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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

SAGITTA, SERPENS, TRIANGULUM



  

SAGITTA é uma constelação que admite várias versões sobre a sua origem. Situada entre Cygnus e Aquila, os gregos a escolheram para representar as flechas que Hércules usou para exterminar as aves do lago Estinfalo, quando da realização do seu nono trabalho. Numa escura floresta, às margens deste lago, na Arcádia, viviam milhares de aves gigantescas, que tudo devoravam. Eram antropófagas,  metálicas, tendo bicos e pés de bronze. Proliferavam de modo descontrolado, transformando a região do lago num lugar imundo, cheio de dejetos, tornando impossível a vida vegetal e animal. Abrigavam-se na floresta vizinha do lago. 



HÉRCULES   E   AS   AVES   DO   LAGO   ESTINFALO
( TAPEÇARIA  DO  SÉCULO  XVI ) 

Para que Hércules desse conta deste trabalho, Palas Athena pediu a Hefesto que fabricasse para o nosso herói uma espécie de castanhola de bronze que produzia um ruído ensurdecedor. Agitado o instrumento, as aves iam levantando voo, do que se aproveitava Hércules para matá-las com certeiras flechas, envenenadas com o sangue da Hidra de Lerna. Hércules usou, neste trabalho, pela primeira vez de modo eficiente o arco e a flecha que recebera de Apolo quando se dispôs a cumprir os doze trabalhos que Euristeu, rei de Argos, lhe havia determinado, para que fosse cumprida a sentença do oráculo de Delfos. 



LAGO   ESTINFALO  ( GUSTAVE  MOREAU , 1872 )  

Coberto pela sujeira que as aves criavam, o lago transformara-se num pântano, num lugar de águas estagnadas, cheio de podridão, sem nenhuma vida. A quantidade das aves era tamanha, a esvoaçar sempre à sua volta, que chegavam mesmo a impedir que a luz do Sol atingisse as águas e a sua vegetação circundante. Com suas flechas, Hércules matou as aves, trazendo de novo a vida ao lugar. 

PROMETEU
( G. MOREAU )
Outra versão sobre a origem de Sagitta é a de que ela simboliza a flecha com que Hércules matou o pavoroso abutre,  monstro que devorava diariamente o fígado de Prometeu. Um dentre os quatro filhos de Jápeto e de Clímene, Prometeu, com os seus três irmãos, Epimeteu (gêmeo), Atlas e Menécio, pertencia à raça dos titãs. Era, assim, primo de Zeus. Casado com Clímene, foi pai de Deucalião, Lico e Quimareu, ligando-se o primeiro à história do dilúvio que o Senhor do Olimpo fez desabar sobre a Terra para punir os humanos.


PROMETEU  E  O  FOGO
Tentando intermediar uma reunião entre Zeus e os humanos, a quem o primeiro queria exterminar, Prometeu agiu incorretamente, enchendo o coração de Zeus de cólera, como diz o texto poético em que se narra a história. O castigo veio logo. O Senhor do Olimpo resolveu privar a humanidade do fogo, simbolicamente da inteligência (nous), imbecilizando-a. Retirado o precioso elemento, os homens voltariam a ser animais, tendo que viver de novo amedrontados no fundo das grutas ou empoleirados no alto das árvores.

Prometeu procurou remediar a situação. Foi aos céus e roubou uma centelha do fogo celeste, administrado por Hélio, deus solar. Ocultou-a na haste oca de uma figueira e com ela, vindo para a Terra, entregou-a aos homens,  “reanimando-os”. A punição divina veio logo, contra Prometeu e os seus protegidos. Zeus imaginou uma grande e complicada trama para fazer com que os humanos se perdessem para sempre por meio de uma mulher, a irresistível Pandora. Com relação a Prometeu, foi ele aprisionado pelo deus Hefesto nas montanhas do Cáucaso, tarefa cumprida com o auxílio da equipe de segurança do próprio Zeus, formada por dois monstruosos assessores, Crato (O Poder) e Bia (A Força), que sempre o acompanhavam. Agrilhoado nas montanhas, Prometeu tinha o seu fígado diariamente devorado pelo famigerado Abutre, filho dos maiores monstros da mitologia grega, Tifon e Équidna. Para maior desespero do titã, o fígado se recompunha à noite, quando o Abutre se afastava. Na manhã seguinte, tudo recomeçava. Zeus jurara, pelas águas do rio Estige, segundo a sociedade olímpica testemunhara, que jamais libertaria seu primo daquele castigo. 


JARDIM   DAS   HESPÉRIDES
Ao voltar do oriente, quando andava à procura do Jardim das Hespérides, onde estavam os pomos de ouro (seu terceiro trabalho), Hércules ouviu os gritos do titã. Aproximou-se e, horrorizado com cena, matou o Abutre a flechadas, libertando Prometeu. Dotado de dons divinatórios, Prometeu revelou a Hércules como, através do gigante Atlas, poderia apossar-se dos pomos de ouro. Do mesmo modo, preveniu Deucalião sobre as intenções de Zeus, que desejava aniquilar a humanidade, revelando a este de que modo ele e Pirra poderiam escapar. Os gregos, em homenagem a Hércules e a Prometeu, colocaram nos céus a flecha com que Hércules libertou o titã, dando-lhe o nome de Sagitta.


EROS  ( RAFFAELLO   SANZIO - 1483 - 1520 )

Uma terceira versão nos informa que Sagitta tem a ver com as flechas que Eros,  o mais belos dos imortais segundo Hesíodo, disparava para promover a união dos deuses e dos seres humanos. Eros é a divindade que transtorna o juízo dos deuses e dos mortais, ao fazer com que se unam, independentemente da sua vontade. O mito de Eros foi se fixando ao longo dos séculos principalmente através da poesia. Passou ele a ser representado  como um adolescente mal saído da infância, aloirado, com asas. Sob essa máscara, inocente e travesso, jamais chegou Eros à idade da razão, esta sempre incompatível com o amor. Para muitos, é o mais perigoso dos deuses, sempre pronto a ferir os incautos com as suas certeiras flechas, envenenadas de paixão.

Irresponsável e inconsequente, Eros diverte-se com os deuses e com as pessoas que fere. Sua panóplia é normalmente composta de
EROS  ( PICCADILLY  CIRCUS , LONDRES )
tochas, da lira, da aljava, do arco, de flechas com pontas de ouro e de chumbo e de uma venda que usa para cobrir os olhos (o amor é cego) ao dispará-las. Carrega nas mãos um globo terrestre, emblema do seu poder universal. Eros é, como tal, pulsão fundamental do ser, força que mantém a  coesão interna do universo ao promover o complexio oppositorum, a união dos opostos. Neste sentido, se opõe a Thanatos, deus da morte, a força que desintegra.

Eros era companheiro de Hipnos (o merecido descanso depois das
POTHOS
lides amorosas), deus do sono, embora muitas vezes entrassem em conflito, não permitindo Eros que este atuasse, pois abrasados de paixão os parceiros por ele envolvidos não dormem.  Às vezes, Pothos, o deus da saudade, também lhe facilitava o trabalho, ao não permitir que Hipnos, o deus do sono, atuasse, pois saudosos também não dormimos. Quando vem com a lira nas mãos, Eros transtorna os corações e a inteligência. Simbolicamente, os gregos colocaram nos céus como Sagitta as flechas envenenadas que a atrevida divindade dispara.

Uma quarta versão, defendida por Eratosthenes, nos informa que Sagitta foi parar nos céus como lembrança de um feito de Apolo relacionado com a morte de seu filho Asclépio. Antigo discípulo do
ERATOSTHENES
centauro Kiron, Asclépio, como deus-médico, progrediu tanto na arte médica que chegava a ressuscitar os mortos. Plutão queixou-se a Zeus, alegando que a persistir Asclépio nessa prática ninguém, isto é, alma alguma, baixaria mais ao seu reino, o Hades. Zeus atendeu o irmão e fulminou Asclépio com a sua mais poderosa arma, o raio. Irritadíssimo, em represália, Apolo liquidou a flechadas os  gigantescos Cíclopes, que haviam fornecido a Zeus as armas com as quais ele se assenhoreara do universo, destruindo os seus adversários. 


A flecha é arma que fere de longe, sendo expressão, segundo a Psicanálise, de um “sadismo fálico”. Presente em todas as culturas, a flecha tanto se associa aos raios do Sol como à caça e, portanto,
KAMA
à morte. Para as flechas, não passamos de alvos. Elas nos colocam numa situação passiva. Os hindus veem na constelação de Sagitta tanto as flechas do deus Rudra como as do deus Kama. O primeiro era uma divindade ligada às tempestades, enviando flechas que traziam doenças; sob seu aspecto benevolente, com o nome de Shankara, envia doces raios. Kama, como sabemos, é o equivalente hindu do Eros, deus do prazer. Os egípcios tinham uma deusa representada com um cabeça de leoa, Sekmet, associada aos tórridos ventos do deserto, que enviava flechas que atravessam os corações.     


SÃO SEBASTIÃO
( BOTTICELLI )


No Cristianismo, dentre os santos que têm relação com flechas, encontramos são Sebastião, o mais ligado ao tema. Sabemos que ele foi transpassado por inúmeras flechas disparadas por seu antigos companheiros das legiões romanas quando descobriram que ele se convertera. A história nos conta que os arqueiros o deram como morto, mas seus ferimentos foram curados pela viúva de outro mártir, são Castulo. Sabedor do fato, o imperador Diocleciano ordenou que Sebastião fosse surrado até morrer. O emblema de são Sebastião é a flecha. 


Os astrólogos cristãos da Idade Média, todavia, não viram flechas em Sagitta, mas, sim, cravos, que lembravam para eles a crucificação de Cristo. Conforme a imagística cristã, foram usados três cravos na crucificação, um para os pés cruzados e um para cada uma das mãos (pulsos). Estes cravos, desde o fim da
ARMA   CHRISTI
baixa Idade Média, passaram a fazer parte daquilo que no período barroco tomou o nome de Arma Christi, o conjunto de objetos ligados ao sofrimento de Cristo e à sua morte na cruz. Estes instrumentos eram considerados poderosas armas para combater o pecado e extirpar da alma humana todas as raízes do mal pela sua simples contemplação. Além dos cravos, faziam parte das Arma Christi a própria cruz, o martelo, a tenaz, o chicote, a lança, um bastão guarnecido de uma esponja na sua extremidade, a coroa de espinhos e uma mão, que esbofeteara Jesus no curso de sua paixão. As Arma Christi, no século XVIII, eram presas como berloques a rosários com a finalidade de lembrar o caminho de Cristo em direção da cruz.


CRAVO
A flor do craveiro, o cravo, é um símbolo botânico das peças metálicas, grandes pregos com cabeça quadrangular, usadas na crucificação de Cristo. O nome, devido à forma que tem, se estendeu ao botão da flor do craveiro-da-Índia, seco ao Sol, mundialmente usado como condimento e do qual se extrai um óleo riquíssimo, muito usado em farmácia, perfumaria e odontologia. 




A constelação Sagitta estende-se de 17º de Capricórnio a 9º de Aquário, não se mencionando em particular nenhuma estrela que a compõe. Ptolomeu viu nela influências saturninas e venusianas, estas bem mais moderadas. A tradição astrológica praticamente a desconsidera.





SERPENS deve seu nome à mitologia grega, a única tradição que parece tê-la estudado. Esta constelação é registrada por Ptolomeu, que lhe dá o nome de “A Serpente do Portador da Serpente”, uma clara referência a Hércules e ao episódio da sua vida, na infância, quando segurou e esmigalhou as serpentes que Hera havia enviado para matá-lo. Serpens tem nos céus uma configuração linear, ereta, da metade para cima, como se alguém a estivesse agarrando e impedindo os seus naturais movimentos. 





Outra tradição, porém, entende que Serpens tem a ver com Glauco, filho de Minos e de Pasífae, reis de Creta. Ainda menino, Glauco,
CURETES
ao perseguir um rato, caiu num tonel de mel e se afogou. Minos procurou desesperadamente alguém que pudesse trazer de novo o menino à vida. Em Creta, vivia uma tribo de demônios guerreiros, os Curetes, que haviam protegido Zeus recém-nascido e que, possuindo poderes mágicos, tinham o dom da adivinhação. Eles revelaram a Minos que havia dentre todos os sábios e magos da ilha um que teria esse poder. Minos reuniu todos os indicados pelos Curetes, não só de Creta como de toda a Grécia. Disseram também os Curetes que o homem que ressuscitaria Glauco deveria saber explicar porque  uma vaca do rebanho real mudava de cor três vezes ao dia. De branca passava a vermelha e de vermelha a preta, recomeçando o ciclo no dia seguinte. 

Reunida a assembleia de sábios e magos, feita a pergunta, e depois de muitos tentarem explicar a questão lançada, quando as esperanças estavam quase perdidas, apresentou-se Poliídio (em grego, o que tem muitas características, formas). Por parte do pai, Cérano, Poliídio, nascido em Corinto, descendia de Melampo (o de pés negros), um dos maiores adivinhos (mantis) da Grécia, famoso porque era capaz de interpretar os sons produzidos pelas aves e
AMORAS
pelos animais. Além do mais, Poliídio era profundo conhecedor de ervas mágicas e medicinais e, como médico, purificava os doentes e lhes restituía a saúde. Poliídio tomou a palavra e disse que a vaca em questão era como a amoreira, cujo fruto de branco passa a vermelho e, quando maduro, fica preto. 

Minos, muito contente com a explicação, pediu-lhe então que ressuscitasse o filho. Poliídio fechou-se com o menino numa sala do palácio quando viu uma serpente se aproximar do corpo inerte do menino. Incontinente, matou-a. Logo, porém, uma outra serpente se aproximou daquela que Poliídio matara. Vendo-a, retirou-se prontamente, mas logo retornou com uma erva presa na boca. Esfregando-a com a boca, de onde saía uma secreção parecida saliva, na serpente morta, logo a viu se reanimar, retornando à vida. Poliídio apossou-se da erva mágica e esfregando-a no corpo do menino o ressuscitou. Minos ordenou a Poliídio que ensinasse ao filho a arte de ressuscitar os mortos antes de voltar à Grécia. Poliídio, sob a pressão real, assim o fez, mas no momento em que estava para embarcar de volta ao seu país, chamou o jovem discípulo e, cuspindo-lhe na boca, retirou o poder mágico que lhe havia transmitido.  

A amora, como sabemos, em muitas tradições é um fruto ligado à imortalidade. No oriente, tem relação com o equinócio da
OLIVEIRA
primavera. Por isso, nos palácios, ao lado dos portões que se abrem na direção do leste (oriente), plantam-se oliveiras para simbolizar o ciclo vital como um eterno retorno. Ovídio, o grande poeta latino, nos conta que os frutos da amoreira eram primitivamente brancos, mas se tornaram vermelhos e depois negros quando dois amantes famosos, Píramo e Thisbe, que se encontravam sempre à sombra de amoreiras, no auge da paixão, se suicidaram.



THISBE   E   PÍRAMO

Há várias versões sobre a história dos dois amantes. A mais aceitável é a de que eles encontravam forte resistência familiar para proclamar a sua paixão. Encontravam-se às escondidas. Grávida, muito infeliz, cheia de temores, Thisbe se enforcou. Encontrando-a, Píramo, diante do cadáver da amante, se suicidou com um punhal. Tudo isto aconteceu diante de amoreiras, até então brancas, que se tornaram vermelhas à vista de tanto sangue derramado. Compadecidos, os deuses transformaram Thisbe numa fonte e Píramo num rio, misturando-se assim as águas de ambos. 

No mundo cristão europeu (povos de língua inglesa), há uma tradição que faz da amora um fruto maldito, pois Satan, quando expulso do céu pelo arcanjo Miguel, teria caído na Terra sobre uma

amoreira, amaldiçoando-a. Isto teria acontecido num determinado dia, fixado depois em 11 de Outubro. Nesta data é também celebrada uma festa, Old Michaelmas Day. Segundo a lenda, amoras não devem ser colhidas nesse dia, por sua ligação com Satan e, naturalmente, com a serpente, um dos seus maiores símbolos. A referida festa é também conhecida como a Festa dos Santos Miguel, Gabriel, Uriel e Rafael ou Festa dos Arcanjos. 
                                                              
Curiosidade: BlackBerry (amora, baga negra) é o nome de uma empresa canadense que desde a década de 1990 fabrica equipamentos de telecomunicações. Os aparelhos BlackBerry, em Outubro de 2011, em todo o mundo, sofreram uma pane (a maior já registrada, talvez) que, praticamente, interrompeu as comunicações entre os mercados mundiais, afetando demais as transações de todas as Bolsas de Valores. O nome BlackBerry está ligado também a uma síndrome a que, dentre outros nomes, os norte-americanos denominam de BlackBerry Thumb Syndrome, um neologismo criado para designar males físicos (polegar) causados por gestos repetitivos (pressão de botões ou teclas) que podem afetar a mão e o pulso. 

ILUSTRAÇÃO   MEDIEVAL
Serpens estende-se de 13º Escorpião a 15º de Capricórnio, tendo suas estrelas, segundo Ptolomeu, a natureza de Saturno e de Marte. A principal estrela de Serpens é Ununkalhai (Unk al Hayya, o pescoço da serpente), a 21º de Escorpião, também conhecida como Cor Serpentis. De um modo geral, esta estrela dificulta relações, há risco de intrigas, problemas na vida doméstica, saúde física e mental afetadas. 






TRIANGULUM é uma das poucas constelações cujo desenho
PHAENOMENA
reproduz um objeto inanimado. A mais antiga referência a ela, entre os gregos, parece ser de Aratos, em sua obra Phaenomena (As Coisas que Aparecem). Poeta do período helenístico da história grega, tendo vivido em Pella, capital da Macedônia, Aratos se interessou por temas astronômicos e médicos. Ele registrou essa pequena constelação, ao sul de Andrômeda, às margens da Via Láctea, sob o nome pelo qual era então conhecida, Deltoton, tendo por base a letra 
d, delta dos gregos. 

Inicialmente representada a constelação por uma forma triangular equilátera, tomou ela depois a forma escalena. Para Hiparco e Ptolomeu, a denominação foi a de Trigonon. Os romanos deram-lhe o nome de Deltorum. Os astrólogos judeus chamaram-na Shalish, a partir da forma de um antigo instrumento musical com três cordas, de forma triangular, mencionado no Livro de Samuel. No século XVII, entretanto, alguns astrônomos, associando-a ao Egito, à foz rio Nilo, passaram a chamá-la de Nili Domum. 


SICÍLIA
No século XVIII, por sua forma triangular, semelhante à da ilha da Sicília, esta constelação recebeu também o nome grego de Trinakria (três pontas). Conforme está na Odisseia, a Trinakria era do deus Hélios, cujos rebanhos eram lá apascentados por suas filhas. Com a perda de status de Hélio, divindade não olímpica, a ilha foi dada por Zeus a Deméter, Ceres para os romanos. 

GIUSEPPE   PIAZZI
Foi na Sicília, no século XVIII, que o grande astrônomo Giuseppe Piazzi, apoiado pelo rei Ferdinando de Nápoles, da dinastia dos Bourbon, no observatório de Palermo, por ele construído, descobriu, no primeiro dia do ano do novo século (1º de janeiro de 1.801) o asteroide ao qual se deu o nome de Ceres Ferdinandea
OBSERVATÓRIO  DE  PALERMO
(este último nome, por pressão da comunidade científica europeia, foi retirado, chamando-se simplesmente, desde então, o maior asteroide até hoje descoberto de Ceres). Astrologicamente,  Ceres, como se sabe, juntamente com Vesta, o segundo maior asteroide do céu, descoberto em 1807, são corregentes do signo de Virgem.   

TRIANGULUM
A principal estrela de Triangulum tem o nome de Caput Trianguli, cuja magnitude, inferior à da estrela beta, é de 3.6, não tendo ela nenhuma importância astrológica. Essa estrela foi chamada pelos árabes pelo nome de Ras al Muthallath O renome de que gozou esta constelação se deve sobretudo a poetas, arquitetos, matemáticos, geômetras e construtores pela semelhança que sua forma apresenta com a foz do rio Nilo e com a ilha da Sicília.  











domingo, 8 de novembro de 2015

A TRAGÉDIA GREGA

         

O   TRIUNFO   DE   BACO   ( CORNELIS   DE   VOS )

As festas do vinho em homenagem ao deus Dioniso, na Ática, estão nas origens da tragédia. Dioniso, como Baco, em meio a cantos e danças, vinha com o seu cortejo barulhento de sátiros, silenos e mênades. Nessas festas representava-se o drama do menino-deus Zagreu, que fora devorado na forma de um bode, para tentar escapar da fúria dos titãs. Entoava-se então o canto do bode (oidé, canto+tragos, bode). Essa história, a do sacrifício de um bode, símbolo da força vital, encontrada em várias tradições, é praticamente universal; ela serviu de base para que o ser humano projetasse a sua culpa sobre um outro e acalmasse a sua consciência, que sempre tem necessidade de um responsável, de um castigo e de um culpado. É o tema do bode expiatório.

Historicamente, por ocasião da vindima, celebrava-se nos campos a cada ano, na região de Atenas e em toda a Ática, a festa do vinho novo, em que os participantes bebiam muito, sempre cantando e dançando. Dessas festas, em homenagem ao deus, faziam parte certas representações dramáticas que acabaram por dar origem ao ditirambo, ao drama satírico, à tragédia e à comédia.


DITIRAMBO

A religião oficial da polis grega (Atenas) era aristocrática. Os deuses olímpicos atuavam para reprimir a hybris dos que tentassem ir além do seu métron. A meta da religião olímpica era a obtenção do conhecimento contemplativo (gnosis), a purificação da vontade para que o divino fosse recebido (khatarsis) e obtida a consequente libertação do ser para uma vida de imortalidade (athanasia). As principais divindades do mundo olímpico, inspirador da ordem aristocrática, eram Zeus, Apolo e Palas Athena.

Do outro lado, opostas, tínhamos as correntes religiosas voltadas para os mitos naturalistas, para os cultos agrários, do tempo cíclico, divindades da vegetação e da vida animal, que morriam e ressuscitavam. Dioniso era a principal delas. Ele era o deus da libertação, da orgia, do êxtase e do entusiasmo, que tinha na videira o seu maior símbolo. Seu culto logo se tornou popular, sendo considerado como o deus dos deserdados, dos que não tinham vez na polis aristocrática, as mulheres, os metecos, as crianças e os escravos. Ele fazia parte de um grupo de divindades que lembrava a morte, a catábase, a viagem infernal, e o renascimento. 

APOLO
O choque entre as duas concepções era violento. A aristocracia se sentiu ameaçada, com as suas divindades olímpicas. Apolo era a harmonia, a luz, o controle das pulsões. Dioniso era o contrário, propunha a libertação das interdições, era a transgressão, a supressão dos condicionamentos, a transformação, a grande divindade das metamorfoses. O ekstasis dionisíaco era uma espécie de superação da condição humana. O simples mortal tornava-se um aner, uma espécie de herói, ultrapassava os limites do seu metron, tornava-se um outro. Um exemplo disso eram as mênades, sacerdotisas do deus, as bacantes, as “possessas”, também chamadas de “furiosas” ou “impetuosas”, que chegavam ao delírio possuídas por Dioniso. 

Tudo isto era para a religião olímpica a hybris, uma desmedida, uma violência, uma ousadia, que provocava inevitavelmente uma reação divina, o ciúme divino, a nêmesis. O homem comum, como um herói, ultrapassado o metron preconizado pelos cultos apolíneos, tornava-se um êmulo dos deuses, rompia com a tutela olímpica e naturalmente com os controles sociais por ela impostos. A punição era imediata. Os deuses lançavam contra ele a anoia, a loucura, personificada muitas vezes pela deusa Até, o erro; tudo o que ele fizesse então nesse estado seria realizado contra si mesmo. A Ananke (conceito religioso-filosófico que lembra reposição de limites) intervinha através de várias divindades femininas, como as Moiras e sobretudo como as Erínias (Fúrias), deusas do remorso, da consciência culpada.


ERÍNIAS

O quadro do elemento trágico se configura: o anthropos, que, através da orgia, do êxtase e do entusiasmo, ia além do seu metron, renascia para uma nova vida, o que sempre era perigoso para o poder da polis. No sentido contrário, conceitos e divindades que obrigavam o ousado herói a voltar, com muito sofrimento, inclusive a morte, aos limites que a ordem olímpica fixava, dos quais ele nunca deveria ter saído. Nêmesis (a que curvava os orgulhosos), Até (Erro), Anoia (Irracionalidade), as Erínias (Fúrias), as Moiras (Fiandeiras) entravam então em ação, para punir o ousado, o herói trágico.


MOIRAS   ( JOHN   STRUDWICK  -  1885 )

O Estado logo percebeu as relações entre a religião e o trágico, apoderando-se deste elemento, patrocinando-o, tornando-o um apêndice da religião oficial. Aristóteles (384-322 AC) será o grande teórico do trágico. Para ele, a tragédia é imitação (mimesis), com linguagem própria, de uma ação por meio de atores. Graças ao temor e à piedade, ela produz a purificação das emoções, mimesis e khatarsis, pois. No epílogo, ela produz compaixão e temor. Evidencia-se, segundo o ponto de vista da religião oficial e da polis, o erro (hamartia) do herói ou o seu equívoco. A desgraça que o atinge poderia atingir também qualquer um que ousasse. A tragédia se fixa aos poucos como uma forma teatral que se caracteriza pela representação de acontecimentos tristes, deploráveis, violentos. Seu alcance social tornou-se enorme. Seus personagens vinham, socialmente, de posições elevadas, muitos membros da realeza, da elite do poder. Por sua ousadia, por sua falta de consciência, por sua insensibilidade para com o divino, acabavam colhendo sempre em suas vidas alguma forma se sofrimento, de desgraça. O trágico era então o elemento que os obrigava a assumir mais lucidamente a condição humana.

Dentre os autores trágicos gregos, destacamos três, Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, considerados os pais da tragédia grega, aparecendo cada um deles em três períodos distintos da história de Atenas, o da sua afirmação como a principal polis grega, o do seu esplendor (século de Péricles) e o de sua decadência, já perto invasão macedônica. 


ÉSQUILO
Ésquilo (Elêusis, 525-Sicília, 456 AC) – Das suas 90 peças, só 7 nos chegaram: As Suplicantes, Os Persas, Os Sete contra Tebas, Prometeu Acorrentado, A Orestíada (Agamemnon, As Coéforas, As Eumênides). É o fundador do teatro grego. Nele, o coletivo sempre supera o individual, a polis e os deuses sempre vencem. A fatalidade infalivelmente esmaga o homem, ao ultrapassar o seu metron. Mais ainda: a falta de um recai sobre todos, que gemem. Famílias inteiras são punidas pela falta de um dos seus membros. Eis a lição: sofrer para compreender. A tragédia-símbolo de Ésquilo é Prometeu Acorrentado. Prometeu é um titã, chamado pelos homens de Filantropíssimo. Do ponto de vista destes, um herói. Do ponto de vista divino, um criminoso, ao entregar ao humanos o segredo do fogo. Descendo dos céus à terra, o fogo se corrompeu, passando a ser usado tão somente para a produção de bens materiais.

Sófocles (Colono, 496-Atenas,406) – Pertence ao período mais brilhante de Atenas. De família rica, foi militar, mantendo relações com Péricles, Fídias, Heródoto e outros importantes nomes da vida ateniense. Muito aberto às ideias novas, acolheu-as. Sua técnica teatral era perfeita. Das 126 peças que escreveu, 72 foram vencedoras de certames teatrais. Só nos chegaram 7 peças dele: Ajax, Antígona, Édipo-rei, Electra, As Traquínias, Filocteto e Édipo em Colono. 

SÓFOCLES
Em Sófocles, o tema central é o da luta do herói contra a fatalidade, suas pressões psicológicas, glória ou perdição. O herói é o autor do seu próprio destino. Sófocles é o teatro “existencial”, que nos fala da “situação humana” e não da “condição humana”. Teatro antropocêntrico, os deuses agem à distância através de oráculos ou adivinhos. A fé está no individual e não no coletivo. Era o logos socrático iluminando o homem. Nele temos a catástrofe, a hybris relacionada com os fatos. Só os atos contam, teatro de krisis, de escolhas e de um ethos. Teve o poeta uma vida sentimental muito complicada. Algumas versões biográficas nos dizem que morreu assassinado por garotos de programa, como Pasolini. Seu apelido, “A Abelha Ática”, por sua enorme capacidade de trabalho. Inovou ao introduzir o terceiro ator, flexibilizando bastante o texto teatral. São dele também os cenários pintados. Elevou o coro de 12 para 50 participantes e definiu as tetralogias. Seus personagens oscilam, indo de extremos de alegria, à angústia, ao arrependimento. Sempre uma confrontação com o sofrimento e a pergunta: como aceitá-lo? Do pathos ao ethos. 

Édipo-rei é a tragédia-símbolo de Sófocles. Édipo é, como sabemos, o herói trágico por excelência e está na base da psicanálise moderna. Para ele, a frase de Freud: O importante não é o que você sabe, mas o que você não sabe.


EURÍPEDES
Eurípedes (Salamina, 484 – Macedônia, 406 AC) – Grandes os seus contrastes com Sófocles. Fechado, controvertido, polêmico, homem de lutas interiores. De origem humilde, teve, contudo, boa educação. Atuou como dançarino e portador da chama nos ritos de Apolo Zóstero. Fez carreira como atleta, indo depois para a pintura e para a filosofia (aluno de Anaxágoras). Dois casamentos desastrosos, três filhos. Famoso, como autor, pelo modo de tratar os personagens femininos. Viveu grande parte de sua vida numa caverna, em Salamina. Ganhou alguns prêmios literários, mas era comum ficar em último lugar nos festivais de Dioniso. Em 408 AC, emigrou para a Macedônia, passando a viver na corte do rei Arquelau. 

Dos três trágicos é o menos bem sucedido, mas, talvez, o mais aclamado nos séculos seguintes. Das 92 peças que escreveu temos 18, das quais 12 com nomes femininos. É dele também a única peça satírica que sobrou da Antiguidade, Os Cíclopes. É o mais trágico dos três; narrava os acontecimentos como  eram    e não como deveriam ser (Sófocles). A vida como ela é..., é frase dele. O nosso Nelson Rodrigues certamente se apropriou do mote. Por tudo isso, Eurípedes é o menos religioso dos trágicos gregos, o mais humano. Aplaudido por Sócrates, tinha simpatia pelos humildes e oprimidos. Descreveu as fraquezas, a covardia, o ciúme, a fúria, os demônios interiores do ser humano, sobretudo. Acreditava no indivíduo e era contra as soluções militares. Defendia a tragédia como praxis, ação, atividade. O homem sempre em conflito: de um lado, a escolha deliberada (proairesis) e de outro as paixões (pathos) que o vitimam.


Para Eurípedes, o cosmos não estava mais no mito, mas, sim, no grande cenário da vida humana. Promoveu a dessacralização do mito, a proletarização da tragédia. A tragédia não estava no Olimpo (Ésquilo) ou em Elêusis (Sófocles), estava, antes, nas ruas de

Atenas, nos seus mercados e becos escuros. O Eros, em Eurípedes, andava solto na força das paixões. Antes de Pascal, afirmou que o coração tem razões que a razão desconhece, como se pode perceber nas suas tragédias, em duas, especialmente, Medeia e de Hipólito. Sem dúvida, Eurípedes é o campeão da amargura ao romper com as tradições e apresentar as ideias novas dos sofistas no seu teatro. Por isso, ninguém tão longe de Platão como ele. É o filósofo da cena (scenicus philosophus). Tirou dos personagens as roupagens suntuosas, diminuiu a importância do coro, em seu teatro apenas um porta-voz do poeta para a intensificação da ação dramática. 

O teatro de Eurípedes se caracteriza sobretudo por nos mostrar personagens marcados por uma grande pathos, o que se deve acima de tudo á presença que nele tem  o Eros, ausente nos que o antecederam, como pulsão fundamental do ser humano, com toda a sua subjetividade. Eurípedes condenou a confusão mitológica, substituiu a Moira por Tyche (Acaso), a divindade do séc. IV, o período da decadência de Atenas. Uma de suas observações preferidas: Quem sabe se morrer não é viver e viver não é morrer? Para ele, o coração humano era o laboratório trágico por excelência. A mola da tragédia é, dizia, a hamartia, a expressão física da hybris. É, incontestavelmente, o poeta do declínio e da renovação da polis. O trágico, com ele, não vem de fora, está dentro, vem das regiões mal conhecidas do eu interior do ser humano. São dele Medeia, Hipólito, As Bacantes, Alceste, As Troianas, Ifigênia em Táuride, As Suplicantes, etc.


AS   BACANTES

Sua tragédia-símbolo é Medeia, grande personagem mítica, oriunda de uma família real da Cólquida, princesa, sobrinha da maga Circe. O nome, etimologicamente, lembra arquitetar, planejar (o mal). Como tragédia, Medeia é um dos maiores textos já escritos sobre o tema da paixão. Dentre os autores trágicos que vieram depois, só Racine chega perto dele. Ao fixar a imagem de Medeia para a posteridade, Eurípedes revolucionou não só a tragédia grega como o tratamento dado ao tema das heroínas gregas, algo cujo alcance parece nunca ter sensibilizado os estudiosos da psicologia feminina.

Os antigos gregos, no seu mundo aristocrático, apolíneo, como sabemos, faziam uma distinção entre a morte masculina e a morte feminina. A primeira era sempre gloriosa, pública, cheia de discursos, solene, heroica, viril. Já a da mulher era um reflexo do seu papel na sociedade grega. Sempre tutelada pelo pai ou pelo marido, vivia fechada no gineceu. Sua morte era sempre anônima, pois o papel que lhe cabia era o de levar uma “vida exemplar de esposa e mãe ao lado do marido”, este sempre voltado para os seus afazeres de cidadão, fora de casa. Péricles registrou a História e recomendava, como Ajax o fez a Tecmessa, sua companheira, que as mulheres de Atenas observassem sempre o silêncio como virtude máxima.

O que estás acima sobre o silêncio da mulher não deve nos espantar se conhecido o modo pelo qual a sociedade ateniense visualizava as mulheres no período clássico da história grega. Em primeiro lugar, estavam as cortesãs, depois as concubinas e por fim as esposas. Ricas, cultas, recebendo a elite política, intelectual e artística de Atenas em seus salões, as primeiras eram para os prazeres do
PÉRICLES   E   ASPÁSIA
espírito e da carne, estes, é evidente, só para muito poucos, pouquíssimos, como é o caso da relação Aspásia-Péricles. As concubinas eram belas, famosas, peritas nas artes de Afrodite, mas nada de intelecto com elas. Em terceiro lugar, ficavam as esposas, fechadas no recesso dos seus lares, com as crianças, os escravos e os cães. Viviam no gineceu, em torno da lareira (fogão), raramente tendo acesso ao androceu, espaço privilegiado masculino, pouco saindo de casa. Das instituições gregas, no geral, só duas eram acessíveis às mulheres, aristocratas ou não, o casamento e a maternidade. 


Conforme nos informaram Heródoto (séc. V aC) e outros historiadores modernos da cultura grega (o sempre lembrado Jean-Pierre Vernant, Marcel Detienne e Nicole Loraux), só na literatura, na tragédia grega de modo especial, a mulher grega tornou-se dona de sua morte através do suicídio, algo muito diferente daquele modelo de morte que o machismo lhe havia imposto na vida real. As histórias de Dejanira, Eurídice (mulher de Creonte), Jocasta, Leda, Antígona, Fedra são exemplares nesse sentido. Não
FEDRA   E   HIPÓLITO
suportando as pressões a que se sentiram submetidas, optaram pelo suicídio, cada uma delas com a sua razão. Entretanto, mesmo que considerado como um ato de liberdade, seu suicídio, aos olhos do mundo masculino, foi sempre uma “morte feminina”, “impura”, porque desprovida de coragem. Por maior que fosse o desespero (apelpismos), o suicídio era sempre uma fuga, uma morte covarde, sem andreia (coragem), palavra cuja etimologia nos remete ao vocábulo andrós (homem) e à partícula a, indicativa de privação, ou seja, uma virtude só acessível aos homens.

É interessante notar que a palavra suicídio, como a encontramos em francês, espanhol, português e mesmo em inglês, é formada com elementos latinos: sui, de si mesmo, e cidium, morte, do verbo cadere, matar. Eurípedes usava a palavra autocheiros, de auto, eu mesmo, e cheir, mão, para designar aquele que eliminava a sua própria vida ou a dos próprios pais. Os mesmos elementos gregos formaram, em português, palavra autoquiria, completamente esquecida, para designar o suicídio.  


PERSEU   E   ANDRÔMEDA
  
Pois bem: é aqui que entra Medeia, como Eurípedes a fixou para nós. A princesa da Cólquida, embora pressionada e humilhada pelo machismo grego como jamais outra figura feminina da tragédia o fora, ainda que desesperada, ao invés da fuga, do suicídio, partiu para o ataque, invadiu o mundo masculino, matando e destruindo. Segundo uma versão mítica, Medeia foi transportada para a ilha dos Bem-Aventurados, onde se teria unido a Aquiles, o maior dos guerreiros gregos. Nada tão distante de Medeia como as heroínas acima citadas, como Fedra, sua tia, como Antígona ou Jocasta, que, todas, entregando-se ao desespero, optaram pelo suicídio. Com

Medeia, estamos bem longe de heroínas como Evadne, Leda, Alceste ou Andrômeda. A primeira destas quatro citadas, Evadne, era mulher de Capaneu, que aparece na tragédia Os Sete Contra Tebas; ela se suicidou quando viu o corpo do marido sendo incinerado numa pira. Amada por Zeus, Leda era mãe de Helena, Clitemnestra e dos Dioscuros (Castor Polideuces). Conforme Eurípedes nos conta, ela teria se enforcado por causa da má reputação de Helena. As duas últimas sempre foram consideradas pelo machismo grego como modelos, a primeira, como “a melhor das mulheres”, porque aceitou morrer em lugar do marido quando a morte veio buscá-lo. Andômeda é tida como símbolo do amor filial por entregar-se, no lugar dos pais, à morte, como bode expiatório, quando os deuses resolveram destruir o país em que reinavam devido à hybris da rainha Cassiopeia.   


quarta-feira, 22 de julho de 2015

MITOLOGIAS DO CÉU - JÚPITER (5)

                       
Para as pessoas de mentalidade literal, é preciso ressaltar que os antigos gregos nunca consideraram as histórias de sua mitologia como fantasiosas, irreverentes ou estapafúrdias. Os mitos, para os gregos, sempre traduziram sob uma forma poética, metafórica, simbólica ou alegórica, e construídos com absoluta maestria técnica sob o ponto de vista literário, os sentimentos e as emoções que eles experimentaram diante dos grandes mistérios do universo.



TITANOMAQUIA  ( CORNELIS  VAN  HAARLEN )

As várias provas pelas quais os seus heróis passaram ao longo de sua vida nunca deixaram também de ilustrar aquilo que eles chamavam de dokimasia, provas iniciáticas, preparatórias, às quais os seus jovens tinham que se submeter. Uma demonstração de que estavam aptos para enfrentar tarefas mais difíceis, os grandes embates da vida, na proporção humana, como as descritas nos episódios da Titanomaquia e da Gigantomaquia. A dokimasia, a rigor, na sociedade grega, era um exame ao qual deviam se submeter os candidatos a determinadas funções (magistratura e cavalaria) bem como os estrangeiros que pretendessem se naturalizar. Este exame era aplicado sob a supervisão dos chamados thesmotetes (arcontes) diante de uma assembleia ou tribunal. Mesmo Zeus se submeteu a provas semelhantes para assumir a posição de o maior dos deuses. 


ZEUS,  CÉRBERO  E  A  ÁGUIA

As lutas que Zeus travou contra os titãs e contra os gigantes ilustram o inconformismo das forças primordiais, constitutivas do universo, cegas e violentas, que precisam ser constantemente vigiadas e constrangidas a se manter dentro de seus limites. É dentro desse cenário que Zeus é uma espécie de reorganizador e recriador do universo. Se interpretarmos o que significa astrologicamente este papel de Zeus, podemos entender porque Júpiter, numa carta astral, não exerce uma função criadora, mas, sim, uma função disciplinadora, redistribuidora, reorganizadora, ao recolocar, se dignificado, a criação numa ordem superior.

Vencido momentaneamente Tifon e notando que os humanos tornavam-se cada vez mais perversos, Zeus alimentou o forte desejo de destruí-los. Para Zeus, os mortais, oriundos do reino de seu pai, criados, segundo Hesíodo, com o limo da terra por Prometeu, eram seres nascidos para o efêmero, pois sua força vital (aion) era precária; colados à terra, rastejavam, alimentavam-se de coisas putrescíveis, vivendo no cuidado e na preocupação. Os deuses vivem no Olimpo, nas alturas, onde as estações não existem, onde o tempo não muda. Os deuses são athanatoi, aiegennetai, imortais e nascidos para sempre. Além disso, são akedees, isentos de preocupação, e eternamente makares, felizes.

Como benfeitor da humanidade, Prometeu resolveu intervir quando Zeus começou a tramar a destruição dos humanos. Para resolver a questão, organizou-se uma reunião entre deuses e mortais na cidade de Mecone, tendo Prometeu assumido a defesa de suas criaturas. Seu desempenho nessa reunião foi, entretanto, lamentável, pois pretendeu enganar os deuses em benefício dos mortais. Para o banquete programado, dividira-se um boi enorme em duas partes; a primeira continha as carnes e as entranhas, cobertas com o couro do animal; a segunda, apenas ossos, disfarçados com a gordura. Zeus escolheria uma das partes, cabendo a outra aos humanos. Zeus optou pela segunda parte. Sentindo-se humilhado, encheu-se de cólera. A punição foi imediata: privou os humanos do fogo, o que equivalia fazê-los voltar à animalidade. A privação do fogo significava também retirar dos humanos o nous, a inteligência, a capacidade de conhecer os eide, as formas, tornando-os anoetos, imbecis.


PROMETEU   ROUBA   O   FOGO   DOS   CÉUS

Prometeu roubou uma centelha do deus Hélio, o Sol, ocultando-a no galho oco de uma figueira, e a trouxe para a Terra, distribuindo-a entre os mortais. Zeus revidou, e resolveu fazer com que os mortais se perdessem para sempre. Até esse momento andróginos, os mortais foram então separados em macho e fêmea, usando Zeus para modelo desta última uma figura por ele idealizada, Pandora (etimologicamente, presente de todos), de cuja confecção participaram todos os deuses. O fogo trazido dos céus por Prometeu ficou com os mortais, mas, desde então, implantou-se entre eles a divisão. 


PANDORA    ( JOHN   WILLIAM   WATERHOUSE )

Pelo seu crime, sob o ponto de vista divino, Prometeu foi punido. Mandou Zeus acorrentá-lo nas montanhas do Cáucaso, missão cumprida por Hefesto, devidamente assessorado por Crato, o Poder, e Bia, a Força. Durante o dia, o fígado do titã era roído por um monstruoso abutre, filho de Tifon e de Équidna, recompondo-se durante a noite, quando a gigantesca ave se afastava, recomeçando-se tudo a cada aurora. Mais tarde, séculos e séculos depois, Zeus aceitou a libertação do titã, mas o obrigou a carregar para sempre nos tornozelos uma argola confeccionada com o aço da corrente que o agrilhoou, preso a ela um fragmento da rocha no qual ela fora fixada.

Dotado de dons divinatórios, Prometeu (o previdente, etimologicamente) tornou-se para os humanos o símbolo da filantropia. Do século XVIII em diante, principalmente a partir do
PROMETEU - BEETHOVEN
Renascimento e depois no Romantismo, para a poesia (Voltaire, Schelegel, Herder, Byron), para as artes plásticas (Ticiano, Rubens, Böcklin) e para a música (Beethoven, Liszt, Orff), Prometeu passou a simbolizar a revolta do pensador criativo, do técnico, do inovador, contra as forças do destino que o querem esmagar. Do ponto de vista dos deuses, porém, o titã sempre foi considerado um criminoso. Para os humanos, um herói, chamado pelo apelido de o Filantropíssimo. Prometeu é hoje o patrono da civilização moderna que deseja desvendar todos os segredos do universo com base no seu prodigioso poder criador técnico, em cuja origem está o fogo, para o qual nenhum limite pode ser admitido.


Os tempos se passaram. O desgosto de Zeus com relação aos mortais crescia. Os vícios e os crimes dos heróis da Idade do Bronze pareciam ter chegado a limites insuportáveis. O Senhor do Olimpo desencadeou então sobre o mundo um dilúvio, chamado dilúvio de Deucalion por ter ocorrido quando este personagem, filho de Prometeu, casado com sua prima Pirra, filha de Epimeteu e de Pandora, reinava na Tessália. Os homens procuraram fugir da terrível catástrofe, fugindo para lugares elevados. Mas lá também foram alcançados. Seguindo um conselho de Prometeu, Deucalião construiu uma grande embarcação, juntou nela vários animais, aos pares, e esperou que a tormenta passasse. 


DEUCALIÃO   E   PIRRA  

Ancorando a embarcação no alto do Parnaso, diminuindo a altura das águas, Deucalião e Pirra desceram e foram consultar um oráculo de Themis, milagrosamente preservado, para saber como a Terra poderia ser repovoada. O oráculo lhes deu a seguinte resposta: Saiam do templo, cubram o rosto, atem vossas cinturas e lancem para trás os ossos de vossa Mãe. Deucalião meditou por algum tempo. Entendeu que o oráculo, ao se referir à Mãe, estava falando da Mãe Terra e que seus ossos eram as pedras. Pôs-se então a lançar pedras às suas costas e notou com espanto que as lançadas por ele se transformavam em homens e que as lançadas por Pirra se transformavam em mulheres. 

Aparentemente fantasiosa, uma invenção poética, esta passagem se fundamenta entretanto em algo que parece ter sido historicamente bem real. Sabe-se que na Tessália, em remotíssimos tempos, havia um rei chamado Deucalion. Um grande terremoto atingiu a região, interferindo no curso dos  rios. No mesmo período em que ocorreu tal terremoto, a região foi assolada por chuvas torrenciais como nunca se vira antes, ficando tudo inundado. O povo da região procurou se refugiar nas montanhas. Muitos morreram, entretanto. Terminada a tormenta, os sobreviventes repovoaram a região. Tudo teve que ser reconstruído a partir do nada, das pedras. A chave da explicação da sentença do oráculo de Themis estava na palavra grega laos, que tanto designa povo como pedra. Juntando as pedras, tudo com o tempo foi reconstruído pelos homens. Perdeu-se o fato histórico, encarregando-se a tradição oral de lhe dar o viés alegórico, mítico.

O comportamento dos filhos de Deucalião e Pirra, a nova humanidade, também voltou a incomodar o Senhor do Olimpo, que resolveu fazer uma viagem à Terra para verificar pessoalmente as notícias que lhe chegavam. O que constatou foi lamentável, desapontador. Não teve outra alternativa senão a de lhes infligir duros castigos. Para isso, escolheu alguns personagens tidos como ilustres e os puniu exemplarmente, para que os demais, amedrontados, temerosos, segundo pensou, se corrigissem.


LICAON   ( HENDRIK   GOLTZIUS )

Dentre os castigados, merece destaque Licaon, rei da Ardádia. Seu grande crime: jamais prestar reverência a Zeus na sua forma de Xenios, protetor dos estrangeiros, pois matava indiscriminadamente todos aqueles que atravessassem as fronteiras do seu reino. Misturando-se entre o povo da região, um povo ingênuo que se dedicava à agricultura, Zeus, embora disfarçado de camponês, chamou a atenção pelo seu porte. Intrigado, desconfiado, Licaon mandou chamá-lo e o convidou para se hospedar no seu palácio, mas com a intenção de matá-lo, como fazia com todos os estrangeiros, conforme nos conta Ovídio. Antes, porém, Licaon tentou obter confirmação sobre a origem  do personagem (seria um deus disfarçado?) que visitava o país. Serviu-lhe, no jantar, os membros de um de seus escravos. Indignado, Zeus transformou-se numa nuvem de fogo que incendiou o palácio e transformou Licaon em lobo. 


LICANTROPIA   ( LUCAS   CRANACH  DER  ÄLTERE )

Esta história, como muitas outras, está na origem de uma antiquíssima tradição mítica de se sacrificar vítimas humanas a Zeus Lício (Lupino) na Arcádia com o objetivo de se afastar os lobos que então infestavam a região, pondo em perigo os homens e os rebanhos. A licantropia (transformação do homem em lobo), lembre-se, está atestada na antiguidade greco-romana por Heródoto, Strabon, Virgílio e outros. Sua origem sempre apareceu associada à história de Licaon, o cruel rei da Arcádia, e à magia agrícola, para se pôr termo às secas e às catástrofes naturais de toda sorte. Feito o sacrifício, Zeus então enviava as chuvas que fertilizavam os campos.  


ZEUS   ( DESENHO  DE  MAARTEN  VAN  HEEMSKERCK )

Zeus é o deus maior dos olímpicos, o organizador do universo. É dele que dependem todas as leis físicas, sociais e morais. Suas tendências negativas aparecem exatamente devido a essa irrefreável inclinação de incorporar tudo (as suas inúmeras uniões e ligações com deusas e mortais), de abranger tudo, o seu cosmocratismo, a sua natural disposição para monopolizar a autoridade e destruir tudo o que pudesse aparecer como autonomia e independência. São comuns no mito os seus rompantes de autoritarismo e a sua enorme suscetibilidade quando as reverências de que se julga merecedor não são feitas. Comuns por isso as suas explosões de cólera, as suas cenas, as cobranças quanto à vassalagem, tudo, no fundo, certamente a configurar um sentimento de inferioridade e de insegurança, que precisa das compensações do seu cerimonial, do seu culto, dos seus ritos, dos quais não abre mão.

Zeus é o grande modelo do patriarca na cultura ocidental, ainda muito poderoso apesar dos ataques que o arquétipo vem sofrendo. Na história do ser humano, quando pensamos em organizações e sociedades que se constituem para governar um país, para administrar uma empresa, mesmo para formar uma família, onde quer que haja comandante e comandados, a cultura que Zeus representa, a do grande chefe, eternamente presente e onipotente, pode e continua a aparecer arquetipicamente.  
  
É oportuno observar que muitos deuses da mitologia grega representam diferentes maneiras de comandar e de administrar, podendo servir de modelos de tipos humanos quando pensamos em administradores de empresas. Cada deus representa um determinado tipo de poder, de influência, mas nenhum como Zeus, que está acima de todos como cappo dei cappi. 

É na cultura das organizações empresariais modernas que o complexo de Zeus encontra o terreno mais propício para se desenvolver. Afora algumas das desejáveis características pessoais do Administrador-Zeus (empatia; demagogia; priorização de contactos informais, diretos, do tipo olho no olho; visitas constantes às bases etc.) o complexo só se configurará em toda a sua plenitude se  incorporar, fundamentalmente, os elementos que fazem parte da vida e do currículo do Senhor do Olimpo. 

HERMES


É preciso salientar que chefes de organizações públicas ou privadas tomados pelo completo de Zeus não podem prescindir, como temos no mito, de uma eficiente assessoria. Zeus jamais dispensou os valiosos préstimos de Hermes, deus que representa a inteligência sagaz, esperta e engenhosa. Hermes é uma peça importante, imprescindível, para que o modelo Administrador-Zeus funcione.


Deslocando-se muito rapidamente (polytropos), Hermes representa o conhecimento objetivo, recolhido de todos os cantos do universo, como também tem a ver com as múltiplas maneiras pelas quais qualquer informação pode ser recebida (subjetividade) e transformada em mensagem. Pode-se dizer que o complexo de Zeus nas suas formas mais pomposas e grandiloquentes, incorporado para ser reverenciado pelo público interno ou externo das organizações, depende sempre, do trabalho sujo (corrupção, comprar jornalistas, cronistas sociais, chantagem, suborno, apropriação de informações privilegiadas em benefício próprio, propagação de boatos desabonadores sobre inimigos ou aliados não mais úteis, eliminação de adversários etc.) do deus Hermes. É Hermes (assessoria) quem limpa a barra de Zeus para que ele ofereça sempre a sua melhor face para o mundo. Não nos esqueçamos que Zeus, divindade do espírito, da luz celeste, do reino do espírito, precisa recorrer constantemente, para firmar e consolidar as suas posições, a ações indignas, conduzidas sombriamente, mesmo criminosamente.

É Hermes, por exemplo, quem se encarrega de fazer o Administrador-Zeus usar os símbolos mais adequados à imagem a
ASSESSORIA   DE   COMUNICAÇÃO
ser projetada, é Hermes quem o faz ser sempre notícia, ser amado pelos comunicadores de jornais, TVs, revistas especializadas. Isto, como se sabe, implica o patrocínio de muitas gentilezas, almoços, jantares, ingressos para espetáculos, fins de semana em hotéis de luxo, meetings, congressos, restaurantes da moda, empréstimo de dinheiro (jamais cobrado), de apartamentos, casas de praia, fornecimento de garotas ou garotos de programa, droga etc. Uma regra de ouro da assessoria hermesiana é aquela que nos diz que, depois da cama, o melhor lugar para se conhecer uma pessoa é a mesa.



HERA  ( GUSTAV  KLIMT )
Outro elemento importante, altamente desejável, na vida do Administrador-Zeus, é que ele tenha uma esposa oficial, como Zeus tinha, apesar de todos os problemas conhecidos. A Esposa-Hera é importante para as solenidades oficiais, para as recepções, para o clube, ficando aos cuidados dela o cenário familiar, a casa ou o apartamento da cidade, a fazenda, a casa de praia,  os filhos bem educados e formados etc., etc. Deverá ser de preferência uma mulher de alta linhagem, de bela estampa, bem tratada e vestida, com sobrenome importante, bem treinada, com algum curso na Europa, que saiba se vestir bem, que não seja monoglota (falar inglês é importante), que esteja, ainda que muito superficialmente, a par do que aconteça nos circuitos artísticos oficiais.  

Faz parte do complexo de Zeus no mundo empresarial outro componente do mito. Refiro-me ao nepotismo. Zeus, no mito, sempre cultuou através de deuses mais próximos, olímpicos ou não, essa forma de criar dependências. O nepotismo é constituído por uma entourage de personagens próximos, familiares, parentes, amigos de infância, colegas de faculdade, compadres, gente conhecida e testada há muito tempo (cuidado com amizades
PAPA   ALEXANDRE   VI
recentes!). O termo nepotismo vem de nepos, nepotis, neto, em latim. O nome foi usado na Idade Média para designar os filhos ou netos dos Papas que passaram a acompanhá-los, mas evidentemente não como tal reconhecidos. Eram considerados como sobrinhos, protegidos, favoritos, "aspones" privilegiados. Um dos casos mais escandalosos de nepotismo foi protagonizado pelo Papa Alexandre VI (fa mília Bórgia, sécs. XV-XVI), que nomeou cardeais seu filho (16 anos), sobrinhos, cunhados e amigos.  



LOUIS XIV (HYACINTHE RIGAUD)
Exemplos do complexo de Zeus podem ser encontrados em muitos personagens ao longo da História. O imperador romano Otávio Augusto, Luiz XIV, o rei Sol, são bons exemplos. Nos tempos modernos, William Randolph Hearst, magnata da imprensa americana (o Cidadão Kane do filme de Orson Welles). Thomas Mann, com o seu Os Buddenbrook, e Robert Musil, com O Jovem Törless nos dão grandes exemplos. Um dos mais bem acabados modelos do complexo nós o encontramos na biografia de David Selznick, grande figura do cinema americano entre os anos 1920-1950.