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domingo, 10 de abril de 2011

OS GRANDES CRIMINOSOS*


A proposta religiosa e social na antiguidade grega era a de moderação, de comedimento, segundo os preceitos apolíneos. A mitologia grega nos apresenta muitas ilustrações sobre esse tema. Toda vez que aparecia uma desproporção, um exagero, para mais ou para menos, no desejo, no amor, na beleza, no prazer ou no sofrimento, uma divindade entrava em ação. Limites ultrapassados, os deuses atuavam, obrigando o que se excedeu a voltar de algum modo.
Hybris era o nome dado a essa tendência que o ser humano tinha de ultrapassar os seus limites, pondo em risco a ordem social, que devia ser um reflexo da ordem cósmica. Um duplo crime, portanto. Foi por essa razão que os gregos, personificando Hybris, a colocaram no Hades, no Jardim de Perséfone, como um espectro, dando-lhe como mãe Koros, o Desdém, a Indiferença. Junto de Hybris, acompanhando-a, sempre ameaçadora, “Hamartia”, a Violência, a expressão física da desmedida, com seus asseclas, Bia, a Força Física, e Crato, o Poder, muito requisitados por  Zeus  para  a  sua  guarda  pessoal  e  para     serviços diversos (submeter Prometeu para agrilhoá-lo às montanhas do Cáucaso).
No sentido contrário destas tendências atuava Ananke, uma força sagrada, providencial, que constrangia e obrigava o descomedido a retornar aos limites dos quais nunca deveria ter saído porque seu crime, como se disse, colocava não só em perigo a ordem social como a ordem cósmica. Já, há muito, no oráculo de Delfos, do deus Apolo, estavam gravados no seu pórtico as famosas advertências: “conhece-te a ti mesmo” e “nada em excesso”. Estas ideias, herdadas talvez da Índia (lei de causa e efeito, doutrina do karma), saíram da mitologia e, como se sabe, invadiram a filosofia pré-socrática.

A tragédia grega, por outro lado, lembremos, tinha, dentre os seus objetivos fundamentais, o de ilustrar as máximas apolíneas, como proposta pedagógica para o homem grego. Ou seja, fazer com que ele procurasse manter sempre a moderação, observando determinados limites. Se tivermos em mente que a palavra cosmos (kosmos) tem o sentido de universo visível e sua ordem, fica mais fácil entender o adjetivo cosmético, usado para qualificar a pessoa que sabia se posicionar adequadamente no seu contexto social. Rompidos os limites, os deuses puniam. Esta fatalidade poderosa está presente na tragédia grega, onde o trágico aparece precisamente marcado pela impotência das vontades humanas com relação ao destino.


ANANKE

                                                                  NÊMESIS


Ananke era chamada também de Necessidade ao se  valer  da  ação  de  muitas  divindades  como Nêmesis,
as Erínias, as Moiras, as Harpias e outras mais, que atuavam para fazer com que os limites rompidos fossem repostos. 
Estas divindades, a serviço da Ananke, controlavam tanto as ações humanas como os eventos do mundo, tudo para que a justa medida fosse observada. “Sofrer para compreender” é uma das boas frases sofocleanas nesse sentido.   O constrangimento da Ananke era exercido sobre os desejos e as ações humanas por um encadeamento inevitável de princípios e consequências, de causas e efeitos, muitas vezes confundidos como Fatalidade. Vez ou outra, porém, segundo critérios insondáveis, os deuses podiam estender a sua proteção a alguns mortais, mudando este quadro, estas relações de causa e efeito. A pergunta (nunca respondida satisfatoriamente) então se impõe: fatalismo ou liberdade? Será que sem nossa iniciativa o que nos acontece teria ocorrido? Poetas como Píndaro, na Pítica, sempre procuraram nos dizer alguma coisa sobre tudo isto.


                                         JOGOS PÍTICOS

As odes triunfais de Píndaro, reunidas sob o título de Píticas, constituem-se numa boa fonte para o estudo de como certos seres humanos, bafejados pelo divino, parecem ter escapado do determinismo anankeano. Pítico, como se sabe, tem relação com a pítia, sacerdotisa do santuário de Delfos, que revelava em transe as sentenças oraculares de Apolo, e também com os jogos (agones), competições que se realizavam nessa cidade, de quatro em quatro anos.Para Píndaro, sem o favorecimento divino, o ser humano não era nada, um perdido no mundo, um ser aphretor, athemistos e anestios, sem descendência, sem lei e sem lar. Eram dos deuses concessões como kydos (glória), time (honra pessoal), kleos (renome) e olbios (fortuna), todas se colocando na esfera do numinoso. “Numen” é gesto de cabeça que traduz assentimento. Numinoso quer dizer influenciado pelo alto, proteção advinda do poder divino. Na Odisseia, por exemplo, Homero nos descreve o olbios de Alcinoo, rei dos feácios, como riqueza, bem-estar, felicidade, algo concedido pelos deuses e desfrutado, que está tanto na posse como na sabedoria do possuidor.


Píndaro nos deixa claro que a vitória sempre era dada pela divindade:
                          
A vitória não depende dos homens./Somente a divindade outorga sucessos./ Ora eleva este ao céu, ora sua mão rebaixa aquele./ Saibas encontrar teu caminho, observando a moderação./ Seres efêmeros! que é cada um de nós?/ Que não é cada um de nós?/ O homem é o sonho de uma sombra!/ Mas quando os deuses pousam/ sobre ele um raio de sua luz/ então vivo fulgor o envolve/ e adoça-lhe a existência.


                                                                                                    HERÁCLITO

Não há nada de social ou jurídico quanto à intervenção dos deuses para que o homem possa conter a sua hybris. Toda questão se resume na necessidade de que os limites sejam respeitados. A frase é de Heráclito: O Sol não sairá dos seus limites; se o fizer, as Erínias, servidoras da Justiça, o desmascararão.

Aqueles que se entregam à hybris, como diz o mito, vão para o Tártaro, a última região do Hades, lugar jamais alcançado pela luz. Ficarão lá para sempre, presos às cadeiras do esquecimento, ou sujeitos a penas eternas. Nenhuma mudança, nenhuma transformação, coagulatio e mortificatio sem fim. Tortura, degradação e sofrimentos que nunca levarão a nenhum crescimento, nenhuma esperança de ressurreição. Uma punição constantemente renovada e sempre a mesma (apocatástase).

Sísifo (de sophos, sábio, inteligente) é considerado na mitologia grega como o mais astucioso dos mortais. Sua falta de escrúpulos era proporcional à sua prodigiosa inteligência. Descendente de Deucalião (sobrevivente do dilúvio), era filho de Éolo, deus dos ventos, atribuindo-se a ele a fundação da cidade de Corinto. Uniu-se por casamento a Mérope, uma das Plêiades, a menos importante, pois suas outras seis irmãs se ligaram sempre a divindades. Dois descendentes de Sísifo têm destaque no mito, Glauco e Belerofonte.


                                           GLAUCO

O primeiro é filho de Sísifo; teve uma vida complicada. Numa das versões que temos sobre ele, registra-se que bebeu água de uma fonte que conferia a imortalidade. Ninguém, porém, acreditou na história. Para confirmá-la, Glauco atirou-se ao mar, sendo transformado pelos deuses numa divindade marinha, obrigada a percorrer os oceanos da terra ininterruptamente até o final dos tempos. O marinheiro que o visse morreria no ato.

O nome Glauco deriva do grego glaukos, brilhante, entre o azul e o verde. Era-lhe dado também o nome de Pontios, quando aparecia associado a cavalos, símbolos das ondas e imagens de irrupções súbitas inconscientes que rompem uma inércia enganadora.

Belerefonte é um filho de Poseidon, mas seu pai putativo é Glauco, sendo, pois, neto de Sísifo. Foi o herói que, cavalgando o Pégaso, matou a Quimera, terrível monstro. Lutou contra as amazonas, massacrando-as, e venceu os descendentes do deus Ares na Lícia. Cheio de hybris, devido às suas façanhas, tentou escalar o Olimpo. Morreu fulminado por Zeus.

Sísifo tomou conhecimento de que o maior dos larápios, Autólico, filho do deus Hermes, havia roubado animais do seu rebanho. Indo visitá-lo, logo reconheceu os seus animais, recuperando-os. Sua visita coincidiu com o casamento de Anticleia, filha de Autólico, com o herói Laerte. Antes que este consumasse a sua união com a jovem, Autólico fez com que Sísifo se relacionasse sexualmente com ela, pois desejava um neto do “mais solerte dos mortais”, como dizia Homero. Assim aconteceu, nascendo Ulisses, grande herói da Odisseia.
A história da prisão de Sísifo no Tártaro tem início quando nosso herói teve a oportunidade ter visto Zeus, o Senhor do Olimpo, raptar Egina, a filha do deus-rio Asopo. Graças a informações negociadas que recebeu de Sísifo, Asopo conseguiu localizá-la. Como pagamento (fala-se em recompensa) ao informante (protótipo do chamado “insider” moderno), Asopo fez brotar na acrópole da cidade uma fonte que se tornaria muito famosa, a que se deu o nome de Pirene, ficando assim garantido para sempre o abastecimento da Acrocorinto. Muito célebre, Corinto era a cidade do amor, das festas e da alegria, da deusa Afrodite, onde viviam num famoso templo as suas hierodulas, as prostitutas sagradas, sacerdotisas da deusa. A título de curiosidade, lembremos que São Paulo, nos anos 50 dC, na sua Epístola aos Coríntios, estigmatizou a impudicícia da cidade.

Zeus, que tudo sabe, mandou que Thanatos, o deus da morte, fosse buscar o indiscreto Sísifo. Avisado das intenções do Senhor do Olimpo, Sísifo ordenou a Mérope, sua mulher, que não lhe fossem prestadas as honras fúnebres. Chegando ao Inferno sem que as referidas formalidades tivessem sido cumpridas, foi levado à presença de Hades e lhe contou o motivo de tamanho sacrilégio. Atribuiu a culpa à mulher; suplicante e choroso, pediu-lhe insistentemente para voltar ao mundo dos vivos, a fim de não só punir a impiedade da mulher como obrigá-la a cumprir devidamente os ritos de praxe.
Hades concordou. Uma vez em Corinto, Sísifo nunca mais se preocupou em cumprir o que prometera. Passados uns tempos, Hades pediu a intervenção de Zeus. Thanatos foi então buscá-lo de novo, arrastando-o para o mundo ctônico impiedosamente, indo o atrevido rei do Corinto diretamente, sem julgamento algum, para o Tártaro. Foi condenado a rolar uma pedra montanha acima, sempre com a esperança de um dia empurrá-la para a outra vertente, para se ver livre do tormento. Todavia, a cada dia, mal chegado ao cume, exausto, quase desfalecido, cheio de dores terríveis pelo corpo, não conseguia dar o último impulso. A pedra, escapando-lhe das mãos, rolava montanha abaixo. No dia seguinte, tudo recomeçava e se repetia.

Na língua inglesa, nos meios cultos, com base na história de Sísifo, aparece às vezes o adjetivo sisyphean (não dicionarizado) na expressão sisyphean labor para descrever um trabalho interminável, nenhum progresso obtendo o seu executante, a não ser cansaço e frustração.


Em 1942, Albert Camus publicou um ensaio filosófico Le Mythe de Sisyphe, que tem como subtítulo Essai sur l'absurde. A obra se abre com uma interrogação sobre o suicídio, que o autor recusa, em nome de uma ética da verdade. Prossegue, dizendo-nos que a vida é realmente um absurdo, um nonsense que precisamos aceitar, e que a nossa única saída será a de encontrar a felicidade em meio ao próprio absurdo. Sisypho, para Camus, é o grande símbolo condição humana.

Outro grande criminoso que se encontra no Tártaro é Tântalo (etimologicamente, o que suporta), filho de Zeus e de Plutó, uma titânida. Rei da Frígia, riquíssimo, amado pelos deuses, chegou a participar dos banquetes divinos. Unindo-se a Dione, uma atlântida, foi pai de filhos ilustres, Pélops e Níobe. Dele descendem os tantálidas, Atreu, Agamemnon e Menalau, figuras importantes do mito. Um de seus primeiros crimes foi o roubo de um animal, um cão que guardava um templo do Senhor do Olimpo na ilha de Creta. Depois, dando mostra do que viria mais tarde, raptou Ganimedes, príncipe troiano, futuro “amor” de Zeus.
Seu grande crime, porém, foi o de trair a confiança dos imortais, ao revelar os seus segredos aos mortais e ao roubar ambrósia da mesa divina quando participou de um banquete a fim de oferecer a amigos o precioso néctar, alardadeando uma familiaridade inadmissível com as divindades olímpicas. O arremate desta série criminosa ocorreu quando, num banquete que ofereceu aos deuses, para testar a onisciência deles, serviu-lhes o próprio filho, Pélops, como apetitoso manjar. Os deuses, evidentemente, logo perceberam o lhes estava sendo servido, com exceção de Deméter, a essa altura muito perturbada, devido ao rapto de Kore, sua amada filha. 

A deusa dos cereais, sem o notar, abocanhou uma espádua do jovem. Interferindo, os demais convivas divinos a alertaram. O festim terminou ali. Zeus manifestou a sua fúria. Os favores que prestara a Tântalo se transformaram em punições atrozes. Zeus ordenou que os pedaços do corpo de Pélops fossem recolhidos, levados para uma panela e cozidos de novo. Cloto, uma das Moiras, foi convocada; recolheu tudo da panela e costurou todos os pedaços.
O jovem Pélops, então, por ação divina, teve o seu corpo inteiramente reconstituído, voltando à vida e Tântalo foi lançado para sempre no Tártaro, condenado a sofrer eternamente fome e sede. Homero, Ovídio e Virgílio sempre o representaram vitimado por esse horrível suplício. Devorado por uma sede abrasadora, mergulhado até a altura do peito num lago, toda vez que se inclina para sorver água ela lhe escapa. O mesmo acontece com os saborosos frutos das árvores que tenta alcançar para saciar a sua fome. Ao estender as mãos, os galhos se afastam, ficando fora de seu alcance.

O suplício de Tântalo pode ser visto como uma eterna frustração. Exaltação e queda são os termos muito utilizados para explicar a desdita do favorito dos deuses. Perdendo a noção de até onde poderia ir, Tântalo invadiu a esfera do divino, tentando se igualar ou mesmo superar os deuses. Desejos atendidos e insatisfação são idéias que nos vêm diante dessa história. Quanto mais os deuses lhe davam, mais Tântalo queria.
Tântalo foi parar nos dicionários. Tantalizar alguém é tanto prometer e não cumprir como sofrer por coisas de impossível consecução ou obtenção. O maldito descendente de Zeus, juntamente com a sua filha, a orgulhosa e infeliz Níobe, fazem hoje também parte das tabelas da química. O tântalo é muito usado na construção de aviões, aços, filamentos de lâmpadas incandescentes, instrumentos cirúrgicos e dentários. A justificativa que os cientistas encontraram para dar o nome de Tântalo ao elemento químico de número atômico 73 foi o de que ele tem um comportamento não reativo; ou seja, está entre inúmeros reagentes e não é afetado por eles. O nióbio é um metal branco, muito raro, também usado em ligas, e que aparece na natureza sempre ligado ao pai, isto é, ao tântalo.

Não podemos esquecer que Tântalo serviu também de inspiração para uma invenção muito usada por amantes do vinho. Tântalo é o nome que se dá a um pequeno armário aberto onde ficam expostos decantadores cheios da preciosa bebida. Aparentemente à mercê de qualquer um naquela pequena vitrine, os recipientes com o vinho ficam, no entanto, travados por um mecanismo invisível. Só quem tiver a chave do armário poderá ter acesso a eles. Um suplício vê-los e não ter acesso a eles.
Um aspecto da associação de Tântalo com decantadores talvez tenha passado desapercebido pelos que criaram o referido armário. Decantar é palavra que vem do latim medieval, do mundo dos alquimistas (canthus em latim é bico de cântaro) e quer dizer separar por gravidade, deixar depositar. A palavra tomou o sentido de purificar, de tornar mais claro. Daí decantar idéias, dar-se um tempo de reflexão a fim de se ter uma visão mais clara, meditar, tempo que o infeliz filho de Éolo terá até o final dos tempos para refletir sobre os seus crimes.  Ao contrário dos inúmeros filhos de Zeus, no geral ligados ao mundo heroico, os de Poseidon são sempre gigantescos, descontrolados, imensos, a própria imagem da “hybris”. É o caso de Oto (demônio noturno, íncubo) e de Efialtes (o que assalta, pesadelo), filhos do deus dos oceanos e de Ifimedia, sua nora. Casada com Aloeu, filho de Poseidon, a moça devotava grande amor ao sogro (entrava nua diariamente no mar). Acabaram se unindo, nascendo os dois gigantes.

Aos nove anos, diz o mito, já alcançavam mais de vinte metros de altura. Quando adultos, descomunais, resolveram desafiar os imortais, escalando o Olimpo. Atacaram os deuses, tentando inverter a ordem cósmica, tranformando terras e mar. Cansado da prepotência dos dois irmãos, Zeus os fulminou. No Tártaro, foram amarrados com serpentes a uma coluna; ao lado deles, uma coruja, com pios agudíssimos, dia e noite, os impede de dormir.
Os gigantes, lembre-se, são seres que se caracterizam pela enormidade de seu tamanho e pela sua indigência mental e espiritual. São a imagem da desmedida, neles predominando a vida instintiva. Há vários tipos deles. Uns, por exemplo, são filhos de Géia e de Urano: os Hecatônquiros (Coto, Briaréu e Giges), monstros de cem braços, e os Cíclopes (Brontes, Estérope e Arges), gigantes de um só olho. Géia, quando sobre ela caiu o sangue proveniente da castração de Urano por Cronos, gerou também, sozinha, muitos gigantes (etimologicamente, os filhos da Terra). Outros são filhos de Poseidon, todos monstruosos, destrambelhados, como, além dos que aqui discutimos, Polifemo (cíclope siciliano), o gigante Crisaor, os colossais salteadores Cércion e Ciron, o antropófago Lamo, rei dos lestrigões, e Orion, o belíssimo e maldito caçador. Poderíamos ainda incluir na galeria gigantesca alguns titãs, filhos de Urano e de Géia, que formaram a primeira dinastia divina, e alguns de seus descendentes, como, por exemplo, o gigante Atlas, que foi condenado a sustentar eternamente a abóbada celeste sobre os seus ombros.Muitos dos gigantes nasceram com um pavoroso aspecto dracôntico, sempre colossais e com força praticamente invencível. Quando Zeus dividiu o poder com os seus irmãos, Poseidon e Hades, depois de ter vencido os titãs (Titanomaquia), Geia, a Grande-Mãe, irritada porque os vencidos haviam sido lançados no Tártaro pelos olímpicos, os senhores da nova ordem, instigou os gigantes para que os atacassem, inciando-se uma batalha (Gigantomaquia) tão cheia de perigos quanto a anterior.

Quando todos os gigantes, atendida a convocação de Geia, apareceram nos campos Flegreos (região vulcânica da Itália meridional, perto de Nápoles) as estrelas do céu empalideceram, Hélio retrocedeu, a Grande Ursa se fundiu com o mar, o próprio Zeus ficou aterrorizado ao vê-los e pediu socorro a todos os deuses. Estige, filha do deus Oceano, depois rio infernal, foi a primeira a acudir o Senhor do Olimpo, acompanhada de seus filhos, Nike (Vitória), Crato (Poder), Bia (Força) e Dzelos (Emulação). Agradecido por sua diligência, Zeus dispôs no ato que daquele momento em diante se tornassem inquebrantáveis os juramentos divinos feitos em nome da oceânida, o chamado privilégio do “horkos”.

PROMONTÓRIO SAGRAD - MONTE ATHOS, HOJE
Nessa batalha, distinguiram-se, dentre os gigantes, Athos (este, depois, transformado na montanha sagrada da religião grega ortodoxa), Efialtes e os Centimanos (Hecatônquiros). Para atingir o Olimpo, eles removeram várias montanhas, empilhando-as, e do seu cume começaram a lançar petardos contra a mansão olímpica, rochas, troncos de árvore inflamados, lavas incandescentes de vulcões etc. Os deuses fugiram apavorados e tomando a forma de diversos animais, conforme conta o mito, ficaram escondidos por longo tempo no Egito.

Ao que parece, Ares foi o primeiro a reagir, dando uma estocada mortal no gigante Peloro. Athena conseguiu atacar o gigante Pallas, petrificando-o com a cabeça da Medusa do seu escudo. Um oráculo havia previsto que os gigantes só seriam vencidos se pudessem contar com a colaboração de um mortal privilegiado, um heros-theos. Aconselhado por Athena, Zeus mandou chamar Hércules, que com as suas certeiras flechas conseguiu matar alguns gigantes.

HÉRCULES

No meio do fragor da batalha, muitos acontecimentos paralelos. O gigante Porfírio tentou violentar a deusa Hera, então uma adolescente, mas foi morto por Hércules e por Zeus. Um dos mais terríveis inimigos dos olímpicos foi Efialtes, que teve o seu olho esquerdo vazado por uma flecha de Apolo e seu olho direito por uma de Hércules. Athena conseguiu deter Encélado, lançando-o no Etna.

A maior parte dos gigantes sucumbiu pelas flechas ou pela clava de Hércules e devido aos raios lançados por Zeus, apesar da ação enérgica de outros deuses que participaram do combate. O fator decisivo da vitória dos olímpicos (até hoje não explicado convenientemente), que afastou decisivamente o perigo dos gigantes, pondo em fuga os remanescentes, foram, para muitos que narraram a Gigantomaquia, certos ruídos ensurdecedores produzidos pelo relinchar de um asno, animal sagrado de Dioniso, e pela trompa de Tritão, divindade marinha, filho de Poseidon. Vencidos assim, os gigantes foram enviados para o Tártaro. Do sangue deles, derramado sobre a terra, nasceu uma perversa raça humana, que Zeus aniquilou quando do dilúvio de Deucalião.
O episódio da Gigantomaquia tem um aspecto digno de destaque: os gigantes só poderiam ser vencidos pela ação conjunta de humanos e deuses. Historicamente, antes que o homem se civilizasse e que pudesse gozar dos benefícios da cultura, só os seres como os gigantes, que possuíssem grande vigor físico, sobreviveriam no mundo natural ainda não constituído totalmente como cosmos. Do ponto de vista das representações da vida subconsciente, gigantes e dragões estão intimamente ligados como imagens de estados mal diferenciados entre a bestialidade terrestre e o ser humano. A evolução da vida em direção do humano e deste em direção ao espiritual é, sem dúvida, um combate gigantesco. Os gigantes nada mais são, assim, do que símbolos das forças que no interior do homem se manifestam como tendências regressivas, prendendo-o à terra. Eles impedem o impulso evolutivo.

 Não é por outra razão que, quando golpeados, se tocam a terra, recuperam as suas forças. Alquimicamente, são os gigantes “filhos” da terra e da água, elementos passivos. Para vencê-los, temos que fazer como Hércules na sua luta contra a Hidra de Lerna (8º trabalho). Só a venceu quando a retirou do pântano (água e terra), elevando-a no ar e expondo-a à luz (elementos ativos, ar e fogo). Danaides, as filhas de Dânao, o Aquático, rei da Líbia, também há muito estão no Tártaro. Oriundas do Egito, instalaram-se em Argos, sendo pedidas em casamento por seus primos. O pai delas, Dânao, que estava rompido com o irmão, fingiu concordar com o casamento, oferecendo um grande banquete para celebrar o acontecimento. A cada filha, no entanto, ele deu um punhal, arrancando delas a solene promessa de que na primeira noite em que estivessem a sós com os maridos, seus primos, no sagrado tálamo, elas os matariam, cortando-lhes as cabeças.

Assim aconteceu. Por tão monstruoso crime, as Danaides foram condenadas a ir para o Tártaro e obrigadas a encher com água tonéis sem fundo, eternamente. Esta passagem mítica tem uma variante: a de que elas foram condenadas a transportar água em peneiras. Os gregos chamaram o crime das Danaides de genocídio, extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade, de um grupo étnico ou religioso.
Platão interpreta esta história como uma entrega, por parte dos criminosos, às suas paixões, que jamais se satisfazem. Os órficos interpretaram o castigo das Danaides como a punição àqueles que, por não usarem a água convenientemente, ficam obrigados a transportá-la para sempre, mas inutilmente, como seu elemento purificador.

No Orfismo, quando depois da morte do corpo físico a alma iniciava a sua jornada em direção do Hades, em busca do “seio de Perséfone”, dois caminhos se apresentavam. O da direita era o dos justos, o da esquerda era o dos maus. Os justos, sedentos, bebiam a água da fonte da Memória, que ficava junto de um cipreste branco, símbolo paradisíaco da imortalidade, e sua água significava a lembrança da bem-aventurança.
Os maus, desviados para a esquerda, bebiam a água do rio Lethe, a fim de esquecer a existência terrena. Para escapar da reencarnação, os órficos evitavam a água desse rio. Se assim acontecesse, a rainha do Hades, os recebia, dizendo-lhe:”Ó feliz e bem-aventurado! Era homem e te tornaste um deus.”

Platão, na República e no Fedon, fala daqueles que mergulhados no lodaçal imundo hão de receber o suplício apropriado à sua degradação moral: esgotar-se-ão em inúteis esforços para encher barrís sem fundo ou para carregar água numa peneira. Aristófanes, através de Hércules, personagem de As Rãs, nos fala de alguns crimes que levam ao Tártaro: falta do dever de hospitalidade, violência contra os pais (parricidas e matricidas), perjúrio, sacrilégio etc. A todos esperando está Eurínomo, o monstruoso abutre infernal, devorador das carnes dos cadáveres inumados. É de se mencionar ainda Ésquilo, que numa tetralogia, As Egípcias, As Suplicantes, As Danaides e Amimone (drama satírico) se aproveitou do tema das infelizes filhas de Dânao.
Ixion, filho do deus Ares e de Perimele, era rei dos lápitas, um povo da Tessália. Para obter a mão de Dia, filha de Dioneu, prometeu ao pai que o cumularia de presentes, especialmente uns cavalos maravilhosos. Realizado o casamento, Dioneu foi reclamar do genro os presentes prometidos. Ixion, num acesso de raiva, sem nenhuma testemunha, matou-o, lançando o corpo num poço profundo cheio de carvões em brasa. Hipocritamente, passou a cultuar a memória do sogro em cerimônias que Dia realizava.

Historicamente, os lápitas eram selvagens e violentos, criadores de cavalos, guerreiros e mercenários. Viviam nos maciços montanhosos do norte da Grécia. Úmida e fria no inverno, muito quente no verão, a Tessália se integrou ao mito pelas histórias de muitos personagens, do deus-rio Peneu, da ninfa Filira, de Lápites (filho de Apolo), deCeneu, de Mopso e de outros, alguns inclusive participantes da expedição dos argonautas.
Descoberta, porém, não só a morte do sogro, mas muitos outros crimes por ele cometidos, Ixion, apesar da sua elevada posição, foi afastado do trono e expulso do seu reino, tornando-se um ser errante, por todos amaldoçoado, ninguém se dispondo a se aproximar dele.

Abandonado por todos, Ixion simulou estar arrependido, pondo-se a fazer sacrifícios às Eumênides, as Benfeitoras. Zeus que tudo via lá das alturas, apiedou-se de seu neto, chamando-o para o Olimpo. Mal instalado na mansão dos deuses, atacado por grande hybris, ousou ele cometer um crime muito maior do que todos os que cometera na sua vida terrena. Tentou violentar a deusa Hera, esposa imperial de Zeus, seu protetor.
Cientificado do fato por Hera, Zeus confeccionou com nuvens um simulacro de sua esposa, em tudo idêntico a ela, que recebeu o nome de Nephele (Nuvem). Ixion caiu no engodo, unindo-se sexualmente a este simulacro. Dessa união nasceram os centauros, seres híbridos, humanos na parte superior e cavalos na parte inferior de seu corpo.
Para castigar Ixion, Zeus lhe deu ambrósia, tornando-o imortal, e depois mandou amarrá-lo com serpentes a uma roda incandescente, a girar constantemente, lançando-o no Tártaro. Fixado nesse suplício até o final dos tempos, Ixion grita sem cessar: Honrai vosso benfeitor pelo tributo da gratidão.

Os centauros são considerados símbolos da força bruta e das pulsões instintivas que se apoderam do homem, anulando o lado humano de sua personalidade, que não consegue dominar este lado animal. Concupiscentes, lúbricos, bestiais, comedores de carne crua, bastando um copo de vinho para embriagá-los, são a imagem da trracionalidade do ser humano.

Ao mito de Ixion não podemos deixar de acrescentar a história de seu filho Piritoo, um ser também vitimado pelas paixões como o pai, cujas aventuras fazem parte da crônica do grande herói Teseu. Impressionado pelo filho de Egeu e por suas façanhas, Piritoo passou a acompanhá-lo como uma espécie de escravo. Uma das maiores aventuras desta dupla foi a tentativa (fracassada) de rapto de Perséfone, a rainha do Inferno.
Salmoneu (etimologicamente, o que transborda), oriundo da Tessália, filho de Éolo, deus dos ventos, emigrando para a Élida, fundou a cidade de Salmona. Muito orgulhoso e descomedido, julgou que poderia se tornar um deus na terra. Uma espécie de Zeus. Mandou construir diante de seu palácio uma pista de bronze e num carro com rodas de ferro que arrastavam correntes desfilava por ela, pretendendo produzir ruídos como os trovões e chispas de fogo como os relâmpagos e raios, armas de Zeus, que lhes foram dadas pelos Cíclopes. Apesar de nada popular entre seus súditos, que o achavam ridículo, queria ser conhecido por dois epítetos de Zeus, Brontaios (Trovejante) e Astrapaios (Relampejante).



ZEUS ASTRAPAIOS


Não demorou muito para que a paciência de Zeus se esgotasse. Irritado com a idiotice do espetáculo (aliás muito repetido hoje com motocicletas e automóveis), o Senhor do Olimpo o fulminou e o enviou para o Tártaro, onde se encontra até hoje, obrigado a ouvir trovões e a ter que suportar em seu corpo descargas elétricas equivalentes a raios.Dentre as figuras mais sinistras que estão aprisionadas no Tártaro temos Títio (forte, grosso). Filho espúrio de Zeus, de um de seus inúmeros amores itinerantes (Elara), foi escondido, por ordem do pai, no interior da Terra para que sua ciumenta mulher não o descobrisse. Hera, contudo, o descobriu, a essa altura uma figura gigantesca, dracôntica .Inspirou-lhe Hera uma violenta paixão por um dos grandes amores de Zeus, Leto ou Latona, a mãe dos gêmeos Ártemis e Apolo.




Quando estava prestes a violentá-la Zeus o lançou no Tártaro. Seu suplício: ter o seu fígado devorado por duas serpentes, na fase da Lua nova. Na fase crescente, as serpentes lhe dão um descanso, reconstituindo-se o órgão. Vergílio nos conta a história de Títio na Eneida, substituindo, porém, as serpentes por um cruel abutre que lhe rói as entranhas, não permitindo descanso às fibras que sempre renascem.











                        *Ciclos de Mitologia - "Lita Projetos Culturais"

quinta-feira, 31 de março de 2011

OS (DES)CAMINHOS DA SEDUÇÃO

A palavra Bíblia, como sabemos, quer dizer livros (plural de livro em grego). A Bíblia compreende as Escrituras Sagradas dos judeus e dos cristãos, isto é, os chamados Antigo Testamento e Novo Testamento, dois livros, portanto. Essa denominação não quer dizer, como muitos erradamente supõem, que o Antigo Testamento tenha sido ultrapassado pelo Novo Testamento. Não há entre os dois livros nenhuma ideia de subordinação. Preferível chamar o primeiro livro de Escrituras Sagradas Hebraicas e o segundo de Escrituras Sagradas Cristãs. De um modo geral, quando esses textos são mencionados muitos pensam em santidade, moralidade, sacrifício, pietismo, abstinência sexual, castidade, sofrimento, mortificação, caminhos vários, enfim, pelos quais é possível chegar a Deus, ao Reino dos Céus. 

 A abordagem que vamos fazer se concentra nos textos judaicos que nos levam exatamente no sentido contrário das idéias acima. O nosso ponto de partida é a constatação de que nos referidos textos há uma dessacralização geral do sexo. Estamos, nesses textos, longe da abstinência sexual, da castidade, do recato. Presentes, em grandes doses, ao longo deles, muito erotismo e muitos lances de sedução. Esta constatação afasta também a ideia de que no texto bíblico judaico o sexo só esteja ligado a preocupações de ordem matrimonial ou à procriação, à descendência. A maior parte dos comentadores dos textos sagrados do Antigo Testamento fala muito pouco sobre estas questões de sexualidade ou então silencia mesmo sobre elas. Uma leitura mais atenta dos textos nos revelará, isto sim, que os seus autores não tinham preconceitos contra o sexo nem contra o erotismo em geral. As histórias narradas sobre estes temas são apresentadas sempre de modo muito simples, direto, natural.

Os textos bíblicos judaicos espelham, como se sabe, uma cultura de fundo patriarcal. Esta cultura é a de um povo semi-nômade, abrangendo um período que vai de, mais ou menos, 3.000 a 1.200 aC. Em termos gregos, essa cultura se insere entre as idades do bronze e do ferro e é representativa de diversas tribos que, apesar de algumas diferenças, constituíam, no seu todo, um povo chamado abirus, hebreus, de origem semita, que emigrou da Mesopotâmia em direção da costa mediterrânea, da Palestina, de desertos do sul e do Egito. Com base em antigas tradições orais de mais de mil anos aC, é no Gênesis que encontramos os principais registros da chamada cultura patriarcal.

Ainda que alguns traços de antigas tradições matriarcais possam ser percebidos nesses textos, a figura central desse mundo é o patriarca. Sua autoridade é suprema. Ele é o chefe, o senhor dos bens, das suas esposas, dos seus filhos e de tudo aquilo que o grupo, o clã, possuía. Ele estabelece normas, procura proteger a todos, alimentá-los, defendê-los, orienta as relações internas e externas dos membros do grupo, definindo inclusive com quem seus filhos e filhas poderão se casar. O objetivo final de suas determinações e atitudes era, sem dúvida, a manutenção da coesão grupal. Num meio hostil, como aquele em que viviam, esta condição era indispensável. Além do mais, tudo isto reforçava a responsabilidade coletiva, já que se procurava manter sempre a pureza do sangue.

O casamento nesse mundo era estabelecido entre famílias. Um pacto através do qual o pai da noiva entregava a filha em troca de um dote (mohar) que deveria ser devolvido no caso de divórcio. No Gênesis, exemplos de casamentos podem ser vistos, como o de Isaac, o filho de Abraão e Sara, que se casou com Rebeca. Outro exemplo é o do casamento de Jacó, um dos dois filhos gêmeos de Isaac, narrado com uma grande quantidade de detalhes.



Fixemo-nos neste último, onde temos um caso de amor à primeira vista. Jacó, ao chegar do deserto, fugindo das iras de seu irmão Esaú, viu a pastora Raquel. Esse encontro foi abrasador. Eram primos. Jacó ficou abalado porque Raquel tinha um belo porte e um lindo rosto, conforme está no texto bíblico, que procura sempre ressaltar a beleza feminina. O mesmo problema teve Abraão com Sara, que atraía os olhares de egípcios e beduínos. Por essa razão, ela acabou tantas vezes no harém do faraó e do rei Abimelec. Sara, conforme registros, morreu com 127 anos de idade. Dizia-se que aos cem anos era tão bonita quanto aos vinte. Foi por amor a Abraão que ela concordou em frequentar haréns com o objetivo de salvar a vida do marido.

Não há o que estranhar com relação à predileção de Jacó por Raquel diante da beleza física da jovem e o seu desdém por Lia. Ao pedir a moça ao tio, futuro sogro, este exige que Jacó lhe preste sete anos de serviços como dote em suas propriedades. Tão apaixonado estava que o texto nos fala que "os anos lhe pareceram apenas alguns dias". Evidentemente, uma disposição como esta só seria compreensível numa situação de intensa paixão, provocada pelo poder de sedução de Raquel.

No Eclesiástico, uma coleção de provérbios e máximas composta por Simão Ben Sira, livro que faz parte do AT, encontramos, por exemplo, dentre as muitas observações sobre os perigos da sedução este texto: "Como lâmpada brilhante no candelabro sagrado, tal é a beleza de um rosto num corpo bem acabado. Colunas de ouro sobre bases de prata, assim são as belas pernas sobre sólidos pés."

Raquel, por exemplo, além de sedutora era muito esperta. Quando Jacó percebe que o tio Labão o explorava, põe-se em fuga com as duas irmãs, depois de tê-las consultado, ambas o apoiando. Labão sai em perseguição de Jacó. Alcançando-o, responsabiliza-o pela fuga e exige a devolução dos seus ídolos familiares, roubados por Raquel. Quando o pai aparece para revistar a tenda, a jovem, que colocara as imagens sob a sela do seu camelo e sobre elas se sentara, diz-lhe: "Que meu senhor não fique bravo porque eu não me levanto em sua presença, é que me veio o incômodo das mulheres..."

Labão, pai de Raquel e de Lia, não queria permitir que a primeira se casasse com Jacó antes da outra, mais velha. Enganou Jacó, dando-lhe Lia no lugar de Raquel. Para que o estratagema desse certo, Raquel teve que participar, ajudando a irmã, dizendo-lhe como deveria proceder para convencer Jacó de que era ela, Raquel, e não Lia. Assim procedendo, Raquel abriu mão de seu desejo de casar antes da irmã com Jacó. Só depois tornou-se Raquel esposa de Jacó. Raquel, lembremos, morreria ao dar à luz seu segundo filho, Benjamim, sendo José o primogênito.

O amor no AT tem um caráter profundamente erótico. Nada tem daquela qualidade da qual São Paulo tanto falava, o amor como ágape, isto é, o amor desprovido do seu aspecto carnal. Ágape, entre os antigos gregos, é preciso lembrar, era um banquete de confraternização. No Cristianismo, era uma festa dos primitivos cristãos que consistia numa refeição comum através da qual se celebrava o rito eucarístico. Nessa festa, pobres e ricos eram admitidos, trocavam-se beijos em nome da paz. Aos poucos, porém, essa festa cristã acabou degenerando, tendo sido proibida pela Igreja.

Um dos casos mais interessantes do AT é o que está descrito no Gênesis (XXXIX). Narra-se ali a história de José com a mulher de Putifar, Zuleika, nome que, em árabe, lembra pêssego. José é um dos filhos do patriarca Jacó e de sua esposa preferida Raquel. José é o modelo do tsadik bíblico (homem justo, probo). Sendo o filho preferido, porque relatara ao pai o comportamento inadequado dos irmãos, estes, em número de dez, procuraram matá-lo, lançando-o num poço cheio de serpentes e de escorpiões. Milagrosamente, José acabou saindo de lá, sendo, entretanto, vendido pelos irmãos como escravo a Putifar, oficial egípcio.


Putifar era um eunuco do faraó, um posto muito importante. Os eunucos, no antigo Egito, eram, como altos funcionários reais, muito próximos do faraó, ocupando elevadas posições, apesar da mutilação. José, como está descrito, era belo de rosto e de corpo, "belo de se ver." Putifar tornou-se dono de José ao comprá-lo. Zuleika tentou seduzi-lo de várias formas. O texto revela que José foi salvo da tentação, resistindo ao assédio de Zuleika, porque a imagem de seu pai, Jacó, lhe apareceu, salvando-o da tentação.

José resistiu à mulher tanto por retidão em relação aos homens como em relação a Deus. "Ela segue, dia após dia, falando a José; mas ele não aceita deitar-se ao lado dela, estar com ela." Decepcionada e humilhada, Zuleika tenta comprometê-lo, agarrando-o por suas vestes. E José, diz o texto, "larga suas vestes nas mãos dela, foge, parte dali." Zuleika, quando chega Putifar, o incrimina (compare com a Fedra de Eurípedes). José será preso e irá para a prisão. Sabemos que, pela graça de Deus, ele ganhou a liberdade e acabou se tornando vice-rei e encarregado da economia do Egito.

Outro famoso caso de sedução está na história de Sansão, personagem que aparece no período bíblico dos Juízes (sécs. XII-XI aC). Sansão é nome que vem do hebreu, com o significado de "pequeno Sol". Era ele um nazarita de nascença. Nazarita era aquele que, desde o nascimento, fazia voto de se abster de tomar vinho, cortar o cabelo e ter contato com mortos. Quando de seu nascimento, sua mãe foi visitada pelo anjo Uriel, às vezes chamado Raziel, o anjo da luz. Dele recebeu a informação de que seu filho iria salvar Israel da opressão dos filisteus.

Sansão nasceu dotado de força sobre-humana, entregando-se, desde cedo, a intensas paixões sexuais. Foi capturado pelos filisteus, graças às intrigas de sua amante, Dalila, que o vendeu por muitas moedas de prata. Os filisteus o cegaram, fato entendido como um castigo por ter cedido à tentação de seus olhos, entregando-se à luxúria. Enquanto prisioneiro, cego, as mulheres iam visitá-lo na prisão para com ele ter relações sexuais, pois não havia perdido os seus encantos e dotes de grande amante. Muitas queriam ter um filho com ele, para que a criança herdasse a sua força e estatura. Sansão escolheu a sua morte quando fez desmoronar o templo dos filisteus, morrendo sob os escombros. Entre os judeus, este gesto é considerado como um martírio altruísta.

Sansão sempre foi um tipo humano cheio de caprichos, de caráter infantil. Jovem ainda, enamorou-se de uma filisteia, Tamna, uma filha de incircuncidados. Casou-se com ela. A festa de seu casamento não terminou bem. Brigou com os filisteus presentes, matando trinta deles, abandonando Tamna nesse mesmo dia. As façanhas de Sansão tornaram-se famosas. Os filisteus contratam, então, Dalila, por milhares de moedas de prata, para causar a perdição do herói, o que de fato aconteceu.

Nosso herói acabou por revelar a Dalila o segredo de sua força descomunal, os seus longos cabelos. Dalila, numa oportunidade em que ele adormeceu no seu colo, cortou-lhe os cabelos. Os filisteus o capturaram, tiraram-lhe os olhos e o reduziram à escravidão. Na prisão, com o tempo, crescendo-lhe os cabelos novamente, e desatentos os filisteus quanto a este detalhe muito importante, voltando-lhe a força, Sansão destruiu tudo. Centenas de mortos. Entre os escombros, seu corpo desfigurado.

Esta história põe em evidência um tema comum a várias tradições religiosas antigas e recorrentes na Bíblia: se a mulher é frágil fisicamente, é forte quando se trata de amor e sedução. Este tema aparece inclusive na tradição cristã: cuidado com a mulher, pois, embora pareça frágil, tem força quase invencível quando se propõe a algo. É através destas histórias que se fixa a figura da mulher como destruidora de homens e fonte do mal, como está, aliás, no referido Ben Sira: "Foi pela mulher que começou o pecado e é por culpa dela que todos morremos."

Uma das mais curiosas histórias de sedução nos textos bíblicos judaicos é a de Judite, viúva de Manassés. A narração começa nos informando que na cidade de Betúlia, sitiada pelos assírios, vivia uma jovem viúva, conhecida por sua beleza, devoção e riqueza. Decide ela um dia, levada pela compaixão que lhe inspira seu povo e pela indignação que sente diante da disposição dos importantes da cidade que a queriam entregar aos inimigos, fazer alguma coisa. Vai então ao acampamento inimigo com uma espada, com o seu talento de grande sedutora. Confia em Deus, é virtuosa, bela, discreta e sábia apesar de jovem.

Sensual e apaixonada, tem o senso da aposta, da aventura, que vive com idealismo. Judite é o feminino de Iehudah, Judah, louvor a Deus. Por trás desse nome está o substantivo yod, braço, mão, daí a louvação a Deus. O nome Judite, Judith, toma um sentido combativo entre os judeus. Lembre-se que Judah é o “homem da mão”, executor e braço de Deus, como Judite.


A descrição de como Judite se preparou para ir ao acampamento inimigo é muito rica de detalhes. Durante a viuvez (já haviam se passado três anos e meio da morte do marido) viveu sempre em sua casa, vestindo pano de saco e usando roupas de viúva, como convinha a uma mulher nessa condição, escondendo o seu corpo e a beleza de seu rosto. O marido deixara-lhe muitos bens. ”Ninguém podia fazer-lhe a mínima crítica, pois era temente a Deus." Judite, no dia em que tomou a decisão de ir ao acampamento assírio, rezou nestes termos: "Concede-me, Senhor, falar com sedução, para ferir mortalmente os que planejaram uma vingança cruel contra teus fiéis, contra tua morada santa, o monte Sião, e a casa de teus filhos." Depois, tirou o pano de saco que lhe cobria o corpo, o vestido de viúva, tomou banho, passou perfume caro no corpo, penteando os cabelos, vestindo-se com roupa de festa; calçou sandálias, enfeitou-se com braceletes, colares, anéis, brincos e todas as suas jóias. Ficou belíssima, capaz de seduzir qualquer homem que a visse.

Conforme o texto bíblico, deslumbrante como uma deusa, apresentou-se Judite a Holofernes, general de Nabucodonosor, chefe das tropas assírias. Todos se encantaram à sua passagem, as portas se abriram, ninguém tão bela. Judite diz ao general que tem um plano para que os assírios tomem a cidade. Segundo o texto, Judite ficou três dias no acampamento assírio. Orava todas as noites, purificava-se tomando banho numa fonte próxima, pois, estava "em contato com incircuncisos." Na quarta noite, um banquete para Judite, só ela e o general. Holofernes, fascinado pela bela mulher e por suas palavras, esperando tê-la definitivamente em seus braços, descuida-se, entrega-se à bebida, "bebe tanto como não o tinha feito em toda a sua vida", diz o texto. Disso se aproveitou Judite. Desembainhando a espada de Holofernes, cortou-lhe a cabeça com dois certeiros golpes, colocou-a então numa bolsa e saiu tranquilamente como todas as noites, dizendo que ia orar.

Escapou, então, em direção de Betúlia. Os oficiais e soldados hebreus, já cientes do ocorrido, atacaram os assírios no dia seguinte, derrotando-os, totalmente desorientados pela morte do seu chefe. O autor da história diz que Judite consagrou ao Senhor todos os objetos de Holofernes e também o mosquiteiro que ela mesma pegara do leito dele. Narra-se também que Judite teve muitos pretendentes, porém nunca mais se casou.
Muitos estudiosos ocidentais da Bíblia já questionaram a moralidade do ato de Judite. Uma preocupação tipicamente ocidental, incompreensível no contexto da mentalidade semita. A arte de Judite, a de seduzir, é neste particular semelhante à arte de vender, isto é, a de saber tirar a maior vantagem na transação, aproveitando-se inclusive da ingenuidade ou da ignorância do comprador, arte na qual os semitas são mestres.
A história de Judite é um "romance", uma "novela" edificante. Tem por objetivo dar coragem aos judeus nos momentos mais difíceis de sua história. Judite serviu-se das armas que Deus lhe deu como mulher para seduzir Holofernes e matá-lo. Nenhuma dúvida quanto aos aspectos morais; nenhum questionamento quanto à legitimidade dos meios que ela empregou. O apoio de Deus é constante. Além disso, nenhuma mancha, nenhuma nódoa no seu caráter. Judite é um instrumento divino e um belo exemplo de patriotismo. A história de Judite repetiu-se muitas vezes ao longo da história da humanidade e tem, sem dúvida, um objetivo pedagógico.

Em vários momentos sua história, além de atrair a atenção de muitos religiosos, seduziu também artistas, músicos, pintores, sendo encenada em feiras e praças públicas nos últimos séculos. Caravaggio, Marc-Antoine Charpentier, Opitz, Scarlatti, Vivaldi, Mozart, Salieri, Hebbel, Jean Giraudoux, Paul Claudel, Georg Kaiser, dentre outros, se apoderaram do tema de Judite, fazendo-a representar, conforme a época, um exemplo de patriotismo, de santidade, de ativismo político, da eterna luta entre o opressor e o oprimido, da minoria que tem o direito de usar todos os meios para se libertar. Nos séculos XVII e XVIII, Judite encarnará a Cristandade diante do Islã e, no século XX, a democracia diante do nazismo.

O maior amante da Bíblia é, sem dúvida, David, cuja extensa história é contada no primeiro livro de Samuel (capítulos 16-31) e no segundo livro. David foi aquele por quem todas as mulheres de Israel se apaixonaram. Seu caso mais famoso foi o que teve com Betsabá (filha do juramento ou casa do juramento), que seria mãe de seu sucessor, Salomão. David se apaixonou por ela quando a viu no banho. Unindo-se a ela, engravidou-a. Tomou providências então para que o marido de Betsabá, Urias, soldado hitita, fosse mandado para casa para que todos pensassem que o filho era dele. Este estratagema não deu certo e David ordenou que Urias fosse destacado para atuar na linha de frente, nas batalhas, a fim de lá morrer. O profeta Natan repreenderá David por esse horrível procedimento. Foi depois de sua união com Betsabá, como se sabe, que começaram os seus infortúnios: violação de sua filha Thamar pelo próprio irmão, Amnon; revolta de seu filho Absalon; usurpação de seu filho Adonias etc.

O nome David (Dauid) merece uma referência especial: ele é o “bem amado, o querido.” Vencedor do gigante Golias, encantou com a sua lira o primeiro rei dos hebreus, Saul, e o sucedeu. David era um pastor em Belém. Tratava os seus carneiros com muito cuidado, sendo, por isso, notado por Deus e por ele escolhido para cuidar de Israel. Como músico, foi chamado para alegrar Saul, muito deprimido, então. Casou-se com Michol, filha do rei Saul,e era amigo de Jonatan, seu irmão. David foi ungido rei aos 28 anos pelo profeta Samuel. Fez de Jerusalém a capital do reino. Grande soldado, músico e poeta,  morreu  numa  festa,  quando  o  Anjo  da  Morte  se aproveitou de sua
desconcentração com relação aos seus estudos. Muito ligado à imagem do carneiro, condutor do rebanho (animal do qual tirava as cordas da sua lira), David jamais abandonou o seu instrumento musical. Dentre as suas várias mulheres, a preferida foi Betsabá, mãe de seu filho Salomão, como se disse.

A imagem de David, devido ao affaire Betsabá, e também por outros casos, diga-se, era bastante negativa. Um texto judaico, o Talmud, sustenta porém que David, ao se unir a Betsabá, não cometera adultério. Isto porque, esclarece o Talmud, todos os soldados que iam para a linha de frente tinham que conceder obrigatoriamente às suas mulheres um atestado de divórcio para a eventualidade de não voltarem do campo de batalha. Assim, quando Betsabá se uniu a David ela já "estaria divorciada". Esclarece-se, também, que quando ela se uniu a David era virgem porque Urias não tivera tempo de consumar seu casamento com ela.

David chegou à velhice muito amargurado devido às revoltas e guerras que se sucediam no seu reino. Uma mulher, contudo, virá cuidar dele nos seus últimos dias. "O rei David ficou velho, com idade avançada; por mais que o cobrissem, ele não conseguia se esquentar. Seus servos então sugeriram: "busquem uma jovem solteira que dê assistência e cuide do senhor nosso rei; ela dormirá em seus braços e o senhor nosso rei se esquentará." Esta jovem foi encontrada, chamava-se Abisag, de Sunam, e a levaram para o rei.

David, ao vencer Golias, símbolo do mal, protetor de Gathes, cidade bíblica, foi considerado posteriormente, por algumas tradições cristãs, como um precursor de Cristo. Pela sua virtuosidade como músico e poeta, é, por outro lado, apontado, por algumas tradições artísticas, como uma “atualização” do Orfeu grego. Como exemplo de sua inspirada poesia, mencionemos os seus Salmos, o mais lido e copiado dos livros bíblicos na Idade Média.

Por último, não há como esquecer de Hadassa (nome hebraico), mais conhecida pelo seu nome de guerra (persa), Ester, grande sedutora e heroína nacional. Ainda muito jovem, órfã, foi comprada por seu primo Mordecai, líder dos exilados judeus no império persa, tornando-se sua filha. Belíssima, “engraçada”, consta que aos quarenta anos, idade avançada para mulheres àquele tempo, tinha a aparência de uma adolescente. A crônica registra que foi o próprio Mordecai que a incentivou a se aproximar do imperador persa, Assuero, que reinava “desde a Índia até a Etiópia.” O rei pediu a seus ministros que buscassem donzelas virgens e formosas, pois aquela que, “entre todas mais agradar aos olhos do rei, essa será rainha em lugar de Vasthi”, a rainha rebelde.

Assim aconteceu. Antes, porém, é preciso mencionar que tanto o nome hebraico (Hadassa) como o persa (Ester) têm a ver com o mirto, vegetal consagrado a Afrodite. A melhor aproximação a Ester que podemos fazer é sem dúvida com a deusa mesopotâmica Ishtar, deusa do amor e da guerra, entre os babilônicos, irmã de Ereshikgal, deusa dos Infernos.

Ao se apresentar ao rei persa Assuero, logo tomada por ele como esposa, conseguiu Ester em pouco, mercê dos seus encantos e da sua perícia nas artes do quarto de dormir, levar os judeus à vitória. Os judeus sempre defenderam a ideia de que a mulher que ia para cama com Assuero não era Ester, mas era um espírito muito parecido com ela, enviado por Deus. Consta mais que antes de se entregar ao rei persa ela jejuou e o próprio Deus a vestiu e a acompanhou. Antes de ir para a cama do rei, Ester passou por doze meses lunares de purificação, seis com óleo de mirto e seis com “odores adocicados” e chuva, no período do verão. Os judeus lembram dessa passagem ao jejuar no dia que antecede ao Purim (festa relacionada astrologicamente com o signo de Peixes), chamando-se essa cerimônia de Tanit Ester.

O Purim era uma festa celebrada no mês que antecedia a primavera, no último mês do inverno, portanto. Os judeus a herdaram dos mesopotâmicos; nessa festa se celebrava a vitória da luz, conduzida pelo deus Marduk (Mordecai), sobre o deus das trevas, Haman (Uman). Este último é o grande representante do mal no Livro de Ester. Ele tinha obtido de Assuero autorização para exterminar os judeus. Ester frustrou então os seus planos. Haman foi enforcado, com seus dez filhos, na mesma árvore que preparara para enforcar Mordecai.

Lembro que o grande gênio do teatro clássico francês, Racine, no séc. XVIII, escreveu uma tragédia em três atos, com coros, sobre o tema, a pedido de Mme. de Maintenon, para as jovens internas de Saint- Cyr.

Como se pode ver, pelos menos quanto às mulheres, o Antigo Testamento, é, sem dúvida, um tratado sobre ciúmes, ardor, paixão, fogo, luxúria, incesto; nada nos falando do amor idealizado, "platônico", ou do amor voltado exclusivamente para a procriação. A mulher bíblica, no AT, longe de ser uma devota triste e submissa, tem orgulho dos seus atributos físicos, da sua beleza. Por isso, não se descuida, procura manter-se bela, aprende a arte de seduzir e a de fazer amor.

Shalom, amén, salam alaikum, ave, namastê...