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quarta-feira, 18 de junho de 2014

HÉRCULES - OITAVO TRABALHO


HIDRA  DE  LERNA  ( CERÂMICA GREGA )

Euristeu determina a Hércules que vá a uma região pantanosa perto de Argos e dê fim a um monstro, conhecido como a Hidra de Lerna, que tornava o local e tudo à sua volta impróprio à vida. Seu hálito pestilento e o veneno que exalava faziam dela uma verdadeira maldição da natureza. O monstro vivia nesse pântano impedindo que qualquer forma de vida se manifestasse na região. Seu hálito era tão venenoso que mesmo a uma boa distância só as pessoas muito fortes conseguiam sobreviver ao ar por ela contaminado. O monstro possuía nove cabeças, uma delas imortal. Uns poucos heróis que o enfrentaram tentaram cortá-las. Tudo em vão, outra cabeça crescia em substituição à cortada imediatamente. 

Ao chegar ao pântano de Lerna, nosso herói se espantou. O monstro era enorme, sua presença tudo degradava. O lugar era perigoso, um lamaçal profundo e escuro, traiçoeiro, tudo muito pior do que lhe haviam contado. A Hidra se refugiava numa caverna que havia numa elevação montanhosa que limitava o pântano. Hércules a atraiu, disparando flechas incendiárias (flocos de lã e breu). O monstro se agitou, saiu do seu antro, lançando seus tentáculos numa tentativa de enlaçar o corpo de nosso herói. Conseguindo atingi-lo, os tentáculos com as suas ventosas abriam nele chagas profundas e dolorosas. Nosso herói, com sua espada, decepou uma das cabeças. Outra a substituiu. Outras cabeças cortadas, outras cabeças no lugar. Ao invés de diminuir, as forças do monstro pareciam aumentar a cada cabeça nova que surgia.


PALAS  ATHENA, HÉRCULES, O CARANGUEJO, A HIDRA E IOLAU

Hércules resolveu então se atracar com a Hidra, procurando tirá-la do meio pantanoso em que vivia, lembrando-se da luta que travara
ESCULTURA - MUSEU  DO  LOUVRE
com Anteu no seu terceiro trabalho. Para dificultar a ação do nosso herói, diz o mito, a deusa Hera enviou um enorme caranguejo para atacá-lo na região dos pés. Hércules, entretanto, esmagou o animal, não lhe dando chance. Hera, apesar desse fracasso, resolveu homenagear o caranguejo, colocando-o nos céus como a constelação de Câncer.


Com inaudito esforço, a Hidra foi retirada do meio em que vivia, exposto seu  corpo ao ar e ao calor do Sol. Invencível no lamaçal, ela começou a dar sinais de enfraquecimento. As nove cabeças foram se inclinando, os olhos se fechando. Hércules logo percebeu qual era a cabeça imortal. Com um certeiro golpe, cortou-a, enterrando-a imediatamente, com o auxílio de Iolau, sob enorme rocha, em meio aos uivos do monstro agonizante. As demais cabeças foram sendo decepadas; com troncos de árvores em brasa, que seu ajudante preparava, foram cauterizados os cortes a fim de que nenhuma outra cabeça surgisse no lugar. Cansado, esgotado, Hércules conseguiu finalmente tornar-se vitorioso.

Hidra é nome que lembra água. As cabeças do monstro sugerem a
DELTA  DE  RIO
imagem do delta dos grandes rios, um lugar sempre pantanoso, de múltiplos braços. Nos seus aspectos positivos, como se sabe, a água é origem de vida, purificação e regeneração, renascimento. É por isso que em inúmeras tradições, vários ritos dependem da água. Negativamente, porém, ela lembra submersão, descida, naufrágio, vida subconsciente, tornando-se então perigosa, quando não mortal. O pântano é formado pela água e pela terra, elementos passivos, por oposição ao ar e ao fogo, elementos positivos. O que caracteriza um pântano é o imobilismo, a estagnação, a podridão; mas é também um lugar de germinações invisíveis, dotado de virtudes prolíficas, o que nos permite associá-lo analogicamente à vida subconsciente.


Se numa mistura de água e terra a primeira prevalece temos a involução, a impossibilidade da conquista de uma da forma; se a segunda se impõe, temos a conquista da forma, sempre perigosa também na medida em que, levada a extremos, pode apontar para cristalizações, ao que os alquimistas chamam de coagulatio. Charcos, lamaçais, pântanos, carregados de matéria em decomposição, sempre foram usados simbolicamente, numa primeira leitura, para sugerir aviltamento, baixeza, vícios, devassidão, vergonha, sentimentos sórdidos, lembrando o caos e as imagens da nigredo alquímica, isto é, imagens de caos, de indeterminação. Num outro nível, contudo, pântanos serão lugares de onde a vida pode emergir, pois é neles que se prepara, segundo a dinâmica universal, invisivelmente, o cíclico reaparecimento das formas. 

Os franceses deram o nome de bas-fond aos terrenos alagadiços, pantanosos, baixos e profundos, formando extensas depressões, na periferia das cidades. Balzac, por exemplo, usou esta palavra no plural (bas-fonds) para representar os lugares em que viviam as
camadas baixas da sociedade, lugares onde o homem, com facilidade, se degradava moral e fisicamente por razões óbvias, pobreza, miséria, doenças, crime etc. O escritor que melhor caracterizou este submundo foi, sem dúvida, o russo Máximo Gorki. O mestre Jean Renoir, em 1936, com Jean Gabin no papel principal, nos deu o filme Bas-Fonds, baseado em obra homônima de Gorki.




A putrefactio é a operação alquímica que melhor caracteriza por isso Escorpião, o oitavo signo zodiacal, o cenário astrológico deste trabalho, na medida em que o Sol quando o atravessa fica mais intensa a ação das forças outonais; é nesse período do ciclo anual que notamos mais nitidamente o desaparecimento da vida vegetal da face da terra e a hibernação dos animais. Chuvas e frio, galhos
LERNA
que se retorcem, que se quebram, folhas que rodopiam ao vento, tudo apodrecendo e se espalhando sobre a superfície da terra para produzir o húmus, o elemento que possibilitará o aparecimento de novas formas de vida mais adiante. As águas perdem a sua fluidez, fixam-se, empoçando-se, tornam-se escuras, oferecendo-nos aparentemente imagens de estagnação e silêncio. Quem souber ver, porém, poderá notar por trás desta imobilidade, em meio a toda a decomposição e aos odores fétidos, materializados como gás metano, o trabalho invisível de microrganismos preparando as condições para que a vida volte a se manifestar com toda a sua espontaneidade primaveril.



CONSTELAÇÃO   DE   ESCORPIÃO

Com Escorpião, os valores noturnos começam a se impor aos valores diurnos. Por sua posição zodiacal, Escorpião é um signo fixo e seu elemento é a água. A primeira qualificação tem relação com as três dinâmicas universais, impulso, estabilidade e mudança ou, se quisermos, aparecimento, permanência e desaparecimento. Escorpião é, como tal, um signo fixo (são fixos os signos dos segundos meses das estações: Touro na primavera, Leão no verão, Escorpião no outono e Aquário no inverno); aponta para ideias de concentração, acumulação, obstinação, determinação, características que levam os que nele nascem pelo Sol ou pela hora (ascendente) a procurar manter suas posições, atitudes ou desejos em todas as situações de sua vida.

Quanto à água, o traço mais característico que ela imprime aos seres humanos onde aparece como dominante em sua personalidade é o de torná-los profundamente impressionáveis com relação ao que acontece à sua volta; por ela são levados a atribuir a essa impressionabilidade grande importância, o que as torna geralmente prisioneiras do que sentem. A Escorpião, nesse sentido, só interessa o intenso, o profundo, o total. Daí a grande inclinação que demonstram os do signo para as relações afetivas dessa natureza, na base do tudo ou nada, nas quais a sexualidade ocupa sempre um lugar muito importante pelo seu caráter de absoluto. É por essa razão que os tipos superiores do signo, mais bem logrados, são dotados de uma inteligência à qual já se deu o nome de faustiana,
sempre curiosa, desejosa de investigar, de perscrutar, de desvendar, de ir ao fundo das coisas, de fuçar, mesmo que para isso tenham que descer aos níveis infernais da existência humana ou mergulhar no sobrenatural. Daí os seus temas de eleição: o ocultismo, a morte, a vida subconsciente, a psicanálise, o renascimento e outros mais no gênero. Para uma boa ilustração do que estamos a descrever neste parágrafo, aponto o filme Fausto, de Alexander Sokurov, que encerra a sua tetralogia sobre “os que venderam a sua alma ao Diabo”.

Alquimicamente, lembre-se, o signo de Escorpião tem relação com a solutio alquímica, operação não só ligada à água, mas a todos os líquidos que dissolvem, destacando-se, dentre eles, o vinho, que é de Dioniso, o deus das metamorfoses. É neste sentido da solutio que atuava nos Mistérios de Eleusis, quando, através do kykeon, uma bebida enteógena à base de vinho, na fase da orgia, o deus possibilitava o acesso dos mystai (iniciados) a um outro tipo de vida, rompidas as suas limitações terrestres, as suas inibições, os seus recalques.    


ORGIA  DIONISÍACA

É mais importante para um escorpiano fazer uma entidade (ele, no caso, geralmente) progredir para atingir níveis cada vez mais elevados de sensibilidade do que propriamente dar à luz alguma coisa. Nos tipos malogrados do signo, muitos procuram fazer isto através de outras pessoas, vampirizando-as psiquicamente em nome de tais níveis superiores, que se resumem invariavelmente em atitudes egoístas, verdadeiros exercícios de poder, diante da vida. O escorpiano inferior pratica comumente uma espécie de expropriação das energias das pessoas que estão à sua volta para se tornar mais poderoso, dominador e forte. Presas a uma relação deste tipo, fascinadas até, muitas pessoas agradecem inclusive a posição de vítimas que lhes é imposta. Já um escorpiano que chamamos de superior usará o seu enorme potencial para ajudar as pessoas a evoluir e/ou melhorar o ambiente em que vive.


CONSTELAÇÃO DE ORION

Uma das histórias da mitologia grega que mantém estreitas relações com o signo de Escorpião e que nos permite entender melhor este oitavo trabalho de Hércules é a do gigante Orion. Sempre descrito como um ser de extrema sensualidade, esplêndido fisicamente, cuja personalidade, orientada pela vida instintiva, se viu dominada por paixões imperativas, Orion pontilhou toda a sua vida com cenas de sexo, de vinho, de violência, de vingança, de matança de animais. Entregue a uma de suas grandes paixões, a caça, diz o mito que ele chegou mesmo a ameaçar de extermínio os animais da terra, pondo em risco de destruição os ciclos da vida animal. Foi-lhe oferecida pela deusa Ártemis uma oportunidade de se redimir. Deusa sagitária, Ártemis é a deusa das passagens, a que leva tudo o que entra na vida, crias, ervas, riachos, a ir do conhecido (a gruta protetora) ao grande todo, ou, num outro nível, quanto aos seres humanos, da vida instintiva, não reflexiva, ao convívio social, que pede vida racional e reciprocidade.


ORION  CARREGANDO ÁRTEMIS

Assim que se aproximou da deusa, Orion, descontrolado como sempre, avançou sobre ela, tentando violenta-la sexualmente. A indignação de Ártemis, diante de tão grande petulância  foi  imensa.
Revidando de imediato, a deusa fez com que surgisse   das profundezas da terra um aracnídeo gigantesco, um medonho escorpião (um ser até então inexistente na natureza) que feriu o gigante mortalmente, picando-o no calcanhar. Por essa razão, Orion e o escorpião foram colocados nos céus como constelações para que a humanidade jamais se esquecesse do que acontece com aqueles que julgam poder se entregar impunemente às suas paixões. É por isso que no céu, à medida que a noite avança, a constelação de Orion vai perdendo progressivamente a sua maravilhosa luminosidade enquanto a constelação de Escorpião, com as suas pinças, vai se impondo, até fazê-la desaparecer totalmente.   

Ao aproximar estas duas características, água e fixidez, é que se torna possível falar de ameaças perigosas que continuamente se apresentam aos nativos do signo: cristalizações emocionais, paixões ideias fixas, obsessões, recalques, reserva rancorosa, ameaças de fixações absurdas que, tomando corpo e o dominando, o mobilizam invariavelmente na direção da satisfação dos seus desejos e na manutenção de suas posses, principalmente, como se disse, através da vampirização dos que lhe são mais próximos.


O SONHO DA RAZÃO PRODUZ MONSTROS ( GOYA, 1746 - 1828 )


HADES E CÉRBERO (MUSEU DE HERAKLION)
É por razões como as acima expostas que o signo de Escorpião sempre apareceu relacionado, na mitologia grega, com o Hades, o mundo subterrâneo, infernal, e, na psicologia, como o signo da vida subconsciente, associado ao princípio feminino, por oposição ao segundo, o princípio masculino (consciente). Falamos dos aspectos fixos da personalidade humana que, embora reconhecidamente nocivos, não sabe o homem muda-los, eliminá-los, seja por medo, ignorância ou comodismo. São tais cristalizações que alquimicamente constituem a matéria prima deste trabalho, personificada pela Hidra, com as suas múltiplas cabeças. É neste sentido que tudo o que a Hidra toca se corrompe, se degrada, tornando impossível a renovação, o renascimento. 


OS  SETE  PECADOS  CAPITAIS ( HIERONYMUS  BOSCH -  C.1450-1516 )

Dos níveis mais inferiores da vida humana, dentre os comportamentos e atitudes mencionados, alinham-se os vícios, conhecidos mais comumente como defeitos ou imperfeições graves que funcionalmente levam o ser humano tanto a cometer ações contra si mesmo e contra a vida moral. Por isso, quando falamos de vícios empregamos verbos como enlamear, aviltar, chafurdar, degradar, envergonhar, enxovalhar, macular. Criando dependências irresistíveis, os vícios (etimologicamente, defeitos, estragos, taras), sob o ponto de vista filosófico, se opõem à virtude, isto é, àquilo que se conforma com o que é considerado correto e desejável. A palavra virtude, lembre-se, vem do latim, virtus, virtutis, força corporal, de onde saem palavras como viril, virilidade, de fortes conotações masculinas.

Todos sabemos que a eliminação dos nossos vícios, como sentimentos diante dos quais nos sentimos geralmente impotentes, só pode ser conseguida se pudermos eliminar as condições que permitem à nossa Hidra interior de continuar a viver no ambiente de onde retirar a sua força. A este processo saneador damos o nome de drenagem psíquica, ou seja, fazer escoar os nossos excessos
VALA  DE  DRENAGEM
afetivo-emocionais aos quais estamos presos (os tentáculos da Hidra que nos enlaçam e com os quais ela obtém o seu alimento). Esta drenagem obviamente não poderá chegar a extremos, a imagens de aridez, de desertificação. Esta drenagem tem a finalidade de controlar o nível da desejável umidade (vida afetiva), sem a qual não poderemos viver.  
Todos nós temos monstros como a Hidra no nosso subconsciente, representando esse monstro, com as suas várias cabeças, os nossos múltiplos vícios, vícios que alimentamos muitas vezes sem o saber. A mensagem que podemos retirar deste trabalho é que procuremos trazer tudo isso ao consciente (ar) e que o iluminemos com a luz (supraconsciente). A Hidra representa tudo o que acumulamos: erros, fracassos, frustrações, memórias, atavismos, hábitos, mágoas, culpas, ódio, remorsos, tudo que atua em nós do modo inconsciente, causando sempre muito sofrimento, provocando muitos males. Descobrir e enfrentar a Hidra em nós não é fácil. Ela vive nas cavernas do nosso inconsciente, onde a luz da consciência não chega. Às vezes, vive ali uma vida inteira sem ser notada, mas tornando-nos infelizes, deprimidos, angustiados, doentes.


MOSAICO  GREGO

O combate à Hidra pede três atitudes: a) a percepção de sua existência; b) a sua busca com tenacidade e paciência; c) a sua destruição. A cabeça imortal da Hidra é a nossa pulsão fundamental de ser (o Eros dos gregos), uma energia não especificada, que tanto pode ser instinto de sobrevivência, energia psíquica, sexual, aspiração, desejo, vontade etc. Esta energia, que todos os seres humanos possuem em maior ou menor grau, precisa ser compreendida, controlada e orientada. Dominar a nascente, que alimenta todas as cabeças da Hidra, é dominar a cabeça central, imortal, de modo a não se permitir que as águas fluam sem controle, inundando tudo.

Nove é o número da saída do pântano, o número de uma gestação completa, início de uma vida transcendente, representada astrologicamente por Sagitário, o nono signo zodiacal. Cada cabeça da Hidra, a seguir descrita, é uma ameaça ao nosso processo de individuação. A segunda cabeça é a da possessividade, a das recompensas materiais a qualquer custo, do lucro, que podem tomar a forma de consumismo, de apetites sensuais, de obstinação imotivada, de avareza, de mesquinharia; a terceira é a da dispersão, que leva à falta de propósitos, à indiferença, à indiscriminação, à futilidade, à verbalização exagerada, à duplicidade; a quarta é a do apego exagerado à tradição, ao temor infundado diante da vida, ao conservadorismo, ao racismo, hipersensibilidade, infantilismo psíquico; a quinta é a da orgulho, da vaidade, da ostentação, da prepotência, da tirania; a sexta é da tendência à rotina, da indecisão, do servilismo, do detalhismo exagerado, das pequenas manias, da aridez emocional; a sétima cabeça é da tolerância decorrente da indecisão, da preguiça, da superficialidade, da busca exagerada de prazeres, da falta de iniciativa, da dependência da opinião alheia; a oitava é a do egoísmo, da sensualidade, do rancor, da crueldade, da inveja, da destrutividade; a nona é a do dogmatismo, da hipocrisia, do fanatismo, da presunção, dos entusiasmos cegos, da falta de realismo.    

Nosso herói venceu o monstro, mas não soube lidar com sua a cabeça imortal; enterrou-a sob um rochedo. Isto é, sob um ponto de vista psicanalítico, recalcou-a. O recalque, como se sabe, é um mecanismo de defesa que teoricamente tem por função fazer com que exigências pulsionais, condutas e atitudes, além dos conteúdos psíquicos a ele ligados, passem do campo da consciência para o do inconsciente, ao entrarem em choque com exigências contrárias. Foi o que aconteceu: uma vitória e, ao mesmo tempo, um fracasso. Hércules pensou que recalcando as pulsões humanas o monstro estaria vencido. Ele não entendeu que as pulsões humanas não podem ser recalcadas ou suprimidas, mas, ao contrário, devem ser transmutadas, orientadas pela razão, canalizadas na direção de uma espiritualidade progressiva. Só no décimo primeiro trabalho Hércules se aproximará, ainda que muito vagamente, deste entendimento.    

O signo de Escorpião, auge do outono, oposto ao de Touro, o pico da primavera, nos descreve uma  luta  entre  as  forças  da  luz  e  os
valores demoníacos da matéria. A partir de Escorpião, como dissemos acima, na natureza, as forças da destruição começam a prevalecer. Os dias se tornam mais curtos, as noites mais longas. A natureza entra em processo de decomposição e de destruição. As folhas caem, os galhos ficam secos; na matéria que apodrece, na semente que no interior da terra tem o seu hímen rompido, prepara-se uma nova vida, que só aparecerá no início da primavera.

Os naturais menos desenvolvidos do signo costumam, por isso, demonstrar um grande interesse por processos terapêuticos que se fixam só nos aspectos destrutivos das fixações inconscientes, sempre com ideias de fragmentação, de análise. O grande problema é que grande quantidade das partes ou pedaços resultante dessa fragmentação é jogada fora e não reunido num plano mais elevado, isto é, numa nova ordem psíquica e espiritual, já que a ideia de transcendência sob o segundo ponto de vista, principalmente, inexiste para a maior parte das terapias tradicionais. O que há comumente é a rearticulação das partes ou pedaços (as sobras) numa nova totalidade apenas físico-social, pois o que se busca, invariavelmente, são os aspectos quantitativos da transformação, isto é, novos índices de eficiência para o ser que se acredita ser novo, mas que, na realidade, não o é. Há que se desintegrar, sim, mas para transcender, para que a vida seja vivida num nível superior, diferente.


  FRANCISCO  DE  GOYA  Y  LUCIENTES

Em Escorpião, encontramos conceitos de vitalidade, resistência, paixão. Nos do signo, a vontade costuma poder muito pouco diante das emoções, dos sentimentos, das pressões internas, das ideias fixas, das obsessões. Daí, os combates intensos, os extremismos, a tendência à irredutibilidade e, também, as grandes realizações. A intensidade do querer em Escorpião é quase uma anormalidade, quase uma enfermidade. Fixos, os do signo são de acumular ressentimentos, mágoas; de manter feridas emocionais que não cicatrizam; são tenazes, de uma obstinação muitas vezes cega, prevalecendo invariavelmente o desejo de dominar, de se impor, sempre uma ideia de superação dos obstáculos e a irritação contra tudo que a tanto se opuser. Trabalhadores excepcionais, os escorpianos costumam não se deter diante das dificuldades. Presentes muitas vezes demonstrações explícitas ou veladas de vingança, que andam muitas vezes juntas com a dissimulação, o espírito crítico e o reformismo radical. 



O número do Escorpião é o oito, número das transformações, da morte, da via óctupla de várias tradições orientais. As cores são o vermelho, a da entrada na vida, e o negro, a cor da morte. No Candomblé, por exemplo, são as cores de Exu, o "homem das encruzilhadas". No geral, o escorpiano é atormentado, inquieto, sua alquimia interior destila estados mórbidos. Quase sempre nele presente o dissabor do existir, um dissabor que se revela como absurdo, através de ideias de morte (Albert Camus). Traços de sado-masoquismo são comuns, ao lado do abandono ao desespero. Sempre um grande desejo de sondar, escavar, desvendar enigmas, segredos, mistérios, seguir pistas (Edgar Allan Poe). Escorpião é conhecido como o signo das angústias e dos estados mórbidos. Intensidade, exacerbação, passionalidade, extremismos como o encontramos, exemplificando, na vida e na obra de Lupicínio Rodrigues. 


SANTO  ANTÃO  ( HIERONYMUS  BOSCH )

A galeria do signo é muito representativa. Lembremos, além dos mencionados, alguns outros tipos: Judas Escariotes (o agente da transformação de Cristo; sem ele não teria havido a ressurreição), Hieronymus Bosch (Santo Antão, sempre cercado pelo fervilhar infernal), Bruegel e a sua grande atração pelo trágico; Jean Racine que, mais do que ninguém, soube analisar no teatro clássico francês o drama do ser humano entregue às paixões; Vivien Leigh, a que tinha uma beleza diabólica; Paganini, Michelangelo, Dostoiviski, Franz Liszt, Richard Wagner, Pablo Picasso, Jean-Paul Sartre, Napoleão Bonaparte, De Gaulle, Martinho Lutero, Rodin, André Malraux, Albert Camus, Goethe, Maria Casarès, H.G. Clouzot, Cézanne, Schiller, Bizet, Lombroso, Voltaire etc.


PABLO  PICASSO - A  REBELIÃO  CRIATIVA  RADICAL

Em Escorpião encontramos mais males psíquicos que físicos. Alguns, embora muito resistentes, são eternos doentes, custando muito a morrer. É o tipo que carregado de males a todos enterra. Grandes desgastes por excessos (mesa, excitação nervosa, sexo). Problemas nos órgãos da sexualidade, região anal-retal, nariz. Grande sensibilidade a todas as toxinas, dermatoses úmidas, lupo eritematoso, erupções, inchaços alérgicos, edemas, hidropisias, reumatismos de natureza infecciosa... Em muitos escorpianos, tendências autodestrutivas, que aparecem muitas vezes sob a forma de imprudências, podem coexistir com um grande poder de regeneração. No geral, os hábitos são inusitados (exaltação uraniana), tudo em meio a um clima, nos mais evoluídos intelectualmente ou artisticamente, de impulsos de rebelião criativa que redimensionam repertórios.


CONSTELAÇÃO  DE  HIDRA

Nos céus, duas constelações, fora do círculo zodiacal, têm relação
TIAMAT  E  MARDUK
direta com este trabalho, Hidra e Ophiucus. A primeira é a maior constelação dos céus, com cerca de 95º, cobrindo o zodíaco de Câncer a Escorpião. Já conhecida pelos mesopotâmicos, era a personificação do grande monstro Tiamat, vencido pelo deus Marduk. A estrela mais importante de Hidra é Alphard, hoje a 26º35´Leão. Como se pode depreender, a Hidra tem relação com a energia feminina (inconsciente), à alma do mundo, sempre temível e ameaçadora para o mundo masculino, razão pela qual suas imagens em todas as tradições dominadas pelo mundo masculino sempre foram apresentadas como símbolos das forças irracionais destituídas de limites, de forma, evocando sempre o tenebroso, períodos caracterizados pelo caótico, pelo indiferenciado.

ASCLÉPIO
Já a segunda constelação, Ophiucus, era conhecida pelos antigos gregos como Serpentarius, o Curador, tendo relação direta com o culto de Asclépio, deus médico de Epidauro, filho de Apolo. O nome Asclépio vem de uma etimologia que designa em grego a toupeira, animal considerado cego, embora não o seja, porque “gosta” de viver em lugares escuros, em buracos no interior da terra, uma imagem da vida subconsciente. Toda a medicina de Asclépio fala de transformações através de processos como a enkoimesis (deitar e dormir), a metanoia (transformação de sentimentos,  e nooterapia (transmutação da mente), que propunham uma reforma psíquica através da mudança de sentimentos e de ações incubados nos doentes. As teses da medicina psicossomática, como se pode ver, já estavam claramente definidas no centro médico de Epidauro. Acrescente-se ainda que os sacerdotes-médicos desse centro eram especialistas em oniromancia, a arte de interpretação dos sonhos, considerada como via privilegiada para se chegar à vida psíquica dos doentes. Um dos grandes símbolos de Epidauro era a Grande Serpente, ser ctônico, que representava a vida que se renova continuamente.


AS  NEBULOSAS  DE  SAGITÁRIO  

A constelação de Escorpião estende-se hoje de 23º Scorpio a 26º Sagitário no círculo zodiacal. Sua estrela alfa é Antares, a 9º04´Sagitário. As suas outras estrelas, sob o ponto de vista astrológico, são desprezíveis. O que há de mais notável nesta constelação são as nebulosas Acumen e Aculeus (nome de duas estrelas), situadas atualmente no final de Sagitário. Tradicionalmente ligadas à cegueira, literal ou metaforicamente, as nebulosas, como se sabe, sempre sugerem perturbações, obliterações físicas ou metais, dificuldades para se ver as coisas, para percebê-las, como as cegueiras da razão, que podem inclusive levar à morte.


SÃO  PAULO  E  A  VÍBORA  DE  MALTA

Finalmente, lembro que astrólogos cristãos, mais tarde, deram o nome de São Paulo com a Víbora de Malta e de São Bento, o fundador da ordem beneditina, à constelação de Ophiucus. De certo modo, seguiram os astrólogos judeus que a ela já lhe haviam dado o nome de Moisés, inspirados pelo episódio da transformação da vara desse patriarca em serpente. Merece referência especial a associação do nome de São Paulo à constelação: consta que ele, quando andou pela ilha, foi picado por uma serpente e que nada lhe aconteceu. Por ter sido bem recebido, prometeu ao seu hospedeiro que ele e os seus descendentes nada sofreriam se atacados por animais peçonhentos. É por essa razão, conta-se, segundo o folclore da ilha, que os descendentes desse hospedeiro, até hoje, quando nasce uma criança na família põem no seu berço uma serpente para terem a confirmação de que se trata realmente de alguém de sua linhagem.   



quinta-feira, 11 de agosto de 2011

NOSSO INFERNO PESSOAL

A atividade agrícola provoca uma crise de valores entre as populações do final do chamado período Paleolítico. Até então eram muito importantes, sob o ponto de vista religioso, as relações entre os homens e o mundo animal. A esse tempo, os humanos passavam para o chamado período neolítico, o eixo da vida se concentrando mais no mundo da agricultura Neste período, a agricultura com a sua simbologia começa a suplantar aquela proveniente das relações de caráter animal, até então mais poderosas. Estabelece-se aos poucos uma espécie de solidariedade entre os seres humanos e o mundo vegetal. Com isto, a mulher e o mundo feminino carregam-se de sacralidade.

As mulheres, como se sabe, passaram neste período a ocupar uma posição de relevo, pois há um nexo natural entre a fertilidade da mulher e a fertilidade da terra. Não é por acaso que o mundo indo-europeu tem o radical gen para designar nascimento, o ato de engendrar, de gerar. Daí, gênesis (criação), genos (raça, entre os gregos), engenho (caráter inato), degenerar (corromper, adulterar-se) etc. E é desse radical que, por exemplo, sai o nome da primeira entidade nascida do Caos, segundo a cosmogonia hesiódica, Geia, também chamada de Gaia, a Mãe-Terra.

As mulheres, neste período, se tornam responsáveis pela abundância das colheitas, pois são elas que conhecem o "mistério" da criação, compreendido como algo religioso, que tem como "outro lado" a morte. Essa mudança, que alguns chamam de "revolução neolítica", vai tomando lugar, mais ou menos, entre 9.000 e 7.000 AC. Ao começar a produzir os seus alimentos, ao contrário do que ocorrera no Paleolítico, o ser humano precisou modificar bastante o seu comportamento. Teve que aperfeiçoar novas técnicas de intervir no solo, de medir o tempo, de aprender a fixar datas com base em calendários lunares, ainda que bastante rudimentares. Com isto, a atividade agrícola deu um novo sentido à religiosidade do homem. Uma das grandes histórias desse período refere-se à ligação que o homem faz entre as plantas nutritivas (cereais) e os tubérculos, que foi aprendendo a usar.

Os homens desse período consideravam que os alimentos extraídos da terra eram produtos divinos. Alimentavam-se do corpo de um ser divino. Para se apropriar destes produtos divinos era preciso colhê-los, isto é, cometer um "crime". A origem dos cereais e tubérculos foi entendida como o produto de uma união sagrada (hierogamia) entre o céu e a terra. Os processos de alimentação e morte se vinculam. O solo fértil, a terra, tem fortes analogias com a mulher e o trabalho agrícola com o ato sexual. Tudo isto sobrevive em algumas tradições populares como, por exemplo, o ato de depositar a criança que acaba de nascer sobre a terra para que esta a abençoe. Ou, então, o gesto de darmos três pancadas na madeira para pedir proteção, para "isolar", que outra coisa não é senão um pedido de socorro à nossa Grande Mãe (madeira vem de mater, mãe, matéria). Afinal, a grande constatação: o homem, nascido da terra, acabará a ela retornando um dia. A sexualidade da mulher está ligada aos ritmos lunares. Terra, Lua e mulher se unem, são solidárias. Este mistério se cumpre pela morte da semente, que assegura, então, um novo nascimento. A vida humana se parece com a vida do mundo vegetal, nascimento, morte e renascimento, tudo como os ciclos desse mundo.


As mitologias dos vários povos irão refletir este drama, que tem vários atos. 

São inúmeras as histórias que nos falam de deuses que morrem e renascem (Afrodite-Adonis, os Mistérios de Eleusis etc.). Desenvolve-se nas civilizações agrícolas desde o Neolítico uma concepção religiosa de natureza cósmica que tem como núcleo, conforme inspiração dos ciclos do mundo vegetal, a ideia da renovação periódica do mundo. Assim como os ritmos cósmicos se expressam em termos da vida vegetal, assim ocorre com a existência humana. O cosmos se renova periodicamente, anualmente. O tempo, por isso, é circular. Depois do inverno, a primavera...


O MUNDO SUBTERRÂNEO


As idéias aos poucos vão se fixando: mulher, feminino, ritmos lunares, semente, interior da terra, morte, escuridão, retorno... E quanto ao ser humano? Destruído o corpo (soma), desprendendo-se a alma (psiquê), fixa-se nessas civilizações o conceito de imortalidade. A perda da energia vital coincidia com a exalação do último suspiro. Daí a relação entre respiração e alma, fundamento da vida. Psiquê, anima, alento. Psiquê, a alma, toma a forma de um eidolon, uma representação que lembra vagamente a forma do corpo substancial, uma espécie de fantasma, que guardava uma "consciência" latente, podendo ser ativada através de cerimônias adequadas.


ULISSES E TIRÉSIAS (ODISSEIA)


      Era a nekyia, ou invocação da alma dos mortos, como Ulisses a realiza no canto XI da Odisseia.



Para Homero, Psiquê era como um sopro, mais ou menos material, que habitava o Hades. Aparecia sob uma forma frágil, volátil, uma skia (sombra). Outras designações: opsis (aparência), onar (sonho), simulacra (simulacro). Quando Psiquê deixava o corpo, suas faculdades de inteligência, memória e fala ficavam muito prejudicadas. Estas faculdades poderiam ser recuperadas por momentos. Os gregos nunca, a rigor, consideraram a morte como algo irreversível, definitivo. Usavam comumente a expressão "cobrir-se de trevas" para falar da morte. A alma para os gregos não era uma ficção, era algo real, podendo ser evocada pela aflição dos vivos, pelo amor, pela saudade, pela magia, pela poesia. A alma descia para o Hades, era a chamada catábase. Muito enfraquecidas, como vimos, pois os mortos são os dessecados, as almas não têm seiva, verdor. Envelhecer, caminhar para a morte é dessecar-se. O seco dificulta os processos metabólicos, gera tensão, rigidez, endurecimento. O seco freia o quente, é estreitante.

A partir da morte, com base em todas aquelas ideias já bem fixadas desde o período Neolítico, define-se, desde as tumbas, o conceito de Inferno, da existência de um lugar subterrâneo, residência das almas. Este conceito sucede ao de que esse mundo para onde iam as almas ficava além do oceano, uma serpente líquida que envolvia a Terra, como está na citada Odisseia. Com a crescente organização social, estratificando-se a sociedade, a ideia de mundo inferior se verticaliza e estabelece, lugar para onde iam as almas depois de terminada a vida terrestre.


HESÍODO

Com o poeta Hesíodo, do séc. VIII aC, em sua Teogonia, temos uma ideia mais clara do mundo infernal. Diz ele que do Caos, o misterioso indiferenciado, dotado de energia prolífica, num determinado momento, vão saindo várias entidades. Quatro são de polaridade feminina, negativas: Geia, a Terra; o Tártaro, o mais profundo, o mais abaixo, a partir de Geia; entre Geia e o Tártaro, o Érebo, as trevas inferiores intermediárias; acima de Geia, as trevas superiores, Nix, a Noite. A única entidade positiva a sair do Caos foi Eros, que aparece logo depois do Tártaro e antes das outras; é a força que une, que vai garantir não só a continuidade das espécies como a coesão interna do universo. Geia, por cissiparidade, gerará Urano, o céu, "em igualdade de esplendor e beleza, para que ele a cubra”. Unindo-se entre si e/ou com os seus descendentes, estas entidades darão origem às potências primordiais que constituirão o Cosmos.

O parágrafo acima descreve sumariamente o que chamamos de Cosmogonia grega, segundo o poeta Hesíodo. As cosmogonias, no geral, são modelos arquetípicos por onde principiam as diversas visões que os homens têm da organização do Cosmos (ordenação), uma visão sagrada. Lembremos que as cosmogonias e os processo de individuação do ser humano se assemelham bastante. As cosmogonias indicam um a ser, algo a ser construído, uma ordem a ser instaurada a partir do Caos, que sempre antecede a existência. As coisas entram na existência e desta passam a se cosmizar. Esta cosmização deve ser constantemente renovada, ela não se faz sem choques, sem lutas. A vida nasce da morte, todo progresso se apóia na destruição. Mudar é, ao mesmo tempo, morrer e renascer.



HADES E PERSÉFONE

A partir do século VI AC, o Inferno, isto é, o Hades já estava organizado. No mais fundo, o Tártaro, acima o Érebo, ao lado de ambos, pendendo para o oriente, os Campos Elísios. Junto, o chamado Campo da Verdade, lugar de julgamento. O Hades era um lugar fortificado, tinha muralhas, palácios, acrópole, uma grande região vestibular através da qual se fazia a passagem da superfície terrestre para ele. Este mundo localizava-se nas entranhas da Terra, pendendo, como um todo, para o oeste. Era atingido por aberturas na superfície da Terra, cavernas, grutas, lagos, lugares misteriosos, como Lerna (pântano da Argólida), Averno (lago ao sul da Itália), Tênero (cabo ao sul do Peloponeso) etc.



HÉRCULES E A HIDRA DE LERNA


A terra infernal não era fecundada, o solo era ingrato, sem luz, nenhum ser vivo. Cresciam nele, apenas, os ciprestes negros, os salgueiros, que jamais davam frutos, e álamos, que simbolizam as forças regressivas da natureza, que apontam mais para as lembranças que para a esperança, mais para o tempo que passou que para o futuro e o renascimento. Sobre o solo, também, o asfódelo, planta fúnebre dos cemitérios e das ruínas, flor infernal. Flor hermafrodita, chamada de pseudo-Narciso, consagrada a Hades e a Perséfone, o perfume do asfódelo lembra o do jasmim, tem propriedades narcolépticas, significando sempre perda da consciência, morte. O asfódelo era também conhecido entre os gregos pelo nome de aipo real. Neste sentido, era usado para coroar os vitoriosos nos Jogos Istímicos, conforme Píndaro atesta. Nos ritos fúnebres, era usado para indicar o estado de juventude eterna ao qual a morte dava acesso. O cipreste era sagrado pela longevidade, sempre de um verde persistente, encontrado nos cemitérios; árvore funerária, de resina incorruptível, lembrava imortalidade, ressurreição, morte, luto e renascimento. O salgueiro, ligado à morte, estava associado a sentimentos de tristeza e também à imortalidade. Os vegetais do Hades eram "representados" pelas ninfas denominadas Hespérides (hespera, tarde, poente), ninfas do poente, filhas de Nix, a grande deusa da noite, que as gerou por partenogênese.



AS HESPÉRIDES

São três, Egle (cipreste), Eritia (salgueiro) e Hesperaretusa (álamo), isto é, a brilhante, a vermelha e a do poente, o princípio, o meio e o fim do percurso solar. Estas três ninfas simbolizam, respectivamente, o Amor (Doação), o Desapego (Sabedoria) e a Compaixão (Serviço).

O território vestibular pelo qual se tinha acesso ao mundo infernal através dos lugares acima designados ficava logo abaixo da superfície da Terra, de Geia. Era chamado de o Bosque de Perséfone. Era um lugar lúgubre, desolado, nele viviam espectros, fantasmas, seres que haviam se fixado num estado entre a vida e a morte, que não haviam morrido ritualmente. O Bosque da Rainha do Hades era sobretudo território das divindades alegóricas. Dentre elas, destacamos: Algos (Dor); Geras (Velhice); Limós (Fome); Ponos (Fadiga); Metanoia (Arrependimento); Koros (Deboche) e sua filha Hybris (Desmedida); Penthe (Luto); Apate (Fraude); Sicofantia (Calúnia) sempre precedida de Ftnos (Inveja); Tryphe (Luxo); Lyssa (Fúria); Ate (Erro); Penia (Pobreza); Strofe (Chicana), cujo templo é o Palácio da Justiça, sendo seus ministros os juízes, os procuradores, os tabeliães e os advogados. Compartilhando o território com todas estas entidades, com a mesma importância, divindades e monstros como Eris (Discórdia), as Erínias (As Fúrias), os Centauros, os Gigantes, a Hidra de Lerna, as Górgonas, as Harpias, a Quimera, os irmãos gêmeos Fobos (Horror) e Deimos (Pavor), Enio (Grito de Guerra), o casal Tifon e Équidna. No centro do Bosque, uma árvore gigantesca, um olmo copado, árvore funerária, onde residiam os sonhos quiméricos. Este olmo era alimentado pelas águas do rio infernal Aqueronte.


TRAVESSIA DO AQUERONTE


De sua madeira se faziam as varas de punição, tudo o que servia para açoitar e vergastar.
O Érebo (obscuridade, escurecimento) era a camada intermediária, as trevas inferiores, por oposição e complementares às de cima (Nix). Dele se passava ao Tártaro. Guardava a entrada desta região o cão tricéfalo Cérbero. Nela ficava também o palácio de Nix, e de seus dois filhos gêmeos Hipnos e Thanatos, o Sono e a Morte.


HIPNOS E THANATOS

No palácio de Nix viviam também os Oneiroi (os Sonhos), os de mil formas, seus filhos. O Érebo era um lugar de permanência temporária (100 anos) das almas que, depois de julgadas, ficavam, em grande sofrimento, esperando o retorno.


O Tártaro é o abismo, o local mais profundo das entranhas da Terra, lugar de escuridão absoluta, sempre em declive, lugar que a luz jamais alcança. A distância que o separa de Geia é a mesma desta ao céu, Urano. Ou, de outro modo, o Céu e o Inferno são simétricos com relação à Terra. O Tártaro era a prisão dos deuses, dos grandes criminosos (Titãs, Sísifo, Tântalo, Títio, Ixion, as Danaides, os Alóadas etc.).


AS DANAIDES

Nele ficava o palácio de Hades-Plutão, cercado por um tríplice muro de bronze. O Tártaro sustentava os fundamentos da terra e dos mares. Alguns personagens do mito chegaram a penetrar nele e conseguiram sair (Hércules, Ulisses. Teseu, Orfeu). Unido a Géia, o Tártaro gerou Tifon e Équidna, aquele o maior dos monstros; juntos, os irmãos geraram inúmeros outros seres monstruosos (Hidra de Lerna, Quimera, Ortro, Leão de Nemeia, Fix, Cérbero, o dragão da Cólquida, o Abutre).


OS TITÃS NO TÁRTARO

No Tártaro havia um compartimento denominado "O Inferno dos Maus", lugar terrível, para onde iam os grandes criminosos, aqueles que haviam cometido crimes contra a família (genos), contra os deuses, contra a hospitalidade, contra a pátria (os vendilhões). A hospitalidade, saliente-se, era um dever sagrado. Todo estrangeiro era naturalmente protegido por Zeus Xênios ou por Palas Athena Xênia em Atenas. Era no Tártaro que as Erínias atuavam, atormentando as suas vítimas. Um lugar de torturas, de lamentações. Aridez, rochas, tanques gelados, lagos de enxofre, pez fervente. Era nesses lugares que as almas ficavam submetidas a torturas eternas, mergulhadas alternativamente para sofrer o frio e o calor extremos. A região era formada também por pântanos fétidos e rios abrasadores. Nenhuma esperança de retorno, de fuga, de consolação. Tudo triste e mecânico, repetitivo. A pena máxima a que ficavam submetidos os grandes criminosos enviados para o Tártaro era a obrigação de repetir o mesmo gesto eternamente. Ali, fixados na pena, sem qualquer possibilidade de mudança. O fogo, por exemplo, os torturava, mas não os destruía. A água e a comida jamais saciavam a sede ou a fome...

O Campo da Verdade era o lugar onde se reunia o tribunal para o julgamento das almas, jamais podendo se aproximar desse departamento a Mentira, a Maledicência e a Calúnia. Não se admitia também nenhum tipo de apoio ou proteção, mesmo divinos. Só a alma (Psiquê) e seus julgadores, Minos, Radamanto e Sarpedon, assesores de Hades.

Os Campos Elísios eram a morada das almas virtuosas. Primavera eterna, nada de sofrimento. Bosques perfumados, encantos, prazeres. Os heróis iam de corpo presente, conduzidos pelo canto dos poetas. Nesses Campos ficava a Ilha dos Bem-aventurados para onde eram transferidos os desejos de felicidade eterna, que ali poderiam enfim se realizar. O corpo de Aquiles, por exemplo, foi levado para lá por sua mãe, Tetis, o que lhe permitiu unir-se então a Helena, conhecendo ambos uma vida de bem-aventurança sem fim.

O Hades tinha cinco rios: Estige (que causa horror), Piriflegetonte (das chamas sulfurosas), Cocito (dos gemidos), Aqueronte (da estagnação, da tristeza, da aflição), o mais importante, e Lethe (do esquecimento). As almas chegavam ao Inferno conduzidas pelo deus Hermes, na sua função de Psicopompo. Ele as levava até as margens do rio Aqueronte, para que, na barca de Caronte, penetrassem definitivamente no Hades. Segundo a tradição, Aqueronte era um filho de Géia, condenado a permanecer para sempre nas entranhas da terra porque na luta entre deuses e Gigantes consentiu que eles bebessem de suas águas. Aqueronte, unido a Orfne, a ninfa das trevas, gerou Ascálafo. Este, como se sabe, estava presente quando Hades, tendo raptado Kore, transformou-a em Perséfone, fazendo-a "comer sementes de romã". Ascálafo, por ter propalado o acontecido, foi transformado por Deméter, mãe de Kore, numa coruja. Vive, por isso, empoleirado nos ombros do pai, cochichando-lhe coisas.

Junto ao palácio de Hades, vivia Hécate, a que "fere de longe, à distância", deusa trívia lunar, muito respeitada, que a cada vinte e oito dias subia à superfície da terra para pontificar nas encruzilhadas, lugar de transformações, de viradas de destino, poder que dividia com o deus Hermes. Profundamente misteriosa, tem correspondência com a Lua Nova. Preside às aparições de fantasmas e de espectros, sendo tanto a senhora dos malefícios ou dos benefícios. Devidamente reverenciada, liga-se aos cultos da fertilidade. Neste sentido, lembra que encruzilhadas são lugares de parada e de reflexão, lugares onde escolhemos não só as direções a tomar no plano horizontal mas, sobretudo, no plano vertical, para cima ou para baixo.

HÉCATE

Esse grande império coube a Hades quando Cronos e os Titãs foram derrotados por Zeus e seus irmãos. A Poseidon coube o domínio absoluto sobre todo o elemento líqüido, inclusive sobre as águas subterrâneas. A Hades, coube o imenso mundo subterrâneo, que passou a ser designado também pelo seu nome. Hades quer dizer o Invisível (Aides, Aidoneus); era também chamado de Plutão. Sob o nome de Hades, como divindade tutelar do mundo ctônico, ele não tinha culto; era temidíssimo, sendo, por isso, invocado por eufemismos. Um deles se fixou, Plutão, que se relaciona com a riqueza, a abundância, razão pela qual é representado muitas vezes com o Corno da Abundância. Violento, poderoso, soturno, só saiu duas vezes dos seus reinos. Uma vez para raptar Kore, na Sicília , e outra para subir ao Olimpo, a fim de se curar de um grave ferimento.

A Zeus, como se sabe, condutor da vitória e grande vencedor do monstro Tifon na batalha final pelo domínio do universo, coube não só o reino dos céus como a supremacia sobre todos os demais reinos. Hades-Plutão divide o seu reino com Perséfone. A deusa passa os meses do outono e do inverno com o esposo; a primavera e o verão ela os passa com a mãe Deméter. A descida (catábase) e a subida, o retorno (anábase) de Perséfone deram origem aos famosos Mistérios de Eleusis.

Ctônia era um dos nomes que os gregos tinham para designar o Hades, significando a palavra "a que fica sob a Terra, a região subterrânea". Hoje, com base no que a Mitologia Grega nos fixou, a superfície da terra, analogicamente, passou a significar o ser humano (humus, terra) enquanto ser consciente; já o mundo ctônico, com suas divindades, departamentos e monstros, o subconsciente. Os céus, com as suas alturas inatingíveis, onde vivem as divindades olímpicas sob a tutela de Zeus, passaram a significar o mundo supraconsciente.

A PRIVAÇÃO RADICAL


MOIRAS
Há uma passagem em Heráclito, filósofo grego da escola jônica, séc.VI AC, que diz o seguinte: O Sol não sairá dos seus limites; se o fizer, as Erínias, servidoras da Justiça, o desmascararão. Um dos maiores "pecados" para os gregos era a Hybris, personificada como filha de Koros, a insolência, o deboche, o desdém. Hybris era a desmedida, a imoderação, o orgulho, a vaidade, a arrogância, a falta de humildade perante os deuses, isto é, o Todo. Entendiam os gregos que tudo o que existe no universo tem um lugar, uma função. Isto não dependia dos deuses, pois eles também estavam obrigados a esta ordem, sujeitos a ela. Esta ordem fora instaurada por Moros, O Destino. Divindade cega, inexorável, gerada pela união do Caos com Nix, nunca admitida no convívio divino, desde a instauração da primeira dinastia (Urano-Geia), Moros (em grego, também, quinhão que cabe a cada ser humano ao entrar na vida; a palavra é usada ainda como infortúnio, destino funesto e morte). O nome Moros vem do verbo meiresthai, partilhar, sortear, o mesmo que deu origem ao nome Moira ou Moiras, as três irmãs que eram as donas do fio da vida, Cloto, Láquesis e Átropos. Conhecidas também como Aisa (s), eram as Moiras, por parte de mãe, irmãs de Moros, já que tinham, como ele, Nix por mãe. Todos, portanto, irmãos de Hipnos e de Thanatos, o Sono e a Morte, respectivamente.

Todas as divindades da mitologia grega estavam submetidas ao poder de Moros, os céus (Zeus), o elemento líquido (Poseidon) e os infernos (Hades-Plutão). Moros estava acima dos deuses e dos humanos, pois administrava uma lei que nem mesmo Zeus podia transgredir. As leis de Moros estavam escritas desde o princípio da criação, guardadas num lugar ao qual os deuses tinham acesso. O máximo que eles podiam fazer, entretanto, era apenas consultar o livro de Moros, jamais admitida qualquer mudança no que nele estava fixado. Só os oráculos podiam entrever e revelar o que estava escrito. Como não possuía templos nem culto, Moros era reverenciado por muito poucos. Representavam-no tendo sob os pés o globo terrestre; numa das mãos, uma urna onde estava guardada a sorte dos mortais. Na outra, um cetro, símbolo de seu poder soberano. No alto da cabeça, usa uma coroa de estrelas. Às vezes, Moros era representado por uma roda à qual está presa uma corrente. Acima da roda, uma enorme pedra; abaixo dela, duas cornucópias com pontas de lanças. São as leis cegas de Moros, como diziam os gregos, que tornam culpados tantos mortais, apesar de todo o seu empenho em se manter virtuosos. Ou, no sentido oposto, são as mesmas leis que tornam vitoriosas tantas pessoas que pelos seus atos demonstram o contrário da virtude, da honestidade e mesmo do respeito aos deuses. O exemplo clássico disto que aqui se expõe pode ser encontrado em Homero, na Ilíada, no episódio da morte do grande herói troiano, Heitor (canto XXII).


ANANKE


A obrigação que todos temos de respeitar a ordem universal era representada pelo conceito de Ananke. Este conceito significa coação, necessidade, e tem o sentido de fatalidade. Ananke governava todas as coisas de um modo providencial, uma espécie de necessidade mecânica, que vai além das causas puramente físicas. Um dos melhores exemplos deste desrespeito esta naquele comportamento que os gregos chamam de Hybris, a desmedida, o descomedimento, o orgulho. Nós o encontramos, ainda exemplificando, no mito de Dédalo e de seu filho Ícaro. Dédalo é o inventor, o técnico e também artista, símbolo do tecnocrata, que fabrica asas para que se filho escape do Labirinto, palácio cretense onde estavam presos. A história, como sabemos, termina em fracasso, pois as asas eram de cera. O que fica da história é que a tecnologia não é o melhor instrumental para se chegar às "alturas". A saída do Labirinto (subconsciente) em direção das alturas (supraconsciente) não pode ser feita através de meios técnicos, pois eles não passam de “asas de cera”. A ciência e seu subproduto, a tecnologia, são meios impróprios, totalmente inadequados, para se chegar à vida supraconsciente, à vida espiritual Ou seja, o mundo não melhora com a eles, piora...

Tudo no universo parece respeitar Ananke, a coação, a necessidade. "Olhem os corpos celestes", diziam os gregos, "como eles respeitam Ananke". Por que só o homem tenta escapar dela? Existe uma lei, uma ordem no universo que deve ser respeitada. Os hindus a chamam de Rita, a ordem universal, superior aos deuses, que devem obedecê-la também. Rita é a força da forças, uma categoria essencial da qual depende a própria existência. Tomado por Eris, por Até, por Lyssa, por Apate e por outras entidades o homem ultrapassa limites quer nunca deveria ter ultrapassado.

Hybris é uma insolência, um excesso, um arrebatamento que leva o homem, no fundo, a tentar se igualar com o divino ou a ultrapassá-lo. Uma disposição contrária àquilo que os gregos chamam de Sofrosyné, prudência, moderação sábia. O Oráculo de Delfos, no seu pórtico, ostentava, por isso, a máxima: Conhece-te a ti mesmo. Chama-se hamartia (violência), a expressão física da Hybris. Com ela, a lei natural é rompida, os deuses são desafiados. Entenda-se que isto nada tem de social ou jurídico. Nem, por outro, falamos aqui de "pecados", como as religiões patriarcais os encaram, principalmente o mundo cristão. Não se julgam no Hades, por exemplo, "pecados" sexuais (Hades-Plutão era, aliás, um estuprador). Zeus tinha um furor erótico insaciável. O que se julga no Hades é a pretensão, a disposição para o abandono da justa medida, a ignorância do que se é e, com isto, a falta de percepção do outro, isto é, do Todo.

Toda vez que aparece uma desproporção, toda vez que nos excedemos no desejo, no sofrimento, na beleza, no amor, uma divindade entra em ação. A Psicologia inventará mais tarde nomes para essas forças que nos fazem agir assim. Nomes mais pretensiosos e menos eficazes que aqueles que os gregos nos deixaram, sem dúvida. O problema que aparece, então, com a desproporção, a desmedida, é o da responsabilidade. Tudo isto desemboca no conceito de Ananke, a Necessidade, personificada sem rosto. O universo é envolvido por ela, pela Necessidade, por vínculos, fios, nós, obrigações, dependências, uma trama infinita. Ananke, por isso, também, toma o sentido de agarrar, constranger, obrigar. As deusas da necessidade, todas femininas, se agrupam nesse conceito de Ananke; são timoneiras, tecelãs, litigiosas, velam para que todos tenham a sua parte, que ninguém saia dos seus limites. A vida, contudo, é excesso, viver é exceder-se, diziam os gregos. Por isso, as deusas (Ananke) estão em toda a parte. A deusa Themis é um grande exemplo disto, já que seu nome lembra limite. Daí tornar-se ela a personificação das leis imprescritíveis e universais, que vêm antes das leis humanas. Themis é mãe das Horas, deusas dos ritmos da Natureza, e irmã de Aidos (Pudor).

O mundo ctônico, no seu aspecto trevoso, lembra sempre o terror da destruição. Desde que os homens começaram a trabalhar a terra, sabe-se que a alimentação e a vida crescem nas profundezas, que o cereal nasce dos mortos. Por isso, Hades é o aspecto destrutivo da vida e Plutão é o seu "outro" lado, o guardião das riquezas subterrâneas. A veneração das potências ctônicas é tão antiga quanto o homem. Os homens estão destinados à morte, são mortais. Um dos nomes de Hades-Plutão é Polygdemon (o rei que recebe muitos hóspedes no seu reino invisível). A imagem do reino de Hades oferece assim um duplo aspecto. O deus dos mortos é também o deus da abundância. Pluto quer dizer rico, dispensador de riquezas. Para entrar na posse dessas riquezas é preciso morrer, fazer a viagem subterrânea. Muitas estátuas representam o deus com o chifre da abundância, a cornucópia, e junto dele vários instrumentos agrícolas, símbolos da técnica a ser usada para se chegar à abundância. Entrar com esses instrumentos na Terra era penetrar no órgão feminino, unir o homem à mulher, o Céu e a Terra, um ato sagrado. Associa-se Hades a inúmeros cultos de fertilidade. Este aspecto de sua "personalidade" se deve sobretudo à sua esposa, Perséfone. A deusa fica seis meses com ele e nos outros seis volta à superfície para se encontrar com sua mãe, Deméter, deusa dos grãos, dos cereais e das colheitas. O retorno de Perséfone anuncia o crescimento dos cereais, a colheita e consequentemente a riqueza. Esta relação dupla, Perséfone-Hades, se completa ao percebermos que o deus é o mestre da invisibilidade, do mundo que precede a germinação secreta dos grãos. Dono do que escapa da vista humana, da percepção sensível dos homens, dono de algo que lhes parece ao mesmo tempo como terrível e promissor.

O nome que os gregos davam à Terra quanto ao seu aspecto subterrâneo, por oposição ao que ficava na sua superfície, como já se disse, era Ctonos. Como adjetivo, ctônico, designava os seres que vivem no seu interior, dragões, serpentes, monstros, anões, seres fabulosos, sempre ligados a ideias de morte, germinação, fecundidade. Representam por isso, analogicamente, o aspecto ctônico do nosso subconsciente, no que ele tem de obscuro, impenetrável, violento, imprevisível, fonte de dificuldades, de sofrimentos, de castigos, de torturas e de terrores, e também de renascimento, de ressurreição.

Nesta perspectiva, a mitologia grega deixa claro que os monstros são símbolos de dificuldades a vencer, de obstáculos a superar, para que seja possível ao homem (herói) entrar na posse de tesouros que tem dentro de si. Eles, os monstros, num certo sentido, representam as provas pelas quais temos que passar. São eles que dão a medida da capacidade do homem e do seu mérito. É preciso vencê-los e, mais do que a eles, é preciso que o homem vença a si mesmo, enfrentando os monstros que vivem no seu mundo ctônico. Em muitas ocasiões, os monstros não são mais que imagens do próprio eu do homem, que é preciso vencer para se chegar a um eu superior. Os monstros fazem parte de ritos de passagem. Muitos simbolizam as forças irracionais que levam o ser humano regressivamente para estágios anteriores ao do nível racional, que lembram o caos, a desordem, a desagregação. Por isso, o homem está sempre "caindo" do racional (consciente) para o irracional (subconsciente), jamais indo em direção do espiritual (supraconsciente). Cada ser humano tem os seus monstros contra os quais deve lutar, mesmo sabendo que sua vitória possa ser apenas momentânea. Nesta perspectiva, eles podem ser considerados como uma promessa de ressurreição. Temos todos, muitas vezes, que atravessar uma espécie de caos interior, infernal, escuro, nessa luta contra os monstros, para chegar a uma nova e luminosa forma. Os monstros simbolizam disfunções do nosso psiquismo, causadoras de desordens, desequilíbrios. O Inferno, o Hades, é o estado da vida psíquica daquele que foi vencido pelos monstros que enfrentou, seja porque se identificou com eles numa perversão consciente, porque a eles se rendeu ou porque, para escapar da situação conflitual, os recalcou, os pôs de lado, isto é, afastou-os, não querendo aceitar a luta.

Dentre as divindades que residem no Hades, citamos, a título de exemplo, como executoras da punição daqueles que fracassam na luta, a ação das Erínias. Elas são também chamadas de Fúrias e, como tal, se integram ao conceito da Ananke. Sãos monstros femininos alados, cabelos entremeados de serpentes, desgrenhados, garras; com chicotes e tochas, castigam tanto na terra como no Hades aqueles que romperam determinados limites. São guardiãs das leis da natureza e da ordem cósmica, tanto no sentido físico como moral. Punem assim todos os que ultrapassam seus direitos em prejuízo do direito dos outros, os seres que se entregam à Hybris. São as vingadoras do crime, punem os que pecam contra o genos. Punem a desmedida através da qual o homem corrompe a ordem cósmica, já que a hamartia (ação física decorrente da hybris) produz um miasma, uma mancha, uma nódoa, que é tanto religiosa como social, pois envenena tudo à sua volta. Como divindades ctônicas, vivem entre o Tártaro e o Érebo, nas entranhas de Geia, e têm por missão, também, a de punir os crimes que contra a Mãe-Terra se cometem. São as Vingadoras: Aleto, a que persegue com tochas; Tisífone, a que açoita o culpado e grita aos seus ouvidos; e Megera, a que joga os criminosos uns contra os outros. São instrumentos da vingança divina. Ao atuar, "trazem" o Hades para dentro da vida do criminoso. Neste sentido, são a "consciência mórbida". Interiorizam-se como remorso, sentimento de culpa, autodestruição, doença, criando estados obsessivos, dolorosos, loucura, em função do crime cometido. Excepcionalmente, podem as Erínias transformar-se em Benfeitoras (Eumênides), quando o criminoso se arrepende sinceramente, quando demonstra (longos períodos, anos e anos de demonstrações do seu arrependimento, prestação de serviços à sociedade etc.) que está procurando se tornar "outra" pessoa. Obrigatória, também, no caso, as pesadas compensações pecuniárias em função da falta cometida. Só, então, as Erínias poderiam se transformar em Eumênides...