfera do subconsciente, entretanto, é inconsciente; alguma coisa pode subir, dela se pode ter consciência. Diz-se, por isso, que no inconsciente estão abrangidos todos os conteúdos ou processo psíquicos que não são conscientes, isto é, que não estão referidos ao eu de um modo perceptível.

A questão de se apurar em que estado se encontra um conteúdo inconsciente escapa de toda possibilidade de conhecimento direto. Também é impossível se determinar a dimensão desse mundo inconsciente. Só através das constatações existenciais pode ele ser percebido, embora nunca muito claramente. O que se sabe é que conteúdos conscientes podem se tornar inconscientes em razão de uma perda de energia. É o que chamamos de esquecimento. Esses conteúdos, também nos diz a experiência, podem emergir do seu afundamento sob determinadas condições, através de sonhos, hipnose, práticas de livre associação etc.


SONHO  (1956 , SALVADOR  DALÍ)
É possível também que os conteúdos conscientes possam ficar submersos sem grandes perdas de sua energia em virtude de esquecimentos intencionais, como é o caso da repressão de conteúdos penosos (recalques). Em casos de dissociação da personalidade, pela dissolução da unidade da consciência, em virtude de um violento choque nervoso ou de uma profunda e intensa afeição podemos ter também casos de submersão ou de repressão como mencionamos. 

Os conteúdos inconscientes permitem que uma tentativa classificatória possa ser estabelecida. É possível, por isso, falar de um inconsciente pessoal, que compreenda todas as aquisições de uma existência pessoal, tudo aquilo que, em suma, é esquecido, reprimido, sentido, pensado para além do limiar da consciência. Além desses conteúdos pessoais inconscientes podemos admitir que existam outros que não provêm de aquisições pessoais, mas que se originam de ideias inatas e que fazem com que as experiências vividas sejam organizadas através  de determinados padrões de comportamento comuns a toda a humanidade. O inconsciente coletivo é, nesse sentido, uma espécie de reservatório ancestral de experiências, herança racial jamais tornada consciente, mas que se manifesta nos sonhos por imagens arquetípicas em ligação com mitos, lendas etc.

FREUD,1926 (SCHMUTZER)
Freud distingue no psiquismo três instâncias: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente, correspondentes a níveis decrescentes a partir do primeiro. Tanto na Psicologia como na Psicanálise, o consciente (masculino) é o aspecto da psiquê que constitui o lado da vida mental a que se tem acesso instantâneo e que está em maior contacto com a realidade exterior. Esta realidade exterior é simbolicamente a superfície terrestre, o mundo natural, onde o ser humano vive, se locomove e age. Logo abaixo da superfície terrestre (feminino), sempre simbolicamente, começamos a descer, como os mitos explicam, em direção do Hades através de certas aberturas, cavernas, grutas e regiões pantanosas. Os gregos chamaram essa região vestibular do Hades de “O Bosque de Perséfone”, um lugar lúgubre, desolado, onde vivem espectros, fantasmas, e seres que se fixaram num estado entre a vida e a morte, que não morreram ritualmente. 


BOSQUE DE PERSÉFONE
( G. DORÉ , 1832 - 1883 )
Dentre os fantasmas e espectros desse mundo, destacamos Algos (Dor), Geras (Velhice), Ponos (Fadiga), Metanoia (Arrependimento), Ftonos (Inveja), Penia (Pobreza), Hybris (Desmedida) etc. A analogia entre o “Bosque de Perséfone” e a vida pré-consciente parece bastante aceitável, principalmente se lembrarmos, segundo a própria doutrina freudiana, que faz parte dela tudo aquilo que não está presente na consciência, mas que pode ser lembrado sem resistência ou repressão internas. O pré-consciente é uma espécie de antecâmara, está dotado de uma certa memória que provém da vida pulsional. As entidades que o habitam, conforme o caso, embora não presentes na consciência, a invadem muitas vezes, podendo gerar muitos problemas. 

INFERNO  ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1928 )

Não é por acaso que muitos mitólogos consideram as entidades acima mencionadas como divindades alegóricas. A alegoria (do grego, dizer outra coisa além do seu sentido literal) é um processo que nos permite representar pensamentos, ideias ou qualidades sob forma figurada em que cada elemento funciona como disfarce da ideia representada. Nesta linha de raciocínio, o Érebo e o Tártaro constituiriam a vida inconsciente, as camadas mais profundas do Hades. Lembremos que qualquer coisa que escape de nossa consciência, ela não cessa de existir, ela não desaparece. Nós a perdemos de vista somente. Grande parte da nossa vida inconsciente é assim constituída por uma multidão de pensamentos, de impressões, imagens temporariamente obliteradas, não conscientes, mas que continuam a nos influenciar. O Érebo (obscuridade, escurecimento, etimologicamente) é no mito, como sabemos, uma prisão onde as almas ficam aprisionadas por longo tempo, submetidas a sofrimentos indescritíveis. O escurecimento do Érebo tem um caráter involutivo, regressivo, negativo. O interior da terra é escuro, negro, mas é nele que irá se operar a regeneração do mundo diurno, o mundo de cima. Na escuridão temos o desaparecimento de todo o conhecimento distinto, analítico, exprimível, privação de toda evidência 


TÁRTARO  ( J. VAN SWANENBURG , 1571 - 1638 )

A última camada do Hades é o Tártaro, encontrando-se a Terra simetricamente distante dele e do céu. Ele é o abismo mais profundo das entranhas da Terra, lugar de escuridão absoluta, que a luz jamais alcança, símbolo da inconsciência total, prisão dos grandes criminosos, de onde ninguém escapa. Sempre a cercar o Tártaro ideias de impotência, de impossibilidade de mudança, de tortura. As almas nele encerradas não alimentam nenhuma esperança de fuga, de consolação ou socorro. 


SOLUTIO
Alquimicamente, lembremos, o signo de Escorpião tem relação com a solutio, operação típica do elemento água. É neste sentido, da solutio, por exemplo, que Dioniso atua quando leva, através do kykeon, na fase da orgia,  os participantes dos Mistérios de Elêusis à dissolução do seu ego, proporcionando-lhes um verdadeiro banho de imersão orgiástico na vida instintiva. Essa experiência apaga diferenças em nome de uma identificação coletiva dos mystai. Os aspectos fixos e estáticos da personalidade dos participantes são dissolvidos ou reduzidos a estágios primordiais que podem até anteceder a própria vida instintiva. É nestas ocasiões que a solutio dionisíaca poderá ser vivida como aniquilação do ego,  passível de proporcionar o surgimento de uma nova forma. 

A solutio, vivida como  putrefação,  mortificação ou outra operação qualquer do gênero, na linguagem dos alquimistas, equivale à nigredo, ao desaparecimento da forma, uma experiência que lembra sempre a morte. Como o próprio nome indica, a cor da nigredo é o negro, cor do signo de Escorpião. O negro caracteriza, num primeiro momento, as trevas, a tristeza, o nada, a anulação de toda evidência e esperança. Entre os gregos, o negro era a cor do luto, da mágoa, da lástima; no latim, temos o verbo latino lugere, chorar a perda, de onde saiu a palavra luto. Uma operação que os alquimistas associam à solutio e à mortificatio é a putrefactio, a decomposição que destrói os corpos orgânicos mortos; está ela vinculada ao apodrecimento, que, sob o ponto de vista astrológico, é o prelúdio do renascimento, uma imagem escorpiana altamente positiva. Era por essa razão que muitos ritos de iniciação na antiguidade se realizavam à noite; o postulante atravessava uma morte simbólica num lugar escuro para se tornar um homem novo e renascer para a vida espiritual depois dessa travessia.

SERQET
Entre os egípcios, lembremos, o escorpião era consagrado à deusa Serqet, conhecida desde os tempos pré-dinásticos. O ideograma de seu nome lembra um escorpião aquático (nepa, para os latinos) e seus sacerdotes assumiam uma importante função na área médica, em particular quanto à cura de picadas de animais venenosos. Esta deusa era companhia inseparável de Ísis, que a levava em todas as suas peregrinações, devendo-se a ela, talvez, em parte, o poder desta última de transmitir a vida através da morte (renascimento), como nos informam os chamados Mistérios de Ísis.

Acolitada por Nephtis, Neith e Serqet, Ísis aparece também como  guardiã e protetora das vísceras e dos corpos a serem reanimados. Serqet desempenhava um importante papel nas cerimônias de embalsamamento como protetora das entranhas dos mortos. Era ela quem tomava conta do canopo (vaso destinado a conservar as vísceras), encarregada de manter “saudáveis” os intestinos. Aparecia a deusa, por essa razão, como grande protetora do morto e de seu sarcófago. Não é por acaso que no Egito um dos mais antigos hieróglifos é o do escorpião, encontrado no alto de alguns cetros de faraós.  
  
PUTREFACTIO
A putrefactio é a operação que melhor caracteriza o signo de Escorpião na medida em que durante o período em que o Sol o atravessa fica mais claro, mais nítido para nós, o desaparecimento da vida vegetal da face da terra. Chuvas e frio, galhos que se retorcem, que se quebram, folhas que rodopiam ao vento, tudo se espalhando sobre a terra para dar origem ao húmus, o elemento que possibilitará o aparecimento de novas formas de vida mais adiante. As águas perdem a sua fluidez, fixam-se, tornam-se escuras, lamacentas, trazendo, de um lado, imagens de estagnação, silêncio, decomposição, lodo, onde micro-organismos trabalham invisivelmente, e, de outro, invadindo tudo, odores fétidos materializados pelo gás metano, o gás dos pântanos. 

Os pântanos, como o de Lerna (oitavo trabalho de Hércules), carregados de matéria em decomposição, ao estender a sua influência pestilenta, sempre apareceram relacionados com o império do mal, do pecado e da perdição. A cercá-los sempre uma ideia de imobilismo, de uma passividade feminina. Foi por essa razão que o Budismo fez dos pântanos símbolos dos prazeres sensuais, obstáculos para a caminhada pela via óctupla. Lembremos que os pântanos, na Psicanálise, são imagens da vida inconsciente e lugar de germinações invisíveis. Na China, os pântanos são “centros espirituais”, onde o poder do céu se manifesta.
  
Toda operação alquímica, como se sabe, tem aspectos positivos e negativos. A solutio, quando experimentada como putrefacfio, é sempre negativa, dolorosa, um retorno, num primeiro momento, à prima materia dos alquimistas, para, quem sabe, dali se partir para  uma outra forma. Não é por acaso que figuradamente apodrecer pode tomar o sentido de permanecer muito tempo num lugar, inibir mudanças, transformações, apodrecer num emprego, por exemplo, ainda que sempre presentes, de médio para longo prazo, ideias de corrupção, de deterioração, de perversão. A putrefação é, nesse sentido, o triunfo da morte, de Thanatos.

THANATOS
(VON DER MARK, SÉC.XVIII) 
Thanatos é palavra que em grego sugere extinção, dissipação, transformação, escuridão. Insensível, Thanatos, dizia-se (Hesíodo), possuía um coração de ferro e entranhas de bronze. Era uma espécie de gênio da morte que estava sempre presente quando Átropo, a Moira, punha fim à vida de alguém, cortando o fio que o prendia à existência. A palavra Thanatos toma o sentido de ocultação, de algo que vai se desvanecendo, se apagando. Isto se devia ao fato de que o morto se tornava um eidolon, um corpo evanescente, insubstancial, uma energia fraca, bruxuleante, que guardava vagamente a forma física. 



G. DE  CHIRICO ( 1888 - 1978)
Thanatos, ao mesmo tempo que apontava para os gregos o aspecto perecível e impermanente da existência, sugeria também uma ideia de revelação e de regeneração. Era, como tal, a divindade que introduzia os humanos em mundos desconhecidos, enviando sua alma (psyche) ao Hades. Para Homero, psyche, ao se retirar do corpo físico na ocorrência da morte, transformava o agregado de membros e órgãos, o corpo do herói (soma) num cadáver sem movimento que logo iria de putrefazer. 

Para muitos, Thanatos lembrava que a morte podia ser vista também como um rito de passagem, ao abrir as portas para um reino diferente, indicando que a vida e a morte eram complementares. Para os que não o viam apenas desse modo, para os que sempre haviam orientado a sua vida só no sentido material, sua presença era espanto, terror e olhos esbugalhados. Não sendo um fim em si, Thanatos era também neste sentido libertação do sofrimento e das preocupações. 
                         
É no signo de Escorpião que encontramos, além das histórias de Hades, de Thanatos, de Osíris e de Dioniso, as Shiva que, talvez mais do que quaisquer outras divindades, nos fale da morte como de preparação para uma vida nova. Terceira pessoa da trimurti hinduísta, na qual exerce a função destruidora e, como tal, renovadora, é (foi) neste sentido, muito mais reverenciado pelos antigos povos védicos que Brahma (criação) e Vishnu (conservação), as outras duas pessoas da mencionada trimurti. 

SHIVA
Shiva nos diz que tudo que teve um começo, tudo o que entrou na existência e que adquiriu uma forma deve necessariamente ter um fim. Tudo que nasceu deve morrer. Tudo que tomou forma deve se desintegrar. O poder de destruição é a via que conduz à cessação do existir. Este poder universal de destruição pelo qual toda existência termina e do qual toda existência emana é chamado pelos hindus de Shiva. Ele é a tendência à dispersão, ao apodrecimento, à desintegração, à decomposição, à aniquilação. Quando o universo se estende indefinidamente, ele se dissolve gradualmente e cessa de existir enquanto organismo. Nada que existe escapa deste processo. Por

isso, a existência é apenas um estágio num universo que se estende (coagulatio) e se decompõe continuamente (solutio). É por isso, como nos dizem os hindus, que a destruição é tão divina quanto a criação e a manutenção. Ou seja, a destruição é a causa última, origem primeira, invisível, de toda a criação. Ele, Shiva, é para os hindus o estágio supremo do real, pois além dele só podemos falar do não-existente. Por isso, os Upanishads o descrevem como um abismo sem fundo.

Na sua forma destrutiva, Shiva aparece montado num touro branco (Nandi) e carrega nas mãos um tridente (trikala, trishula), símbolo da dissolução universal, um retorno à indiferenciação. Enquanto destruidor de todas as coisas, ele é Kala, o Senhor do Tempo. Lembremos que para os hindus há duas espécies de tempo. Um é corolário do espaço, o que nós percebemos, outro é o chamado Grande Tempo (Maha-Kala), uma eternidade sempre presente, indivisível e sem medida. Shiva é o dono dos dois. Nesse cenário, para os hindus, são os planetas que determinam os ritmos do tempo relativo, as condições do mundo como as percebemos, sendo os agentes das leis cósmicas que regem o destino humano 

SHIVA   E  TOURO  NANDI
Shiva encarna a tendência centrífuga, tem três olhos (Sol, Lua e Fogo). Seu olho central, frontal, é o da percepção transcendente. Quando ele olha através dele tudo é destruído, reduzido a cinzas. Sob sua fronte, ele leva um crescente lunar, como um diadema, para mostrar o seu poder de procriação, que sempre anda junto com o da destruição. O rio Ganges desceu dos céus em direção da Terra através de seus cabelos, sempre molhados por isso. Rios, simbolicamente, indicam o fluir das formas. A descida do Ganges em direção do oceano representa o retorno à indiferenciação; subi-lo, no sentido contrário, é  acesso ao Princípio, à Fonte Original. 


SHAKIT  DE  SHIVA
O lado feminino (Shakti) de Shiva tem como montaria (vahana) o tigre, sendo a pele do animal um de seus símbolos. Os quatro braços do deus representam a dominação universal; nesse sentido ele é dono das quatro direções do espaço e eles indicam também o seu poder sobre os elementos. O tridente, símbolo da solutio universal, é também nas suas mãos um instrumento de punição. A arma predileta de Shiva é, entretanto, o bastão (Pashupata), uma espécie de porrete com ponta de ferro, com o qual ele aniquila os seres do mal (daityas) e com o qual, no fim dos tempos, como ele o faz ciclicamente, destruirá o universo inteiro. Ao assim agir destrutivamente, ele usa, como Kali, uma de suas formas femininas, um colar de cabeças  em torno do pescoço. Além do porrete e do tridente, Shiva usa também o machado, o laço e o arco. Ao se apresentar sempre com uma serpente enrolada no seu corpo, ele nos dá a entender que ela é um emblema da imortalidade, ao representar o conjunto dos ciclos da manifestação universal, o samsara, encadeamento do ser no vir-a-ser, indefinidamente, da morte ao renascimento. 

Shiva nos anuncia também que a serpente é o símbolo do conhecimento perigoso, o da descoberta da sexualidade. Em muitas tradições, por isso, ela aparece como a tentação, portadora de forças perigosas e maléficas. Os hindus fizeram da serpente uma imagem da kundalini, a energia cósmica e sexual, o poder vital ou libido, adormecido no chakra básico (muladhara), entre a região anal e o sexo, devendo ele ser despertado, vitalizado e dirigido na direção do chakra da coroa (sahasrara), passando por centros vitais intermediários, sublimação compreendo sempre muitos tropeços e fracassos. 


ANANTA
Na Índia, há a imagem da grande serpente Ananta, que estendida sobre as águas primordiais, personifica a eternidade, formando ela com Shiva Narayana, a tripla manifestação da energia cósmica, una e imperecível. A  cidade luminosa de Shiva é Kashi (kash, brilhar), chamada de Varanasi, às margens do rio Ganges, onde se encontram os seus mais famosos templos.



VARANASI   OU   BENARES







terça-feira, 4 de julho de 2017

TRONO MANCHADO DE SANGUE


TRONO  MANCHADO  DE  SANGUE
Trono Manchado de Sangue é um filme de 1957, dirigido por Akira Kurosawa (1910-1998), um dos maiores cineastas da história do cinema. Sua carreira se estendeu por cinquenta anos e sua obra influenciou outros cineastas de vários países, principalmente norte-americanos. Financeiramente, a família, isto é, o pai sempre procurou proporcionar uma educação mais refinada para os seus filhos, de modo especial para Akira que, desde cedo, manifestou muito interesse pela cultura ocidental. 

Akira Kurosawa tentou inicialmente a pintura, frequentando centros de arte. O conhecimento adquirido nestes centros o ajudou bastante mais tarde, quando no cinema, e já ensaiando os seus primeiros passos na direção, desenhava os seus filmes como storybords. Outra paixão sua foi a literatura, de onde tirou a inspiração para a maior parte de seus filmes.


AKIRA   KUROSAWA

Foi o irmão mais velho, que trabalhava como benshi (narrador de filmes do cinema mudo) que o iniciou no cinema. Heigo, assim se chamava o irmão, quando o cinema mudo foi substituído pelo sonoro, se decepcionou tanto que, vitimado por profunda depressão, acabou se suicidando. Só em 1936, ao ler num jornal que um estúdio de cinema estava recrutando assistentes de direção, Akira voltou a se interessar pela arte cinematográfico. Entre 1943 e 1965 dirigiu 24 filmes, sendo o primeiro, de muito sucesso, Sugata Sanchiro, a história de um lutador. Seu último filme, Depois da Chuva, foi terminado depois de sua morte.


RAN
No cinema japonês, Kurosawa foi o introdutor do gênero chambara (samurai), no qual sempre procurou destacar temas como honra, lealdade ao clã e fidelidade à palavra dada. Em 1971, Kurosawa passou por um período difícil, vitimado por profunda depressão, chegando a tentar o suicídio algumas vezes. Ajudaram-no a superar essa difícil fase, inclusive obtendo financiamentos para ele, alguns jovens diretores norte-americanos, entusiastas de sua obra, como George Lucas e Francis Ford Coppola. Em 1985, Kurosawa recebeu homenagens em Cannes por seu filme Ran, que considerava o filme de sua vida, baseado em William Shakespeare (Rei Lear).

RYONUSUKE   AKUTAGAWA 
O reconhecimento internacional do cinema de Kurosawa se deu em 1950 quando, a pedido de um estúdio, se decidiu filmar uma história (Dentro de Um Bosque) do escritor Ryunosuke Akutagawa, que narrava o assassinato de um samurai e o estupro de sua esposa. O filme tomou o título de Rashomon, com o grande ator Toshiro Mifune, no papel principal, um dos mais importantes filmes da cinematografia mundial em todos os tempos, tendo recebido Leão de Ouro no Festival de Veneza em 1951. 

Depois de ter realizado filmes excepcionais, O Idiota (baseado em Dostoievski) e Os Sete Samurais, este obra-prima absoluta, além de outros, que abriram inclusive o mercado internacional para filmes  japoneses de grandes diretores, Kurosawa se lançou à realização de Trono Manchado de Sangue, cujo argumento foi retirado de uma tragédia shakespeareana, Macbeth. Kurosawa deu ao filme um tratamento bem “oriental”, fazendo os atores, de modo especial a atriz Isuzu Yamada, seguirem as técnicas de representação do teatro Noh.


OS  SETE   SAMURAIS


A   BRUXA
A história é transposta para o séc. XVI, no período Sengoku, quando as guerras civis assolavam o país. Dois valentes guerreiros, Taketori e Miki, regressam aos seus domínios depois de uma vitoriosa batalha. No caminho, uma misteriosa mulher, uma bruxa, fala sobre o futuro de um deles, que se converterá em senhor do Castelo do Norte (O Castelo da Teia de Aranha é o título do filme em japonês). A partir dessa revelação, Taketori, auxiliado por sua mulher, Asaji, se envolve numa trágica e sangrenta luta pelo poder.

Na filmografia de Kurosawa, destacamos: Anjo Embriagado, Rashomon (As Portas do Inferno), O Idiota, Viver, Os Sete Samurais, Ralé, O Caminho da Vida (Dodeskaden), A Sombra de Um samurai (Kagemusha), Dersu Uzala, Ran, Sonhos, Madadayo e outros.

Macbeth é um das mais importantes peças de William Shakespeare, escrita entre 1603 e 1606. É uma história sobre as paixões humanas, sobre a cobiça, o poder e a inveja. Por ela tomamos conhecimento de um regicídio: um comandante militar, Macbeth, instigado por sua mulher, mata o rei e assume o seu lugar. Os criminosos, porém, torturados pela culpa e pelo remorso, não conseguem se beneficiar de sua conquista. A ação se passa na Escócia, por volta do de 1040.

SHAKESPEARE
A história de Macbeth, personagem da história escocesa, não corresponde bem àquela que temos na peça. Shakespeare, em grande parte, a adaptou ao gosto real da época, o do rei James I. Macbeth, ao voltar de uma batalha, com seu amigo Banquo, encontrou três bruxas que o informaram de que receberia a tutela de um território e o título a ela correspondente. Disseram-lhe mais as bruxas que ele acabaria assumindo o trono real, mas que dele não se beneficiaria. Tudo aconteceu como o profetizado pelas bruxas.

Personagem particularmente importante da peça de Shakespeare é Lady Macbeth, tida erroneamente por muitos críticos como secundária. Ela é, a rigor, por sua influência sobre o marido, um fator decisivo sobre o desenvolvimento da ação dramática. A história de Macbeth, numa leitura psicanalítica, freudiana, a melhor para entendê-la, nos relata uma das mais profundas verdades do psiquismo humano, ou seja, o desvelamento das causas psicológicas pelas quais uma pessoa, depois de ter obtido êxito, realizando o sonho de uma vida inteira, se perde, fracassa, pondo tudo a perder. 

FREUD
A história, pelo ótica freudiana, nos revela que muitas vezes, quando chegamos ao topo, no momento em que obtemos o desejado, começamos a perdê-lo por razões inexplicáveis. É o caso de Macbeth, de Lady Macbeth especialmente. Num estudo clássico, de leitura absolutamente indispensável, chamado Os Arruinados pelo Êxito, Freud nos revela que criamos graves problemas para nós mesmos quando se trata de usufruir plenamente a satisfação de nossos desejos realizados, mesmo no caso dos que são moral e eticamente aceitáveis. A realização de qualquer desejo traz sempre muita ansiedade, angústia, pois, ao buscá-lo, temos que nos dividir, trabalhamos sempre com a nossa incompletude, pois nos constituímos sempre através do desejo e da falta. A maior parte das pessoas não suporta isto. 


LADY   MACBETH   ( ISUZU YAMADA )

Naqueles que fracassam, quando obtêm “as coisas tão desejadas”, diz Freud, principalmente quando se lida com questões de ambição e de sucesso na vida, fazemos uma espécie de pacto com o demônio, isto é, com o nosso inconsciente, trazendo o inferno para dentro de nós. Não toleramos a nossa “felicidade”. Daí, em nosso dia-a-dia frases como “não tenho tempo”, “isso não é para mim”. Usamos dispositivos sabotadores que inconscientemente entram em nossas vidas para impedir o nosso “sucesso”, a nossa “felicidade”: falta de tempo, descontrole financeiro, falta de foco, múltiplos e dispersivos interesses, falta de atenção, os casos que criamos inexplicavelmente quando “tudo ia tão bem”, a nossa impaciência. 

Salve, Lady Macbeth!    

sábado, 17 de junho de 2017

LEÃO (2)

                              
SIBILA  ( LEONARDO  DA  VINCI - 1452 - 1519 )

Apolo substituiu, como se disse, a mântica por incubação pela profética, de inspiração direta. Nesta condição, a sacerdotisa, chamada de sibila ou pitonisa, tomada por uma espécie de furor, um delírio sagrado, era possuída pelo deus, entrando num estado de loucura. Platão dava a este estado o nome de mania. As sacerdotisas, divinamente inspiradas, tornavam-se entheos, possuídas pelo deus. Era um estado não-racional a que se dava também o nome de enthousiasmos.
  
 DELFOS , GRÉCIA
Python era o antigo nome de Delfos, situada na montanha, no maciço do Parnaso, nome também do dragão que guardava o lugar. Historicamente foi, ao que aparece, ao fim do período miceniano da história grega que o deus Apolo venceu as antigas divindades femininas, Geia e
AGONES
Têmis, donas do oráculo. Registros míticos nos informam que por este “crime” Zeus fez seu filho Apolo viver no exílio por oito anos. Para celebrar a vitória apolínea, os gregos celebravam anualmente cerimônias, jogos, os chamados agones, a que davam o nome de Píticos.


Dos agones,  jogos públicos, no mundo mítico, faziam parte concursos musicais, hípicos e esportivos. Tinham um caráter espetacular e eram muito apreciados, conforma nos conta Homero, na Odisseia, como aqueles organizados pelos feácios. No período histórico, os agones tinham sobretudo um caráter fúnebre ou religioso. Uns eram realizados em algumas cidades apenas. Outros, porém, congregavam várias das principais cidades, tomando, neste caso, o nome de pan-helênicos. Nesta categoria se inscreviam os jogos Píticos, os grandes concursos de Delfos, os mais importantes depois dos jogos Olímpicos. 


JOGOS   PÍTICOS  -  CERÂMICA


AULODIA
Instituídos por Apolo, conforme narram os mitos, para comemorar a vitória sobre o dragão, a cada quatro anos, acabaram por incorporar provas musicais e físicas (ginástica, pedestrianismo e pancrácio, isto é,  luta-livre e pugilato), terminando por uma corrida de carros. A parte musical era muito importante. Dela faziam parte a composição de um hino a Apolo, provas de aulética (solo de flauta), de aulodia (canto acompanhado de flauta) e de cítara. Nesta mesma parte, tínhamos concursos poéticos e dramáticos, inclusive de pintura. Tudo realizado muito solenemente, sendo coroados os seus vencedores com coroas de louro, árvore-símbolo do deus.   


JOGOS   OLÍMPICOS   

Sob a tutela de Apolo, a sibila (sibilar é falar sibilando, isto é, emitir sons agudos, contínuos, silvos, como as cobras e serpentes; acentuar as consoantes sibilantes ao falar), sentava-se sobre o banco forrado com a pele do dragão, o pequeno trono profético, a trípode, na condição de entheos. Com as pernas abertas, recolhendo as emanações que vinham das profundezas, que deslizavam e acariciavam os seus órgãos genitais, tomada pelo delírio divino, desatava os seus cabelos, e de sua boca brotavam palavras enigmáticas que depois eram interpretadas pelo colégio sacerdotal do santuário. Apolo substituiu a mântica ctônica, a incubatio de Geia e de Têmis, pela mântica por inspiração.


MÂNTICA

RAMOS   DE   LOUREIRO
A primeira, incubatio, tinha relação com a palavra delphys, útero em grego, lembrando via subconsciente. A mântica apolínea equivalia a uma penetração, que gerava, como em Dioniso, o êxtase e o entusiasmo. A pítia era escolhida entre as virgens locais e ficava servindo no santuário até poder assumir a condição de pitonisa, o que ocorria quando chegava aos
CAMPO   DE   CEVADA
50 anos de idade. A sessão profética começava quando a pitonisa ingeria a água da fonte Cassotis, que dava o dom da profecia; a seguir, ela se dirigia para a cripta do templo do deus, invadido pelos vapores, perfumados pela combustão de ramos e folhas de loureiro e de farinha de cevada. Mascando folhas de louro, ela se instalava então sobre o banco, conforme acima descrito. 

PLATÃO ( DA  VINCI ,  452 - 1519 )
Lembremos que o deus, símbolo de um mundo masculino, aristocrático, usava o elemento feminino, mediúnico, a pitonisa, para poder se expressar. Em virtude dos problemas interpretativos que as sentenças oraculares ocasionavam, Apolo foi chamado, na condição de deus da mântica profética, de Loxias, um epíteto que quer dizer obscuro ou melhor, oblíquo. Lembremos que ao longo dos séculos muitas investigações foram feitas em Delfos para se tentar analisar se o pneuma délfico existiu realmente. A conclusão foi a de que havia na região de Delfos um khasma gês, uma brecha no solo que se comunicava com profundezas subterrâneas insondáveis. O pneuma, as emanações, era uma manifestação da invisível presença do deus. Estas exalações, segundo depoimentos da época, quando envolvia o corpo da Pitonisa, infundiam nas suas almas um temperamento insólito e estranho, uma dilatação e uma expansão que podia levá-las a captar impressões do futuro. Lembre-se, como foi dito, que Platão (Timeo) apresentava a faculdade divinatória como um modo de percepção do futuro que afasta qualquer tipo de raciocínio. 

Desde tempo pré-helênicos, o santuário de Delfos recebeu visitantes não só do mundo grego como de inúmeros países mediterrâneos e asiáticos, da Espanha à Ásia Menor. Enriquecido pelas oferendas, pelas doações e sobretudo pelas elevadas taxas cobradas quando das consultas, além das guerras e dos tremores de terra que o alcançaram, o santuário de Delfos foi pilhado por imperadores romanos como Sylla e Nero. Ainda ao tempo do imperador Adriano (séc.II dC), o oráculo estava em pleno funcionamento. Quando o último imperador pagão, Juliano, o Apóstata (331-363) mandou interrogar a Pítia ela proferiu o último oráculo do santuário, uma sentença que, àquela altura, para o mundo romano tinha um sentido de epitáfio: Ide dizer ao rei que o belo edifício jaz por terra, Apolo não tem mais o seu tugúrio nem o seu loureiro profético, a fonte secou e a água que falava se calou.

APOLO  E  DAPHNE
( G.L. BERNINI , 1598 - 1680 )
O loureiro é consagrado a Apolo. Perseguida pelo deus, que contra ela investia sexualmente, uma ninfa foi transformada pelos deuses nesse vegetal, recebendo o nome de Daphne. Arrependido do seu ato, Apolo lhe concedeu a imortalidade e o usou, como vegetal, para simbolizar a vitória, tanto pelas armas como pelo espírito. No mito, é considerada também uma planta que lembra expiação. Um loureiro nasceu no lugar em que Orestes matou seu pai, Agamemnon, do mesmo modo que Apolo o havia escolhido para expiações depois da morte do dragão que guardava o oráculo de Delfos. A pítia e os sacerdotes de Apolo usavam coroas de louro não só porque elas tinham um perfume muito agradável mas também porque elas lhes permitiam se comunicar com os “espíritos da profecia”, com a luz e com o entusiasmo poético. 


AS   MUSAS  ( BALDASSARI  PERUZZI , 1481 - 1536 )

As Musas faziam parte do cortejo de Apolo como deusas das artes, da música e da poesia. Fazia parte do mundo délfico um grupo de adivinhos chamados Daphnefagos, que ornavam a sua fronte  com ramos da planta e que comiam as suas folhas. Eles praticavam a daphnomancia, a adivinhação pelo loureiro: jogavam-se ramos ou folhas do loureiro no fogo e se eles estalassem o sinal era de bom agouro. A ausência de ruídos significava sempre maus presságios. O loureiro era um equivalente da oliveira enquanto símbolo da vitória e da paz. 

Como emblema da vitória, o louro passou a ser usado por várias tradições, servindo para coroar heróis, poetas e artistas. O costume se estendeu à Idade Média, usando-se o louro para coroar inclusive
ASCLÉPIO
os sábios e os novos diplomados pelas universidades, originando-se dessa prática a outorga do grau de bacharel aos que se formavam. O bacharelado era o nome do grau recebido, vindo a palavra do latim, bacca laurea (baga, fruto do loureiro). O loureiro era muito usado na medicina grega não só como purificador, mas como protetor de maus espíritos e de doenças. No centro médico de Epidauro era um símbolo do deus Asclépio, filho de Apolo.  

CIRCE  ( WATERHOUSE , 1891 )
Quanto à cevada, também usada, símbolo da riqueza e da abundância, lembremos que este vegetal, no mito, entrou na composição do filtro mágico usado pela maga Circe para transformar os marinheiros de Ulisses em porcos. A farinha de cevada era usada em fumigações, tendo a mesma função que o incenso como um instrumento de comunicação com o divino. A adivinhação com a cevada, praticada em Delfos, tinha o nome de alphitomancia Foi inclusive muito empregada na Idade Média para se descobrir o que um homem “tinha no coração” ou reconhecer entre muitos suspeitos o culpado. Em alguns ritos de natureza xamanística praticados em Delfos a cevada era muito usada, para curas, dores corporais etc.

A princípio, como divindade do mundo patriarcal, Apolo apresenta características  solares muito impregnadas de instintividade, de violência, de vingança, de belicosidade, como o atesta o seu primeiro apelido, o Licogenes, o nascido da loba. Matador de dragões, subjugador do mundo matriarcal, sua crônica inicial é cheia de agressividade e de orgulho. Aos poucos, contudo, Apolo vai se tornando uma personalidade cada vez mais complexa, reunindo várias tendências contraditórias, para se tornar, com o tempo, um ideal de sabedoria, de harmonia, a própria encarnação do esplendor grego. Nessa forma idealizada superior, como deus da aristocracia ateniense, Apolo representa a busca de uma ascese, que coloque as pulsões eróticas do ser humano a serviço do eu racional, tudo orientado no sentido de uma espiritualização progressiva. 


APOLO   E   AS   NINFAS  ( FRANÇOIS GIRARDON , 1675 )

Todavia, nem sempre Apolo assumiu esse papel no mundo grego. Operado politicamente pela aristocracia, foi utilizado como um patrono do colonialismo grego, inspirador de aventuras militares e econômicas que acabaram por levar a polis grega à derrocada. Além do mais, os valores apolíneos acabaram por se banalizar através de formas pomposas, solenes e vazias. Ao invés de uma divindade que encarnasse o poder soberano, a força nobre, o calor, o poder irradiante da luz, Apolo, nos momentos de decadência do mundo grego, não era mais que uma figura aloirada, de cabelos encaracolados, apenas esplêndida fisicamente, que servia de modelo de uma beleza masculina, ou melhor, de uma masculinidade algo efeminada, não muito convincente, devido às ameaças inconscientes narcísicas e homossexuais e à sua forte atração pelos espelhos. É desta imagem que sai o adjetivo apolíneo (e o nome próprio Apolinário), aplicado a jovens belíssimos, mas
NIETZSCHE
vazios de mente e espírito. Nietzsche usará o adjetivo para designar estados interiores em que há contemplação da beleza e da harmonia, geradores tais estados de sentimentos oníricos e de fantasias que podem afastar todo o sofrimento humano. Ou seja, a contemplação do belo, apenas sob o ponto de vista físico, que levava a um êxtase que transfigurava o ser humano, aproximando-o do divino. Um sentimento diferente, oposto até, um sentimento muitas vezes de horror e sofrimento que a presença de Dioniso causava como um agente da destruição de formas.

CULTO  A  DIONISO ( MOSAICO )
Na cultura do período helenístico, o apolíneo, sob a influência dos filósofos do estoicismo, provavelmente, será considerado na escultura como uma imagem da serenidade, do controle das paixões. É neste sentido que os cultos apolíneos e dionisíacos se confrontarão, temas que a catequese cristã usará para a sua maior penetração, considerando ambos, Apolo e Dioniso, como figuras do sofrimento.

Uma inevitável aproximação que temos de fazer ao signo de Leão é a do mito de Narciso. Este nome, como a etimologia indica, vem de narke, entorpecimento, embriaguez, uma origem que encontra explicações no fato de a flor produzir um efeito calmante. A história de Narciso tem várias versões. A mais aceita nos fala de um jovem, ainda sem nome, filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope. O simbolismo dos rios, como sabemos, está sempre ligado a uma ideia de fluência, de mudança de formas, de transformações constantes, através das quais se aponta para a renovação e, ao final, para uma ideia de retorno à indiferenciação, representada pela imensidão oceânica. Na mitologia grega, os rios eram filhos do deus Oceano e objeto de grande culto, a eles se oferecendo sacrifícios que simbolizam a fertilidade, como cavalos e touros. Fecundantes, podiam, no entanto, os rios, de benéficos, fertilizantes, em destrutivos, ao inundar e matar.


NARCISO  ( CARAVAGGIO , 1571 - 1610 )
A criança que nasceu da relação entre a ninfa e o deus-rio, relação não desejada por aquela, era belíssima, uma beleza jamais vista. Por isso, um excesso, uma hybris, uma desproporção que atemorizava e assustava, já que, se não bem controlada tal beleza chamaria inevitavelmente a ação divina. O menino cresceu chamando a atenção de todos, sendo visto, amado, mas jamais amando. A ninfa Eco, que havia sido privada por Hera da linguagem e do pensamento, caiu de amores pelo jovem, mas impotente para chamar a sua atenção. Foi por isso que, em meio a muito sofrimento, acabou, encostada a um rochedo, por se fundir com ele, transformando-se numa voz desencarnada que não podia senão repetir os últimos sons ou palavras que dos outros lhes chegassem. 

NARCISO  E  ECO
A insensibilidade do jovem provocou a ira de outras ninfas que pediram a intervenção de Nêmesis, a divindade que repunha limites, que combatia os excessos, que curvava os orgulhosos. A deusa condenou o jovem a amar um amor impossível. Um dia, à beira de um lago, ele percebeu a sua imagem nele refletida. Era a primeira vez que isto acontecia. Deslumbrou-se. Nunca se havia visto assim, tão belo. Imediatamente, perdeu-se de incontida paixão pela sua imagem refletida na superfície das águas. Ficou ali por um dia, dois, muitos o viram assim, ali sentado. No terceiro dia, não mais o vendo, alguns se atreveram a se aproximar do lago. Ninguém, as margens estavam vazias, o jovem desaparecera. Procuraram-no. Chegaram mais próximos do lugar onde ele estivera sentado. No lugar, apenas, simplesmente, uma flor, a que deram, desde então o nome de narciso. O jovem havia descido à profundeza das águas do lago. 


ECO   E   NARCISO  ( J.W. WATERHOUSE , 1849 - 1017 )

De início, lembremos que esta mesma ideia de perdição pelo perfume de determinadas flores aparece no mito que descreve o rapto de Kore por Hades. Foi atraída por um campo de narcisos,
NARCISOS
pelo perfume embriagador das flores, criação de Geia, que a jovem se viu atacada por Hades e raptada, indo para as profundezas do mundo ctônico, para a sua “temporada infernal”. Lembremos também que os narcisos eram flores muito usadas na Grécia para coroar a cabeça dos mortos, usadas também pelas Erínias, Moiras e pelo próprio Hades. O narciso era uma flor fúnebre, símbolo da morte. As crianças, na
RAPTO  DE  KORE ( LUCA  GIORDANO , 1634 - 1705 )
antiguidade grega, quando morriam eram enterradas com muitos narcisos à sua volta. Muitas vezes considerado como maléfico em sonhos, o perfume da flor era sempre um sinal de mau augúrio. Seu perfume era perturbador, produzia dores de cabeça, enxaquecas, sendo considerado soporífero, sopitava, fazia dormir, debilitava, tornava dormente, amodorrado, tirando a força e a intensidade. Era, por isso, o narciso muito usada na confecção de filtros mágicos.


RAPTO  DE  KORE  ( SÉCULO  IV  AC )

Entretanto, na medida em que cresce na primavera e em lugares úmidos, o narciso se liga ao simbolismo das águas e dos ritmos das estações, isto é, da fecundidade, advindo daí a sua ambivalência: sono-morte-renascimento. O narciso, com o qual se fabricam poções e xaropes, tinha, para os antigos gregos, o poder de favorecer a fecundidade das mulheres. Dormir num quarto onde houvesse um narciso “era muito bom” para facilitar a concepção. Na Ásia, o narciso, na linguagem das flores, sempre simbolizou a sociabilidade, a cortesia e a amizade, que podem ser atraídas pelo seu uso,  seco, junto ao corpo, encostado na pele. 

No mito de Narciso temos, pois, a ideia central de um desespero amoroso. Incapaz de se destacar da sua imagem refletida, o jovem se tornou escravo do seu próprio encantamento. A psicanálise se
ESTÁGIO  DO  ESPELHO
apoderou do tema para descrever o estágio de desenvolvimento psíquico no qual uma pessoa se apega a si mesma e em cima desse apego constrói uma imagem idealizada de sua personalidade. Os lacanianos chamam esta fase na vida de alguém de o “estágio do espelho”, sempre um momento decisivo para a construção de uma personalidade. 

Para Freud, o narcisismo representa uma etapa no desenvolvimento subjetivo de uma pessoa como o seu próprio resultado. A evolução de uma criança, de um jovem, o levará não só a descobrir o seu corpo como, também, e sobretudo, a tentar se apropriar dele, a descobrir que ele lhe pertence. Isto significa que as pulsões deste ser, em particular as sexuais, tomam o seu corpo como um objeto amoroso. A partir desse momento, há um investimento permanente do sujeito sobre si mesmo, ocorrendo uma espécie de retro-alimentação. 

Freud chamou inicialmente o narcisismo de auto-erotismo. Desdobrando-se, este fenômeno pode também levar o sujeito a investir em objetos externos, somando-se este investimento àqueles feitos no nível egoico. Aos poucos, é possível o surgimento de uma outra forma de narcisismo, quando o sujeito deixa de voltar a sua libido exclusivamente sobre si mesmo, levando-a a se concentrar
MELANCOLIA
em objetos exteriores, nos quais vai buscar o seu prazer. O equilíbrio dos narcisistas é sempre frágil, vê-se constantemente ameaçado, pois a sua construção se baseia sobretudo na ideia de um eu ideal. Freud chegou a apontar certas “doenças” que podem atacar os narcísicos. Uma delas é a melancolia. Outra, muito em moda hoje, é a depressão, não apontada por Freud, mas muito presente, já que uma das grandes molas propulsoras do narcisismo é a mania, a excitação, quadro que faz parte, astrologicamente, do eixo Leão-Aquário. Freud, contudo, deu o nome de narcisismo primário ao modelo que investia acima de tudo no auto-erotismo. À segunda forma, o narcisismo que se dirige para objetos exteriores, ele deu o nome de secundário.

Para Freud, a melancolia é uma afecção profunda do desejo, uma psiconeurose caracterizada por uma perda subjetiva específica do próprio eu. Já a depressão leva o próprio eu a uma auto-depreciação e a um auto- desinvestimento radicais. Sob o ponto de vista astrológico, a excitação, de natureza aquariana, que sempre atua no sentido de criar um hiper-eu leonino (somando-se as fantasias netunianas), por razões diversas (distúrbios da vontade, falta de capacidade mental, física, pressões externas, centradas especialmente nos eixos Asc-VII e IV-MC), sempre de caráter limitador, não pode ser atendida, O início deste processo começa normalmente por uma modificação mais ou menos profunda do humor, do mau humor, melhor, no sentido da tristeza e do sofrimento, que pode acabar em quadros clínicos lamentáveis.


HÉRCULES
Um dos personagens da mitologia grega que melhor nos permite entender o signo de Leão é, sem dúvida, Hércules, herói solar que encarnou as melhores virtudes e os piores defeitos do gênio grego. O mais célebre herói da mitologia clássica, suas histórias, muito populares, nunca deixaram de evoluir e interessar, desde a época pré-helênica até o mundo romano, de Homero a Virgílio. Matador de monstros, vencedor de gigantes, salvador de deuses e de princesas, viajante empedernido, fundador de cidades, guerreiro invencível, herói civilizador, generoso, vingativo, crápula, capaz de ações sublimes e de baixezas inomináveis, suicida, símbolo da virilidade e, por isso mesmo, vítima de ataques “femininos” (disfarces femininos, travestismo, e aptidão para lidar com teares). Hércules é arquétipo do herói (grego) por excelência. 

Filho das forças celestes (Zeus) e das forças terrestres (Alcmena), Hércules é por isso chamado de semi-divino, a imagem do impulso evolutivo de natureza espiritualizante e das suas dificuldades. Vivendo em permanente estado agônico, contraditório, pressionado pela sua desmedida interior (hybris) e pelas suas paixões, procurou sempre conciliar tudo isto de algum modo com suas relações mundanas; representa, por isso, sob o ponto de vista psicanalítico, o conflito permanente do psiquismo humano com as forças da dispersão e da regressão. 


Desde a antiguidade, a figura de Hércules, além presente nas lendas e contos que circulavam entre as camadas populares de vários povos, despertou sempre grande interesse em escritores, filósofos, sábios, artistas, poetas, religiosos. Em Homero, ele é o aristos andron. Sófocles, em As Traquínias, nos deixa os momentos finais da vida do herói, a história da sua morte causada por sua mulher, Djanira, segundo as traquínias (mulheres solteiras de Trakhys, confidentes dela), “a ave sem companheiro”. É nessa tragédia que temos a descrição do suicídio apoteótico do nosso herói. Os pitagóricos, os órficos e os sofistas se apoderarão da figura de Hércules para ilustrar as suas doutrinas. Os dois primeiros grupos vendo-o como um exemplo daquele que precisa “sofrer para compreender”. Os sofistas, numa história de Pródico (séc. V aC), muito interessante, colocarão Hércules numa situação
EURÍPEDES
hamletiana, um ser dividido entre o bem (arete) e o mal (kakia), segundo um texto que tem por título Hercules in Buio (Hércules na encruzilhada). Eurípedes, com o seu teatro das paixões e fazendo inversões cronológicas na vida do herói, usou-o  como tema de sua tragédia Herakles Mainomenos (Hércules furioso). Tendo descido ao Hades (décimo trabalho: captura de Cérbero, o cão infernal), Hércules voltou para encontrar a sua família ameaçada de morte por Lykos, tirano de Tebas. Matou Lykos, mas possuído por Lyssa, a deusa da Raiva, exterminou a mulher e os filhos. Será salvo do desespero por Teseu. Seu sanguinário delírio assassino foi o preço que ele teve de pagar por ter ousado enfrentar as potências infernais. Movido por intensos sentimentos nacionalistas durante os primeiros anos da guerra entre Atenas e Esparta, Eurípedes escreveu Heraclidas, ou Os Filhos de Hércules. Visitou um terreno temático que não era seu. A tragédia, tanto pelas omissões do texto, que nos chegou algo estropiado, como pela falta de propósito artístico é uma das mais fracas do cânone do famoso autor trágico.

HIPÓCRATES  E  GALENO
Hércules sempre se apresentou como um herói paradoxal. De um lado, um campeão do bem, generoso, piedoso, de outro, um ser sempre ameaçado pela loucura, aético muitas vezes, com taras e miasmas inexplicáveis, pois nele tudo é superlativo, grandioso. Hipócrates e Galeno, médico grego o primeiro e o segundo de Pérgamo, da Sicília romana, diante do seu comportamento extravagante, diagnosticaram a epilepsia como o seu principal problema, moléstia que, segundo eles, atacava o corpo e a alma ao mesmo tempo. Outros consideram que o comportamento do herói tem como causa uma forma do paludismo (malária) mediterrâneo. Evidentemente, a corrente médica que defende o diagnóstico da epilepsia é a mais acatada, pois os gregos a consideravam como uma doença sagrada. 

Patrono dos esportes (sua prática favorita era a luta, modalidade olímpica), fundador dos jogos olímpicos e dos jogos nemeanos, deve-se a Hércules a escolha das coroas para premiação dos vencedores, oliveira e aipo, respectivamente. O aipo era usado também nos jogos Ístmicos, lembre-se. Planta aromática, os gregos a usavam o aipo para simbolizar a juventude alegre e triunfante. Nas cerimônias fúnebres, prometia um estado de juventude eterna,
COROA   DE   OLIVEIRA
ao qual o morto devia ter acesso. Já a oliveira, como símbolo, reúne ideias de vitória, força, inteligência, paz, purificação, recompensa, eternidade, consagrada também na Grécia a vários deuses. Passa por ter sido “inventada” por Palas Athena, que, por isso, conquistou o direito de divindade tutelar de Atenas. A oliveira era também de Apolo, na sua condição de deus da Luz. Em algumas versões sobre a sua origem, a oliveira, até então inexistente, teria surgido quando o porrete que Hércules usava (sua arma predileta) foi enterrado, depois de sua morte. 

HÉRCULES  E  LEÃO  DE  CITERON
O leão aparece na história de Hércules em dois momentos. Primeiramente, ele está presente quando da efebia do nosso herói, Aos dezoito anos ele matou o leão de Citeron. Depois de esfolar o animal, Hércules passou a usar a sua pele como proteção, constituindo-se ela, desde então, no  principal signo distintivo de sua iconografia. A cabeça do animal ele a usará como um elmo. O animal aparece também no seu quinto trabalho, cujo cumprimento o levou a enfrentar e matar o famoso leão de Nemeia (Bosque da Lei), que tudo destruía. Por esta razão, para glorificar o seu filho, Zeus colocará o leão entre as constelações do Zodíaco.


HÉRCULES
O ciclo de Hércules se estendeu por toda a Grécia e a leste e a oeste (Ásia e ocidente europeu), seguindo as rotas de expansão do colonialismo e do comércio gregos. Além das significações religiosas, filosóficas, políticas, Hércules, como personagem, é sempre uma figura viva, humana e contraditória moralmente, características que sempre lhe asseguraram uma grande popularidade ao longo dos séculos.