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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

LYRA, OPHIUCHUS, PEGASUS

        


LYRA é também conhecida como a constelação da Harpa, vista de modo muito diferente por várias culturas. Os gregos a associaram a três personagens de sua mitologia. Primeiramente, a história que nos fala dos amores de Apolo com a ninfa Coronis e do nascimento de um filho de ambos, Asclépio, divindade médica de Epidauro.
ASCLÉPIO
Com a sua arte médica, herdada do pai, ele se pôs a ressuscitar os que o procuravam no seu famoso santuário. Hades queixou-se a Zeus, pedindo prontas providências, pois, a continuar Asclépio com as suas práticas, ninguém mais baixaria ao seu reino. Prontamente, o Senhor do Olimpo interveio, fulminando Asclépio. Apolo, em represália, matou os Cíclopes, que haviam cedido a Zeus as armas com as quais conquistara o universo, o trovão, o relâmpago e o raio. Ao invés de mandar Apolo para o Tártaro, sua primeira intenção, Zeus o enviou para um exílio terrestre em Feres, na corte do rei Admeto, a quem serviria como pastor por um ano. 



APOLO  E  O  REBANHO  DE  ADMETO
( CLÁUDE  LORRAIN , 1645 )

É neste ponto da história que aparece Hermes, ainda uma criança, que, libertando-se das faixas que o envolviam, dirigiu-se à Tessália, onde furtou uma parte do rebanho de Admeto, guardado por Apolo. Hermes afastou-se do local, apagando as pistas dos animais, amarrando galhos nos seus rabos. Numa gruta, sacrificou duas

novilhas aos deuses, dividindo-as em doze porções, embora os imortais, a essa altura, fossem apenas onze. O deus-menino, assim agindo, promovia-se à décima segunda divindade olímpica. Tendo encontrado uma tartaruga, Hermes matou-a e usou a sua carapaça para fazer a primeira lira, acrescentando-lhe como cordas as tripas dos animais sacrificados. 

Apolo descobriu o paradeiro do menino-deus e o acusou formalmente. A questão, da qual participou também Maia, mãe de Hermes, acabou chegando a Zeus. Maia protegeu o filho, alegando ser impossível que uma criança mal saída dos cueiros pudesse ter praticado ato semelhante. Zeus, sabendo com quem tratava, interrogou duramente seu filho, que, diante das evidências
FLAUTA  DE  PAN ( PICASSO)
apontadas por Apolo, foi obrigado pelo pai a jurar nunca mais faltar com a verdade, embora reservasse a si o direito de, a seu critério, não se obrigar a dizer a verdade por inteiro. Se lhe conviesse, só a meia-verdade. Encantado com os sons da lira que o menino-deus tirava, Apolo lhe propôs um acordo. A troca do rebanho furtado pelo novo instrumento musical de som divino (mais tarde, lembremos, a syrinks, a chamada “flauta de Pan", também inventada por Hermes, será negociada com Apolo). 

ORFEU  E  SUA  LIRA
Feito o negócio, Apolo logo depois cedeu a  lira a seu filho Orfeu, o grande poeta, músico e cantor, gerado por Calíope, a mais importante das Musas. Narra o mito que Orfeu aumentou o número de cordas da lira de sete para nove, em homenagem às Musas. Sua maestria ao cantar e  ao tocar o instrumento era tanta que todos se encantavam, não só os humanos, os animais e os vegetais também.



EURÍDICE  E A  SERPENTE
( EUGÈNE   DELACROIX )


ORFEU  E  EURÍDICE  ( RUBENS )
Ao regressar da expedição dos argonautas, Orfeu casou-se com a ninfa Eurídice, seu grande amor, considerando-a como a metade de sua alma (anima). Certo dia, perseguida pelo deus apicultor Aristeu, foi Eurídice picada por uma serpente, vindo a falecer. Inconformado, tomado por grande desespero, Orfeu foi ao Hades buscá-la. O som de sua lira e o seu maravilhoso canto chegaram inclusive ao Tártaro, levando momentaneamente um pouco de alegria e paz a criminosos como Tântalo, Sísifo, Ixion e outros que lá se encontravam, eternamente aprisionados.    Orfeu seduziu
POTHOS
de tal modo os deuses do mundo ctônico que recebeu permissão de Hades e de Perséfone para reconduzi-la à superfície da terra.  Uma 
condição lhe foi imposta: ele seguiria à frente e ela atrás; acontecesse o que acontecesse, ele não poderia se voltar para vê-la até que saíssem do território infernal. O poeta concordou com a imposição; já estava quase saindo do Hades quando, tomado por invencível saudade (um ataque do deus Pothos), voltou-se para ver a noiva. Imediatamente, viu que Eurídice se desvanecia sob os seus olhos, retornando ao mundo das sombras. Tentou alcançá-la. Impossível, Caronte barrou-lhe os passos. 

Impotente e amargurado, desconsolado, Orfeu voltou à superfície, passando desde esse fatídico dia a repelir todas as mulheres, fiel à memória do seu grande amor. As mênades, sacerdotisas de Dioniso, o deus que destrói as formas que não sabem se renovar, violentamente então o despedaçaram. Segundo uma das mais consistentes versões do mito, a morte de Orfeu pelas mênades se devia a uma vingança de Afrodite contra Calíope, mãe do poeta, que arbitrara a disputa por Adonis, o lindíssimo filho de Mirra. Como se sabe, Calíope decidiu que Adonis deveria permanecer uma parte do ano com Perséfone e outra parte com Afrodite, decisão que irritou profundamente esta última. 



MORTE   DE   ORFEU

O crime das mênades foi punido. A pedido de Apolo, Zeus devastou a Trácia com uma grande peste. Consultado, o oráculo de Delfos revelou que Zeus só se acalmaria se a cabeça de Orfeu e sua lira fossem recuperadas e lhe fossem prestadas as devidas honras fúnebres. Assim foi feito, sendo erguido um templo em honra do
SAFO
poeta, nele se proibindo a entrada de mulheres. Esta proibição se explica pelo fato de que Orfeu, depois de sua saída do Hades, deixou de interessar pelas mulheres, passando a andar só com jovens rapazes, pregando a castidade etc. A lira do poeta que havia ido parar na ilha de Lesbos, lugar de origem da poesia lírica (Safo), foi recuperada e enviada aos céus para formar a constelação de que tratamos.

TERPSÍCORE
( EUSTACHE LE SUEUR )
Entre os gregos, a lira era também atributo de duas Musas, Érato (nome grego que significa a que ama com paixão), que presidia de modo particular a poesia lírica e amorosa, e de Terpsícore (a que tem prazer em, a que se alegra, também em grego), cuja função era a de presidir a dança. Da união desta última com o deus-rio Aqueloo nasceram as Sereias e, segundo uma versão mítica, também Lino, inventor do ritmo e da melodia, professor de música de Hércules, que o assassinou numa crise de loucura.  Os antigos
REI DAVID
também chamaram esta constelação de A Pequena Tartaruga. Os romanos (Plínio) a conheceram como As Estrelas da Harpa. Os celtas a denominaram Talyn Arthur, A Harpa do Herói (Arthur).  Astrólogos judeus e cristãos a chamaram de A Harpa do Rei David. 


A lira, a harpa, a cítara e o alaúde são instrumentos musicais que participam do mesmo universo simbólico ao representar a harmonia cósmica, a união do céu com a terra. Fazer vibrar a lira é fazer vibrar o mundo. A carapaça da tartaruga que entra na lira é, como sabemos, um símbolo da abóbada celeste enquanto as cordas, retiradas do animal (touro), representam a multiplicidade do mundo terrestre. Ao vibrá-las, o poeta promove as bodas cósmicas, a união do céu e da terra. 

Na mão dos deuses ou de alguém por eles inspirado, a lira podia mover montanhas. É o caso de Anfion, filho de Zeus e de Antíope, gêmeo de Zeto. Aquele era pacífico, dedicava-se à música; o segundo era violento, empregando o seu tempo em lutas e trabalhos pesados. Ambos reinaram em Tebas, dividindo o poder, e resolveram murar a cidade. Anfion, que havia recebido uma uma lira de Hermes, fazia com a sua música que as pedras se movimentassem e se encaixassem perfeitamente. Já Zeto as transportava nos ombros, desgastando-se enormemente. Viviam os dois irmãos às turras, embora Anfion sempre acabasse cedendo, para evitar que o conflito se instalasse. Segundo o mito, pelo pecado da hybris, ambos foram mortos por Apolo.

GRAVURA   INDIANA
A tartaruga, lembremos, entre os alquimistas do extremo-oriente representava o ponto de partida da evolução, o começo da obra da espiritualização da matéria. O grande naturalista romano Plínio considerava a carne da tartaruga como um remédio salutar contra os venenos, tendo inclusive o poder de afastar manobras mágicas. Além do mais, por sua carapaça, arredondada como céu, e achatada em baixo como a Terra, a tartaruga sempre foi usada, em várias culturas, para representar o universo, a união do céu e da Terra, constituindo-se ela numa cosmografia ambulante.

Os judeus viram na constelação sobre a qual se discorre aqui a harpa de David. Sabemos que ele, foi rei de Israel, sendo descendente de Rute, a moabita que se converteu ao judaísmo. Tendo começado a sua vida como pastor em Belém, o cuidado com que tratava os carneiros sob sua guarda mostrou a Deus que tinha qualidades para se tornar o futuro rei israelita, assim acontecendo. Da sua biografia consta a vitória que obteve sobre o gigante Golias.
DAVID   E   BETSABÁ
O seu talento musical era tão desenvolvido que, ainda na juventude, conseguiu tirar o primeiro rei de Israel, Saul, de uma profunda depressão que o prostrava. Aos 28 anos, David foi ungido rei pelo profeta Samuel. Governou depois de Saul e libertou Jerusalém. Muito religioso, David fazia pender sobre a sua cama uma harpa cujas cordas ressoavam à noite ao sopro do vento, despertando-o para cantar loas a Deus e estudar a Torá. Compôs salmos, publicando-os em livro. A esposa favorita de David foi Betsabá, mãe de Salomão, que o sucedeu no trono.


David foi, ao que parece, o primeiro a dar uma forma sistemática à música que então se fazia em Israel, toda ela voltada depois para as
KINNOR
atividades do Templo, construído por seu filho, Salomão, conforme se pode depreender dos textos do Levítico. Várias canções, como a de Míriam e a de Débora, restam desse tempo. A harpa, mais uma espécie de lira, tinha, contudo, um destaque maior no campo secular, sendo chamada de kinnor. Toda a tradição musical que tinha por base a vida no Templo se perdeu quando de sua destruição (70 dC) e a consequente dispersão das tribos de Israel. 

SUÍTE DE MÚSICAS
ARTURIANAS
Quanto aos celtas, a harpa vista nos céus tem relação com o instrumento que o rei Arthur tocava nas suas andanças. Este rei mítico, cujo nome deriva da palavra urso (arktos, em grego), representa um ideal cavaleiresco na busca do Santo Graal, tema largamente explorado pela literatura medieval insular e continental. Arthur, como sabemos, está adormecido na ilha de Avalon (o Outro Mundo). Gauleses e bretões esperam que um dia ele volte para libertá-los da dominação estrangeira, o que acontecerá antes do fim dos tempos. Na Idade Média, contrastando com a da Águia (Aquila), esta constelação foi chamada de O Abutre (Vultur), também nome de sua principal estrela. Da sua configuração nos céus fazia parte uma lira, que o pássaro trazia em seu bico.



A constelação da Lira estende-se de 10º a 29º de  Capricórnio, sendo Wega a sua estrela alfa, de 1ª magnitude, hoje a 14º37 de Capricórnio. O nome da estrela vem do árabe, Al Waki, palavra que traduz uma ideia de algo cadente. Na Idade Média, a estrela recebeu o nome latino de Vultur Cadens ou simplesmente Vultur, ou seja, Abutre. A estrela Wega, entre 12.000 e 10.000 AC, era a estrela polar. Os egípcios chamavam Wega de Maat, a deusa da Justiça, que participava da pesagem das almas, a psicostasia. Esta deusa era simbolizada por penas do avestruz. A pena do avestruz, entre os egípcios, representava tanto a justiça como a equidade e a verdade pelo fato de todas penas da ave terem sempre o mesmo tamanho. Neste sentido, a pena do avestruz é também um símbolo da harmonia cósmica, da ordem universal, fundamentada na justiça. 

TORRE   DO   SILÊNCIO
O abutre é, como a águia, uma ave de rapina, só que, simbolicamente, menos “nobre” que ela. São os abutres conhecidos como devoradores de restos, de carniça, de cadáveres, como os que encontramos ainda hoje nas Torres do Silêncio, entre os parsis, na Índia (Mumbai). Se o abutre é, num sentido, uma ave ligada à imundice, é, por outro lado, um agente regenerador das forças vitais, contidas na decomposição orgânica e nos restos de toda espécie. É o abutre assim um ser que assegura o ciclo do renascimento, um purificador, que transmuta a morte em vida. No mundo greco-romano, o abutre tem poderes divinatórios. Como tal, era uma ave consagrada a Apolo, porque seu voo, como o da águia, do cisne e de outras aves, era interpretado pelos áugures que, por eles, faziam os seus presságios. 


PERSEGUIÇÃO   DAS   HARPIAS
( PETER  PAUL  RUBENS )

O estabelecimento de analogias entre entre o abutre e as Harpias gregas, acredito, poderá ser tentado. As Harpias (Aelo, a borrasca; Ocípite, a rápida no voo; e Celeno, a negra) são divindades infernais, sempre ávidas de sangue, mulheres aladas, envelhecidas, seios pendentes, com bicos e garras, parecidas com abutres. São as abastecedoras do inferno, raptoras (harpein, em grego, de onde vem o nome, que significa arrebatar) dos cadáveres, principalmente dos jovens. Na Índia, por exemplo, o abutre aparece como a montaria de Shani (O Escuro) ou Manda, a personificação do planeta Saturno, geralmente representado sob os traços de um velho muito feio e claudicante.  

As influências astrológicas desta constelação, para nós, se concentram no simbolismo da lira, instrumento musical construído pelo deus Hermes a partir da morte (a carcaça da tartaruga e as
SHANI
cordas, as tripas dos animais sacrificados). Na tradição medieval se acrescentou ao símbolo, como que tornando-o mais explícito, um outro símbolo, o abutre, ave necrófaga e regeneradora, ao mesmo tempo. Numa síntese final, coexistem na constelação da Lira os temas da morte e da vida, instrumento com o qual temos que fazer a “nossa música”. A lira é o instrumento privilegiado para isso, pois sua música nos introduz na ciência das modulações, da medida, comandando ela a ordem do cosmos e a ordem humana. 

A tradição ptolomaica nos diz que as influências da Lira têm características de Vênus e de Mercúrio. As que a seguiram apontam para pendores artísticos, talentos interpretativos, chamando a proteção das Musas, tuteladas por Apolo. Traços carismáticos podem se apresentar com Wega, algo semelhante ao que os antigos
MOZART
gregos chamavam de kydos, uma espécie de proteção concedida pelos deuses, uma proteção que poderia ser, entretanto, retirada inexplicavelmente, levando o antigo protegido a descontroles e a desregramentos em que poderiam  se misturar o desdém, a lascívia e o deboche. Um tema astrológico a ser interpretado nesta perspectiva é, por exemplo, o do compositor austríaco Mozart.



OPHIUCUS

OPHIUCHUS,  também conhecida como Serpentarius, foi dividida em três constelações, Ophiuchus propriamente dita, Serpens Caput e Serpens Cauda, consideradas em conjunto para fins astrológicos. Os antigos gregos chamavam esta constelação de O Curador ou O Médico (Iatrós), que era o deus
ASCLÉPIO   E   FILHAS
Asclépio, filho de Apolo, sendo a mãe a ninfa Coronis. Educado pelo centauro Kiron, Asclépio fez tamanho progresso na arte médica (Iátrica) que chegou a ressuscitar os mortos, usando uma técnica que hoje chamaríamos de transfusão de sangue (a deusa Palas Athena cedera, para esse fim, a Asclépio, o sangue que escorrera do lado
MEDUSA  ( CARAVAGGIO )
direito do pescoço da Medusa, quando decapitada por Perseu). O deus Hades queixou-se a Zeus, pois a ordem do mundo seria transtornada se ninguém mais baixasse ao Inferno. Zeus fulminou o filho de Apolo, mas consentiu na sua divinização. Não podendo vingar-se,  Apolo matou em represália os Cíclopes, que haviam doado a Zeus o trovão, o relâmpago e o raio, armas com as quais o Senhor do Olimpo conquistara o universo.


HIGEIA
Os cultos a Asclépio se fixaram em Epidauro, onde passou a ser chamado de “O Bom”, “O Filantropíssimo”. No local, instalou-se um centro médico que, com o tempo, passou a atender, por séculos, milhares de pessoas da Grécia e do exterior que para lá se dirigiam em busca da cura para as suas doenças físicas e mentais. Casado com Epíone, Asclépio teve quatro filhas, Áceso (A que Cuida de), Iaso (A Cura), Panaceia (A que Socorre a Todos) e Higeia (A Saúde; para os mais interessados, no MASP, temos uma belíssima escultura desta deusa, de IV aC, período helenístico), e dois filhos, Podalírio e Macaon, ambos afamados cirurgiões. 

RUÍNAS   -   EPIDAURO
A imagem de Asclépio ficava fechada em Epidauro num edifício chamado Tholos, encerrado num grande labirinto, em meio a luxuriante vegetação. Junto da imagem de Asclépio estava a Serpente, réptil que para os antigos gregos tinha o dom da adivinhação, enrolada num bastão, atributo do deus. As técnicas de cura em Epidauro baseavam-se na chamada nooterapia, a cura pela mente, que levava à metanoia, à transformação dos sentidos. A nooterapia reformava a mente das pessoas, o que ensejava também mudanças no corpo físico. O objetivo era o da purificação do ser humano como um todo. 

Fazia também parte do processo de cura a chamada enkoimesis (deita e dorme); os doentes eram levados, induzidos ao sono para que, ao sonhar, as suas doenças, incubadas, viessem à luz, à consciência, através de sonhos, interpretados então pelos sacerdotes-médicos, sonhos nos quais estavam os sinais que poderiam trazer a cura. Praticava-se
HIPNOS
assim em Epidauro a oniromancia como técnica terapêutica. O nome desta técnica era derivado do nome Oniro, o Sonho Enganador, um dos filhos de Hipnos, o deus do Sono. O outro irmão chamava-se Hypar, o Sonho Profético. Ambos atuavam nos sonhos. Além destes, como um dos muitos filhos de Hipnos, havia Morfeu (morphe, forma), que podia tomar a forma de seres humanos e mostrar-se a mortais adormecidos durante os sonhos. Morfeu era representado sob uma forma alada e, com grande facilidade, poderia tomar a forma que bem entendesse. Deslocava-se silenciosamente e parecia ter o dom da ubiquidade devido à sua extrema velocidade. 

TEATRO   EPIDAURO
Epidauro era, contudo, mais que um centro médico. Ali havia lazer, cultura e sobretudo vida espiritual. O complexo arquitetônico (do qual restam ainda hoje algumas ruínas e um magnífico teatro, quase que totalmente intacto) compreendia um odeon (para música e poesia), um estádio, um ginásio, um teatro, uma biblioteca, além de refeitórios, piscinas, numerosas obras de arte nos grandes jardins. Havia em Epidauro o que os gregos chamam de metusia, uma convergência entre várias manifestações e técnicas, todas ordenadas segundo uma prática da qual faziam parte cerimônias e ritos que tinham a finalidade de reforçar o sentimento religioso dos que procuravam o santuário. 

Os processos terapêuticos usados em Epidauro incorporavam a
URÓBORO
ideia da serpente sob a forma de uróboro, aquela que engolia a própria cauda, símbolo da manifestação e da reabsorção cíclicas. Ou seja, a serpente como símbolo da perpétua transformação da morte em vida na dialética material. É por esta razão que a serpente, nesta forma, é em antigas tradições mediterrâneas, orientais, africanas e americanas considerada como a mãe do Zodíaco, a imago mundi

Uma outra versão grega sobre a origem desta constelação aparece ligada à infância de Hércules, o grande herói nascido dos amores de Zeus e da princesa Alcmena. Hera, a esposa do Senhor do Olimpo, desde que nosso herói nasceu sempre o perseguiu tenazmente. Duas gigantescas serpentes foram enviadas por ela para matar Hércules e seu irmão gêmeo Íficlles, ambos ainda no berço. Nosso herói, tranquilamente levantou-se e agarrando as serpentes as  esmigalhou. Os gregos, para homenagear o filho de Alcmena, colocaram as serpentes nos céus como a constelação de Ophiuchus.



HÉRCULES   ESMAGA  A  SERPENTE  ( PIETRO  BEVENUTI ) 

Os cristãos, desde os primeiros séculos dC, viram nesta constelação
SÃO  PAULO ( REMBRANDT )
o apóstolo São Paulo e a Víbora Maltesa. Orígenes, um dos pais da Igreja Católica, nos informa que Paulo teve dois nomes e que foi chamado indiferentemente de Paulo e de Saulo, este último nome uma homenagem ao primeiro rei dos israelitas, Saul. Depois, assumiu o nome de Paulo, que quer dizer de espírito modesto, pequeno, humilde. Considerava-se Paulo o menor dos apóstolos. Aceitou o apostolado junto aos gentios, curou um paralítico, ressuscitou um rapaz que morrera ao cair de uma janela, realizando outros milagres. 

O nome que os cristãos deram a esta constelação se deve a uma passagem da vida do santo quando ele, em Malta (ilha por ele
PAULO   E   SERPENTE
cristianizada entre 58-60 dC), foi picado na mão por uma serpente. Lançou-a ao fogo, nenhum mal lhe acontecendo. Conta-se que, desde então, todos os descendentes da família que lhe deu abrigo na ilha nada sofrem se atacados por animais venenosos. Mais ainda: quando do nascimento de algum membro da família, o pai costuma colocar uma serpente no berço para se certificar de que a criança é de fato da mesma linhagem familiar.

Os judeus viram na constelação a serpente de bronze que Moisés colocou no alto de um mastro, no deserto, durante uma epidemia de picadas de serpentes. Estes seres rastejantes tinham aparecido como castigo em virtude das insistentes reclamações do povo contra Deus. Aqueles que haviam falado mal de Deus, dos seus atos, eram intrigantes. Desde então a serpente, como a do Paraíso, que tentou Eva, passou a simbolizar aqueles que falam por trás, isto é, a intriga. Bastava tão só aos que eram picados olhar a serpente de bronze que Moisés colocara no topo do mastro que a cura era imediata. Essa imagem da serpente tornou-se mais tarde objeto de um culto idólatra entre os judeus, sendo destruída pelo rei Ezequias. Muito piedoso, ele expurgou o judaísmo de vários cultos idólatras e de acréscimos de natureza pagã.

É do mundo cristão que nos vem uma outra leitura desta
SÃO   BENTO
constelação, a de que ela representa São Bento em meio aos espinhos. São Bento é o patriarca dos monges ocidentais, tendo sido proclamado pelo papa Paulo VI como o padroeiro da Europa. Nasceu na Itália (Umbria, Núrsia) no ano de 480. A alusão aos espinhos se deve ao fato de que Bento, enviado a Roma para estudos superiores, abandonou a cidade devido à devassidão que nela encontrou. Fugiu para as regiões selvagens do país, para viver solitariamente “entre os espinhos”. Foi nessa região (Subiaco) que, aos poucos, organizou doze pequenas comunidades, fundando em 529 o mosteiro de Monte Casino.

Esta constelação, desde sempre, foi associada, em várias tradições, a todos os tipos de cura e à química neles empregada, a drogas, remédios, ervas,  plantas medicinais em estado natural (símplices), alcoolaturas (produtos da maceração de substratos vegetais, animais ou minerais em álcool, usados como medicamentos;
HILDEGARDE
tinturas), estas últimas muito produzidas nos mosteiros beneditinos. Uma das figuras mais importantes da ordem beneditina foi Hildegarde von Bingen, séc. XII, a chamada Sibila do Reno, canonizada, autora de importante obra musical e literária (de natureza apocalíptica). São importantes as suas  obras sobre ciências naturais e sobre o corpo humano e suas enfermidades. Inventou uma língua, mistura de alemão e latim, com um alfabeto idiossincrático. Certos traços de sua obra podem ser comparados ao que nos deixaram Dante e William Blake. Foi uma das mais notáveis figuras femininas da baixa Idade Média.

Serpentarius estende-se de 27º de Virgem a 27º de Sagitário. Segundo Ptolomeu, sua influência tem características de Saturno e de Vênus, esta moderada, apontando para tendências passionais, ingenuidade, natureza perdulária, sujeitando a perigos não percebidos, inimizades, calúnia, difamação, envenenamento. Ao lado destas influências que a tradição consagra, temos que acrescentar, ressaltando-as, aquelas relacionadas com todas as formas de cura e tratamento que podem se manifestar, inclusive em áreas que não as especificamente ligadas à medicina. Podemos ter o caso, por exemplo, de pessoas que sensibilizadas por esta constelação e por suas estrelas, através de alguma atividade

regeneradora, profissionalmente ou não, ajam no sentido de levar alguma forma de transformação a outras, por suas obras, escritos, conhecimentos, ações etc. Pessoas que necessitem de algum tipo de tratamento também podem apresentar algum destaque desta constelação e de suas estrelas em seus temas. A estrela alfa de Ophiuchus é Ras Alhague (hoje a 21º 45´ de Sagitário), nome que vem de Ras al Hawwa, “aquela que está situada na cabeça da serpente”. Para fins de estudo, neste particular, ver, por exemplo, os temas astrológicos de Francisco Xavier e de Vincent Van Gogh. 






PEGASUS – Esta constelação, na sua mais antiga expressão, nos remete ao final do período histórico chamado Mesolítico, quando a humanidade começou a abandonar a vida nômade (Paleolítico) e passou a se fixar na terra, dando início ao Neolítico. Este período marca a última divisão da Idade da Pedra, sendo caracterizado pelo desenvolvimento da agricultura e da dominação de animais, em especial o cavalo, posto a serviço desta última. Este período se estende mais ou menos de 8.000 a 3.000 AC, nele sendo desenvolvido o uso de artefatos de pedra polida, trabalhada, além dos confeccionados em bronze. 

Desde então, o cavalo adquiriu uma carga simbólica múltipla e variada em todas as culturas e civilizações do mundo antigo. Associado à vida e à morte, inseparável do homem, o cavalo nunca foi considerado um animal como os outros. É montaria, veículo, ligando-se o seu destino ao do cavaleiro. A valorização negativa do símbolo faz do cavalo um animal das profundezas infernais. É nesta figuração que cavaleiro e cavalo mudam de papel, tornando-se o homem um possuído, um cavalgado. Os ritos dionisíacos caminham na mesma direção. Dizia-se que os iniciados, nas cerimônias eleusinas, eram cavalgados pelo deus. Não é por outra razão que as figuras hipomorfas, no mito grego, sempre aparecem associadas a ele. Na China, os  neófitos, nas antigas tradições chinesas, eram chamados de “jovens cavalos”, quando de sua iniciação. A Idade Média fará do cavalo a montaria privilegiada na busca espiritual.


POSEIDON   HIPPIOS

No mito grego, a divindade geradora de cavalos é Poseidon sob o nome de Hippios. Deus do elemento líquido, Poseidon tem como atributo o tridente, análogo ao raio de Zeus, que está na origem da agitação das águas universais e presente como símbolo da dissolução cósmica.  O valor simbólico do cavalo era, na origem, funerário, uma vez que aparecia muito associado ao reino dos mortos, sendo a ele sacrificado. Exercia então a função de condutor da alma dos mortos (psicopompo), de guia, como se constata inclusive na Grécia (Micenas), onde cavalos era sacrificados aos heróis que morriam para que  chegassem da melhor maneira, ajudados por eles, ao Outro Lado. Em muitas tradições asiáticas (xamanismo), os tambores rituais eram revestidos da pele do animal, indo o feiticeiro, ao som do tam-tam, visitar o mundo dos mortos em transe montado no seu bastão hipomorfo. É nessa direção que a psicanálise transformará o cavalo num símbolo do psiquismo inconsciente, da psique não-humana.

Filho de Poseidon e da Medusa, uma das Górgonas, a história de Pégaso, o cavalo alado, se liga a Perseu, quando este herói, a
PERSEU   E   PÉGASO
PAUL  JOSEPH  BLANC
mando do tirano Polidectes, ao cortar a cabeça da Medusa, teve uma grande surpresa: do pescoço ensanguentado do monstro nasceram o gigante Crisaor e um cavalo alado. O nome Pégaso tem relação com a água, mais exatamente com palavra grega fonte (pégé). Por determinação de Poseidon,  ao herói Belerofonte foi permitido usar  Pégaso como montaria para a realização de dois grandes feitos: matar a Quimera e derrotar as Amazonas. Quem deu a este herói condições de domar o filho alado de Poseidon foi Palas Athena, que lhe forneceu um freio especial para tanto. Belerofonte, como sabemos, tomado de imensa hybris depois das duas gloriosas façanhas, tentou assaltar o Olimpo, sendo fulminado por Zeus. Pégaso foi para junto dos deuses, sendo por eles transformado em constelação.

Por odem de Poseidon, Pégaso deu uma patada no monte Helicon, muito envaidecido por ter sediado um famoso concurso poético. O certame em questão teve como adversárias as Piérides e as Musas. As primeiras eram nove irmãs, hábeis cantoras, que um dia
PEGA
resolveram escalar o monte Helicon para desafiar as filhas de Mnemósina, a deusa da memória.  Vencidas, foram transformadas em pássaros, em pegas. Este pássaro tem a fama de ser muito barulhento, “falastrão”, e ladrão. Em algumas cerimônias dionisíacas, pegas eram sacrificadas ao deus, para que, com a ajuda do vinho, a língua dos participantes fosse destravada e segredos revelados. As pegas, no folclore ocidental, aparecem com um símbolo nefasto, já que representam a inveja, a presunção e a tagarelice.


FONTE  HIPOCRENE ( BOLONHA )
Ferido pela patada de Pégaso, de uma das vertentes do monte Helicon começou a jorrar água. Esse local foi logo conhecido como a fonte de Hipocrene, a “fonte do cavalo”, literalmente, lembrando fecundidade e elevação. Pégaso aliava assim a vitalidade e a força do corcel à independência do pássaro com relação às pressões terrestres. É em virtude da união dessas duas características que se estabelece a relação entre Pégaso e as artes em geral, especialmente a arte poética, que liberta das contingências terrestres.

O cavalo, sabe-se, tem a ver com a impetuosidade dos desejos. Ao criar a figura monstruosa do centauro, a mitologia grega nos fala através desse monstro da identificação do homem com a sua vida instintiva, animal. O cavalo alado, ao contrário, é símbolo da imaginação criadora, de qualidades sublimes, capazes de elevar o homem a planos superiores de existência. Só os heróis podem, contudo, montar Pégaso. 

Participando do segredo das águas fertilizantes, o cavalo conhece a sua origem subterrânea, do mundo subconsciente. Esta tradição faz do cavalo, da Europa à Ásia, o animal criador das fontes, que ele faz brotar pelo choque de suas patas. Esta mesma história aparece, por exemplo nas fontes Bayard, no Maciço Central francês. A fonte de Hipocrene, na Grécia, estava localizada perto do bosque das Musas, que por perto se reuniam para cantar e dançar. Ao mesmo tempo que participa da vida subconsciente, Pégaso é o animal que deixa de ser ctônico para se elevar nos céus em direção da luz. Torna-se assim uraniano e solar, representando o instinto controlado, sublimado, transformando-se na mais nobre conquista do homem.  


A constelação de Pégaso se estende de 27º de Aquário a 10º de Áries. Ptolomeu viu nela influências de Marte e Mercúrio que podem proporcionar vaidade, ambição, entusiasmo, caprichos e más avaliações. Pela associação desta constelação ao número quatro, esta constelação também sugere influências que, através do conhecimento superior, oferecem uma saída para a prisão (as quatro direções do universo) em que está encerrado o ser humano. A ligação de Pégaso ao número quatro se deve ao fato de suas principais estrelas formarem nos céus um quadrado (Markab, Scheat e Algenib) se a elas se juntar a estrela Alpheratz, da constelação de Andrômeda. Alpheratz, segundo tradições muito antigas, pré-históricas, teria pertencido a Pégaso. 

O quadrado, como sabemos, é um símbolo geométrico fundamental para o ser humano, ao lado do círculo, do centro e da cruz. É um símbolo ligado ao elemento terra, à terra criada, e, como tal, se opõe ao céu, eterno, não criado. É a antítese do transcendente. É o tetragon dos gregos É o quadrado que permite ao homem se orientar no espaço e que delimita o domínio da vida através da quádrupla orientação. O quadrado, além do mais, permite o estabelecimento de um sistema de coordenadas, impondo uma estrutura ao caos. O quatro é o número do homem, do microcosmo. Pégaso, neste sentido, é uma proposta viva que permite a superação da vida instintiva, unindo num todo só o cavaleiro (racional) e as asas, a vida espiritual.  As asas aparecem sempre como símbolo da desmaterialização, da libertação da alma ou do espírito, da passagem ao corpo sutil. É um símbolo de dinamismo que implica ideias de sublimação. As águas da fonte de Hipocrene dão ao poeta a força criativa, a inspiração, o equivalente das asas.

As principais estrelas de Pégaso são: Markab, a mais brilhante, a 22º47´de Peixes, de 2ª magnitude; Scheat, a 28º41´ de Peixes, de 2ª magnitude; e Algenib, a 8º 07´ de Áries, de 3ª magnitude.  Markab (A Sela, entre os árabes) costuma favorecer atitude firme nas propostas de sublimação, ideias de controle nas subidas de
CARL   JUNG
tendência espiritualizante ou não, presente às vezes algum perigo. Já Scheat oferece grande impulso mental criador, mente estruturada, pensamento lógico, tendo muito a ver com o “quadrado” de Pégaso. Suas influências têm a natureza de Saturno e Mercúrio. Esta estrela costuma também aparecer associada a acidentes (Belerofonte) ligados à água. Carl Gustav Jung tinha o planeta Vênus culminando enquanto Scheat se punha.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

SARTRE: A OBRIGAÇÃO DE ESCOLHER *

                                                          
Valerá a pena o esforço de decidir, de escolher, de ir em direção de alguma coisa? Para que, se um dia, mais cedo ou mais tarde, teremos que parar. Pior ainda: embora constatemos que grande parte da humanidade passa seu tempo se alienando através de uma inconsequente agitação e/ou se suicidando sem o saber, a realidade é que a decisão de parar, a data fatal, a que conta realmente, não está em nós.  Não será meio idiota cansarmo-nos à toa?


MIRA   SCHENDEL

Depois do A, vem o B, vem o C, vem todo o alfabeto. As sílabas, as palavras, os livros, as mensagens, a obrigação de responder, palavras e mais palavras, algo sem fim. A cada momento uma nova tarefa nos lança em direção de outra mais adiante e desta passamos a outra e mais outra. Nesse sentido, qualquer projeto humano pode nos parecer absurdo, como lembra Camus, pois sempre haverá outros limites além dos limites que fixamos. Será que há um fim? Será que tudo não passa de uma sucessão de acontecimentos sem qualquer importância maior? Um desfile de acontecimentos sem sentido que nos preocupa sem razão alguma. 

O fato é que não há gratuidade na existência; queiramos ou não, a obrigação de decidir acaba se impondo e não temos outra alternativa senão a de atribuir um sentido às coisas para que a
MEDUSA  ( CARAVAGGIO )
Medusa não nos petrifique. Olhamos o monstro, interrogamo-lo a fim de que nos dê um sinal, mas ele devolve o nosso olhar. Somos nós, afinal, que temos de dar um sentido às coisas. Se não o fizermos, ficaremos sob a ameaça da paralisia, da petrificação, do terror das tendências involutivas, de virar matéria passiva, inerte. Um grande terror, sem dúvida, mas sempre uma grande tentação. O paradoxo existencial então se instala: através de nossa posição no mundo podemos nos tornar sujeitos únicos, mas não podemos deixar de compartilhá-la com os outros seres, pois somos também objeto para eles. É essa compreensão que pode levar ao sentimento que damos o nome de solidariedade, uma dependência mútua entre os homens, um fato natural, relacionado com a vida em sociedade.   

Não podemos, por outro lado, como a maioria o faz, procurar fora de nós uma garantia de nossa existência. Somos nós que temos de fazer com que surjam no mundo os valores segundo os quais viveremos. A pergunta não é a de se vale a pena viver ou não, se somos úteis, necessários ao mundo ou não. A pergunta que se impõe então é esta: se queremos viver e, se positiva a resposta, em que condições desejaremos viver? 

DOSTOIEVSKI


Dostoievski afirmou num grande texto, Os Irmãos Karamazov, que, se Deus não existe, tudo é permitido. De certa forma, ele nos pôs
KANT
diante do que Kant, por outro ângulo, nos deixou sobre isto: difícil acreditar em Deus, mas, por razões práticas, seria útil (para a sociedade) acreditar nele. Será que esta é a questão? Alguns pensadores e escritores, longe de considerar que a ausência dessa ideia de que tudo seja permitido se constitua num grave problema, acham, pelo contrário, que o homem e seus atos ganham um significado novo, dramático, se ele deixar a ideia de Deus para trás. Os atos humanos se revestirão então, como está na história de Caim, de uma responsabilidade nova, tornando-se definitivos, absolutos. Caim, nesse sentido, se tornou o símbolo da responsabilidade humana. Abel, ao contrário, é o representante dos que baixam a cabeça e obedecem, úteis aos sistemas de poder vigentes. 

A moral que o homem tem de criar não será, então, obra de uma potência exterior, mas dele, de sua relação com os outros, num determinado momento e lugar, fruto de um convencimento interior, do homem histórica e geograficamente determinado. Seu engajamento será definitivo, assim. Nosso destino só tem sentido se lhe damos um, resultante de nossas escolhas. Nessa perspectiva, as exigências que temos que fazer a nós mesmos serão muito mais rigorosas. O mundo moral não pode ser um mundo dado de antemão, estranho ao homem. A história vem demonstrando que só charlatães e demagogos defendem a ideia de que princípios morais
PLATÃO
não podem ser estabelecidos através do jogo das relações humanas. Este ponto de vista, como se vê, para a cultura ocidental, vem de Platão. Ele recomendava aos gregos de sua época que quando quisessem legislar pensassem em Apolo, deus da aristocracia. Por isso, Platão falava do Homem, tendo ódio dos sofistas (tão menosprezados também por nossos filósofos de plantão!), que falavam de homens. A sofística se liga à concreção do imediato e às escolhas, em meio a outros homens, que somos obrigados a fazer, apesar dos inevitáveis riscos dos exageros subjetivistas.  

O mundo moral não pode ser buscado fora, mas deve nascer de algo que desejamos, que queremos, enquanto expressão de nossa vontade autêntica, a ser exercida num mundo habitado também por outros seres, um mundo de solicitações, pressões, conflitos e apelos. A nossa responsabilidade se torna dessa forma rigorosamente pessoal e não de uma religião, de uma doutrina ou de um partido político. Com isso, estaremos nos desligando dos valores fixados por artigos de fé, rotinas, convenções e filosofias que envelheceram, desapareceram, que perderam seus conteúdos, mas que sobrevivem por interesse pessoal, comodismo ou hipocrisia. 

GILBERT   KEITH   CHESTERTON
Há um escritor, Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), que escreveu um romance (1908), O Homem que era Quinta-feira, em que o herói se compromete a lutar pelo Bem, mas acaba, ao se envolver com as forças opostas, percebendo que seu chefe era o próprio Mal. 




Bernanos, em Sob o Sol de Satã, narra algo semelhante, a história de um sacerdote, Donissan (Gérard Depardieu), que não sabe se está tomado por Deus ou pelo Diabo, tanto estas forças se estreitavam nele. Registre-se que Maurice Pialat, em l987, com base nessa obra, nos deu um pequena grande obra-prima (Sous Le Soleil de Satan), palma de ouro em Cannes.


São inúmeros, nestes dois últimos séculos, nas artes, na literatura, no cinema, no teatro, na própria filosofia mesmo os exemplos desta confusão, desta ambiguidade, entre o Bem e o Mal. Sem dúvida, difícil decidir; difícil nessa confusão que nós, homens comuns, consigamos justificar os nossos atos. A maioria busca, para escapar da angustiante responsabilidade pessoal de escolher, um apoio externo, uma religião, um partido político, uma filosofia, uma estética. É nesse cenário que a aritmética dos prazeres sempre se impõe e, com ela, o valor moral de uma ação passa a ser medido pelo resultado mais ou menos favorável que ela possa proporcionar. Ou seja, nunca pensamos na motivação de nossas ações, mas tão somente nos resultados.   

Desde exemplos literários ou dos tomados de nossa vida pessoal ou da vida coletiva, o que se constata é que os metafísicos têm falhado com as suas receitas para justificar o mundo. O problema é que toda a realidade só é acessível a nós pela nossa consciência. Consciência x Mundo, eis a relação. Qualquer opinião, qualquer ponto de vista, qualquer doutrina ou filosofia, mesmo a ideia que façamos de Deus, tudo será sempre um produto de consciências humanas. Isto implica a necessidade de, a cada momento, fazermos escolhas. Essa a nossa liberdade: só nós podemos fazer assim. 

Ao invés de enfrentar essa dificuldade de existir, causadora de muita ansiedade, a maioria prefere se fixar numa certa maneira de ser definitiva. Condensa-se ou se imagina. Tornam-se os indivíduos-coisas aos olhos dos outros. Constroem uma
A   NÁUSEA   -   JEAN-PAUL   SARTRE
personalidade, um conjunto de convenções, atitudes, tiques, vão montando uma autobiografia que os defina de tal modo que não precisem mais escolher. São os salauds de A Náusea, que sempre têm Deus, a ordem e a polícia ao seu lado. Traços que os definam de uma vez por todas. A tentação da petrificação afeta, sem dúvida, uma grande parte dos seres humanos, a maioria certamente. Os mais poderosos enchem-se de títulos, criam um perfil de ubiquidade confortável que os desobrigue da angústia das escolhas. Posam, não existem, arrastando a sua pompa, sempre seduzidos pelos espelhos, que mais ocultam do que mostram. 

Sartre escreveu uma peça sobre esta questão, Huis Clos (Entre Quatro Paredes). Nessa peça, ele reuniu no inferno três personagens somente para mostrar como cada um deles tem a necessidade do outro para se iludir sobre si mesmo. O inferno é representado por um quarto de hotel de província, sem janelas, sem espelhos, tendo três poltronas, para os três condenados. Estelle, Inês e Garcin são condenados a uma existência falsa, com a qual, nesta vida, se contentam muitos homens. Garcin, no inferno, teme ter morrido como um covarde; queria que assim não fosse, mas o único meio para demonstrar esse critério seria o de provar a sua coragem, o que lhe era impossível, pois, morto, nada mais poderia fazer; tenta escapar, tenta assegurar-se de que não é fraco, construindo uma imagem de homem forte aos olhos de Estelle, procurando não parecer covarde. Em janeiro de 1950, esta peça foi apresentada (com problemas de censura) no saudoso TBC, aqui em São Paulo, com Sérgio Cardoso (Garcin), Cacilda Becker (Inês) e Nidia Lícia (Estelle) nos três papéis. 


NÍDIA   LÍCIA,   SÉRGIO   CARDOSO   E   CACILDA   BECKER

Que imagem nos oferecem os outros? Uma comédia social: temos necessidade deles, eles nos dão segurança. Essa imagem que criamos, no fundo, é uma mentira, uma impostura. Pedimos que eles confirmem a montagem de nossa personalidade, que respondam positivamente ao nosso logro. Se o outro recusa esse papel, ele se torna o nosso carrasco. É a famosa frase de Sartre: Não é necessário grelha, o inferno são os outros. 

Garcin: Estelle é verdade que sou um covarde, um fraco? 
Estelle: Nada sei disso, meu amor, não estou na sua pele. Isto cabe a você resolver. 

Textos teatrais como esses de Sartre trouxeram um novo modo de encarar não só a literatura, mas a nossa própria existência. Participação, engajamento, porque, para existir realmente, era preciso que nós nos projetássemos em direção de algo adiante.  Do contrário, seria a vida falsa, com a qual se contentam muitas pessoas. Ficamos sabendo que uma personalidade não era algo que se herdava, mas algo a ser construído continuamente. Era preciso abandonar esse fascínio, a opinião dos outros. Abandonar o outro e a sua opinião, a opinião que nos dispensaria de sermos nós mesmos.

O livro O Muro, contos, de Sartre (1939), é constituído por várias histórias sobre esse fascínio pelo qual tentamos escapar do nosso destino ao pedir a opinião alheia. Isto é, eximirmo-nos de criar autenticamente as justificativas interiores de nossas ações,  sempre difíceis, para assumir uma imagem que seja agradável aos outros. Em troca, esperamos deles o reconhecimento, que nos levem em alta conta, que sejam bons para nós.  

Há muito, os escritores do destino, os chamados existencialistas ou não, já atacavam essa praga dos nossos tempos, a de que o essencial era ser visto, parecer para não ter que ser. Se nos acreditássemos tocados por Deus ou por um figurino político, pelos modelos que os meios de comunicação impunham, se adotássemos a moda em vigor, poderíamos então nos aceitar dessa maneira e não nos interrogaríamos mais. Eliminávamos a nossa interioridade. Estaríamos em todos os lugares, nunca, porém, em nós mesmos. A tecnologia, atualmente, veio resolver esse problema, colocando-nos na web para sermos vistos e consumidos. Os poucos que têm consciência dessa alienação pedem apenas que os que se entregam a esse estilo (tudo é uma questão de styling, afinal!), que não emitam opiniões faladas ou escritas. 

Para não nos enfrentarmos como um projeto constantemente renovado, nós, covardemente, nos transformamos na nossa própria estátua. Isto é, conformamo-nos com os papéis que os outros esperam de nós. Representamos quase sempre; socialmente, isso é muito cômodo. As pequenas comédias são úteis, nos dispensam de existir. Quando algumas pessoas lutam para escapar da tentação da Medusa, surgem expressões como: ele não é um médico como os outros, ele é diferente… essas pessoas são novas diante de cada circunstância, não estão apegadas a hábitos, a atavismos, a modelos aceitos. Stendhal, lembro, chamava-as de naturezas generosas. 

O que se questiona aqui, quanto ao nosso dia-a-dia é a segurança convencional, os gestos estudados, as atitudes preparadas, automatismos, justificativas de antemão. Uma espécie de pilotagem automática. Álibis, hábitos, conformismos, preguiça. No mais, são as máscaras que a sociedade cria para encobrir manobras ilegais, a falta de ética, a amoralidade, o crime. E, para isso, criamos uma literatura que absolutamente não diverge. Hoje, nem isso. Toda a produção da chamada comunicação de massas (mídia), com as raríssimas exceções de praxe, que já está nesse caminho há muito tempo, vem se encarregando de sacramentar tudo isso. Em termos

literários, a magia do olhar alheio, a perda da fluidez e a entrada no viscoso, como dizia Sartre, foram temas que nos colocaram contra a parede e ainda nos colocam. Um exemplo histórico disso é o teatro de Jean Anouilh (quem sabe dele hoje?). A vida como inautenticidade. Os exemplos, muitos dolorosos, patéticos, estão por aí, mais do que nunca, nos jornais, na TV, na Internet. 

A Prostituta Respeitosa, de Sartre, explorou essa questão. A história se passa nos Estados Unidos. Uma mulher, prostituta, sincera, espontânea, foi vítima de agressão por parte de um rapaz de boa família. Socialmente não se podia admitir que um jovem rico, futuro líder e sustentáculo social, pudesse assumir a culpa, que era lançada sobre um jovem negro e inocente. A prostituta, entretanto queria testemunhar corretamente.. As pessoas, advogados, e a própria Justiça tentaram persuadi-la de que a verdade e a justiça estavam sempre ao lado das pessoas respeitáveis e que o filho da boa família devia ser inocentado. O Senador: você crê que uma cidade inteira possa se enganar? Uma cidade inteira, com seus pastores, padres, médicos, advogados, seu prefeito, adjuntos, suas associações de beneficência? O Senador chega a reconhecer os fatos, mas para falseá-los invoca a utilidade social. O negro não é ninguém, não serve para nada (há pouco, tivemos uma professora de Direito da maior universidade do país falando algo semelhante sobre bolivianos). O branco cometeu um crime, agrediu, arrebentou a mulher, é culpado, mas temos necessidade dele. É um americano 100%, descendente de uma de nossas melhores famílias, estudou em Harvard, é um chefe, sua família dá muitos empregos… Podemos achar que Sartre carregou demais a mão nessa peça, mas nunca poderemos acusá-lo de falsear a realidade.

Quando fazemos uma escolha e assumimos a responsabilidade dela decorrente, um mundo novo se ordena à nossa volta, o mundo se torna real. Mas como escolher? Há razões para nossas escolhas, para comprometermos nossa liberdade num projeto? Um ativismo estabanado, inconsequente, como a maioria o faz? Mas a escolha que temos de fazer é algo que se impõe porque há o mundo e as pessoas que nele vivem. Mesmo que tentemos ignorá-los, não conseguiremos. Há uma solidariedade entre nós, as pessoas e o mundo, não podemos nos evadir desse contexto. 

Quer abstendo-nos ou não, o fato é que estamos envolvidos de tal modo que não podemos cair fora do jogo. Queiramos ou não, estamos ligados aos acontecimentos de nossa época. Nossos atos e nossas omissões repercutem sobre o todo, tudo é interdependente. Estamos comprometidos, ainda que não o desejemos. O que está aí acontecendo no mundo acaba nos atingindo de uma forma ou de outra. O que temos que fazer é tomar consciência disso e decidir, o que dá muito trabalho, realmente. Muitos desistem, preferindo basear as suas opiniões nos cortes da realidade que lhes são oferecidos pelas grandes redes de TV e pelos grandes jornais.  A vida moral aparece exatamente aqui, embora possamos querer virar as costas para tudo o que acontece, a pretexto de que as coisas não são como idealmente queremos. Ou virarmos as costas sob o pretexto de que dá muito trabalho tomar conhecimento do que acontece.

O Bem e o Mal são valores móveis, relacionados com cada situação particular, sendo  impossível fixá-los de antemão. Por isso, muitos se espantam com as enormes diferenças que há entre o que chamo de eu teórico e eu prático quando intelectuais ou pessoas letradas conversam ou discutem. O primeiro costuma ser exibido ostensivamente nas cátedras, nas conferências, nos salões e reuniões sociais, é invariavelmente um servidor da personalidade que muitos montam para ser consumida pelos outros. Seu conceito de Bem é, como tal, também teórico. Quando vamos, porém, à vida prática, quanta diferença!, pois o bem prático terá sempre que ser definido em situação segundo as circunstâncias. Sentimo-nos decepcionados, traídos por gente na qual acreditávamos tanto. 

O Bem e o Mal não podem ser congelados. Se pensarmos desse modo, nosso Bem será o único e, agindo em nome dele, faremos muito mal. A História está aí para nos demonstrar o quanto se matou e mata em nome de Deus e de belas palavras como Democracia, Liberdade, Fraternidade e Igualdade.  É, sem dúvida, muito mais fácil argumentar com o nosso eu teórico do que com o nosso eu prático. Isto nos leva a reconhecer, sem dúvida, que o pensamento mais rico para a vida humana não é certamente o lógico-formal, baseado nos princípios que Aristóteles nos deixou na sua lógica, principalmente no da não-contradição. A multiplicidade da vida, da qual faz parte o infinito jogo das relações humanas, deve se alimentar do princípio dialético, a arte de integrar as contradições.

É na peça As Moscas que Sartre põe essa ideia de Bem petrificado na figura de Júpiter. Essa ideia no teatro, aliás, não era nova, está esplendidamente exposta numa peça de Tirso de Molina, El Condenado por Desconfiado, século XVII. Um eremita e um bandoleiro vivem nas montanhas. O primeiro acredita numa noção fixa de Bem, vive na solidão, em meio a jejuns e mortificações. Mas não o faz por amor a Deus, mas sim por ter medo de ser condenado; ao invés de viver, deixa que essa ideia se interponha entre ele e a vida. Seu vizinho, o bandoleiro, vive de pilhagens. Faz o Mal, mas pensa em Deus. Luta para ter uma fé. O eremita acaba por aprisionar o bandoleiro, pergunta se ele não teme pela sua salvação. Ao final, o eremita acaba por perceber que o bandoleiro era mais autêntico que ele.

O concreto e o abstrato, o vivo e o convencional, a vida como ambiguidade. O ato moral deve ser uma escolha e não obediência. Muita gente usa a Beleza e a Arte como desculpa para não se ligar aos problemas de seu tempo, como o Roquentin, de A Náusea. Obviamente, a estética é importante, mas ela não pode vir antes; se assim for, ficaremos acima dos acontecimentos, voaremos tão alto que perderemos o contato com o nosso chão, desligados do momento em que vivemos.

*Para o meu amigo Oswaldo Mello.