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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

VIRGEM (3)


CATEDRAL   DE   CHARTES
Dentro deste universo simbólico não nos surpreende o rito praticado, em tempos muito remotos, por sacerdotes gregos e romanos, que costumavam lançar grãos de trigo sobre as vítimas humanas imoladas para se garantir o renascimento dos vegetais, as próximas colheitas. Tal rito era, em suma,   uma prática que lembrava a imortalidade, a ressurreição. Além disso, explicava-se por esse rito também a razão  de se trazer espigas de
ESPIGAS   DE   TRIGO
trigo para o interior das casas com o objetivo de proteger tanto o edifício como os que nele viviam.  Presas à viga mestra das casas, quando de sua construção, as espigas de Deméter asseguravam não só solidez à construção como paz e prosperidade para os seus moradores.

É de se lembrar, quanto ao uso de espigas no interior das casas, como está acima, que os gregos antigos usavam também, com a mesma finalidade, mas na parte externa da construção, um elemento a que davam o nome de acrotério (de acro, ponta). Situados no mais elevado do frontão das construções, dentre os elementos mais usados como acrotérios (vasos, estatueta, bolas, imagens de animais etc.), encontramos a pinha, um símbolo do deus Dioniso. 

PINHA
A pinha, como se sabe, enquanto dionisíaca, é um  símbolo da vida sob a sua forma imperecível. Consagrada a várias divindades, mas principalmente a Dioniso, a pinha representa a permanência da vida vegetativa, a alternância das estações e a ressurreição da natureza. O longo bastão de Dioniso, o chamado tirso, atributo do deus e de suas sacerdotisas, era rodeado de hera, de flores da vinha e de cachos de uva. No topo, para a sua empunhadura, uma pinha encimava-o.  

Ao se apoderar da história de Deméter, a psicologia profunda vê no arquétipo por ela descrito um comportamento neurótico. As neuroses, como sabemos, constituem um conjunto de problemas de origem psíquica que, dentre outras características, costumam se manifestar por um comportamento compulsivo, de caráter obsessivo. Diferentemente da psicose (transtorno mental caracterizado por desintegração da personalidade, conflito com a realidade, alucinações, ilusões etc.) a neurose conserva uma referência à realidade, liga-se a situações circunscritas e gera intensas perturbações sensoriais, motoras, emocionais e ou vegetativas. 

O arquétipo materno liga-se, inconscientemente, no ser humano, aos elementos passivos, negativos, à água e à terra, entendidas estas como as matrizes que deram origem à vida. A primeira sempre foi divinizada por todas civilizações como o princípio de todas as coisas. A noção de águas primordiais existe em todas as culturas, simbolizando origem, purificação e regeneração. A terra é a
KNUM
substância universal, prima matéria, separada das águas, e é dela que sairá o homem. Este é o significado da argila como matéria que será utilizada, por exemplo, pelo deus Knum, entre os egípcios, para fabricar o homem. Ou, como está no Gênese, quando Elohim modelou uma estátua de argila vermelha, à sua semelhança, e nela insuflou uma alma. As palavras hebraicas adamah (terra) e adom (vermelho) têm relação com o primeiro homem criado, Adão, segundo esta tradição. 

Deméter tem a ver com as estações, com os trabalhos agrícolas, com a semeadura, com o crescimento das sementes, com os campos trabalhados, com as colheitas e com os celeiros. Sua função materna é importante, mas limitada, pois sofre uma violência, o rapto de sua filha, Koré. Esta violência é a causa da sua neurose, acima referida. Um detalhe muito importante desta história é que essa perda é apoiada e até incentivada pela própria Geia, avó de Koré, a Grande Mãe Universal, como está no hino homérico a Deméter. 


RAPTO   DE   KORÉ  ( ALESSANDRO  ALLORI , 1533 - 1607 )

Lembremos que Deméter é particularmente honrada na Sicília, pois é considerada como a sua divindade protetora. A deusa, na Sicília, representa um caso notável de associação de antigas crenças. Não só os antigos colonos gregos da ilha a ligaram a uma antiga deusa local da fertilidade como lá reconstruíram o mito. A jovem Koré estava em companhia de algumas ninfas oceânidas quando, ao colher narcisos, foi raptada por Hades, o Senhor dos Infernos, que estava à procura de alguém, uma deusa, que com ele pudesse compartilhar o poder sobre o seu reino.

Deus temido, soberano de um mundo invisível, lugar sem saída (salvo para os que acreditavam na reencarnação), mergulhado eternamente no frio e nas trevas, povoado de monstros, de
KORÉ    E    A   ROMÃ
espectros e de fantasmas, com os seus rios, antros e cavernas nos quais perambulavam as almas dos danados, Hades resolveu seu problema pelo sequestro. Sob o protesto de Ciane, uma das companheiras de Koré, transformada numa fonte por isso, arrastou a jovem para o seu reino, colocou nas suas mãos sementes de romã, símbolo da fidelidade conjugal, e fez com que ela as engolisse. Koré as experimentou e parece ter gostado.  Com isso, ficou “presa” definitivamente ao Hades. 


TRAPANI
Na versão siciliana do mito, consta que durante nove dias Deméter errou pelas terras da ilha à procura da filha desaparecida. Na sua passagem, ela foi deixando marcas por onde andou. Há um promontório foiciforme perto de Trapani que os sicilianos dizem ter sido originado pela perda de uma foice que Deméter, como deusa das colheitas, usava. Contam ainda que por causa de Deméter os tremoços, antes adocicados, amaldiçoados pela deusa, tornaram-se amargos e tóxicos. A deusa os amaldiçoou porque, ao perambular pela ilha à procura de Koré, interpretou como gozações, chacotas, os ruídos que as plantas da leguminosa emitiam quando de sua passagem. 

No seu desespero, não encontrando a filha, Deméter provocou uma seca terrível em todo o mundo. Homens e bestas começaram a morrer. Os deuses deixaram de receber sacrifícios. Zeus intercedeu e obrigou Hades a devolver Koré à mãe. Mas a jovem já havia experimentado as “sementes de romã”. Assim, ligara-se ao Senhor dos Infernos. Um acordo, então, é celebrado. Ela passaria uma
MINTHE
parte do ano com ele e outro tanto com a sua mãe. Uma prova de que Koré, já transformada em Perséfone, se afeiçoara bastante ao Senhor do Hades está na tenaz perseguição que ela moveu contra uma ninfa que mantinha relações com ele. Enciumada, Perséfone pôs-se a maltratá-la. Hades, contudo, não desejando perder a amante, a levou para as montanhas e a transformou numa planta, a hortelã perfumada e refrescante, com o nome de Minthe. 

Há uma outra versão sobre o caso acima. Como Koré, já como Perséfone, se afeiçoara bastante com o Senhor do Inferno, Deméter resolveu intervir a favor da filha, condenando a planta (hortelã pimenta, mentha piperita) a não gerar frutos, advindo daí a dupla reputação que a menta tem para os povos mediterrâneos: um caráter funesto, considerada como uma planta que ao mesmo tempo que causa a esterilidade tem um caráter afrodisíaco. 

Hipócrates, Aristóteles e Plínio, o Velho, acreditavam que a menta atuava como anticoncepcional. Grande parte desta aura que cerca a menta pode ser atribuída a uma lenda cristã. Consta que quando o menino Jesus e sua mãe fugiam de Herodes a menta os denunciou (felizmente em sottovoce e não foi ouvida), razão pela qual Maria a amaldiçoou: Tu és menta e tu mentirás sempre; florirás, mas não darás frutos.

Do ponto de vista de Geia, a Grande-Mãe, os elementos e acontecimentos desta história, sedução, rapto, “ingestão” de sementes de romã por Koré, a presença de Minthe, a ninfa do Hades, a indiscrição de Ascálafo eram irrelevantes. Não tinham a grande importância que lhes foi dada por Deméter e, a princípio por
LAGO   DE   PERGUSA
Koré. A “perdição” da jovem, como ficou claro em Homero, foi apoiada pela própria Geia que, inclusive, dela participou indiretamente ao cultivar as flores que ajudaram Hades a raptar a jovem. O rapto, segundo a tradição mais confiável, ocorreu na Sicília, perto do lago de Pergusa, sob os protestos das companheiras, em especial de Ciano, transformada por Hades numa fonte. 

Para Geia, o rapto de Koré e a sua sedução eram fatos naturais, tão naturais como o nascimento e a morte, que ela sempre enfrentara com tranquilidade e resignação. Suas experiências com Urano, neste particular, ainda que violentas, ela bem o sabia, faziam parte da ordem natural do mundo, na qual as violações apareciam como necessárias, inevitáveis. 

Num primeiro momento, Deméter simboliza uma fase muito importante na história da humanidade na medida em que ela, na
ELÊUSIS  -  GRÉCIA
linha sucessória das Mães ligadas à terra, vindo depois de Geia e de Reia, representa o aparecimento da agricultura com o consequente processo de sedentarização, isto é, o abandono da vida selvagem, nômade, coletora pela vida social mais organizada. Num outro plano, a mensagem mais importante deusa, através de Elêusis, é a da imortalidade da alma e a da sua eterna ressurreição depois da morte. 

Como se não bastassem essas possibilidades significativas, lembremos que Deméter ensinou aos homens a arte de plantar e de colher, atividades que dependem sempre de uma elevada capacidade discriminatória. O agricultor tem que ter, numa ponta, para plantar, a clara noção do lugar em que o fará, do tipo de solo, da estação, das condições climáticas, da qualidade das sementes e dos demais cuidados necessários. Noutra ponta, clara noção do momento oportuno da colheita, dos meios disponíveis para tanto, do que e onde o colhido deverá ser armazenado e do fim a lhe ser dado. Entre as duas pontas, os cuidados permanentes para que tudo o que foi plantado venha à luz da melhor maneira possível. 


A   COLHEITA  ( BRUEGEL , 1521 - 1569 )

A capacidade discriminatória de Deméter, numa visão mais apressada, parece dizer apenas ao que ocorre na “superfície”, à percepção das diferenças nele constatáveis, visíveis. Entretanto,
PERSÉFONE   E   HADES 
lembremos que o “outro lado” de Deméter é  Perséfone, e que elas, no fundo, são a mesma coisa. Assim, enquanto uma atua em cima, a outra atua em baixo. Por isso, a percepção de Deméter deverá implicar  também, sempre, a percepção do que ocorre no mundo inferior, o mundo do “não-visto”, do invisível. Ou seja, notar as diferenças no mundo de cima e ter, ao mesmo tempo, uma percepção do que é  invisível, que está no mundo inferior. 

O que acontece, porém, com relação a Deméter, como o mito desenha o arquétipo, é que ela não tem esta percepção “inferior”.
HÉCATE
Quando perde a filha, ela se torna depressiva.  Decreta a seca universal, nega o futuro. É a velha máxima da psicologia: se não posso ter o que desejo, destruo tudo e/ou me autodestruo. Sob o disfarce de um animal (tema já abordado acima) e de uma velha, Deméter perambulou pela terra, desesperada; deixou de tomar banho, não se alimentou, até encontrar Hécate, a deusa lunar triforme que lhe disse também ter ouvido os gritos da jovem, mas que não lhe fora possível reconhecer o raptor. Sugere Hécate que ela vá ao deus Hélios, que tudo via, já experiente nessas questões (a revelação do affaire Ares-Afrodite). Assim foi feito, cientificando-se então Deméter das circunstâncias do rapto de Koré e de seu autor. 

O comportamento de Deméter é reconhecidamente neurótico, como se disse. Desespero e depressão quando perdida a filha. Contentamento, pulos, “esquecimento” do drama vivido, quando a recuperou. A história de Deméter nos revela também, por essa linha de raciocínio, que, acima de tudo, a vida adquire um significado em função do que sentimos. São eles, os sentimentos, os doadores da vida. De bem com a vida, Deméter é benevolente, dadivosa. Mal com a vida, quando tem que lidar com o “lado ruim da vida”, é depressiva, agressiva, negativa, destruidora. Esse jogo normalidade/anormalidade nos introduz numa questão importante dos arquétipos, a de que todos têm também a sua patologia. Ou seja, num único e mesmo arquétipo podemos ter a sua patologia e a sua terapia.  


DEMÉTER
Quando recebemos os dons de Deméter, precisamos ficar cientes das dificuldades que eles nos oferecem, das suas implicações inconscientes, na maioria das vezes. A única maneira de percebê-las será ir em direção do Hades. Uma  das formas que usamos para representar as nossas perdas é o luto, tanto uma autopunição como uma punição com relação àqueles que fazem parte do mundo em que vivemos.

O “luto” de Deméter é representado pela cor negra, que caracteriza, numa “leitura” apressada e superficial, as trevas, a tristeza, a morte, a negação absoluta, o silêncio sem vir a ser. Os gregos e os romanos faziam da cor negra um símbolo do luto, cor das penas e das angústias da alma. No simbolismo ocidental e cristão, principalmente, o negro sempre foi usado como cor funerária, o “luto sem esperança.” A tradição ocidental atribui ao negro uma significação nefasta conforme o atestam expressões como “ideias negras”, “humor negro”, “besta negra”, “filme noir” etc. O negro designa o sombrio, o triste, o que se opõe ao claro, ao alegre, ao luminoso. 


A   FESTA   DE   AFRODITE  ( P.P. RUBENS , 1577 - 1640 )

Os conflitos entre os cultos de Deméter e de Afrodite encontram aqui a sua explicação. Koré, lembremos, foi raptada quando colhia flores, que, no mito, “pertencem” a Afrodite, a deusa das forças incontidas da fecundidade enquanto símbolos do desejo apaixonado. Afrodite é o prazer dos sentidos, da sexualidade que independe da procriação. É a alegria de viver, a atração voluptuosa, a sensualidade, a sedução, a celebração das trocas, a comunhão afetiva, o encanto, a beleza, a graça. O seu poder fala de ternura, de
PAPOULA
carícias, de doçura, de tudo que signifique prazer e beleza. É por essa razão que nos cultos de Deméter as flores estavam proibidas (oposição Touro-Escorpião). Apenas uma flor era admitida nos cultos de Deméter, a papoula, pois a deusa, quando desesperada, por sugestão divina, para se acalmar, tomara uma infusão preparada com as pétalas da flor (mekhon) que, representava em Elêusis, o sono, o esquecimento, inclusive o sono que se apoderava dos humanos depois que morriam até um eventual renascimento. Certas correntes míticas vêem a papoula como um personagem, por ela amado, metamorfoseado em flor.


NIX  ,  THANATOS  E  HIPNOS

O efeitos narcóticos da papoula são conhecidos pelos gregos desde a mais remota antiguidade, um atributo, no mito, pertencente aos deuses Hipnos, Thanatos e Nix, todos usando coroas feitas com a flor. Por seu caráter alucinógeno (extrai-se ópio da papoula), a papoula era uma flor sagrada, pois permitia viagens  extracorporais, viagens que sem uma orientação adequada podiam levar a viagens sem volta. 

A história de Deméter ganha outra dimensão se lembrarmos que ela “nega” com todas as suas forças o mundo “inferior” (Hades) ao se apegar neuroticamente (destrutivamente) ao mundo “superior”. Sua visão é  completamente diferente da de Geia, que “sabia” que os dois mundos são uma coisa só". Deméter perde a sua escala de valores (o que vale é só o mundo de cima), não há discernimento, discriminação, só desdém. As coisas para ela só valem pelo seu aspecto “de superfície”. Daí, a sua mágoa, a sua violência, quando a privam delas. Uma visão unilateral do signo de Virgem?  


PIETÀ  ( MICHELANGELO , 1475 - 1564 )

A mensagem astrológica do que estamos colocando poderá ser melhor apreendida se lembrarmos que o signo de Virgem, ao “receber” o ego nascido em Leão, quinta casa, não deverá apenas se fixar nos seus aspectos de “superfície”. Deverá cuidar do “outro lado”, preparando-o para a jornada subterrânea que se inicia neste período do ciclo anual. Uma das grandes imagens desta passagem está, por exemplo, numa das mais belas obras da escultura de todos os tempos, a Pietá, de Michelangelo. Com efeito, o signo de Virgem trata das transformações de nossa personalidade que partem de estados infanto-juvenis para a conquista de uma individualidade mais sábia, mais madura, representada pela fruição da colheita. É a partir de Virgem que começa a nossa reorientação (mal nascido o ego) para interesses mais universais, que, numa primeira etapa, devem passar obrigatoriamente pela vida representada pelo signo de Libra e pela sétima casa astrológica. 

Em Virgem acaba a aventura individual do ser humano. As forças do dia ainda predominam, mas começam a perder o seu poder. Por ser um signo de terra, Virgem nos fala, efetivamente, de coisas práticas (o “prato cheio” de Deméter), mas não há que se perder de vista que o caminho para o universal se abre aqui.  

Deméter, ao decretar a seca, procura eliminar o úmido do universo. Nega as possibilidades de contacto, presa de uma “ira vã e
HOMERO  ( MUSEU  DO  LOUVRE )
insaciável”, como está em Homero. A deusa, ao assim agir, nega o futuro. O quadro, como disse, é depressivo, neurótico, parecendo retirado da psiquiatria moderna: ela não se banha, deixa de comer, realiza tarefas que estão claramente muito abaixo de suas habilidades, anula a sua beleza, disfarçando-se, nega a sua própria sensualidade, foge do seu ambiente natural, o campo, procura a polis. 

ÍRIS ( L.GIORDANO )
Segundo o mito, sabemos que Zeus despachou a deusa Íris para acalmar Deméter, que não se recusou a ouvi-la. Depois, vieram outros deuses. A mesma resposta: ela jamais poria os pés no Olimpo e não permitiria que nada mais brotasse na superfície da terra enquanto a filha não lhe fosse devolvida.  Zeus, então, enviou seu embaixador plenipotenciário, Hermes, para discutir com Hades a questão e resolvê-la, de modo que a jovem retornasse ao seio materno. Hermes explicou a Hades que se Koré não fosse devolvida à mãe, a “débil raça humana seria aniquilada” e, com isto, os deuses não mais seriam honrados. Explicou mais Hermes que como os deuses “vivem” dos cultos que lhes são prestados e de sacrifícios recebidos, a extinção da raça humana significaria também a extinção dos deuses. Nada mais lógico.

Não houve necessidade de maiores detalhes para que Hades logo se convencesse, sendo-lhe prometido que a jovem passaria uns tempos com a mãe na superfície e outro tanto com ele no mundo ctônico. Consentiu que a jovem retornasse, fazendo-a, porém, ingerir mais
HADES
sementes de romã, o que lhe bastou para deixá-lo tranquilo quanto à certeza de sua volta. Feito isto, Hades mandou atrelar os seus cavalos e a levou no se divino carro até Elêusis. À vista de sua filha, Deméter não conteve a sua alegria. Sua primeira pergunta foi a de que se no Hades havia comido alguma coisa. Conformada com o ocorrido, Deméter e a filha passaram muito tempo trocando afago e demonstrações de afeto. Consta que a deusa infernal Hécate, tia da jovem, participou efusivamente do encontro e que Zeus enviou sua mãe, Reia, (e de Deméter também) com a missão de confirmar tudo o que se estabelecera. 

Deméter, como Mater Dolorosa, e sua filha sempre suscitaram nos gregos uma forte religiosidade. O mito grego segue de perto o modelo egípcio, de caráter osiriano, alterando-o, porém, no sentido
SACERDOTISA E INICIADO
de sua “persefonização”. O iniciado nos Mistérios era chamado também de Demetrios, sendo a filha uma forma regenerada, rejuvenescida, da mãe, quando de seu regresso do Hades. Os Mistérios falavam, pois, de um novo nascimento. A passagem de Koré, jovem rapariga núbil, a Perséfone, deusa dos Infernos, significa uma mudança de estado. Durante muito tempo, lembremos, desde tempos muito remotos, o rapto sempre foi considerado como um ritual matrimonial, um equivalente do estupro, um sequestro da alma. Temos o rapto da jovem pelo seu tio paterno e materno, o consentimento do pai (Zeus), a colaboração de Gaia, a grande ancestral, cujas entranhas se abriram para receber a bisneta. A testemunha de tudo isto é Euboleus (Bom Conselheiro), um porcariço que guardava os animais de Hades na Sicília, no local da cena. No momento em que a terra se abriu, alguns porcos desceram, caíram com Koré no Hades, razão pela qual se instituiu um rito de sacrifício de porcos quando das Tesmofórias, grandes festas anuais que se realizavam em homenagem a Deméter. Nessas festas, de caráter exclusivamente feminino, o mito de Deméter era inteiramente dramatizado, fechando-se o ciclo entre a semeadura e a colheita. 



TESMOFORIANTES  ( FRANCIS  DAVIS  MILLET ,  1848 - 1912 )

Numa outra perspectiva (psicológica), o mito nos fala de um animus infernal (Hades), irmão do animus olímpico (Zeus) que encontra a sua anima (Koré), seu complemento. Hades, ao liberar Koré para voltar a Deméter, profere, segundo o poeta, as seguintes palavras: Vai, Perséfone, volta à tua mãe velada de negro; mas guarda em teu peito um humor e um coração serenos. Não te desesperes. É inútil e em vão. O esposo que terás em mim não é indigno de ti entre os imortais; sou o próprio irmão de Zeus Pai. Quando estiveres aqui, reinarás sobre todos os seres que aqui vivem e se movem; terás os maiores privilégios entre os imortais, e serão castigados todos aqueles que te injuriarem no sentido de não se conciliarem com o teu coração através de piedosos sacrifícios e das oferendas que te cabem.” 


DEMÉTER  E  PERSÉFONE
Esta história de Deméter-Koré-Perséfone-Hades é também, numa outra leitura, uma ilustração que os gregos elaboraram, pela via mítica, para nos falar sobre o aparecimento dessa imagem interior no mundo masculino, a personificação feminina do seu inconsciente a que a psicologia profunda dá o nome de anima. Na anima se reúnem todas as tendência psicológicas femininas do psiquismo masculino, os sentimentos vagos, os estados de humor oscilantes, as suspeitas, as inferências, as emoções, a intuição, a sensibilidade para o mundo natural, tudo aquilo enfim que não pode ser objeto de quantificações,  de medições, de valorização objetiva. Neste sentido, Perséfone é, em suma, tudo aquilo que é irracional e ilógico. É neste sentido um poder invisível, distinto da nossa parte consciente. 

Ao se manifestar, esse lado feminino pode tomar diversas formas. Muito comuns as expressões deprimidas, violentas, irritadas, inseguras da anima, quando tomam então um caráter acabrunhante, opressivo, demoníaco, uma ilusão destrutiva muitas vezes. Estas formas sempre  fizeram parte dos mitos, das lendas, da literatura em geral, de contos folclóricos e populares; hoje, estão nos meios de comunicação, em filmes, na ópera, em canções populares, na publicidade, sendo matéria privilegiada de muitos estudos no campo da psicologia. A anima pode tomar aspectos positivos ou negativos. As Sereias da mitologia grega são exemplo da anima  funcionando destrutivamente ao atrair os homens para a perdição ou para a morte. 

EMILY   BRÖNTE
(BRANWELL BRÖNTE)
Esta mesma ideia está presente na mulher com relação ao seu animus, detentor do seu modelo masculino, do seu “homem interior”. O animus é, assim, a personificação masculina no inconsciente da mulher, podendo apresentar aspectos positivos ou negativos, como ocorre com a anima do homem. A influência básica do animus numa mulher tem muito a ver com a figura paterna, uma influência que inclusive pode se chocar a sua própria realidade pessoal. Um exemplo do que aqui se coloca está na figura de Heathcliff, personagem central da

novela de Emily Brönte, Morro dos Ventos Uivantes, transformada num excepcional filme, em 1.939, dirigido por William Wyler, com Laurence Olivier e Merle Oberon nos principais papéis. Heathcliff é uma figura torturada, demoníaca do animus da autora, espelhada nas figuras do irmão ou do próprio pai.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

ÁRIES (2)



AMON-RA
Os egípcios, durante seu período histórico chamado de Novo Império, farão de Amon-Ra seu deus supremo. Este é o período da 18ª dinastia que se caracterizou sobretudo pela organização de um poderoso exército, por inúmeras guerras de conquista e pela extensão das fronteiras egípcias. Foi durante essa dinastia que Amon-Ra (Deus Escondido) assumiu a condição de divindade única, representado por uma figura humana teriomorfa, com cabeça de carneiro, às vezes com disco solar enquadrando-a.
GANSOS EGÍPCIOS
Seu culto se alastrou por todo o Egito, enriquecido por contribuições que vieram do culto de outras divindades. Às vezes Amon-Ra era representado por gansos selvagens. Os romanos, aliás, consagravam o ganso a Marte, a Vênus, a Cupido e ao deus fálico Príapo. A carne de ganso gozava da fama de aumentar o desejo, possuindo virtudes afrodisíacas. 

KNUM
Os egípcios associam também o signo de Áries a um deus poteiro, modelador, Knum, na forma de um carneiro de chifres ondulados, que teria elaborado a criação. Ligado à fecundidade, era representado também por uma figura humana criocéfala e adorado como um carneiro ou bode. Nesta qualidade, ele governava a criação, no ventre de todas as mães, dos nascituros, desde o embrião.

Não podemos esquecer que foi pelo tempo em que  Áries tomou o lugar de primeiro signo zodiacal que Amenóphis IV, sob o nome de Akhnetaon, realizou no Egito uma reforma religiosa tipicamente ariana, instituindo o monoteísmo. Por essa reforma político-religiosa, além do rebaixamento de todo o panteão egípcio e da limitação dos poderes da classe sacerdotal, a única divindade a ser adorada na nova ordem imposta era Aton, simbolizado pelo disco solar. O modelo monoteísta egípcio, bem mais tarde, inspirará  primeiro, o monoteísmo judaico e, depois, as suas dissidências, a cristã e a islâmica. Todas, como se sabe,gregos religiões centradas numa figura divina patriarcal, guerreiras, colonialistas e escravocratas, que ignoram e satanizam o papel da mulher.   

Os hindus, na língua sânscrita, dão o nome de Mesha à constelação de Áries. Aja foi outro nome que lhe deram os antigos védicos, palavra que quer dizer "não nascido". Uma referência ao fato de prevalecer no ariano a vida instintiva. O carneiro, para os hindus, é uma representação cósmica do poder animal e criador do fogo, ao mesmo tempo criador e destruidor, cego e rebelde, caótico e descontrolado, generoso e sublime. Por isso, os hindus chamam o signo de Mesha de Aja, isto é, não nascido. Os tipos arianos, fortemente afetados pela vida instintiva, ausente neles totalmente ou quase a vida racional, são sempre, nesta perspectiva, “um a ser”. 


SURYA
Nos antigos Vedas, o carneiro tem ligação com deus Agni, divindade que, com Surya e Indra (Vayu), forma a trindade de deuses ligados ao fogo. Surya é o Sol, fonte de luz e calor que, na astrologia, toma o nome de Ravi. Indra é o deus do firmamento; suas formas não têm fim; vem num carro dourado puxado por cavalos. Governa a atmosfera, o tempo, manifestando-se através do raio e das chuvas. É uma espécie de operador da energia proporcionada por Surya. 

TANTRISMO
Agni é regente do fogo sacrificial, o elemento ígneo na sua forma mais sagrada. É o fogo terrestre, igual em dignidade aos demais. Está em todas as casas, é protetor dos homens e testemunha das suas ações, sendo invocado em todas as ocasiões. No Yoga tântrico é o manipura chakra (cidade da joia), que corresponde ao elemento fogo, tendo por emblema o carneiro. Foi na forma de um carneiro que o sábio Indra ensinou aos homens a unicidade do Princípio Supremo


KUBERA
O carneiro é também a montaria do deus Kubera, guardião do norte e dos tesouros, uma espécie de Plutão na religião védica. Como tal, é o deus das riquezas subterrâneas, comandando os pequenos seres, os Yakshas e os Guhyakas, demônios que o auxiliam na produção e controle dessas riquezas. Não recebe nenhuma reverência ou adoração.

Entre os gregos, vários mitos convergem para o signo de Áries,   em grego, Kriós (carneiro). Antes, porém, há que se colocar uma questão interessante: em antigos textos, como o poema Sphaira (o mais antigo texto grego que discorre sobre nomes zodiacais), encontramos outra etimologia para Kriós. Esta palavra viria do verbo krino, separar, discriminar, justificado este entendimento pelo fato do signo de Áries marcar com exatidão o limite entre o inverno e a primavera.

Quanto aos mitos gregos, um dos que melhor se relaciona com o signo de Áries, ilustrando-o, é o do velocino de ouro. A história começa com uma catástrofe que se abate sobre a cidade de Orcômeno, na Beócia, na qual está envolvida Ino, a segunda mulher do rei Átamas. Os grãos de trigo, constatou-se, haviam se tornado impróprios para a sementeira. Uma consulta é feita então ao oráculo de Delfos. Os enviados pelo rei, para esse fim, são, na volta, subornados pela rainha; deviam declarar mentirosamente que a catástrofe só seria aliviada com o sacrifício de Frixo (agitação, tremor) e de Hele (nevoeiro matinal), filhos do rei e de sua primeira esposa (Nefele, a nuvem), por ele repudiada.


Zeus, que do alto tudo via, interveio. Enviou um carneiro maravilhoso, voador, de velo de ouro, criado por seu irmão Poseidon, para salvar as crianças.  Quem traz o animal divino até Orcômeno é o deus Hermes, que o orienta no sentido de levar os irmãos à Cólquida (Ásia Menor). No meio da viagem, Hele, tomada por vertigens, cai no mar, morrendo. O local onde caiu Hele, um estreito entre Europa e Ásia, tomou, desde então, o nome de Helesponto (Mar de Hele). 

Chegando à Cólquida, Frixo foi recebido pelo rei Eetes, passando a viver na corte. Eetes era filho do deus Hélio, deus-sol, irmão de Circe e de Pasífae (rainha de Creta), e pai de Medeia, uma família de magos e feiticeiros. O animal divino é sacrificado e o seu velo de ouro, consagrado ao deus Ares, levado para um bosque, é fixado num carvalho. O corpo do animal sacrificado, porém, foi colocado nos céus, entre as constelações , para marcar o início do Zodíaco. 


ARGONAUTAS
(MUSEU THYSSEN-BORNEMISZA
Ligada a esta história de Frixo e de Hele, temos a dos argonautas: 55 heróis gregos que, sob o comando de Jasão, foram à Cólquida se apoderar do velocino de ouro, a pele do maravilhoso animal que fora transformado em constelação. Grandemente auxiliado pela princesa Medeia, que por ele se apaixonou, Jasão, com os seus companheiros, se apoderou do tesouro, matando o dragão que o guardava, trazendo-o para a Grécia.

 Neste mito estão condensadas muitas das principais características do signo de Áries, mais negativa que positivamente. Uma delas é a da “conquista do impossível”, de algo que a razão desaconselha, traço marcadamente ariano. A conquista do velocino de ouro era,
MEDEIA ,  A  FEITICEIRA
PINTURA VITORIANA
com efeito, um empreendimento totalmente desaconselhado pela razão. Pelas dificuldades e obstáculos que cercavam essa conquista, as possibilidades de sucesso eram mínimas. Mesmo assim, com enorme propaganda por todas as cidades gregas, a expedição foi montada. Certamente, se não fosse o auxílio de Medeia, só os elementos psicológicos arianos que desempenhavam um papel tão importante no caráter desses heróis, iniciativa, arrojo, entusiasmo, ardor, impulsividade etc., não bastariam para a garantia da vitória.

O tema se explicita: na expedição comandada por Jasão temos a conquista de um tesouro, guardado por um dragão, ingredientes
JASÃO
típicos do esforço heroico. Mas o que Jasão apenas buscava, como ficou claro quando de seu retorno à Grécia, era apenas uma vitória sob o ponto de vista material que lhe possibilitasse socialmente o acesso a níveis superiores de vida.  A glória que obteve decorreu, é certo, de sua vitória, uma vitória que, afinal, não foi sua, mas de Medeia. Todas as lições que poderia ter aprendido ele não as aproveitou. Com isso, esvaziou de sentido realmente heroico a sua busca.

Jasão acabou por representar um certo tipo de falso idealismo. Ele não entendeu, conforme sua história deixa claro, que não podemos usar quaisquer meios para obter a vitória. Embora a nau Argo pudesse ser vista como um símbolo de aspirações juvenis, de impulsos heroicos, nela, na realidade, no seu sentido mais evidente, não havia nenhuma substância heroica verdadeira, real. No lugar da glória, o que tínhamos era  a vanglória, o convencimento não fundamentado na realidade dos próprios méritos, qualidades ou talentos. No lugar, só bazófia, jactância e vaidade. A nau Argo (branco, cintilante, em grego), símbolo das esperanças dos primeiro
MEDEIA
(A.MUCHA)
anos de vida de jovens guerreiros, torna-se-á ao final um símbolo da ruína da própria vida de Jasão. A história nos fala do entusiasmo da expedição, de uma certa primariedade instintiva, do pioneirismo que Jasão parecia encarnar, da ideia de desbravamento, um projeto rico de promessas. Um elã que, por parte de Jasão, se perverteu. Ele não enfrentou realmente o dragão; foi um filtro mágico  de Medeia que adormeceu o monstro. 

Para o povo grego, a recuperação de tão precioso tesouro, em poder de um povo bárbaro, como foi divulgado pelos governos das cidades envolvidas no projeto, era uma questão de "honra nacional". Nada disto, porém, era  verdadeiro. A motivação para a conquista do velocino de ouro era outra na realidade, ocultava
DELFOS
intenções bem concretas, materiais. Pelo lado de Jasão, se constituía num ato totalmente esvaziado de sentido transcendente. A expedição não passou de uma aventura colonialista. Quem, no mundo grego, orientava e patrocinava politicamente aventuras como esta era o Oráculo de Delfos, o maior centro político-religioso da antiga Grécia, que funcionava também como uma espécie de banco da aristocracia proprietária de terras e rebanhos.      

Do grupo comandado por Jasão faziam parte 55 heróis, todos jovens, a maior parte constituída de renomados e destemidos guerreiros,  destacando-se dentre eles inclusive muitos filhos de deuses como Hércules (acompanhado de seu amante, o belíssimo Hilas) , Castor, Polideuces, Orfeu, Etálides e outros. Não será preciso fazer muito esforço para se notar o quanto a história da conquista do velocino de ouro é semelhante às que as potências ocidentais nos tempos modernos inventaram e continuam a inventar até hoje, quando invadem um país, para ocultar a sua real motivação colonialista e espoliadora. 

Além disso, é preciso salientar que Jasão, a rigor, não pode ser considerado  um verdadeiro herói, pois não enfrentou o dragão para se apoderar do tesouro. Foi só com o imprescindível auxílio de Medeia que ele conseguiu superar vários obstáculos e matar o monstro, apoderando-se do tesouro. Se quisermos interpretar o que aqui se diz, deslocando o foco para a nossa interioridade,   Jasão não enfrentou o “seu” dragão interior, a maior façanha de um verdadeiro herói.

Monstros, nos mitos, simbolicamente, são agentes provocadores do esforço heroico; exigem, quando enfrentados, habilidade, controle do medo, preparação adequada, maestria no domínio da ação. A Psicologia, buscando-os nos mitos, fez dos monstros símbolos da predominância no ser humano das forças instintivas ou irracionais que têm de ser sacrificadas em nome de uma vida superior, racional ou espiritual. Nesse sentido, são os monstros aspectos doentios do psiquismo humano, resistentes, quando não se opondo abertamente, às nossas tentativas de transformação de caráter evolutivo.  Aquele que no mito subjuga estas forças instintivas, irracionais, orientado-as superiormente, é, como se disse, o herói, o fundador, o cavaleiro, o santo, o peregrino, o viajante, o navegante. As forças liberadas por ele poderão assim ser colocadas a serviço de uma elevação, de uma transcendência, ou, na pior das hipóteses, de uma sublimação.


JASÃO  ENVENENA  O  DRAGÃO ( SALVADOR  ROSA ) 

Os monstros, trazendo a questão bem mais para perto de nós, como criaturas produzidas por nossa imaginação, são imortais; morrem e renascem sempre, pois vivem como símbolos e são encontrados em todas as civilizações e culturas. A presença dos monstros na imaginação humana é sempre enigmática, tem um forte caráter  de imprevisibilidade, como a literatura e a arte nos demonstram ao longo dos milênios, em antigos textos, esculturas, tapeçarias, gravuras, na heráldica e, mais modernamente, nas várias expressões da comunicação de massas. Adormecidos ou ignorados às vezes por muito tempo, acomodados na escuridão do nosso psiquismo, podem os monstros nos atacar sem nenhum aviso, causando-nos muito sofrimento, fabricando as nossas doenças, quando não, mais drasticamente, acelerando a nossa passagem para o Outro Lado. 



MORTE   DE   GLAUCE

Depois de algum tempo de vida em comum com Medeia, com ela tendo filhos, Jasão, então famoso e vaidoso, a abandonou para se casar com Creusa ou Glauce, filha do rei. Medeia simulou conformar-se. Entretanto, tomada pelo ódio, agiu, disparando seus malefícios. Enviou como presentes de noivado a Glauce um manto, um diadema e um colar. Ao usá-los, lindíssimos que eram, a princesa virou uma tocha humana. O pai morreu carbonizado ao socorrê-la. O palácio onde viviam a princesa e o pai virou cinzas rapidamente. E como se tudo isto não lhe bastasse, Medeia matou os dois filhos que tivera com Jasão. Por fim, gloriosamente, subiu num veículo alado, presente do deus Hélio, seu grande ancestral, e desapareceu nos ares.


MEDEIA  ( CARLE  VAN  LOO )

Numa das versões do mito, consta que Jasão, depois da morte de Glauce, do seu pai e dos filhos, teria permanecido em Corinto, levando uma vida de vagabundo de praia, desmoralizado, sem nenhuma força e determinação. Acabou morrendo  quando descansava sob os restos da nau Argo que tanta renome e poder lhe trouxera. Uma prancha, desprendendo-se de um mastro da nau, que apodrecia na praia, encalhada na areia, atingiu-o na cabeça, matando-o.

APOLÔNIO  DE  RODES
A história dos argonautas é muito antiga, provavelmente anterior à de Ulisses e à da guerra de Troia e foi preservada devido a Apolônio de Rodes. Historicamente, sua origem se liga certamente às expedições que os gregos aqueus montaram para estabelecer colônias na Ásia Menor, nos territórios da Cólquida. Nesse lugar, foram descobertas, à época, minas de ouro, simbolizadas, aqui na história de Jasão, pelo Velocino de Ouro. A aventura, no seu todo, tem semelhanças com as de Hércules e alguns episódios são comuns à Odisseia (Circe, as Sereias). O drama de Jasão-Medeia lembra um pouco ou muito o de Teseu-Ariadne. O título do poema de Apolônio de Rodes, Argonáuticas, nos remete a uma ideia coletiva e não à vida de um personagem. 

O nome Argo, numa outra etimologia admitida, vem da palavra grega ágil. Barco mais rápido que ele nunca mais poderia ser construído. A deusa Palas Athena teria assumido pessoalmente a orientação da sua construção, chegando até a indicar de onde deveria ser retirada  a madeira para a sua proa, proveniente de um bosque de um santuário de Zeus. Esta madeira era falante e anunciava ao piloto do barco o que estava à frente. Mencione-se também a tripulação do barco. Nunca mais se reuniriam tantos e tão importantes personagens: Argos, Orfeu, os Dióscuros, Peleu, o pai de Aquiles, Meléagro, Laerte, o pai de Ulisses, Hércules, Ergino, filho de Poseidon, Etálides, filho do deus Hermes, Admeto, Acasto, etc. 

O tema dos argonautas se opõe num certo sentido ao da Odisseia. Nesta, temos um herói centralizando tudo, Ulisses. No outro poema, o tema do coletivo acaba se imponto e, mais ainda (para os tipicamente arianos), a ideia de que, apesar de tudo, vale a pena tentar realizar sonhos que a razão muitas vezes julga impossíveis, válidos todos os recursos para tanto, segundo a velha máxima do signo de Áries, a de que todos os meios são bons, desde que eficazes. A história do velocino de ouro caracteriza arquetipicamente a perversão dos impulsos heroicos. Magia e encantamento no lugar de uma vitória real. Os mitos arianos, lembremos, aparecem em várias outras civilizações da era de Áries, entre astecas, gauleses, védicos, romanos etc. Num plano histórico,  fica confirmada por ele a vocação imperialista grega pela expansão da civilização aqueia pelo Mediterrâneo, principalmente pelas suas maiores aventuras guerreiras, a destruição de duas grandes civilizações, a cretense e a troiana.


FULCANELLI
Lembremos que a Alquimia, numa brilhante análise de Fulcanelli (O Mistério das Catedrais), se apoderou simbolicamente deste tema do Velocino de Ouro como uma ilustração do início da Grande Obra, a saída da vida inconsciente, do domínio da vida instintiva (nigredo). para níveis superiores da existência. Algo semelhante à expedição de Jasão, quanto à sua motivação, com características arianas muito parecidas, reaparece, por exemplo, na Idade Média, quando o duque de Borgonha criou uma ordem da cavalaria, a serviço do mercado religioso católico, sob o nome de Velocino de Ouro, com o objetivo de libertar Jerusalém em poder dos infiéis muçulmanos.

Dentre todos os heróis gregos, fortemente impregnados de características arianas, não podemos deixar de lembrar do mais
AQUILES
famoso deles, Aquiles. Sua história é exemplar quando a associamos ao signo de Áries. Alongarmo-nos um pouco mais nela, acredito, será útil para um maior entendimento dos elementos do signo. O nome Aquiles em grego lembra dor, aflição (ákhos). A esse nome também podemos associar o que antigos chamavam de menis, o ódio, a raiva, a ira, principalmente o ódio que acumulado pode tomar uma forma furiosa. Dentre todos os personagens da Mitologia grega o mais famoso dos "enraivecidos" é, sem dúvida, Aquiles, o maior dos guerreiros. Homero, aliás, fala numa certa passagem de A Íliada desse menis, chamando-o de funesto, pois acabará provocando a perdição do famoso herói. 

sábado, 2 de julho de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU – PLUTÃO (2)



LIVRO   DOS   MORTOS

Para os antigos egípcios, tudo começava quando um defunto,
ANÚBIS
graças aos amuletos e talismãs depositados na sua múmia e às fórmulas (Livro dos Mortos) que o protegiam na caminhada para o Duat (Outro Lado), chegava a um tribunal onde se realizaria a chamada
MAAT
psicostasia (pesagem da alma). A alma, depois da peregrinação a partir de sua tumba, chegava à sala do tribunal. Quem a recebia era o deus-chacal Anúbis. No centro da sala se encontrava a balança da Justiça; num de seus pratos era colocado o coração do defunto, noutro se depositava uma pena de avestruz, símbolo de Maat, a deusa da justiça. 




PESAGEM   DAS   ALMAS

O tribunal era presidido pelo deus Osíris, na condição de deus dos
ISIS ,   OSÍRIS ,   NEPHTYS
mortos e do renascimento. Ao seu lado estavam as deusas Ísis e Nephtys, ambas suas irmãs, a primeira sua esposa. Distribuídos lateralmente sentados, no recinto, ficavam os 42 assessores, divindades que representam os 42 nomos (comarcas) do país. Às vezes, Ra, a grande
RA
divindade solar tomava parte na cerimônia, sempre numa posição muito honrosa. O deus Toth, na função de escriba que tudo registra, se mantinha perto da balança, manipulada por Anúbis. Mais ao fundo, encontrava-se Ammit ou Amam, o monstro devorador, uma figura tétrica, híbrida, formada por um crocodilo
AMMIT
(cabeça), um leão (corpo) e hipopótamo (extremidade do corpo). Se o julgamento não fosse favorável, o coração do defunto seria devorado por Ammit e ele considerado definitivamente morto, desaparecendo no nada. Se o julgamento fosse favorável, Osíris abriria para ele o seu paraíso. 

No paraíso de Osíris, ele passaria a levar uma vida eternamente feliz, cabendo-lhe contudo algumas tarefas como a de cultivar os domínios do deus e de se ocupar com a manutenção de canais e diques, algo muito semelhante ao que acontecera na sua existência terrena. Ele poderia, contudo, transferir estas tarefas mais ou menos penosas para os “respondentes”, os chamados ushebits, estatuetas parecidas com múmias que acompanhavam o morto na sua ida para o Outro lado. Os ricos, quando morriam, levavam uma grande quantidade destas estatuetas, que funcionariam como escravos nos campos de Ialu, as terras de Osíris, muito parecidas com a rica região pantanosa do delta do rio Nilo. 




Osíris, transcrição helenizada do nome egípcio Usir, foi associado pelos gregos a duas divindades, Hades (Plutão) e Dioniso,
ARISTÓFANES
arquetipicamente as mesmas enquanto aparecem ligadas à vida infernal, à sexualidade e ao renascimento. Não é por acaso, por exemplo, que Aristófanes nos fala de um Dioniso infernal chamado Iakchos. Além do mais, é preciso lembrar que nos mistérios eleusinos Dioniso tem relação com o mundo ctônico como origem da produção agrícola terrestre. A história de Dioniso é fértil de exemplos da alternância que há entre a vida e a morte nos processos existenciais.

Primitivamente, Osíris era um deus da natureza que se encarnava como espírito da vegetação que morria com a colheita e que renascia com a germinação da semente. Foi adorado em todo o

Egito como o deus dos mortos e, nesta qualidade, se tornou a principal divindade do panteão egípcio. Os textos hieroglíficos fazem inúmeras referências a ele, inclusive à sua vida terrestre como um imperador mítico do país (um caso de evemerização?), mas é sobretudo graças a Plutarco que conhecemos melhor a sua história.

Quando  seu  pai,  Geb,  se  retirou  para  os  céus,  Osíris assumiu a
AGRICULTURA

 condição de rei do Egito, unindo-se à sua irmã Isis. O reinado de Osíris foi marcado por grandes feitos político-sociais: aboliu a antropofagia, ensinou aos habitantes do país a arte de cultivar a terra, para a produção de alimentos (pão) e do vinho, de fabricar instrumentos; instituiu os primeiros cultos, orientou a construção de templos, organizou a vida cerimonial, ensinou a fabricação de instrumentos musicais, criou a dança.     Ao
MÚSICA   E   DANÇA
mesmo tempo em que fazia isto, dividiu as terras, estabeleceu os limites dos nomos, fixou regras de convivência. Por tudo o que fez, Osíris passou a ser chamado de Onophris (O Ser Bom). Não contente com a sua obra civilizadora no Egito, resolveu levar às outras nações do mundo a sua proposta política e a sua doutrina, deixando na regência do país a sua esposa Ísis. Acompanharam-no nessa peregrinação dois ministros, Anúbis e Toth. Inimigo da violência, levou longo tempo a propagar a sua obra civilizadora. 

Ao voltar ao Egito, Osíris encontrou o país em ordem. Logo, porém, tornou-se vítima de seu irmão Seth, invejoso de suas conquistas. Consta que no 28º ano do seu reinado foi assassinado
OSÍRIS
por Seth, seu irmão, e seus asseclas, que esconderam o seu corpo. Partindo para buscá-lo em companhia de Toth, de Anúbis e de Hórus, Isis encontrou o corpo do marido destroçado, mas graças aos seus sortilégios conseguiu trazê-lo de volta à vida. Ressuscitado e desde então livre da morte, Osíris não mais reassumiu o seu trono, deixando de reinar sobre os vivos. Preferiu retirar-se para o Outro Lado onde assumiu a condição de rei dos mortos, pontificando num tribunal que julgaria as almas que para lá fossem. 
Ao mesmo tempo em que isto ocorria, nos céus um acontecimento astronômico parecia tudo ratificar. 


CONSTELAÇÃO   DE   ORION

A constelação de Orion, por volta de 6000 aC, começou a ser identificada como heliacal, isto é, suas estrelas começaram a ser vistas antes do nascimento do Sol, consideradas como tal uma espécie de arautos do grande astro solar. Constelação e deus


tornavam-se uma só coisa, um só corpo. A constelação não era nesse sentido um símbolo do deus, mas era a própria divindade. Algo semelhante ocorria com a estrela Sirius (Sothis para os gregos), cujo aparecimento marcava o início das inundações do rio Nilo. Quando Orion deixou de ser vista como constelação heliacal Osíris “morreu”, descendo aos infernos para se tornar a grande divindade dos mortos.

Sabemos que Escorpião é a constelação que, por latitude, mais se aproxima do sul. Sabemos mais que em certo período da história celeste ela conteve as estrelas de Libra, então conhecidas como as Pinças de Escorpião. Entre 5000 e 1000 aC, aproximadamente, no hemisfério norte, o Sol transitou pela chamada constelação do Grande Escorpião (Libra mais Escorpião) durante o equinócio de outono. Era então essa constelação conhecida como uma das quatro grandes portas que davam acesso ao Outro Mundo, tudo representado nos céus pelo crescente domínio das trevas, isto é pela caminhada do Sol em direção do hemisfério sul. Era o começo da parte escura do ano. 



ESCORPIÃO   -   LIBRA

Esta caminhada do Sol em direção do Sul pode ser vista também como uma ilustração da história mesopotâmica que nos descreve a luta de Marduk, deus da luz, contra Tiamat, monstro feminino, divindade oceânica da escuridão. Na mitologia egípcia, sabemos que o Sol era Osíris/Hórus, cujo mito descreve a jornada solar anual através desta constelação. 

A partir de 4000 aC, a constelação de Escorpião, melhor definida no Zodíaco, passou a ser ligada à ideia de escuridão e morte. Foi destas fontes que os gregos desenvolveram o mito do gigante Orion e o de sua morte. Para os egípcios, a constelação de Escorpião com o seu “coração vermelho” tornou-se um dos grandes símbolos da vida e da morte e de que não pode haver vida sem morte. Foi essa constelação que mostrou para os egípcios o caminho para o Outro Lado. Definia ela um dos quatro grandes pontos do calendário, ao lado de Aquário (solstício de inverno), Touro (equinócio da primavera), Leão (solstício de verão) e Escorpião (equinócio de outono). Estes eram os quatro pontos cardinais e seus símbolos eram geralmente colocados nos quatro pontos cardinais das tumbas como norte, sul, leste e oeste. 

Os cristãos adotaram posteriormente estes quatro pontos como os
ARCANJO   GABRIEL  ( GIOTTO )
quatro ângulos do Apocalipse e os quatro arcanjos principais. O guardião do oeste tornou-se o arcanjo Gabriel, cujo elemento é a água. Lembremos que os celtas celebravam a entrada do Sol na constelação de Escorpião com a festa do Samhain, uma grande reunião em Tara para celebrar o fim do verão. A véspera da festa era considerada como uma noite de escuridão na qual as almas dos mortos se agitavam e perambulavam pela terra, pois era a noite em que se abriam as portas do Outro Lado e elas teriam que se dirigir para lá.


PTOLOMEU
A famosa história do diálogo entre o escorpião e a rã, e da morte desta última, é da morte desta última é, como se sabe, de origem celta. Os persas, sírios e gregos sempre consideraram o signo de Escorpião com muito temor. Escorpião perdeu definitivamente as suas Pinças ao tempo de Ptolomeu, que continuou a usar (Tetrabiblos) a expressão de “As Pinças de Escorpião” para se referir ao signo. 

ESCORPIÃO
ABBAZIA  DI  NOVALESA  -  PIEMONTE
ARQUITETURA   CAROLÍNGEA - 726 DC
O aracnídeo escorpião, sempre perigoso por causa de sua ferroada, sempre foi considerado um animal do Diabo, uma criatura sua, mais porque, talvez, uma de suas principais características seja a de se afastar da luz e também porque goste de tocaiar as suas vítimas, evitando confrontos diretos. É demoníaco o escorpião por que ele procura, via de regra, agir sempre em contraste com a aparência que revela. Uma vez escorpião, era o ditado, sempre falso, hipócrita e traidor, ditado certamente de inspiração religiosa, cristã, baseado na figura de Judas Escariotes. Se quisermos ir além nas histórias que demonizam o escorpião, não podemos deixar de mencionar, dentre outras, uma em especial, a que nos conta que as pequenas crias, inexplicavelmente, muitas vezes, atacam a mãe, matando-a... 

Entretanto, em que pesem todos estes exemplos negativos, os
SELKIS
egípcios, embora execrassem o animal, honravam-no através de Selkis, deusa protetora dos mortos, representada por uma mulher com a cabeça do animal. Os gregos, por outro lado, procuraram atenuar um pouco a malignidade do escorpião, conforme veremos no mito do gigante Orion.

Em alguns tratados sobre superstições medicinais, em várias partes do mundo, encontramos relatos de que no caso da picada de um escorpião, recomenda-se aplicar sobre o ferimento o animal (válido para insetos e cobras) “culpado”, esmagado e transformado numa pasta. Essa recomendação, aliás, pode ser encontrada inclusive no Brasil, entre os nossos praticantes da chamada “medicina rústica”. Da Idade Média nos vem a receita para a confecção de um “poderoso” talismã para curar as dolorosas febres provocadas pela picada do animal: quando o Sol se encontrar em seu domicílio e a Lua em Capricórnio, gravar num pequeno pedaço de ouro ou de prata a imagem de um escorpião, pedindo-se, enquanto a peça é confeccionada,  que Deus intervenha para reanimar o doente. Depois de aplicado o talismã sobre a ferida, recitar o salmo Miserere mei Deus, miserere mei, quoniam in te confidit anima mea.

A descoberta de ossadas pré-históricas em várias partes do mundo vem revelando que desde o mais recuado período paleolítico, em
COVA   FUNERÁRIA
que pesem as diferenças geográficas, os cadáveres eram objeto de práticas que testemunhavam um grande respeito que lhes era tributado, podendo-se falar mesmo de cultos aos mortos. Diante da descoberta de muitos esqueletos, a intenção funerária era incontestável, invariavelmente encontrados em covas construídas para tal, cercadas e cobertas de material duro, pedras, fragmentos de ossos, presas de animais etc. Muito comuns nessas covas, junto dos ossos, pequenos adereços, restos de colares e pulseiras, certamente pertencentes ao morto, além de outros objetos, que alguns estudiosos chegaram a identificar como uma espécie de “mobiliário funerário”. Tudo isto vai aparecer entre os egípcios, desde os tempos pré-dinásticos, já organizado cultualmente. 

Em muitas culturas, as peças encontradas no interior das covas estavam recobertas por uma camada de tinta vermelha, o chamado
OCRE   VERMELHO
“ocre vermelho”, em cuja composição entrava a argila colorida por peróxido de ferro. Este produto deixou muitos traços coloridos nas ossadas encontradas, sendo interpretado, por causa de sua cor, como uma representação do sangue. Aliás, a esse produto os antigos deram o nome de hematita (haimatitês, em grego), palavra que quer dizer rocha que tem a cor de sangue. 

Ao adicionar a cor vermelha aos objetos funerários, os homens do paleolítico tinham em mente ideias relacionadas com vida, força, energia, que a cor vermelha sempre representou. Associado ao fogo e ao sangue, a cor vermelha é universalmente considerada como um símbolo fundamental do princípio vital, do seu poder e esplendor. É perfeitamente admissível que os homens do paleolítico, ao usarem o ocre vermelho para pintar os esqueletos e revestir os objetos funerários, inclusive depósitos de comida, tenham tido o objetivo de tornar o morto mais forte na sua caminhada para o Outro Lado, para a sua nova residência.

Dentre os vários objetos funerários revestidos de ocre vermelho,
COQUILLE
DE   SAINT   JACQUES
destacamos os chamados “bastões de comando” (muito semelhantes aos encontrados nas mãos de faraós mortos, no Egito) em osso de rangífer; caninos de ursos e de leões, imagens de focas e de peixes; colares e cinturões feitos com conchas; pedras de sílex talhadas em ponta; inúmeras vieiras, as coquilles de Saint Jacques, símbolo que será usado mais tarde pelos peregrinos que se dirigiriam a Santiago de Compostela em busca de um renascimento. 

Em inúmeros museus do mundo todo, com base nessas evidências arqueológicas, encontramos estabelecida firmemente a ideia de que, acabada a vida terrestre, era possível se admitir a existência de uma vida póstuma, muito baseada naquela, submetida às mesmas necessidades, objetos, alimentos etc. Esses costumes funerários parecem demonstrar que os vivos, ao despachar os seus mortos dessa maneira, talvez demonstrassem mais um certo temor com relação à sua permanência entre os vivos (almas, fantasmas, espectros) como, ao lhes oferecer esses “cuidados”, os estivessem preparando para que eles lhes dessem um favorável acolhimento quando tivessem de ir para o Outro lado. 

Para o homem do paleolítico, a doença era resultante de uma operação mágica e a morte, que nós atribuímos a causas naturais,
PRÁTICA   FUNERÁRIA
era para ele produzida por malefícios cuja autoria ele procuravam sempre determinar. Para os que ficavam, os mortos tinham tanto direito à inveja deles como à vingança com relação àqueles que os haviam assassinado. Qualquer que fosse o entendimento, tudo indicava que as práticas funerárias se constituíam sobretudo em medidas de proteção que os vivos adotavam com relação aos mortos, estes sempre invejosos dos vivos.

Já se disse muitas vezes que os egípcios talvez tenham feito mais por seus mortos que pelos seus deuses. Se as suas ideias referentes ao destino dos mortos se mostrassem ainda algo incertas nos recuados tempos do período pré-dinástico, quatro, cinco, ou seis mil anos aC, já alguns séculos antes das primeiras dinastias (fim do quarto milênio aC) que definem historicamente o início do chamado período dinástico, encontramos algo muito concreto com relação ao cuidado dos vivos com relação aos mortos, as mastabas. 

Estas edificações fúnebres, mais bem acabadas, constituíam um avanço significativo com relação às antigas covas. Construídas com tijolos e depois com pedras, as mastabas nos põem em contacto com ideias de permanência, de eternidade, pois em todas foi encontrado, pelas pesquisas arqueológicas que há muito se fazem no Egito, um farto material fúnebre, objetos, víveres, mobiliário, tudo muito rico e variado.

Nesse período, a personalidade humana aparecia composta de quatro elementos fundamentais: khet, o corpo, particularmente o corpo morto; chut, a sombra, e dois outros que não podiam ser apreendidos pelos sentidos, o ba e o ka. O primeiro sempre foi representado, na linguagem hieroglífica, por um pássaro, uma cegonha, provavelmente em razão do princípio da homologia, ou seja, comparar-se um elemento imaterial (alma) a um pássaro. 


BA

Já o ba, a partir da 18ª dinastia (1580 aC), tomou a forma de um pássaro com cabeça humana que voava nos corredores do hipogeu e podia mesmo alcançar as regiões etéreas. O hipogeu (literalmente, abaixo da terra) era construção subterrânea ou escavada em escarpa, muito usada como sepultura ou templo funerário. 

KNUM
Quando Knum, deus-carneiro, que em muitos mitos cosmogônicos aparece demiurgicamente, criou o homem, seu ka foi modelado ao mesmo tempo. O ka costumava ser materializado por dois braços humanos, elevados em ângulo de 90º, estendidos em direção do céu. Era um gesto de prece, talvez um gesto de admiração diante dos alimentos acumulados. O Ka tanto personificava a energia criadora como correspondia à consciência superior no ser humano. 

Em textos egípcios de natureza moralizante encontramos frases como estas: A mentira é algo proibido ao ka ou Meu ka é  meu guia. Nesse sentido, durante a vida do homem, múltiplas serão as
KA
funções do ka. Depois da morte, ele se destacava do cadáver, mas gostava de ficar por perto, como encontramos em muitos textos. Uma peculiaridade: o ka não podia deixar de se alimentar e de beber. Muitos registros que nos revelam que o ka gostava de pães, de cerveja, da água dos cântaros, de carne (bois e penosas), de perfumes e de unguentos. Ele gostava, enfim, de tudo o que os deuses criaram, sobretudo daquilo que o Nilo oferecia com dádivas ao homem. Lembre-se que em todas as épocas da história do Egito, os túmulos sempre foram construídos de modo a facilitar ao ka e ao ba, a sua localização.

A morte não era igual para todos os egípcios, já que a de um deles, a do faraó, fazia parte de um drama especial, único. Ela comportava três fases distintas. Antes de mais nada, o faraó, ao morrer, identificava-se com Osíris, deus dos mortos, o equivalente dos gregos Hades ( Plutão) e Dioniso e do Shiva védico. Osíris, como se sabe, foi assassinado por seu irmão, Seth, que, apoderando-se de seu corpo, o desmembrou em catorze pedaços, distribuídos por várias regiões do país. 

ISIS   E   SEU
FILHO   HÓRUS
Isis, irmã e mulher de Osíris, acabou encontrando, com exceção do pênis, engolido por um peixe, todos os pedaços do corpo do marido, e conseguiu trazê-lo de volta à vida. É evidente que o corpo dos faraós, quando da ocorrência de sua morte, não era despedaçado. Aceitava-se que cada parte de seu corpo se separava e que depois se reintegrava, no seu sarcófago, um simulacro do palácio real, na obscuridade e no silêncio, ocorrendo então a sua ressurreição. Seus membros eram reajustados. A cabeça, unida novamente aos seus ossos (coluna). Seu espírito, sua alma e sua força voltavam a se unir. Os deuses à sua volta gritavam: Levanta-te, levanta-te!. Às vezes, Ra e Hórus lhe ofereciam uma escada para sair do túmulo. Havia casos, porém, em que o faraó podia achar muito prosaica essa forma de sair do túmulo, optando ele pela forma de um falcão, de um ganso do Nilo ou, ainda, agarrando as mãos de Nut, que na direção dela o atraía, transformando-o numa estrela indestrutível. As portas do céu lhe eram então abertas e ele acabava adentrando no palácio dos deuses sozinho, saudado por Ísis e por Nephtys, glorificando-as. Nada o impediria de residir na região nordeste do céu, entre as constelações circumpolares. Ele, o faraó, neste modelo de morte que estamos descrevendo, podia também ser convidado pelo próprio Ra para residir nos céus.

Os túmulos, até a terceira dinastia, eram retangulares, relativamente simples, tomando a forma de mastabas. As oferendas e a mobília funerária ficavam abrigadas numa cova não muito profunda. Já a essa altura eram postos à disposição do morto alimentos sólidos e líquidos, além de objetos diversos, de toalete, potes, jogos (dama e xadrez) etc. As “necessidades” do morto eram, porém, por essa época, mínimas.

Durante a terceira dinastia, ocorreu uma revolução nos ritos funerários, principalmente com relação ao hipogeu. A pedra substituiu o tijolo, aumentando a consistência da construção. Túmulos reais, na sua parte subterrânea, chegavam a atingir quase trinta metros. A energia cósmica entrava no túmulo por um orifício no teto, fechado por uma enorme pedra (granito). Com o tempo, aumentou-se o número das salas e dos corredores subterrâneos e a partir dessa época ganhou impulso a construção das pirâmides, na realidade uma superposição de mastabas.


MASTABA

Chamada em egípcio de mer, a pirâmide, ao que parece, tem seu nome derivado da palavra grega pyros, grão (trigo, milho, gergelim) de onde vem pyramous, bolo de cereal que tem a forma parecida com a de uma mastaba ou pirâmide. A destinação funerária das pirâmides sempre foi indiscutível, embora alguns, erradamente, tenham tentado associá-las a lugares ocupados por seitas para fins iniciáticos. Parece estar hoje suficientemente provado que as únicas cerimônias que se realizaram ao longo de milênios, nas pirâmides, foram as relacionadas com o culto funerário real.


PIRÂMIDES   DO   EGITO

Como se disse, a pirâmide é uma evolução da mastaba. A partir da terceira dinastia, quando os túmulos reais não se distinguiam muito dos túmulos particulares, um arquiteto, Imhotep, também vizir do faraó Djeser, resolveu construir as pirâmides na sua forma clássica. As preocupações que orientaram tal construção são claras: num monumento como a pirâmide, o corpo do faraó ficaria mais bem protegido e, ao mesmo tempo, o monumento se distinguiria de todos os demais da arte mortuária. Além do mais, a pirâmide, como forma arquitetônica, se ligou, sobretudo a partir da quinta dinastia, às novas concepções heliopolitanas do destino humano, um destino de natureza solar, sobretudo o do faraó, que, ao morrer, se juntaria nos céus a Ra. A pirâmide, desde que adotada a sua forma, sempre foi considerada também como uma via de acesso ao céu, uma espécie de escada.

O que fica dos cultos funerários egípcios praticados ao longo de milênios, qualquer que seja a forma arquitetônica e artística adotada para despachar o morto para uma nova jurisdição, é que eles, esses cultos, sempre procuraram prolongar indefinidamente a vida humana. Se no início do Antigo Império só o faraó tinha direito a uma vida no além-túmulo, já no Novo Império, onze séculos depois, a vida depois da morte podia ser reivindicada e esperada por qualquer egípcio, mesmo o mais humilde camponês, democratizando-se, assim, os referidos cultos.



MÚMIA

Na breve transição entre a vida e o Outro Lado, o egípcio era preparado por uma complexa liturgia fúnebre. Tal liturgia se centralizava no embalsamamento que, para um rico, podia levar até
HERÓDOTO
setenta dias, conforme nos diz Heródoto. Para o pobre, um ou dois dias bastavam. Nesse processo, o importante era a preservação do corpo do morto. Para conseguir isto eram usados compostos de sais, especiarias e resinas, a fim de secar e transformar o corpo eviscerado numa múmia ressecada, enrolada com camadas de linho finamente tecido, na qual haviam sido introduzidos tecidos para mantê-la firme. Restituída à família, a múmia era depois submetida à simbólica cerimônia da abertura da boca. Preparado para “comer, beber e falar de novo”, o morto estava afinal pronto para ir para o seu túmulo. 

O ritual fúnebre dos egípcios exigia o sepultamento no ocidente,
BARCO   FUNERÁRIO
região na qual o Sol iniciava a sua caminhada através do mundo dos mortos. As necrópoles ficavam em territórios imensos, fora das áreas inundáveis do rio Nilo. Nessas necrópoles eram construídas as pirâmides, templos e túmulos, muitos
CARPIDEIRAS
abertos na rocha, mantidos pelos familiares, garantindo-se assim para o morto uma “vida” abastada e folgada no Outro Lado. Grandes procissões de carpideiras levavam as múmias dentro de caixões para os túmulos, primeiro em barcas através do Nilo e depois em terra por carros puxados por bois. Guiada por sacerdotes de cabeça raspada, que queimavam incenso e entoavam cantos rituais, a procissão terminava na porta do túmulo, onde se realizavam os últimos ritos, que podiam compreender uma solene dança cerimonial e um banquete fúnebre.