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terça-feira, 25 de setembro de 2018

PALAVRAS CURAM?


MIRA SCHENDEL

A importância de As Mil e Uma Noites, na versão que nos deixou o sábio francês Antoine Galland, orientalista, do séc. XVIII, é um dos mais interessantes exemplos de como as palavras podem curar. Galland (1646-1715) aprendeu o árabe, o turco e o persa durante as suas viagens a Constantinopla, com o embaixador Nointele, e depois quando foi ao Oriente. Foi nomeado professor de árabe do Colégio de França. Publicou vários obras, lembranças de viagem, um diário, uma coleção de máximas orientais etc. Foram, contudo, as traduções de textos árabes que o tornaram célebre, Origem e Progresso do Café, Alcorão e, sobretudo, em 12 volumes, os contos de As Mil e Uma Noites.



SCHEHEREZADE ( MÉDARD  TVTGAT )

A narradora de As Mil e Uma Noites é Scheherazade. O rei persa Chariyar, convencido da infidelidade de sua mulher, mata-a. A cada noite une-se a uma nova mulher, sacrificada logo no dia seguinte com medo de ser traído. Scheherezade se oferece como sua esposa; à noite, começa a contar histórias que cativam o soberano, que, muito curioso e interessado, decide não entregá-la ao carrasco para que ela chegue ao fim das histórias que lhe eram contadas. A mesma cena repete-se todas as noites, os dias se sucedem. Quando chegam à milésima primeira noite, Chariyar, fascinado pela arte de Scheherezade, renuncia ao seu projeto de matá-la. Scheherezade é a Senhora do Tempo, dona da palavra que seduz, memória e encantamento. Tessitura de enredos, tramas de cores e sons, labirintos, prodígio de eloquência. Ela inverte a terapia tradicional: o doente é quem ouve, o sultão, no caso. Será curado pelas histórias da filha do Vizir.


SCHEHEREZADE  ( MAGRITTE )

No começo do século XVIII, a literatura francesa começa a se distanciar do heroico ao procurar assuntos capazes de suscitar a curiosidade dos leitores, de falar de emoções, recorrendo ao romanesco, ao insólito, às situações imprevistas. Um dos pontos mais altos dessa virada, desse distanciamento, está exatamente nas histórias que Galland traduz, desprovidas de toda a lógica que comandava o mundo da cultura europeia. As história de Galland eram cheias de magia, de acontecimentos que escapavam da ordem natural das coisas. Estávamos, com essas histórias, bem longe do homem cartesiano, livre e responsável por si mesmo. A fantasia desses contos orientais começava a colocar em questão a metafísica tradicional. Mais: as histórias respondiam a uma necessidade que os poetas da época não podiam satisfazer.


Scheherezade inaugura em 1704 o cosmopolitismo do século XVIII, um acolhimento sem reservas das influências estrangeiras. Os contos nos mostram como Scheherezade é superior ao rei, insistindo a maior parte das histórias no poder, na astúcia e até no cinismo das mulheres. Essa obra apresenta uma nova concepção de amor, uma forma que se imporá. Entre escritores ou filósofos franceses, o amor era uma virtude escorada pelo racional que sempre decidia entre o bem e o mal. Em Racine, por exemplo, será uma fraqueza.

Em As Mil e uma Noites, o amor se transformará, através do poder das palavras de Scheherezade, numa fonte de volúpia na qual se deve mergulhar, superando-se assim todas as interdições ou proibições. As histórias de Scheherezade nos falam do fogo da paixão, de chamas que queimam, tudo apontando para os prazeres da carne. O clima é de prazer carnal, os episódios são rápidos, sempre um forte apelo sensual. O amor nasce da beleza dos corpos, as ações se centram no imediato e no prazer experimentado sem remorsos. Temas como o da poligamia, lugares como haréns, personagens como eunucos podiam ser reais, faziam parte de um mundo onde o amor era experimentado sem culpa.

A poesia da natureza de As Mil e Uma Noites não estava exclusivamente nos seus aspectos materiais, mas, sobretudo, naquilo que eles poderiam sugerir, evocar. Uma visão que encantava e que fazia apelo a desejos sempre renovados através de impressões inéditas. O exotismo entrara em moda, o Oriente em especial, desde o séc. XVII. Os diários e as descrições de viagens aparecem, na esteira das traduções de Galland. As Companhias das Índias contribuem para o sucesso do exotismo. Era comum, nos salões, que nobres ou burgueses ricos circulassem fantasiados de persas ou turcos, que os servidores fossem negros com turbantes, torso nu. Uma boa parte deste cenário acabou entrando na pintura pelas telas de pintores famosos (Boucher, Huet, Desportes etc.). Tais temas chamavam-se então chinoiseries, turqueries.

KAMA  SUTRA

Lembre-se que no final do século XIX (1885) teríamos o ponto alto desta maré orientalista com a publicação, pelo editor Lisieux, por apaixonada sugestão de Guy de Maupassant, daquilo que o mundo árabe havia produzido de melhor com relação aos prazeres e ao erotismo, o famoso Jardim PerfumadoJ, obra que tanto encantara Richard Burton, o grande escritor e explorador inglês, tradutor, dentre outras obras, do Kama Sutra para o inglês.


O  JARDIM  PERFUMADO (AUTOR DESCONHECIDO)

Outro exemplo de como as palavras mudam comportamentos está naquilo que as histórias da Filosofia classificam como Sofística, que aparece na antiga Grécia por volta do século IV aC. A palavra está relacionada com a ideia de conhecimento. Foram os sofistas, como pensadores, que colocaram as necessidades do homem de então numa perspectiva de vida estritamente prática, não mais em exigências de ordem teórica ou científica. Os sofistas tornaram-se um fenômeno muito significativo no campo da educação. É com eles que uma ideia e uma teoria entram de modo consciente na pedagogia, recebendo um tratamento racional. A sofística só admite sensação e opinião. A alma não é algo imortal, separado do corpo, que nele entra e sai, mas é tão só um fenômeno acidental e mutável como todos os demais. Para os sofistas, tudo está num devenir constante. Não há senão sensações mutáveis. Não há critério seguro que permita distinguir o verdadeiro do falso. A verdade que se diz não é o importante (não há verdade objetiva), o mais importante é o modo de dizer. Uma opinião se impõe não por ser verdadeira, impõe-se, sim, porque “sabe” criar o convencimento naquele que escuta (persuasão). Este é o grande tema da retórica para os sofistas, da qual foram grandes mestres.


SOFISTAS ( MOSAICO DE POMPEIA )

O sucesso dos sofistas como retóricos e educadores pode ser explicado parcialmente devido ao momento histórico em que apareceram e ensinaram. Atenas tinha como regime político a democracia. A experiência demonstrava que nas assembleias populares o que sabia fascinar o povo com a sua eloquência se impunha, não importando tanto o que era dito. Os sofistas educavam os jovens de modo a prepará-los para a vida política. Iam de cidade em cidade, sendo pagos por suas lições (algo nunca visto antes). Logo a arte da dialética (arte de disputar) se converteu em arte de discutir com palavras (erística). Com o tempo, porém, a virtude sofística descambou para as sutilezas lógicas, para raciocínios fingidos, enganosos (sofismas), tomando o nome sofista um sentido pejorativo, como o encontramos em Platão, o maior inimigo da sofística. Com os sofistas, os problemas do homem ganhavam prioridade pois era diante dele que a Natureza aparecia, que o mundo se revelava, a exigir respostas imediatas. Os sofistas chamaram a atenção sobre o homem, sobre suas atividade, sobre suas normas de conduta e, acima de tudo, sobre a questão da subjetividade quanto ao conhecimento humano. Criticaram pois, a chamada metafísica da essência e afirmaram o primado do concreto e do particular, o que se capta no imediato e no momentâneo. Não há, para eles, uma verdade absoluta, mas uma verdade relativa ao homem. Todos os juízos e opiniões, afirmativos ou negativos, são subjetivos, dizem. A verdade varia de acordo com as nossas impressões sensoriais. O homem não é mais que sensação e os objetos nada mais são do que aquilo que se apresenta a a ele através das suas sensações variáveis.

Outro exemplo muito interessante de como as palavras mudam comportamentos e, por isso, podem aparecer associadas às artes da cura, nós o encontramos nos mitos ligados ao deus Asclépio, que tinha por centro irradiador a cidade de Epidauro, na antiga Grécia. Filho do deus Apolo e da mortal Coronis, Asclépio foi educado pelo centauro Kiron, também médico. Asclépio participa da natureza humana e divina, lembrando-nos a união indissolúvel que existe entre ambas. Fixando-se em Epidauro, chamado pelos gregos de Filantropissimo, Asclépio é a figura central, naquela cidade, de um grupo de sacerdotes-médicos (Asclepíades). Entre os descendentes deste grupo encontra-se Hipócrates, historicamente, o pai da medicina.


ASCLÉPIO
Asclépio teve quatro filhas de seu casamento com Epíone, a Benéfica: Áceso (a que cuida de), Iaso (a cura), Panaceia (a que socorre a todos) e Higeia (a Saúde). Eram seus filhos também Podalírio e Macaon, médicos. O culto de Asclépio era celebrado num templo em Epidauro onde havia uma famoso labirinto, no qual era guardada uma serpente, ser ctônico que tinha o poder de renascer constantemente. Os cultos do deus se estenderam dos sécs. VI aC ao V dC. Asclépio, chamado de deus Toupeira, porque esse animal “vê” no escuro, era o deus da nooterapia, isto é, da cura pela mente. Esta cura provocava a metanoia, a transformação de sentimentos. A ideia básica era a de que os erros, as faltas, as desmedidas, as hamartiai provocavam problemas que, interiorizados (incubação), tornavam-se agentes mórbidos detonadores de doenças. As causas das doenças estariam, pois, na mente. A nooterapia purificaria o mental e, em consequência, o físico, o homem inteiro.


APARIÇÃO  DA  FACE  DE  AFRODITE (SALVADOR DALI)

Grande importância no processo terapêutico em Epidauro era dada aos sonhos. Havia a famosa enkoimesis (deitar e dormir) no santuário. Os doentes eram levados ao sono e deste aos sonhos através de determinadas sugestões. Interpretados os sonhos pelos sacerdotes-médicos, os medicamentos eram prescritos. Isto era o que se denominava mântica por incubação (diferente da mântica por inspiração, de Apolo, e da mântica indutiva, feita por conclusão sobre observações). Em Epidauro, só havia cura se houvesse a metanoia, a transmutação de sentimentos e emoções. Neste sentido, havia nas terapias uma metusia, uma comunhão, convergência de vários processos e cerimônias através das quais os médicos procuravam, com suas palavras, reforçar o sentimento religioso dos doentes. Canto, dança, práticas esportivas, banhos, teatro, poesia, reforma de hábitos alimentares, tudo era utilizado para produzir o efeito terapêutico desejado. Procurava-se sobretudo a eliminação de paixões desastrosas. O lugar era ornamentado por muitas obras de arte cuja finalidade era a de elevar espiritualmente as pessoas que lá se internavam.Todo esse conjuntos de procedimentos tinha como meta final aquilo que os gregos chamavam de catarse, libertação, expulsão ou purgação do que era estranho à essência ou à natureza do corpo e que, por isso, o corrompia.


ASCLÉPIO  ( AUTOR DESCONHECIDO )

Faz parte do tema que estamos abordando, nele devendo merecer grande destaque, por sua importância, a instituição da confissão, como apareceu no Cristianismo, principalmente entre os séculos XIII e XIX. O confessionário foi, sem dúvida, o centro de um drama que se desenvolveu entre a dialética da culpa e do perdão. Pelo uso da palavra que há nessa instituição, tem ela um lugar importante na história das curas da humanidade. O confessor foi um médico das almas, juiz dos pecados, pai espiritual. Milhões de pessoas nos séculos apontados passaram por confessionários no mundo ocidental, lugar onde seres culpados, cheios de angústia, procuravam perdão e redenção. Santo Afonso de Ligório, sécs. XVII/XVIII, escreve no seu Guia do Confessor: Para cumprir os deveres de um bom pai, o confessor deve mostrar-se cheio de caridade, e o primeiro uso que deve fazer dessa caridade consiste em acolher com igual benevolência todos os penitentes, pobres, sem instrução e cobertos de pecados. Preconizava-se uma abertura para a benevolência, uma técnica de escuta e de questionamento do pecador. Outro texto nos diz que o confessor deve ser como um médico espiritual que acolhe um doente da alma.



A maneira prudente e amigável de confessar recomendada por Santo Afonso de Ligório prevaleceu dos séculos XVIII ao XX, mas não impediu uma crescente deserção dos confessionários, que já vinha do começo do primeiro. Já no século XIX, uma clara hostilidade se fazia sentir, principalmente pelos homens. Acusava-se a confissão de intervir na intimidade dos lares, de opor a mulher ao homem, a religião à política etc.


A  CONFISSÃO  ( ANTOON VAN  DYCK )

Ficou, contudo, a pergunta: a confissão confortava? Será que ela ajudou realmente as pessoas a se suportarem, a se sentirem mais à vontade interiormente? Não resta dúvida que as palavras dos padres nos confessionários tenham animado muitas almas que na instituição procuravam sinceramente o alívio dos seus problemas. O confessor era afinal um “diretor de consciência”, muitas vezes amigo e confidente, um guia seguro. Se pensarmos, porém, nos desejos de perfeição que muitos confessores demonstravam, muito além do razoável, ou se considerarmos aqueles que procuravam o confessionário mecanicamente (confissão para não atrair reprovações), o confessionário ficou muito aquém do pretendido. O grande problema foi que muitos fiéis, inúmeras vezes, foram convidados a fazer nos confessionários uma revisão de vida total. Questionários complicadíssimos, repletos de perguntas, de circunstâncias atenuantes, agravantes etc. Não se pode deixar de reconhecer, contudo, que o confessionário foi um dos meios que nossos antepassados tiveram para conhecer a alma humana. Quanto ao perdão, foi ele uma das grandes contribuições que o Cristianismo trouxe para a “saúde” interior do homem moderno. Pelo confessionário, o desfile de quanto sofrimento, quantas angústias e, também, quanta redenção, quanta cura! Será que ainda é possível trabalhar com a confissão depois de Freud? Nossa modernidade substituiu a confissão pela Psicologia. Melhoramos?



                                                                                                                                  
Quanto a esta problemática do perdão, a sua melhor formulação está, sem dúvida, na mitologia, como a temos no mito das Erínias, as Fúrias, divindades do remorso, deusas violentas, guardiãs das leis da natureza e da ordem do mundo, no sentido físico e moral. Puniam elas todos aqueles que ultrapassavam os seus direitos em prejuízo dos outros. São as vingadoras dos crimes cometidos, divindades da Ananke, conceito filosófico-religioso que lembra reposição de limites.


ORESTES PERSEGUIDO PELAS FÚRIAS ( BOUGUEREAU )

As Erínias não deixam o criminoso esquecer os seus crimes. São a consciência culpada, morbosa. Interiorizadas, simbolizam os remorsos, os sentimentos de culpa que podem levar até à autodestruição, se consideramos as falta inexpiáveis. Não se calam nunca, dia e noite, não deixando o criminoso dormir, se alimentar. Podem, contudo, se transformar nas Eumênides, as Benfeitoras, quando há o arrependimento sincero, que leve a uma apreciação mais comedida dos atos praticados. Não bastava, porém, para as Erínias a declaração do arrependimento. Imprescindíveis, para elas, objetivamente, a reparação pecuniária, sempre pesadíssima, as penitências, longas penitências, e o trabalho social gratuito por anos e anos. Só, então, as Erínias podiam deixar o criminoso em paz.

domingo, 20 de março de 2016

ASTROLOGIA E SAÚDE - X

                                
Leão – De um modo geral, os leoninos comem mais para impressionar do que realmente para se alimentar; gostam de pontificar à mesa e curtir cenários pomposos, restaurantes caros etc. Grande preferência por proteínas animais. Se vão para a cozinha, os leoninos costumam se sair bem, embora não seja ela o seu palco natural. De paladar exigente, gostam de vinhos caros, inclusive para molhos e temperos. Narcisistas e triunfantes, os leoninos existem para aparecer, para despertar a admiração, para receber elogios, inclusive quando se alimentam. Sua grande predileção por

grandes refeições, festas, cerimônias, banquetes, restaurantes da moda é fonte de muitos de seus problemas de saúde. As bebidas são mais apreciadas pelo seu alto custo do que pelo seu valor intrínseco. Um Romanée-Conti (grand cru) ainda é uma grande pedida para qualquer leonino com muito dinheiro e mais sofisticado, que queira brilhar!

Quanto ao mais, a expressão benefício-custo decididamente não faz parte da vida da maior parte dos leoninos. Em termos de alimentos e bebidas tudo tem que ser de primeira qualidade, refinado, importado, de preferência. Pratos e frutas exóticas, peixes e

SOMMELIER 
crustáceos especiais devem fazer parte da mesa do leonino endinheirado, além naturalmente das sobremesas complicadas. No mais, o cenário das refeições será sempre importante, selecionadíssimo, o serviço de mesa impecável. Muito generoso nas gorjetas, o leonino gosta de ser sempre tratado como VIP pelos maîtres, sommeliers, garçons e porteiros de hotéis e restaurantes.

Os leoninos se adaptam com facilidade à vida social, sabendo fazer amigos e conservá-los, gostando de demonstrar, quando podem, a sua afeição com presentes caros. Se não podem, costumam prometer. Uma coisa é certa: podemos afirmar que se um leonino oferece um jantar em sua casa a comida será de boa para excelente. Idem quanto ao vinho, sempre correto para cada prato e à temperatura ideal. O leonino de classe não bebe cerveja, coisa de proletários.

Muitos leoninos pensam que a sua saúde é indestrutível, o que os leva a cometer muitos abusos, especialmente aqueles que já atingiram o “seu” lugar na sociedade, invariavelmente os mais exagerados. Especial atenção deve ser dada ao consumo de gorduras, especialmente às frituras, sempre um grande perigo, muito mais para os do signo. Por isso, será desejável também o controle das gorduras e das féculas, para que seja evitada uma certa tendência à obesidade (ascendente leonino). Recomenda-se ao leonino que esteja a caminho da meia-idade que verifique regularmente a sua pressão arterial e faça hemogramas, especialmente para controle do colesterol, dos triglicérides etc.  

Fraquezas: moléstias do coração, síncopes, rupturas de aneurismas, angina de peito, males nas costas, visão frágil, hipersimpaticotonia. Lembre-se que os leoninos, de um modo geral, têm uma repulsa natural pela palavra doença. Se doentes, porém, gostam de visitar grandes especialistas, que devem considerar o seu problema de saúde sempre como um caso especial. A doença de um leonino nunca é um caso banal, tendo ele predileção por terapias seletivas, recorrendo muitas vezes a especialistas no exterior, se tiver dinheiro, é claro. 


Recomenda-se ao leonino a prática de uma atividade física regular, caminhadas mais puxadas, um esporte, que o ajude a manter a forma. Como os tipos dos outros signos de fogo, o leonino (principalmente o de ascendente) costuma possuir uma constituição forte que não pode prescindir, entretanto, de uma atividade física intensa e regular.

A tipologia leonina, de um modo geral, pode se situar desde aquela que se manifesta apaixonadamente, alimentada por uma abundância vital, expansiva, doadora, generosa, até aquela que, de outro lado, se impõe tirânica e orgulhosamente, que espera dos outros, no mínimo, vassalagem e aplauso. Exibicionismo e máscara social fazem parte da persona deste tipo. A astrologia tradicional, há muito, com base no mito, nos fala de um leonino hercúleo, horizontalizado, forte, impositivo, voltado sobretudo para as conquistas materiais, façanhas econômicas, de natureza marcial-uraniana (o segundo tipo acima). De outro lado, a astrologia nos descreve o chamado leonino apolíneo, verticalizado, que procura viver o signo a partir do controle da vida instintiva pela sua racionalidade, colocando esta a serviço de propostas espiritualizadas. Este é o leonino jupiterizado, que pode, se uma contribuição saturnina ajudar, sem deixar de buscar uma vida opulenta e gloriosa, construir e comandar empreendimentos de grande envergadura, inclusive sob o ponto de vista artístico, na vida privada ou pública. 

Virgem – No geral, o tipo Virgo é exigente quanto à comida, gostando de examinar e verificar tudo o que põe no seu prato; muitos chegam ao exagero (será que é? pergunte a ele) de limpar os

talheres e os copos disfarçadamente; uma refeição, para muitos, é quase um ato farmacêutico; frugalidade, comedimento, asseio. Problemas gastrointestinais podem interferir na alimentação. Os sucos naturais (cenoura, beterraba, couve), muito apreciados pelos do signo, devem ser ingeridos antes das refeições, evitando-se também as bebidas gasosas, mesmo as chamadas dietéticas. Um Virgo consciente jamais ingerirá as “bebidas de caixinha”, que, para espanto seu, são servidas na maioria dos hospitais para os pacientes internados.

Fraquezas: males da assimilação, dos intestinos (cólicas, disenterias, constipações etc.). A ansiedade, típica do signo, deve ser combatida já que está na origem de muitos distúrbios neurovegetativos que interferem negativamente na alimentação. Evitar, é claro, o exagero dos inventários, a minuciosa contagem das calorias, a compra de revistas médicas, os cursos sobre as dietas da moda, os alimentos miraculosos que uma população de longevos usa no extremo-oriente ou nas alturas do Andes. Do mesmo modo, evitar, quando diante de um terapeuta, o sistemático e chato questionamento sobre a escolha dos remédios, as perguntas sobre os detalhes de sua composição. Participar das consultas médicas com moderação.

De um modo geral, os virginianos podem se tornar, sem se converterem em nutricionistas, aplicados alunos no conhecimento da arte dietética. Com relação aos demais signos, os virginianos contam geralmente com uma virtude na matéria alimentar: as suas escolhas são invariavelmente racionais e eles costumam se orientar por elas; mesmo entre os do signo não totalmente logrados, não
PABLO   PICASSO,  1903
costumam fazer parte de sua gastronomia os descontroles alimentares, o fumo e o abuso de bebidas alcoólicas. O ponto fraco dos virginianos nesta área está exatamente no seu excessivo racionalismo; nenhuma concessão aos prazeres gustativos e aos apelos sensuais, que, bem administrados, nunca serão prejudiciais. Os exageros da cozinha e da mesa de Virgo (quinta e sexta casas) estão muitas vezes na sua falta de charme, isto é, na ausência de temperos, de cores e de estética na disposição dos alimentos, sempre muito úteis para ativar as papilas gustativas (células receptoras do paladar) e atrair o olhar (formas e cores). Virgo, de um modo geral, nada tem a ver com a expressão “comer com os olhos”.

Sabe-se que o ponto mais sensível do organismo do nativo de Virgo é, em primeiro lugar, o sistema nervoso (Mercúrio). São os “nervos” que dão origem a muitos sintomas de difícil diagnóstico. A tradição, com base na Psicologia, está certa quando afirma que muitos problemas do trato intestinal que aparecem em Virgo, de modo especial a prisão de ventre, têm relação com a parcimônia, a austeridade e a escassez, características que fazem parte do seu reservado temperamento.

Os psicanalistas designam o conjunto dos traços acima apontados pelo nome de “complexo anal”. Esse complexo aparece já nos primeiros anos de vida de muitas crianças virginianas e tem relação com a evacuação das fezes. A tônica afetiva delas (ainda como infantes) se concentra no funcionamento da região retal e se caracteriza pela importância dada à retenção ou à expulsão da matéria fecal.

No tipo virginiano, sob a pressão interna de ideias de asseio, limpeza e pureza, prevalece a tendência retentiva. A isso se soma o fato de Virgo ser o tipo que mais prontamente responde à disciplina dos pais e educadores. Para ser “amado”, considerado como uma “boa criança”, o virginiano, na infância, adquire um “caráter anal controlado” que vai influenciar bastante o comportamento do adulto. Daí, as constipações intestinais que caminham juntas com o espírito minucioso, puritano, do virginiano, com a sua mania pela limpeza, pela desinfecção, o seu gosto pelas classificações, pela ordem. 

O que está acima se direciona obviamente para os tipos virginianos malogrados, cujo caráter se manifesta através de várias atitudes: retenção e armazenamento de informações (os celeiros são de Virgo), conservadorismo (guardar o que deve ser jogado fora), espírito protelatório, escrupulosidade, meticulosidade, laboriosidade etc. Para estes tipos, qualquer sujeira ou mancha é sempre um “pecado repugnante”, uma profanação. 

LEON   TOLSTOI
É por essa razão, decididamente, que as “delícias da vida” não fazem parte do universo virginiano. É através da dúvida, do ceticismo, do questionamento constante, que o Virgo se esforça para ver claro e compreender. Aliás, foi um virginiano (Tolstoi) que nos deixou esta frase: Viver é trabalhar, penar, ter paciência e se mostrar misericordioso.  

Libra – O gosto, o cenário e os componentes são conhecidos em Libra: açúcar, doces, acréscimos açucarados, carboidratos. Públicos ou privados, nos lugares a frequentar, a elegância acima de tudo,

toalhas, talheres, flores, velas, mesa bem cuidada. Ou seja, comer é sempre para Libra um ato social; nada de pressa, sofreguidão e comilanças desenfreadas. Mais: refeições solitárias fazem mal, devem ser sempre evitadas. O cenário tem que ser propício à conversa amena, da qual façam parte, sempre, o espírito conciliador, a delicadeza, a busca da harmonia, as boas maneiras, as referências abonadoras aos ausentes, mesmo que hipocritamente.


O perigo para a saúde pode estar na alimentação e bebidas servidas nas reuniões sociais (canapés, salgadinhos, petits-fours, aperitivos, coquetéis, vinhos licorosos, mistura de bebidas de sabores
PETITS-FOURS
discordantes etc.), muito frequentadas por librianos. Há predileção pelos salões de chá, pela pâtisserie, pelos achocolatados. No mais, quanto às refeições mais importantes, há evidentemente, preferência pelas carnes brancas, peixes finos (linguado, Saint Peter, truta), com acompanhamento de molhos suaves e pães. Não a côdea, sempre o miolo, muito mais delicado. Lembro que na língua francesa, miolo é mie, palavra saída do universo libriano, ao significar tanto miolo de pão como amiga, amante, amada, m´amie.  


Fraquezas: problemas renais, bexiga, órgãos genitais internos, nefrites, cólicas, uremias, tendências edematosas, afecções ovarianas, diabetes, lumbago, enxaquecas. Um dos pecados librianos é o seu precário equilíbrio nervoso: uma pequena contrariedade basta muitas vezes para desviá-los da firmeza com que haviam aderido a um tratamento. Muitas dificuldades pancreáticas (glândula situada na região posterior do estômago, que segrega o suco pancreático, além da insulina e hormônios) e renais começam por essa atitude.


MARCELLO   MASTROIANNI
Lembremos que o pâncreas atua na decomposição dos alimentos. A insulina por ele segregada tem importante papel no metabolismo dos carboidratos no sangue. Tabagismo e dietas com altos níveis de gordura aumentam o risco da incidência de câncer nessa glândula, além de outros fatores negativos relacionados com Vênus. Lembro-me aqui do libriano Marcello Mastroianni, que foi levado por um câncer no pâncreas. 

Como o equilíbrio sempre desejado (principalmente nas mulheres, tanto para a manutenção de uma silhueta agradável como para almejada “paz de espírito”) é dificilmente obtido e mantido, os aborrecimentos (considerados sempre trágicos, insuportáveis) serão mascarados ou diluídos. Daí, as trocas de confidências com amigas sensíveis (conversas de “alminhas”), infindáveis telefonemas, queixumes, as conversas com cabeleireiros, massagistas, personnels, além de um certo bovarismo muito presente;
necessidade de afagos,  a flânerie pelos shoppings, os passeios, olhar as vitrines, um cinema para se distrair (filmes com gente bonita e finais felizes, de preferência) ociosidade, uma tarde no clube etc., tudo acompanhado de muitas concessões venusianas (doces, chocolates, bombons, sorvetes etc.), pois, afinal, comuns nos discursos librianos expressões como: precisamos um pouco de alegria na vida, para compensar tantos aborrecimentos. Com as devidas adaptações, estas características apontadas farão parte do universo da mulher libriana que trabalha. Estamos nos referindo mais aqui, é claro, à libriana malograda.

O libriano masculino típico costuma optar pelo diletantismo (nada de “pegar” na vida com muita firmeza), gosta de discorrer sobre os prazeres mundanos.  De um modo geral, os librianos mais bem logrados, são muito ajudados com relação à sua saúde por um natural fairplay que lhes é peculiar: a aceitação serena e elegante das situações difíceis ou adversas, procurando sempre jogar limpo na vida. Nos tipos superiores do signo, outra grande virtude: o chamado savoir-faire, habilidade para obter êxito graças a um comportamento maleável e inteligente. Obter o que pretende com arte e diplomacia, enfim. Talvez a suprema glória de um libriano deste nível esteja nas vitórias que obtém sem ter que lutar. 

O libriano, homem ou mulher, de um modo geral, não gosta de tarefas que sujem as mãos. Para obter uma aparência agradável, para estar na moda, os librianos de ambos os sexos (muito mais as mulheres, é óbvio) se submetem às vezes a certas torturas (roupas, calçados, penteados, maquiagem, massagens, cirurgias plásticas etc.) que podem lhes causar sérios danos à saúde. Muito comuns, entre as librianas, as cirurgias causadoras do dismorfismo.

De acordo com a astrologia tradicional, o grau de vitalidade dos librianos é moderado. Felizmente, é raro que se esforcem excessivamente, não havendo assim perigo de esgotarem as suas forças (exílio de Marte). Grande parte dos seus problemas decorre de uma notória sensação de insegurança, geradora de inúmeros pequenos incômodos que os aborrecem até bastante. A imagem que me ocorre para explicar isto é a de que o ideal do libriano se fixa na busca de um equilíbrio perfeito na relação dele com o mundo, o que, evidentemente, é impossível. Uma indisposição mínima, sem maior importância, é capaz de desequilibrar profundamente esse tipo de que falamos.


LOMBALGIA
Um ponto muito sensível no corpo do libriano é a região lombar, sendo muito comuns as suas queixas com relação a esta área. Aliás, como se sabe, as lombalgias são a segunda causa mais frequente de idas aos médicos (antes delas, em primeiro lugar, os problemas respiratórios). Boa parte das lombalgias em homens e mulheres é provocada por doenças de órgãos internos, problemas prostáticos, uterinos, ovarianos,  renais etc.

Quantos aos problemas dermatológicos, é bom lembrar, além do que já se disse, que grande parte deles tem origem em distúrbios de natureza afetiva ou material (insegurança material, problemas eróticos e venusianos). Não podemos esquecer também, principalmente quanto às mulheres, que o uso (abuso) de artigos cosméticos pode lhes causar muitos problemas. Cosméticos e “tratamentos de beleza” só deverão ser usados e aplicados com muita cautela e segurança.  

Escorpião – Cautela é a advertência inicial, levando-se em conta, quanto a problemas que possam decorrer da alimentação inadequada, que a ação peristáltica do escorpiano médio (ascendente e casa seis) é lenta; daí, o risco de retenções e fermentações indesejadas. O peristaltismo é, como sabemos, o conjunto de contrações musculares dos órgãos ocos que tem a finalidade de provocar o avanço do seu conteúdo. Evitar, por isso, alimentos que se deteriorem facilmente (crustáceos e moluscos, carnes mal preparadas etc.), que geram com facilidade compostos tóxicos; não recomendados, assim, os frutos do mar, condimentos e temperos fortes. O gosto por refeições em lugares reservados, meia-luz etc., pode fazer o escorpiano entrar em verdadeiras “frias”, ingerindo alimentos duvidosos. Lembrar que Escorpião na quinta casa, na preparação, carrega muito nos temperos. Comida muito temperada, em restaurantes, pode significar, muitas vezes,
BÉCASSE   FAISANDÉE  -  MONET
alimentos estragados. Um toque escorpiano na cozinha francesa é o preparo de alimentos, carnes de caças especialmente, através do faisandé (faisan, faisão): processo pelo qual se deixa a carne “passar” de seu ponto de maturação até o início de sua decomposição. Carnes assim preparadas eram destaque nas requintadas refeições oferecidas em Giverny por Claude Monet (Sol em Scorpio, Lua em Câncer), nos seus tempos de glória.    

Quanto às bebidas, os escorpianos costumam preferir as que tenham “caráter”, isto é,  fortes, concentradas, que deixem a sua marca depois de ingeridas. Com relação aos alimentos, há preferências, como se disse, por carnes vermelhas (caça). Lembremos, nesse sentido, que o escorpião é um animal caçador. Daí, as carnes de javali, paca, jacaré, coelho, alguns galináceos etc. fazerem parte da dieta de muitos escorpianos. Há também, muitas vezes, preferência por cozinhas exóticas (antilhana, norte-africana, indiana, extremo-oriente, peruana, mexicana etc.) onde entrem os molhos de vinho ou apimentados fortes e alimentos impregnados de álcool, defumados, carnes marinadas, a chamada cozinha fusión. É preciso vigiar sempre os estimulantes (álcool, café, fumo, chás, licores). Como se sabe, Escorpião é o signo astrológico que mais alimenta atitudes autodestrutivas. Para compensar (sublimar) estas tendências, muitos se atiram com paixão a alguma atividade profissional, esportiva, ideológica, religiosa. Tudo isto, como fica fácil constatar astrologicamente, pode desembocar na alimentação. O excesso, como um ideal de absoluto para o bem e para o mal, é um conceito que costuma fazer parte da vida dos escorpianos, o que costuma, às vezes, transformá-los em suicidas crônicos, embora alguns possam renascer das cinzas como a fênix.  

Fraquezas: problemas fisiológicos nos sistemas genital e urinário, sensibilidade nos órgãos sexuais, afecções dos rins, bexiga, ureteres, ovários, próstata, hemorroidas, complicações no intestino grosso, além, é claro, dos problemas psicológicos comuns nos do signo, depressões nervosas, angústias, ideias fixas, obsessões etc. Um dos problemas do escorpiano é que ele muitas vezes ignora a fraqueza, o cansaço, a depressão e passa a conviver
JEAN   RACINE
indefinidamente, muito atormentado, com os seus “demônios”, noturnos ou não. A produção artística de alto nível de muitos escorpianos costuma receber muita inspiração de sua demonologia interna. Não será difícil apontar artistas que exemplifiquem esse aspecto: Picasso, Racine, Stendhal, Dostoievski... Este último (Sol em Scorpio, casa doze), num de seus livros, nos deixou uma frase como esta: O maior amor é aquele que mais faz sofrer. Só um escorpiano poderia escrevê-la.

Devido à sua enorme capacidade de resistir, de conviver com a angústia, um estado psíquico que lhe é muito familiar, o escorpiano mostra às vezes até muita indiferença diante dos primeiros sintomas das doenças que o acometem. Esta atitude, como é fácil concluir, pode lhe custar muito caro. Instalada a doença, terá que se haver com tratamentos e períodos de repouso às vezes muito prolongados.

Quando falamos do signo de Escorpião, das suas ideias fixas e paixões, não podemos esquecer de Jean Racine (quatro planetas no signo). Não é por acaso que ele é um dos maiores “tratadistas” das paixões humanas. São dele as peças teatrais que melhor nos descrevem os tipos entregues ao império da paixão, num estilo insuperável. Tão perfeitamente delineados, esses tipos nos permitiram estudar os melhores exemplos da paixão, toda a sua patologia, vivida só como alguns escorpianos especialíssimos
sabem fazer. Os “heróis” de Racine sabem que as suas paixões serão a causa da sua destruição, mas, orgulhosamente, a elas permanecem aferrados, ostentando-as diante do mundo num espetáculo ao mesmo tempo agônico e extático, em que eles são ao mesmo tempo vítimas e carrascos. Para quem quiser mais, aqui vão citadas algumas obras do grande mestre francês do séc. XVII: Andromaque, Bérénice, Phèdre, Iphigénie...   

Além dos problemas nos órgãos do baixo ventre (intestino grosso, reto, ânus e genitália), os escorpianos, segundo a tradição astrológica, parecem ser as maiores vítimas de moléstias infecciosas. Causas? Encontradas provavelmente nos seus descuidos com relação à saúde, nos altos níveis de esgotamento físico-mental a que se deixam levar e nas imprudências de ordem sexual (sexo errado) em que muitos costumam incorrer.  

Doente, o escorpiano médio não é um tipo fácil. Via de regra, prefere tratamentos radicais que deem resultados imediatos. Para muitos, o melhor médico é aquele que o liberta mais rapidamente das suas dores. Com essa mentalidade, costuma ingerir doses de remédios maiores que as prescritas ou estimulantes e tranquilizantes para poder aguentar as tensões da sua vida diária quando enfermo.  

Um problema que encontramos em muitos escorpianos e, por ação reflexa, em taurinos, quando chegam à chamada meia-idade é o sentimentos de pânico que se apossa deles diante da ideia de que o “futuro chegou”, de que “não há mais tempo” (Urano, o espaço, se exalta no signo), de que a morte está próxima.  A entrada na velhice lhes traz um sentimento de que já não terão mais outras oportunidades de viver e de que não conseguirão realizar e/ou gozar tudo o que a vida parecia lhes ter prometido tão intensamente. Entenda-se: os escorpianos não gostam de fazer as coisas pela metade e detestam tudo o que seja pouco claro ou que não possam compreender. Colocados diante dessa última etapa da vida, que lhes acena com o mistério da morte, aturdem-se, descontrolam-se. São estes, os aturdidos, desesperados, que provavelmente terão a maior dificuldade para enfrentar Thanatos. Como talvez nunca tenham sabido compreender que a vida é feita de mortes, morrerão prisioneiros de ressentimentos, raiva, mágoas, ódio, inveja, vitimados por um impossível desejo de permanência.

Já se disse que muitos escorpianos sofrem de uma doença
EDGAR   ALLAN   POE
incurável, angustiante, cuja causa está no seu desejo de querer ser sempre mais do que podem ser, não lhes importando seu bem-estar, como Edgar Allan Poe. Isto muitas vezes se expressa através da dialética  da destruição-construção, que gera os tipos mais “encantadores” do signo, o ambivalente, que vive através dessas duas naturezas opostas, o crítico e o criativo, o idealista e o perverso.

Se a dominante é ígnea, essa ambivalência se expressa através de um complexo anal (lembre-se, o intestino grosso é de Escorpião) ativo, revoltado contra qualquer tipo de coação, que concentra na liberação instintiva toda a sua força. Esse é o escorpiano que pode ir em direção da desordem, do sadismo, da paixão total, da obstinação, da dureza no trato social e da criação revolucionária.

Prevalecendo uma dominante terra, saturnina, por exemplo, ninguém tão recalcado como esse escorpiano. Ele elege como suas “armas” (uma grande semelhança com Virgo) as suas regras, as suas manias, o seu grande poder crítico, a sua imensa capacidade trabalho, centrada na ideia de ir sempre “até o fim”, muitas vezes impiedosamente, deixando os outros no meio da caminhada.      



quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

A SEDUÇÃO - II


Dando um salto de alguns séculos, podemos ir à música brasileira para destacar dentro do nosso 
               tema o samba Nervos de Aço, de Lupicínio Rodrigues:                             

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor,
Ao lado de um tipo qualquer?
Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
E por ele quase morrer
E depois encontrá-lo em um braço,
Que nem um pedaço do seu pode ser?
Há pessoas de nervos de aço,
Sem sangue nas veias e sem coração,
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação.
Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, é despeito, amizade ou horror.
Eu só sei é que quando a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor.

Mas a sedução pode apresentar outros aspectos: a sua visão feliz é a da entrega, a da autoentrega, melhor, quando conscientemente nos abrimos à influência sedutora vendo nela algo de positivo. Entretanto, nem sempre isso será claro! É que toda sedução tem sempre um aspecto destrutivo, mesmo a sedução que leva à entrega. Isto porque ela baixa sempre os níveis de nossa vigilância consciente. É por isso que mesmo na nossa autoentrega podemos perceber, ao lado de aspectos muito positivos, compreensão, ternura, afeto, doação, sacrifício, outras nuances, que desconhecemos, que raramente atingem o limiar da consciência, sempre oferecendo perigo. 

DAVID   E   BETSABÁ  ( PETER  PAUL  RUBENS )

Um homem justo como David, quando se enamorou de Betsabá, manchou-se com um homicídio, mandando para a morte o marido da mulher por quem se sentira atraído. Já se disse que o ser humano só se conhece verdadeiramente quando se enamora. Aparecem, nesse momento, em sua vida psíquica conteúdos desconhecidos, espantosos. É o outro lado do amor, a outra face: a mentira, a traição, o sofrimento, a morte, tão comuns… Por quê? Os estudiosos dos fenômenos afetivos  nos explicam que uma pessoa que nos invade assim, fazendo-nos amá-la, seduzindo-nos, tem de pagar um preço por isso. Não há impunidade. Por isso, fazemos tanto mal a quem amamos. Aliás, amor e sofrimento sempre caminharam juntos. Além do mais, o amor cria em nós novas formas de percepção (amamos o feio), a vida vibra em nós de outro modo (ouvimos música, vemos uma flor de outro modo quando somos flechados por Eros). É ele, é ela, proclamamos! Como pude viver sem ele/ela? Uma sensação de que nossa vida começa realmente no momento em que o outro entra em nossa vida. Antes, nunca havíamos vivido. O outro é o Todo. Vivíamos na pobreza (penia). 

EROS

Esse estado, provocado pela flechada de Eros, é intraduzível. Por isso, há tanta música no amor. Não temos palavras para descrever o que sentimos quando amamos. Os poetas e músicos talvez. É um tipo de comunicação diferente. As palavras são sempre inadequadas. O outro é um absoluto, uma eternidade, essa a expectativa de todos os amantes. Mas a carga amorosa é sempre demasiada. Na paixão será pior, um escândalo. O mundo é cruel demais. 




Um dos melhores exemplos do que aqui se fala é o filme Elvira Madigan. Já se disse que o mundo inveja os apaixonados. Toda relação amorosa traz implicitamente uma carga transformadora,
FEDRA  E  HIPÓLITO ( MICHAEL VAN DER GUCHT )  
quando não destrutiva, às vezes dolorosa, sofrida, que, no geral, não chega com clareza ao nosso consciente. Ao lado do amor, o sentimento contrário sempre se apresentará. O elemento destrutivo se oculta em todo amor, mesmo, e talvez com maior força, na paixão mútua. Na paixão não correspondida, será sempre pior. Diz La Bruyère: Queremos dar toda felicidade a quem amamos ou, se isso não é possível, toda a infelicidade. Uma imagem disto? A paixão de Fedra por Hipólito, tanto em Eurípedes como em Racine. 

Sob o ponto de vista alquímico, o outro elemento da sedução é o fogo, potência ativa, erótica, como desejo. Eros é abrasar, arder, inflamar. Força que nos põe em movimento para buscarmos a satisfação. Como tal, Eros é força universal, pulsão fundamental da existência que mantém a coesão interna do universo. Fonte de progresso, de crescimento, pode ser também a apropriação de uma parte pela outra. É a perversão de Eros quando exige a submissão forçada, quando uma parte constrange a outra, se serve egoisticamente dela.  Teseu, rei de Atenas, caçador de monstros, predador, é um dos melhores modelos mítico desde tipo de sedutor. Serviu-se descaradamente de Ariadne, princesa cretense, prometendo-lhe amor eterno. Apaixonada, a princesa lhe deu condições de matar o monstro Minotauro e de sair ileso do Labirinto. O que aconteceu depois foi muito cruel: abandonou-a na ilha de Naxos 


ARIADNE   EM   NAXOS

O fogo, na perspectiva em que o temos aqui, tanto é penetração forçada como absorção do outro, apropriação, subjugação. A metáfora (suave cautério) de S. Juan é um bom exemplo. A lei dos seres do fogo é vencer, superar, submeter. Algo diabólico, destrutivo. Os da água se fundem, dissolvem-se. Rendição passiva. A significação sexual do fogo é universal e se liga sem dúvida ao modo pelo qual o ser humano obteve pela primeira vez, o fogo, por fricção, imagem do ato sexual. 

O fogo, na Alquimia, é calcinatio, que também purifica, separa o que é constante ou fixo do que é fugidio, volátil (cremação). A calcinação purifica, seca, os processos inconscientes (água), as emoções, purgando, sublimando. Terapias do fogo nos põem em
PROFETA   ISAÍAS
ação. Mas o fogo é também luxúria, concupiscência, apetite bruto, carnal, que sentimentos que têm um caráter infernal. O profeta Isaías diz certamente que o fogo pelo qual cada um de nós é punido pertence a nós mesmos: Andai no lume do vosso fogo e por entre as labaredas que ateastes. O alimento desse fogo, como diz São Paulo, são os nossos pecados – madeira, feno e palha. A Alquimia nos ensina que o domínio das paixões, dos apetites, pode ser feito por meio de penitência, de austeridade, de abstinência, de certos exercícios que tomaram o nome de ascese nas religiões, baseados em operações da Arte. 

Uma dessas operações é a liquefactio, uma variante da solutio. Essa operação nos dá a possibilidade de suavizar certos comportamentos e atitudes que sempre acabam por trazer o Inferno para dentro de nossas vidas, os excessos individualistas e materialistas, o egoísmo, a gula etc. A liquefactio nos permite alcançar estados mais fluidos de existência. Certos contextos religiosos, por exemplo, têm grande poder de liquefactio: celebrações, ritos sagrados, música sacra, esplendor de cerimônias que envolvem pessoas numa ação conjunta, despertam nelas uma consciência de origem comum, uma espécie de solutio superior. Gêneros arquitetônicos como o gótico e o barroco, por exemplo, foram criados não só para proclamar a fé católica e o seu poder como para, através de suas formas, ângulos e ornamentação, afetar favoravelmente o comportamento das pessoas
pela riqueza das reverberações sonoras que suas paredes possibilitavam. Outro exemplo: são muito conhecidos os efeitos que a contemplação da arte do Renascimento, em algumas cidades italianas, Florença em especial, produziu em algumas figuras da cultura europeia como Goethe, Stendhal, Nietzsche e, mais recentemente, Freud e Michelangelo Antonioni. 

Além do que já se disse sobre os sedutores, cabe destacar que o mais famoso deles no mundo judaico-cristão é Satã, onipresente em toda a história da humanidade. Por causa de sua ação, temos ideias alquímicas, em primeiro lugar, de afogamento, de sorvedouro, de abismo, de absorção, de descida à profundeza das águas, de submersão, e, depois, de fogo infernal eterno.  É a solutio fatal. A água, nessas imagens, preâmbulo do Inferno, deixa de ser considerada sob uma perspectiva positiva, solar, fertilizante, purificadora e regeneradora, para ser vista sob o seu lado noturno, negativo, escuro, destrutivo.


ADÃO   E   EVA  ( CRANACH )

Conforme se depreende da Bíblia, é Satã, como grande sedutor, quem está por trás do pecado de Adão e de Eva no Jardim do Éden. Segundo os judeus, ele, por meio da serpente, induziu Eva ao erro, pecado do orgulho, e depois, manteve relações carnais com ela, tornando-se o pai de Caim. Mais ainda: foi Satã quem ajudou Noé a embriagar-se e tentou persuadir Abraão a não obedecer Deus no episódio da akedá.

Tradicionalmente, dentre os nomes mais conhecidos de Satã, citamos Diabo, Satanás, Demo e Lúcifer. No Brasil, popularmente, é muito rica a sua denominação: Arrenegado, Beiçudo, Bode-Preto,
LÚCIFER  ( DORÉ )
Anhangá, Tinhoso, Canhoto, Coisa-Ruim, Maldito, Mofento, Capeta, Maligno, Pedro-Botelho, Rabudo, Sarnento etc.  Qualquer que seja o enfoque, ele será sempre o grande tentador e, como tal, o maior dos sedutores. Tentar é despertar vontade em alguém para que ele faça algo, estimulá-lo, induzi-lo a praticar um ato que lhe pareça atraente, mesmo que considerado imoral ou ilegal. A sedução, como sabemos, depende, para se tornar eficaz, muito mais  da mensagem que a veicula do que propriamente do objeto em si, apresentado àquele que vai ser seduzido. 

Foi um escritor alemão, Heinrich Heine, que nos disse: Se o ofício de Deus é perdoar, o de Satanás é tentar. Todavia, para um outro

escritor, Giovanni Papini, no seu livro dobre o Diabo, as coisas não são tão simples assim. Diz-nos ele que ao tentar constantemente o ser humano o Diabo não faz mais do se inspirar em Deus, seu grande inimigo. Lembra-nos Papini que Deus, depois de criados Adão e Eva, chamou-os à sua presença e lhes disse que passariam a viver num Paraíso, mas que não poderiam comer dos frutos maravilhosos de uma árvore especial que nele havia. Esta história, indiretamente, como se sabe, passou a fazer parte até de uma oração, o Padre Nosso (não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos de todo mal), que todo católico conhece e cujos termos deve respeitar. 

Apesar de dotados de livre-arbítrio por Deus, os seres humanos sempre se consideraram constantemente tentados pelo Diabo. A história da humanidade parece vir comprovando que se as vitórias de Deus possam parecer importantes, as do Diabo são muito mais significativas, tanto em quantidade como em qualidade. A Igreja Católica, compreende-se, nos oferece muitas histórias de santos e místicos, sempre seres excepcionais, que venceram o Diabo. Todavia, diante do que vemos diariamente nos quatro cantos do mundo, não há como negar que o Tentador, feitas as contas, está vencendo o jogo com grande vantagem. 

Ao longo dos milênios, o Diabo sempre demonstrou muita esperteza e uma capacidade enorme de adaptação toda vez que a sua maneira de agir o exigia. Extremamente criativo, encantador, arqui-perito no domínio das artes da sedução, sempre soube se insinuar, mais ou menos abertamente, em todos os domínios da atividade humana. Como é fácil perceber, os seus mais retumbantes e notáveis sucessos hoje podem ser encontrados na atividade econômica, sobretudo no mundo do consumo, organizado pelos princípios da sedução e do efêmero. Com o nome de Mercado, o Diabo idiotiza hoje grande parte da vida coletiva do planeta por uma cultura de massa globalizante e instantânea, que embrutece e infantiliza as pessoas. Dignos de registro são também os seus sucessos na área tecnológica, de modo especial na Informática, e na indústria bélica, que sabe beneficiar superlativamente, oferecendo lucros fantásticos.

A luta entre Deus e o Diabo é, no fundo, uma luta eterna contra a tentação. Tentar: aliciar, espicaçar os sentidos, o apetite, a sensualidade, influir nas faculdades da alma para que cometamos atos reprováveis perante a nossa consciência ou regra moral.

Temptare, etimologicamente, é estender a mão, apalpar. Grande comunicador, com domínio completo do processo comunicacional, eis o resumo de um antigo conto sobre os poderes do Tinhoso. Denomina-se Le Jeu d´Adam, obra de origem normanda, anônima, do séc. XII, o mais antigo texto dramático do teatro francês, que abre a série dos mistérios. Por ele, tomamos conhecimento da argumentação de se serve o Tentador para seduzir Eva. Muito habilmente, ele aponta a rispidez que Adão demonstra ao se relacionar com ela, fala de seu ar de superioridade, de seu servilismo diante do Criador, comportamentos e atitudes indignos sob todos os pontos de vista, inadmissíveis, pois ela, Eva, era muito superior a ele, Adão. Tocada pelas palavras do Tinhoso, convencendo-se quanto às verdades que ouvia, principalmente quanto aos seus elogios (a de que era mais sábia, terna e compreensiva que Adão) e, sobretudo, a verdade de que o Criador os fizera incompatíveis, não teve a Nossa Mãe Eva como deixar de agir como o fez. 

Um dos aspectos mais interessantes do Antigo Testamento, geralmente pouco aprofundado, é o da sedução, da sexualidade, a dimensão erótica de muitas das suas passagens e personagens. É que, normalmente, só buscamos na Bíblia fundamentos para nossos dogmas e ordem moral, esquecendo-nos de que ela é um grande livro de história, que narra costumes, fatos, acontecimentos da vida de vários povos, muitas vezes narrados de modo simples, direto, cru. 


JACÓ   E   RAQUEL

Um dos casos mais belos de amor foi o de Jacó pela belíssima Raquel. Foi um caso de amor à primeira vista. Jacó vinha do deserto, sequioso, escapava de seu irmão Esaú (filhos de Isaac e Rebeca, netos de Abraão e Sara, este o primeiro patriarca). Eram primos. Está no texto: Raquel tinha um belo porte e um lindo rosto. Sara também era muito bela, o que deu muito trabalho a Abraão; ela atraía olhares de egípcios e beduínos. Muitas figuras femininas do Antigo Testamente nos revelam que a mulher, longe de ser uma devota triste e submissa, tinha orgulho de seus atributos físicos, da sua beleza. Eram mulheres que não se descuidavam, que procuravam se manter belas, aprendendo as artes de seduzir e de fazer amor. Os relatos bíblicos falam disso com muita naturalidade, descrevendo a sedutora nudez feminina até com entusiasmo, como nos diz Simão Ben Sira:

Como lâmpada brilhante, no candelabro sagrado,
Tal é a beleza do rosto num corpo bem acabado.
Colunas de ouro sobre bases de prata
Assim são as belas pernas sobre sólidos pés


O   PEDIDO   AO   TIO   LABÃO  ( H. J. TER  BRUGGEN , 1628 )

Quando ele, Jacó, vai pedi-la ao tio Labão (a mais velha Lia, era a rejeitada), ele exige como dote, nada menos que sete anos de trabalho do candidato na sua propriedade. Jacó estava tão apaixonado que os anos lhe pareciam dias, diz o texto bíblico.

A esta altura, impossível não deixar de citar Camões: 

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: — Mais servira, se não fora
Pera tão longo amor tão curta a vida!

A sedução que se caracteriza pela anulação da vontade tem nas sereias da mitologia grega uma de suas melhores representações. O poder de sedução delas é tão grande que o maior desejo daquele que ouve o seu canto, como está na Odisseia, é o de se entregar totalmente a elas. A palavra sereia, etimologicamente, quer dizer prender com cordas, enredar, atrair, encadear. Elas são aliciantes,
ULISSES   E   AS   SEREIAS   COMO   AVES
atraentes, perigosas. Cabeça e tronco de mulher, belíssimas, mas da cintura para baixo têm a forma de peixe. Desejam o prazer, atraem homens, mas não podendo obtê-lo, os devoram. Símbolo de uma libido insaciável, costumam aparecer em ilhas, onde se deixam ficar, experimentando colares, contemplando-se em espelhos. Peritas no canto e na música, usam liras e flautas, conseguindo até enfeitiçar os ventos. Seduzem navegadores pela beleza do rosto e por sua melodia. Desde sempre se constituíram num grande perigo para a navegação marítima, uma metáfora da vida humana como viagem.

Na Odisseia de Homero as sereias são as “donzelas devoradoras”, quando encontram Ulisses e seus nautas. Representam, para uma trajetória existencial, as emboscadas, as armadilhas a que nossos desejos e nossas paixões podem nos levar. São criações do nosso inconsciente, já que saem da água (tiram-nos do real); inspiram sonhos fascinantes, terríveis, por onde se infiltram paixões obscuras, primitivas. Simbolizam a imaginação perversa, as distrações, a insensatez, as promessas que nunca se cumprirão. É preciso que nos fixemos bem, como Ulisses o fez, no mastro central da embarcação (base central de nossa vida, a vontade, o comando), para vencê-las.


LORELEI
A linhagem das sereias no folclore brasileiro é representada pelas Iaras ou mães d’água. Os eslavos têm as Russalcas (dos rios Danúbio e Dniester); entre os germânicos, as Loreleis são do Reno, todas ligadas à sedução e à morte. As eslavas, por exemplo, não cantam, mas atraem e levam a sua vítima para o fundo das águas, matando-a de cócegas. Já as Loreleis cantam, distraindo os marinheiros que espatifam o barco contra as rochas. 

No folclore amazônico, encontramos como uma das grandes figuras da sedução o boto, o golfinho do Amazonas, masculino, que seduz
BOTO  ( R. BASSANI )
as moças que vivem às margens dos rios. Às primeiras horas da noite, transforma-se ele num belo rapaz, alto, forte, grande dançador e bebedor; que aparece nos bailes, cheio de lábia, namorador, que, ao se relacionar com as moças, sempre faz “mal” a elas. Antes da madrugada, volta à água, como boto. É comum, no Pará, o uso da expressão filho de boto para designar o filho de pai desconhecido, o filho natural. Há mesmo o depoimento inocente e sincero de caboclas que dão o boto como responsável por esse tipo de paternidade. 

Apesar do respeito ao boto, muitos o matam, para tirar-lhe determinadas partes do corpo (olhos, dentes, verga, vergalho), às quais atribuem virtudes extraordinárias. O olho de boto é de grande eficácia, grande talismã; não há mulher que resista sendo olhada por um olho de boto preparado, depois de passar por uma pajelança. É só olhar e ela se entrega. O boto, ao se transformar num sedutor, conserva sempre um chapéu na cabeça, para que não vejam o orifício que tem no alto da cabeça. 

Para a civilização ocidental, o padrão básico da sedução, no que ela tem de mais completo e abrangente, nas suas várias formas, é de Afrodite, nascida da espuma, dentro do elemento líquido, da solutio. Seu poder de sedução chama-se enkrateia. Afrodite é sobretudo magnética. Magnetismo é atração exercida sobre outros corpos. Falamos do magnetismo animal de certos seres dotados de fluidos especiais que podem ser transmitidos a outros, produzindo-se neles fenômenos dominadores da vontade. Magnetizar é seduzir. A palavra vem da Magnésia (Ásia Menor), onde havia o magnetos lapis (litho), uma pedra que funciona como imã.


AFRODITE 

A sedução de Afrodite se revela sempre por uma poderosa e intensa sinergia (trabalho de diversos elementos para o mesmo fim) de sensações, da sensualidade, de toques, de olhares, de gestos, de odores e perfumes, da comunicação corporal como um todo (sorriso, alegria, cor dos cabelos, formas corporais etc.) que traz a beleza, a graça, o charme, a harmonia, o ritmo, a perfeição. 

Ninguém rivaliza com Afrodite, pois, sob o seu domínio, temos a alegria de viver, o encanto, a festa, a plenitude dos sentidos, o prazer refinado, a estética espiritualizada. Seu reino é o das carícias, da ternura, da fusão sexual, do prazer. Ela suaviza o
CÁRITES
quente, abranda o seco, torna o frio mais expansivo. Contribuem para a dinâmica de toda essa sinergia algumas divindades que integram o cortejo da deusa: as Cárites, as Horas e Peitho, todos operando pela umidade e discretamente pelo fogo. Afrodite é dona também do que os gregos chamavam de Goeteia, palavra que podemos traduzir como encantamento, magia e feitiçaria. Quando Eros não fica submetido a Afrodite, o componente mais ativo dessa sinergia amorosa, a força do desejo que leva à fusão, as partes envolvidas não se unem. Uma parte se impõe à outra e a utiliza. Nenhuma reciprocidade. Eros, então, atua só: atrai, usa e abandona. É o Eros unilateral. 



VÊNUS ( AFRODITE )  E  MARTE ( ARES ),  BOTTICELLI

Quando Eros se impõe a Afrodite, a deusa toma o nome de Andrófona, etimologicamente a matadora, a destruidora de homens. Nos tempos modernos, temos um exemplo muito interessante dessa Afrodite Andrófona. O arquétipo foi atualizado simbolicamente, para o grande público, pela vampe do cinema americano, criada por volta de 1920. O vampiro, como sabemos, sobrevive através de sua vítima. A dialética aqui é a do perseguidor-perseguido, do senhor-escravo. Ou seja, viver através dos outros.  

A vampe do cinema é a femme fatale agressiva que arruína os homens e os joga de lado. O tipo ideal foi fixado por uma atriz de cabelos negros, olhos enormes, profundos, chamada Theodosia
THEDA   BARA
Goodman, de Ohio, Cincinatti, que era uma extra em filmes baratos. Ela foi inteiramente modelada pelo estúdio em que trabalhava, recebendo o nome de Theda Bara, anagrama de Arab Death. Sua biografia oficial: filha de pai francês que viveu no Egito e mãe egípcia, encarnação de uma antiga princesa egípcia, talvez Cleópatra (banhos de leite, pétalas de rosa). Símbolo assustador e impenetrável do mal. Sempre transportada por uma limusine branca, enorme, virginal, uma espécie de carro fúnebre. Ao seu lado, lacaios negros. Sua biografia fala da ruína de vários pais de família. Vivia em ambientes fechados, rodeada de flores, em meio a fortes perfumes embriagadores, incenso, jasmins, maquiagem carregada, com serpentes ao seu lado. Um grande símbolo da sedução mortal, sem dúvida. Desse papel, a atriz nunca mais se libertou. 



MACHIKO   KYO  

O cinema pôs em circulação um grande número de mulheres desse tipo, hoje desaparecidas, utilizando, já no cinema mudo, atrizes como Lilian Gish, Pola Negri, Nita Naldi etc. Depois vieram Mae West, Jean Harlow, Marlene Dietrich (destruidora do professor Rath no filme Anjo Azul, um clássico no gênero), a fantástica Louise Brooks (A Caixa de Pandora), Greta Garbo, Heddy Lamar, Lana Turner, Rita Hayworth (Gilda), Brigitte Bardot, Ava Gardner, Glenn Close, a misteriosa Machiko Kio (Contos da Lua Vaga, Pálida e Misteriosa depois da Chuva), Kathleen Turner etc. 

Os norte-americanos, desde os tempos do cinema mudo, puseram em circulação o termo waif (gamine, em francês), exportando-o,
AUDREY   HEPBURN  ( SABRINA )
para designar um estereótipo feminino caracterizado por mulheres de aparência infantil, aparentemente frágeis, que parecem "pedir“ proteção, mas ocultando por trás dessa aparência muita malícia, muita sedução, sempre nocivas e perniciosas por isso, como dominadoras de homens. Eram perigosas, sexualmente estimulantes (pedofilia?). Lá atrás, no passado, no cinema mudo, Mary Pickford e a citada Lilian Gish foram modelos. O termo waif foi muito usado nos anos 1960 e aplicado principalmente a Audrey Hepburn (Sabrina).