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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

ASPECTOS DO AMOR GREGO

               
Na história dos povos indo-europeus, encontramos um certo número de instituições que formaram rituais para que jovens passassem de um nível social a outro. Uma série de provas e cerimônias marcava mais ou menos solenemente essas passagens. Do oceano Atlântico ao Ganges está hoje comprovado que tal aconteceu realmente. Uma grande quantidade de mitos e histórias expressa como isso se dava. 




A pederastia (amor a jovens rapazes, etimologicamente) era uma das mais significativas dessas instituições. Era o amor de adulto por um jovem mal entrado na puberdade. Esse amor devia permanecer puro, embora a relação se revestisse de algo mais forte que a amizade (philia). Fossem dóricos ou jônicos os Estados, a pederastia estava institucionalizada como, por exemplo, entre os espartanos. 


CRONOLOGIA  DA   HISTÓRIA   DA   GRÉCIA



É de se ressaltar que entre os dóricos de Creta e Esparta o indivíduo pertencia ao Estado e sua educação era orientada na direção de um fim comunitário, enquanto em Atenas, no período clássico e no período helenístico (dominação macedônica), os pais tinham a liberdade de decidir quanto à educação de seus filhos, sempre com o objetivo de os tornar homens completos. Em Atenas se faziam restrições ao instituto da pederastia, inclusive legalmente, mas a legislação “não pegou”. Pode-se dizer, de um modo geral, que a pederastia era uma instituição generalizada em toda a Grécia, com aspectos peculiares em cada região, cultura e período histórico.


ERÔMENOS   E   ERASTES

Em Atenas, por exemplo, por volta do séc. V aC, no período clássico da história grega estavam em vigor leis que tratavam da prostituição masculina, da prostituição de crianças e da proibição de que pudesse participar, falar em assembleias e frequentar ginásios o condenado por prostituição. Neste particular, a história nos deixou registros de casos rumorosos, como o de Ésquines que moveu um processo contra Timarco, acusando-o de prostituição. 

ÉSQUINES
Demóstenes e Timarco, em 345 aC,  acusaram Ésquines de ter sido corrompido por Filipe da Macedônia. Numa peça oratória das mais brilhantes, Contra Timarco, Ésquines foi à réplica, declarando que Timarco nada poderia falar, pois era famoso por sua depravação, muito conhecido, na sua juventude, como eromenos (amante) de muitos erastes (jovens, pupilos) nos meios portuários do Pireu. A argumentação de Ésquines foi acatada e Timarco teve a sua palavra cassada, tendo, além disso, pela pena da atimia, perdido os seus direitos cívicos. Estávamos a esse tempo no chamado período helenístico da história grega, período em que a instituição da pederastia já ganhara fortes contornos de devassidão.
  
É certo que a pretendida pureza nem sempre existiu na instituição da pederastia. Foi por essa razão, por exemplo, que nos ginásios de Atenas, adultos, reconhecidamente depravados, de maus costumes, estavam proibidos de entrar. Entenda-se: nos ginásios gregos os atletas se entregavam nus às práticas esportivas. A palavra ginásio, etimologicamente, vem da palavra grega gymnasion, que, por sua vez, provém de gymnos, nu. 


ESPORTE   -    CERÂMICA    GREGA 

No período helenístico da história grega (dominação macedônica), por volta de 275 aC, abriram-se mais três ginásios em Atenas devido à grande quantidades de jovens que para lá se dirigiram, vindos do exterior (países vizinhos e colônias), com o objetivo de se aperfeiçoar física e mentalmente. Esses locais passaram obviamente a atrair muitos candidatos a assumir o papel eromenos. Mesmo nos Estados (Esparta) onde a prática da pederastia estava plenamente institucionalizada sempre se procurava exercer, através dos éforos, um certo controle no ingresso dessas pessoas nos ginásios.


LUTA    (BAIXO - RELEVO)  

O fato é que foi possível se estabelecer uma certa contenção da prática pederástica no início do período clássico (quinto e quarto séculos, o período das cidades-estados independentes, o das mais altas realizações do gênio grego), mas, nos séculos seguintes, fortemente marcado pela decadência política e social dos grandes centros urbanos), a instituição da pederastia descambou para os níveis mais baixos da homossexualidade.

EROMENOS  E  ERASTA
Contudo, é preciso ressaltar que os gregos, de um modo geral, sempre procuraram viver a instituição da pederastia de um modo bastante acertado. Eles nunca a colocaram na dicotomia homossexualidade-heterossexualidade, como uma oposição, uma diferença de comportamento procedente da oposição minoria/maioria ou do conflito tara, vício/normalidade.

São muitos os povos em que a atração e o comportamento sexuais não se dividem entre o homo e o hétero. A atração por um sexo não excluía, para o grego, de um modo geral, a atração por outro sexo. Historicamente, não pode ser defensável essa ideia da cultura ocidental de se identificar virilidade com exclusividade heterossexual, essa ideia que leva muitas pessoas, inclusive letradas, de instrução superior, a ver no homossexual masculino ou feminino só efeminação ou masculinização. Em muitas culturas do passado, atribuía-se grande importância a pessoas colocadas nessa perspectiva homossexual em função de sua atividade profissional (militares, religiosos, xamãs, atores, professores).


ANACREONTE

Nenhum escândalo quando, por exemplo, Anacreonte (poeta lírico) dedica algumas de suas maravilhosas odes a jovens companheiros. Ou que os mais belos poemas de Teócrito (poeta grego do período helenístico, de Alexandria, que trabalhou com a literatura bucólica) tenham um fundo homossexual. 

Inúmeros mitos, por outro lado, nos apontam que essa relação entre a pedagogia pederástica e a homossexualidade é antiquíssima,
JACINTO E APOLO
fazendo parte desse mundo indo-europeu, anteriormente à constituição da Índia e da Grécia como países e da Escandinávia como região geográfica. Um dos grandes amores de Apolo, cujas relações com o mundo feminino, nunca deram muito certo, foi o belíssimo Jacinto. O poderoso Hércules, modelo dos heróis machões das histórias em quadrinhos e do cinema, fascinado pela beleza de Hilas, raptou-o. Um das mais famosas histórias, neste particular, foi a do rapto de Ganimedes por Zeus. A mitologia grega, entendamos, é um reflexo da totalidade do mundo e não só de uma parte. Incorpora todos as possibilidades, pois Deus é o Todo e nada da criação pode ficar de fora. 

XENÓFANES



O caso de Zeus é exemplar para que se compreenda melhor a instituição da pederastia no mundo grego. Os gregos não hesitaram em levar para o céu os seus costumes, a sua moral. Xenófanes, filósofo grego da escola eleata, deixou-nos: se os bois e os cavalos tivessem mãos e pudessem pintar, fariam deuses-cavalos e deuses-bois.




ZEUS   E   GANIMEDES  (RUBENS)


Ganimedes é dos filhos de Trós, um dos ancestrais das dinastias troianas. O nome vem de ganos, líquido brilhante, e medesthai, ocupar-se, aquele que se ocupa do vinho, em grego. Jovem de extraordinária beleza, inflamou o coração do Senhor do Olimpo, que, para raptá-lo, tomou a forma de uma águia. Deu ao jovem, como compensação, alguns presentes: um aro (anel), um galo, ave-falo que espanta as trevas e os monstros da noite com o seu canto, anunciando a aurora, a luz. Deu também ao jovem um par de asas, imortalizando-o como um ser alado, símbolo da elevação. Zeus, quando do rapto, foi auxiliado por Tântalo, que acabou como um dos grandes criminosos no mito, e por Eros, deus da paixão amorosa. Ao pai do jovem, deu cavalos divinos, nascidos do deus Zéfiro, o vento que sopra na direção oeste-leste.

Ganimedes foi para o Olimpo com a missão de servir vinho aos deuses nas reuniões olímpicas, assumindo a função de escanção divino. Está ele hoje eternizado no Zodíaco como a constelação de Aquário, junto da qual está a da Águia (Zeus). Ganimedes tem por função, como amado dos deuses, distribuir o néctar entre os que participam do banquete transformado num rito de comunhão. A todos envolve a beatitude celeste por essa participação conjunta, estado a que o ser humano pode chegar ao beber o vinho como a bebida da imortalidade. 

Mesmo as figuras da história política e cultural da Grécia antiga, que nos parecem muito graves e circunspectas, não ignoraram os prazeres deste tipo de ligação. Sófocles, Fídias, Aristóteles, Sócrates, Platão, Felipe e Alexandre da Macedônia, Alceu, Píndaro, Anacreonte e outros, outros mais. 


SÓCRATES   E   ALCEBÍADES   ( SIMPÓSIO )

O modelos das instituições pederásticas gregas veio de Creta; era costume lá que os adultos escolhessem jovens para que estes se tornassem seus amantes; esta escolha estava condicionada a um aviso à família do jovem; era simulado então um rapto do jovem, devendo a sua família oferecer uma certa resistência, com mais ou menos veemência, mas, ao final, o rapto sempre se concretização. No fundo, uma espécie de espetáculo teatral, do qual todos participavam como atores. 

Dois meses depois, quase que totalmente dedicados pelo raptor e pelo raptado aos prazeres da caça, o jovem era devolvido à sua família, com presentes e um anel, consagrado a Zeus. Seguia-se um banquete, faziam-se sacrifícios e se perguntava ao jovem, o amado (erastes), se ele tinha alguma queixa a fazer contra o amante, adulto eromenos); se houvesse, as relações eram desfeitas.

Ao que parece, eram mais as qualidades morais que as físicas que determinavam a escolha do jovem pelo adulto. Os jovens assim escolhidos era muito honrados, a eles concedidos os melhores lugares nos ginásios e nos banquetes públicos. Os jovens nessas condições usavam roupas oferecidas pelo amante, roupas que tinham a finalidade de distingui-los de todos os demais que não estivessem nessa condição. Tais jovens, quando chegavam à vida adulta e não mais ligados a um amante, continuavam a ser honrados, sendo chamados de kleinos, ilustres.

É preciso salientar, sem que se entre aqui na questão de valor, nos aspectos éticos, que esta instituição, no seu todo, jamais conduziu a uma efeminação dos costumes ou a expressões mais extravagantes (travestismo). Só nos períodos de grande decadência é que se chegou a tal, sendo os seus participantes muito mal vistos. A eles se dava o nome de maltakos, palavra que quer dizer, pejorativamente, doce demais, suave em demasia, um comportamento meloso, afetado, cheio de trejeitos e ademanes. 

Nos Estados dóricos (Élida, Lacônia, Beócia) havia uma forma especial de pederastia, a de caráter militar. Para o povo desta região, este modelo era um excelente meio de preparar jovens para a carreira militar, pois criava uma estreita camaradem bélica. 

Na Lacedemônia (Esparta) encontramos um exemplo clássico desse “amor militar”. Licurgo, o grande legislador de Esparta, fixou o conceito de eugenia legalmente, da qual fazia parte, para a purificação racial, o casamento obrigatório. O celibatário, sob determinadas condições, podia solicitar a mulher de um cidadão, um homoios, um igual, se ela tivesse as qualidades físicas e morais que ele desejasse para ter um filho. Um homem podia também pedir um “favor” de natureza sexual a um outro, mais jovem, vigoroso e valente, que, unindo-se à sua mulher, lhe desse filhos fortes e bonitos. As mulheres em Esparta, recebiam uma educação viril e esportiva, desfilavam nuas, sendo muito promovidas socialmente pelo casamento.

A vida espartana era comunitária, em grandes acampamentos, tudo sob o controle estatal. Festividades coletivas, jogos esportivos, danças e espetáculos teatrais e musicais eram promovidos como forma de aliviar um pouco a vida duríssima que levavam os espartanos. Para permitir que as cidades funcionassem a contento e a população espartana ativa se dedicasse inteiramente à vida militar, o Estado mantinha, em regime de escravidão (hilotas), as populações das regiões que conquistava, o que vez ou outra lhe causava sérios problemas.

Quanto à vida familiar, grande incentivo era dado ao casamento, sobretudo tendo-se em vista a produção de uma prole numerosa, de onde sairiam os futuros soldados da pátria.  Na noite de núpcias, a mulher mantinha com o marido um contacto rápido, eis que no dia seguinte, às primeiras horas da madrugada, ela e ele já deveriam estar acampados. Os encontros amorosos se realizavam de tempos em tempos, a intimidade era pouca, pois, assim, segundo os chefes espartanos, o desejo permanecia vivo, o amor não esmorecia.

A criança, aos sete anos, saía do âmbito familiar e era colocada sob a tutela do Estado, passando a viver desde então em acampamentos, vivendo em regime comunitário, neles permanecendo até a vida adulta, a velhice e a morte. Os mais inteligentes e aptos fisicamente começavam cedo a comandar, fazendo o seu aprendizado de chefes. Os velhos supervisionavam os jogos e agiam muitas vezes para suscitar rivalidades a fim de melhor preparar os jovens. No mais, poucas letras, nada de cultura, apenas o essencial; o mais importante era transformar a criança num jovem treinado e disciplinado, endurecido, preparado para o combate. Lacônicos, cabeça raspada, pés descalços, nus a maior parte do tempo, preparados para enfrentar as variações climáticas.

Aos doze anos, a túnica era suprimida; uma espécie de manta, que deveria durar um ano, lhes era fornecida . Os leitos eram duros, os banhos sempre frios, mesmo no inverno. Era nesta idade que apareciam os erastas, de alta qualidade moral e física, que se ligavam a um escolhido, tornando-se responsáveis por ele. Se o erastes, o amado, não se saísse bem, o amante (erasta) era chamado às falas pelo conselho de magistrados.

Muitos erastoi podiam amar um mesmo jovem, sem rivalidade. O Objetivo era torná-lo o melhor possível. Estas mesmas relações existiam também entre as mulheres e as jovens. Platão, ateniense, refinado e culto, não acreditava na “pureza” espartana.


ATENAS    -    SIMPÓSIO

A pederastia ateniense era bem diferente. O seu melhor ambiente era encontrado nos meios intelectuais, não intervindo o Estado na vida privada. Os atenienses eram artistas, filósofos, estetas, escritores, poetas, músicos, gente que gostava de conversar, discutir, apreciavam a dialética, a arte do debate, eram inteligentes. Platão escreveu muito sobre a pederastia, sobre suas tentações e recompensas. Por sua causa, a ela se deu também o nome de “amor platônico”.

Na mitologia heroica, conforme Homero narra em seu poema A Ilíada, produzida em função de um período histórico muito distante, do das glórias de Atenas e Esparta, vamos encontrar exemplos clássicos de uma forma de amor peculiar, a do amor entre guerreiros. Um dos melhores é o da relação entre Aquiles e Pátroclo. O primeiro é um herói da Idade do Bronze, o seu maior guerreiro. Etimologicamente, seu nome sugere ideias de sofrimento, dor. É a figura central da Ilíada, onde é citado quase trezentas vezes.  Suas histórias, a partir de Homero, se ampliaram, o que nos permite falar de um ciclo de Aquiles sob o ponto de vista literário.

Aquiles cultuou várias amizades masculinas, mas nenhuma como a de Pátroclo, que tinha com ele um certo parentesco, a quem se ligou desde a infância. Eram companheiros de tenda. Quando
AQUILES  E  PÁTROCLO
Pátroclo morreu (guerra de Troia), atacado por Heitor, Aquiles foi tomado por tamanha dor que Tétis, sua mãe, chegou a temer por sua vida. Aquiles passava os dias derramando lágrimas, cantando, tocando a lira, saudoso de seu falecido amor. Pouco tempo depois, como se sabe, Aquiles também morreria, por intervenção do deus Apolo, que dirigiu a flecha de Páris para o único ponto vulnerável de seu corpo, o calcanhar. Uma versão do mito nos relata que depois da morte de Aquiles as suas cinzas foram juntadas às de Pátroclo para que assim permanecessem por toda a eternidade.


O que fica para nós hoje, dos aspectos aqui abordados, é que a
MAURICE SARTRE
antiga sociedade grega envolveu o seu conceito de masculinidade numa atmosfera fortemente erotizada, mas nada comparado aos “paraísos gays” que o mercado hoje oferece. Lembro aqui que a palavra gay, conforme nos explica Maurice Sartre, da Universidade François-Rabelais, de Tours, tão usada pelos meios de comunicação é um termo de origem francesa, em circulação desde o séc. XVI, para designar os homossexuais, ou melhor, o lugar onde eles se reuniam. Da França passou à Inglaterra e aos USA no séc. XIX.  



ACADEMIA   DE   PLATÃO   ( ANSELM  FEURBACH )

As práticas homossexuais entre os gregos faziam parte de comportamentos sociais admitidos, alguns até habituais e, apesar de alguns aspectos de degeneração, eram inteligentes, tinham uma certa classe. A literatura que tratou desse tema, por exemplo, nunca foi clandestina. A própria arte, a dos esplêndidos vasos gregos, conservou para nós muitas imagens desse mundo. O melhor que ficou dele veio certamente dos meios aristocráticos e intelectuais de Atenas, das obras de Platão (O Simpósio e Phedro, principalmente), onde encontramos uma posição clara do lugar que nesse mundo do amor masculino e feminino ocupavam a carne e o espírito, algo incompreensível para mundo de hoje.

    

domingo, 11 de maio de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - VÊNUS (1)




Vênus, com exceção do Sol, da Lua e de alguns cometas, é o mais luminoso dos corpos celestes. Dista na Terra cerca de 42 milhões de Km. Na sua fase “cheia”, quando recebe mais luz do Sol, dista dele cerca de 260 milhões de km. É um planeta muito semelhante à Terra, tendo ambos aproximadamente o mesmo tamanho, volume, massa, densidade e gravidade. Do ponto de vista terrestre, Vênus gira para trás, isto é, do oriente para o ocidente, significando isto que em Vênus o Sol nasce no ocidente e se põe no oriente. Tal se deve ao fato de Vênus ter os pólos invertidos.  Enquanto os demais planetas do sistema solar têm uma órbita elíptica, a de Vênus é praticamente circular, sendo sua excentricidade inferior a 1% .

Da Terra, Vênus pode ser visto um pouco antes da alvorada ou depois do poente. No primeiro caso, é chamado de a Estrela da Manhã, Estrela do Pastor ou Estrela d´Alva; no segundo, de Estrela Vespertina. Desde tempos pré-históricos, Vênus foi confundido com uma estrela. Do ponto de vista terrestre, além da Lua, Vênus é o único astro que pode ser visto tanto de dia como de noite. É o planeta que mais se aproxima da Terra, sendo sua magnitude superior à da estrela Sirius, doze vezes mais. Devido à sua atmosfera, a observação de Vênus é muito difícil. O que se sabe é que sua temperatura superficial fica próxima dos 260º. Permanentemente coberto por nuvens,  sofre em sua superfície grande retenção de calor. 


QUERUBINS   (MESOPOTÂMIA)
  
Como Estrela Matutina, era chamado de Lúcifer (etimologicamente, o portador da luz). Os judeus, no entanto, como está no Livro de Ezequiel, deram esse nome a um anjo caído, da ordem dos querubins, anjos que tinham o semblante de crianças, ocupando um lugar proeminente na hierarquia celeste. Entre os cristãos, Lúcifer era o mais belo e forte dos querubins. Orgulhoso, pelo poder que lhe foi conferido por Deus, dentre todos os seus demais auxiliares, rebelou-se. 


ARCANJO GABRIEL (GUIDO RENI)

Quem comandou as hostes divinas contra Lúcifer e seus seguidores foi o arcanjo Gabriel, expulsando-os do céu. Inconformados, eles, desde essa expulsão, vêm tentando corromper os humanos, travando-se batalhas diárias entre as forças divinas pela posse do ser humano. Lúcifer passou desde então a ser chamado de Diabo (etimologicamente, caluniador, acusador ou o que leva à dispersão, o que desune e divide) ou Satã (etimologicamente, adversário). Como Diabo, Lúcifer tem o poder de tomar todas as formas que quiser. De um modo geral, lembre-se, a Igreja Católica, ao dar forma ao Diabo, foi buscar seus modelos nas antigas religiões vencidas quando o cristianismo se impôs como religião oficial do império romano. As grandes representações do Inferno se fixam mais a partir do séc. IX. Já no período gótico, que sucedeu ao românico, numerosas igrejas ostentavam cenas do Último Julgamento, realçando o Inferno como um lugar onde corpos humanos eram submetidos a terríveis torturas por demônios. 


DIABOS (GUSTAVE DORÉ)

O Diabo, no cristianismo, assumiu o controle do Inferno, reino do mal, concebido como um lugar em que as almas pecadoras se encontram depois da morte, submetidas a penas eternas. Foi durante a Idade Média que o Diabo, no cristianismo, ganhou um visual mais terrível: asas de morcego, pés de bode, olhos de fogo, chifres enormes na cabeça, olhar assustador, carregando um tridente nas mãos. Desde então, Lúcifer, também chamado de Diabo, assumiu de modo indiscutível a tutela do reino do mal. Com esses nomes, ele passou a representar tudo que é superlativamente maléfico.

Até um determinado ponto na história das religiões, no cristianismo especialmente, o demônio, antes de  adquirir  o  visual  descrito, era
uma espécie de gênio interior do ser humano, daimon, em grego. Este gênio se envolvia com a alma do homem, agindo como um intermediário entre a vontade divina e a sua consciência. É neste sentido que Sócrates fala de seu daimon (fig.ao lado), quando lhe pede conselhos. O daimon funcionava assim como um spiritus rector, representando a presença de Deus no homem. Esta ideologia demoníaca ganhou expressão mais acabada  no cristianismo e no islamismo. 

Aos poucos, a figura do daimon interior  foi se aproximando da do anjo, figura originária das crenças astrais dos assiro-babilônicos, que passou a fazer parte das ideias religiosas de todos os povos semíticos. Destes, a figura passou aos hebreus, para intermediar as relações entre a divindade e os humanos. Acabaram sendo depois hierarquizados em diferentes grupos no cristianismo.

Ao identificar o daimon interior com o anjo, os cristãos acabaram por lhe atribuir o papel de representante da força interior que Deus não governava no homem, uma força demoníaca, diabólica,identificando-a como o intelecto. Esta perda de status, diante das hostes angélicas, uma perda que os transformou em auxiliares de Satã, fez com que muitos deles se revoltassem. É o caso de Lúcifer. Quem, nos tempos modernos, tenha talvez melhor retomado estas ideias no campo da arte tenha sido Ingmar Bergman com o seu cinema (vide o documentário) .  

       “Mestre do  dois”,  isto  é,  da  divisão , da  separação,  Lúcifer 
foi muitas vezes considerado como guia da humanidade, o pai da consciência humana que, para existir, tem, por sua própria natureza, a necessidade de criar uma fenda,  um fosso, entre ela e as coisas que lhe aparecem. É neste sentido que a frase de Hegel pode ser citada: Toda consciência é uma consciência infeliz. Neste sentido, ela não poderia existir sem a interferência do Diabo (o que divide, o que separa), “obrigando” ele a  mente humana trabalhar por separação. Ou seja, tomar consciência é separar-se.

Várias seitas gnósticas de Alexandria já associavam, nos primeiros séculos do cristianismo, Lúcifer a esta separação, sempre de caráter
LÚCIFER
diabólico; a mente humana tentando orgulhosamente explicar tudo, sobrepujar inclusive aquilo que vinha do divino. Foi sobretudo do século XVIII para o século XIX, com o Romantismo e depois com o Simbolismo, que a revolta do homem contra o seu destino voltou a ser simbolizada por Lúcifer, o que transporta a luz, o intelecto revoltado.


A função do Diabo, de Lúcifer, pois, será a de privar o ser humano da graça divina para submetê-lo ao seu poder e dominação. Assim, é este anjo caído que vai simbolizar as forças de desintegração da personalidade do homem, representando  o número dois, número feminino por excelência, a ambivalência, o conflito, um antagonismo que de latente se tornou claramente manifesto no mundo moderno. Uma rivalidade que pode se transformar em ódio em muitos casos. O dois, nesse sentido, é o número de todos os desdobramentos, o número através do qual o homem cai na multiplicidade, na dispersão. Símbolo da polaridade, da oposição, da divisão, é tanto criação como destruição.


LÚCIFER   ( WILLIAM   BLAKE )

Para os teólogos em geral, os demônios são todos anjos caídos. Seu chefe é Lúcifer, o Brilhante. É ele, além do mais, o representante das forças inconscientes recalcadas que influenciam a consciência, provocando a sua desintegração. É o inimigo natural da espiritualidade e da elevação psíquica. Ao aparecer antes do Sol, Lúcifer, orgulhosamente, tenta ofuscá-lo, como aspecto visível da manifestação da divindade, astro símbolo do poder criador. Lúcifer tenta sempre, com a sua luz, substituir a irradiante luz solar, inteligência cósmica, o conhecimento procurado por todo o candidato à iniciação.      
   
 A luz, como se sabe, é um símbolo universal da divindade ou da espiritualidade. Foi ela que permitiu ao universo sair do caos, revelando-o, afastando a escuridão para os seus últimos limites. A luz solar sempre foi identificada com o espírito, o movimento animador do cosmos, uma radiação que partindo de um centro se propaga em todos os sentidos através do espaço. Lúcifer era a rebelião contra tudo isto. 


LILITH  ( CATEDRAL DE NOTRE DAME DE PARIS )

Na tradição hebraica, os demônios se dividiram em dez categorias hierarquizadas, provenientes dos dez sefirots, as dez estruturas
SAMAEL
divinas que fizeram surgir o mundo da emanação, constituindo os diferentes níveis da realidade. Um demônio para cada etapa da emanação, personificando cada um deles uma paixão, um vício. O chefe supremo destes demônios é Samael, seu príncipe, e marido de Lilith, aquela que se rebelou porque Adão e Deus não lhe deram a condição de igualdade (Gênesis, cap. I). Ele tem pele escura, chifres, patas de bode. É identificado como Satã, a personificação da inclinação para o Mal. Quem se opõe a ele, no judaísmo, é Miguel, o anjo guardião de Israel. Foi Samael que enviou a serpente para seduzir Eva no Jardim do Éden. Ativo dia e noite, ele é o grande tentador. Sempre que alguém peca, o poder de Samael aumenta. Isto permite que ele assuma temporariamente o controle da Sechiná, a luz através da qual Deus entra em contacto com o homem. 



EXPULSÃO DO PARAÍSO  ( MICHELANGELO BUONARROTTI )

A rebelião de Lúcifer, segundo os judeus, começou quando ele, o maior dos anjos, com o dobro de asas de todos os demais, se recusou a prestar homenagens a Adão, que não passava de uma criatura feita de pó, enquanto ele, Lúcifer ou Satã, era feito de luz. Além do mais, ficou ele com ciúmes de Adão por Deus lhe ter dado uma companheira. Lúcifer ficou por trás do pecado de Adão no Éden e, por meio da serpente, manteve contacto com Eva, nascendo dessa união Caim. Foi também Lúcifer que ajudou Noé a se embriagar, além de ter tentado Abraão a não dar ouvidos a Deus quando este lhe pediu o sacrifício de Isaac. Foi também Lúcifer quem induziu os judeus a acreditar que Moisés havia morrido e os levou a adorar o Bezerro de Ouro. Da mesma forma foi Lúcifer, como está no Talmud, que, na forma de uma lindíssima mulher nua, tentou o sábio Akiva, quando este se desnudara para subir numa árvore. 


DIANTE  DA  BOLSA  DE  NOVA


Satã (precipitado do céu, em grego) ou Lúcifer é a própria personificação do Mal, sendo conhecido por muitos nomes, Diabo, Samael, Belzebu etc. Segundo a tradição, Ele casou com
VAIDADE  ( HANS MEMLING )
a Impiedade e dela teve sete filhas. A primeira chama-se Orgulho e foi dada em casamento aos poderosos da Terra; a segunda, Avareza, foi dada em casamento aos comerciantes de toda a espécie; a terceira, Hipocrisia, foi  dada em casamento aos velhacos; a quarta, a Inveja, aos artistas; a quinta, Vaidade, aos efeminados; a sexta, Avidez, aos mercenários; a sétima, Impureza, ele a conservou para dar àqueles que fossem procurá-lo. 




Já Vênus, como a Estrela do Pastor, aparece desde a pré-história,     como  um  símbolo  do  conhecimento  daqueles  que   conduzem, 
cuidam, guiam e protegem. Este conhecimento compreende principalmente a vigilância, dela fazendo parte uma sabedoria intuitiva que ajuda na previsão do tempo e permite o discernimento de todos os ruídos, principalmente os da noite. O ouvido do pastor é agudo, nada lhe escapa; ele pode ouvir os lobos quando se aproximam ou o balido de algum animal perdido. Ele conhece naturalmente o alimento que mais convém aos animais e o lugar onde eles podem beber livres de ameaças. Acima de tudo, porém, o pastor é um observador atento dos céus, do Sol, da Lua e das estrelas. A primeira que ele vê, antes do Sol aparecer, é a “sua” estrela, a Estrela do Pastor. Ela marca os limites do seu dia, recolhendo-se e se levantando com ela. 

DAVID (N. CORDIER, STA.MARIA,MAGGIORE
As estrelas, é bom lembrar, sempre foram muito importantes para os povos nômades. É por esta razão, por exemplo, que a Estrela do Pastor tinha tanta importância para os judeus. Os nômades, os pastores, de um modo geral, na cultura judaica, sempre foram muito mais honrados que os de vida sedentária, haja vista que o preferido de Deus era Abel, nômade, pastor e guerreiro, enquanto Caim era um agricultor, um sedentário, um homem  da técnica, construtor de cidades.   Lembre-se ainda que o jovem David, antes de assumir o reino de Israel, foi um dedicado pastor que protegia o seu rebanho. O desvelo com que David cuidou desse rebanho mostrou a Deus que ele era o homem certo para ser o futuro rei de Israel. 


A estrela de David, estrela do pastor, também chamada de maguen
David (escudo de David) foi adotada como o emblema judaico. É uma estrela de seis pontas, hexagrama, feita de dois triângulos entrelaçados. Essa estrela pode ser vista em padrões decorativos judaicos e em lápides tumulares ou pingentes em cordões. Embora seja hoje a estrela do pastor o símbolo judaico por excelência ela não o era na antiguidade. A Estrela do Pastor começou a ser usada em desenhos mágicos judaicos só na Idade Média como amuleto.  

O emblema foi introduzido ostensivamente na Europa, pela Igreja católica pelo concílio de Latrão em 1215, para evitar sobretudo o contacto sexual entre cristãos e judeus. Todo judeu apanhado sem esse emblema, costurado obrigatoriamente na sua roupa, em lugar bem visível, seria multado. No séc. XX, quando os nazistas invadiram a Polônia, onde viviam muitos judeus, eles foram obrigados a usar uma Estrela de David amarela, costurada na roupa, como emblema distintivo. A Estrela de David, desde a fundação do moderno estado de Israel (13 de maio de 1948), figura na sua bandeira. 


PASTOR  DA SERRA DA ESTRELA, 1911

Já mais perto de nós, em Portugal, a Estrela do Pastor aparece associada a uma das mais belas histórias da tradição popular, a Lenda do Pastor da Serra da Estrela. Esta serra, como se sabe, fica no centro de Portugal, perto de Coimbra, atingindo os seus picos, sempre nublados, alturas que oscilam entre 1800 e 2000 m. Nela vivem muitos pastores, criando ovelhas principalmente. 

A lenda nos conta que um desses pastores, muito pobre, que vivia numa pequena aldeia, tinha por única companhia um cão. Ele sonhava: um dia viajaria, indo muito além das montanhas que envolviam a sua aldeia. Numa noite gelada, de um luar puríssimo, o pastor olhou o céu estrelado. Ficou assim por muito tempo até que, num determinado momento, uma pequena estrela desceu do céu e dele se aproximou. Disse-lhe ela que, sabedora do seu desejo de viajar, estava ali para ajudá-lo. Durante muitas e muitas noites, o pastor ficou ali, no alto da montanha, a observar a estrela sem nada dizer. 

Certa noite, porém, ele tomou a decisão de partir em busca do seu destino e pediu à estrela para lhe fazer companhia. O pastor na terra e a estrela no céu caminharam muito. Chegando à mais alta montanha que já vira, o pastor resolveu parar, pois, segundo pensou, não só encontrara ali o seu destino como poderia também ficar o mais perto possível da sua estrela. Na Serra da Estrela, em Portugal, quem passar por essa montanha poderá ver, nas noites de inverno, do alto dos picos, uma estrela que brilha mais que todas. O povo das montanhas diz que ela brilha assim, de amor, de saudade, porque o pastor já não está mais lá, morreu há muito tempo...


Um dos maiores poetas da língua portuguesa, Eugênio de Castro, deixou-nos este soneto sobre ouvir e falar com estrelas:



Antes de me deitar, fecho a janela, 

Habituado a dormir sempre às escuras.
Mas ao fechá-la, diz-me das alturas
Uma doirada e pequena estrela

Vais dormir com uma noite assim tão bela?
Pois não vês como nós brilhamos puras?
Terás na morte a treva que procuras
E tanta que hás de aborrecer-te dela.

Se é de lágrimas só o teu fadário
Dorme para esquecer... Mas do contrário
Vela e mira-nos bem com os olhos ternos.

Dormir o que é senão morrer um pouco?
Vive! Aproveita ainda pobre louco!
Olha que em breve deixarás de ver-nos.


Entre nós, no Brasil, Olavo Bilac  nos deixou o Ouvir Estrelas:

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o Sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido 
tem o que dizes, quando não estão contigo?

E eu vos direi: amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.





Uma observação: a estrela Capella, alfa Auriga, a 21º 15´ de Gêmeos, a estrela mais brilhante dessa constelação, a sexta mais brilhante do céu noturno, é conhecida também como a estrela do Pastor. Esta estrela foi adorada pelos egípcios e pelos gregos, tendo servido de base, entre estes últimos, para a sinalização do local onde foi construído o templo de Elêusis onde se celebravam os famosos mistérios da deusa Deméter.

No que nos toca mais de perto, lembramos que na mitologia grega a estrela da manhã era conhecida pelos nomes de Eosphoros (Eos é a
SÃO JERÔNIMO
deusa da aurora; ou seja, Eosphoros é o astro que a transporta), de Phosphoros, literalmente, o portador da luz, conhecidos pelos latinos pelo nome de Lúcifer, nomes todos relacionados com o planeta Vênus. Na Vulgata, São Jerônimo usou o nome Lúcifer para traduzir a palavra hebraica Helel  (Vênus como a brilhante estrela da manhã), filha de Shachar, a Aurora, conforme está em Isaías (14:12): Como caíste do céu, ó Lúcifer, tu que ao ponto do dia parecias tão brilhante? Como caíste por terra, tu, que ferias as nações? Os gregos acreditaram, inicialmente, que Eosphoros e Hesperos eram corpos celestes diferentes. Mais tarde,  passaram a adotar o ponto de vista dos babilônios, vende-os como o mesmo corpo celeste, sendo Eosphoros e Hesperos divindades que viviam no planeta Vênus.


Astraios, da geração dos titãs, filho de Crio e Eurybia, era o deus do poente, ou melhor, era o deus que quando a noite chegava fazia com que as estrelas aparecessem. Ele se uniu a Eos, deusa da
TORRE DOS VENTOS - ATENAS
Aurora, nascendo dessa união muitos filhos que se associam a tudo o que acontece no crepúsculo. Assim, são seus filhos os quatro anemoi (ventos), Zéfiro, Bóreas, Notus e Euros, e os cinco “Astra Planeta” (astros errantes), Phainon (Saturno), Phaeton (Júpiter), Pyroeis (Marte), Eosphorus/Hesperos (Vênus) e Stilbon (Mercúrio). Algumas versões desse mito mencionam que Astraios tem uma irmã, Astréia, a constelação da Virgem. 


Mudando o nosso enfoque, dirigindo-o para a pesquisa histórica, ou melhor para os períodos pelos quais passou a humanidade, sempre com o objetivo de levantar o que o planeta Vênus simbolizou nesses períodos, nosso interesse se fixa naquele momento em que o homem começou a se sedentarizar. Na passagem do período paleolítico para o neolítico, como se sabe, a agricultura começou a ter um significado muito importante para as populações que até então tinham vivido segundo uma economia predadora e coletora. 

A vida agrícola começou a fixar o homem à terra, fato que provocou uma crise com relação aos valores do período anterior.
Isto significou sobretudo que as relações religiosas com o mundo animal foram fortemente abaladas, surgindo uma solidariedade mística entre o homem e a vegetação. Com isto, a mulher e a sacralidade feminina passam ao primeiro plano. A fecundidade da mulher e a fertilidade da terra são solidárias. A fertilidade terra é, por excelência, um tema feminino. O solo fértil se assemelha à mulher. Penetração do arado na terra e ato sexual se equivalem. Criam-se novas instituições que vão refletir a nova situação, todas consagrando o poder feminino. 

Um simbolismo complexo  relaciona a mulher e a sua sexualidade aos ritmos lunares, à Terra como matriz, ao mundo vegetal. Todos os valores religiosos que surgiram mudaram conceitos, falando-nos, por exemplo,  do tempo ciclicamente, da vida, da morte e do renascimento. A renovação periódica do mundo era, como se constatou, um fenômeno tipicamente feminino.

Receptáculo da vida, matriz na qual se concebe o mundo animado, sempre associado às águas originais, a figura da Grande Mãe aparece em todas as tradições e sob uma grande multiplicidade de aspectos. Os mitos fixam como personagem desse período histórico as chamadas Grandes-Mães, de caráter universal, para conferir ao cosmos as propriedades femininas da presença primeira, nutricional e protetora.



segunda-feira, 19 de novembro de 2012

PLATÃO, PROMETEU E A MITOLOGIA



PLATÃO
Corrente filosófica derivada do pensamento de Platão,  caracterizada pelo dualismo corpo-alma, pelo primado da ideia sobre o mundo percebido, pela desconfiança com relação às representações que o homem faz  do mundo na medida em que ele, o mundo sensível, é uma degradação do mundo divino, o mundo das ideias, o platonismo é uma das tradições centrais do pensamento ocidental. Para o idealismo platônico, a matéria é sempre uma manifestação ilusória, incompleta ou simples imitação imperfeita de uma matriz divina.

Platão desenvolveu seu pensamento através de um gênero filosófico vivo e dinâmico, o diálogo, forma expositiva herdada talvez do pensamento oriental. Em vinte oito diálogos autenticados como seus, ele abordou, com um estilo impecável e refinado, praticamente todos os grandes problemas filosóficos e metafísicos da história da filosofia, indo do discurso racional à linguagem poética, das questões políticas aos problemas da arte e muito mais.

SÓCRATES
Em muitos dos seus textos encontramos uma declarada aversão pelos poetas. Considerava-os mentirosos, fantasistas, perigosos. Eles não habitariam a “cidade justa” do filósofo. Sócrates, em A República, famoso diálogo platônico, afirmou que a polis só seria justa se governada pelos que fossem capazes de cultivar a filosofia. Só aqueles capazes de alcançar o que era imutável e eterno e não ficassem presos à multiplicidade, ao variável, é que poderiam governá-la. O mundo material para Platão era uma manifestação ilusória, incompleta ou mera imitação imperfeita de uma matriz original constituída de formas ideais inteligíveis e intangíveis.

Platão, lembremos, nasceu em Atenas em 428 e morreu em 347 aC. Seu verdadeiro nome era Aristoclês. Por causa de seu porte atlético, de seus ombros largos, ganhou o apelido de Platão. Recebeu uma educação das mais cuidadas, dedicando-se, antes da filosofia, à poesia e ao teatro, à tragédia especialmente.

Por  volta dos vinte anos, conheceu Sócrates, entregando-se a partir de então, com grande paixão, à filosofia, permanecendo ao lado de seu mestre até 399 aC, data de sua morte. Militou nas fileiras do partido aristocrático, mas logo se desiludiu com as mesquinharias e a corrupção do jogo político. Entregou-se então inteiramente ao estudo e à filosofia.  Viajou muito, visitando Megara para conhecer  Euclides, o Socrático. Foi ao Egito e à Sicília (onde viveu na corte de Denys de Siracusa) e, provavelmente,  à Ásia Menor, Creta, à Itália do sul, onde conheceu o pitagorismo com Archytas de Tarento. Há uma história, não confirmada, de que por causa de atritos com o referido Denys, teria sido vendido como escravo e depois resgatado por Dion, político grego, tio daquele.


ACADEMIA

Ao retornar  em 387 aC, Platão começou a ensinar filosofia na periferia de Atenas, nos jardins onde ficava a Academia, às margens do rio Cefiso, perto do local onde o herói Akademos tinha o seu túmulo. Akademos (hekas, longe, distante; demos, povo) é aquele que “age independentemente do povo”. Foi um herói mítico ático que revelou aos Dioscuros (Cástor e Polideuces, os gêmeos, filhos de Zeus) o lugar onde Teseu havia escondido Helena, por ele raptada. A Academia ficava além do bairro Cerâmico, perto do cemitério de Atenas. Mais tarde, chamado de volta à Sicília por Dion, logo retornou a Atenas. Platão morreu octogenário, legando a sua fortuna e a direção da Academia a seu sobrinho Speusippe.


Em A República, Platão coloca as elaborações míticas muito próximas da
HESÍODO
mentira: Narrar um mito é contar algo falso, ainda que no seu interior exista alguma verdade. Em Górgias, Platão rotula o mito como história para crianças, contos da carochinha (mythos graos). É em A República que ele procura desenvolver uma análise dos mitos. Condena Homero, Hesíodo e os poetas órficos, pois “atentavam contra a moral e a dignidade humana”.

Vários trabalhos foram escritos ao longo dos séculos sobre a posição de Platão com relação à mitologia e também sobre o seu desembaraço em se apropriar dos mitos, que tanto condenou, na medida em que eles serviam para ilustrar os seus pontos de vista, deformando-os, reinventando-os inclusive.

Para Platão, o mito era ficção, o que os aproximava por isso da  parábola e da alegoria. Ficção, como se sabe, é ato ou efeito de fingir, criação fantástica, farsa. Parábola (para, ao lado; ballein, lançar; pôr em paralelo), é mensagem indireta transmitida por meio da comparação, da analogia. Alegoria (allos, outro; egor, falar), falar de uma coisa, mas referindo-se a outra. Para Platão o mito não podia ser usado como um método válido para se alcançar a verdade, embora pudesse ser objeto de uma forte adesão interior, como no caso dos mitos escatológicos, por exemplo.

O mito era também perigoso para Platão porque  tinha um sentido oculto. Precisava ser ultrapassado, decifrado, interpretado. Era aberto a múltiplos níveis de significação. Ou seja, o mito “não afirmava a verdade, oferecia sentidos.” Era, como tal, uma “outra” representação. Evocava, sugeria, falando tanto à inteligência quanto à imaginação, o que sempre podia causar muita confusão. Para Platão, o mito, em suma, era um retorno ao pré-lógico.

Obras como as de Victor Brochard (Les Mythes dans la philosophie de Platon) e Luc Besson (Platon, les mots et les mythes), publicadas no último século, não nos ajudaram muito a entender as teorias de Platão sobre os mitos e muito menos explicam a contento porque ele, que tanto os combateu, os usou da maneira como o fez, modificando-os, falseando-os.

Foram sobretudo os diálogos de Platão (A Apologia de Sócrates, Criton, Phedon, O Simpósio e Theeteto) que contribuíram para fazer de Sócrates, do qual não temos obra alguma, um mestre do pensamento e um dos pais da filosofia, o pensador capaz de despertar os espíritos para a reflexão graças à sua ironia e à sua maiêutica, a sua arte de dialogar. O essencial da filosofia socrática consistia, como se sabe, em sua fé na razão humana, pela qual o homem poderia atingir o conhecimento de si mesmo e a felicidade. Conhece-te a ti mesmo e Ninguém é mau voluntariamente  eram frases usadas por Sócrates, segundo Platão.

Deixando de lado a questão de Sócrates ter existido ou não, de ter sido um personagem “inventado” (um mito?) ou um ser historicamente determinado, de sabermos onde começa Sócrates e termina Platão, tomemos um mito usado por este último para ilustrar o que aqui se diz: o mito de Prometeu, como foi apresentado em Protágoras, diálogo em que Sócrates e os sofistas discutem sobre a questão de ser possível ou não se ensinar a virtude.

Eis o mito de Prometeu como Platão o narrou. Retirei-o de “Platon, Oeuvres complètes”, Bibliotèque de la Pléiade, NRF:

 “Era o tempo em que os deuses já existiam, mas não as raças. Quando chegou o momento marcado pelo destino para o seu nascimento, os deuses modelaram-nas no interior da Terra, com uma mistura de terra e de fogo e de todas as substâncias que podem se combinar com o fogo e a terra. Depois, quando decidiram trazê-las à luz, eles ordenaram a Prometeu e a Epimeteu que as dotassem de qualidades, distribuindo-as a cada uma delas como conviesse. Epimeteu pediu a Prometeu que o deixasse fazer sozinho tal distribuição: ”uma vez feita por mim tal distribuição, disse ele, tu a verificarás depois”. Aquiescendo Prometeu, Epimeteu se pôs ao trabalho. Ao distribuir as qualidades, ele deu a certas raças a velocidade sem a força; a algumas, mais fracas, dotou de rapidez; a outras ele concedeu armas; para aqueles desarmados por  natureza, inventou alguma outra qualidade que lhes permitisse assegurar a sua salvação. Às raças de pequena altura, concedeu-lhes a possibilidade de uma fuga alada ou a vida num habitat subterrâneo. Aquelas que foram dotadas de elevada altura, era por essa qualidade mesma que se salvavam. Assim, com relação a todas, a distribuição que procurou fazer consistiu em igualá-las quanto às oportunidades e, no que dissesse respeito ao que imaginou, tomou precauções para que nenhuma delas se extinguisse.

 Assim, depois de lhes haver  dado meios de escapar de ações destrutivas recíprocas, imaginou para cada uma delas defesas adequadas contra as variações de temperatura que vinham de Zeus: vestiu-as com uma espessa pele e sólidas carapaças, próprias para protegê-las não só do frio, mas também das altas temperaturas; sem contar que, quando fossem se deitar, tal proteção constituir-se-ia  também numa coberta individual e parte de cada uma; elas calçariam um tipo de tamanco feito de chifre ou de couro, sólido, sem sangue. Depois disso, forneceu-lhes alimentos próprios a cada uma delas: para algumas, a erva que crescia da terra, para outras, os frutos das árvores, para outras, raízes; a algumas consentiu que seu alimento fosse a carne de outros animais e lhes atribuiu uma fecundidade restrita, enquanto atribuía uma fecundidade abundante  àquelas que corriam o risco de ter o seu número diminuído e dessa forma garantindo a salvação de suas espécies.

Mas, como Epimeteu não era muito atento, não se deu conta que, depois de ter gasto o tesouro das qualidades em benefício dos seres privados de razão, restava-lhe ainda a raça humana que não fora absolutamente dotada; e ele estava preocupado com relação ao que fazer. Ora, enquanto assim se preocupava, eis que chegou Prometeu para fazer o devido controle; ele viu os animais adequadamente dotados, sob todos os aspectos, enquanto o homem ficara completamente nu, descalço, sem cobertas, desarmado. O momento do homem sair do interior da Terra em direção da luz já havia chegado. Então, Prometeu, atarantado, sem saber que meio encontrar para salvaguardar o homem, roubou de Hefesto e de Athena o gênio criador das artes, isto é, o fogo (pois sem o fogo ninguém poderia  adquirir e muito menos utilizar este gênio criador); e foi procedendo assim que Prometeu deu ao homem o seu presente. Eis então como o homem adquiriu a inteligência que é aplicada às necessidades da vida. Mas ele, o homem, não possuía a arte de administrar as Cidades! Esta arte, com efeito, estava com Zeus. Mas não era mais possível a Prometeu penetrar na acrópole habitada por Zeus, sem falar das temíveis proteções que envolviam o próprio Zeus. Então, Prometeu penetrou sub-repticiamente na oficina que era comum a Athena e Hefesto, onde os dois praticavam suas artes, e, depois de ter roubado a arte de se servir do fogo, domínio de Hefesto, e as artes restantes, domínio de Athena, fez delas presente ao Homem. É deste fato que resultam para a espécie humana os confortos da vida, mas, posteriormente, para Prometeu, com a instigação de Epimeteu, resultou uma perseguição por ter sido o autor do roubo!

Ora, desde que o homem teve a sua parte do lote divino, foi, primeiramente, o único animal a crer nos deuses; pôs-se a construir altares e imagens. Em seguida, logo começou a articular artisticamente os sons da sua voz e as partes do seu discurso. As habitações, as roupas, os calçados, os agasalhos, os alimentos tirados da terra foram, depois disso, suas invenções. Assim que os homens se equiparam dessa maneira, no começo, viviam dispersos. Não havia cidades; em consequência disto, eram destruídos pelos animais selvagens, pois, de toda maneira, eram mais fracos; e se o produto de suas artes lhes garantia o suficiente para o seu sustento, não lhes dava ele meios de enfrentar os animais, pois não possuíam ainda a arte política da qual a guerra é uma parte. Assim, eles procuraram se agrupar e, fundando cidades, garantir a sua salvação. Mas, quando se agrupavam, cometiam injustiças uns aos outros, precisamente por não possuir a arte de administrar as cidades. Sendo assim, espalhavam-se novamente em várias direções e eram dizimados. Foi então que Zeus, temendo o desaparecimento total da espécie humana, mandou Hermes levar aos homens o sentimento do pudor e da justiça, a fim de que tais sentimentos fossem o atributo das cidades e os liames pelos quais criar-se-iam as amizades. Neste ponto, Hermes perguntou a Zeus de que maneira enfim ele daria aos homens tais sentimentos: será também preciso que eu faça entre eles a distribuição da mesma maneira que foram distribuídas as disciplinas especiais? Ora, eis como tal distribuição havia sido feita: um único indivíduo, que é um especialista da medicina, basta para um grande número de indivíduos  estranhos a esta especialidade; o mesmo acontece para as outras profissões. Bem! Será necessário que eu estabeleça desta maneira os sentimentos da justiça e do pudor  entre a humanidade? Ou será preciso que eu os distribua indistintamente a todos? 

“A todos indistintamente”, respondeu Zeus, e que o sejam no número dos que participam destes sentimentos! Não haveria, com efeito, cidades se apenas um pequeno número de homens, como é, aliás, o caso com relação às disciplinas especiais, participasse destes sentimentos. Além disso, institui mesmo em meu nome uma lei, segundo a qual, será condenado à morte, como se fosse para o corpo social  uma doença, aquele que não for capaz de participar dos sentimentos do pudor e da justiça.”


HEFESTO E ATHENA DE BORDONE

Em síntese, o que temos neste diálogo, também chamado de Os Sofistas, através do mito de Prometeu à maneira de Platão,  é uma história sobre origem das espécies vivas. Epimeteu, na repartição das qualidades por essas espécies, esqueceu-se do homem. Com a intervenção de Prometeu, uma correção é introduzida. Ele roubou o fogo e com ele as habilidades de Athena e de Hefesto, deuses aqui considerados como “tecnocratas”, dando-o de presente ao homem, que assim se civilizou. Por essa ação,  Prometeu será perseguido pelos deuses. Ficou faltando ao homem a arte política, que era de Zeus. Os homens aprenderam a emitir sons, a articular seus discursos, mas viviam dispersos, embora tivessem construído templos e cultuado a imagem dos deuses. Fundaram cidades, mas lesavam-se mutuamente. Zeus, temendo que eles se destruíssem, enviou Hermes para lhes dar o pudor e a justiça, que deveriam ser distribuídos entre todos os homens, como ordenou o Senhor do Olimpo. Aqueles que fossem incapazes de compartilhar tanto um como outro sentimento deveriam ser entregues à morte, pois seriam como doenças envenenando o corpo social.


SOFISTAS

O mito de Prometeu, narrado desta forma, Platão o pôs nos lábios de Protágoras, o sofista. Platão, como se disse, era um inimigo figadal desses  filósofos, para os quais o que interessava era o homem perdido na imediatez do mundo, o problema da sua subjetividade, uma rebelião contra a metafísica, uma afirmação do concreto e do particular. O homem como medida de todas as coisas era uma das máximas da sofística. Para Platão o que interessava era o Homem; para os sofistas, ao contrário, só havia homens, situados histórica e geograficamente. Contra este modo de pensar, Sócrates, isto é, Platão, falava de uma ordem moral objetiva, de verdades absolutas.

PROTÁGORAS
Platão faz então Protágoras, o “inimigo” de Sócrates, distorcer a história de Prometeu para defender os seus pontos de vista. No discurso de Protágoras o que temos é o fogo, símbolo da inteligência humana, como impulsionador da civilização, e o homem fazendo a sua história. De um lado a valorização da técnica e, de outro, a da vida social. Protágoras põe em relevo o cidadão, o homem que com a técnica se transforma em agente da história. Platão, com se sabe, em sua cidade ideal, aristocrática, não reservou para essa “nova classe”, pragmática e utilitarista, que tem origem nas propostas dos sofistas, um lugar de destaque. Em Protágoras, Platão procura deixar claro que uma coisa é saber (filosofia) e que outra é saber fazer (sofística).
 

Hesíodo, quase quinhentos anos antes de Platão, havia fixado de modo bem diferente o mito de Prometeu em sua “Teogonia”. Em linhas gerais, o resumimos aqui, incluindo alguns dados e comentários para a sua melhor compreensão: Prometeu e Epimeteu, gêmeos, pertenciam à raça dos titãs, eram filhos de Jápeto e de Clímene; Atlas e Menécio eram os outros irmãos. Quando da luta entre a segunda dinastia divina (titãs) e a terceira (olímpicos, chefiados por Zeus), Prometeu tomou o partido destes últimos. Agradecidos, os olímpicos, vencedores, o admitiram no Olimpo.

Zeus, com o tempo, resolveu acionar um plano que alimentava há muito: a destruição dos humanos, raça oriunda da segunda dinastia divina, do reino de Cronos, seu pai, pois eram criaturas inferiores,  Aniquilá-los através de um dilúvio. Assim foi feito, mas Prometeu conseguiu salvar seu filho Deucalião, que era casado com  Pirra, a Vermelha, sua prima, filha de Epimeteu. Salvo o casal, em pouco tempo a Terra voltou a se povoar, uma nova raça humana fora criada.

Logo se reiniciaram as disputas entre os humanos e os deuses. Por sugestão de Prometeu, foi promovida uma reunião entre as duas partes na Terra, em Mecone, na qual, por motivos jamais esclarecidos, Prometeu  resolveu enganar seu primo, o Senhor do Olimpo. Para a reunião, um enorme boi havia sido dividido em duas partes. Numa, as carnes e as entranhas do animal, cobertas com o seu couro; noutra, os ossos, encobertos pela gordura. Coube a Zeus, a pedido de Prometeuescolher inicialmente a sua parte. Ele optou pela que parecia a todos a mais apetitosa, a última mencionada, pois carnes e gorduras sempre andam juntas. Zeus logo percebeu que fora enganado. Tomado por imensa cólera, Zeus resolveu privar os humanos do fogo, tecnologia que eles mal controlavam, fazendo-os dessa maneira regredir à animalidade, imbecilizando-os (anoetos). A reunião de conciliação proposta por Prometeu terminara, um grande fracasso...



Prometeu resolveu  então intervir novamente; foi aos céus e roubou uma centelha do fogo do deus Hélio, o Sol, trazendo-a para a Terra, escondida dentro do galho oco de uma figueira. Com o fogo, os humanos se reanimaram; aos poucos foram deixando a vida animal, recuperando a inteligência de forma diferente, começaram a produzir bens como nunca o haviam feito antes.



O revide de Zeus veio prontamente. Mandou prender Prometeu nas montanhas do Cáucaso. Acorrentado por Hefesto, seu fígado era destruído diariamente por um abutre monstruoso, filho de Tifon e de Équidna; à noite, quando a ave se ausentava,  a glândula se recompunha. Para castigar os homens, Zeus inventou uma punição terrível, um mal que por eles seria desejado e amado ao mesmo tempo. Enviou Zeus uma tentação irresistível, a mulher, provocando com isso a irremediável divisão dos sexos,  Pandora, “mal  tão belo”,”presente de todos os deuses”.


                                   
                                              HERMES, EPIMETEU E PANDORA


Ela e os benefícios do fogo vieram juntos, tornando-se assim a mulher o preço do fogo. Pandora desceu assim como um presente dos deuses para simbolizar o fogo dos desejos que tanta infelicidade causaria aos homens.


 Nas mãos, ela trazia uma jarra; dentro dela, os espectros infernais do Jardim de Perséfone, todos os males com os quais desde então a humanidade vem se havendo, dores, misérias, doenças, violência, mentira, corrupção, inveja, velhice, pestes, catástrofes etc. Recebida por Epimeteu (o que sabe sempre depois), apesar da advertência do irmão para que nada aceitasse dos deuses, a jarra foi aberta, dela escapando todos os mencionados males, com  exceção de um, a esperança, que passou a ser tida por quase toda a humanidade como algo muito positivo. Como logo se constatou, porém, a esperança  se constituiu talvez no maior dos males, pois foi a partir desse momento que o presente (só ele é eternamente real) deixou de ser vivido pelos humanos.

Foi por suas intervenções a favor dos humanos que Prometeu recebeu o apelido de filantropíssimo, o muito amigo dos homens. Sob o ponto de vista dos deuses, porém, Prometeu foi um criminoso, um ser perigoso, que roubou um segredo divino e o entregou aos humanos. Entrando na posse do fogo, entusiasmados, os humanos logo esqueceram a origem divina do elemento. Usaram-no exclusivamente para produzir bens materiais. Ao invés de usá-lo também espiritualmente, como agente fecundante, purificador e regenerador, como meio de iluminação que conduzisse a uma vida superior, passaram a vivê-lo tão só como desejo, paixão, velocidade, violência, corrupção, como gerador de conquistas, de riquezas e de guerras. O fogo se tornou incontrolável, apenas um fator de progresso material. De celeste que era inicialmente, o fogo acabou por se tornar infernal na mão dos humanos, transformado em fonte de revolta e de regressão psíquica. Por isso a humanidade progride tanto materialmente, tecnicamente, mas regride cada vez mais moralmente, socialmente.

HÉRCULES
A punição de Prometeu, determinada por Zeus, deveria mantê-lo preso a um sofrimento eterno, agrilhoado às rochas. Hércules, entretanto, quando do seu terceiro trabalho, ao passar pelas montanhas do Cáucaso, ouviu os seus gritos. Dele se apiedou e matou o monstruoso abutre que lhe destruía o fígado a flechadas, libertando o filantropíssimo titã. Com a aquiescência do próprio Zeus, que desejava ampliar o seu renome de divindade magnânima e generosa, como diz Hesíodo, tudo acabou bem. Uma condição, contudo, foi imposta por Zeus: Prometeu ficaria obrigado até o final dos tempos a carregar no tornozelo uma argola, confeccionada com o metal dos seus grilhões, à qual se prenderia um fragmento da montanha onde estivera acorrentado. Com esta exigência, Zeus não só reafirmava a sua autoridade como impedia que o titã esquecesse o seu crime...

Prometeu é, sem dúvida, um dos mais contraditórios, ambíguos e paradoxais personagens da mitologia grega. Num momento, ao que parece omisso com relação ao destino dos seus irmãos titãs ou desprezado por eles, ajudou os olímpicos; depois, insurgiu-se contra Zeus, com quem havia se unido, a autoridade suprema;  logo em seguida, procurou se envolver num discutível e utópico projeto político, a salvação da humanidade, mas cometendo erros incompreensíveis, que comprometeram o seu intento, levando-se em conta, sobretudo, que ele era ”o que sabia antes”, “o de juízo previsor”.

 
ELPIS
   O mito, como se disse, nos conta que Epimeteu e Pandora conseguiram fechar a jarra por esta última trazida, retendo apenas uma entidade chamada “Elpis”, a Esperança. Ao conservá-la como um valor positivo, os humanos, como logo se viu, perderam o presente, isto é, deixaram de vivê-lo para se projetar em direção do futuro, expectantes, angustiados, frustrados sempre, como a experiência sempre demonstrou. Uma das consequências mais danosas decorrentes da conservação de Elpis foi também a perda da dimensão  física do presente por grande parte da humanidade, que passou a viver tão somente em termos de projeções mentais, construindo mapas de territórios inexistentes. Elaborações puramente mentais, sendo um de seus melhores exemplos o tema filosófico da utopia (como a própria República de Platão), palavra que etimologicamente significa, como se sabe, “em lugar nenhum”.

ÉSQUILO
      
 A literatura filosófica e a arte vêm produzindo ao longo dos séculos numerosas obras nas quais a figura de Prometeu, o titã, é evocada. Na antiga Grécia, além de Hesíodo, foi Ésquilo, o primeiro dos poetas trágicos, a escrever sobre ele, a tragédia Prometeu acorrentado. Ésquilo (525-456 aC) é, com todo os méritos, o fundador do teatro grego. Das suas noventa peças só sete chegaram até nós. No seu teatro, o coletivo sempre superou o individual, a polis e os deuses sempre venceram.  A fatalidade sempre esmagou o homem, pois ele tendia a ultrapassar o seu metron, como Prometeu o fez com relação aos deuses. Mais ainda: a falta de um recaía sobre todos. A lição de Ésquilo é a de que todos devem gemer. Ou seja: sofrer para compreender. Honrado por Aristóteles, cinquenta anos depois de sua morte, como grande moralista, Ésquilo tornou-se lenda, um símbolo do pensamento ético. A sua estátua ornava o teatro de Dioniso em Atenas. Poetas, pensadores e dramaturgos de todos os tempos, como os modernos Percy Shelley, Karl Marx e Eugene O'Neill usaram as obras de Ésquilo como motivação de sua própria criatividade.

O teatro de Ésquilo se dirige para as questões universais, para as questões humanas mais graves, problemas sociais, como a natureza da justiça. Escreveu sua obra quando as instituições políticas da polis (Atenas) ainda não se haviam firmado de todo. Não havia no teatro de Ésquilo lugar para “aventuras” individuais como as que Sófocles pôs em seu teatro (Édipo). Seu Prometeu era um “revoltado” contra o sistema e, como tal, devia ser punido. Para Ésquilo, o castigo de Prometeu tinha a finalidade de fazê-lo “retroceder na sua atitude demasiado favorável aos humanos.” Na tragédia esquiliana, Hefesto, ao aprisioná-lo, embora se sinta indeciso entre a sua simpatia por um parente e o temor a Zeus, lhe diz: Pois tu, que és um deus, não só desafias a cólera dos deuses como ainda deste aos mortais honras indevidas.

     
BYRON
                                                                                     
Ésquilo, contudo, não chegou a fazer de Prometeu, como Hesíodo, uma
GOETHE
espécie de “promotor” da decadência da humanidade, apenas o responsável pela vinda de Pandora, a mulher, “o mal tão belo”... Em Ésquilo, Prometeu assume a sua revolta, bate de frente contra os deuses (Zeus), os amaldiçoará e anunciará o seu fim, como os germânicos o farão com o seu Ragnarok (Crepúsculo dos Deuses). As correntes humanistas modernas, filósofos e artistas dos séculos XVIII e XIX, de inspiração romântica, Goethe, Michelet, Byron e outros, trarão o tema prometeico para o primeiro plano em suas produções, sempre enfatizando o seu lado “demasiadamente humano”, progressista e técnico.

Platão, ao se apropriar do mito de Prometeu, esvaziou-o, rebaixando-o de certo modo, transformando Prometeu, na fala de Protágoras,  num “produto” dos sofistas, patrono do homo faber e do homo politicus. O mito do titã tem uma dimensão bem maior, outras implicações, conforme podemos sacá-las das “leituras” que dele fizeram Hesíodo, Ésquilo e muitos outros.

Platão sempre desvalorizou as técnicas diante do conhecimento filosófico. Para ele, as classes que compõem o Estado deviam corresponder às três partes da alma individual. À parte concupiscente da alma corresponderia a classe dos produtores (artesãos, comerciantes, agricultores etc.), voltada para a produção de bens, para os ganhos materiais. A segunda parte da alma, a irascível, seria a dos guerreiros, valentes e audazes. A parte racional da alma corresponderia à classe governante, de onde sairiam os sábios, os únicos que conheciam a verdade e o bem.

APOLO
 Quando Platão proclamou os deveres de um verdadeiro legislador foi a   Apolo                                                                                                                  
DIONISO
que ele o enviou para se inspirar. Para Platão, é Apolo a divindade  inspiradora das mais importantes, belas e primeiras leis, as que dizem respeito à fundação dos templos, aos sacrifícios, ao culto dos deuses, aos heróis, aos antepassados. Apolo, o deus da aristocracia ateniense, através de seu oráculo, era para Platão o guia do gênero humano. Platão, lembremos, nos falava disso tudo num  período histórico da Grécia (Atenas) chamado de clássico, um período que se pretendeu eterno como tantos outros,  um período de esplendor e apogeu, que, como tantos outros, porém, teve fim, se foi, diante das irrefreáveis forças dionisíacas, no eterno jogo dialético dos contrários, da construção e da destruição...

Sabemos que Platão, como está em A República, não considerava a democracia um regime político ideal. O fundamento da sua doutrina política é moral e religioso. A perfeição moral consistia para ele na harmonia das três partes da alma. Cabia à polis, isto é, ao Estado, a tarefa de fazer com que em cada indivíduo esta perfeição moral se realizasse. Ele deve ser a “suprema vontade” a exigir obediência e respeito, sem ser coercitivo. Assim, o Estado, exemplo de justiça, de beleza e de bondade, seria uma realização terrena da civitas ideal, uma antecipação da felicidade celestial. Daí, pois, o Estado para Platão ser uma entidade dedicada a fins transcendentes. A harmonia platônica tem, politicamente, bases morais e espirituais e não materialistas ou econômicas.

A polis grega (Atenas), entre os séculos V e IV aC, tinha por base três princípios: eleuteria (independência), autonomia (poder próprio) e  (autogestão). Nesse período, esses três princípios chegaram a um razoável equilíbrio, criando um regime político que se denominou então de “democracia”, porque a sua proposta era a da liberdade dos cidadãos e a da eliminação (na realidade, uma leve atenuação) das diferenças entre as classes sociais.

Teoricamente, falava-se muito em igualdade perante a lei, em liberdades individuais, em filantropia, traduzindo esta em melhoria da situação econômica dos segmentos sociais que até então não haviam tido a mínima representatividade política na polis. Na teoria, tudo bem, mas na prática é que estavam os problemas, os insolúveis problemas. A aristocracia grega evidentemente não implantaria uma política dessa natureza à custa de seu patrimônio e privilégios. Para tolerar o acesso desses segmentos a níveis econômicos mais elevados a saída estava na manutenção de uma política externa agressiva, colonialista, imperialista.

Além do mais, em que pesem as boas intenções dos discursos democráticos, para se manter a polis funcionando, era preciso manter uma população de escravos, destituídos de quaisquer  direitos civis. Para que a aristocracia pudesse se dedicar às coisas públicas, à vida na “agora”, à política e à arte, não precisando se envolver com as pesadas tarefas cotidianas, era preciso manter uma grande estrutura. Os gregos tinham um verbo, politeyesthai, que significava “tomar parte nos negócios públicos”. Evidentemente, só quem o conjugava eram os eupátridas, os bem nascidos. Esse verbo também admitia um outro sentido, muito simples, “viver”. Ou seja, só quem “vivia” eram os eupátridas, os que participavam da vida púbica na pólis. Eram aproximadamente 40 mil, 140 mil com os familiares.

  O número de escravos precisava, por outro lado, ser ao mesmo tempo suficientemente grande e limitado para que a aristocracia não ficasse desservida e para que se afastassem as possibilidades de sublevações, greves e revoltas, sempre de difícil controle. O número de escravos, no período mencionado, andou por volta de 250 mil. Se a esse número acrescentarmos o de 70 mil, no qual se incluem os metecos (estrangeiros), privados da posse de terras e do direito de casamento com uma ateniense, mais os artesãos (industriais), comerciantes, professores, artistas, funcionários públicos de baixa categoria, endividados de todo o gênero, prisioneiros, todos sem direitos políticos, desprezados pela aristocracia, teremos números bastante significativos.

Na democracia ateniense dos sécs. V e IV aC, os sofistas desempenharam um papel importante, pois foram eles que forçaram a mudança do discurso político sobre o problema moral. O contacto com outras culturas, com leis e costumes diversos, foi também um poderoso fator  estimulante para que aumentasse a participação, na administração pública, de representantes de alguns segmentos sociais que até então dela nunca haviam feito parte. Essa participação, inclusive na atividade legislativa, convenceu os gregos do caráter humano das leis e das instituições sociais. As antigas leis, de caráter divino e eterno,  começam a mudar. Com os sofistas, as leis, como tudo o mais, são relativas e são os homens que as estabelecem. São altamente convencionais, devem ser fixadas através de discussões, debates, acordos.

Não há, por isso, uma verdade objetiva universal válida igualmente para todos como também não pode haver uma moral verdadeira para todos. Entenda-se: Moral (mos, moris, em latim, é etimologicamente vontade de alguém, desejo, capricho) é o conjunto de valores individuais ou coletivos, considerados universalmente como norteadores das relações sociais e da conduta dos homens. Na Filosofia, é cada um dos sistemas variáveis de leis e valores estudados pela Ética, caracterizados por organizarem a vida das múltiplas comunidades humanas, diferenciando e definindo comportamentos proscritos, desaconselhados, permitidos ou ideais.

 Os gregos, lembro, davam o nome de Ethos ao conjunto dos costumes e hábitos fundamentais, no âmbito do comportamento (instituições, afazeres etc.) e da cultura (valores, ideais ou crenças) característicos de uma determinada coletividade, época ou região.

Platão fez de Prometeu, decididamente, o patrono da desagregação da antiga ordem social fundamentada nos valores  aristocráticos, apolíneos, um agente dionisíaco, um sofista. Os novos tempos da democracia ateniense consolidaram o poder do logos, trazendo  ironias ou a indiferença de filósofos com relação aos mitos e aos poetas.

                                          
       
Os tempos modernos recuperaram a imagem de Prometeu. A poesia (Voltaire, Schelling, Herder, Byron), as artes plásticas (Ticiano, Rubens, Bocklin) e a música (Beethoven, Liszt, Orff) fizeram dele um símbolo da revolta do pensador ou do artista criativo contra um destino que o quer esmagar. Culturalmente, o ocidente, desde o Renascimento, fez dele uma figura de referência para simbolizar também a sua decidida vontade de “roubar” os segredos do Universo, do Céu e da Terra (antes só ao alcance da aristocracia), para colocá-los, a altíssimo preço, ao alcance de todos; uma vontade que parece não conhecer limites.

É por essa razão que alguns denominaram o período em que os sofistas atuaram na filosofia grega de o do “iluminismo grego”, numa clara referência ao movimento que no final do séc. XVIII procurou, através da Enciclopédia, fazer um quadro geral de todos os esforços do espírito humano, nele se dando um grande espaço à técnica, às artes mecânicas e aos ofícios, para enfatizar a dignidade do técnico, do artesão, e sua utilidade social.

 Prometeu é hoje, sem dúvida, o herói dos tempos modernos. Somos, em grande parte, o resultado dessa grande “ideia” grega, que atravessou séculos, uma ideia instigante, transformadora, e, ao mesmo tempo, causadora de muitas angústias e sofrimentos. O fogo que Prometeu deu aos humanos vem lhes proporcionando importantes conquistas  e, ao mesmo tempo, muitas perdas e derrotas.
ADÃO E EVA  (DÜRER)

O mito de Prometeu representa, segundo uma perspectiva evolutiva da história do ser humano, o despertar da consciência. Do ponto de vista divino, porém, uma queda, como a representaram, por exemplo, os poetas bíblicos quando nos descreveram o episódio em que Adão e Eva, por terem comido o fruto da árvore da ciência (figueira), foram expulsos do Paraíso. Recordemos que foi no galho oco de uma figueira, nele escondido, que Prometeu trouxe o fogo dos céus. A figueira (ficus religiosa) é a árvore do fogo, consagrada na Grécia a Palas Athena e a Hefesto, divindades ligadas às artes técnicas (*).
                                       
FICUS RELIGIOSA

Muitas são as interpretações do tema prometeico. Uma delas, muito sugestiva, irônica, completa, fechada, esquecida (porque ninguém hoje lê mais poesias), foi a que encontrei em Murilo Mendes, poeta brasileiro (1901-1975), retirada do seu livro O Visionário. Intitula-se o poema Novíssimo Prometeu:

Eu quis acender o espírito da vida,
Quis refundir meu espírito molde,
Quis conhecer a verdade dos seres, dos elementos;
Me rebelei contra Deus,
Contra o papa, os banqueiros, a escola antiga,
MURILO MENDES (ISMAEL NERY)
Contra minha família, contra meu amor,
Depois contra o trabalho,
Depois contra a preguiça,
Depois contra mim mesmo,
Contra minhas três dimensões:
Então o ditador do mundo
Mandou me prender no Pão de Açúcar:
Vêm esquadrilhas de aviões
Bicar meu pobre fígado,
Vomito bílis em quantidade,
Contemplo lá embaixo as filhas do mar
Vestidas de maiô, cantando sambas,
Vejo madrugadas e tardes nascerem
- Pureza e simplicidade da vida! –
Mas não posso pedir perdão.”


(*) – Ashavattha, em sânscrito, era o nome que na antiguidade védica se dava à “ficus religiosa”, grande árvore de raízes aéreas. Já era usada como símbolo religioso em Mohenjo Daro e Harappa (3.000 aC), cidades do vale do rio Indus, em ruínas quando as tribos árias chegaram à região por vontade de 2.000 aC.

Duas etimologias podem ser estabelecidas para a palavra: 1) tha, em sânscrito, quer dizer permanecer, ficar; ashva é cavalo. Ou seja, a “árvore sob a qual os cavalos se aquietam”. Liga-se o nome na Astrologia védica (Jyotish) ao signo de Mithuna (Gêmeos). Os Gêmeos, na Índia, têm o nome de Ashwins (Castor e Polideuces, os Dioscuros na mitologia grega) e são as divindades que fazem nos céus a transição das trevas noturnas para a luz, antecedendo o Sol (Surya). Este, como símbolo da vida consciente no ser humano, deve caminhar em direção do Brahman (O Todo) espiritualmente.

Com os Ashwins vem Ushas, a deusa da Aurora (Eos entre os gregos). Os Ashwins são deuses cavaleiros, têm domínio completo de sua montaria e exercem diversas funções no mito, dentre elas a arte médica. São divindades curadoras, pois controlam os cavalos, símbolo do psiquismo inconsciente.

A segunda etimologia se compõe de a, partícula que indica negatividade em sânscrito;  de shwa, que quer dizer amanhã; e de “tha”, que quer dizer permanecer, ficar. “Ashavattha” significaria, pois, aquilo que nunca permenece o mesmo de um dia para o outro, isto é, o transitório. Na filosofia hinduísta (darshanas), ashavattha é o mundo fenomênico, perecível, aquilo que dura muito pouco, o mundo de Maya, o mutável, o instável, “o que não permanece o mesmo de hoje para amanhã.”

Na tradição hinduísta, principalmente nos Upanishads e no poema Bhagavad Gita (integrado ao épico Mahabharata), ashavattha é a árvore invertida que se identifica com o eixo do mundo (axis mundi) que une o céu e a terra, por onde se espalha a sua ramagem, uma imagem das escrituras sagradas, os Vedas.

 No Budismo, a árvore tem o nome de “pippal”. A iluminação do príncipe Sidarta Gautama, que o transformou em Buda, ocorreu numa Lua cheia do mês de maio. Sentado sob a figueira, em Bodhi Gaya, perto do Nepal, o príncipe “aquietou os seus cavalos” e recebeu o apelido de Buda, o Iluminado.

                                      
                                                          A ÁVORE DE BUDA


Em muitos lugares da Índia, a grande figueira é conhecida também pelo nome de banian (ficus indica ou ficus bengalensis), símbolo do conhecimento superior e da imortalidade. Confunde-se ela com o deus Vishnu, a segunda pessoa da trindade (trimurti) hinduísta, que tem tantos nomes quantos galhos tem a figueira sagrada. Os vishnuístas a adoram, sendo ela muito encontrada na vizinhança dos templos. Ainda hoje, em muitas cidades do interior da Índia, há um banian sagrado; seus galhos pendentes em direção da terra dão nascimento a novos troncos e é no seu cruzamento que os templos e lugares sagrados de repouso são construídos.

A figueira, na tradição cristã, tornou-se a árvore do mal, simbolizabdo a sinagoga, que não reconheceu Cristo, e todas as doutrinas heréticas. A tradição medieval cristã aproximava o verbo peccare (pecar) da palavra hebraica pag, figo. Em quase todas as tradições, porém, como na indo-mediterrânea, a figueira sempre apareceu associada a ritos de fecundação, as divindades fálicas, como Dioniso, Príapo e outras.

Considerada como a árvore da abundância, da fecundidade perigosa, descontrolada, aparece na Bíblia como a árvore da ciência. Por isso, ao comer os seus frutos, Adão e Eva foram expulsos do paraíso. Ciência, fígado e fogo se equivalem neste contexto semântico.

Prometeu rouba o fogo dos céus e o esconde no galho oco de uma figueira, entregando-o depois aos humanos. Por isso, como punição terá o seu fígado (ficatum), órgão do corpo humano que se regenera, destruído e recomposto alternadamente.

Ter um bom fígado, como registram nossos dicionários, é expressão usada para descrever uma pessoa corajosa, intrépida, sem temor, características sempre associadas ao fogo. A palavra ficatum, em latim, lembre-se, designava o fígado de ave engordada com figos.  Encontramos também o adjetivo figadal, aquilo que é próprio do fígado, para designar um sentimento alimentado nas vísceras, um sentimento rancoroso, invejoso, profundo. Seria este o caso de Prometeu, um invejoso dos olímpicos?

 O nome Prometeu, etimologicamente “o que sabe antes”, pode ser relacionado também com o verbo manthanein, que tem ligação com a produção do fogo pelo atrito de dois pequenos bastões de madeira, símbolos, na Astrologia ocidental, do signo de Gêmeos, do elemento ar, ligado à vida mental. Na língua sânscrita, o substantivo manthini designa o ato de se girar um bastão, tanto para produzir o fogo como a manteiga. Já se levantou a hipótese que Prometeu seria o modelo grego dos sacerdotes do deus Agni, uma das três grandes divindades do fogo no mundo védico (Surya e Indra são as outras).
                                            
O DEUS AGNI