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domingo, 30 de outubro de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU - PLUTÃO (5)



TRAVESSIA   DO   INFERNO   ( GUSTAVE   DORÉ )

Lugar lúgubre e tenebroso, o Inferno era, na mitologia grega, o refúgio das almas que, separadas de seus corpos, tinham terminado sua existência terrestre. Os gregos antigos desenvolveram duas concepções, que se sucederam, sobre a geografia do mundo infernal. O Inferno, dizia Circe, a maga a Ulisses, se encontra na extremidade do mundo, além do vasto Oceano. O mundo, com efeito, segundo essa concepção, era considerado como um disco de superfície plana, com algumas elevações, que fazia seus limites com um vasto rio circular, uma espécie de serpente líquida. Esta concepção será substituída pela que encontramos em Hesíodo (Teogonia), que define o panteão grego de uma forma ordenada e coerente.


Antes de Hesíodo, sabia-se que era preciso ultrapassar este imenso rio oceânico na direção do ocidente grego para atingir as desoladas regiões infernais. Terra infecunda, de solo ingrato, lugar inabitado, os raios do Sol nunca chegavam a este lugar. Os únicos vegetais que cresciam nesses confins eram os choupos (álamos) negros e salgueiros que jamais davam frutos. Sobre a superfície, aqui e acolá, cresciam asfódelos, flores fúnebres, depois incorporadas aos cemitérios e encontradas ainda hoje nas ruínas do mundo antigo.

A divindade tutelar do rio-serpente que envolvia a Terra era o deus
OCEANO
Oceano. A matéria oceânica, lembre-se, sempre foi considerada um elemento original que apareceu mesmo antes da criação do mundo material. Na mitologia grega, Oceano, palavra que dá ideia de algo circular, como deus, tem na mitologia grega um lugar importante. Filho de Urano e Geia, divindades da primeira dinastia divina, toda criação partia dele e ao final tudo a ele retornava. 

Ele era o pai de todos os rios que alimentam de água os seres humanos e fertilizam a Terra. Tethys, sua esposa, lhe deu uma multidão de filhas, as ninfas conhecidas pelo nome de oceânidas. Tardiamente, foi representado na arte como um velho robusto, com barbas verdes. Ao seu lado, sempre, um corno taurino a simbolizar a abundância poderosa e nutritiva das águas.


OCEÂNIDAS

FOLHAS   DE  CHOUPO
O choupo, acima mencionado, lembre-se, foi também consagrado a Hércules. Quando de seu retorno triunfal do mundo infernal (décimo trabalho), nosso herói ostentava em sua cabeça uma coroa feita com ramos do choupo; as folhas voltadas para a sua cabeça eram brancas e claras como o dia enquanto as que haviam ficado voltadas para o exterior, isto é, para o mundo infernal, eram escuras como a noite. Foi desde então que as folhas do choupo passaram a apresentar um tom diferente em cada um de seus lados. Anote-se, en passant, que, para fabricar os melhores palitos de fósforo, os grandes fabricantes desse produto sempre deram preferência à madeira dessa árvore. O salgueiro, por sua vez, chamado de chorão, por sua própria morfologia, lembrou desde sempre sentimentos de tristeza, sendo considerado como uma árvore típica de cemitérios. Já o asfódelo, igualmente, sempre, entre os povos do Mediterrâneo, ligou-se também aos cemitérios, por seu perfume entorpecedor.


ULISSES  E  TIRÉSIAS
Perto do Inferno concebido pelos gregos vivia um povo estranho, os cimérios (etimologicamente, os que habitam as trevas), cujo território jamais recebia a luz do Sol, segundo Homero, na Odisseia. Ao buscar contacto com Tirésias, para que ele lhe indicasse o melhor caminho para volta à sua pátria, Ítaca, Ulisses passou pela região onde esse misterioso povo vivia. 

A concepção infernal horizontalizada dos gregos não durou muito, alguns milênios talvez. Esta concepção, como se pode concluir, baseava-se em ideias míticas, e não resistiu aos avanços da geografia. Os navegadores antigos, o próprio Ulisses talvez, descobriram que nos confins do ocidente, no oceano longínquo, onde eles haviam localizado o Inferno, havia países. 

Crenças populares já vinham alimentando há muito uma concepção diferente. O Inferno, o mundo das sombras, se situaria na região subterrânea da Terra, uma região escura, trevosa. A associação do mundo infernal com a inumação dos mortos em covas era evidente. A via de acesso para esse mundo, chamado ctônico pelos gregos, não se daria pelo oceano, ou seja, o Inferno foi deslocado dos confins do ocidente para o interior da Terra. O acesso a esse mundo se dava, era a nova e vitoriosa concepção, por grutas, fendas, regiões pantanosas na superfície da Terra, lugares misteriosos, que todos procuravam evitar. 


TÁRTARO

No ponto mais profundo da Terra, na camada mais inferior do mundo subterrâneo, ficava o Tártaro, região tenebrosa jamais atingida pela luz. A distância dessa região à superfície terrestre era igual à da Terra ao Céu, Urano, para os gregos. Entre a Terra e o Tártaro ficava uma região intermediária, o Érebo, as chamadas
DEMÉTER   E   KORE
trevas inferiores, que fazia contraponto com Nix, as trevas superiores, que se situavam entre a Terra e o Céu. Quando o deus do Inferno, Hades, se uniu a uma filha da deusa Deméter, Kore, por ele raptada, foi acrescentada mais uma divisão na geografia infernal. À região situada entre a superfície da Terra e o Érebo foi dado o nome de Bosque ou Jardim de Perséfone, onde passaram a viver diversas divindades menores, mas nem por isso menos maléficas que as “grandes” do Hades. Estas divindades do Bosque de Perséfone, nome que tomou Kore, como rainha do Hades (também nome da região infernal) e esposa do seu rei, invadiam constantemente a superfície da Terra para, literalmente, infernizar a vida dos  pecadores escolhidos.

Com o tempo, criaram-se os demais departamentos infernais: um para sediar o tribunal encarregado de julgar as almas que para lá eram encaminhadas por  Hermes, na sua função de deus psicopompo (condutor de almas). Noutro departamento se colocaram os Campos Elísios, onde ficariam as almas a aguardar uma próxima encarnação, um retorno à vida, lá permanecendo sem  sofrimento algum.  No Érebo, um lugar de permanência provisória, ficariam as almas que deveriam passar por sofrimentos até uma próxima encarnação.


BARCA   DE   CARONTE   ( JOSÉ   BENLLIURE   Y   GIL )

O reino de Hades era cortado por cinco rios, o Aqueronte, palavra que em grego lembra aflição, o Cocito, nome que lembra lamentações, o Piriflegetonte, o das chamas sulfurosas, o Estige, o que provoca horror, e o Lethe, o do esquecimento. O principal era o rio Aqueronte, que devia ser atravessado pelas almas para o seu efetivo ingresso no mundo infernal. As almas, para atravessá-lo, subiam, depois de pago um óbolo, a um barco conduzido pelo barqueiro Caronte, que as maltratava muito. 

Assim organizado, o Inferno propriamente dito começava por uma
CÉRBERO   ( WILLIAM   BLAKE )
região vestibular, o Bosque de Perséfone. Nele eram encontrados os álamos (choupos), os salgueiros e os asfódelos já mencionados. Era preciso atravessá-lo para chegar aos portões do Hades, guardados por Cérbero, monstruoso cão tricéfalo, de latido de bronze, corpo coberto de serpentes, nascido dos amores de Tifon, o maior dos monstros, e de Équidna, horrível figura feminina, a própria imagem da libido insaciável. Cérbero, quando as almas desciam da barca de Caronte para ingressar no Hades, nada fazia, olhava-as com indiferença. Mostrava todavia uma imensa fúria quando alguma delas tentava escapar do reino que gradava.

Há registros de que Cérbero se deixou “corromper” algumas vezes com bolos de farinha e mel, dos quais gostava muito. O deus Hermes conseguia acalmá-lo com o seu caduceu e Orfeu chegou a encantá-lo com a suas canções e a sua lira. Só Hércules ousou se medir com ele e, tendo-o vencido, o conduziu por  um momento à superfície da Terra. Quando de sua subida, com a sua baba pestilenta, Cérbero envenenou certas ervas, que só algumas feiticeiras conheciam para preparar seus maléficos filtros e poções.

Caronte, o barqueiro, que recebia as almas na forma de eidola (aspecto fantasmagórico tomado pelas almas – alma, em grego, é psikhe), era um velho duro e intratável; se não depositada uma moeda na sua mão, ele expulsava impiedosamente a alma, que ficaria condenada a ficar a meio caminho entre a vida e a morte, numa ilha que ficava no meio do rio Aqueronte, a Ilha dos Mortos. Nesta ilha, observe-se, ficavam também aqueles (as almas) que não tivessem passado pela chamada morte ritual (o cumprimento de vários itens, ritualizados para que fossem devidamente recebidos no Outro Lado). 



ILHA   DOS   MORTOS   ( ARNOLD   BÖCKLIN )

Referência especial merece o rio Lethe, cujas águas faziam esquecer o passado. Aquele que retornasse à vida, depois de uma permanência no Érebo ou nos Campos Elísios, deviam obrigatoriamente beber da água do rio Lethe, para esquecer o que vira e havia vivido no Hades.


 ZEUS  ,  POSEIDON   E   HADES    

O soberano inconteste do Inferno era o deus Hades, irmão de Zeus e de Poseidon. Seu nome deriva de um radical grego que sugere a ideia de invisibilidade. Era chamado eufemisticamente de Plutão (o nome Hades era raramente pronunciado), o rico (ploutos, em grego, quer dizer rico), lembrando essa designação que ele era o “rico de hóspedes”, uma referência à infinita quantidade de mortos que acolhia em seu reino. O adjetivo “rico” referia-se também à enorme quantidade de tesouros que o interior da Terra guardava. Se quisermos mais ainda, numa aproximação psicanalítica, não há como se deixar de relacionar esta concepção do Hades grego com o subconsciente, o mundo subterrâneo do psiquismo humano, lugar ao qual temos de descer para descobrir os tesouros que nele estão encerrados, lugar sempre associado  à escuridão, às trevas.

Foi a partir de todos estes sentimentos, incorporados à vida psíquica do ser humano, que o Inferno passou a simbolizar também o mar noturno do inconsciente que é preciso atravessar, a partir de uma situação de vida consciente, mas cada vez mais angustiante e restrita, para se chegar a um outro lado qualquer. É nessa perspectiva que o Inferno se liga ao nosso processo de individuação, que começa por uma descida à nossa interioridade, às vezes identificada como uma regressão.

Mais ainda: como reino de Hades-Plutão, o Inferno passou a ser considerado tanto como símbolo do recalque como da fertilidade. Nesta condição, é que entendemos o deus como o pai das riquezas, sendo uma de suas representações mais notáveis a que o apresenta com um corno da abundância nas mãos. O reino de Plutão contém todos os valores criativos de que necessitamos para harmonizar a nossa vida, embora eles sempre estejam mal distribuídos e repartidos. Será preciso trazê-los do inconsciente, fazê-los subir à luz do dia. Para tanto, isto só será possível se descermos aos bas-fonds do nosso eu e dali, depois de o vasculharmos e enfrentar os monstros que nele se escondem, procurarmos voltar à luz. Se em tempos passados esta descida fazia parte do comportamento heroico, hoje ela é raramente empreendida. Não há mais candidatos a heróis solitários. Os que se atrevem a realizá-la, na maior parte dos casos, entregam-se a guias totalmente despreparados para conduzi-los. Acho que não há necessidades de discorrer sobre esta assertiva; basta tão só olhar à nossa volta...

REIA   E   CRONOS   
Hades, também chamado Aidoneus, era um crônida, filho de Cronos e de Reia. Ele reinava sobre o seu domínio de modo absoluto, dele saindo muito raramente. Uma vez, com o assentimento de Zeus e auxiliado pela Grande-Mãe Geia, subiu às terras da Sicília para raptar sua jovem sobrinha Kore, filha de Deméter, que lá colhia flores (narcisos) com as suas amiguinhas. Outra
NARCISOS
vez, foi à procura do deus-médico Paeon para ser tratado de um ferimento no seu ombro causado por Hércules. No mais, se em outras oportunidades resolveu sair de seu reino, nada se pode saber, pois ele, ao usar um elmo que recebera de presente dos Cíclopes, gozava do dom de uma total invisibilidade. 


RAPTO    DE   KORE

Hades-Plutão foi um marido nada infiel. Sabe-se apenas que quando Kore chegou ao Hades, sua adaptação foi muito fácil. Ela assumiu logo, muito consciente para a sua pouca idade, o papel de primeira-dama do mundo infernal. A presteza com que expulsou do Hades uma velha amante do marido que lá vivia, Minthe, ninfa do rio Cocito, é uma prova de sua perfeita adaptação. 


NINFAS   DO   RIO   COCITO

É de se destacar, quanto a este episódio, aliás, que Minthe só foi expulsa porque não se conformou com a chegada de Kore. Aguardou por uns tempos a transformação da jovem em Perséfone e pôs-se sorrateiramente a tentar reconquistar um lugar no leito de Hades-Plutão. Expulsa, ou assassinada por Perséfone, segundo algumas versões, Minthe foi transformada pelo deus numa planta de forte odor, a menta. Outros comentam, numa versão mais aceita, que, já conformada com a perda da filha e até orgulhosa da sua posição real, Deméter interveio. Condenou a menta, como vegetal, a assumir uma dupla reputação. A planta, como se sabe, tem tanto um caráter funerário como aparece em muitas tradições como causadora de esterilidade feminina.

Registre-se mais que Hades-Plutão, muito antes do rapto de Kore, relacionara-se, de modo muito passageiro e inconsequente, com outra jovem, Leuce (Branca), uma oceânida, por ele raptada também. Como ela não era imortal, e expirado o prazo fixado pelas Moiras, ela faleceu tranquilamente no Hades. Para imortalizá-la, o deus a transformou num choupo ou álamo muito branco. Esta árvore passou a enfeitar os Campos Elísios. Foi com as suas folhas que Hércules se coroou ao retornar do mundo dos mortos. 

Antigas tradições mitológicas gregas nos falam  que Leuce se transformou na divindade tutelar da famosa Ilha Branca, situada no delta do rio Danúbio, no Ponto Euxino. É nesta ilha paradisíaca, uma espécie de extensão dos Campos Elísios, que vivem eternamente vários heróis gregos. O mais famoso é, sem dúvida, Aquiles que, com o seu grupo, desfruta de uma vida de prazeres, praticando esportes ligados à arte guerreira e amando nos seus momento de lazer Helena, Ifigênia e Medeia.

Nesse contexto, enquanto Hades era pouquíssimo venerado, Plutão
HOMERO
recebia muito mais homenagens. O primeiro, ao representar uma forma divina destrutiva, sempre apareceu associado ao terror, ao mistério, ao inexorável. Já os cultos plutônicos, por suas grandes ligações com a fertilidade, apareciam muito ligados à deusa Deméter. Para honrá-lo, Homero nos informa que a ele eram sacrificados animais negros, carneiros ou ovelhas. 

Perséfone era a esposa de Hades-Plutão. A etimologia (discutível) admite que seu nome lembra algo que se eleva, evocando uma caminhada, como a dos vegetais depois de rompido o hímen da semente, em direção da luz, embora se reconheça que o nome também aponte para uma ideia de destruição. Isto pode nos sugerir que a deusa não tem características puramente infernais, destrutivas, se levarmos em conta que anualmente ela “subia” em direção da luz para se encontrar com sua mãe, Deméter, a deusa da agricultura e dos grãos. Do trigo em especial.



DEMÉTER

Já se levantou a hipótese que mãe e filha não passavam de uma divindade única, em tempos muitos remotos da mitologia grega. Nessa mesma entidade se concentravam os dois aspectos da vida vegetal, um voltado para a superfície terrestre e outro para o seu interior. A história de Deméter nos conta que ela, não podendo obter de Zeus a posse integral da filha, obteve dele a permissão para que ela permanecesse com ela uma parte do ano (primavera-verão). No outono-inverno, a filha vivia no mundo ctônico, uma ilustração, como fica fácil perceber, da morte da semente.

A este episódio se refere a lenda que as seitas órficas procuraram
PERSÉFONE   E   ZAGREUS
enriquecer, tornando Perséfone mãe de Zagreus-Dioniso. Encerrada no reino do marido, Perséfone se tornou imune às paixões que costumam atingir as outras divindades. Isto porém não impediu que ela viesse a disputar com Afrodite a posse do belo Adônis, divindade da vegetação que morre e renasce anualmente, cujo modelo é o deus Tammuz dos povos semíticos.  

Como divindade infernal, Perséfone tinha por atributos o morcego, a granada (romã) e o narciso. Ela era honrada na Arcádia sob os nomes de Perséfone Soteira e Despoina. Era igualmente honrada na ilha da Sicília. De um modo geral, seu culto nunca se dissociou do de sua mãe Deméter. 

Perséfone, encerrada no mundo infernal, não é senão a imagem dos grãos de trigo, mergulhados no interior da terra na estação outono-
MISTÉRIOS   DE   ELEUSIS
hibernal. Com o retorno da primavera e durante o verão, a germinação das plantas corresponde à volta da deusa para junto de sua mãe. Para celebrar esta volta, Deméter instituiu os chamados Mistérios de Elêusis, que transcorriam entre as festas das flores, as Antestérias, no início da primavera, e o outono. No fundo, uma proposta de morte e de
DIONISO
renascimento simbólicos para aqueles que deles participassem. As principais ideias que fazem parte dessa proposta mistérica, da qual participam como divindades tutelares Deméter (pão) e Dioniso (vinho), são a mulher, o feminino, os ritmos lunares, a semente, o interior da terra, a morte, a escuridão, o retorno e o renascimento. 

Por trás desse pensamento mítico-religioso, como fato inspirador, está a atividade agrícola, que no final do período peleolítico substituiu as relações entre os homens e o mundo animal. Ao ingressar no chamado período neolítico, o eixo da vida social passou a se concentrar muito mais no mundo agrícola que na caça e na atividade predadora dos grupos humanos. Aos poucos, foi se estabelecendo uma solidariedade entre os seres humanos e o mundo vegetal. Com isto, a mulher e o mundo da agricultura se carregaram de sacralidade.

As mulheres, a esse tempo, passaram a ocupar um lugar de relevo na vida social, fixando-se um nexo entre a fertilidade da mulher e a fertilidade da terra. Essa mudança ocorreu provavelmente entre 9.000 e 7.000 aC. Ao contrário do que ocorrera no período paleolítico, com a agricultura, o ser humano teve que mudar bastante o seu comportamento. As mulheres tornaram-se responsáveis pela abundância das colheitas, pois tanto conheciam o “mistério” da morte como o do renascimento.

A analogia era inevitável. Destruído o corpo humano (soma, corpo
PSIQUÊ
( EDWARD  JOHN  POYNTER)
físico), desprendendo-se a alma (psiquê), fixou-se em varias civilizações, com base no mundo vegetal, a ideia de morte e renascimento. A perda da energia vital coincidia com a exalação do último suspiro. Daí, a relação entre respiração e alma, fundamento da vida. Psiquê, quando da ocorrência da morte e a destruição do corpo físico, tomava a forma de um fantasma (eidolon) que guardava uma “consciência” latente, podendo ser ativada por certas cerimônias. Era a nekyia, a invocação da alma dos mortos (vide Odisseia).


HESÍODO
Com Hesíodo, séc. VIII aC, passamos a ter uma ideia mais exata do mundo infernal. Abaixo de Geia, a Grande-Mãe, no mais distante dela, ficava o Tártaro, lugar sem volta, para onde iam os grandes criminosos, como se disse. Entre o Tártaro e a Terra, ficava o Érebo, lugar de permanência provisória dos maus. Nos Campos Elísios, ficavam os bons, sem sofrimento algum. 

No Tártaro, havia um compartimento denominado “O Inferno dos Maus”, lugar terrível, para onde iam aqueles que haviam cometido os piores crimes: contra os deuses, a família, a hospitalidade e contra a pátria. Era um lugar de torturas e lamentações. Era nele que as almas ficavam submetidas a castigos eternos, mergulhadas alternativamente em situações de calor e frio extremos. Nenhuma esperança de retorno, de fuga ou consolação. Tudo era triste, mecânico, repetitivo.

O Tártaro era na realidade uma prisão horrível onde eram lançados
CÍCLOPES
( CORNELIS   CORT )  
aqueles que cometiam sobretudo o pecado da hybris, da desmedida, do excesso, que, personificada, passa por filha da Koros, o Desdém. À expressão física da hybris os gregos davam o nome de Hamartia. Os primeiros a visitar o Tártaro foram os Cíclopes (Brontes, Estéropes e Arges), para lá enviados por Urano. Libertados por Cronos, que venceu o pai, logo foram devolvidos ao Inferno pelo seu libertador em companhia dos seus outros irmãos, os gigantescos Hecatônquiros, os gigantes de cem mãos.

Lembremos que para vencer os Titãs, chefiados por Cronos, Zeus teve que se unir aos Cíclopes, dos quais recebeu as armas com as quais conquistaria o universo: o trovão, o relâmpago e o raio. Ao longo dos milênios, para o Tártaro foram enviados os grandes criminosos, lá se encontrando Tântalo, Sísifo, Ixion, as Danaides, Titio, Salmoneu, os Alóadas, os Titãs e tantos outros. 

Tântalo, filho do próprio Zeus e de Pluto, uma ninfa, era rei da Frígia. Ao trair a confiança dos deuses (para testar a onisciência dos deuses serviu-lhes num banquete o próprio filho, Pelops), foi, depois de muitos outros crimes antes cometidos, condenado a sofrer o suplício da fome e da sede eternamente. Sísifo, rei de Corinto, o mais astuto dos mortais, um dos pais de Ulisses, além de outros muitos crimes, tentou enganar Thanatos, a Morte. Foi condenado a rolar eternamente montanha acima uma enorme pedra, na vã esperança de um dia empurrá-la para o outro lado. Ixion, neto de Zeus, cometeu um dos crimes mais hediondos que um ser humano ou mítico poderia praticar: não respeitou a hospitalidade que Zeus lhe ofereceu e tentou investir sexualmente contra Hera, a Senhora do Olimpo. Ixion tornou-se o pai dos centauros, uma raça maldita. Está no Hades, preso a uma roda de fogo a girar eternamente. 


DANAIDES  ( FRANS  DE  BOEVER )

As Danaides estão no Tártaro para toda a eternidade, a encher com água,  tonéis sem fundo. Seu crime: assassinaram os seus maridos. Titio, um gigantesco filho de Zeus, que, sob instigação de Hera, pôs-se a perseguir Leto com quem Zeus se unira para torná-la mãe dos luminares, Ártemis e Apolo. Salmoneu, filho de Éolo, extremamente descomedido, tentou ser, entre os mortais, o que Zeus era entre os imortais. Foi fulminado e lançado no Tártaro. Os Alóadas, gigantescos filhos de Poseidon, possuídos pela hybris tentaram assaltar o Olimpo. Foram mortos por Zeus e lançados no Tártaro, onde se encontram até hoje, amarrados com serpentes a
OS   TITÃS
uma coluna, tendo junto aos ouvidos uma coruja que lugubremente pia sem cessar, dia e noite. Por fim, os Titãs, divindades da segunda dinastia, filhos de Urano e Geia, chefiados por Cronos, foram vencidos por Zeus e seus irmãos, os futuros olímpicos, na famosa batalha denominada de Titanomaquia;  Zeus os lançou no Tártaro. Mais tarde, como se sabe, Zeus libertou seu pai, Cronos, que emigrou para a Itália.

O Tártaro sustentava os fundamentos da Terra e dos mares e nele ficava o palácio de Hades-Plutão, cercado por um tríplice muro de bronze. Era um lugar onde a luz jamais poderia chegar. Era um lugar de torturas e lamentos. Aridez, tanques gelados, lagos de enxofre, pez fervente. Mergulhadas alternativamente nesses tanques, para sofrer o frio e o calor extremos, as almas, quando não estavam nessa situação, permaneciam presas às chamadas “cadeiras do esquecimento”. Nenhuma esperança de retorno, de fuga e muito menos de consolação. 

O Érebo  (obscuridade) era a camada intermediária, como vimos, constituindo as trevas inferiores por oposição e complementares às de cima, representadas por Nix, a grande deusa da Noite.  Dele se passava ao Tártaro. Guardava a entrada desta região o cão tricéfalo Cérbero. Nela ficava também o palácio de Nix, onde ela vivia em companhia de dois de seus numerosos filhos, Thanatos e Hipnos, a Morte e o Sono. O Érebo era um lugar de permanência provisória (100 anos, segundo algumas tradições), onde as almas, por crimes menos graves, depois de julgadas e condenadas, ali ficavam em meio a grande sofrimento aguardando seu retorno ao mundo dos vivos.


HESPÉRIDES  ( HOWARD  DAVIE )

O território preambular pelo qual se tinha acesso ao mundo infernal através de entradas na superfície da Terra era, como vimos, o Bosque de Perséfone (uma zona de transição entre o consciente e o inconsciente, numa leitura psicanalítica). Nesse lugar, logo nos seus limites mais próximos da Terra, numa advertência muda aos que desciam, havia três grandes árvores, o cipreste, o salgueiro e o álamo. Associavam-se essas árvores, na Terra, às três ninfas do poente, as Hespérides, Egle (cipreste), Eritia (salgueiro) e Hesperaretusa (álamo). Isto é, a Brilhante, a Vermelha e a do Poente, o princípio, o meio e o fim do percurso solar, significando, respectivamente, Amor (Doação), Desapego (Sabedoria) e Compaixão (Serviço).

O Bosque de Perséfone era lúgubre, iluminado muito precariamente, nada se distinguindo nele, a rigor. Situado entre a
HÉRCULES  E  GERAS
superfície da Terra e o Érebo, ali viviam espectros. Fantasmas, seres que se haviam fixado num estado entre a vida e a morte. Dentre esses espectros, representados por divindades alegóricas, destacamos: Algos (Dor); Geras (Velhice); Limós (Fome), Ponos (Fadiga), Metanoia (Arrependimento), Koros (Desdém, Deboche) e sua filha Hybris (Desmedida); Penthe (Luto); Apate (Fraude); Sicofantia (Calúnia), sempre precedida de Ftnos (Inveja); Tryphe (Luxo); Lyssa (Fúria); Até (Erro); Penia (Pobreza), Strofe (Chicana), cujo templo ficava no Palácio da Justiça, sendo seus ministros os juízes, os procuradores, os tabeliães e os advogados. 

Compartilhando o território com as entidades acima, com a mesma importância ou até maior, perambulavam por ele divindades e
ERÍNIAS
monstros como Eris (Discórdia), as Erínias (As Fúrias), os Centauros, os Gigantes, a Hidra de Lerna, as Górgonas, as Harpias, a Quimera, os gêmeos Fobos (Horror) e Deimos (Pavor), Enio (Grito de Guerra), o casal Tifon e Équina. No centro do Bosque, havia uma árvore gigantesca, um olmo copado, árvore funerária, onde residiam os sonhos quiméricos. Este olmo era alimentado pelas águas do rio infernal Aqueronte. De sua madeira eram feitas as varas de punição, tudo o que as referidas entidades, usavam para açoitar e vergastar a triste raça dos mortais.

HÉCATE
Junto do palácio de Hades-Plutão vivia Hécate, a que “fere de longe”, deusa trívia lunar, muito respeitada, que a cada vinte e oito dias subia à superfície da Terra, para pontificar nas encruzilhadas, lugar de transformações, de viradas de destino, poder que dividia com o deus Hermes. Profundamente misteriosa, ela tinha correspondência com a Lua Nova. Presidia as aparições de fantasmas e espectros, sendo tanto a senhora dos benefícios como dos malefícios. Devidamente reverenciada, sempre aparecia ligada aos cultos lunares de fertilidade. A aparição da deusa nas noites de Lua nova lembra que as encruzilhadas são tanto lugares de parada e de reflexão como da escolha que se deve fazer de direções que mudam destinos. Nesse sentido, a encruzilhada é também o lugar onde é possível a alguém desfazer-se do passado para assumir uma nova personalidade.


terça-feira, 24 de junho de 2014

HÉRCULES - DÉCIMO TRABALHO



 
EURISTEU,  CÉRBERO  E  HÉRCULES  
                    
Capturar o cão infernal Cérbero - Filho dos monstruosos Tifon e de Équidna, Cérbero, o cão tricéfalo, cauda de dragão, cheio de serpentes pelo corpo, guardava as portas de entrada do Tártaro, no Hades, onde Plutão e Perséfone viviam no seu palácio.  Cérbero jamais permitia a saída dos que para o Tártaro fossem enviados. A tarefa de Hércules era muito difícil, já que só as almas podiam descer ao reino infernal. Nosso herói, para o cumprimento dessa missão, recebeu, por ordem de Zeus, o auxílio de Hermes, o deus psicopompo. Hermes era a divindade encarregada de transportar as almas para o Hades, reino subterrâneo, para onde elas iam obrigatoriamente, quando do desaparecimento do corpo físico.


O   HADES  

Antes, por sugestão da deusa Palas Athena, Hércules procurou informações sobre o que seria uma catábase infernal, visitando, para tanto, o Santuário de Eleusis. Lá tomou conhecimento de que o Hades era um lugar onde as almas eram julgadas conforme o que tivessem feito os seus donos na sua vida terrena. Um julgamento desfavorável poderia significar a danação eterna para os grandes criminosos e pecadores, como Sísifo e Tântalo, que foram enviados para o Tártaro, o “inferno dos maus”, a região mais profunda do mundo infernal. Ou então poderia significar, se os crimes cometidos não tivessem sido tão graves assim, uma permanência demorada, sofrida, mas provisória, num lugar chamado Érebo. Um julgamento favorável significaria a permanência provisória, isenta de qualquer sofrimento, nos Campos Elíseos, outra região infernal. Nos casos de uma permanência no Érebo ou nos Campos Elíseos, as almas, depois de beber das águas do rio Lethe, o rio do esquecimento, poderiam reencarnar.

Sabe-se por Eurípedes e por Isócrates que a iniciação de Hércules
ARISTÓFANES
nos Mistérios de Eleusis era necessária para que ele pudesse cumprir a tarefa que lhe fora determinada, pois os que deles participavam aprendiam a lidar com a morte, aceitando-a como algo natural e não aterrorizante. É de se lembrar que Aristófanes, o comediógrafo, com sua peça As Rãs, usou este episódio da descida de Hércules ao Hades para nos dar um grande trabalho crítico sobre o teatro grego, a tragédia, em especial.

Como Hércules era um estrangeiro (era natural do Peloponeso) e Eleusis ficava perto de Atenas, na Ática, nosso herói teve que ser adotado antes por um ateniense (estrangeiros não podiam participar dos Mistérios), o que de fato ocorreu, e passar por uma purificação por causa da morte dos centauros (sétimo trabalho). Depois dessas providências, sabe-se que a proibição acabou sendo revogada, transformando-se Eleusis num santuário pan-helênico, o que possibilitou que qualquer grego ou mesmo estrangeiros dele pudessem participar. 




Depois dessa iniciação, Hércules em companhia de Hermes, dirigiu-se ao cabo Tênero, na Lacônia, uma das mais conhecidas entradas do Hades na Grécia. Começaram a descer, indo em direção do rio Estige, um dos cinco rios infernais. Estige, etimologicamente o que causa horror, é um rio infernal de águas geladas, sendo enviados para as suas margens as almas dos que haviam cometido principalmente crimes de perjúrio. É de se lembrar que quando da vitória dos deuses olímpicos contra os Gigantes, Zeus, devido à grande colaboração que recebeu de Estige, então a mais velha das oceânidas, lhe concedeu, quando transformada em rio infernal, o privilégio do horkos, ou seja, era em seu nome que os deuses faziam os seus mais solenes juramentos; se os desrespeitassem seriam expulsos do Olímpo, com a ameaça de exílio ou mesmo de uma permanência no Hades. 

HERMES  PSICOPOMPO
As almas que se encontravam às margens do Estige fugiram assustadas, diante da insólita presença de nosso herói. Dali, Hermes conduziu Hércules até o rio Aqueronte, o principal rio infernal, aquele que verdadeiramente dava acesso ao Outro Lado. Tão espantado ficou o barqueiro Caronte que se esqueceu até de pedir o óbolo de praxe, que as almas deviam lhe entregar para poder ter acesso ao palácio dos reis do Inferno. Por causa dessa falta profissional, sabe-se que Caronte passou um ano encarcerado, preso a ferros.

Na ocorrência da morte, a alma (psykhe), desprendendo-se do corpo  físico   (soma),   tomava   a   forma   de   um   eidolon,   uma
NEKYIA
representação que lembrava vagamente o corpo físico. Chamada também de opsis (aparência) ou de skia (sombra), a alma como eidolon conservava de modo latente uma espécie de inteligência que podia ser ativada se os  familiares e amigos do morto procurassem manter a lembrança dele através de determinada cerimônia, regularmente realizada, chamada nekyia, da qual faziam parte sacrifícios e invocações para que fosse possível mantido o devido contacto. Energizadas pelos sacrifícios e invocações, as almas poderiam então falar, geralmente para se queixar e invariavelmente manifestando muito rancor com relação ao mundo dos vivos. 


MAPA   DO   HADES

O rio Aqueronte (etimologicamente, tanto pantanoso, lamacento, como o das dores) era o mais importante do Hades. A ele se juntavam os rios Piriflegetonte (o de chamas sulfurosas) e o Cocito (o dos gritos, uivos). A travessia do Aqueronte era feita por um barco conduzido Caronte, o barqueiro infernal, um dos agentes do Hades, que ia no leme; os remadores eram as próprias almas. Feio, magérrimo, de barba hirsuta, sempre com as vestes sujas, manchadas pelo limo esverdeado das águas do rio, Caronte era uma figura sinistra, muito temida e odiada. 


CARONTE
  
Hércules, ao sair da barca, percebeu duas figuras próximas, a Medusa e Meléagro. Ao tentar golpear a primeira com a sua espada, Hermes o dissuadiu, aquela figura era apenas uma sombra (skia), uma sombra, porém, muito importante pois ela era dona de uma ilha, a chamada Ilha dos Mortos, que ficava no meio do Aqueronte. Nessa ilha ficavam as almas daqueles que não haviam tido sua morte ritualizada, exigência indispensável para que pudessem realmente ingressar no mundo infernal.


ILHA   DOS   MORTOS   ( BÖCKLIN )

MELÉAGRO
Quanto ao outro, disposto também a atacá-lo, Hércules ouviu-o por um momento. Meléagro começou então a contar a sua história ao nosso herói, narrando-lhe os últimos momentos em que passara na terra. Hércules se comoveu tanto que lhe prometeu, quando de seu retorno, desposar Dejanira, sua irmã.  O que mais tocou Hércules foi Meléagro ter-lhe dito que sua irmã, a de nuca delicada, ficara só em casa e que era ignorante das coisas do amor, nada sabia das artes da Afrodite dourada, como enfatizou. 

Prosseguindo na sua caminhada pelo Hades, Hércules encontrou Teseu e Piritoo, o Lápita, aprisionados por Plutão nas famosas "cadeiras do esquecimento", de onde nunca mais deveriam se libertar, pois haviam tentado raptar Perséfone. Hércules, contudo, grande amigo do famoso herói ateniense, o libertou, arrancando-o tão violentamente da cadeira-prisão que pedaços das nádegas de Teseu nela ficam presos. Piritoo, filho de Ixion, o pai dos centauros, foi esquecido e lá permanecerá certamente até o final dos tempos.

O que se conhece desta passagem, como está em Racine, que quem
PERSÉFONE   E   ASCÁLAFO
alimentava esperanças de fazer sexo com Perséfone, a rainha do Hades, era Piritoo e não Teseu.  Mais à frente, Hércules encontrou Ascálafo, filho de uma ninfa do rio Estige e do deus-rio Aqueronte, e também resolveu libertá-lo. Este personagem presenciara o momento em que Plutão-Hades pusera nas mãos de Kore as famosas sementes vermelhas de uma romã, tornando-a fértil. Indiscreto, Ascálafo divulgara o acontecimento, narrando-o de um modo tão debochado que denegrira a pureza da jovem. Deméter o puniu, colocando-o sob um imenso rochedo. Libertado por Hércules, Ascálafo não conseguiu contudo viver sob a sua antiga forma. Deméter imediatamente o transformou numa coruja, substituindo um castigo por outro.

Em seguida, muito sensibilizado pelas multidões de almas que encontrou vagando às margens dos rios infernais, Hércules tentou fazer alguns sacrifícios sangrentos com animais do grande rebanho do deus dos infernos com o objetivo de energizá-las um pouco, dando-lhes alguma vida. Menetes, funcionário do Hades, que cuidava dos animais, ao tentar impedir a ação do nosso herói, foi ameaçado de morte por ele. Foi nesse momento que Perséfone, aparecendo e reconhecendo Hércules como seu irmão (eram ambos filhos de Zeus), o informou que seu marido estava pronto para recebê-lo.

HÉRCULES   E   CÉRBERO
Exposta a razão do trabalho, Plutão consentiu que Hércules levasse Cérbero à presença de Euristeu, desde que conseguisse vencê-lo numa luta em que não usasse armas metálicas, inclusive escudos de qualquer natureza. Para se proteger, Hércules pôs sobre os seus ombros e cabeça a pele do leão que costumava usar e muniu-se de algumas pedras pontudas. Atracando-se com o monstro, depois de terrível luta, conseguiu subjugá-lo, amarrando-o com grossas cordas que levara consigo. Afastando-se rapidamente do mundo infernal com a sua presa às costas, Hércules, com enorme esforço, guiado por Hermes, conseguiu chegar finalmente a Micenas. Vendo o monstruoso animal, Euristeu se assustou tanto que imediatamente ordenou ao nosso herói que o levasse até uma das muitas entradas do Hades e que o libertasse para que o monstro pudesse voltar a seu amo.

Os gregos sempre consideraram o acônito, planta venenosa, como infernal, nascida da baba de Cérbero, segundo uma versão. A deusa triforme Hécate, como contado por vários mitógrafos, possuía em seu jardim, no Hades, uma grande plantação desse vegetal, usado na feitiçaria e na magia negra. Muito tóxico, o acônito, extraído da planta, era chamado entre os romanos de “Carro de Vênus” ou de
ACÔNITO
“Capacete de Júpiter” porque, suas flores, invertidas, no primeiro caso, pareciam com um carro puxado por duas pombas ou, no segundo caso, como uma espécie de protetor da cabeça. Era muito usado, desde a mais remota antiguidade, para afastar vampiros e lobisomens, sendo, segundo a tradição, remédio infalível para curar a licantropia. Desde esses antigos tempos, o acônito sempre foi usado para combater a ansiedade, o cansaço, a fadiga, quando apresentam aspectos depressivos.



CAPRICÓRNIO

O décimo trabalho de Hércules tem a ver com Capricórnio, o décimo signo na ordem zodiacal. Este signo, como se sabe, é cardinal e do elemento terra. Astrologicamente, Capricórnio lembra ascensão, conquistas materiais, elevação. Ideias que representam a possibilidade máxima das conquistas materiais. Como tal, é um signo ligado ao zênite mundano. Os capricornianos positivos estão bem qualificados para assumir responsabilidades em empreendimentos de natureza prática, tanto os relacionados com a vida privada ou com a vida pública. Conceitos de ambição, de aspiração, de realização são comuns nos do signo, aliando-se a eles grande persistência, obstinação. Os capricornianos não são imediatistas e, de um modo geral, preferem trabalhar com metas de médio para longo prazo e procuram dar consistência e solidez ao que produzem.




As três cabeças de Cérbero simbolizam astrologicamente o triângulo formado pelos três signos zodiacais do elemento terra, Touro, Virgem e Capricórnio. O elemento terra representa o concreto, o sólido, o tangível e, por extensão, a vida material. Ou seja: ocupado com as pressões do ter, do possuir (Touro) e de, através das conquistas materiais, chegar ao topo da montanha (Capricórnio), muitos homens organizam as suas vidas nesse  sentido, montando uma agenda voltada exclusivamente para esse fim (Virgem).

Este foco na ascensão material costuma eliminar tudo o mais, família, filhos, divertimentos, amigos. Se aberto um espaço para eles, serão para a “conquista da montanha”. Uma festa familiar, por exemplo, será organizada com essa finalidade: convidar pessoas que poderão ser úteis, abrir algumas portas, favorecer de algum modo tal objetivo. A vida social, clubes, academias de ginástica etc.,tudo caminhará também nessa direção: frequentá-los para estabelecer relações “certas”, que possam facilitar a "subida da montanha".  

Esta terceira cabeça, relacionada com o signo de Virgem, costuma representar também tudo aquilo que deveria ter sido feito e que não foi para que a vida fosse orientada numa outra direção: nela estão as mudanças que não aconteceram, os hábitos que se instalaram tiranicamente, as purificações e depurações que não foram feitas, o cuidado corporal protelado, os espaços que não foram abertos no dia-a-dia para divertimentos saudáveis, para uma melhor convivência familiar etc. No lugar, como atitude dominante, sempre uma absurda ênfase em justificativas que falam de “dever cumprido”, o apego às tarefas difíceis, trabalhosas, ingratas ou penosas, a pretensão de satisfazê-las, a prioridade absoluta para tudo que signifique segurança material e, com ela, o reconhecimento social pelos resultados obtidos, a conquista do topo da montanha.

Uma das grandes debilidades de Capricórnio está, com frequência, numa natureza exageradamente séria e taciturna. Tal atitude
SATURNO
costuma gerar muita desconfiança, o que leva muitos que têm que conviver com capricornianos a achá-los, ainda que não o sejam, controladores, manipuladores, frios, calculistas. O planeta de Capricórnio é Saturno, que governa o princípio da cristalização. Este planeta tanto pode fazer dos capricornianos seres disciplinados, obstinados, metódicos e persistentes, como pode lhes proporcionar uma natureza excessivamente contida, tradicionalista, apegada aos valores do passado.

Vários temas se destacam neste trabalho. O tema da descida, da catábase, é o da morte simbólica, já prefigurada na passagem dos Mistérios de Eleusis. Ir ao Hades, lugar onde só entramos sem o corpo físico. Ou seja, aprender a nos livrarmos da forma, das prisões materiais, representadas pelas três cabeças do monstro. Não mais colocar a nossa consciência no material, nos desejos, no corpo físico. Usá-lo, mas a ele não nos prendermos. O centro (a cabeça central, Capricórnio) tem que estar mais acima, num plano que esteja acima da forma. Descer ao Hades é, pois, o início da subida da montanha.  

É neste sentido que Capricórnio deve representar um tipo de
SIGNO   DE   CAPRICÓRNIO
iniciação superior através da qual começamos o ciclo das realizações impessoais (Hércules se sensibilizando com os seres abúlicos que encontrou, com as almas penadas que perambulavam perdidas pelo Hades, muitas "vivendo" na ilha dos Mortos. A ideia de serviço, de consciência grupal "nasce" aqui, se se considerar que o signo de Capricórnio abre o último quadrante  zodiacal, que corresponde ao coletivo, à humanidade como um todo, com relação aos anteriores: o primeiro representa o individual, o segundo o familiar e o terceiro o social, um nos preparando para aceder ao outro. A partir de Capricórnio temos simbolicamente que aprender a nos “desmaterializar”. É por esta razão, por exemplos, que os hindus dão o nome de moksha a esta última etapa, palavra que tem o sentido de desatar nós, romper ligações.  

Três virtudes são requeridas quando pensamos em Capricórnio, conscientemente: silêncio, solidão e trabalho. Neste sentido, Capricórnio   é   um   signo   triste,   de  desapego,  de vida superior,
impessoal. Por isso, desapego de tudo o que é pessoal, pela expansão do pessoal (minha casa, minha família, meus bens, minha posição mundana etc) em direção de outros níveis, que podemos chamar de espirituais. Ao contrário, usar tudo isto, todos os valores materiais como um meio de saída, tornar-se mais leve, de modo a entender que o centro está mais acima. É neste sentido que em todas as tradições as montanhas são sacralizadas, o alto das montanhas, as acrópoles, como símbolos de saída para níveis de vida superior. Em Capricórnio termina o social e começa o coletivo, surge a noção de humanidade

Basicamente,  três  são  os  tipos  capricornianos:  o  defensivo,  o
aspirativo e o ascensional, simbolizados respectivamente pelo Crocodilo, pela Cabra e pelo Licorne. Animal de enorme bocarra, o crocodilo é usado para representar o período do ano em que o Sol é engolido pelas trevas, o inverno. Jamais ousando, prisioneiro do poder dos mais velhos, o capricorniano deste primeiro nível vive neste cenário: obediente, precavido em demasia, exageradamente metódico, tradicionalista, respeitador, não consegue empreender nada. É, como tal, um servidor, tornando-se geralmente vítima dos complexos de Cronos ou de Isaac. Pode ser representado também pelo chumbo, o ponto mais baixo a que se pode descer simbolicamente no processo de materialização. O chumbo, como sabemos, inibe qualquer tipo de mudança. Os hindus, com razão, dão o nome de Makara ao signo de Capricórnio, o primeiro mês do inverno, quando a luz solar é “engolida” pelas trevas hibernais, simbolizadas pela imensa bocarra desse animal.


O tipo aspirativo é representado pela cabra montanhesa, animal que procura  viver  nas  alturas.   Sem  os  exageros  do  primeiro tipo, disciplinado, perfeitamente centrado na caminhada aspirativa, muitos capricornianos do tipo “cabra montanhesa” podem se tornar grandes realizadores, até grandes construtores de impérios materiais. Stalin, Adenauer, Mao-Tse-Tung, Amador Aguiar
RICHARD   NIXON
(fundador de um império bancário no Brasil) são bons exemplos. Um exemplo bastante malogrado deste segundo tipo é o presidente Richard Nixon. Foi para o topo da montanha, mas, por não calcular bem os seus “pulos”, levou um tombo mortal.

O capricorniano de terceiro nível, representado pelo Licorne (o Leão de Chifre) é aquele que entende que em Capricórnio o poder de se criar materialmente termina. Como tal, para este tipo, Capricórnio será um signo de saída para o coletivo, para o transpessoal (Aquário). É aqui que ocorre a chamada transfiguração (transformação, metamorfose, mudança na maneira de pensar, de sentir, de proceder, do material para o espiritual). Se não ocorrer essa transfiguração, teremos a crucificação, a prisão na materialidade, o eu (Sol) inteiramente engolido pela vida material, pelas as três cabeças de Cérbero. Lembremos que na Alquimia a crucificação (crucifixio) e a mortificação (mortificatio) são praticamente equivalentes. 

Em todos estes exemplos, a montanha, uma das grandes imagens do signo, sempre apareceu simbolicamente como proposta de elevação, participando de ideais de transcendência enquanto lugar de teofanias, de hierofanias. É o lugar onde a terra e o céu se aproximam mais, lugar onde o divino é reverenciado e, ao mesmo, nele temos o fim das possibilidades aspirativas do ser humano.

A origem deste animal mítico, o Licorne, tem relação com a penetração da matéria pelo divino, que o chifre representa. É o tema do leão (lyon) de chifre (cornu),  sendo o chifre entendido como abundância espiritual e não material, ou seja, a espiritualização da matéria.  Não esquecer que o número de Leão é cinco e o de Capricórnio é dez, um duplo leão, portanto. O eu racional (Leão) se transforma em eu espiritual (Licorne) a partir de Capricórnio.


Uma explicação sobre o licorne: no século XII, ocorreu no ocidente uma transformação dos cavaleiros europeus, de guerreiros andantes em aristocratas rurais. O leão, que sempre aparecera simbolicamente associado ao poder, desde a antiguidade, sendo usado para representar deuses, reis, heróis e chefes militares, sofreu uma espécie de capitis diminutio. Sua imagem foi suavizada, espiritualizada. Surge o licorne, palavra que se decompõe em lyon e cornu, o leão de chifre. O simbolismo do chifre, ao mesmo tempo que encerra um sentido de poder, traz consigo ideias  de elevação, de eminência, de espiritualização (veja neste blog, no e-book, Exercícios de Leitura, a matéria “Os Chifres”, pag. 92, para melhores explicações).  

Historicamente, como sabemos, foi na virada do séc. XII para o séc. XIII, período em que alguns situam o primeiro Renascimento, que o amor se torna cortês e que a coleção de contos tendo como personagens o rei Artur e os Cavaleiros da Távora Redonda representou a expressão maior da cavalaria romântica e espiritualizada (busca do Santo Graal). Foi por essa época também que o românico deu lugar ao gótico e que os cultos marianos passaram a receber grande impulso, redefinindo-se os papéis da mulher na sociedade medieval.

NOTRE  DAME  DE  PARIS
A catedral de Notre Dame, em Paris, é um exemplo do que está acima: ela era não só uma invocação à Virgem, mas uma exaltação que se lhe fazia com a sua ornamentação. Maria foi retratada não só como Mãe de Deus, mas como Rainha do Céu e Advogada dos pecadores, tornando-se o próprio símbolo da Igreja. Um dos mais belos monumentos artísticos à glorificação do feminino é, nesse sentido, a catedral de Chartres, na qual a importância de Maria equivale à de Jesus.



NOTRE   DAME  -  CHARTRES

Foi em algum ponto na virada dos mencionados séculos que, por influência da Igreja Católica, certamente, a palavra  licorne começou a ser usada (indevidamente) para designar um símbolo do poder feminino que vinha de longe, encontrado em várias tradições, um pequeno cavalo unicornudo, que uma virgem acariciava, como imagem da pureza e da sublimação da vida carnal. Uma das mais conhecidas alegorias medievais do que estas figuras representam, com várias possibilidades interpretativas, é o conjunto de seis tapeçarias, do séc. XVI, La Dame à la Licorne (em português, A Dama e o Unicórnio), exposto no Museu de Cluny, em Paris. Numa das peças, vemos o leão (sem chifre) e o unicórnio, como imagem da união do princípio masculino (o leão, o noivo) e o princípio feminino (o unicórnio, a noiva) sob a tutela da Santa Madre Igreja (a Virgem).     


LA   DAME   À   LA   LICORNE  -  TAPEÇARIA

Em Capricórnio temos a desmaterialização daquilo que começou
VESTIMENTA   SUFI
em Câncer. Libertação da matéria, o poder da Lua, mãe das formas, termina. Daí as grandes virtude do signo, frugalidade, ascetismo, concentração. O emblema desta destas virtudes na vida ascética é o cilício, tecido feito com lã de cabra que os Sufis usam. Na Homeopatia, é a Calcárea carbônica, remédio das crianças "velhas", que se dá para o raquitismo, para os que têm falta de confiança, para os que custam a andar, para os debilitados, deprimidos.

Lutar, pois, contra a matéria que nos "prende", desmaterializarmo-
MORTIFICÁCIO : CINTO   DE  CILÍCIO
nos como disse. Penitência, mortificações, se necessário, para libertar a alma. A cabra, como símbolo aspirativo, pode chegar às alturas. Mas as alturas da cabra, como exemplificado,, são sempre perigosas, a rondá-las sempre uma ideia de imprevisibilidade, de capricho (palavra que vem de capris, cabra), tanto em razão de um salto mal calculado (o tombo é quase sempre mortal) como devido à própria imprevisibilidade do clima nas alturas. 

Capricórnio é assim um signo de conclusão. Não podemos ir além dele, impossível o progresso sob o ponto de vista formal. Temos que escolher os nossos meios de elevação. Primeiro, evitar distrações, trabalhar com seriedade, lucidez, inteligência, realismo, sem pieguices. Depois, concentração no mais significativo, sacrifício do supérfluo, silêncio. A misantropia e a misoginia  são perigos  do signo.  Lugares solitários, retiros e vida austera são muitas vezes procurados. No mais, ideias de firmar bases sólidas, de pedras assentadas, não afetadas pelo tempo. 

Dominadas as cabeças de Cérbero, surgirão outros valores, o altruísmo no signo seguinte (Aquário) e a doação desinteressada no último deles (Peixes). Desprendimento e desapego. Nada de futilidades, de leviandade, de irresponsabilidade. Linha dura, autocensura, humildade, "ajoelhar-se" para subir a montanha. Nada de descontroles emocionais, de caprichos, de den guices (Lua exilada), nada de descomedimentos, nem se acomodar à tentação de herdar posições por “razões de sangue” (Júpiter em queda). Observar Vênus, invariavelmente mal em Capricórnio: cuidado para não unir amor e alpinismo social ou ter medo de amar para não dividir; conflitos entre ambição, poder, cálculo e vida afetiva. Cuidados com a diminuição dos interesses afetivos, com a distância da vida instintiva (Marte), já que há a propensão de amortecimento de impulsos vitais importantes em nome de um sistema de segurança que procura organizar e consolidar posições. Fleugma, indiferença e insensibilidade podem aparecer. O que se perde em calor, elã vital, pode ser compensado (?) pela calma, pelo autodomínio, pela constância. Nem sempre contudo será possível manter o mundo à distância. 

De outro ângulo, podemos vislumbrar dois tipos básicos em Capricórnio, o material e o imaterial. O primeiro lembra muitas dificuldades afetivas. Não podendo amar o mundo, procura dominá-lo, colocando-o a seu serviço. Busca de elevação, posições eminentes; cálculo, frieza, caráter determinado, senso político, visão de futuro, calculista. Regras, regulamentos, controle, obediência, proeminência. Nos inferiores, cinismo, insensibilidade, manipulação, desconfiança, aspereza, castração. Bom administrador, assume tudo, inclusive a vida dos outros. São os solitários nas alturas montanhosas.. O segundo tipo é despojado, procura a renuncia ao material, nada de realizações mundanas (Saint Simon); serenidade, frugalidade (Proudhon, opção pela pobreza), desprezo pela ambição temporal, a vida como protesto contra os bens do mundo. Alguns costumam separar-se, isolando-se, buscando "picos" mais altos. Nos inferiores, desprezo, isolamento, melancolia, anulação da vida instintiva, pele e osso, predomínio total das virtudes frias.

Fisicamente, em Capricórnio, temos o corpo resistente, rugas precoces (Saturno é pele e osso), problemas cutâneos, cabelos precocemente embranquecidos, reumatismos, problemas nas articulações, joelhos, artrite, osteoporose, males do frio, lesões ósseas, deformações, luxações, anciloses, paralisias, problemas com o regime do cálcio, ossos em geral, dentes, unhas (paratireoide), dermatoses etc.

Fazem parte da galeria capricorniana, pelo Sol ou pelo Ascendente,dentre outros: Cézanne, Rodin, Adenauer, Bach, Tolstoi, Gavino Leda (veja o filme Pai, Patrão),  Savanarola,  Simone Weil, André Malraux, Montesquieu,  Pablo Casals, Johann Keppler,  Simone de Beauvoir,  Richard Nixon, Schopenhauer, Molière, Anton Tchekov, Edgar Allan Poe...

Quanto à origem da constelação de Capricórnio, temos que  ir ao mito do deus Pan. Ele era filho do deus Hermes e da mortal Dríope. Rejeitado pela mãe por causa de seu aspecto monstruoso, teriomorfo, foi envolvido pelo pai numa pele de cabra e levado para o Olimpo. Os deuses se encantaram com a criança, de modo especial o deus Dioniso, de cujo cortejo ele viria mais tarde a fazer parte. Recebeu dos Imortais, pela alegria que lhes causou, o nome de Pan, pois nele viram que um filho de Hermes, deus que unia o céu, a terra e o inferno e que, no plano terrestre, dominava as quatro direções (norte, sul, leste e oeste), só poderia encarnar a totalidade universal criada. 

Seu corpo era peludo, possuindo ele no lugar de pés cascos e chifres como os de bode e orelhas pontiagudas.  Prodigiosamente ágil, perambulava pelos bosques e vales tocando a sirinx, sempre à procura de ninfas para atacá-las e com elas copular. Quando não as encontrava, masturbava-se furiosamente. Primitivamente, foi reverenciado como deus dos rebanhos e dos pastores, passando a encarnar depois o princípio da ordem universal, invocado inclusive nas litanias órficas como um princípio amoroso, criador, incorporado à matéria e formador do mundo. Neste sentido, era fonte e origem de todas as coisas, representando a matéria animada pelo espírito divino (princípio da imanência), a natureza como um todo, nele se concentrando os quatro elementos constitutivos do universo. Era dele que provinham as criaturas mistas, sátiros, silenos, egipãs, faunos etc. 

 A aparição de Pan provocava o pânico, um  terror  inexplicável,
PAN
paralisante, que se apossava das pessoas que o viam. Gostava Pan de repousar nos períodos de calor intenso, ninguém ousando perturbá-lo, ficando tudo silencioso e calmo na natureza. Aqueles que o perturbassem incorriam na sua ira; eram por ele atacados, inspirando-lhe o deus o pânico. Consta que na batalha de Maratona, atacou os persas, o que praticamente determinou a vitória dos gregos sobre os seus figadais inimigos. Em agradecimento ao deus, os gregos erigiram um templo em sua homenagem na Acrópole.

Na história de Pan, há registros que nos falam de seu amor por Selene, a Lua, e pela ninfa Eco, às quais teria oferecido, como presente, rebanhos de bois brancos. Um dos acontecimento mais importantes na crônica desse deus tem relação com Tifon, o maior dos monstros descritos pela mitologia grega. Filho de Geia e do Tártaro, era Tifon um agente do caos, uma perigosa ameaça para a ordem cósmica. Podia andar pelos mares mais profundos sem que sua cabeça fosse coberta pela água; sua estatura ultrapassava em muito os picos das maiores montanhas, indo além das nuvens mais altas; ao abrir os braços, suas mãos alcançavam com facilidade o oriente e o ocidente. Seu corpo era coberto por víboras, possuía asas e seus olhos lançam dardos de fogo.

Para escapar do ataque de Tifon ao Olimpo, os deuses gregos fugiram espavoridos, inclusive Pan, que se lançou num rio com a intenção de se transformar em peixe. Tudo aconteceu tão rapidamente que Pan ganhou apenas uma cauda pisciforme. Quando retornou de seu mergulho, soube que Zeus havia sido mutilado pelo monstro, que lhe cortara os tendões dos braços e das pernas. Em companhia do pai (Hermes), Pan conseguiu, contudo, afastar Tifon com o seu famoso grito que causava terror e fuga. Dirigindo-se depois a uma gruta, onde o Senhor do Olimpo jazia inerte, ambos, pai e filho, conseguiram reconstituí-lo, ligando os seus tendões, dando-lhe assim uma nova forma, equivalente a um segundo nascimento, que o projetou num nível superior de existência divina. Assim recomposto, Zeus, como sabemos, voltou a
MONTE   ETNA
se defrontar com Tifon, que se refugiou na ilha da Sicília. Zeus o perseguiu, a batalha foi terrível. Ao final, Zeus conseguiu vencê-lo, lançando sobre ele o monte Etna. Aprisionado, mas não morto, Tifon, até hoje, através de labaredas e gases, continua a dar sinais de sua presença, lembrando-nos que as forças do caos, ainda que dominadas momentaneamente, se constituem numa ameaça permanente. Segundo os gregos, para recompensar Pan dos inestimáveis serviços que lhe prestou, Zeus o colocou nos céus como a constelação de Capricórnio.

Pelos seus múltiplos aspectos, é de Pã, no mundo grego, que parte a ideia que vai invadir a filosofia, ideia que acabou por constituir a doutrina que tomou o nome de panteísmo. Esta doutrina, como sabemos, na filosofia grega, é de inspiração da corrente estoica, para a qual a força vital imanente ao mundo se confunde com a própria divindade. Spinoza a retomará, sintetizando-a na frase Deus sive Natura, o mesmo fazendo Hegel, que descreve a realização divina não só através da história humana como através do que
NOVALIS
chama de “dialética da natureza.” Lembremos que todo o romantismo filosófico do final do séc. XVIII e início do XIX na Alemanha (Novalis, Schlegel, Jacobi, Scheling) foi profundamente afetado por estas ideias. A teologia cristã moderna (veja inclusive a condenação de Spinoza pela sinagoga) identificou o panteísmo como um ateísmo por que ele recusava a ideia de um Deus pessoal. O panteísmo evoca a ideia de uma força impessoal presente em todo o universo e no homem, ideia que encontra a sua melhor formulação no Brahman dos hindus.


Esta identificação de Pan com o Todo, como a antiguidade no-la legou, encontra a meu ver a sua melhor explicação se considerarmos que  Capricórnio é o signo que abre o quarto quadrante  zodiacal, quadrante que nos coloca na décima casa, o
QUADRANTES   ASTROLÓGICOS
meio-do-céu, o setor astrológico que marca a possibilidade da mais elevada realização individual, o mais elevado grau de influência que podemos ter sobre o mundo material. Esta influência, para a maioria, só tomará o caminho da vida material (cabra montanhesa), para outros, uma significativa minoria, ela unirá o material e o espiritual (licorne). Para chegar a esse ponto da montanha, temos que ter vivido conscientemente os quadrantes anteriores, desde o primeiro e o segundo, onde temos os nossos talentos individuais e a contribuição familiar, passando pelo terceiro, no qual encontramos aqueles com quem nos associamos e deles recebemos ou não colaboração e recursos. A partir de Capricórnio é que o Todo, isto é, Pan, poderá se abrir para nós. No quarto quadrante, que termina pelo signo da sabedoria, Peixes, é que, conforme o aprendizado do terceiro, sobretudo, conquistaremos efetivamente a nossa liberdade, cuja característica mais marcante nesta última etapa está na liberdade de assumir deveres e responsabilidades que independem de retribuição ou reconhecimento. È no último quadrante zodiacal que podemos trabalhar com conceitos de altruísmo, fraternidade, humanitarismo.

A antiguidade grega atribuía a Pan dons proféticos, os mesmos que encontramos em outros seres telúricos, mais instintivos, que, ao invés da razão, preferem ouvir aquele “saber” espontâneo que “sabe” mais que o racional, aquele saber que percebe as verdades essenciais, as que têm importância realmente quando pensamos em vida digna. A parte “úmida” de Capricórnio (a cauda pisciforme de Pan) tem, astrologicamente, muito a ver com o lado inconsciente do signo, lado que, ao invés de causar problemas maiores, contribui positivamente, principalmente quando pensamos nos tipos superiores do signo que se transformam em servidores da humanidade. É este lado úmido que faz com que, embora possa se encontrar numa posição de poder ou de influência, o capricorniano de terceiro tipo (licorne) sabe que além dos poderes superiores, representado pelo pico das montanhas, há uma autoridade mais alta,  uma autoridade real ou simbólica diante da qual terá que se curvar, o poder das origens (Câncer), que nunca poderá ser esquecido.

O lado úmido de Capricórnio (Pan), segundo o mito, teria vindo do delfim, o peixe sempre associado a Apolo e ao oráculo de Delfos. Uma versão mitológica nos informa que os delfins são antigos piratas que, depois de terem atacado Dioniso, caíram na água e se arrependeram. Tornando-se símbolos da regeneração, estes peixes, ainda segundo o mito, ajudam os náufragos, muitos deles inclusive, para salvá-los, empurrando-os até as praias. Plutarco, o escritor e moralista, sacerdote de Apolo em Delfos, conta que o poeta e músico Arion (séc. VII aC) foi salvo dessa maneira. Os delfins eram muitos conhecidos pela sua sabedoria e prudência (virtudes capricornianas), sendo considerados, pela sua maneira de se deslocar, como mestres navegadores.