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terça-feira, 21 de novembro de 2017

ESCORPIÃO (1)



              

Desde tempos muito recuados (5.000 aC) que o signo de Escorpião era conhecido por mesopotâmicos, persas, judeus, turcos, maias e muitos outros povos. Na Mesopotâmia, o signo tem a ver com
TIAMAT   E   MARDUK
Marduk, divindade que, à medida que a cidade da Babilônia se firmava como o maior centro do poder no território compreendido entre os rios Tigre e Eufrates, sobrepujou todos os demais deuses. Esta posição se deve sobretudo à sua vitória sobre Tiamat, o oceano primordial, símbolo das trevas e do caos. Depois dessa vitória, os deuses lhe atribuíram cinquenta títulos em sinal de reconhecimento e lhe conferiram o privilégio de fixar os destinos humanos. Desta maneira, Marduk reuniu em si mesmo a plenitude do divino e do humano. Na terra, era não só aquele que fazia crescer os cereais, mas o mundo vegetal como um todo, estendida sua ação inclusive a toda a vida animal.





Marduk se transformou aos poucos na grande divindade organizadora da vida universal. Era representado geralmente como um deus armado, abatendo um dragão, na sua forma mais elevada,
ESAGIL  ( RECONSTITUIÇÃO )
entronizada no grande templo babilônico de Esagil. Desta cidade, a imagem do deus ia para o interior do país, para uma região chamada Akitu, onde ficava vários dias. Lá se realizavam cerimônias, preces, cantos, rituais mágicos, purificações e sacrifícios. O próprio rei ia a Akitu para lhe prestar homenagens, quando, então, a imagem do deus, por uma longa via sagrada, era conduzida para as margens do rio Eufrates, onde havia um grande templo. Marduk, sob o nome de Bel-Marduk, lá permanecia por uns dias, voltando depois a Esagil. Estas cerimônias, no seu todo, duravam vários meses e constituíam uma espécie de religião de mistério, que figuravam a morte do deus, o seu renascimento e, enfim, a sua união com a deusa, Ishtar. 


TEXTO   DAS   PIRÂMIDES 

A história de Marduk, como se pode ver, guarda estreitas relações com outras, de natureza escorpiana, em que divindades infernais
TEXTO   DOS   SARCÓFAGOS
aparecem relacionadas com os temas da morte e do renascimento. Uma das mais famosas nos vem do Egito, a do deus Osíris. É sobretudo a Plutarco, historiador grego dos sécs. I-II dC, que devemos a história mais completa sobre a vida de Osíris, de sua união com Ísis e da luta que travou contra seu irmão Seth. Textos egípcios (Textos das Pirâmides e Textos dos Sarcófagos) completam as informações de Plutarco.

HINO   A   OSÍRIS
Um dos mais belos textos sobre o deus, o Grande Hino a Osíris, está numa estela exposta hoje no museu do Louvre. Nela se registra, de modo bastante poético e imaginoso, a procura do corpo do deus por Ísis e por Néftis, as lamentações amorosas da primeira e a sua fecundação pelo deus. 

Osíris, “o que tem muitos olhos”, foi associado pelos gregos a duas de suas principais divindades, Dioniso e Hades. Primitivamente, era um deus da natureza em que se encarnava no espírito da vegetação que morria com a colheita e que renascia com a germinação dos grãos. Nesse sentido, foi adorado em todo o Egito como deus dos mortos, condição que o levou ao primeiro lugar no panteão egípcio. 

Muito parecida com a história de Osíris como espírito da vegetação
SAFO  ABRAÇANDO  SUA  LIRA
( J. E. DELAUNAY , 1828 - 1891 
que morre e renasce é a de Tammuz, divindade babilônica, favorito da deusa Ishtar-Astarte. Devidamente adaptada, esta história aparece no mundo semítico, tomando Tammuz o nome de Adônis (adon, mestre, senhor), de onde passa para o mundo grego, para fazer parte de mitologemas relacionados com a Afrodite grega, helenizando-se, assim, as tradições míticas orientais. Lembre-se que todas estas histórias já eram conhecidas no mundo grego desde os sécs. VIII e VII AC., por poetas como Hesíodo e Safo.



O nascimento de Osíris foi muito “problemático”. A começar pela “gravidez” de sua mãe, Nut (o equivalente da Reia grega), que se relacionara secretamente com o deus Geb (o equivalente de Cronos entre os gregos). Ra, o Sol, divindade que tudo via e sabia, muito irritado, colérico, procurou interferir de modo a tornar a gravidez impossível. Muito angustiada, Nut procurou um lugar em que pudesse parir fora do alcance dos olhos de Ra. Não encontrou um lugar em que pudesse se refugiar. A vigilância de Ra era tão implacável que durante a sua viagem noturna pelas trevas encarregava o deus Lua de não perder Nut de vista. 


NUT

As coisas estavam nesse pé quando o deus Toth resolveu prestar auxílio a Nut. Este deus, o das palavras medidas, segundo a história nos conta, nutria grande admiração por Nut ou uma grande paixão, conforme outras versões. Toth convidou o deus Lua para um jogo de dados. A partida foi longa e disputada, mas Toth acabou vencendo. Pediu, pela vitória, que o deus Lua lhe fornecesse a 72ª parte do período de sua luminosidade. Com isso, pode então Toth criar e acrescentar cinco dias suplementares ao período anual, chamados estes dias de epagômenos. Lembremos que epagômeno (epagô, em grego, é trazer, introduzir, acrescentar por indução) é o dia que se acrescenta a um calendário.  Entre os egípcios, era cada um dos cinco dias adicionados ao ano civil, que compreendia doze meses de trinta dias. 


ESCADA  DE  JACÓ (W. BLAKE , 1757 - 1827)
Lembremos que 72 é um número caro a todas as tradições antigas ao indicar ascensão e valorização. Platão nos fala que é o número das “bodas herméticas”, da união do céu com a terra, correspondente a oito gestações completas. Os assírios, os caldeus e os judeus contam em seus calendários mágicos 72 anjos tutelares e  que esse é o número de semidecanatos em um ano. 72 é também o número de degraus da escada de Jacó, que liga o céu e a terra. Plutarco fez alusão a cinco dias que o deus Hermes intercalou em um ano de 360 dias, tirando diariamente 1/72 de cada dia. É de se mencionar também que o aspecto astrológico de 72º tem o nome de quintil, aspecto de natureza “oculta”, devido ao seu grande potencial criativo, numa perspectiva muito individual.



Filho mais velho de Geb e de Nut, irmãos, deuses da segunda dinastia, portanto, como se disse, nasceu Osíris em Tebas, no Alto-Egito, sendo o primeiro dos cinco filhos do casal divino. Nos demais dias epagômenos nasceram, pela ordem, Haroeris, Seth, Ísis e Néftis. Os textos hieroglíficos encontrados pelos arqueólogos contêm inúmeras alusões aos fatos da vida terrestre de Osíris, por eles se sabendo que Ra acabou por aceitar o nascimento de seu neto, reconhecendo-o como herdeiro de seu trono. 

Quando Geb se retirou para os céus, Osíris o sucedeu na qualidade de rei do Egito e se uniu a sua irmã, Ísis. O primeiro ato de Osíris como governante máximo foi o de abolir a prática da antropofagia
FLAUTA  EGÍPCIA
entre os humanos; depois, na sua função civilizadora, ensinou aos seus súditos os processos de fabricação de instrumentos agrícolas e os instruiu na arte do plantio de cereais e da videira, até então desconhecidos, o que lhes permitiu fabricar o pão e bebidas como o vinho e a cerveja, ambas bebidas da imortalidade. Osíris instituiu os cultos divinos, inexistentes; fez construir os primeiros templos, inventou instrumentos como a flauta e ensinou a arte musical para servir de sustentação aos cantos nas festas. 


OSÍRIS
Depois de civilizar o Egito, Osíris, com o mesmo intuito, dirigiu-se à Ásia, deixando Ísis na regência do trono. Acompanharam-no Toth, seu vizir, e seu grande oficial, Anúbis, “o que abre caminhos.” Inimigo de toda violência, foi pacificamente que ele levou a civilização a todos os recantos da terra. Retornando ao seu país, Osíris foi atacado numa emboscada e morto por seu irmão Seth, que armara um complô para destruí-lo. Este acontecimento se verificou no vigésimo oitavo ano do reinado de Osíris, que teve seu corpo despedaçado pelo irmão e espalhado por vários lugares do país. 

Graças, contudo, a seus poderes mágicos, Ísis, ajudada por Toth, Anúbis e Hórus, este filho póstumo dela e de Osíris, conseguiu fazer com que seu marido voltasse à vida. Ressuscitado e ao abrigo
FERTILIDADE   TRAZIDA    PELO    NILO

 da morte, Osíris preferiu deixar a terra e descer ao mundo subterrâneo para reinar sobre os mortos. O que a história desse deus nos revela, assim, na sua dimensão cósmica, é que ele se identificou simbolicamente com o espírito da vegetação que morre e renasce incessantemente, representado, nesse sentido, pelo trigo, pela vinha, pelas árvores e pelas plantas em geral. Ele é também o rio Nilo que, a cada ano, míngua no período da seca e que recupera a sua força, quando das enchentes, vencendo assim o deserto. Ele é, numa palavra, tudo o que a cada crepúsculo se apaga, como o Sol, para renascer a cada manhã, trazendo a luz de volta. A luta entre ele e seu irmão Seth (representado pelo dragão Apophis, equivalente do Tifon grego) nada mais é que uma imagem dessa alternância, a luta entre o deserto e a fertilidade das terras inundadas pelas águas do rio, o choque entre os ventos quentes e a umidade de que a vegetação precisa, a batalha entre a obscuridade e a luz. 



É, contudo, como divindade do “Outro Lado” (Duat) que os cultos de Osíris atingiram a sua máxima expressão e popularidade, pois ele dava aos seus fiéis a esperança de uma vida eternamente feliz no além, num mundo governado por um rei justo e bom. Adorado em todo Egito, em companhia de Ísis e de Hórus, Osíris forma com eles a chamada trindade osiriana (imagem à direita), honrada em todo o país. 

Embora as fontes faraônicas já apresentassem, desde o período do Antigo Império, os principais elementos do mito, a história de Osíris só ganhou grande divulgação com os gregos, espalhando-se por todo o Mediterrâneo. Foi a partir de então que Osíris passou a ser conhecido como um símbolo da potência imperecível do mundo natural, da vegetação em especial, e do chamado Sol Negro, o Sol em sua viagem noturna. É neste sentido que Osíris é cultuado como a grande divindade da morte e do renascimento, tendo também a ver seu mito, numa leitura psicanalítica, com as fases da individuação psíquica do ser humano.

Inegavelmente, o que melhor ilumina o mito osiriano é a leitura astrológica na medida em que o signo de Escorpião simboliza o fim da vegetação, a queda e a decomposição dos galhos e folhas, e, num sentido lato, evidencia a destruição das formas e dos valores objetivos do ser humano. Alquimicamente, quando o Sol transita pelo signo de Escorpião nos céus, passamos a trabalhar, no mundo natural, com ideias de desagregação, de fermentação e de putrefação, operações sem as quais não podemos pensar em renascimento.    

Na mitologia mesopotâmica, sob o reino de Apsu, o grande abismo cheio de água que cerca a terra, está o mundo infernal, região para a qual se dirigiam os que morriam, um “lugar sem retorno”. Para chegar a ele era preciso atravessar um rio e depois ingressar num palácio de sete portas, abandonando-se em cada uma delas uma peça da roupa que o morto (alma) vestia. A audaciosa Ishtar, um dia, atreveu-se a visitá-lo e quase dele não conseguiu sair se não fossem os seus poderes mágicos e, sobretudo, a intervenção de Ea, uma espécie de Poseidon, grande divindade do Apsu. Às vezes, os deuses permitiam que os encerrados no inferno voltassem por uns momentos à superfície luminosa da terra, como foi o caso de Enkidu, companheiro de Gilgamés, autorizado inclusive a revelar ao amigo o que se passava nas trevas infernais. 

EDIMMU

As almas dos mortos que lá viviam eram chamadas de edimmu, aladas como os pássaros; alimentavam-se, com raras exceções, de poeira e de lama. Além dessas almas, encontravam-se também no inferno os deuses vencidos, cúmplices de Tiamat, derrotados por Marduk, quando da grande batalha vencida por este último, o que ensejou a cosmização do universo criado. 

No épico babilônico sobre a criação, aparecem duas entidades com destaque. Uma delas é Apsu, também chamado Abzu ou Engur, nele residindo seu filho, o sábio deus Enki (Ea) e sua esposa Dulgalnuna, subordinando-se a eles várias criaturas marinhas. Enquanto Apsu personificava as águas subterrâneas, as águas salgadas eram de Tiamat. Formavam, Apsu e Tiamat, um par macho-fêmea. Geraram eles uma linhagem divina, da qual faziam parte, além de Enki, outras divindades que acabaram por criar muitos problemas a Apsu. Muito descontente, Apsu resolveu
BABILÔNIA  -  SÍTIO   ARQUEOLÓGICO
exterminá-los, apesar dos protestos de Tiamat. Revoltada, incontida e aparentemente ilimitada no seu eterno vai-e-vem, Tiamat lembrava a indeterminação, o caos primordial, informal e tenebroso. Constituía-se, como tal, num perigo permanente para os deuses que, na nova ordem, representavam o mundo masculino. Aliada do mundo feminino, Tiamat precisava ser vencida e, de fato, o foi por Marduk, a divindade tutelar da Babilônia, que se tornou a primeira cidade do país, capital do império.     


ERESHKIGAL
Nesse cenário, sobre o mundo infernal reinava sozinha a deusa Ereshkigal. Um dia, porém, o deus Nergal, com catorze demônios, invadiu esse reino; a paz foi negociada então, unindo-se Ereshkigal ao deus invasor como esposa. Até então deus da guerra e da destruição, tornou-se Nergal baal (deus) dos mortos. Ele usava como símbolo uma espada e, às vezes, um elmo feito com uma cabeça de leão. O visual de Nergal era muito semelhante ao de Ares e de Marte, deuses da guerra, respectivamente, entre gregos e romanos, sendo também evidente, por outro lado, as suas implicações astrológicas com o planeta de mesmo nome (regente de Escorpião). Seu primeiro ministro e comandante das tropas infernais era Namtaru, o deus da peste. 

NERGAL
Ereshkigal e Nergal eram auxiliados também por sete annunaki, que agiam como juízes, sendo o tribunal presidido pelo deus Sol-Utu. Além deles, havia uma força policial, os galla, para cuidar da segurança do reino. No mais, esse submundo era concebido de modo semelhante ao céu, ambos organizados em função de modelos terrestres. Mesmo na morte havia uma rigorosa ordem de preferência, sob o ponto de vista social. As almas dos reis e dos altos funcionários ocupavam sempre os melhores lugares. A alma de qualquer defunto ilustre tinha, ao chegar, de oferecer sacrifícios aos seus nobres predecessores. A conduta nesse submundo obedecia a certas regras, impostas por Gilgamés, o grande herói, que se tornou um deus depois de sua morte. 

Se as sentenças fossem favoráveis, as almas podiam esperar uma existência razoavelmente satisfatória. Não obstante essa promessa de esperança, os mesopotâmicos sempre acreditaram que a vida no reino infernal seria sempre um pálido reflexo da que havia conhecido na Terra. Tinham eles bem poucos motivos para esperar uma vida venturosa no inferno, mesmo tendo sido impecáveis na sua conduta em vida. 

A história do amor entre Ereshkigal e Nergal é narrada num texto que tem o nome dos dois personagens. É por esse texto e outros que tomamos conhecimento de mais alguns atributos de Nergal como a de que era a divindade responsável por declarações de guerras, pela devastação de florestas pelo fogo, por epidemias de febres e por pragas de toda espécie. Fazia parte do seu séquito, dentre outras divindades menores, mas igualmente violentas, a deusa Erra, que dizimava pelas doenças populações inteiras.  


DIONISO
Se nos voltarmos para a Grécia, não há como não deixar de aproximar o que dissemos acima de Osíris da história de Dioniso e evidentemente do signo de Escorpião. Desde a sua origem, Dioniso, o deus de Nysa, como sabemos, sempre teve uma forte relação com a vida animal e vegetal, honrado, por isso, ao ar livre, no alto das montanhas. Sua relação com o vinho, bebida enteógena, liberadora, também se fixou logo, juntamente com espetáculos dramatúrgicos, que estão na origem de seus cultos. 

Aos poucos, foi incorporando o deus outros traços para se constituir numa divindade ligada à renovação cíclica da natureza e às metamorfoses do mundo animal e humano. Como deus civilizador, aparece Dioniso ligado aos prazeres, à exuberância, aos desregramentos, ao rompimento de limites. Psicologicamente, ele tem a ver com tudo aquilo que, no ser humano, dissolve a cristalização de formas, de complexos e de comportamentos automatizados, podendo causar, através dessa ação, regressões a perigosos e temidos estados caóticos, pré-egoicos. Neste sentido, ele atua sempre no sentido de eliminar repressões, constrangimentos e limites, quando as necessárias transformações ou atualizações dos seres e dos organismos sociais não acontecem, trazendo a loucura, a destruição e mesmo a morte.


CULTO   DE   DIONISO

Os cultos de Dioniso sempre oscilaram entre o espiritual e o físico, mostrando-se no geral muito “selvagens” e turbulentos (como os de certas correntes shivaístas na Índia), o que incomodava sobremodo a polis grega, que, por isso, procurou “civilizar”, ou melhor, urbanizar o deus de qualquer maneira. Assim, suas festas foram aos poucos sendo incorporadas ao calendário oficial de Atenas; os dramas dionisíacos, espontâneos e naturais, foram dando lugar a manifestações teatrais com regras bem definidas (tragédia e comédia), patrocinando o poder público competições que no gênero marcaram profundamente a vida grega.

Para se entender o que estamos a expor é preciso lembrar que a religião oficial da polis grega (Atenas) era aristocrática. Os deuses olímpicos atuavam para reprimir a hybris dos que tentassem ir além do seu métron. A meta da religião olímpica era a obtenção do conhecimento contemplativo (gnosis), a purificação da vontade para que o divino fosse recebido (khatarsis) e obtida a consequente libertação do ser para uma vida de imortalidade (athanasia). As principais divindades do mundo olímpico, inspirador da ordem aristocrática, eram Zeus, Apolo e Palas Athena.

Do outro lado, opostas, tínhamos as correntes religiosas dionisíacas, voltadas para os mitos naturalistas, para os cultos agrários, do tempo cíclico, divindades da vegetação e da vida animal, que morriam e ressuscitavam. Dioniso era a principal delas. Ele era o deus da libertação, da orgia, do êxtase e do entusiasmo, que tinha na videira o seu maior símbolo. Seu culto logo se tornou popular, sendo considerado como o deus dos deserdados, dos que não tinham vez na polis aristocrática, as mulheres, os metecos (estrangeiros), as crianças e os escravos. Ele fazia parte de um grupo de divindades que lembrava a morte, a catábase, a viagem infernal, e o renascimento. 


ORFISMO
O sucesso do orfismo na polis grega, como seita religiosa, se deve provavelmente a este problema, o dos desregramentos dos cultos dionisíacos, sempre temíveis, sobretudo sob o ponto de vista político. Não é de espantar que o cristianismo, nos seus primórdios tenha chegado a ver Orfeu como uma prefiguração de Cristo. Orfeu é um personagem mítico, sedutor, que aparece no mundo grego como uma tentativa de se neutralizar os “perigosos” cultos dionisíacos, sempre uma ameaça para a polis aristocrática, apolínea. 


ORFEU
Recapitulando rapidamente o leit motiv da história de Orfeu, grande poeta e cantor, lembremos que devido à morte de sua amada, Eurídice, ele obteve permissão para retirá-la do inferno sob a condição de não procurar revê-la até que tivessem ambos saído do mundo infernal, ele caminhando na frente, ela atrás. Mas no momento em que está para atingir o mundo dos vivos, Orfeu se volta para vê-la, perdendo-a, por isso, definitivamente. Desesperado, tentou ainda recuperá-la, mas em vão, Eurídice retornara ao Hades. Cheio de dor, Orfeu desde então desdenhou todas as mulheres. Por essa razão, foi destroçado pelas mênades, as sacerdotisas de Dioniso.


ORFEU   E   EURÍDICE  ( G. F. WATTS , 1870 )

Segundo a doutrina órfica, a alma imortal habita um corpo mortal; depois da morte, ela passa uns tempos no inferno para se purificar, reencarnando depois num outro corpo humano ou mesmo no de um animal, enriquecendo-se de experiências nestas transformações sucessivas, semelhantes ao samsara dos hindus. Só os iniciados conheciam as fórmulas mágicas que permitiam a metempsicose e a salvação definitiva da alma. O orfismo comportava muitos dogmas, princípios filosóficos, regras de alimentação, controle da sexualidade etc. Praticavam os órficos a abstinência da carne e vestiam-se de branco, símbolo da pureza. 

O orfismo e o cristianismo trouxeram ao mundo grego e helenístico a promessa de uma vida futura. Ambos, Orfeu e Cristo, aparecem assim como mediadores da divindade para multidões sofredoras da agonizante cultura greco-romana, falando-lhes de uma vida eterna. Cristo é, porém, um produto típico de uma religião patriarcal, cujos profetas representam seu Deus como um ser absoluto. A orientação do cristianismo quanto ao espaço e ao tempo é também muito diferente daquela que o orfismo propunha. Este nos fala de uma religião que propõe uma alternância cíclica entre o mundo inferior e o superior que lembra a alternância do mundo vegetal; o outro, o cristianismo, é celestial, escatológico e finalista (para informações mais detalhadas sobre o Orfismo, leia neste blog o artigo Orfeu ou O Fracasso de um Poeta). 




quarta-feira, 18 de outubro de 2017

LIBRA (4)

                                        
PSYCHE E O AMOR , 1798
( FRANÇOIS  GÉRARD )
Muitos astrólogos, desde a antiguidade, associam a Libra o mito de Cupido e Psyche, na medida em que o signo procura descrever como um  ego busca o  seu complemento. É só através dessa busca e de seu sucesso, como sabemos, que o tipo astrológico libriano se realiza plenamente. O mito procura traduzir, de certo modo, a busca do Outro, a busca de um complemento, no geral muito mais inventado, idealizado, do que real.  


APULEIO
Antes, contudo, a origem da história. Tudo começou com Lucius Apuleius Theseus (170-125, Madaura, atual Argélia), chamado simplesmente de Apuleio, escritor latino polígrafo de origem africana. Depois de ter estudado eloquência em Cartago, dirigiu-se a Atenas, tornando-se adepto do platonismo. Percorreu em seguida boa parte da Ásia Menor e do Mediterrâneo fazendo-se iniciar em cultos de mistério (Mitra, Elêusis, Ísis, Cabiros, Cibele, Astarte, Sabazios) na esperança, como dizia, de “encontrar o segredo das coisas” e de “se abandonar a todos os demônios da curiosidade até os confins do sacrilégio.” Voltou a Cartago, assumindo a advocacia, tornando-se um retor célebre. Além de alguns pequenos tratados filosóficos e discursos, escreveu Floridus e De Magia ou Apologia, este último composto como
METAMORPHOSIS
peça de sua defesa por ter sido acusado de seduzir uma rica viúva chamada Prudentilla, para lhe tomar a fortuna. Sua obra mais importante intitula-se Metamorphosis, chamada algumas vezes de O Asno de Ouro, onde se encontra o seu famoso conto Cupido e Psyche, que podemos certamente relacionar com a peça de defesa acima mencionada. Apuleio nos deixou como escritor a imagem de uma poderosa sensibilidade sempre às voltas com influências místicas, grande imaginação, alegria, gosto pela paródia e construções rebuscadas, tudo numa linguagem eivada de preciosismos.

O conto de Apuleio nos diz que havia um rei e uma rainha que tinham três filhas belíssimas. Para as duas primeiras os adjetivos superlativos disponíveis na linguagem eram suficientes para celebrá-las. Quanto à caçula, porém, sua beleza era tão extraordinária que não havia palavras para descrevê-la. O único recurso, e mesmo assim insatisfatório, eram as interjeições que procuravam traduzir um grande deslumbramento. Logo a notícia correu o mundo, uma nova Vênus havia nascido. De várias partes do país e do exterior acorreram muitas pessoas na esperança de ver a “nova” deusa, que aceitava as homenagens que lhe eram prestadas. Por causa disso, os lugares sagrados e os santuários de Vênus não mais eram visitados, o culto divino se enfraquecia. Como não poderia deixar de acontecer, a imensa hybris da jovem princesa, chamada Psyche, incomodou a deusa Vênus, que resolveu punir tamanha insolência. Chamou seu filho Cupido, incumbindo-o de puni-la exemplarmente. 


CUPIDO SUPLICA A VÊNUS QUE PERDOE PSYCHE
( 1827, GEORGE  ROUGET )

Vênus é um nome derivado de palavras latinas que significam amor físico, apetite sensual e sexual, vida instintiva. Foi por esse nome que os romanos personificaram a sua deusa do amor, procurando assimilá-la à Afrodite grega. Na origem, entre os antigos povos da Itália pré-romana, a deusa Vênus tinha relação com o mundo agrário, com jardins e pomares, mais exatamente. Aos poucos, porém, por influência do culto grego de Afrodite, que entrara na Itália pela Sicília, Vênus começou a ocupar uma posição de destaque no panteão latino, especialmente pelo fato de, segundo o mito, um descendente seu, Eneias, oriundo de Troia, ter fixado as bases do futuro império romano.

Quanto a Cupido, filho de Vênus e Marte entre os latinos, o nome vem do verbo latino cupere, desejar ardentemente, inflamar-se. No
CUPIDO
ESCULTURA   ROMANA
mito romano, difere um pouco do Eros grego. Embora no mundo romano se apresente sempre muito travesso, irresponsável, inconsequente, na sua iconografia clássica, a imagem de Cupido chega a diferir bastante do seu modelo grego. O Cupido latino, com efeito, parece mais envelhecido que o Eros grego; é uma figura tomada por um certo cansaço, traços que suas esculturas romanas inclusive revelam, características que podemos, quem sabe, atribuir a um certo desgaste do arquétipo.   

Vênus pede a Cupido uma vingança perfeita, observadas as seguintes determinações: a jovem princesa terá que se apaixonar pelo mais horrendo dos homens, perdendo não só toda a sua herança familiar como a sua dignidade, a incolumidade de seu corpo, descendo a níveis tão baixos de existência de modo a que ninguém queira compartilhar de seu sofrimento. Transmitidas tais instruções, Vênus encaminhou-se para o seu elemento, o mar, sendo recebida por um grande séquito, as filhas de Nereu, o formidável Portuno, a saltitante Salácia, Palemon, o condutor dos delfins, inúmeros tritões, todos a reverenciá-la.


DEUSES  DO  MAR  SAÚDAM  VÊNUS ( E. LE SUEUR , 1616 - 1655 ) 

Registre-se além disso que os pais da jovem haviam consultado um oráculo apolíneo, pois, embora ela fosse lindíssima, como mulher alguma poderia ser, não era amada; definhava por isso, muito triste.
REUNIÃO DE CUPIDO E PSYCHE
( J.P. SAINT-OURS - 1752 - 1809 )
Suas duas irmãs, muito menos bonitas, já haviam inclusive se unido a dois belos príncipes. O oráculo sentenciou: Psyche deveria ser levada ao mais alto penhasco do país e ali exposta suntuosamente; um monstro horroroso viria se unir a ela. É nesse momento que Cupido, cumprindo as ordens de sua mãe, vê a jovem princesa no penhasco e se sente por ela “flechado”, instantaneamente apaixonado. Libertou-a e a levou para o seu palácio no vale. A única coisa que lhe pediu, logo na primeira noite, quando a possuiu, foi que permanecesse com os olhos vendados quando ele fosse visitá-la, que jamais tentasse vê-lo. 



PSYCHE   SURPREENDE   CUPIDO   ADORMECIDO
( 1769 ,  LOUIS JEAN FRANÇOIS LAGRENÉE )

As duas irmãs, tendo ouvido histórias sobre Psyche, conseguiram saber onde ela se encontrava. Visitando-a, sugeriram que ela era muito tola, que deveria remover a venda dos seus olhos e conhecer o seu esposo, talvez um monstro, quem sabe. Ainda que muito relutante, mas cheia de curiosidade, a jovem fez o que as irmãs haviam sugerido. Resolveu acender uma lamparina a óleo para vê-lo melhor. Ao se debruçar sobre ele com a lamparina, gotas de óleo cairam e Cupido acordou, logo fugindo, abandonando-a. 

Psyche se desesperou. Foi a Vênus, que não consentiu que ela visse seu filho-amante, a não ser que ela lhe prestasse alguns serviços, na condição de serva. A deusa impõe então à jovem várias tarefas
VÊNUS   E   PSYCHE  
humanamente impossíveis, certa de que ela fracassaria. O mundo natural, entretanto, as plantas e os animais, sentindo muita pena da jovem, a ajudam no cumprimento das referidas tarefas (separar um gigantesco  monte de grãos variados, numa única noite; trazer para Vênus flocos de lã de ouro que cobriam o dorso de carneiros ferozes; trazer para Vênus uma jarra de cristal cheia da água da fonte que alimenta os rios infernais Estige e Cocito). Nesse ínterim, refeito de seu ferimento (queimadura), Cupido foi a Júpiter e lhe pediu que concedesse a imortalidade a Psyche, o que aconteceu, recebendo ela umas gotas de ambrosia, divinizando-se e se imortalizando. 

Esta história suscitou ao longo dos séculos muitas interpretações. Sob o ponto de vista filosófico (Apuleio era um adepto do platonismo), temos aqui a ideia de que a alma é intrinsecamente divina. Esta natureza é perdida quando do processo da encarnação, mas pode ser recuperada. Nesta perspectiva, Psyche representa a natureza espiritual de cada ser humano. No cristianismo, esta história foi usada para simbolizar a busca de Deus pela alma.

PSYCHE  E CUPIDO  ( ANTONIO  CANOVA , 1757 - 1822 )

Numa outra leitura, podemos dizer que tendo pecado pela curiosidade e pela dúvida, a alma perde o seu amante divino e se torna escrava de Vênus, que a submete a duras provas. Recuperada por Cupido, ela se torna, enfim, imortal e passa a viver na eterna felicidade do amor. Tanto um símbolo da alma à procura de seu ideal como da sua purificação (salvação pelo amor) depois de ter decaído. Outros vêem na história uma tendência à idealização de parceiros. Depois de um certo tempo, porém, ousando olhá-los como realmente são, a decepção se instala, ocorrendo tanto uma separação emocional e/ou física. Os testes, as provas e os desafios pelos quais as relações têm que passar estão evidentes no contexto do conto, lembrando-se, neste particular, que, sob o ponto de vista astrológico, Saturno se exalta em Libra. 

Uma outra hipótese, que estudiosos, psicólogos e artistas nunca, a meu ver, levantaram, é que esse conto que passou à história da literatura filosófica, hoje quase que só “trabalhado” por psicólogos, é, no fundo, uma declaração de amor de nosso trêfego Apuleio à rica viúva, uma peça literária pela qual ele procurava se redimia aos seus olhos, deixando claro que o “amor tudo vence.” Segundo consta, a rica Prudentilla o perdoou por ter se apoderado do seu dinheiro, enganando-a, e eles acabaram muito felizes.

ORFEU   E   EURÍDICE
A história de Cupido e de Psyche coloca-nos também diante de uma questão que me parece fundamental na mitologia grega e com larga repercussão na matéria astrológica, mas nunca explorada de modo mais consequente. Refiro-me ao tema da proibição de se olhar na relação amorosa. O mito de Orfeu e de Eurídice não é, assim, o único a colocar a questão da interdição do olhar, do direito de ver, da necessidade que os parceiros amorosos têm de “se dar a ver”, bem como das interdições e castigos que sancionam a transgressão destes interditos.


AMOR  CORTÊS NUM  JARDIM  MEDIEVAL ( RENAUD DE MONTEAUBON )

O tema do olhar me parece profundamente ligado ao signo de Libra e de Touro e às duas Vênus que os regem, a Vênus “exterior” do primeiro e a  Vênus “íntima” do segundo. A Vênus libriana é, numa aproximação literária, a do amor cortês, desmaterializada, na qual as pulsões carnais aparecem invariavelmente sublimadas, transformadas em obras de arte etéreas, depuradas. O amor cortês, como se sabe, impõe distância, mesuras, vive em grande parte da imaginação (lembremos que Vênus se exalta em Peixes). A Vênus taurina é carnal, pede o sentido do tato, associa-se à plenitude lunar. A Vênus libriana pede mais o sentido do olhar que o toque, 


ASTRÔNOMO
Os astrônomos, com as suas lunetas, há muito, perceberam que o planeta Vênus apresenta fases semelhantes às da Lua, conforme a posição por ele ocupada com relação ao Sol. É de Galileu a observação que A mãe dos amores imita as fases de Diana. Notaram também os estudiosos do céu que todos os acidentes da superfície do astro quase nunca eram percebidos pelo olhar, pois um manto de nuvens invariavelmente os escondia. Dessa constatação astronômica passou-se ao símbolo poético. Os poetas, desde sempre, “traduziram” esse fato astronômico, falando-nos da pudicícia e do recato da deusa, que “jamais baixava os seus véus”. Imaginação, mistério, promessas ou tão só as camadas mais ou menos espessas da atmosfera do planeta... Contra a realidade carnal taurina temos as abstrações librianas. Os tipos librianos, recordemos, são sempre muito sensíveis ao olhar do outro, ao julgamento que este olhar faz. Nos tipos librianos há sempre (?) o temor do olhar do outro, o receio de que este olhar os surpreenda inadequadamente “compostos”, “arrumados”. 

Dentre os muitos mitos que fazem parte do universo libriano, um capítulo importante é o das histórias de parceiros amorosos, de casais, cujos nomes não poderão jamais se separar. As suas histórias transcorrem geralmente em regiões fronteiriças às da morte (Escorpião), falando-nos de interdições de se olhar, de jogos de sedução que passam pelo olhar. Os personagens se dão a ver, mas quem vê ou é visto se expõe sempre a matar ou a morrer.

Orfeu, nome que lembra privação em grego, não escapa destas leis. Filho de um rei da Trácia, segundo uns, de Apolo para outros, é sobretudo um dispensador da harmonia. Com o seu canto e a sua música acalma as bestas, faz cantar a natureza, tem poder inclusive
CALÍOPE
sobre o mundo mineral (as próprias pedras o seguem). Orfeu é um sedutor. Hesita entre Apolo e Dioniso, tentando conciliar estes deuses inconciliáveis, o da medida e do espírito celeste o primeiro e o outro o da vida luxuriante e da desmedida. Sua mãe é a musa Calíope (a de bela voz), a inspiradora tanto da poesia épica como da lírica. Cantor e músico incomparável, a constelação da Lira, segundo alguns, o acolheria quando cumprido o seu estranho destino. 

ARGONAUTAS
Depois de longa viagem ao Egito, Orfeu se engajou na expedição dos Argonautas, comandada por Jasão. Sua função, com a sua música e seu canto, era a de marcar a cadência dos remadores, acalmar as tempestades e distrair os marinheiros atingidos por Pothos, causador do dorido sentimento de nostalgia noturna. Ao voltar da expedição à Cólquida, encontrou a dríade Eurídice (a de grande justiça), por quem se perdeu de amores. Logo, porém, a perdeu. Ao fugir de uma investida sexual de Aristeu, deus apicultor, é picada por uma serpente e morre, descendo, por isso, ao Hades. 



A  MORTE  DE  EURÍDICE ( ERASMUS  QUILLINUS , 1607 - 1678 )

Inconsolável, Orfeu para lá se encaminhou, confiante no seu poder de sedução. Perséfone encantou-se com as melodias do filho de Calíope, convencendo Plutão a libertar a jovem dríade. A história é conhecida: uma condição é imposta; Orfeu iria na frente e Eurídice o seguiria, não podendo ele olhá-la em hipótese alguma até que ultrapassada a saída do reino dos mortos. Na versão clássica do mito, Orfeu perdeu Eurídice porque não observou a interdição, olhando-a muito cedo, vitimado por uma crise de impaciência tipicamente ariana. Dentre as explicações para o comportamento de Orfeu, acredito que algumas hipóteses poderiam ser alinhadas: a) ele duvidou da palavra dos senhores da morte; b) teve medo, temendo encontrar uma Eurídice lívida e desencarnada, um eidolon, um fantasma e não um ser de carne e osso; c) arrependeu-se, não sabendo como assumir o “renascimento” da sua amada, já que o Hades e Eurídice ficariam para sempre associados. 



Ao longo dos séculos, a maior parte daqueles que se aproximaram desta história acusaram Orfeu. Para uns (Jacqueline Kelen, L´Éternel Masculin), Orfeu não sabia apreciar o que lhe escapava, que ele não sabia dominar. Falta de humildade, talvez. Não acreditou no milagre, por isso ele não se produziu. Tem Orfeu muita invenção poética mas pouco amor para ressuscitar a jovem. Platão, no Phedro, acusou Orfeu de fraqueza. Uma alma fraca que não teve a coragem de morrer como Alceste. 

Não podemos esquecer que embora Libra seja um signo artístico, de criações sutis, sua natureza permanece contudo sempre cerebral, como um signo de ar que é. A paixão está presente, o sentimento alimenta o pensamento, mas este se impõe àquela. Em outros termos: quanto mais Eurídice é o centro da poesia órfica, fonte de
JEAN  MARAIS
inspiração, menos ele a aceita e vê como carne e sangue. As versões desta história são inúmeras. Virgílio (Geórgicas) nos fala de imprudência. Ovídio (Metamorfoses), de fatalismo. Depois deles, essa história trágica deu origem a uma grande tradição literária musical e artística. Quanto à música, obrigatória as referências a Monteverdi, Gluck, Haydn e Offenbach; na dança, as coreografias de Roger-Ducasse e de Balanchine-Stravinsky. Na pintura, Breughel, o Jovem, Tintoretto, Rubens, Poussin e Delacroix a utilizaram. No cinema, Jean Cocteau (Orphée) e Marcel Camus (Orfeu Negro). 

Ninguém, que eu me lembre, “levantou” o ponto de vista de Eurídice. Será que ela desejaria realmente voltar à vida terrestre, ela que agora conhecia a morte, ela que agora conhecia tudo o que se passavam no reino de Hades. Apesar de todas as suas declarações, Orfeu, o amado dos deuses, é um ser cheio de fraquezas e de sentimentalismo. Uma personalidade muito “feminina”, como é comum entre os poetas. Ele não é um modelo de afirmação, um ser aguerrido. É ambíguo, oscilante. Características todas que, como sabemos, estarão na causa de sua morte. Uns afirmam que ele se “esqueceu” de honrar Dioniso. Uma versão muito aceita registra que Zeus o fulminou porque ele começou a revelar segredos do Hades que não podiam ser revelados. O mito de Orfeu e de Eurídice não foi o único a propor questões como a da proibição de se olhar, a do direito de se ver, a da necessidade de “se dar a ver” e a de todas as interdições que cercam o tema.

Esta mesma questão da proibição de se olhar nós a encontramos, como se disse, na história de Cupido e Psyche. Embora tenha tentado resistir às insinuações das irmãs, a jovem perdeu a confiança no seu misterioso esposo e acabou por transgredir a interdição. Ela o viu tão belo, tão maravilhoso, que, infinitamente perturbada, deixou cair uma gota de óleo fervente sobre o ombro do seu divino parceiro, acordando-o. Rápido, ele se afastou, dizendo-lhe: Infelicidade para ti, que puseste tudo a perder” Esta cena não pode deixar de nos trazer à mente uma questão (libriana) muito importante, quem sabe uma lição a ser dela retirada, a de que o amor, para conservar a sua força e ação, perdurar, deve ser também cego.


Para recuperar o amor de Cupido, Psyche terá que realizar vários trabalhos, como já vimos, recebendo, para tanto, valioso auxílio divino. Impostos por Afrodite, merecem nossa atenção de modo especial aqueles que a levarão ao Hades. A deusa exige que a jovem encha uma jarra com a água do rio Estige (o que provoca horror), um dos rios infernais, inalcançável para qualquer mortal. Providencialmente, uma águia, a quem, um dia, Cupido auxiliara, resolveu o problema, conseguindo o líquido para a jovem. Enraivecida, Afrodite determinou que ela cumprisse então uma tarefa, a mais terrível de todas, que certamente causaria a sua perdição: Psyche deveria ir ao Hades e pedir a Proserpina (Perséfone) um unguento de beleza que só ela possuía. Psyche, que,
PSYCHE E CARONTE
( J.R.SPENCER STANHOPE , 1829 - 1908 )
até então, havia sempre recebido auxílio para cumprir as tarefas que lhe eram determinadas, sentiu-se perdida, pois ninguém, nem mesmo deuses, ousariam descer ao Hades. Pensou em se suicidar. Dirigiu-se para o alto de uma grande torre para esse fim, para de lá se atirar. Estranhamente, porém, a torre se pôs a aconselhá-la: deveria a jovem munir-se de dois óbolos e de dois pedaços de bolo. Os óbolos para  Caronte, o barqueiro infernal, um na ida e outro na volta, e os pedaços de bolo, do mesmo modo, para o cão tricéfalo Cérbero. Quanto a Proserpina, o máximo cuidado, pois ela gostava de estender armadilhas. 

Psyche foi recebida pela Rainha do Hades e convidada a sentar-se e a fazer uma refeição. Devemos lembrar que há uma lei no mundo infernal que diz o seguinte: quem comer no Hades, um grão que seja, estará condenado a ele voltar e quem lá se sentar numa cadeira, a chamada cadeira do esquecimento, não poderá mais dela se levantar e esquecerá o motivo pelo qual para lá se dirigiu. Psyche, lembrando-se dos conselhos da torre, recusou polidamente os convites, expondo os motivos de sua visita. Obtendo o que desejava, a jovem foi autorizada a voltar à terra. Com o frasco do precioso unguento nas mãos, Psyche pensou em usar um pouco dele para se mostrar ainda mais bela se voltasse a encontrar o seu perdido esposo. Nesta passagem, faltaram evidentemente a Psyche, mais uma vez, comedimento e prudência. Ao abrir o frasco, as substâncias se evaporaram, caindo ela num sono profundo, como se estivesse morta. Tudo isto aconteceu no momento em que ela estava praticamente fora dos limites do Hades.  

Nesse ínterim, Cupido, lamentando a perda de sua jovem esposa, intercedia a seu favor diante de Zeus. Aquiescendo Zeus ao pedido,
MERCÚRIO  OFERECE  A PSYCHE
O  CÁLICE  DA  IMORTALIDADE
( 1510 ,  RAFAEL DE  SANZIO ) 
Cupido não só a recuperou como, por iniciativa do próprio Senhor do Olimpo, a jovem se tornou imortal por lhe ter sido permitido o consumo de um pouco de ambrosia. Unindo-se novamente os amantes, gerarão uma filha que recebeu o nome de Volúpia, sempre representada como uma bela mulher, de faces artificialmente muito coloridas, de olhares lânguidos, postura lasciva, uma figura da qual a modéstia está certamente ausente. Aparece sempre semi-deitada numa espécie de divã florido e segura numa das mãos uma alada bola de vidro, uma imagem sempre carregada de sensualidade. Esta filha que Cupido e Psyche tiveram desqualifica em grande parte, senão totalmente, a meu ver, a leitura que a moderna Psicologia jungiana (Erich Naumann) faz desta história, ao “traduzir” Volúpia como Deleite ou Bem-aventurança, de natureza celeste, tentando espiritualizá-la, características inexistentes ou intenções ausentes do texto de Apuleio.

Todas as provas impostas por Vênus têm certamente qualquer coisa a ver com as vicissitudes do jogo amoroso. Psyche aceita o sofrimento, sente-se fanée, pensa no envelhecimento, chega à beira do suicídio. Há muito de Libra, sem dúvida, na história de Psyche, o desejo de agradar, de permanecer sempre jovem, bela, uma “filha de Vênus”, sempre vulnerável ao olhar do outro, aterrorizada pelo pensamento de não mais ser amada. A história nos fala das armadilhas do amor, dos sonhos de beleza perfeita, do amor que “nunca morre”, de tentações, hesitações, balanceamentos, fragilidade, de muitos componentes do mundo libriano, enfim. Fala-nos também a história das dificuldades que existem para se chegar ao amor adulto, consciente, da confrontação dos olhares, das indagações mudas, da maior ou menor sensibilidade dos parceiros amorosos na captação de nuances e matizes no discurso amoroso. Muitos, ao longo dos séculos, condenaram Psyche, esquecendo, porém, as intermináveis horas de espera que ela suportou para rever o marido, o seu tédio palaciano, o seu bovarismo, alimentado, em grande parte pelo marido e pelas irmãs. A pergunta então se impõe: que significa realmente esta interdição de contemplar o deus do amor? Será que o amor e a morte não podem ser olhados? Na história, Cupido tem o direito de ver Psyche, ela, porém, não pode vê-lo. A história lembra muito a de Endímion, sem dúvida. O jovem e lindíssimo pastor, conforme a versão, era visto por Selene ou por Hipnos, mas não via. 

A história de Cupido e de Psyche, iluminada astrologicamente, talvez nos deixe questões que jamais conseguiremos explicar totalmente. Que se passa realmente quando duas pessoas que se amam abrem os olhos simultaneamente, um atingindo a alma do outro, uma entregando-se ao outro? Um instante absoluto, mágico, milagroso, certamente impossível de ser reproduzido conscientemente. Verdade ou mentira dos olhos?


PSYCHE  RECEBIDA   NO   OLIMPO ( RAFAEL DE SANZIO , 1483 - 1520 ) 

Se em Gêmeos o eu está se opondo sempre ao não-eu, em Libra, este modo de ser é ultrapassado para ser procurada uma nova forma de vida, a da complementaridade, a unio, a conjunctio oppositorum. Em Libra, o eu se busca numa relação com o outro. Mas para que isto aconteça é preciso correr riscos, encarar as incertezas, aceitar, quem sabe, as desilusões, é preciso muito esforço, procurar conhecer o outro. Uma leitura que muitos fizeram: Psyche foi aquela que buscou a imagem real do outro, busca que a levou inclusive a usar desastradamente a lamparina de óleo. A pergunta, a meu ver, então se impõe: qual, a rigor, a razão dessa “necessidade de ver realmente o outro”, se os próprios deuses haviam proibido que tudo fosse vivido “às claras”? A história parece deixar claro que a comunhão com o outro não se realiza através do conhecimento racional. Será que foi por piedade que Cupido se dispôs a ajudar Psyche, levando-a para o Olimpo, onde a união de ambos tomou características de uma hierogamia? Ou, simplesmente, reduzindo a história ao essencial, não será ela mais que a revelação da impossibilidade de se encontrar nos relacionamentos humanos o equilíbrio ideal? Ou, astrologicamente, de outro modo, segundo a receita divina: será que não deveríamos preferir para a casa VII, ao invés da razão (a lamparina de Psyche), a escuridão e a imaginação?










quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

LYRA, OPHIUCHUS, PEGASUS

        


LYRA é também conhecida como a constelação da Harpa, vista de modo muito diferente por várias culturas. Os gregos a associaram a três personagens de sua mitologia. Primeiramente, a história que nos fala dos amores de Apolo com a ninfa Coronis e do nascimento de um filho de ambos, Asclépio, divindade médica de Epidauro.
ASCLÉPIO
Com a sua arte médica, herdada do pai, ele se pôs a ressuscitar os que o procuravam no seu famoso santuário. Hades queixou-se a Zeus, pedindo prontas providências, pois, a continuar Asclépio com as suas práticas, ninguém mais baixaria ao seu reino. Prontamente, o Senhor do Olimpo interveio, fulminando Asclépio. Apolo, em represália, matou os Cíclopes, que haviam cedido a Zeus as armas com as quais conquistara o universo, o trovão, o relâmpago e o raio. Ao invés de mandar Apolo para o Tártaro, sua primeira intenção, Zeus o enviou para um exílio terrestre em Feres, na corte do rei Admeto, a quem serviria como pastor por um ano. 



APOLO  E  O  REBANHO  DE  ADMETO
( CLÁUDE  LORRAIN , 1645 )

É neste ponto da história que aparece Hermes, ainda uma criança, que, libertando-se das faixas que o envolviam, dirigiu-se à Tessália, onde furtou uma parte do rebanho de Admeto, guardado por Apolo. Hermes afastou-se do local, apagando as pistas dos animais, amarrando galhos nos seus rabos. Numa gruta, sacrificou duas

novilhas aos deuses, dividindo-as em doze porções, embora os imortais, a essa altura, fossem apenas onze. O deus-menino, assim agindo, promovia-se à décima segunda divindade olímpica. Tendo encontrado uma tartaruga, Hermes matou-a e usou a sua carapaça para fazer a primeira lira, acrescentando-lhe como cordas as tripas dos animais sacrificados. 

Apolo descobriu o paradeiro do menino-deus e o acusou formalmente. A questão, da qual participou também Maia, mãe de Hermes, acabou chegando a Zeus. Maia protegeu o filho, alegando ser impossível que uma criança mal saída dos cueiros pudesse ter praticado ato semelhante. Zeus, sabendo com quem tratava, interrogou duramente seu filho, que, diante das evidências
FLAUTA  DE  PAN ( PICASSO)
apontadas por Apolo, foi obrigado pelo pai a jurar nunca mais faltar com a verdade, embora reservasse a si o direito de, a seu critério, não se obrigar a dizer a verdade por inteiro. Se lhe conviesse, só a meia-verdade. Encantado com os sons da lira que o menino-deus tirava, Apolo lhe propôs um acordo. A troca do rebanho furtado pelo novo instrumento musical de som divino (mais tarde, lembremos, a syrinks, a chamada “flauta de Pan", também inventada por Hermes, será negociada com Apolo). 

ORFEU  E  SUA  LIRA
Feito o negócio, Apolo logo depois cedeu a  lira a seu filho Orfeu, o grande poeta, músico e cantor, gerado por Calíope, a mais importante das Musas. Narra o mito que Orfeu aumentou o número de cordas da lira de sete para nove, em homenagem às Musas. Sua maestria ao cantar e  ao tocar o instrumento era tanta que todos se encantavam, não só os humanos, os animais e os vegetais também.



EURÍDICE  E A  SERPENTE
( EUGÈNE   DELACROIX )


ORFEU  E  EURÍDICE  ( RUBENS )
Ao regressar da expedição dos argonautas, Orfeu casou-se com a ninfa Eurídice, seu grande amor, considerando-a como a metade de sua alma (anima). Certo dia, perseguida pelo deus apicultor Aristeu, foi Eurídice picada por uma serpente, vindo a falecer. Inconformado, tomado por grande desespero, Orfeu foi ao Hades buscá-la. O som de sua lira e o seu maravilhoso canto chegaram inclusive ao Tártaro, levando momentaneamente um pouco de alegria e paz a criminosos como Tântalo, Sísifo, Ixion e outros que lá se encontravam, eternamente aprisionados.    Orfeu seduziu
POTHOS
de tal modo os deuses do mundo ctônico que recebeu permissão de Hades e de Perséfone para reconduzi-la à superfície da terra.  Uma 
condição lhe foi imposta: ele seguiria à frente e ela atrás; acontecesse o que acontecesse, ele não poderia se voltar para vê-la até que saíssem do território infernal. O poeta concordou com a imposição; já estava quase saindo do Hades quando, tomado por invencível saudade (um ataque do deus Pothos), voltou-se para ver a noiva. Imediatamente, viu que Eurídice se desvanecia sob os seus olhos, retornando ao mundo das sombras. Tentou alcançá-la. Impossível, Caronte barrou-lhe os passos. 

Impotente e amargurado, desconsolado, Orfeu voltou à superfície, passando desde esse fatídico dia a repelir todas as mulheres, fiel à memória do seu grande amor. As mênades, sacerdotisas de Dioniso, o deus que destrói as formas que não sabem se renovar, violentamente então o despedaçaram. Segundo uma das mais consistentes versões do mito, a morte de Orfeu pelas mênades se devia a uma vingança de Afrodite contra Calíope, mãe do poeta, que arbitrara a disputa por Adonis, o lindíssimo filho de Mirra. Como se sabe, Calíope decidiu que Adonis deveria permanecer uma parte do ano com Perséfone e outra parte com Afrodite, decisão que irritou profundamente esta última. 



MORTE   DE   ORFEU

O crime das mênades foi punido. A pedido de Apolo, Zeus devastou a Trácia com uma grande peste. Consultado, o oráculo de Delfos revelou que Zeus só se acalmaria se a cabeça de Orfeu e sua lira fossem recuperadas e lhe fossem prestadas as devidas honras fúnebres. Assim foi feito, sendo erguido um templo em honra do
SAFO
poeta, nele se proibindo a entrada de mulheres. Esta proibição se explica pelo fato de que Orfeu, depois de sua saída do Hades, deixou de interessar pelas mulheres, passando a andar só com jovens rapazes, pregando a castidade etc. A lira do poeta que havia ido parar na ilha de Lesbos, lugar de origem da poesia lírica (Safo), foi recuperada e enviada aos céus para formar a constelação de que tratamos.

TERPSÍCORE
( EUSTACHE LE SUEUR )
Entre os gregos, a lira era também atributo de duas Musas, Érato (nome grego que significa a que ama com paixão), que presidia de modo particular a poesia lírica e amorosa, e de Terpsícore (a que tem prazer em, a que se alegra, também em grego), cuja função era a de presidir a dança. Da união desta última com o deus-rio Aqueloo nasceram as Sereias e, segundo uma versão mítica, também Lino, inventor do ritmo e da melodia, professor de música de Hércules, que o assassinou numa crise de loucura.  Os antigos
REI DAVID
também chamaram esta constelação de A Pequena Tartaruga. Os romanos (Plínio) a conheceram como As Estrelas da Harpa. Os celtas a denominaram Talyn Arthur, A Harpa do Herói (Arthur).  Astrólogos judeus e cristãos a chamaram de A Harpa do Rei David. 


A lira, a harpa, a cítara e o alaúde são instrumentos musicais que participam do mesmo universo simbólico ao representar a harmonia cósmica, a união do céu com a terra. Fazer vibrar a lira é fazer vibrar o mundo. A carapaça da tartaruga que entra na lira é, como sabemos, um símbolo da abóbada celeste enquanto as cordas, retiradas do animal (touro), representam a multiplicidade do mundo terrestre. Ao vibrá-las, o poeta promove as bodas cósmicas, a união do céu e da terra. 

Na mão dos deuses ou de alguém por eles inspirado, a lira podia mover montanhas. É o caso de Anfion, filho de Zeus e de Antíope, gêmeo de Zeto. Aquele era pacífico, dedicava-se à música; o segundo era violento, empregando o seu tempo em lutas e trabalhos pesados. Ambos reinaram em Tebas, dividindo o poder, e resolveram murar a cidade. Anfion, que havia recebido uma uma lira de Hermes, fazia com a sua música que as pedras se movimentassem e se encaixassem perfeitamente. Já Zeto as transportava nos ombros, desgastando-se enormemente. Viviam os dois irmãos às turras, embora Anfion sempre acabasse cedendo, para evitar que o conflito se instalasse. Segundo o mito, pelo pecado da hybris, ambos foram mortos por Apolo.

GRAVURA   INDIANA
A tartaruga, lembremos, entre os alquimistas do extremo-oriente representava o ponto de partida da evolução, o começo da obra da espiritualização da matéria. O grande naturalista romano Plínio considerava a carne da tartaruga como um remédio salutar contra os venenos, tendo inclusive o poder de afastar manobras mágicas. Além do mais, por sua carapaça, arredondada como céu, e achatada em baixo como a Terra, a tartaruga sempre foi usada, em várias culturas, para representar o universo, a união do céu e da Terra, constituindo-se ela numa cosmografia ambulante.

Os judeus viram na constelação sobre a qual se discorre aqui a harpa de David. Sabemos que ele, foi rei de Israel, sendo descendente de Rute, a moabita que se converteu ao judaísmo. Tendo começado a sua vida como pastor em Belém, o cuidado com que tratava os carneiros sob sua guarda mostrou a Deus que tinha qualidades para se tornar o futuro rei israelita, assim acontecendo. Da sua biografia consta a vitória que obteve sobre o gigante Golias.
DAVID   E   BETSABÁ
O seu talento musical era tão desenvolvido que, ainda na juventude, conseguiu tirar o primeiro rei de Israel, Saul, de uma profunda depressão que o prostrava. Aos 28 anos, David foi ungido rei pelo profeta Samuel. Governou depois de Saul e libertou Jerusalém. Muito religioso, David fazia pender sobre a sua cama uma harpa cujas cordas ressoavam à noite ao sopro do vento, despertando-o para cantar loas a Deus e estudar a Torá. Compôs salmos, publicando-os em livro. A esposa favorita de David foi Betsabá, mãe de Salomão, que o sucedeu no trono.


David foi, ao que parece, o primeiro a dar uma forma sistemática à música que então se fazia em Israel, toda ela voltada depois para as
KINNOR
atividades do Templo, construído por seu filho, Salomão, conforme se pode depreender dos textos do Levítico. Várias canções, como a de Míriam e a de Débora, restam desse tempo. A harpa, mais uma espécie de lira, tinha, contudo, um destaque maior no campo secular, sendo chamada de kinnor. Toda a tradição musical que tinha por base a vida no Templo se perdeu quando de sua destruição (70 dC) e a consequente dispersão das tribos de Israel. 

SUÍTE DE MÚSICAS
ARTURIANAS
Quanto aos celtas, a harpa vista nos céus tem relação com o instrumento que o rei Arthur tocava nas suas andanças. Este rei mítico, cujo nome deriva da palavra urso (arktos, em grego), representa um ideal cavaleiresco na busca do Santo Graal, tema largamente explorado pela literatura medieval insular e continental. Arthur, como sabemos, está adormecido na ilha de Avalon (o Outro Mundo). Gauleses e bretões esperam que um dia ele volte para libertá-los da dominação estrangeira, o que acontecerá antes do fim dos tempos. Na Idade Média, contrastando com a da Águia (Aquila), esta constelação foi chamada de O Abutre (Vultur), também nome de sua principal estrela. Da sua configuração nos céus fazia parte uma lira, que o pássaro trazia em seu bico.



A constelação da Lira estende-se de 10º a 29º de  Capricórnio, sendo Wega a sua estrela alfa, de 1ª magnitude, hoje a 14º37 de Capricórnio. O nome da estrela vem do árabe, Al Waki, palavra que traduz uma ideia de algo cadente. Na Idade Média, a estrela recebeu o nome latino de Vultur Cadens ou simplesmente Vultur, ou seja, Abutre. A estrela Wega, entre 12.000 e 10.000 AC, era a estrela polar. Os egípcios chamavam Wega de Maat, a deusa da Justiça, que participava da pesagem das almas, a psicostasia. Esta deusa era simbolizada por penas do avestruz. A pena do avestruz, entre os egípcios, representava tanto a justiça como a equidade e a verdade pelo fato de todas penas da ave terem sempre o mesmo tamanho. Neste sentido, a pena do avestruz é também um símbolo da harmonia cósmica, da ordem universal, fundamentada na justiça. 

TORRE   DO   SILÊNCIO
O abutre é, como a águia, uma ave de rapina, só que, simbolicamente, menos “nobre” que ela. São os abutres conhecidos como devoradores de restos, de carniça, de cadáveres, como os que encontramos ainda hoje nas Torres do Silêncio, entre os parsis, na Índia (Mumbai). Se o abutre é, num sentido, uma ave ligada à imundice, é, por outro lado, um agente regenerador das forças vitais, contidas na decomposição orgânica e nos restos de toda espécie. É o abutre assim um ser que assegura o ciclo do renascimento, um purificador, que transmuta a morte em vida. No mundo greco-romano, o abutre tem poderes divinatórios. Como tal, era uma ave consagrada a Apolo, porque seu voo, como o da águia, do cisne e de outras aves, era interpretado pelos áugures que, por eles, faziam os seus presságios. 


PERSEGUIÇÃO   DAS   HARPIAS
( PETER  PAUL  RUBENS )

O estabelecimento de analogias entre entre o abutre e as Harpias gregas, acredito, poderá ser tentado. As Harpias (Aelo, a borrasca; Ocípite, a rápida no voo; e Celeno, a negra) são divindades infernais, sempre ávidas de sangue, mulheres aladas, envelhecidas, seios pendentes, com bicos e garras, parecidas com abutres. São as abastecedoras do inferno, raptoras (harpein, em grego, de onde vem o nome, que significa arrebatar) dos cadáveres, principalmente dos jovens. Na Índia, por exemplo, o abutre aparece como a montaria de Shani (O Escuro) ou Manda, a personificação do planeta Saturno, geralmente representado sob os traços de um velho muito feio e claudicante.  

As influências astrológicas desta constelação, para nós, se concentram no simbolismo da lira, instrumento musical construído pelo deus Hermes a partir da morte (a carcaça da tartaruga e as
SHANI
cordas, as tripas dos animais sacrificados). Na tradição medieval se acrescentou ao símbolo, como que tornando-o mais explícito, um outro símbolo, o abutre, ave necrófaga e regeneradora, ao mesmo tempo. Numa síntese final, coexistem na constelação da Lira os temas da morte e da vida, instrumento com o qual temos que fazer a “nossa música”. A lira é o instrumento privilegiado para isso, pois sua música nos introduz na ciência das modulações, da medida, comandando ela a ordem do cosmos e a ordem humana. 

A tradição ptolomaica nos diz que as influências da Lira têm características de Vênus e de Mercúrio. As que a seguiram apontam para pendores artísticos, talentos interpretativos, chamando a proteção das Musas, tuteladas por Apolo. Traços carismáticos podem se apresentar com Wega, algo semelhante ao que os antigos
MOZART
gregos chamavam de kydos, uma espécie de proteção concedida pelos deuses, uma proteção que poderia ser, entretanto, retirada inexplicavelmente, levando o antigo protegido a descontroles e a desregramentos em que poderiam  se misturar o desdém, a lascívia e o deboche. Um tema astrológico a ser interpretado nesta perspectiva é, por exemplo, o do compositor austríaco Mozart.



OPHIUCUS

OPHIUCHUS,  também conhecida como Serpentarius, foi dividida em três constelações, Ophiuchus propriamente dita, Serpens Caput e Serpens Cauda, consideradas em conjunto para fins astrológicos. Os antigos gregos chamavam esta constelação de O Curador ou O Médico (Iatrós), que era o deus
ASCLÉPIO   E   FILHAS
Asclépio, filho de Apolo, sendo a mãe a ninfa Coronis. Educado pelo centauro Kiron, Asclépio fez tamanho progresso na arte médica (Iátrica) que chegou a ressuscitar os mortos, usando uma técnica que hoje chamaríamos de transfusão de sangue (a deusa Palas Athena cedera, para esse fim, a Asclépio, o sangue que escorrera do lado
MEDUSA  ( CARAVAGGIO )
direito do pescoço da Medusa, quando decapitada por Perseu). O deus Hades queixou-se a Zeus, pois a ordem do mundo seria transtornada se ninguém mais baixasse ao Inferno. Zeus fulminou o filho de Apolo, mas consentiu na sua divinização. Não podendo vingar-se,  Apolo matou em represália os Cíclopes, que haviam doado a Zeus o trovão, o relâmpago e o raio, armas com as quais o Senhor do Olimpo conquistara o universo.


HIGEIA
Os cultos a Asclépio se fixaram em Epidauro, onde passou a ser chamado de “O Bom”, “O Filantropíssimo”. No local, instalou-se um centro médico que, com o tempo, passou a atender, por séculos, milhares de pessoas da Grécia e do exterior que para lá se dirigiam em busca da cura para as suas doenças físicas e mentais. Casado com Epíone, Asclépio teve quatro filhas, Áceso (A que Cuida de), Iaso (A Cura), Panaceia (A que Socorre a Todos) e Higeia (A Saúde; para os mais interessados, no MASP, temos uma belíssima escultura desta deusa, de IV aC, período helenístico), e dois filhos, Podalírio e Macaon, ambos afamados cirurgiões. 

RUÍNAS   -   EPIDAURO
A imagem de Asclépio ficava fechada em Epidauro num edifício chamado Tholos, encerrado num grande labirinto, em meio a luxuriante vegetação. Junto da imagem de Asclépio estava a Serpente, réptil que para os antigos gregos tinha o dom da adivinhação, enrolada num bastão, atributo do deus. As técnicas de cura em Epidauro baseavam-se na chamada nooterapia, a cura pela mente, que levava à metanoia, à transformação dos sentidos. A nooterapia reformava a mente das pessoas, o que ensejava também mudanças no corpo físico. O objetivo era o da purificação do ser humano como um todo. 

Fazia também parte do processo de cura a chamada enkoimesis (deita e dorme); os doentes eram levados, induzidos ao sono para que, ao sonhar, as suas doenças, incubadas, viessem à luz, à consciência, através de sonhos, interpretados então pelos sacerdotes-médicos, sonhos nos quais estavam os sinais que poderiam trazer a cura. Praticava-se
HIPNOS
assim em Epidauro a oniromancia como técnica terapêutica. O nome desta técnica era derivado do nome Oniro, o Sonho Enganador, um dos filhos de Hipnos, o deus do Sono. O outro irmão chamava-se Hypar, o Sonho Profético. Ambos atuavam nos sonhos. Além destes, como um dos muitos filhos de Hipnos, havia Morfeu (morphe, forma), que podia tomar a forma de seres humanos e mostrar-se a mortais adormecidos durante os sonhos. Morfeu era representado sob uma forma alada e, com grande facilidade, poderia tomar a forma que bem entendesse. Deslocava-se silenciosamente e parecia ter o dom da ubiquidade devido à sua extrema velocidade. 

TEATRO   EPIDAURO
Epidauro era, contudo, mais que um centro médico. Ali havia lazer, cultura e sobretudo vida espiritual. O complexo arquitetônico (do qual restam ainda hoje algumas ruínas e um magnífico teatro, quase que totalmente intacto) compreendia um odeon (para música e poesia), um estádio, um ginásio, um teatro, uma biblioteca, além de refeitórios, piscinas, numerosas obras de arte nos grandes jardins. Havia em Epidauro o que os gregos chamam de metusia, uma convergência entre várias manifestações e técnicas, todas ordenadas segundo uma prática da qual faziam parte cerimônias e ritos que tinham a finalidade de reforçar o sentimento religioso dos que procuravam o santuário. 

Os processos terapêuticos usados em Epidauro incorporavam a
URÓBORO
ideia da serpente sob a forma de uróboro, aquela que engolia a própria cauda, símbolo da manifestação e da reabsorção cíclicas. Ou seja, a serpente como símbolo da perpétua transformação da morte em vida na dialética material. É por esta razão que a serpente, nesta forma, é em antigas tradições mediterrâneas, orientais, africanas e americanas considerada como a mãe do Zodíaco, a imago mundi

Uma outra versão grega sobre a origem desta constelação aparece ligada à infância de Hércules, o grande herói nascido dos amores de Zeus e da princesa Alcmena. Hera, a esposa do Senhor do Olimpo, desde que nosso herói nasceu sempre o perseguiu tenazmente. Duas gigantescas serpentes foram enviadas por ela para matar Hércules e seu irmão gêmeo Íficlles, ambos ainda no berço. Nosso herói, tranquilamente levantou-se e agarrando as serpentes as  esmigalhou. Os gregos, para homenagear o filho de Alcmena, colocaram as serpentes nos céus como a constelação de Ophiuchus.



HÉRCULES   ESMAGA  A  SERPENTE  ( PIETRO  BEVENUTI ) 

Os cristãos, desde os primeiros séculos dC, viram nesta constelação
SÃO  PAULO ( REMBRANDT )
o apóstolo São Paulo e a Víbora Maltesa. Orígenes, um dos pais da Igreja Católica, nos informa que Paulo teve dois nomes e que foi chamado indiferentemente de Paulo e de Saulo, este último nome uma homenagem ao primeiro rei dos israelitas, Saul. Depois, assumiu o nome de Paulo, que quer dizer de espírito modesto, pequeno, humilde. Considerava-se Paulo o menor dos apóstolos. Aceitou o apostolado junto aos gentios, curou um paralítico, ressuscitou um rapaz que morrera ao cair de uma janela, realizando outros milagres. 

O nome que os cristãos deram a esta constelação se deve a uma passagem da vida do santo quando ele, em Malta (ilha por ele
PAULO   E   SERPENTE
cristianizada entre 58-60 dC), foi picado na mão por uma serpente. Lançou-a ao fogo, nenhum mal lhe acontecendo. Conta-se que, desde então, todos os descendentes da família que lhe deu abrigo na ilha nada sofrem se atacados por animais venenosos. Mais ainda: quando do nascimento de algum membro da família, o pai costuma colocar uma serpente no berço para se certificar de que a criança é de fato da mesma linhagem familiar.

Os judeus viram na constelação a serpente de bronze que Moisés colocou no alto de um mastro, no deserto, durante uma epidemia de picadas de serpentes. Estes seres rastejantes tinham aparecido como castigo em virtude das insistentes reclamações do povo contra Deus. Aqueles que haviam falado mal de Deus, dos seus atos, eram intrigantes. Desde então a serpente, como a do Paraíso, que tentou Eva, passou a simbolizar aqueles que falam por trás, isto é, a intriga. Bastava tão só aos que eram picados olhar a serpente de bronze que Moisés colocara no topo do mastro que a cura era imediata. Essa imagem da serpente tornou-se mais tarde objeto de um culto idólatra entre os judeus, sendo destruída pelo rei Ezequias. Muito piedoso, ele expurgou o judaísmo de vários cultos idólatras e de acréscimos de natureza pagã.

É do mundo cristão que nos vem uma outra leitura desta
SÃO   BENTO
constelação, a de que ela representa São Bento em meio aos espinhos. São Bento é o patriarca dos monges ocidentais, tendo sido proclamado pelo papa Paulo VI como o padroeiro da Europa. Nasceu na Itália (Umbria, Núrsia) no ano de 480. A alusão aos espinhos se deve ao fato de que Bento, enviado a Roma para estudos superiores, abandonou a cidade devido à devassidão que nela encontrou. Fugiu para as regiões selvagens do país, para viver solitariamente “entre os espinhos”. Foi nessa região (Subiaco) que, aos poucos, organizou doze pequenas comunidades, fundando em 529 o mosteiro de Monte Casino.

Esta constelação, desde sempre, foi associada, em várias tradições, a todos os tipos de cura e à química neles empregada, a drogas, remédios, ervas,  plantas medicinais em estado natural (símplices), alcoolaturas (produtos da maceração de substratos vegetais, animais ou minerais em álcool, usados como medicamentos;
HILDEGARDE
tinturas), estas últimas muito produzidas nos mosteiros beneditinos. Uma das figuras mais importantes da ordem beneditina foi Hildegarde von Bingen, séc. XII, a chamada Sibila do Reno, canonizada, autora de importante obra musical e literária (de natureza apocalíptica). São importantes as suas  obras sobre ciências naturais e sobre o corpo humano e suas enfermidades. Inventou uma língua, mistura de alemão e latim, com um alfabeto idiossincrático. Certos traços de sua obra podem ser comparados ao que nos deixaram Dante e William Blake. Foi uma das mais notáveis figuras femininas da baixa Idade Média.

Serpentarius estende-se de 27º de Virgem a 27º de Sagitário. Segundo Ptolomeu, sua influência tem características de Saturno e de Vênus, esta moderada, apontando para tendências passionais, ingenuidade, natureza perdulária, sujeitando a perigos não percebidos, inimizades, calúnia, difamação, envenenamento. Ao lado destas influências que a tradição consagra, temos que acrescentar, ressaltando-as, aquelas relacionadas com todas as formas de cura e tratamento que podem se manifestar, inclusive em áreas que não as especificamente ligadas à medicina. Podemos ter o caso, por exemplo, de pessoas que sensibilizadas por esta constelação e por suas estrelas, através de alguma atividade

regeneradora, profissionalmente ou não, ajam no sentido de levar alguma forma de transformação a outras, por suas obras, escritos, conhecimentos, ações etc. Pessoas que necessitem de algum tipo de tratamento também podem apresentar algum destaque desta constelação e de suas estrelas em seus temas. A estrela alfa de Ophiuchus é Ras Alhague (hoje a 21º 45´ de Sagitário), nome que vem de Ras al Hawwa, “aquela que está situada na cabeça da serpente”. Para fins de estudo, neste particular, ver, por exemplo, os temas astrológicos de Francisco Xavier e de Vincent Van Gogh. 






PEGASUS – Esta constelação, na sua mais antiga expressão, nos remete ao final do período histórico chamado Mesolítico, quando a humanidade começou a abandonar a vida nômade (Paleolítico) e passou a se fixar na terra, dando início ao Neolítico. Este período marca a última divisão da Idade da Pedra, sendo caracterizado pelo desenvolvimento da agricultura e da dominação de animais, em especial o cavalo, posto a serviço desta última. Este período se estende mais ou menos de 8.000 a 3.000 AC, nele sendo desenvolvido o uso de artefatos de pedra polida, trabalhada, além dos confeccionados em bronze. 

Desde então, o cavalo adquiriu uma carga simbólica múltipla e variada em todas as culturas e civilizações do mundo antigo. Associado à vida e à morte, inseparável do homem, o cavalo nunca foi considerado um animal como os outros. É montaria, veículo, ligando-se o seu destino ao do cavaleiro. A valorização negativa do símbolo faz do cavalo um animal das profundezas infernais. É nesta figuração que cavaleiro e cavalo mudam de papel, tornando-se o homem um possuído, um cavalgado. Os ritos dionisíacos caminham na mesma direção. Dizia-se que os iniciados, nas cerimônias eleusinas, eram cavalgados pelo deus. Não é por outra razão que as figuras hipomorfas, no mito grego, sempre aparecem associadas a ele. Na China, os  neófitos, nas antigas tradições chinesas, eram chamados de “jovens cavalos”, quando de sua iniciação. A Idade Média fará do cavalo a montaria privilegiada na busca espiritual.


POSEIDON   HIPPIOS

No mito grego, a divindade geradora de cavalos é Poseidon sob o nome de Hippios. Deus do elemento líquido, Poseidon tem como atributo o tridente, análogo ao raio de Zeus, que está na origem da agitação das águas universais e presente como símbolo da dissolução cósmica.  O valor simbólico do cavalo era, na origem, funerário, uma vez que aparecia muito associado ao reino dos mortos, sendo a ele sacrificado. Exercia então a função de condutor da alma dos mortos (psicopompo), de guia, como se constata inclusive na Grécia (Micenas), onde cavalos era sacrificados aos heróis que morriam para que  chegassem da melhor maneira, ajudados por eles, ao Outro Lado. Em muitas tradições asiáticas (xamanismo), os tambores rituais eram revestidos da pele do animal, indo o feiticeiro, ao som do tam-tam, visitar o mundo dos mortos em transe montado no seu bastão hipomorfo. É nessa direção que a psicanálise transformará o cavalo num símbolo do psiquismo inconsciente, da psique não-humana.

Filho de Poseidon e da Medusa, uma das Górgonas, a história de Pégaso, o cavalo alado, se liga a Perseu, quando este herói, a
PERSEU   E   PÉGASO
PAUL  JOSEPH  BLANC
mando do tirano Polidectes, ao cortar a cabeça da Medusa, teve uma grande surpresa: do pescoço ensanguentado do monstro nasceram o gigante Crisaor e um cavalo alado. O nome Pégaso tem relação com a água, mais exatamente com palavra grega fonte (pégé). Por determinação de Poseidon,  ao herói Belerofonte foi permitido usar  Pégaso como montaria para a realização de dois grandes feitos: matar a Quimera e derrotar as Amazonas. Quem deu a este herói condições de domar o filho alado de Poseidon foi Palas Athena, que lhe forneceu um freio especial para tanto. Belerofonte, como sabemos, tomado de imensa hybris depois das duas gloriosas façanhas, tentou assaltar o Olimpo, sendo fulminado por Zeus. Pégaso foi para junto dos deuses, sendo por eles transformado em constelação.

Por odem de Poseidon, Pégaso deu uma patada no monte Helicon, muito envaidecido por ter sediado um famoso concurso poético. O certame em questão teve como adversárias as Piérides e as Musas. As primeiras eram nove irmãs, hábeis cantoras, que um dia
PEGA
resolveram escalar o monte Helicon para desafiar as filhas de Mnemósina, a deusa da memória.  Vencidas, foram transformadas em pássaros, em pegas. Este pássaro tem a fama de ser muito barulhento, “falastrão”, e ladrão. Em algumas cerimônias dionisíacas, pegas eram sacrificadas ao deus, para que, com a ajuda do vinho, a língua dos participantes fosse destravada e segredos revelados. As pegas, no folclore ocidental, aparecem com um símbolo nefasto, já que representam a inveja, a presunção e a tagarelice.


FONTE  HIPOCRENE ( BOLONHA )
Ferido pela patada de Pégaso, de uma das vertentes do monte Helicon começou a jorrar água. Esse local foi logo conhecido como a fonte de Hipocrene, a “fonte do cavalo”, literalmente, lembrando fecundidade e elevação. Pégaso aliava assim a vitalidade e a força do corcel à independência do pássaro com relação às pressões terrestres. É em virtude da união dessas duas características que se estabelece a relação entre Pégaso e as artes em geral, especialmente a arte poética, que liberta das contingências terrestres.

O cavalo, sabe-se, tem a ver com a impetuosidade dos desejos. Ao criar a figura monstruosa do centauro, a mitologia grega nos fala através desse monstro da identificação do homem com a sua vida instintiva, animal. O cavalo alado, ao contrário, é símbolo da imaginação criadora, de qualidades sublimes, capazes de elevar o homem a planos superiores de existência. Só os heróis podem, contudo, montar Pégaso. 

Participando do segredo das águas fertilizantes, o cavalo conhece a sua origem subterrânea, do mundo subconsciente. Esta tradição faz do cavalo, da Europa à Ásia, o animal criador das fontes, que ele faz brotar pelo choque de suas patas. Esta mesma história aparece, por exemplo nas fontes Bayard, no Maciço Central francês. A fonte de Hipocrene, na Grécia, estava localizada perto do bosque das Musas, que por perto se reuniam para cantar e dançar. Ao mesmo tempo que participa da vida subconsciente, Pégaso é o animal que deixa de ser ctônico para se elevar nos céus em direção da luz. Torna-se assim uraniano e solar, representando o instinto controlado, sublimado, transformando-se na mais nobre conquista do homem.  


A constelação de Pégaso se estende de 27º de Aquário a 10º de Áries. Ptolomeu viu nela influências de Marte e Mercúrio que podem proporcionar vaidade, ambição, entusiasmo, caprichos e más avaliações. Pela associação desta constelação ao número quatro, esta constelação também sugere influências que, através do conhecimento superior, oferecem uma saída para a prisão (as quatro direções do universo) em que está encerrado o ser humano. A ligação de Pégaso ao número quatro se deve ao fato de suas principais estrelas formarem nos céus um quadrado (Markab, Scheat e Algenib) se a elas se juntar a estrela Alpheratz, da constelação de Andrômeda. Alpheratz, segundo tradições muito antigas, pré-históricas, teria pertencido a Pégaso. 

O quadrado, como sabemos, é um símbolo geométrico fundamental para o ser humano, ao lado do círculo, do centro e da cruz. É um símbolo ligado ao elemento terra, à terra criada, e, como tal, se opõe ao céu, eterno, não criado. É a antítese do transcendente. É o tetragon dos gregos É o quadrado que permite ao homem se orientar no espaço e que delimita o domínio da vida através da quádrupla orientação. O quadrado, além do mais, permite o estabelecimento de um sistema de coordenadas, impondo uma estrutura ao caos. O quatro é o número do homem, do microcosmo. Pégaso, neste sentido, é uma proposta viva que permite a superação da vida instintiva, unindo num todo só o cavaleiro (racional) e as asas, a vida espiritual.  As asas aparecem sempre como símbolo da desmaterialização, da libertação da alma ou do espírito, da passagem ao corpo sutil. É um símbolo de dinamismo que implica ideias de sublimação. As águas da fonte de Hipocrene dão ao poeta a força criativa, a inspiração, o equivalente das asas.

As principais estrelas de Pégaso são: Markab, a mais brilhante, a 22º47´de Peixes, de 2ª magnitude; Scheat, a 28º41´ de Peixes, de 2ª magnitude; e Algenib, a 8º 07´ de Áries, de 3ª magnitude.  Markab (A Sela, entre os árabes) costuma favorecer atitude firme nas propostas de sublimação, ideias de controle nas subidas de
CARL   JUNG
tendência espiritualizante ou não, presente às vezes algum perigo. Já Scheat oferece grande impulso mental criador, mente estruturada, pensamento lógico, tendo muito a ver com o “quadrado” de Pégaso. Suas influências têm a natureza de Saturno e Mercúrio. Esta estrela costuma também aparecer associada a acidentes (Belerofonte) ligados à água. Carl Gustav Jung tinha o planeta Vênus culminando enquanto Scheat se punha.