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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

INTRODUÇÃO



CONSTELAÇÕES
               
Constelações são agrupamentos de estrelas próximas umas das outras ligadas por linhas imaginárias, que formam diferentes desenhos, como conjuntos, servindo estes para distingui-las, conforme denominação que os homens lhes deram. Para melhor encontrá-las, quando da sua observação no céu noturno, os homens, desde a pré-história, se habituaram a reunir as estrelas em torno das mais brilhantes, em maiores ou menores conjuntos. Em todas as civilizações, nas mais variadas latitudes, estes conjuntos deram origem às constelações. 
  
Dentre esses conjuntos, há alguns que, suficientemente elevados acima do horizonte, retornam a cada noite, sempre idênticos, sem se levantar ou se pôr, sempre visíveis por isso, fazendo circunvoluções em torno de um ponto que parece fixo no céu. São as chamadas constelações circumpolares. Para os habitantes do hemisfério norte, esses grupos estelares se movimentam em torno de um centro aparentemente fixo, a chamada estrela Polar, situada atualmente na constelação da Ursa Menor. Para os habitantes do hemisfério sul, no seu céu estrelado, as constelações giram em torno de uma zona escura sem uma estrela central visível.


ESTRELAS
As outras estrelas que se elevam no oriente, fazem um curso ascendente no céu, percorrendo um grande arco, terminando-o a oeste, sob o horizonte. Estas estrelas (a maioria) só se tornam visíveis em determinadas estações do ano. Os homens logo perceberam que essas estrelas que sumiam no horizonte não se apagavam. O que acontecia é que elas passavam a percorrer o céu diurno, um céu inundado de luz solar, que fazia desaparecer a sua luminosidade, mesmo a das mais brilhantes, durante essa trajetória. 

O agrupamento das estrelas em constelações é arbitrário, sempre dependeu da acuidade dos observadores e de sua cultura.  Todas as sociedades humanas, ao longo da história do homem, desde o paleolítico, sempre voltaram os seus olhos para o céu. Cada uma destas sociedades procurou definir os limites desses agrupamentos estelares, classificá-los, projetando neles as suas tradições, os seus mitos, os seus valores religiosos, as suas lendas, as suas histórias. 

Na antiguidade, as estrelas que ficavam fora dos desenhos eram chamadas pelos gregos de amorphotoi (informes) ou sporades
HIPARCO
(espúrias). Os latinos chamavam-nas de extra (na parte de fora), sparsiles (esparsas), informes (informes) e os árabes de al harij min  al surah (as que ficam fora da imagem). Os gregos chamaram os desenhos das constelações de semata ou
PTOLOMEU
teirea (signos ou corpos), de zodia (animais), de meteora (coisas suspensas no céu). Hiparco chamou-os de asteriomoi (feitos de estrelas), Ptolomeu de morphoseis (formas semelhantes) e schemata (figuras). Os latinos os chamaram de astra sidera, signa, constellatio e stellatio (astros siderais, signos, constelação e estrelário).

O primeiro texto grego (Phaenomena) que temos sobre as
ARATOS
constelações é de Aratos, de 270 aC., nele se mencionando a existência de quarenta e cinco agrupamentos. Muitos desses desenhos, sabe-se, vieram para Grécia através dos caldeus, da Mesopotâmia, que os haviam definido por volta de 1.500 aC. Ao longo dos séculos, muitas civilizações, desde os antigos egípcios, inclusive algumas do extremo-oriente, vêm disputando a honra de ter definido por primeiro esses agrupamentos estelares. O catálogo de estrelas de Ptolomeu foi publicado na Europa, em Colônia, em 1.537, com quarenta e oito desenhos de Dürer.    



ALBRECHT   DÜRER  ( 1471 - 1528 )
   
BÓREAS
Nosso ciclo (Mitologias do Céu – As Constelações) começa pelas constelações boreais, adjetivo derivado de Bóreas, nome pelo qual os gregos designavam um vento que vinha do norte, do hemisfério setentrional, a região ártica. Esta última palavra, ártico, lembre-se, vem de arktos, urso, tendo relação direta com as constelações da Ursa Maior (Ursa Major) e da Ursa Menor (Ursa Minor), circumpolares, ambas com sete estrelas principais. A disposição das estrelas da constelação da Ursa Maior sempre lembrou grosseiramente aos povos, desde a pré-história, uma carroça puxada por sete bois (septen trionis, em grego), advindo dessa leitura o nome setentrional para designar o hemisfério norte. 

Bóreas, na mitologia grega, era o deus do vento norte. Habitava a Trácia, ao norte da Grécia, região muito fria, de gente belicosa e selvagem. Era representado como um demônio alado, barbudo, vestindo uma túnica curta, e de força descomunal. Era filho de Eos, deusa da aurora, e de Astreu, um titã, filho de Crio e de Euribia. Os ventos pertencem à raça dos titãs, sendo personificados como seres sempre ligados a descontroles e a violências, incapazes de qualquer tipo de adaptação. Bóreas participou de muitos episódios no mito. Um deles o tornou muito famoso: atacou e matou o jovem Jacinto, belíssimo, cujo amor disputava com o deus Apolo. 


MORTE   DE   JACINTO, 1769 ( NICOLAS  RENÉ  JOLLAIN 



TORRE  DOS  VENTOS
ATENAS
Austral é adjetivo que vem de Auster, nome latino de Noto, um dos quatro ventos (anemoi) que os gregos colocavam sob o comando de Éolo, deus dos ventos.  Violento e quente, Austro soprava do sul (África) em direção do mar Mediterrâneo. Na direção contrária de Noto, soprava Bóreas (Aquilon para os romanos), vento frio e cortante. Do leste soprava Euro (Vulturnus para os romanos), gerador de tempestades. Do oeste, agradável e suave, vinha Zéfiro (Favonius para os romanos). Como divindades, todos participaram de inúmeros mitos. Austral tem como sinônimos meridional, sul, antártico.

Os ventos, por sua agitação, inconstância e instabilidade, às quais se aliam ideias de cegueira e violência, são forças elementares sempre inquietas e turbulentas. De um modo geral, na mitologia, são instrumentos do poder divino, vivificando, punindo ou ensinando. São portadores de mensagens, manifestações da divindade que quer se comunicar, passar as suas "emoções" aos humanos, desde a doçura mais terna ao seu descontentamento mais tempestuoso.

Embora dotados de poderes benéficos, os ventos, no geral, são considerados como maléficos, principalmente os do norte, responsáveis por muitas doenças. Particularmente nefastos eram os
CALAIS   E   ZETES
ventos que sopravam na direção noroeste, chamados de ventos negros, pois eram oriundos do norte, o império das trevas. Famosa é a passagem mítica que nos relata o rapto de Oritia, filha de Erecteu, rei de Atenas, por Bóreas, que a tornou mãe dos boréadas, os gêmeos Calais e Zetes, gênios dos ventos. Ambos participaram da expedição dos argonautas, na qual desempenharam papel muito importante. 




BÓREAS   RAPTA   ORITIA

Dentre as oitenta e oito constelações que estudaremos, temos cinco, conhecidas desde a mais remota antiguidade, que ficam “acima” da Terra, no Polo Norte Celeste. Os egípcios, por exemplo, diziam que
JOHANN   BAYER  ( 1577 - 1625 )
as estrelas das constelações circumpolares “não conheciam a fadiga”. Tecnicamente, conforme acordos internacionais celebrados já nos tempos modernos, o nome de todas as estrelas e de suas respectivas constelações deve ser grafado sempre em latim. Em 1603, Bayer propôs e foi aceito seu método segundo o qual cada estrela passou a ser conhecida não só pelo nome da constelação da qual fazia parte como por uma letra do alfabeto grego que a distinguia, segundo seu nível de importância. Assim, por exemplo, Regulus, a mais brilhante estrela da constelação do Leão, passou a ser conhecida por alfa Leonis. 





Neste ciclo, por razões astrológicas, interessar-nos-ão apenas as
CAMELOPARDUS
constelações conhecidas desde a antiguidade greco-alexandrina segundo a tradição ptolomaica, sendo quarenta e oito o seu número. Dentre estas, como se disse, cinco são circumpolares: Cassiopeia, Cepheus, Draco, Ursa Major e Ursa Minor. Faz parte desse grupo hoje, desde 1614, a constelação do Camelopardalis (conhecida como a da Girafa), às vezes denominada Camelopardus, aqui não estudada, inventada por Petrus Plancius e registrada por Bartschius, para representar o camelo que conduziu Rebeca a Isaac. O camelopardalis, girafa, em latim, é representado por uma figura híbrida, formada pelo camelo (camellus) e pelo pelo leopardo (leopardalis).

COMO AS ESTRELAS INFLUENCIAM UMA CARTA ASTRAL

Desde a antiguidade, a melhor tradição sobre as estrelas fixas, a helenística, de Anonymous 379, e poucas outras, inclusive a que nos foi transmitida pelos árabes, nos informam que a energia das chamadas estrelas fixas se expressa melhor numa carta astral através dos quadrantes em que se encontram.  No primeiro quadrante, falamos de uma influência tanto mais poderosa quanto mais próxima a estrela estiver do grau ascendente. No quarto quadrante, a estrela se dirá culminante (zênite) quanto mais próxima estiver do grau do Meio do Céu. No terceiro quadrante, a estrela estará a caminho do poente, sendo mais poderosa quanto mais próxima estiver do grau do descendente. No segundo quadrante, a estrela estará a caminho do seu nadir, sendo sua influência mais sentida no final da vida, quanto mais próxima estiver do grau da quarta casa. 

É evidente que ao interpretar a influência das estrelas num mapa natal e em que fase de uma vida elas se tornam mais poderosas, nunca podemos perder de vista a constelação da qual ela faz parte e como esta, no seu todo, afeta também o mapa. Por ser matéria muito específica, inclusive a questão das órbitas, deixamos aqui de aprofundá-la, sugerindo para aqueles que se interessarem que procurem se informar sobre astrólogos competentes que lhes possam ajudar neste particular. Ressalte-se aqui que não podemos atribuir a uma constelação e às suas estrelas as influências determinantes que levam aquele que às experimenta a agir desta ou daquela maneira, a se dedicar a isto ou aquilo, ou a ocupar esta ou aquela posição, mas sempre será possível através delas compreender melhor o sentido geral do tema onde se inscrevem as demais e mais importantes influências planetárias. 





CONSTELAÇÕES BOREAIS.





CASSIOPEIA
CASSIOPEIA - É a Rainha, mulher de Cepheus, rei da Etiópia, e mãe de Andrômeda, a Princesa. Esta família está toda na região circumpolar, região da qual estão próximas as constelações de Perseus e de Draco. Geograficamente, o mito de Cassiopeia se estende à Etiópia, à Arábia e ao sul do Egito. A história nos diz que, tomada pela hybris, um desmedido orgulho, ela se julgara não só mais bela que as Nereidas como mais bela que a própria Hera, a Senhora do Olimpo. Diante de tamanha ousadia, os deuses intervieram. O país todo deveria pagar por isso. Um monstro marinho foi enviado por Poseidon para destruí-lo. Consultado o oráculo de Amon, foram os reis etíopes, pais da jovem, informados que o país só se libertaria se Andrômeda fosse oferecida como vítima expiatória.  

A jovem princesa, espontaneamente, se ofereceu: entregar-se-ia ao monstro e o país seria salvo. Perseu, o grande herói, de volta de sua
CETUS
vitoriosa expedição (morte da Medusa), ao passar pelo país, tomando conhecimento da situação, prontificou-se a matar o monstro, de nome Cetus, muito parecido com uma descomunal baleia, que apenas com o seu deslocamento nos mares provocava destruidores maremotos. Um acordo foi então celebrado: o herói, como prêmio pela morte do monstro, se uniria em casamento à bela princesa. Cepheus e Cassiopeia omitiram, porém, um ponto muito importante: Andrômeda já havia sido prometida por eles ao tio paterno da moça, Fineu, que, a essa altura, já havia traçado planos para matar Perseu depois de sua vitória sobre o monstro.



PERSEU   LIBERTA   ANDRÔMEDA  ( THEODOR  VAN  THULDEN

Nosso herói, porém, não encontrou dificuldades para vencer a tenebrosa criatura do mar enviada por Poseidon; primeiro, paralisou-a, exibindo-lhe a cabeça da Medusa, transformada por ele em poderosa arma, acabando depois com ela a golpes de espada. Ao ser atacado por Fineu e seus comparsas, Perseu matou alguns, trespassando-os com a sua lança, e petrificou outros. Deixando o país, Perseu voltou à sua pátria, Tirinto, assumindo o trono real, e lá terminou os seus dias, em companhia de Andrômeda, que lhe deu muitos filhos.     


CASSIOPEIA
Cassiopeia lembra, sem dúvida, uma figura feminina de fundo matriarcal que a antiguidade colocou nos céus para representar a sobrevivência de um mundo desaparecido, o matriarcado. Cassiopeia é um símbolo do feminino ainda rebelde, mas sem condições de fazer prevalecer as suas prerrogativas de proeminência e comando. Daí, a punição que a história da rainha revela. Além de quase ter provocado a destruição do seu país, a orgulhosa rainha foi condenada a, sentada no seu trono, ficar eternamente dando voltas em torno de um ponto no polo norte celeste. Seu comportamento, por outro lado, lembra muito o da deusa Hera, que infernizou, com razão, muitas vezes, a vida conjugal que manteve com Zeus.  

A punição de Cassiopeia fica mais evidente quando lembramos o nome pelo qual o cristianismo antigo e medieval denominou esta constelação, Madalena. Maria Magdala ou Maria Madalena foi a mulher a quem Jesus livrou dos “sete demônios” e que perfumou os seus pés, segundo Lucas, passando a ser considerada, depois da sua conversão, como um modelo de mulher penitente e contemplativa. Não é outro o sentido que o nome Madalena toma no nosso léxico, de mulher arrependida, chorosa e triste, que expressa o arrependimento de suas faltas, devotando-se à vida religiosa.

Os árabes chamam esta constelação de A Mão Pintada com Hena por causa de Caph (mão manchada)
HENA
, sua estrela beta. Da hena, pequeno arbusto, de suas folhas secas e pulverizadas, como se sabe, faz-se uma tintura usada na cosmética, a arte que trata do embelezamento físico, principalmente das mulheres. As folhas da hena são colhidas entre os árabes sempre em meio a uma grande celebração religiosa (baraka). O mesmo procedimento encontramos no Sudão, na Índia, na Tunísia, na
HENA  -  PINTURA   CORPORAL 
Argélia e no Senegal. No Egito, a hena faz parte destacada do arsenal cosmético da mulher. O produto comercial extraído da hena tem o nome de Henê, no oriente e no norte da África usado em rituais de caráter medicinal, profilático, cosmético e purificador. Assim como a hena é a rainha de todas as flores, assim deve ser a mulher que a usa, é expressão que encontra apoio no Corão. Lembremos que entre os árabes chama-se Noite do Descanso da Hena aquela em que é dada a bênção aos jovens esposos. Ou seja, como a hena, a mulher se transforma em rainha do lar.



A constelação de Cassiopeia se estende de 25º de Áries a 0º de Gêmeos. Suas estrelas, isoladamente, não são de grande importância para a Astrologia, mas, no seu conjunto, como nos deixaram Ptolomeu e outros estudiosos do céu confirmaram, elas têm características venusianas com forte ênfase saturnina.  Há, com elas, uma ideia de excessivo orgulho devido à posição social, rigor, atitudes dominadoras, o que tende a trazer problemas para as uniões de um modo geral, Não é por outra razão que esta constelação aparece ligada no Tarot ao arcano nº 2, A Sacerdotisa, que, nos aspectos desfavoráveis, pode aparecer como destruidora dos valores femininos tradicionais, dificultando sobremodo uniões de situação privilegiada, não oferecendo a mulher nenhuma colaboração nem convivendo com a ideia de compartilhar.

Os astrólogos romanos deram a esta constelação nomes como Mulier Sedis (A Mulher do Trono) ou simplesmente Sedis, ao qual juntavam os qualificativos regalis ou régia. Os árabes foram pelo mesmo caminho, denominando-a A Senhora no Trono. O poeta

John Milton, no séc. XVII, nos seus versos de Il Penseroso, um poema sobre a melancolia, fez referências a Cassiopeia. No séc. XVII, quando o céu foi redesenhado pela Astronomia, como aconteceu muitas vezes, Cassiopeia se tornou Maria Magdalena ou Deborah, na sua função de juíza, sentada sob uma palmeira, no monte Ephraim. A constelação foi também chamada nesse período pelo nome de Bathesheba, a mãe do rei Salomão. Deborah foi uma juíza,

mencionando-se seu nome no Livro dos Juízes, do Antigo Testamento. Ela, segundo consta, teria livrado seu povo dos ataques do reino de Canaã. Era mulher de Lapidote e exerceu cargo público, prestando também serviços (atendimento) como profetisa sob uma palmeira. Já a belíssima e inteligente Bathesheba (Betsabá) foi uma das mulheres do rei David.  Urias, o marido de Betsabá, foi enviado pelo rei David para a guerra. Não tendo como escapar da perseguição real, Betsabá, já viúva (Urias teria morrido na guerra) se uniu a ele, tornando-se mãe de Salomão, rei que se tornaria famoso por sua grande sabedoria, em grande parte herdada da mãe, conforme algumas versões.




DAVI D  E   BETSABÁ   ( JAN  MASSYS )

Sob o ponto de vista astrológico, a estrela de Cassiopeia que mais nos interessa é Schedar (alfa), hoje a 7º07 de Touro. Ptolomeu entendeu que as estrelas de Cassiopeia tinham características saturninas e venusianas. A experiência astrológica vem demonstrando que as estrelas desta constelação parecem incorporar o arquétipo do feminino prepotente que se expressa por atitudes de comando e por exigências de reverência e respeito. O mapa astrológico da antiga ministra inglesa Margareth Thatcher pode ser um bom tema para o estudo das influências de Cassiopeia e de Schedar. Outro tema interessante para se estudar Cassiopeia e Schedar é o de Nancy Reagan, que tinha o Sol, Marte (regente da casa VII) e Mercúrio no MC.  


CEPHEUS, o Rei, move-se, como constelação, com as demais
CEPHEUS
apontadas, em torno do polo norte celeste. Rei da Etiópia, casou-se com a vaidosa Cassiopeia, nascendo dessa união a bela Andrômeda, que, por culpa da mãe, foi exposta ao monstro e salva por Perseu, como vimos. Como Cepheus não teve filhos do sexo masculino, o trono da Etiópia foi ocupado, devido à “petrificação” do casal real etíope, por Perses, um dos filhos de Perseu e de Andrômeda. 

Esta constelação, devido à sua posição de relevo no polo norte celeste, embora com estrelas de pequena magnitude, sempre apareceu associada a figuras reais, em várias tradições. Uma delas,
SALOMÃO  ( ÍCONE  RUSSO )
pelo Cristianismo medieval, foi a do rei Salomão, terceiro rei de Israel, filho de David e de Betsabá. Como nos revelam os textos, sabemos que Deus ofereceu a Salomão a escolha de um dom; ele optou pela sabedoria, achando que tudo dependia dela. Foi-lhe dado também por Deus o dom da profecia e a capacidade de entender a linguagem das aves e dos animais terrestres. Adquiriu grande poder material, bens e animais, amontoando riqueza e teve muitas concubinas. Ao fim da vida, porém, percebeu que nada disso o satisfazia. Escreveu o Cânticos dos Cânticos na juventude, Os Provérbios na maturidade e O Eclesiastes na velhice, obra de um homem desencantado com tudo o que a vida material lhe havia proporcionado.

Os chineses usaram esta constelação para ilustrar o seu entendimento de que o poder real não deve ser mais que a expressão de um mandato celeste. Em torno desse centro real, as
MING  TANG
diversas zonas do espaço (as provícias do império), deviam ser organizadas, imbricando-se umas nas outras, segundo as quatro direções universais. Esse centro se confunde com o eixo do Ming Tang, o espaço total, no centro do qual o imperador tem o seu trono. Evoluindo no Ming Tang, o rei, como o Sol, é responsável pela fixação, no seu império, dos ritmos diários e dos ciclos das estações. A figura real exerce, assim, uma função reguladora, fazendo a ligação entre o domínio cósmico e o domínio social.

As mesmas ideias tiveram os antigos povos védicos e celtas quando se voltaram para a observação desta constelação. O poder real tem que respeitar a ordem celeste. É por isso, exemplificando, que se proibia ao rei celta falar antes do druida (sacerdote, representante do poder religioso) nas assembleias, pois cabia a este último estabelecer as melhores diretrizes para que as relações céu-terra fossem respeitadas e bem conduzidas nas atividades e empreendimentos mais significativos ou em campanhas bélicas, de um modo geral. Os impostos, no mundo celta, deviam chegar ao rei para que ele os distribuísse convenientemente, isto é, a quem precisasse mais. Sem a observância da ordem céu-terra, a fecundidade da terra, das plantas e dos animais desaparecia, degradando-se a vida social. Não respeitando esta ordem, o rei se transformava num usurpador (usurpar é apossar-se ou tomar pela força e sem direito alguma coisa). Nesta hipótese, de desrespeito das diretrizes, o rei sempre terminava muito mal, tragicamente, afogado num tonel de vinho ou de cerveja e seu palácio incendiado. Submetido ao céu, que o druida representava, o rei devia ser sempre um intermediário, um mediador.

Cepheus se estende de 17º de Peixes a 0º de Câncer, sendo, por isso, uma das maiores constelações do céu. Por volta de 22.000 aC, a principal estrela desta constelação já ocupou a posição de estrela polar, posição que voltará a ocupar daqui a, mais ou menos, 7.500 anos. Como as estrelas de Cassiopeia, as de Cepheus também não têm isoladamente importância para a Astrologia, a não ser Alderamin (Al Deramin entre os árabes), sua estrela alfa, hoje a 12º05´ de Áries. O nome é uma referência ao braço direito (Al Dhira) da figura real que a representa. Ptolomeu nos informa que as estrelas desta constelação têm características jupiterianas e saturninas. Ou seja, inclinam à sobriedade, à ponderação, ao equilíbrio, à moderação, podendo Alderamin, porém, quando envolvida com “maléficos”, fazer a vontade claudicar, trazer dubiedade e mesmo capitulação nos aspectos mais dissonantes. 

Cepheus é um bom exemplo para se entender que as constelações, mesmo que possuam estrelas muito importantes, devem ser consideradas pelo que significam e propõe no seu todo. Cepheu é uma espécie de guardião do polo pela via do princípio masculino, que deve se submeter, contudo, a um poder superior, o celeste. Esta constelação pode sugerir também a necessidade de se procurar sempre ajustar os dois princípios, o masculino e o feminino. Cepheu, aliás, no mito, é uma figura que aparece, até certo ponto, pressionada pelo temperamento orgulhoso de Cassiopeia, uma poderosa representante do matriarcado que encontra muita dificuldade para se ajustar em termos da convivência masculino-feminino.

A soberania que Cepheus representa é masculina. Numa carta astrológica, sua melhor expressão será obtida por atitudes afirmativas que levem em consideração o “outro lado” do poder real, geralmente oculto ao olhar humano desinformado. Situado entre os deuses e os homens, o rei deve garantir a harmonia que sem ele não existiria, essa a sua função primacial. Daí as cerimônias de sua entronização da qual fazem parte obrigatoriamente a imposição de um manto, símbolo do céu, e do empunhamento de um cetro, símbolo da justiça a ser exercida na Terra. Isto lhe permitirá assumir a função de poder intermediário entre deuses e homens e de regulador da ordem social em nome da ordem cósmica. O poder real, masculino, entretanto, para se revelar completo, não pode prescindir do feminino ou só admiti-lo num plano apenas biológico. O princípio real masculino tem que admitir o princípio feminino, pois é este quem o anima. Quando estes princípios são verdadeiramente entendidos, isto é, elevados espiritualmente, eles se revelarão como doação, receptividade e reciprocidade.

Dentre várias cartas astrológicas que podem oferecer boas possibilidades de estudo  de Cepheus (a ser analisada sempre, no meu entender, com a de Cassiopeia) cito duas, em particular, as de José Saramago (Maria Pilar del Rio Sánchez) e de Nelson Mandela.






quinta-feira, 4 de setembro de 2014

ASPECTOS DO AMOR GREGO

               
Na história dos povos indo-europeus, encontramos um certo número de instituições que formaram rituais para que jovens passassem de um nível social a outro. Uma série de provas e cerimônias marcava mais ou menos solenemente essas passagens. Do oceano Atlântico ao Ganges está hoje comprovado que tal aconteceu realmente. Uma grande quantidade de mitos e histórias expressa como isso se dava. 




A pederastia (amor a jovens rapazes, etimologicamente) era uma das mais significativas dessas instituições. Era o amor de adulto por um jovem mal entrado na puberdade. Esse amor devia permanecer puro, embora a relação se revestisse de algo mais forte que a amizade (philia). Fossem dóricos ou jônicos os Estados, a pederastia estava institucionalizada como, por exemplo, entre os espartanos. 


CRONOLOGIA  DA   HISTÓRIA   DA   GRÉCIA



É de se ressaltar que entre os dóricos de Creta e Esparta o indivíduo pertencia ao Estado e sua educação era orientada na direção de um fim comunitário, enquanto em Atenas, no período clássico e no período helenístico (dominação macedônica), os pais tinham a liberdade de decidir quanto à educação de seus filhos, sempre com o objetivo de os tornar homens completos. Em Atenas se faziam restrições ao instituto da pederastia, inclusive legalmente, mas a legislação “não pegou”. Pode-se dizer, de um modo geral, que a pederastia era uma instituição generalizada em toda a Grécia, com aspectos peculiares em cada região, cultura e período histórico.


ERÔMENOS   E   ERASTES

Em Atenas, por exemplo, por volta do séc. V aC, no período clássico da história grega estavam em vigor leis que tratavam da prostituição masculina, da prostituição de crianças e da proibição de que pudesse participar, falar em assembleias e frequentar ginásios o condenado por prostituição. Neste particular, a história nos deixou registros de casos rumorosos, como o de Ésquines que moveu um processo contra Timarco, acusando-o de prostituição. 

ÉSQUINES
Demóstenes e Timarco, em 345 aC,  acusaram Ésquines de ter sido corrompido por Filipe da Macedônia. Numa peça oratória das mais brilhantes, Contra Timarco, Ésquines foi à réplica, declarando que Timarco nada poderia falar, pois era famoso por sua depravação, muito conhecido, na sua juventude, como eromenos (amante) de muitos erastes (jovens, pupilos) nos meios portuários do Pireu. A argumentação de Ésquines foi acatada e Timarco teve a sua palavra cassada, tendo, além disso, pela pena da atimia, perdido os seus direitos cívicos. Estávamos a esse tempo no chamado período helenístico da história grega, período em que a instituição da pederastia já ganhara fortes contornos de devassidão.
  
É certo que a pretendida pureza nem sempre existiu na instituição da pederastia. Foi por essa razão, por exemplo, que nos ginásios de Atenas, adultos, reconhecidamente depravados, de maus costumes, estavam proibidos de entrar. Entenda-se: nos ginásios gregos os atletas se entregavam nus às práticas esportivas. A palavra ginásio, etimologicamente, vem da palavra grega gymnasion, que, por sua vez, provém de gymnos, nu. 


ESPORTE   -    CERÂMICA    GREGA 

No período helenístico da história grega (dominação macedônica), por volta de 275 aC, abriram-se mais três ginásios em Atenas devido à grande quantidades de jovens que para lá se dirigiram, vindos do exterior (países vizinhos e colônias), com o objetivo de se aperfeiçoar física e mentalmente. Esses locais passaram obviamente a atrair muitos candidatos a assumir o papel eromenos. Mesmo nos Estados (Esparta) onde a prática da pederastia estava plenamente institucionalizada sempre se procurava exercer, através dos éforos, um certo controle no ingresso dessas pessoas nos ginásios.


LUTA    (BAIXO - RELEVO)  

O fato é que foi possível se estabelecer uma certa contenção da prática pederástica no início do período clássico (quinto e quarto séculos, o período das cidades-estados independentes, o das mais altas realizações do gênio grego), mas, nos séculos seguintes, fortemente marcado pela decadência política e social dos grandes centros urbanos), a instituição da pederastia descambou para os níveis mais baixos da homossexualidade.

EROMENOS  E  ERASTA
Contudo, é preciso ressaltar que os gregos, de um modo geral, sempre procuraram viver a instituição da pederastia de um modo bastante acertado. Eles nunca a colocaram na dicotomia homossexualidade-heterossexualidade, como uma oposição, uma diferença de comportamento procedente da oposição minoria/maioria ou do conflito tara, vício/normalidade.

São muitos os povos em que a atração e o comportamento sexuais não se dividem entre o homo e o hétero. A atração por um sexo não excluía, para o grego, de um modo geral, a atração por outro sexo. Historicamente, não pode ser defensável essa ideia da cultura ocidental de se identificar virilidade com exclusividade heterossexual, essa ideia que leva muitas pessoas, inclusive letradas, de instrução superior, a ver no homossexual masculino ou feminino só efeminação ou masculinização. Em muitas culturas do passado, atribuía-se grande importância a pessoas colocadas nessa perspectiva homossexual em função de sua atividade profissional (militares, religiosos, xamãs, atores, professores).


ANACREONTE

Nenhum escândalo quando, por exemplo, Anacreonte (poeta lírico) dedica algumas de suas maravilhosas odes a jovens companheiros. Ou que os mais belos poemas de Teócrito (poeta grego do período helenístico, de Alexandria, que trabalhou com a literatura bucólica) tenham um fundo homossexual. 

Inúmeros mitos, por outro lado, nos apontam que essa relação entre a pedagogia pederástica e a homossexualidade é antiquíssima,
JACINTO E APOLO
fazendo parte desse mundo indo-europeu, anteriormente à constituição da Índia e da Grécia como países e da Escandinávia como região geográfica. Um dos grandes amores de Apolo, cujas relações com o mundo feminino, nunca deram muito certo, foi o belíssimo Jacinto. O poderoso Hércules, modelo dos heróis machões das histórias em quadrinhos e do cinema, fascinado pela beleza de Hilas, raptou-o. Um das mais famosas histórias, neste particular, foi a do rapto de Ganimedes por Zeus. A mitologia grega, entendamos, é um reflexo da totalidade do mundo e não só de uma parte. Incorpora todos as possibilidades, pois Deus é o Todo e nada da criação pode ficar de fora. 

XENÓFANES



O caso de Zeus é exemplar para que se compreenda melhor a instituição da pederastia no mundo grego. Os gregos não hesitaram em levar para o céu os seus costumes, a sua moral. Xenófanes, filósofo grego da escola eleata, deixou-nos: se os bois e os cavalos tivessem mãos e pudessem pintar, fariam deuses-cavalos e deuses-bois.




ZEUS   E   GANIMEDES  (RUBENS)


Ganimedes é dos filhos de Trós, um dos ancestrais das dinastias troianas. O nome vem de ganos, líquido brilhante, e medesthai, ocupar-se, aquele que se ocupa do vinho, em grego. Jovem de extraordinária beleza, inflamou o coração do Senhor do Olimpo, que, para raptá-lo, tomou a forma de uma águia. Deu ao jovem, como compensação, alguns presentes: um aro (anel), um galo, ave-falo que espanta as trevas e os monstros da noite com o seu canto, anunciando a aurora, a luz. Deu também ao jovem um par de asas, imortalizando-o como um ser alado, símbolo da elevação. Zeus, quando do rapto, foi auxiliado por Tântalo, que acabou como um dos grandes criminosos no mito, e por Eros, deus da paixão amorosa. Ao pai do jovem, deu cavalos divinos, nascidos do deus Zéfiro, o vento que sopra na direção oeste-leste.

Ganimedes foi para o Olimpo com a missão de servir vinho aos deuses nas reuniões olímpicas, assumindo a função de escanção divino. Está ele hoje eternizado no Zodíaco como a constelação de Aquário, junto da qual está a da Águia (Zeus). Ganimedes tem por função, como amado dos deuses, distribuir o néctar entre os que participam do banquete transformado num rito de comunhão. A todos envolve a beatitude celeste por essa participação conjunta, estado a que o ser humano pode chegar ao beber o vinho como a bebida da imortalidade. 

Mesmo as figuras da história política e cultural da Grécia antiga, que nos parecem muito graves e circunspectas, não ignoraram os prazeres deste tipo de ligação. Sófocles, Fídias, Aristóteles, Sócrates, Platão, Felipe e Alexandre da Macedônia, Alceu, Píndaro, Anacreonte e outros, outros mais. 


SÓCRATES   E   ALCEBÍADES   ( SIMPÓSIO )

O modelos das instituições pederásticas gregas veio de Creta; era costume lá que os adultos escolhessem jovens para que estes se tornassem seus amantes; esta escolha estava condicionada a um aviso à família do jovem; era simulado então um rapto do jovem, devendo a sua família oferecer uma certa resistência, com mais ou menos veemência, mas, ao final, o rapto sempre se concretização. No fundo, uma espécie de espetáculo teatral, do qual todos participavam como atores. 

Dois meses depois, quase que totalmente dedicados pelo raptor e pelo raptado aos prazeres da caça, o jovem era devolvido à sua família, com presentes e um anel, consagrado a Zeus. Seguia-se um banquete, faziam-se sacrifícios e se perguntava ao jovem, o amado (erastes), se ele tinha alguma queixa a fazer contra o amante, adulto eromenos); se houvesse, as relações eram desfeitas.

Ao que parece, eram mais as qualidades morais que as físicas que determinavam a escolha do jovem pelo adulto. Os jovens assim escolhidos era muito honrados, a eles concedidos os melhores lugares nos ginásios e nos banquetes públicos. Os jovens nessas condições usavam roupas oferecidas pelo amante, roupas que tinham a finalidade de distingui-los de todos os demais que não estivessem nessa condição. Tais jovens, quando chegavam à vida adulta e não mais ligados a um amante, continuavam a ser honrados, sendo chamados de kleinos, ilustres.

É preciso salientar, sem que se entre aqui na questão de valor, nos aspectos éticos, que esta instituição, no seu todo, jamais conduziu a uma efeminação dos costumes ou a expressões mais extravagantes (travestismo). Só nos períodos de grande decadência é que se chegou a tal, sendo os seus participantes muito mal vistos. A eles se dava o nome de maltakos, palavra que quer dizer, pejorativamente, doce demais, suave em demasia, um comportamento meloso, afetado, cheio de trejeitos e ademanes. 

Nos Estados dóricos (Élida, Lacônia, Beócia) havia uma forma especial de pederastia, a de caráter militar. Para o povo desta região, este modelo era um excelente meio de preparar jovens para a carreira militar, pois criava uma estreita camaradem bélica. 

Na Lacedemônia (Esparta) encontramos um exemplo clássico desse “amor militar”. Licurgo, o grande legislador de Esparta, fixou o conceito de eugenia legalmente, da qual fazia parte, para a purificação racial, o casamento obrigatório. O celibatário, sob determinadas condições, podia solicitar a mulher de um cidadão, um homoios, um igual, se ela tivesse as qualidades físicas e morais que ele desejasse para ter um filho. Um homem podia também pedir um “favor” de natureza sexual a um outro, mais jovem, vigoroso e valente, que, unindo-se à sua mulher, lhe desse filhos fortes e bonitos. As mulheres em Esparta, recebiam uma educação viril e esportiva, desfilavam nuas, sendo muito promovidas socialmente pelo casamento.

A vida espartana era comunitária, em grandes acampamentos, tudo sob o controle estatal. Festividades coletivas, jogos esportivos, danças e espetáculos teatrais e musicais eram promovidos como forma de aliviar um pouco a vida duríssima que levavam os espartanos. Para permitir que as cidades funcionassem a contento e a população espartana ativa se dedicasse inteiramente à vida militar, o Estado mantinha, em regime de escravidão (hilotas), as populações das regiões que conquistava, o que vez ou outra lhe causava sérios problemas.

Quanto à vida familiar, grande incentivo era dado ao casamento, sobretudo tendo-se em vista a produção de uma prole numerosa, de onde sairiam os futuros soldados da pátria.  Na noite de núpcias, a mulher mantinha com o marido um contacto rápido, eis que no dia seguinte, às primeiras horas da madrugada, ela e ele já deveriam estar acampados. Os encontros amorosos se realizavam de tempos em tempos, a intimidade era pouca, pois, assim, segundo os chefes espartanos, o desejo permanecia vivo, o amor não esmorecia.

A criança, aos sete anos, saía do âmbito familiar e era colocada sob a tutela do Estado, passando a viver desde então em acampamentos, vivendo em regime comunitário, neles permanecendo até a vida adulta, a velhice e a morte. Os mais inteligentes e aptos fisicamente começavam cedo a comandar, fazendo o seu aprendizado de chefes. Os velhos supervisionavam os jogos e agiam muitas vezes para suscitar rivalidades a fim de melhor preparar os jovens. No mais, poucas letras, nada de cultura, apenas o essencial; o mais importante era transformar a criança num jovem treinado e disciplinado, endurecido, preparado para o combate. Lacônicos, cabeça raspada, pés descalços, nus a maior parte do tempo, preparados para enfrentar as variações climáticas.

Aos doze anos, a túnica era suprimida; uma espécie de manta, que deveria durar um ano, lhes era fornecida . Os leitos eram duros, os banhos sempre frios, mesmo no inverno. Era nesta idade que apareciam os erastas, de alta qualidade moral e física, que se ligavam a um escolhido, tornando-se responsáveis por ele. Se o erastes, o amado, não se saísse bem, o amante (erasta) era chamado às falas pelo conselho de magistrados.

Muitos erastoi podiam amar um mesmo jovem, sem rivalidade. O Objetivo era torná-lo o melhor possível. Estas mesmas relações existiam também entre as mulheres e as jovens. Platão, ateniense, refinado e culto, não acreditava na “pureza” espartana.


ATENAS    -    SIMPÓSIO

A pederastia ateniense era bem diferente. O seu melhor ambiente era encontrado nos meios intelectuais, não intervindo o Estado na vida privada. Os atenienses eram artistas, filósofos, estetas, escritores, poetas, músicos, gente que gostava de conversar, discutir, apreciavam a dialética, a arte do debate, eram inteligentes. Platão escreveu muito sobre a pederastia, sobre suas tentações e recompensas. Por sua causa, a ela se deu também o nome de “amor platônico”.

Na mitologia heroica, conforme Homero narra em seu poema A Ilíada, produzida em função de um período histórico muito distante, do das glórias de Atenas e Esparta, vamos encontrar exemplos clássicos de uma forma de amor peculiar, a do amor entre guerreiros. Um dos melhores é o da relação entre Aquiles e Pátroclo. O primeiro é um herói da Idade do Bronze, o seu maior guerreiro. Etimologicamente, seu nome sugere ideias de sofrimento, dor. É a figura central da Ilíada, onde é citado quase trezentas vezes.  Suas histórias, a partir de Homero, se ampliaram, o que nos permite falar de um ciclo de Aquiles sob o ponto de vista literário.

Aquiles cultuou várias amizades masculinas, mas nenhuma como a de Pátroclo, que tinha com ele um certo parentesco, a quem se ligou desde a infância. Eram companheiros de tenda. Quando
AQUILES  E  PÁTROCLO
Pátroclo morreu (guerra de Troia), atacado por Heitor, Aquiles foi tomado por tamanha dor que Tétis, sua mãe, chegou a temer por sua vida. Aquiles passava os dias derramando lágrimas, cantando, tocando a lira, saudoso de seu falecido amor. Pouco tempo depois, como se sabe, Aquiles também morreria, por intervenção do deus Apolo, que dirigiu a flecha de Páris para o único ponto vulnerável de seu corpo, o calcanhar. Uma versão do mito nos relata que depois da morte de Aquiles as suas cinzas foram juntadas às de Pátroclo para que assim permanecessem por toda a eternidade.


O que fica para nós hoje, dos aspectos aqui abordados, é que a
MAURICE SARTRE
antiga sociedade grega envolveu o seu conceito de masculinidade numa atmosfera fortemente erotizada, mas nada comparado aos “paraísos gays” que o mercado hoje oferece. Lembro aqui que a palavra gay, conforme nos explica Maurice Sartre, da Universidade François-Rabelais, de Tours, tão usada pelos meios de comunicação é um termo de origem francesa, em circulação desde o séc. XVI, para designar os homossexuais, ou melhor, o lugar onde eles se reuniam. Da França passou à Inglaterra e aos USA no séc. XIX.  



ACADEMIA   DE   PLATÃO   ( ANSELM  FEURBACH )

As práticas homossexuais entre os gregos faziam parte de comportamentos sociais admitidos, alguns até habituais e, apesar de alguns aspectos de degeneração, eram inteligentes, tinham uma certa classe. A literatura que tratou desse tema, por exemplo, nunca foi clandestina. A própria arte, a dos esplêndidos vasos gregos, conservou para nós muitas imagens desse mundo. O melhor que ficou dele veio certamente dos meios aristocráticos e intelectuais de Atenas, das obras de Platão (O Simpósio e Phedro, principalmente), onde encontramos uma posição clara do lugar que nesse mundo do amor masculino e feminino ocupavam a carne e o espírito, algo incompreensível para mundo de hoje.