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sexta-feira, 8 de abril de 2016

URANO (2)

        
                      
A antiga religião mesopotâmica é a mais antiga dentre as que nos oferecem documentos escritos. A sua base é formada por crenças dos povos que entre 4000 e 3000 aC, ou mesmo antes, chegaram à região, crenças, observe-se, que já àquele tempo proporcionavam orientação espiritual e ética para os negócios humanos. Agricultores do norte emigraram e se estabeleceram na região, que se estenderia da futura Babilônia ao golfo pérsico. Por volta de 3500 a, nômades semitas da Síria e da península arábica invadiram o território mesopotâmico meridional e se mesclaram com as populações que ali viviam. Pela mesma época, os sumérios, provenientes da Ásia central, através do Irã, também ali se estabeleceram.

GILGAMÉS
A cidade de Erech, no território sumério, tornou-se o centro do poder político. Em 2500 aC, Gilgamés, herói  de lendas sumerianas, era o rei que governava a cidade. A esse tempo, as concepções cosmogônicas defendiam a ideia de que o universo era constituído por um todo único, formado pelo céu e pela terra, ao qual se dava o nome de Na-Ki, isto é, céu e terra. Ao redor desse todo, agitava-se o mar, infinito e sem repouso, sustentando miraculosamente toda a criação. As águas desse mar imenso sempre foram consideradas como a origem de tudo, tanto do arco celeste  como do disco terreno. Entre o céu e a terra distribuíam-se os astros, o Sol e a Lua.  

Para as crenças sumérias, o universo era governado por entes
MANIFESTAÇÕES   CELESTES
divinos, antropomorfizados, semelhantes aos humanos, mas não percebidos por eles. Invisíveis, onipotentes e imortais, estes seres eram chamado de dingir. Eles atuavam através das manifestações luminosas do céu, inclusive as pluviosas. Tudo o que viesse do céu para eles, como para os gregos, era uma hierofania, palavra grega que literalmente significa  manifestação do sagrado.


NINHURSAG
Por volta de 2500 aC, a lista dos deuses sumérios alcança algumas centenas. Apesar desse número e da grande complexidade quanto às funções, o panteão agia harmoniosamente, organizado de modo hierárquico. As principais divindades desse panteão, que controlavam os reinos mais importantes do universo era An (Anu), deus do céu; Enlil, deus do ar; Enki, deus das águas; e Ninhursag, a grande Mãe-Terra.






Essas quatro divindades supremas planejavam e organizavam tudo, distribuindo o poder entre diversas outras divindades menores. É de se ressaltar que a  criação e a organização do universo não foi trabalhosa. Segundo o entendimento dos sumérios, bastava apenas à divindade, para criar alguma coisa, falar, enunciar o seu plano de ação, e logo as coisas se concretizavam. Este entendimento foi adotado por todas as manifestações religiosas dos povos do Oriente Próximo. A palavra divina tinha o poder de criar do nada todas as coisas. A noção de palavra fecundante, do verbo que carrega consigo os germes da criação, é considerado aqui como a primeira manifestação divina, antes de as coisas terem tomado forma.   


Esta ideia da palavra fecundante é encontrada no judaísmo, na doutrina da creatio ex nihilo e aceita como interpretação tradicional da história do Gênesis, pela qual o céu e a terra foram trazidos à existência através da palavra divina. Esta ideia se choca com duas outras, encontradas na tradição judaica. Uma delas, a interpretação midráshica, diz que o mundo foi feito de restos de mundos anteriores, que Deus havia destruído por não estar contente com eles. 

Midrash quer dizer busca, procura; é um método de interpretação
TORÁ
bíblica pelo qual o texto é explicado de modo diferente do seu significado literal. Midrash é também o nome de várias coleções de comentários bíblicos extraídos da tradição oral. O símbolo da midrash é um martelo que esfacela em muitos pedaços a Torá, vista como uma rocha. A terceira opinião sobre a criação vem da Cabala, que propõe a ideia da emanação, através da qual os níveis superiores da criação deram origem aos níveis inferiores, descendo do divino ao inferior, material, por gradação. 

Nas concepções sumérias, os deuses banqueteavam-se, eram glutões e barulhentos, casavam-se e tinham filhos. Conforme o caso, podiam mostrar-se amáveis, risonhos, bem-humorados ou melancólicos, cruéis, raivosos, invejosos, violentos e mesquinhos. Sem a mínima explicação, podiam adotar um ou outro comportamento. Eram, em geral, a favor da honestidade e contra as mentiras e as maldades. Quando necessário, viajavam, tendo à sua disposição vários meios de locomoção, nuvens, barcos, carruagens etc.

Nos tempos mais recuados, no começo do quarto milênio aC, quando Erech dominava o poder político e religioso, a principal divindade era Anu, divindade uraniana. Sua elevada posição diante da Grande-Mãe Nammu, a mãe que deu à luz a terra e ao céu, se explica evidentemente pela reconhecida supremacia do mundo masculino já notável àquela época. 


Quando Anu assumiu a supremacia no panteão sumério, passando a controlar as manifestações celestes, as divindades masculinas e femininas já estavam separadas em dois campos distintos, com áreas de atuação bem definidas, formando uma sociedade muito parecida com a dos humanos. Ao nome das divindades femininas se agregava a palavra nin, que tinha o significado de “dona”, “senhora”. Tinham o privilégio da imortalidade, embora submetidos todos às mesmas necessidades e paixões que os humanos. Outra distinção também se estabeleceu com relação às divindades. Os que só atuavam nos céus eram os igigi. Os que só atuavam na terra e no mundo ctônico foram chamados de annunnaki. 


MARDUK   VENCE   TIAMAT

Com o passar do tempo, as principais divindades do panteão mesopotâmico foram organizadas em tríades, cujo  poder  foi estabelecido quando da vitória de Marduk sobre Tiamat. Marduk era filho de Ea, divindade das águas, que atuava no Apsu, um abismo circular líquido que envolvia a Terra. Esta entidade, Ea, apresenta muita semelhança com o deus Oceano dos gregos. Tiamat personificava o mar, representando o elemento feminino, indomável, símbolo das forças cegas do caos primitivo. 

Num acordo estabelecido entre os deuses, conforme O Poema da Criação, Marduk recebeu plenos poderes para lutar contra Tiamat, em nome de todos.  Vitorioso, ele organizou o universo e definiu as atribuições de cada divindade. Criou o homem de seu sangue, tornou-se “mestre da vida e da cura” e tomou o lugar de seu pai como grande divindade da magia e dos encantamentos. Ao restabelecer a paz entre os deuses, Marduk atribuiu aos Igigi três domínios: a Anu coube o céu, a Bel a Terra e a Ea o elemento líquido.  

ANSHAR
Anu era filho de Anshar e de Kishar, o princípio masculino e o princípio feminino, respectivamente, representantes do céu e da terra. A Anu coube os espaços celestes; ele vivia na região superior, região conhecida pelo nome de “céu de Anu”. Era o maior dos deuses ainda que fazendo parte da mencionada trindade. Todas as demais divindades o honravam como pai, como seu chefe. 



KISHER

É ao lado de Anu que todas divindades vinham se refugiar quando em perigo, quando algo as ameaçava, como no caso do dilúvio. Foi, por exemplo, o que aconteceu com a deusa Ishthar quando repelida pelo herói Gilgamés. Ela se queixou a Anu, dizendo que o herói a havia amaldiçoado e ela lhe pediu que criasse um touro celeste para que ela o lançasse contra ele. 


ANSHAR

ADAPA
Anu convocava ao tribunal que presidia todos os casos que julgava merecedores de sua atenção. Quando, por exemplo, Adapa quebrou as asas do Vento Sul, Anu o citou perante o tribunal que presidia. Por essa e outras atitudes pode se perceber que Anu reunia em sua personalidade real os atributos máximos da soberania, inclusive o de ministrar a justiça entre os deuses.



   ERIDU  ( RUÍNAS )
Adapa foi um herói criado por Ea na cidade santa de Eridu para reinar sobre a humanidade. Recebeu para isso grandes orelhas, muita sabedoria e extrema prudência, menos a imortalidade, reservada aos deuses. Adapa gostava de pescar, usando para tanto uma embarcação que possuía. Um dia, uma grande ventania, o Vento Sul, fez com que sua embarcação virasse, descendo Adapa ao fundo do mar, à casa dos peixes.   Furioso, Adapa quebrou as asas do Vento Sul. Durante sete dias, calmaria absoluta, nenhum vento soprou. Anu, que tudo via das suas alturas, convocou Adapa e afinal tudo se resolveu.

Anu usava como símbolos uma espécie de tiara com dois chifres, que representava a sua onipotência. Diante do trono onde normalmente se sentava se alinhavam as várias insígnias de sua realeza: o cetro, o diadema, a coroa e o bastão do comando. Anu dispunha também de um exército formado pelos astros do céu, chamados de “soldados de Anu”, a seu serviço para destruir os maus.

O cetro, associado ao prolongamento do braço e da mão, sempre se ligou simbolicamente às divindades criadoras, doadoras da vida. Na emblemática popular, sua representação tomou uma figuração fálica. É sempre um signo de dignidade real e pertence ao grupo dos símbolos masculinos. Os cetros, por isso, guardam uma dupla possibilidade significativa: ao mesmo tempo em que princípio de fecundidade podem significar sinal de impiedosa cólera que abate os inimigos com o poder destrutivo do raio.

O simbolismo da coroa se associa ao do círculo, da cabeça,

representando sempre a perfeição. A princípio, feitos com a folhagem e ramos de árvores trançados, foram depois confeccionadas com metal. Além representar uma recompensa, a coroa é sempre manifestação de um sucesso decorrente da dignidade e da soberania de quem a usa. 

Anu jamais deixou as regiões celestes. Quando ele se dignava sair de sua imobilidade majestosa, era para passear numa região celeste exclusivamente sua, que tomava o nome de “o caminho de Anu”. Apesar de sua onipotência e de sua incontestável soberania, Anu tinha as suas fraquezas. Isto aconteceu, por exemplo, quando os deuses tiveram que enfrentar Tiamat. Anu teve que recorrer a Marduk para que este, em seu nome e no de outros deuses, enfrentasse o grande monstro feminino, símbolo da indiferenciação primordial, que ameaçava sempre a ordem cósmica implantada pelos deuses.

Anu residia naturalmente no mais elevado das alturas celestes. Seu palácio, no topo da abóbada, jamais poderia ser atingido por qualquer dilúvio. Ele possuía um templo em Uruk, chamado Eanna, que quer dizer “Casa do Céu”. Sendo o soberano por excelência; só os soberanos na terra podiam invocá-lo.



   EANNA , URUK

Mais tarde, muitos de seus poderes, conforme as reviravoltas políticas na terra, serão transferidos para o deus-ar Enlil, deidade guardiã de Nippur, que se transformara no centro político mais importante do país, na Mesopotâmia meridional. Durante um milênio, mais ou menos, Enlil chefiará o panteão sumeriano, o babilônico e o assírio.  



NIPPUR

Ao assumir a condição da maior divindade do país, Enlil, o Senhor
NAMMU
do Ar, provocou a separação do Pai do Céu (Anu) e de Nammu, a Mãe Terra. Esta separação, lembre-se, é muito semelhante àquela que ocorrerá na mitologia grega, quando da castração de Urano por Cronos. Ao destronar o pai, que com Geia formava um todo primordial, Cronos permitiu que o ar e o éter se interpusessem entre os dois, assumindo a Lua a função de marco divisor: acima dela, o éter, região luminosa divina; abaixo dela, o ar, região dos seres humanos e de tudo o que ficava submetido às leis do vir-a-ser.   

No código de Hamurabi (fundador do império babilônico; reinou
   CÓDIGO   DE   HAMURABI
43 anos, a partir de 1730 aC), Anu era chamado de “Rei dos Annunaki”, tendo como epítetos mais comuns “Pai dos Céus” e “Deus dos Céus”. Os astros compunham o seu exército, sendo ele, como acontece com todas divindades uranianas, um deus guerreiro, um chefe de exércitos. Sua principal festa coincidia com a chegada do ano novo, sempre uma criação do mundo a cada ciclo. 

Aos poucos, porém, tais festas do começo do ano começaram a ficar sob a tutela de Marduk, divindade mais jovem, que iniciou sua escalada religiosa, superadas as das tríades anteriores. Mais dinâmico, mais ativo no que diz respeito à sua relação com a humanidade, Marduk havia reorganizado o cosmos. Este renascimento trouxe para o primeiro plano do panteão mesopotâmico, a partir da Babilônia, Enlil-Bel, divindade do ar, do céu tempestuoso, chuvoso e fecundante. Substituía-se, assim, uma divindade inacessível e distante por outra, mais dinâmica, criadora também, porém muito mais próxima.

Enlil assuniu então a condição de “Pai dos Deuses”, fez nascer tudo
NANNA
o que era necessário, inventou instrumentos agrícolas, ajudou os humanos. Todos os deuses o procuraram para conquistar as suas graças, inclusive o poderoso Enki, deus dos mares. A própria Lua, o deus Nanna, titular religioso da importante cidade de Ur, desejoso de garantir tranquilidade para ela, reverenciou Enlil. Os poemas são esclarecedores. Quando Pai Enlil se instala solenemente sob/ o dossel sagrado, o sublime dossel,/ quando exerce o sumo comando e realeza,/ os deuses terrenos se curvam diante dele,/ os deuses celestiais o reverenciam com humildade...

Enlil passa por ter sido o instaurador do Me, um conjunto de leis
ME
universais, preceitos morais, aplicáveis, como um todo, à vida social. Tais leis, a amplitude dos conceitos neles contidos, revelam bem a grande originalidade dos mesopotâmicos, os primeiros a nos deixar pensamentos de ordem especulativa tão ricos. O Me fala de segurança num mundo em guerras constantes. A sua proposta era a de que as coisas continuariam a funcionar sempre adequadamente no universo se obedecidas as leis cósmicas instituídas pelos deuses. Cada aspecto do mundo, da civilização e da cultura tinha o seu Me. Por não ter obedecido as próprias regras que estabelecera (não saber controlar a violência do seu instinto sexual), Enlil perdeu o poder.

Agregados à sabedoria dos Me instituídos por Enlil, os pensadores mesopotâmicos redigiram para a vida prática do homem comum muitos conceitos sob a forma de ditados, alguns com muito humor. Dentre os que chegaram até nós, destacamos: 1)Numa cidade em que não há cães de guarda, a raposa é o vigia. 2) Quem tem muita prata pode ser feliz; quem possui muita cevada pode ser alegre; mas quem nada tem pode dormir. 3) Sê gentil para com teu inimigo como para um velho forno. 4) Quem constrói como um senhor, vive como um escravo; quem constrói como um escravo, vive como um senhor. 5) Para o prazer do homem há o casamento; para pensar melhor, há o divórcio.

Embora jamais tenha qualquer outra divindade contestado o seu universal poder ou a humanidade tenha deixado de venerá-lo, Anu, com tempo, acabou suplantado por outras divindades, que foram assumindo muitas de suas atribuições. O prestígio dessa grande divindade criadora só desapareceu quando as divindades usurpadoras, para se estabelecer solidamente no poder, incorporaram ao seu nome o de Anu.




ZIGURATE   TEMPLO   DA   LUA  ( UR )

A perda do prestígio das divindades celestes, criadoras, ou de qualquer divindade, é motivada normalmente por fenômenos celestes e/ou por revoluções e reviravoltas políticas (a elite que sustentava a divindade é substituída por outra). Essas mudanças ocasionam uma maior ou menor pobreza cultual que tem como característica principal a progressiva diminuição e desaparecimento do número de dias santificados desta ou daquela divindade nos calendários sagrados. Aos poucos, essas divindades vão se tornando cada vez mais inacessíveis, mais distantes, sendo incapazes de atender os inúmeros problemas do cotidiano do homem comum. Ninguém mais recorre a elas, nenhum sacrifício... 

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O VINHO


Raramente, quando falamos de vinho, se menciona a embriaguez. Os mais informados sobre a sua história sabem que ela está nas suas origens. É nas antigas tradições asiáticas e sobretudo mediterrâneas que o vinho revela todo o seu esplendor como bebida espiritual, produzindo a chamada embriaguez mística. O costume, em uso em antigas confrarias religiosas, de se beber o vinho espiritualmente, em razoáveis quantidades, se perdeu para o homem moderno.

Desde a mais remota antiguidade sabemos que o vinho tem a fama de desfazer vários sortilégios, de desmascarar mentiras e também de ser consumido pela alma dos mortos quando derramado sobre a terra à guisa de libação. Entre os antigos gregos, a libação tanto podia consistir na aspersão da bebida em intenção de alguma divindade (sempre Dioniso, no caso) ou no ato de consumi-lo simplesmente por prazer ou para brindar. O verbo libar, lembremos, traduz uma ideia de sacrifício, de oferenda e também de prazer, de satisfação. Acima de tudo, porém, nunca devemos esquecer que libar é oferecer aos deuses, isto é, buscar através do vinho o que há de melhor, superior, transcender. Como exemplo, lembremos que Ulisses, para evocar a alma dos mortos, como está na Odisseia, usa o vinho, numa cerimônia que os gregos chamavam de nekyia.

Historicamente, a cultura da vinha é muito antiga no Oriente, no norte da África e na bacia do Mediterrâneo. Há inúmeros registros que atestam sua presença no Egito há mais de 3000 anos aC, onde recebiam o nome de “olhos de Horus” os seus pequeninos frutos escuros. Na antiguidade, em qualquer festa ou cerimônia o vinho nunca faltava. É bastante conhecida a passagem bíblica que registra o primeiro milagre de Cristo, a transformação da água em vinho, numa festa realizada em Caná, cidade da Galileia, conforme está no evangelho de João. O cristianismo foi buscar no mundo grego e judaico muitas das imagens tendo a bebida por tema. O simbolismo medieval cristão se valeu muito da parábola que nos fala de Cristo como a própria cepa da vinha e de seus discípulos como os seus galhos.


As religiões do Oriente sempre consideraram a videira como uma árvore sagrada, sendo seu produto a bebida dos deuses, a bebida do fogo vital. É árvore messiânica, salvadora, para o povo de Israel; antigos registros sempre a identificaram como a árvore da vida. No Gênesis, na passagem da expulsão do Paraíso, uma das interpretações possíveis dessa perda é a de que Adão e Eva provaram os frutos da vinha, que podiam levar ao céu ou ao inferno, e não os frutos da figueira ou da macieira, como alguns admitem.


Entre os judeus, uma boa esposa e uma vinha fecunda eram bens que não tinham preço. O vinho, iáin em hebraico, deve ser usado na celebração do Shabat, nas circuncisões e nos casamentos. Na antiga Judeia, a vinha sempre apareceu como um grande símbolo da fertilidade. As moças solteiras, à procura de marido, costumavam passear nos vinhedos, exibindo-se para os possíveis pretendentes. Um dos episódios bíblicos mais famosos é o da embriaguez de Noé. Depois do dilúvio, Noé plantou uma videira, produziu vinho com os seus frutos, embriagando-se até ao desfalecimento. Noé, como se sabe, amaldiçoou seu filho Cham, que riu da sua nudez. No mito sumeriano, o herói que se assemelha a Noé é Utanapisthin.

A vinha, a figueira, a romãzeira, a oliveira e a palmeira constituíam quase que totalmente a paisagem de Israel nos tempos bíblicos. A vinha e a oliveira cresciam em todos os jardins, lembrando sempre a imagem de perfeita felicidade. Normalmente, entre os agricultores, naqueles tempos, usavam-se como bebidas a água, o leite ou o soro. Nas festas e nos banquetes, chamados de bebedeiras (mishtê), a bebida eram o vinho e um licor chamado shekhar, provavelmente uma espécie de cerveja, de origem egípcia .


SHEKHAR

Os vinhos de Israel eram famosos, provenientes de vinhedos das planícies, dos vales e dos terraços montanhosos. A sua importância era grande, dele falando os poetas sempre liricamente. Era usado também na liturgia cotidianamente, em sacrifícios e libações, como símbolo do mistério da vida em Deus. Há também registros do uso medicinal do vinho, enfatizados sempre os perigos do seu consumo exagerado.

Entre os gregos, a cultura da vinha ganha importância maior, tendo estreita relação com a do trigo, representada a primeira por Dioniso, deus das metamorfoses, e a segunda por Deméter, a deusa dos grãos, dos cereais, em especial o trigo. Ressalte-se que o culto de Dioniso sempre apareceu associado à ideia grega de mistério (mysterion), palavra que, neste contexto, quer dizer iniciação. O iniciado (mystes) era aquele que devidamente instruído e treinado por um mystagogo (professor de mistério), participava dos cultos do deus. A iniciação sempre lembrava transformação, renascimento para um outro tipo de vida, idéias incorporadas pelo cristianismo na eucaristia. É nesta perspectiva que a vinha é considerada como a expressão vegetal da imortalidade.

No mito grego, Dioniso, deus de Nysa (montanha sagrada), é o que nasceu duas vezes. É filho do Senhor do Olimpo, Zeus, e de Sêmele, virgem princesa tebana. Amada por Zeus, Sêmele pretendeu vê-lo em todo seu esplendor divino. Não resistiu, sendo fulminada. Zeus recolheu, então, o embrião (o futuro Dioniso), que ela tinha em seu ventre, e o alojou em sua coxa. No momento devido, a criança, já plenamente desenvolvida, dali foi retirada. Nascia Dioniso. O nome Baco, pelo qual o deus será também reconhecido, se deve às peculiaridades do seu duplo nascimento. Enquanto “grávido” de seu filho, Zeus mancava, claudicava, maneira de andar designada pelo verbo bakkeio, andar típico das pessoas tomadas por alguma forma de embriaguez, cambaleantes, delirantes.


Após seu nascimento, o menino-deus foi levado para o monte Nysa e entregue aos cuidados de ninfas e sátiros. Conta o mito que perto da gruta em que se abrigava com seus preceptores Dioniso descobriu uma árvore da qual pendiam maduros cachos. Recolheu-os e os espremeu, esquecendo o líquido obtido por alguns dias. Pouco tempo depois, ele e seus preceptores o beberam. Beberam-no repetidamente, pondo-se ao final a dançar freneticamente ao som de címbalos e tambores, uma celebração na qual ele, Dioniso, era o centro. Ao final da festa, caíram todos desfalecidos.

Logo, essas festas se propagaram, organizando-se em forma de culto segundo três momentos. O primeiro era o da chamada orgia, com muita música, dança e consumo de vinho, agora elevado à categoria de bebida enteógena (que leva a deus). A orgia era um ritual noturno celebrado em honra ao jovem deus, tendo por finalidade o rompimento das resistências conscientes dos participantes, resistências estas que impediam a comunhão, a sintonia de sentimentos, a identificação de todos. O grande objetivo da orgia era o de levar os participantes ao êxtase, o segundo momento. Isto é, levá-los ao esvaziamento interior, à exaltação mística, para que, então, o deus se apossasse de todos, invadindo-os, penetrando-os. Esta penetração do deus era o terceiro momento, chamado pelos gregos de entusiasmo (deus em nós), um estado de interiorização profunda, que levava a uma outra vida, a um novo modo de ser.

Da Hélade, segundo o mito grego, o culto levado por Dioniso passou à Índia, a todo o Oriente, espalhando-se também por todo o Mediterrâneo. Dioniso levava o seu culto triunfalmente a todos esses lugares, indo sempre num carro puxado por panteras, enfeitado com pinhas, ramos de hera e pâmpanos, todos símbolos seus, sempre acompanhado por sátiros, por suas sacerdotisas, as mênades, também chamadas de bacantes, e por músicos e cantores, um cortejo sempre alegre e ruidoso.




Tornando-se divindade olímpica, Dioniso foi consagrado como deus da orgia, do êxtase e do entusiasmo, divindade da liberação, da metamorfose, da eucaristia, sempre festejado. Suas festas deram também origem ao ditirambo (canto em sua homenagem, depois composição poética livre que visava festejar o vinho, a alegria, os prazeres da mesa, num tom entusiástico), ao drama teatral, à tragédia e à comédia, como manifestações superiores do espírito grego.

Deus da vegetação, da vinha, do vinho, da regeneração da natureza, da vida selvagem, Dioniso é o senhor da fecundidade e da exuberância vegetal, animal e humana. As consequências sociais e políticas do seu culto foram imensas no mundo grego, pois ele era o deus que levava ao rompimento das barreiras, à supressão das proibições, das interdições, dos tabus. Sêmele, sua mãe, baixara ao mundo infernal, como acontecia com todos os que morriam. Dioniso, quando do seu retorno triunfal das viagens pelo mundo que fizera para propagar o seu culto, foi buscá-la, libertando-a do tétrico reino de Hades-Plutão e transformando-a na primeira de suas sacerdotisas.

Esta passagem da vida do deus sinaliza de modo claro uma de suas principais funções, a de libertador do mundo infernal, aquele que traz à superfície as riquezas do mundo subterrâneo. Numa leitura psicanalítica, a superfície seria a consciência e o mundo subterrâneo o subconsciente. Num outro plano, a descida infernal de Dioniso simboliza a alternância das estações, a morte e a ressurreição do mundo vegetal. O culto dionisíaco apresenta também, segundo uma perspectiva religiosa ou existencial, a despeito de seus possíveis excessos, o grande esforço da humanidade no sentido de romper a barreira que a separa da transcendência.


DEMETER

Dioniso fala, nas festas, principalmente as celebradas no santuário de Eleusis, de Deméter, da libertação, do rompimento das inibições, das repressões, dos recalques. Ele propõe a dissolução das formas que bloqueiam a personalidade, levando-a regressivamente a estados caóticos, primordiais, ou, de outra maneira, levando-a a um mergulho no mundo subconsciente para que dali possa esta personalidade, emergindo, renovada, atingir diferentes e superiores estágios de existência. A libertação dionisíaca é, contudo, perigosa para os que vivem uma existência puramente instintiva, animal, materialista (a maior parte da humanidade) porque a viverão num plano involutivo, regressivo, animalizando-se mais ainda.

A vinha era para os gregos a árvore da vida. O vermelho-escuro, a cor do vinho, era a cor do deus. Nas primeiras encenações teatrais que se fizeram no mundo grego, nascidas de suas festas, os atores rústicos passavam em seu rosto a borra do vinho. O vermelho era também a cor dos heróis na antiguidade grega como símbolo do sangue e do fogo, princípio e poder da vida.

Dioniso tirou o vinho de sua condição selvagem, grosseira, assumindo, por isso, a atribuição de um deus civilizador. A dosagem entre o seco e o úmido dá ao deus o apelido de orthos (reto). Ele concedeu aos homens, como Deméter o fez com relação aos cereais, a força para que pudessem ficar de pé, para que abandonassem o mundo animal. Antes de Deméter, os humanos comiam alimentos crus, pesados, submetidos que estavam a uma dieta destemperada. Já com Dioniso, temos a arte da dosagem do vinho, de temperá-lo, a vida cultivada, o diálogo. Ele criou, juntamente com Deméter, a arte de viver, a reflexão dietética, a prática culinária e o saber médico. Lembremos que o vinho tem destaque na medicina e na filosofia gregas. Platão escreveu uma de suas mais belas obras, um diálogo, o “Symposium”, para honrá-lo.



Simpósio, como Platão o entendia, era uma reunião na qual os convidados, exclusivamente homens, discutiam filosofia e bebiam vinho (posis, ato de beber, mais o prefixo syn, reunião). A festa era conduzida por um simposiarca que se encarregava de dosar a bebida distribuída, aumentando, com misturas, o seu teor alcoólico se os participantes estivessem desanimados e diminuindo-o se muito acalorado o debate. Os músicos, nessas ocasiões eram retirados da sala, pois o filósofo achava que pessoas inteligentes não precisariam de música ambiente. Além do mais, é de se lembrar que para o filósofo filosofia e mulheres eram incompatíveis.


AGOSTINO CARRACCI (1557-1602)


A história do encontro de Dioniso com a princesa cretense Ariadne é muito significativa ao nos revelar miticamente a entrada do vinho no Mediterrâneo oriental. A princesa cretense representa nesta história uma antiga divindade egeia da vegetação, do mundo natural, que deve desaparecer para que a nova cultura entre na região. Dioniso, no drama de Ariadne, é o deus novo, que suplanta uma antiga divindade, do mundo matriarcal, e que, por isso, a leva à morte, mas nunca deixando, porém, de honrá-la devidamente. O deus lhe deu, como presente das núpcias fatais que convolam, o encontro de ambos na ilha de Naxos, um belíssimo diadema, uma tiara, depois fixada nos céus como constelação da “Corona Borealis”.

O vinho acompanha o homem e as sociedades que ele vai criando há milênios. Muito se escreveu sobre os mais variados aspectos do vinho, o místico-religioso, o social, o medicinal, o filosófico, o psicológico etc, em todas as tradições e culturas. Mais perto de nós, numa compilação medieval do início do século XIV, lá pelos anos de 1300, chamada “Gesta Romanorum”, que reúne muitas informações dos tempos passados, inclusive comentários bíblicos, ficamos conhecendo, curiosamente, um detalhe sobre o episódio que teve Noé por protagonista e sobre o vinho que ele produziu. Esta história faz desse patriarca judeu, que nasceu circuncidado e que foi protegido do dilúvio, o primeiro grande produtor dessa bebida na história da humanidade. Noé, segundo os romanos, não plantou a vinha, mas, sim, a encontrou em estado selvagem.

Os antigos povos latinos deram o nome de “labrusca”, depois “lambrusca”, a esta vinha e ao seu tipo de uva porque ela crescia livre nos limites dos campos, das florestas e dos caminhos. Como o vinho que produziu a partir dessa uva era muito ácido, sendo impossível consumi-lo, Noé, diz o texto, resolveu melhorá-lo. Sacrificou quatro animais, um leão, um cordeiro, um macaco e um porco, e com o sangue deles misturado fez uma espécie de estrume, depositando-o nas raízes das vinhas. Este estrume, revela-nos a referida compilação, adocicou o vinho.


NOÉ E SEUS FILHOS

Uma grande confusão, porém, foi gerada. Sob efeito do vinho, muitos que o consumiram (Noé o distribuía, incentivando as pessoas a beber cada vez mais) se transformaram em leões, demonstrando muita cólera por isso, o que lhes causou a perda da memória. Outros se transformaram em cordeiros, demonstrando, depois de consumir bastante a bebida, muito pudor, recato, pudicícia. Outros se tornaram macacos, ficando inconvenientes, curiosos, brincalhões, desagradáveis. A “Gesta Romanorum” não fala nada das consequências porcinas decorrentes da ingestão do “lambrusca”. Segundo alguns que se voltaram para estudar esse inusitado acontecimento, nenhum registro foi feito sobre tal influência em virtude de sua evidência, ou seja, boa parte dos que consomem vinho, e não só o “lambrusca”, se transformam realmente em porcos.

A primeira bebida fermentada que a humanidade conheceu foi o hidromel, do qual temos notícia desde a longínqua pré-história. Como bebida usualmente consumida, pertenceu ao chamado período do semi-sedentarismo do homem. Já o vinho, como o encontramos em algumas tradições, acabou por se impor, pois era a bebida do homem que se sedentarizava, que se fixava à terra e sobretudo que se civilizava.

Plutarco, biógrafo e moralista grego do primeiro século dC, deixou-nos o seguinte registro: Antes de se conhecer a vinha, usava-se o mel, tanto para a bebida como para os sacrifícios, e ainda hoje os bárbaros, que não cultivam a vinha, bebem uma espécie de mel diluído, que preparam com raízes e de gosto semelhante ao vinho.

Aristóteles, filósofo grego do séc. IV aC, discípulo de Platão e preceptor do grande Alexandre Magno, observou: “um homem embriagado de vinho cai para a frente porque tem a cabeça pesada. Mas bêbado de cerveja cai para trás porque é derrubado; com as outras bebidas alcoólicas, os bêbados caem em qualquer direção, para a esquerda ou para a direita, para a frente ou para trás.” Até hoje não entendi bem essa colocação do grande mestre peripatético, nem conheço estudos sobre esse critério de classificar bebidas pela direção da queda que provocam quando ingeridas em grande quantidade...

Na antiga Grécia (Atenas), bebiam-se, além da água, naturalmente, muito leite de cabra e uma espécie de hidromel. As classes populares gostavam do Kykeon (girar, rodopiar), uma bebida enteógena mais diluída, que entrava nos mistérios de Eleusis através de Dioniso. A elite grega, mais refinada, tinha verdadeiro horror desse costume popular. No campo, principalmente, as preferências incluíam o vinho adocicado.

A fabricação do vinho diferia muito dos processos atuais. Não se praticava a fermentação em dornas de forma prolongada ou sistemática, o que sempre dificultava a sua conservação. Para preservar o precioso líquido era costume, em algumas regiões, juntar-se a ele um pouco de água salgada. Já a adição de resinas (pinheiro, árvore símbolo de Dioniso) ao vinho, muito comum hoje, nunca praticado na antiguidade, vem ao que parece de tempos mais próximos de nós. Hoje, frequentemente, encontramos também vinhos aromatizados com tomilho, hortelã ou canela.

O vinho, na antiguidade grega, destinado ao consumo local, era guardado em odres de pele de cabra ou de porco, enquanto o exportado era guardado em grandes bilhas de barro (pitoi), como os tonéis de hoje. Havia também as ânforas, igualmente de barro, cujas paredes internas eram revestidas com pez. Nas asas das ânforas eram marcados os nomes do vendedor e de certos magistrados locais, cujo selo garantia um prévio controle.

Os mais afamados vinhos gregos na antiguidade eram principalmente os de Tasos, Naxos, Quios, Lesbos e Rodes. A exportação da bebida era muito regulamentada e protegida, sendo as fraudes severamente punidas. Raramente se bebia vinho puro (acratos). Antes de qualquer refeição, se fazia uma forte mistura com água num recipiente de boca larga denominado “cratera”. Os criados tiravam o vinho das “crateras” com grandes conchas de ponta recurvada, de metal ou barro, ou por meio de oenochoes (pequenos jarros), enchendo assim as taças.

Numa peça grega do século IV, encontramos: “Para as pessoas sensatas preparo somente três crateras: uma, da saúde, que eles tomam antes; a segunda, do amor e do prazer; a terceira, do sono. Depois de terem esvaziado essa terceira, aqueles que se chamam sábios vão deitar-se. A quarta eu ignoro, pertence à insolência. A quinta é repleta de gritos. A sexta transborda de maldades e zombarias. A sétima tem os olhos inchados. A oitava é do meirinho. A nona é da bile. A décima é da loucura (mania). É essa que faz tropeçar porque, servida em recipiente estreito, passa facilmente uma rasteira em quem a esvaziou. O Dioniso bom e reto afasta-se desde a quarta cratera.”


DIONISO OU BACO
(MICHELANGELO MERISI , CHAMADO CARAVAGGIO - 1573-1610)

O que fica dos cultos de Dioniso, acima de tudo, como a grande divindade do vinho, é que com a sua proposta mística se rompia aquilo que os gregos chamavam de meden agan, o metro, a medida, a forma cristalizada na qual a personalidade das pessoas estava encerrada e que impedia as transformações, o acesso a um tipo de vida superior. Neste sentido, Dioniso apareceu como uma ameaça às elites gregas. Daí o conflito entre as suas propostas e as da religião oficial do mundo grego, especialmente de Atenas, de natureza apolínea. Dioniso falava de transformações das individualidades, de libertação do inferno pessoal em que cada um estava aprisionado. Era a antítese do mundo oficial, da aristocracia, fixada nos seus privilégios. As classes desfavorecidas, o proletariado, os pobres, as mulheres, os estrangeiros e mesmo os escravos, todos os que não tinham vez na “polis”. Enfim, logo se aproximaram do deus. O discurso que os evangelistas porão na boca de Jesus Cristo se aproximará bastante daquele que os gregos já haviam ouvido do filho de Sêmele. Os cultos dionisíacos, voltados principalmente para os humildes, acabarão por invadir a “polis” (Atenas), abolindo fronteiras, destruindo limites e barreiras.

Um dos grandes mitos gregos que aparece associado ao vinho é o de Ganimedes. Jovem príncipe troiano, belíssimo, foi raptado por Zeus na forma de uma águia para servir como escanção nos banquetes olímpicos. O nome grego Ganimedes vem de ganos, que significa o jorro brilhante do vinho quando escapa dos tonéis (pitoi). Mais tarde, Zeus, para que a memória de Ganimedes jamais se apagasse, o transformará na constelação de Aquário. Por isso, os nativos deste signo, os que o vivem superiormente, sempre se caracterizam por sua leveza, por uma espécie de volatilidade que lembra o voo dos pássaros (a águia sempre aparece associada ao signo), pela necessidade que têm de romper as cadeias terrestres que os prendem, indo em direção do que está além, mais acima, adiante. Sempre uma ideia de transcendência, de elevação. Além disso, Aquário é o signo das afinidades eletivas, da vida comunitária, fraternal, do ágape, do qual o vinho é grande agente catalisador.


Uma grande figura que se aproximou do vinho, no fim da alta Idade Média, foi Hildegarde von Bingen (1098-1179), santa e mística, versada nas artes médicas e autora de uma grande obra musical. Para ela, o vinho, acima de tudo, tinha importância como símbolo. Para justificar esta importância, a Sibila do Reno, como também era chamada, valia-se de uma passagem bíblica sobre Noé. Dizia ela que a Terra, que antes de Noé fora corrompida pelo sangue de Abel, produzira depois uma seiva nova, o vinho, para que a sabedoria reiniciasse a sua obra. Abusar do vinho é naturalmente subverter o seu poder, pois seu grande segredo está na força que nele se esconde, que deve ser absorvida moderadamente. A vinha e o trigo, dizia Hildegarde, conforme os romanos observavam, crescem em função de um grande segredo, de uma força germinativa que possuem chamada “viriditas”, palavra que tanto significa verdor como força. Inúmeras referências sobre o vinho são encontradas na extensa obra da Sibila do Reno (também alinhada entre os melhores compositores medievais), merecendo referência especial as suas “Medicina Simples”, “Medicina Composta”, “Causas e Curas” etc.

Por fim, dentre as grandes citações sobre o vinho, encontramos: 1) Não há alegria sem vinho (Talmud); 2) Primavera florida, sinto que vem; depressa enchei a cratera com vinho (Alceu, poeta grego); 3) Uma noite, a alma do vinho cantava nas garrafas (Charles Baudelaire, poeta francês); 4) O vinho é o leite dos velhos. Não sei se quem disse isto foi Cícero ou o bispo de Mondoñedo, mas não importa (Lope de Vega, dramaturgo espanhol); 5) Que tenhamos vinhos e mulheres, alegria e risadas, sermões e água com gás no dia seguinte (Byron, poeta inglês); 6) O vinho e a música sempre foram para mim um excelente saca-rolhas (Anton Tchekov, escritor russo); 7) No vinho está a verdade (Plínio, o Velho, naturalista latino); 8) O vinho me impele, o vinho louco, que faz cantar até mesmo o homem mais ajuizado e o faz rir languidamente; o vinho que o obriga a dançar, e extrai a palavra que fica melhor quando não dita (Homero, poeta grego); 9) O álcool cria no homem um heroísmo muito superior à ideologia e à paixão; não sem razão é chamado de espírito (G.P.Bona, escritor italiano); 10) E quem tem pressa? (Robert Bencheley, humorista americano; resposta que deu quando lhe perguntaram se sabia que o álcool causava uma morte lenta); 11) O vinho faz bom sangue, bom sangue produz bom humor, bom humor faz nascer bons pensamentos, bons pensamentos dão origem a boas ações e boas ações nos conduzem a Deus (Rabelais, gênio francês); 12) Boa cozinha e bons vinhos, o paraíso sobre a Terra (Henri IV, rei da França); 13) Um grande vinho não é obra de um homem, é o resultado de uma constante e refinada tradição. Há mais de mil anos de história numa velha garrafa. O vinho é professor de gosto e, formando-nos na prática da atenção interior, é o liberador do espírito e o iluminador da inteligência (Paul Claudel, escritor francês); 14) No vinho está a verdade (Plínio, o Velho, naturalista latino).

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

NOSSO INFERNO PESSOAL

A atividade agrícola provoca uma crise de valores entre as populações do final do chamado período Paleolítico. Até então eram muito importantes, sob o ponto de vista religioso, as relações entre os homens e o mundo animal. A esse tempo, os humanos passavam para o chamado período neolítico, o eixo da vida se concentrando mais no mundo da agricultura Neste período, a agricultura com a sua simbologia começa a suplantar aquela proveniente das relações de caráter animal, até então mais poderosas. Estabelece-se aos poucos uma espécie de solidariedade entre os seres humanos e o mundo vegetal. Com isto, a mulher e o mundo feminino carregam-se de sacralidade.

As mulheres, como se sabe, passaram neste período a ocupar uma posição de relevo, pois há um nexo natural entre a fertilidade da mulher e a fertilidade da terra. Não é por acaso que o mundo indo-europeu tem o radical gen para designar nascimento, o ato de engendrar, de gerar. Daí, gênesis (criação), genos (raça, entre os gregos), engenho (caráter inato), degenerar (corromper, adulterar-se) etc. E é desse radical que, por exemplo, sai o nome da primeira entidade nascida do Caos, segundo a cosmogonia hesiódica, Geia, também chamada de Gaia, a Mãe-Terra.

As mulheres, neste período, se tornam responsáveis pela abundância das colheitas, pois são elas que conhecem o "mistério" da criação, compreendido como algo religioso, que tem como "outro lado" a morte. Essa mudança, que alguns chamam de "revolução neolítica", vai tomando lugar, mais ou menos, entre 9.000 e 7.000 AC. Ao começar a produzir os seus alimentos, ao contrário do que ocorrera no Paleolítico, o ser humano precisou modificar bastante o seu comportamento. Teve que aperfeiçoar novas técnicas de intervir no solo, de medir o tempo, de aprender a fixar datas com base em calendários lunares, ainda que bastante rudimentares. Com isto, a atividade agrícola deu um novo sentido à religiosidade do homem. Uma das grandes histórias desse período refere-se à ligação que o homem faz entre as plantas nutritivas (cereais) e os tubérculos, que foi aprendendo a usar.

Os homens desse período consideravam que os alimentos extraídos da terra eram produtos divinos. Alimentavam-se do corpo de um ser divino. Para se apropriar destes produtos divinos era preciso colhê-los, isto é, cometer um "crime". A origem dos cereais e tubérculos foi entendida como o produto de uma união sagrada (hierogamia) entre o céu e a terra. Os processos de alimentação e morte se vinculam. O solo fértil, a terra, tem fortes analogias com a mulher e o trabalho agrícola com o ato sexual. Tudo isto sobrevive em algumas tradições populares como, por exemplo, o ato de depositar a criança que acaba de nascer sobre a terra para que esta a abençoe. Ou, então, o gesto de darmos três pancadas na madeira para pedir proteção, para "isolar", que outra coisa não é senão um pedido de socorro à nossa Grande Mãe (madeira vem de mater, mãe, matéria). Afinal, a grande constatação: o homem, nascido da terra, acabará a ela retornando um dia. A sexualidade da mulher está ligada aos ritmos lunares. Terra, Lua e mulher se unem, são solidárias. Este mistério se cumpre pela morte da semente, que assegura, então, um novo nascimento. A vida humana se parece com a vida do mundo vegetal, nascimento, morte e renascimento, tudo como os ciclos desse mundo.


As mitologias dos vários povos irão refletir este drama, que tem vários atos. 

São inúmeras as histórias que nos falam de deuses que morrem e renascem (Afrodite-Adonis, os Mistérios de Eleusis etc.). Desenvolve-se nas civilizações agrícolas desde o Neolítico uma concepção religiosa de natureza cósmica que tem como núcleo, conforme inspiração dos ciclos do mundo vegetal, a ideia da renovação periódica do mundo. Assim como os ritmos cósmicos se expressam em termos da vida vegetal, assim ocorre com a existência humana. O cosmos se renova periodicamente, anualmente. O tempo, por isso, é circular. Depois do inverno, a primavera...


O MUNDO SUBTERRÂNEO


As idéias aos poucos vão se fixando: mulher, feminino, ritmos lunares, semente, interior da terra, morte, escuridão, retorno... E quanto ao ser humano? Destruído o corpo (soma), desprendendo-se a alma (psiquê), fixa-se nessas civilizações o conceito de imortalidade. A perda da energia vital coincidia com a exalação do último suspiro. Daí a relação entre respiração e alma, fundamento da vida. Psiquê, anima, alento. Psiquê, a alma, toma a forma de um eidolon, uma representação que lembra vagamente a forma do corpo substancial, uma espécie de fantasma, que guardava uma "consciência" latente, podendo ser ativada através de cerimônias adequadas.


ULISSES E TIRÉSIAS (ODISSEIA)


      Era a nekyia, ou invocação da alma dos mortos, como Ulisses a realiza no canto XI da Odisseia.



Para Homero, Psiquê era como um sopro, mais ou menos material, que habitava o Hades. Aparecia sob uma forma frágil, volátil, uma skia (sombra). Outras designações: opsis (aparência), onar (sonho), simulacra (simulacro). Quando Psiquê deixava o corpo, suas faculdades de inteligência, memória e fala ficavam muito prejudicadas. Estas faculdades poderiam ser recuperadas por momentos. Os gregos nunca, a rigor, consideraram a morte como algo irreversível, definitivo. Usavam comumente a expressão "cobrir-se de trevas" para falar da morte. A alma para os gregos não era uma ficção, era algo real, podendo ser evocada pela aflição dos vivos, pelo amor, pela saudade, pela magia, pela poesia. A alma descia para o Hades, era a chamada catábase. Muito enfraquecidas, como vimos, pois os mortos são os dessecados, as almas não têm seiva, verdor. Envelhecer, caminhar para a morte é dessecar-se. O seco dificulta os processos metabólicos, gera tensão, rigidez, endurecimento. O seco freia o quente, é estreitante.

A partir da morte, com base em todas aquelas ideias já bem fixadas desde o período Neolítico, define-se, desde as tumbas, o conceito de Inferno, da existência de um lugar subterrâneo, residência das almas. Este conceito sucede ao de que esse mundo para onde iam as almas ficava além do oceano, uma serpente líquida que envolvia a Terra, como está na citada Odisseia. Com a crescente organização social, estratificando-se a sociedade, a ideia de mundo inferior se verticaliza e estabelece, lugar para onde iam as almas depois de terminada a vida terrestre.


HESÍODO

Com o poeta Hesíodo, do séc. VIII aC, em sua Teogonia, temos uma ideia mais clara do mundo infernal. Diz ele que do Caos, o misterioso indiferenciado, dotado de energia prolífica, num determinado momento, vão saindo várias entidades. Quatro são de polaridade feminina, negativas: Geia, a Terra; o Tártaro, o mais profundo, o mais abaixo, a partir de Geia; entre Geia e o Tártaro, o Érebo, as trevas inferiores intermediárias; acima de Geia, as trevas superiores, Nix, a Noite. A única entidade positiva a sair do Caos foi Eros, que aparece logo depois do Tártaro e antes das outras; é a força que une, que vai garantir não só a continuidade das espécies como a coesão interna do universo. Geia, por cissiparidade, gerará Urano, o céu, "em igualdade de esplendor e beleza, para que ele a cubra”. Unindo-se entre si e/ou com os seus descendentes, estas entidades darão origem às potências primordiais que constituirão o Cosmos.

O parágrafo acima descreve sumariamente o que chamamos de Cosmogonia grega, segundo o poeta Hesíodo. As cosmogonias, no geral, são modelos arquetípicos por onde principiam as diversas visões que os homens têm da organização do Cosmos (ordenação), uma visão sagrada. Lembremos que as cosmogonias e os processo de individuação do ser humano se assemelham bastante. As cosmogonias indicam um a ser, algo a ser construído, uma ordem a ser instaurada a partir do Caos, que sempre antecede a existência. As coisas entram na existência e desta passam a se cosmizar. Esta cosmização deve ser constantemente renovada, ela não se faz sem choques, sem lutas. A vida nasce da morte, todo progresso se apóia na destruição. Mudar é, ao mesmo tempo, morrer e renascer.



HADES E PERSÉFONE

A partir do século VI AC, o Inferno, isto é, o Hades já estava organizado. No mais fundo, o Tártaro, acima o Érebo, ao lado de ambos, pendendo para o oriente, os Campos Elísios. Junto, o chamado Campo da Verdade, lugar de julgamento. O Hades era um lugar fortificado, tinha muralhas, palácios, acrópole, uma grande região vestibular através da qual se fazia a passagem da superfície terrestre para ele. Este mundo localizava-se nas entranhas da Terra, pendendo, como um todo, para o oeste. Era atingido por aberturas na superfície da Terra, cavernas, grutas, lagos, lugares misteriosos, como Lerna (pântano da Argólida), Averno (lago ao sul da Itália), Tênero (cabo ao sul do Peloponeso) etc.



HÉRCULES E A HIDRA DE LERNA


A terra infernal não era fecundada, o solo era ingrato, sem luz, nenhum ser vivo. Cresciam nele, apenas, os ciprestes negros, os salgueiros, que jamais davam frutos, e álamos, que simbolizam as forças regressivas da natureza, que apontam mais para as lembranças que para a esperança, mais para o tempo que passou que para o futuro e o renascimento. Sobre o solo, também, o asfódelo, planta fúnebre dos cemitérios e das ruínas, flor infernal. Flor hermafrodita, chamada de pseudo-Narciso, consagrada a Hades e a Perséfone, o perfume do asfódelo lembra o do jasmim, tem propriedades narcolépticas, significando sempre perda da consciência, morte. O asfódelo era também conhecido entre os gregos pelo nome de aipo real. Neste sentido, era usado para coroar os vitoriosos nos Jogos Istímicos, conforme Píndaro atesta. Nos ritos fúnebres, era usado para indicar o estado de juventude eterna ao qual a morte dava acesso. O cipreste era sagrado pela longevidade, sempre de um verde persistente, encontrado nos cemitérios; árvore funerária, de resina incorruptível, lembrava imortalidade, ressurreição, morte, luto e renascimento. O salgueiro, ligado à morte, estava associado a sentimentos de tristeza e também à imortalidade. Os vegetais do Hades eram "representados" pelas ninfas denominadas Hespérides (hespera, tarde, poente), ninfas do poente, filhas de Nix, a grande deusa da noite, que as gerou por partenogênese.



AS HESPÉRIDES

São três, Egle (cipreste), Eritia (salgueiro) e Hesperaretusa (álamo), isto é, a brilhante, a vermelha e a do poente, o princípio, o meio e o fim do percurso solar. Estas três ninfas simbolizam, respectivamente, o Amor (Doação), o Desapego (Sabedoria) e a Compaixão (Serviço).

O território vestibular pelo qual se tinha acesso ao mundo infernal através dos lugares acima designados ficava logo abaixo da superfície da Terra, de Geia. Era chamado de o Bosque de Perséfone. Era um lugar lúgubre, desolado, nele viviam espectros, fantasmas, seres que haviam se fixado num estado entre a vida e a morte, que não haviam morrido ritualmente. O Bosque da Rainha do Hades era sobretudo território das divindades alegóricas. Dentre elas, destacamos: Algos (Dor); Geras (Velhice); Limós (Fome); Ponos (Fadiga); Metanoia (Arrependimento); Koros (Deboche) e sua filha Hybris (Desmedida); Penthe (Luto); Apate (Fraude); Sicofantia (Calúnia) sempre precedida de Ftnos (Inveja); Tryphe (Luxo); Lyssa (Fúria); Ate (Erro); Penia (Pobreza); Strofe (Chicana), cujo templo é o Palácio da Justiça, sendo seus ministros os juízes, os procuradores, os tabeliães e os advogados. Compartilhando o território com todas estas entidades, com a mesma importância, divindades e monstros como Eris (Discórdia), as Erínias (As Fúrias), os Centauros, os Gigantes, a Hidra de Lerna, as Górgonas, as Harpias, a Quimera, os irmãos gêmeos Fobos (Horror) e Deimos (Pavor), Enio (Grito de Guerra), o casal Tifon e Équidna. No centro do Bosque, uma árvore gigantesca, um olmo copado, árvore funerária, onde residiam os sonhos quiméricos. Este olmo era alimentado pelas águas do rio infernal Aqueronte.


TRAVESSIA DO AQUERONTE


De sua madeira se faziam as varas de punição, tudo o que servia para açoitar e vergastar.
O Érebo (obscuridade, escurecimento) era a camada intermediária, as trevas inferiores, por oposição e complementares às de cima (Nix). Dele se passava ao Tártaro. Guardava a entrada desta região o cão tricéfalo Cérbero. Nela ficava também o palácio de Nix, e de seus dois filhos gêmeos Hipnos e Thanatos, o Sono e a Morte.


HIPNOS E THANATOS

No palácio de Nix viviam também os Oneiroi (os Sonhos), os de mil formas, seus filhos. O Érebo era um lugar de permanência temporária (100 anos) das almas que, depois de julgadas, ficavam, em grande sofrimento, esperando o retorno.


O Tártaro é o abismo, o local mais profundo das entranhas da Terra, lugar de escuridão absoluta, sempre em declive, lugar que a luz jamais alcança. A distância que o separa de Geia é a mesma desta ao céu, Urano. Ou, de outro modo, o Céu e o Inferno são simétricos com relação à Terra. O Tártaro era a prisão dos deuses, dos grandes criminosos (Titãs, Sísifo, Tântalo, Títio, Ixion, as Danaides, os Alóadas etc.).


AS DANAIDES

Nele ficava o palácio de Hades-Plutão, cercado por um tríplice muro de bronze. O Tártaro sustentava os fundamentos da terra e dos mares. Alguns personagens do mito chegaram a penetrar nele e conseguiram sair (Hércules, Ulisses. Teseu, Orfeu). Unido a Géia, o Tártaro gerou Tifon e Équidna, aquele o maior dos monstros; juntos, os irmãos geraram inúmeros outros seres monstruosos (Hidra de Lerna, Quimera, Ortro, Leão de Nemeia, Fix, Cérbero, o dragão da Cólquida, o Abutre).


OS TITÃS NO TÁRTARO

No Tártaro havia um compartimento denominado "O Inferno dos Maus", lugar terrível, para onde iam os grandes criminosos, aqueles que haviam cometido crimes contra a família (genos), contra os deuses, contra a hospitalidade, contra a pátria (os vendilhões). A hospitalidade, saliente-se, era um dever sagrado. Todo estrangeiro era naturalmente protegido por Zeus Xênios ou por Palas Athena Xênia em Atenas. Era no Tártaro que as Erínias atuavam, atormentando as suas vítimas. Um lugar de torturas, de lamentações. Aridez, rochas, tanques gelados, lagos de enxofre, pez fervente. Era nesses lugares que as almas ficavam submetidas a torturas eternas, mergulhadas alternativamente para sofrer o frio e o calor extremos. A região era formada também por pântanos fétidos e rios abrasadores. Nenhuma esperança de retorno, de fuga, de consolação. Tudo triste e mecânico, repetitivo. A pena máxima a que ficavam submetidos os grandes criminosos enviados para o Tártaro era a obrigação de repetir o mesmo gesto eternamente. Ali, fixados na pena, sem qualquer possibilidade de mudança. O fogo, por exemplo, os torturava, mas não os destruía. A água e a comida jamais saciavam a sede ou a fome...

O Campo da Verdade era o lugar onde se reunia o tribunal para o julgamento das almas, jamais podendo se aproximar desse departamento a Mentira, a Maledicência e a Calúnia. Não se admitia também nenhum tipo de apoio ou proteção, mesmo divinos. Só a alma (Psiquê) e seus julgadores, Minos, Radamanto e Sarpedon, assesores de Hades.

Os Campos Elísios eram a morada das almas virtuosas. Primavera eterna, nada de sofrimento. Bosques perfumados, encantos, prazeres. Os heróis iam de corpo presente, conduzidos pelo canto dos poetas. Nesses Campos ficava a Ilha dos Bem-aventurados para onde eram transferidos os desejos de felicidade eterna, que ali poderiam enfim se realizar. O corpo de Aquiles, por exemplo, foi levado para lá por sua mãe, Tetis, o que lhe permitiu unir-se então a Helena, conhecendo ambos uma vida de bem-aventurança sem fim.

O Hades tinha cinco rios: Estige (que causa horror), Piriflegetonte (das chamas sulfurosas), Cocito (dos gemidos), Aqueronte (da estagnação, da tristeza, da aflição), o mais importante, e Lethe (do esquecimento). As almas chegavam ao Inferno conduzidas pelo deus Hermes, na sua função de Psicopompo. Ele as levava até as margens do rio Aqueronte, para que, na barca de Caronte, penetrassem definitivamente no Hades. Segundo a tradição, Aqueronte era um filho de Géia, condenado a permanecer para sempre nas entranhas da terra porque na luta entre deuses e Gigantes consentiu que eles bebessem de suas águas. Aqueronte, unido a Orfne, a ninfa das trevas, gerou Ascálafo. Este, como se sabe, estava presente quando Hades, tendo raptado Kore, transformou-a em Perséfone, fazendo-a "comer sementes de romã". Ascálafo, por ter propalado o acontecido, foi transformado por Deméter, mãe de Kore, numa coruja. Vive, por isso, empoleirado nos ombros do pai, cochichando-lhe coisas.

Junto ao palácio de Hades, vivia Hécate, a que "fere de longe, à distância", deusa trívia lunar, muito respeitada, que a cada vinte e oito dias subia à superfície da terra para pontificar nas encruzilhadas, lugar de transformações, de viradas de destino, poder que dividia com o deus Hermes. Profundamente misteriosa, tem correspondência com a Lua Nova. Preside às aparições de fantasmas e de espectros, sendo tanto a senhora dos malefícios ou dos benefícios. Devidamente reverenciada, liga-se aos cultos da fertilidade. Neste sentido, lembra que encruzilhadas são lugares de parada e de reflexão, lugares onde escolhemos não só as direções a tomar no plano horizontal mas, sobretudo, no plano vertical, para cima ou para baixo.

HÉCATE

Esse grande império coube a Hades quando Cronos e os Titãs foram derrotados por Zeus e seus irmãos. A Poseidon coube o domínio absoluto sobre todo o elemento líqüido, inclusive sobre as águas subterrâneas. A Hades, coube o imenso mundo subterrâneo, que passou a ser designado também pelo seu nome. Hades quer dizer o Invisível (Aides, Aidoneus); era também chamado de Plutão. Sob o nome de Hades, como divindade tutelar do mundo ctônico, ele não tinha culto; era temidíssimo, sendo, por isso, invocado por eufemismos. Um deles se fixou, Plutão, que se relaciona com a riqueza, a abundância, razão pela qual é representado muitas vezes com o Corno da Abundância. Violento, poderoso, soturno, só saiu duas vezes dos seus reinos. Uma vez para raptar Kore, na Sicília , e outra para subir ao Olimpo, a fim de se curar de um grave ferimento.

A Zeus, como se sabe, condutor da vitória e grande vencedor do monstro Tifon na batalha final pelo domínio do universo, coube não só o reino dos céus como a supremacia sobre todos os demais reinos. Hades-Plutão divide o seu reino com Perséfone. A deusa passa os meses do outono e do inverno com o esposo; a primavera e o verão ela os passa com a mãe Deméter. A descida (catábase) e a subida, o retorno (anábase) de Perséfone deram origem aos famosos Mistérios de Eleusis.

Ctônia era um dos nomes que os gregos tinham para designar o Hades, significando a palavra "a que fica sob a Terra, a região subterrânea". Hoje, com base no que a Mitologia Grega nos fixou, a superfície da terra, analogicamente, passou a significar o ser humano (humus, terra) enquanto ser consciente; já o mundo ctônico, com suas divindades, departamentos e monstros, o subconsciente. Os céus, com as suas alturas inatingíveis, onde vivem as divindades olímpicas sob a tutela de Zeus, passaram a significar o mundo supraconsciente.

A PRIVAÇÃO RADICAL


MOIRAS
Há uma passagem em Heráclito, filósofo grego da escola jônica, séc.VI AC, que diz o seguinte: O Sol não sairá dos seus limites; se o fizer, as Erínias, servidoras da Justiça, o desmascararão. Um dos maiores "pecados" para os gregos era a Hybris, personificada como filha de Koros, a insolência, o deboche, o desdém. Hybris era a desmedida, a imoderação, o orgulho, a vaidade, a arrogância, a falta de humildade perante os deuses, isto é, o Todo. Entendiam os gregos que tudo o que existe no universo tem um lugar, uma função. Isto não dependia dos deuses, pois eles também estavam obrigados a esta ordem, sujeitos a ela. Esta ordem fora instaurada por Moros, O Destino. Divindade cega, inexorável, gerada pela união do Caos com Nix, nunca admitida no convívio divino, desde a instauração da primeira dinastia (Urano-Geia), Moros (em grego, também, quinhão que cabe a cada ser humano ao entrar na vida; a palavra é usada ainda como infortúnio, destino funesto e morte). O nome Moros vem do verbo meiresthai, partilhar, sortear, o mesmo que deu origem ao nome Moira ou Moiras, as três irmãs que eram as donas do fio da vida, Cloto, Láquesis e Átropos. Conhecidas também como Aisa (s), eram as Moiras, por parte de mãe, irmãs de Moros, já que tinham, como ele, Nix por mãe. Todos, portanto, irmãos de Hipnos e de Thanatos, o Sono e a Morte, respectivamente.

Todas as divindades da mitologia grega estavam submetidas ao poder de Moros, os céus (Zeus), o elemento líquido (Poseidon) e os infernos (Hades-Plutão). Moros estava acima dos deuses e dos humanos, pois administrava uma lei que nem mesmo Zeus podia transgredir. As leis de Moros estavam escritas desde o princípio da criação, guardadas num lugar ao qual os deuses tinham acesso. O máximo que eles podiam fazer, entretanto, era apenas consultar o livro de Moros, jamais admitida qualquer mudança no que nele estava fixado. Só os oráculos podiam entrever e revelar o que estava escrito. Como não possuía templos nem culto, Moros era reverenciado por muito poucos. Representavam-no tendo sob os pés o globo terrestre; numa das mãos, uma urna onde estava guardada a sorte dos mortais. Na outra, um cetro, símbolo de seu poder soberano. No alto da cabeça, usa uma coroa de estrelas. Às vezes, Moros era representado por uma roda à qual está presa uma corrente. Acima da roda, uma enorme pedra; abaixo dela, duas cornucópias com pontas de lanças. São as leis cegas de Moros, como diziam os gregos, que tornam culpados tantos mortais, apesar de todo o seu empenho em se manter virtuosos. Ou, no sentido oposto, são as mesmas leis que tornam vitoriosas tantas pessoas que pelos seus atos demonstram o contrário da virtude, da honestidade e mesmo do respeito aos deuses. O exemplo clássico disto que aqui se expõe pode ser encontrado em Homero, na Ilíada, no episódio da morte do grande herói troiano, Heitor (canto XXII).


ANANKE


A obrigação que todos temos de respeitar a ordem universal era representada pelo conceito de Ananke. Este conceito significa coação, necessidade, e tem o sentido de fatalidade. Ananke governava todas as coisas de um modo providencial, uma espécie de necessidade mecânica, que vai além das causas puramente físicas. Um dos melhores exemplos deste desrespeito esta naquele comportamento que os gregos chamam de Hybris, a desmedida, o descomedimento, o orgulho. Nós o encontramos, ainda exemplificando, no mito de Dédalo e de seu filho Ícaro. Dédalo é o inventor, o técnico e também artista, símbolo do tecnocrata, que fabrica asas para que se filho escape do Labirinto, palácio cretense onde estavam presos. A história, como sabemos, termina em fracasso, pois as asas eram de cera. O que fica da história é que a tecnologia não é o melhor instrumental para se chegar às "alturas". A saída do Labirinto (subconsciente) em direção das alturas (supraconsciente) não pode ser feita através de meios técnicos, pois eles não passam de “asas de cera”. A ciência e seu subproduto, a tecnologia, são meios impróprios, totalmente inadequados, para se chegar à vida supraconsciente, à vida espiritual Ou seja, o mundo não melhora com a eles, piora...

Tudo no universo parece respeitar Ananke, a coação, a necessidade. "Olhem os corpos celestes", diziam os gregos, "como eles respeitam Ananke". Por que só o homem tenta escapar dela? Existe uma lei, uma ordem no universo que deve ser respeitada. Os hindus a chamam de Rita, a ordem universal, superior aos deuses, que devem obedecê-la também. Rita é a força da forças, uma categoria essencial da qual depende a própria existência. Tomado por Eris, por Até, por Lyssa, por Apate e por outras entidades o homem ultrapassa limites quer nunca deveria ter ultrapassado.

Hybris é uma insolência, um excesso, um arrebatamento que leva o homem, no fundo, a tentar se igualar com o divino ou a ultrapassá-lo. Uma disposição contrária àquilo que os gregos chamam de Sofrosyné, prudência, moderação sábia. O Oráculo de Delfos, no seu pórtico, ostentava, por isso, a máxima: Conhece-te a ti mesmo. Chama-se hamartia (violência), a expressão física da Hybris. Com ela, a lei natural é rompida, os deuses são desafiados. Entenda-se que isto nada tem de social ou jurídico. Nem, por outro, falamos aqui de "pecados", como as religiões patriarcais os encaram, principalmente o mundo cristão. Não se julgam no Hades, por exemplo, "pecados" sexuais (Hades-Plutão era, aliás, um estuprador). Zeus tinha um furor erótico insaciável. O que se julga no Hades é a pretensão, a disposição para o abandono da justa medida, a ignorância do que se é e, com isto, a falta de percepção do outro, isto é, do Todo.

Toda vez que aparece uma desproporção, toda vez que nos excedemos no desejo, no sofrimento, na beleza, no amor, uma divindade entra em ação. A Psicologia inventará mais tarde nomes para essas forças que nos fazem agir assim. Nomes mais pretensiosos e menos eficazes que aqueles que os gregos nos deixaram, sem dúvida. O problema que aparece, então, com a desproporção, a desmedida, é o da responsabilidade. Tudo isto desemboca no conceito de Ananke, a Necessidade, personificada sem rosto. O universo é envolvido por ela, pela Necessidade, por vínculos, fios, nós, obrigações, dependências, uma trama infinita. Ananke, por isso, também, toma o sentido de agarrar, constranger, obrigar. As deusas da necessidade, todas femininas, se agrupam nesse conceito de Ananke; são timoneiras, tecelãs, litigiosas, velam para que todos tenham a sua parte, que ninguém saia dos seus limites. A vida, contudo, é excesso, viver é exceder-se, diziam os gregos. Por isso, as deusas (Ananke) estão em toda a parte. A deusa Themis é um grande exemplo disto, já que seu nome lembra limite. Daí tornar-se ela a personificação das leis imprescritíveis e universais, que vêm antes das leis humanas. Themis é mãe das Horas, deusas dos ritmos da Natureza, e irmã de Aidos (Pudor).

O mundo ctônico, no seu aspecto trevoso, lembra sempre o terror da destruição. Desde que os homens começaram a trabalhar a terra, sabe-se que a alimentação e a vida crescem nas profundezas, que o cereal nasce dos mortos. Por isso, Hades é o aspecto destrutivo da vida e Plutão é o seu "outro" lado, o guardião das riquezas subterrâneas. A veneração das potências ctônicas é tão antiga quanto o homem. Os homens estão destinados à morte, são mortais. Um dos nomes de Hades-Plutão é Polygdemon (o rei que recebe muitos hóspedes no seu reino invisível). A imagem do reino de Hades oferece assim um duplo aspecto. O deus dos mortos é também o deus da abundância. Pluto quer dizer rico, dispensador de riquezas. Para entrar na posse dessas riquezas é preciso morrer, fazer a viagem subterrânea. Muitas estátuas representam o deus com o chifre da abundância, a cornucópia, e junto dele vários instrumentos agrícolas, símbolos da técnica a ser usada para se chegar à abundância. Entrar com esses instrumentos na Terra era penetrar no órgão feminino, unir o homem à mulher, o Céu e a Terra, um ato sagrado. Associa-se Hades a inúmeros cultos de fertilidade. Este aspecto de sua "personalidade" se deve sobretudo à sua esposa, Perséfone. A deusa fica seis meses com ele e nos outros seis volta à superfície para se encontrar com sua mãe, Deméter, deusa dos grãos, dos cereais e das colheitas. O retorno de Perséfone anuncia o crescimento dos cereais, a colheita e consequentemente a riqueza. Esta relação dupla, Perséfone-Hades, se completa ao percebermos que o deus é o mestre da invisibilidade, do mundo que precede a germinação secreta dos grãos. Dono do que escapa da vista humana, da percepção sensível dos homens, dono de algo que lhes parece ao mesmo tempo como terrível e promissor.

O nome que os gregos davam à Terra quanto ao seu aspecto subterrâneo, por oposição ao que ficava na sua superfície, como já se disse, era Ctonos. Como adjetivo, ctônico, designava os seres que vivem no seu interior, dragões, serpentes, monstros, anões, seres fabulosos, sempre ligados a ideias de morte, germinação, fecundidade. Representam por isso, analogicamente, o aspecto ctônico do nosso subconsciente, no que ele tem de obscuro, impenetrável, violento, imprevisível, fonte de dificuldades, de sofrimentos, de castigos, de torturas e de terrores, e também de renascimento, de ressurreição.

Nesta perspectiva, a mitologia grega deixa claro que os monstros são símbolos de dificuldades a vencer, de obstáculos a superar, para que seja possível ao homem (herói) entrar na posse de tesouros que tem dentro de si. Eles, os monstros, num certo sentido, representam as provas pelas quais temos que passar. São eles que dão a medida da capacidade do homem e do seu mérito. É preciso vencê-los e, mais do que a eles, é preciso que o homem vença a si mesmo, enfrentando os monstros que vivem no seu mundo ctônico. Em muitas ocasiões, os monstros não são mais que imagens do próprio eu do homem, que é preciso vencer para se chegar a um eu superior. Os monstros fazem parte de ritos de passagem. Muitos simbolizam as forças irracionais que levam o ser humano regressivamente para estágios anteriores ao do nível racional, que lembram o caos, a desordem, a desagregação. Por isso, o homem está sempre "caindo" do racional (consciente) para o irracional (subconsciente), jamais indo em direção do espiritual (supraconsciente). Cada ser humano tem os seus monstros contra os quais deve lutar, mesmo sabendo que sua vitória possa ser apenas momentânea. Nesta perspectiva, eles podem ser considerados como uma promessa de ressurreição. Temos todos, muitas vezes, que atravessar uma espécie de caos interior, infernal, escuro, nessa luta contra os monstros, para chegar a uma nova e luminosa forma. Os monstros simbolizam disfunções do nosso psiquismo, causadoras de desordens, desequilíbrios. O Inferno, o Hades, é o estado da vida psíquica daquele que foi vencido pelos monstros que enfrentou, seja porque se identificou com eles numa perversão consciente, porque a eles se rendeu ou porque, para escapar da situação conflitual, os recalcou, os pôs de lado, isto é, afastou-os, não querendo aceitar a luta.

Dentre as divindades que residem no Hades, citamos, a título de exemplo, como executoras da punição daqueles que fracassam na luta, a ação das Erínias. Elas são também chamadas de Fúrias e, como tal, se integram ao conceito da Ananke. Sãos monstros femininos alados, cabelos entremeados de serpentes, desgrenhados, garras; com chicotes e tochas, castigam tanto na terra como no Hades aqueles que romperam determinados limites. São guardiãs das leis da natureza e da ordem cósmica, tanto no sentido físico como moral. Punem assim todos os que ultrapassam seus direitos em prejuízo do direito dos outros, os seres que se entregam à Hybris. São as vingadoras do crime, punem os que pecam contra o genos. Punem a desmedida através da qual o homem corrompe a ordem cósmica, já que a hamartia (ação física decorrente da hybris) produz um miasma, uma mancha, uma nódoa, que é tanto religiosa como social, pois envenena tudo à sua volta. Como divindades ctônicas, vivem entre o Tártaro e o Érebo, nas entranhas de Geia, e têm por missão, também, a de punir os crimes que contra a Mãe-Terra se cometem. São as Vingadoras: Aleto, a que persegue com tochas; Tisífone, a que açoita o culpado e grita aos seus ouvidos; e Megera, a que joga os criminosos uns contra os outros. São instrumentos da vingança divina. Ao atuar, "trazem" o Hades para dentro da vida do criminoso. Neste sentido, são a "consciência mórbida". Interiorizam-se como remorso, sentimento de culpa, autodestruição, doença, criando estados obsessivos, dolorosos, loucura, em função do crime cometido. Excepcionalmente, podem as Erínias transformar-se em Benfeitoras (Eumênides), quando o criminoso se arrepende sinceramente, quando demonstra (longos períodos, anos e anos de demonstrações do seu arrependimento, prestação de serviços à sociedade etc.) que está procurando se tornar "outra" pessoa. Obrigatória, também, no caso, as pesadas compensações pecuniárias em função da falta cometida. Só, então, as Erínias poderiam se transformar em Eumênides...