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terça-feira, 27 de maio de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - VÊNUS (4)


AFRODITE   (VÊNUS - BRONZINO)

Sem se desligar da sua profunda relação com Adônis (mito já abordado), Afrodite, dando vazão à sua natureza de deusa do amor, nunca deixou de se aproximar de muitos deuses e mortais. De uma rápida união com Hermes, que a desejara desde que a vira presa à rede de Hefesto, teve Hermafrodito, que ela deixou sob os cuidados das náiades numa gruta do monte Ida para ser por elas educado.

HERMES   (FÍDIAS)

Jovem de extraordinária beleza, Hermafrodito, quando chegado o momento de sua dokimasia (espécie de provas a que se submetiam os jovens para ingressar na vida adulta), pôs-se a percorrer o mundo. Passou pela Lícia, pela Cária e por outros lugares.
NÁIADE  (JOIA,  INÍCIO SÉCULO XX)
Regressando à terra de origem, fixou-se em Halicarnasso, na Ásia Menor, indo viver perto da fonte Sálmacis. Uma das ninfas, uma náiade, homônima da fonte, vendo-o, apaixonou-se perdidamente por ele. Ele, como nos conta o mito, repeliu-a. Certo dia, quando, despido, se preparava para mergulhar no lago, Sálmacis, a ninfa, abraçou-se a ele, cobrindo-o de beijos, descendo ambos enlaçados à profundeza das águas, pedindo ela aos deuses que jamais os separassem. Os imortais, diante de tão grande amor, a atenderam. Os dois corpos fundiram-se num só, surgindo assim um novo ser na natureza. Sálmacis era uma ninfa que, embora fazendo parte do séquito da deusa Ártemis, como uma de suas ursinhas, ao invés de uma vida ativa nos campos, rios e nas fontes, preferia se entregar à luxúria e ao ócio.



HERMAFRODITO  E  SÁLMACIS

Metade macho, metade fêmea, a voz sem timbre viril, voz de contratenor, os membros sem vigor, Hermafrodito pediu a seus pais que fosse transformado num ser  semivir (homem pela metade) todo aquele que se banhasse nas águas da fonte Sálmacis e convertido inclusive num impotente (mollescat). Os cultos a Hermafrodito foram introduzidos na Hélade por volta do séc. V aC e a esse aspecto do mito do filho de Hermes e de Afrodite já nos referimos anteriormente (uma tentativa de se “imobilizar” o Hermes dos sofistas; o conflito das ideias platônicas com a destes filósofos).


HERMAFRODITO  ( MUSEU DO LOUVRE)

Hermafrodito foi também a princípio, isto é, na sua origem, muitas vezes considerado como um aspecto viril da deusa Afrodite. O mito provinha da Ásia Menor e chegou à Grécia através da ilha de Chipre. Afrodite, como acontece com muitas outras Grandes-Mães asiáticas, parecer ter sido representada inicialmente, devido à ascendência que tinham sobre a energia masculina, com uma espécie de órgão fálico interior, representando esta imagem uma sigízia fundamental. Seria algo assim como se seu animus passasse a ter vida independente, um aphroditus, uma divindade barbuda, com seios de mulher. Lembre-se que em tempos muito remotos havia em Chipre um culto a uma Afrodite Barbuda.


O BANQUETE DE PLATÃO  ( FEUERBACH)

Chegando a uma androgenia terminal, pela mistura dos componentes masculino e feminino, a figura de Hermafrodito vai pouco a pouco se mitificando, tornando-se filho dos mencionados
HERMAFRODITO  (ALQUIMIA)
deuses. Lembramos que depois de um longo esquecimento, o tema do Hermafrodito só foi reaparecer no Renascimento, num contexto amplamente influenciado pelo diálogo O Banquete, de Platão, com as importantes contribuições do Hermetismo e da Alquimia, contexto no qual ele é considerado como um par de opostos confundidos. O tema ganhará maior impulso quando o movimento artístico a que se deu o nome de Simbolismo o elege como uma de suas principais motivações.


Quem fixou o mito de Hermafrodito no mundo antigo foi Ovídio, nas suas Metamorfoses (Livro IV), no início da era cristã. Desde então, abordado ou usado de modo perfunctório ao longo dos séculos, o mito navegou à margem das grandes correntes artísticas e literárias. Só cerca de mil e seiscentos anos mais tarde, no início do séc. XVII (1605), ele foi retomado na França para nos ser oferecida, ainda que pouquíssimo conhecida, uma das mais curiosas obras literárias sobre o tema, intitulada L´isle des hermaphrodites nouvellement descouvert, avec les moeurs, loix, costumes et ordonnances des habitants de cette isle, também chamada tout court pelo nome de Les Hermaphrodites.




Não fixada em lugar nenhum, ilha vagabunda (no que lembra as ilhas Simplégades e a ilha de Ortígia da mitologia grega), ela abrigava uma sociedade que prestava culto a três divindades, Baco (Dioniso), Vênus (Afrodite) e Cupido (Eros). Mais da metade desta obra, escrita por Thomas Artus  (pseudônimo?),  sieur d´Embry,  se dedica ao relacionamento de todo o sistema legal da ilha e aos regulamentos que comandavam a convivência de todos os seus habitantes,  nos  seus  variados  aspectos.     Inscrito nos cânones do
barroco, com lances maneiristas, o texto é muito rico enquanto através dele podemos identificar uma descrição satírica da corte do efeminado Henri III, filho da italiana Catarina de Médicis, e do alegre séquito de jovens aristocratas que o acompanhava, chamados de mignons. Para uma melhor compreensão do que foi a corte de Henri III, muito útil (evidentemente, para os mais interessados) o filme La Reine Margot (irmã de Henri III), de Patrice Chéreau, de 1994, com Isabelle Adjani e Daniel Auteuil (fig. acima), baseado num livro de Alexandre Dumas (roteiro de D.Thompson e de P. Chéreau).

Sobre a ilha dos hermafroditas, um dos melhores textos que temos sobre ela é o de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi no seu espantoso livro Guide de Nulle Part et d`Ailleurs (a melhor edição é a francesa). Dizem os autores que a ilha vagabunda passeava ao largo do porto de Lisboa; seus habitantes falavam latim e atribuía-se ao deus solar assiro-fenício Heliogabalus a criação da república hermafrodita, uma “verdadeiro teatro ao ar livre” no qual eram
HENRI III
representadas o ano todo e por toda a parte peças inspiradas nos clássicos (O Rapto das Sabinas, Artaxerxes e sua Filha, Acteon Devorado pelo seus Cães etc.). A arquitetura era helenística, decorada com ouro e esmalte, com colunas ao longo das ruas. A divisa da república era A Tous Accords. Os autores favoritos eran, dentre outros, Ovídio, Catulo e Propércio. Estas informações foram retiradas do texto de Thomas Artus que serviu de suplemento do Journal de Henri III (Cologne, 1724).


   
Além dos simbolistas que se voltaram para o tema no séc. XIX, não podemos esquecer de Balzac e do fotógrafo Nadar, ambos sempre interessados por temas extraordinários. Referência especial a Balzac, que, com Sarrasine, nos apresenta uma leitura sobre a estética do hermafroditismo, fazendo ele com esse romance, em termos de gênero literário, uma transição para o chamado romantismo tardio, algo decadentista.  

No mundo grego, o hermafrodito, aquele que nascia com uma conformação anormal de seus órgãos sexuais, sempre era objeto de horror, de repugnância. Quando nascia uma criança com
ANDRÓGINO  (NUREMBERG)
os sinais de hermafroditismo (o que era raríssimo, mas possível), toda a comunidade se sentia ameaçada pela cólera divina. O mito do hermafrodito liga-se evidentemente à temática da integração do masculino e do feminino. Num sentido filosófico, ele repete a do andrógino, evocado por Platão: a dupla natureza humana, masculina e feminina original dos seres humanos e depois a separação dos sexos pelos deuses, invejosos diante de uma tal concentração de poder. Por isso, o andrógino era muitas vezes representado pela figura alada, simbolizando-se assim a integração da matéria e do espírito.


Lembremos, por outro lado, sob o ponto de vista astrológico, que a figura  do  andrógino  aparece  muitas  vezes  associada ao signo de
Aquário, sendo usada para representá-lo um ser angelical de natureza fluida, etérea, volátil, transparente. Essa figura sugere sempre uma ideia de desapego, de rompimento com as ligações terrestres, uma ideia de emancipação, de elevação. Não é por acaso que uma das figuras mais usadas para representar o signo de Aquário seja justamente a do anjo, um ideal da sublimação da vista instintiva, na medida em que suas asas se contrapõem simbolicamente, sob um aspecto positivo, transcendente, às de alguns seres alados ligados ao mal, como serpentes e dragões.

A Hermes sucedeu Dioniso na relação amorosa com Afrodite, nascendo então Príapo, a grande divindade da cidade asiática de Lâmpsaco. Deus fálico, protetor dos jardins, Príapo é divindade muito ligada às populações da Ásia Menor. Era também ele guardador das videiras, tendo como atributo essencial o desvio do mau-olhado (função apotropaica), protegendo as plantações dos que desejavam destruí-las.


OFERENDAS  A  PRÍAPO

Príapo sempre apareceu ligado aos ruidosos cortejos de seu pai, sendo muito grande a sua semelhança com os Sátiros e Silenos, aparecendo geralmente na companhia de um asno, seu animal de estimação. Vivia a perseguir as ninfas; teve um famoso caso com uma delas, chamada Lótis. O nome desta ninfa é derivado de lotos, aplicado a diversos vegetais da África, do Egito principalmente, e a uma planta com cujo caniço se fabricavam flautas.


PRÍAPO  E  LÓTIS  (PARMIGIANINO)

Há uma outra história sobre Príapo que aparece como variante importante sobre a sua origem. Consta que Hera agrediu Afrodite com um soco no ventre, quando a deusa do amor
HERA
estava grávida de Príapo. Isto se deveu ao fato de que o pai, segundo tal variante, seria Zeus e não Dioniso. Esta hipótese é bem defensável se considerarmos que Zeus sempre foi conhecidíssimo pelo seu tremendo furor erótico. Hera temia que a criança nascesse com a beleza da mãe e com o poder paterno, um ser que evidentemente poria em perigo a vida dos mortais como poderia desestabilizar a vida amorosa do próprio Olimpo.

   
O asno, lembremos, é uma imagem da obscuridade, um animal de tendências satânicas, como no-lo apresentam muitas tradições. Seria uma espécie de contrafação diabólica do cavalo, a razão pela qual, ao longo dos séculos, a arte o representou muitas vezes demônios e monstros com orelhas de asno. Na Índia, por exemplo, as divindades infernais e outras, de caráter sinistro, se servem dele como montaria. Sua imagem, no Egito, associa-se a Seth, personificação do mal, que toma a forma do maior dos monstros da sua mitologia, o pavoroso Apofis, o devorador do Sol. 

No mundo greco-romano, o asno, em alguns cultos, gozava, pelo contrário, de uma reputação favorável, como acontecia em Delfos, onde era sagrado, pois “conhecia tudo, ouvia tudo”, devido às suas enormes orelhas, associado sempre, por isso, à profecia. Era comum a prática da kephalomancia no mundo greco-latino, inclusive entre os germânicos: a cabeça de um asno era colocada sobre carvões em brasa, recitando-se preces e pronunciando-se o nome de criminosos suspeitos de um assassinato. Quando enunciado um nome, se os maxilares do asno se aproximassem, isto significaria um indício de culpa.

Para recompensar Poseidon, que tanto a ajudara quando do seu affaire marciano, Afrodite teve com ele uma relação amorosa, da qual nasceu Erix (etimologicamente, repelir, afastar), um herói que
ERICINA
deu nome a um monte na Sicília, em cujo pico foi levantado um templo em homenagem à deusa. Afrodite, por essa razão, era muito conhecida na Trinácria (Sicília) pelo nome de Ericina. Erix, segundo o mito, teria sido adotado, depois de nascido, pelo argonauta Butes. Dentre todos os argonautas, como se sabe, Butes foi o único seduzido pelo canto das Sereias. Os demais nem chegaram a ouvir as “cruéis” sedutoras, tão encantados que ficaram com o canto de Orfeu. Butes foi entretanto salvo por Afrodite, que o levou para a Sicília.



AFRODITE  E  ANQUISES

Não podemos deixar de mencionar também dentre os mortais favorecidos por Afrodite o pastor Anquises (etimologicamente, o curvo, o de braço torto). Certo dia, quando apascentava os seus animais, Afrodite notou o belo pastor e desejou amá-lo. Apresentando-se disfarçada, a deusa, seduzindo-o, entregou-se a ele. Logo depois, revelando a sua natureza divina, disse-lhe lhe daria lhe um filho, mas o proibiu de revelar a quem quer que fosse o fato. Informou mais a deusa a Anquises que o filho que teriam estaria destinado a fundar um império que não teria fim. Anquises, porém, certo dia, embriagado, vangloriou-se de ter feito amor com uma deusa. Imediatamente foi punido, perdendo a visão, segundo uns, ou perdendo o movimento de um lado do corpo, conforme outros. 

Até os quatro anos, Eneias (etimologicamente, temível), o filho de Anquises e de Afrodite, permaneceu nas montanhas, sendo depois entregue à família real de Troia e por  ela educado. Nas batalhas que gregos e troianos travaram, Eneias sempre demonstrou uma comedida coragem, considerado um valente, mas nunca podendo ser comparado a Heitor, o mais valente dos troianos.


AFRODITE, O MÉDICO E ENEIAS FERIDO 

Na primeira parte de sua vida (período troiano), Enias, embora tenha se comportado como um bravo, participando de grandes combates, procurou sempre manter uma atitude de respeito com relação ao seu métron. Jamais se excedeu; por outro lado, contou com decidida proteção dos deuses (Afrodite, sua mãe; Poseidon, Ártemis e outros). Pode-se mesmo dizer que na crônica troiana de Eneias não há muito a ressaltar com relação a seus feitos guerreiros. Na luta contra os aqueus, apesar da sua coragem, há sempre um milagre que o salva das situações perigosas. Este é o que chamo de “o primeiro Eneias”. Um herói que sempre se manteve afastado dos outros, um pouco deprimido, quem sabe, por não ser tão famoso quanto Heitor. Seu grande mérito, contudo, foi o de ter percebido que Troia seria arrasada pelos gregos (segundo alguns, teria recebido tal informação num sonho que os deuses lhe haviam enviado).

ENEIAS  E  ANQUISES
Quando da queda de Troia, Afrodite interveio, fazendo com que Anquises, já muito alquebrado e envelhecido, fugisse da cidade, amparado por seu filho. É neste momento que nasce o que chamo de o “segundo Eneias”. O poeta Vergílio (séc. I aC), no seu famoso poema épico Eneida, narra, ao longo dos seus doze cantos, toda a trajetória do nosso herói que, com alguns troianos, “guiados pela bússola do destino”, escapou para que se cumprisse a profecia materna. Quando os viajantes estavam perto da Sicília, Anquises morreu. Depois de passar por várias ilhas, Eneias deu com os costados na Líbia, ou melhor, no litoral de Cartago, onde reinava Dido.

Mais uma vez Afrodite interveio. Pediu a Zeus providências no sentido de que seu filho e acompanhantes fossem recebidos condignamente pela rainha. Assim aconteceu. Eneias foi acolhido por ela como um príncipe. Instalado no palácio, ele enviou alguns homens de seu grupo a Troia para que tentassem trazer seu filho, que lá ficara. Temendo os humores de Dido, Afrodite intercedeu, fazendo que os homens trouxessem, no lugar do filho, um jovem belíssimo, que outro não era senão o deus Eros incógnito, com a missão de fazer com que a rainha Dido se apaixonasse perdidamente por seu filho.

As artes de Afrodite surtiram efeito.                                   
O amor cresceu no   coração             
de Dido. Uniram-se como marido e mulher. Eneias, a essa altura, parecia ter se esquecido totalmente do destino que a mãe queria que ele cumprisse. Os deuses, entretanto, resolveram intervir. Agora foi Zeus a ordenar a Eneias que abandonasse a boa vida que Dido lhe dava e que partisse para assumir o seu glorioso destino. Dido tentou retê-lo por todos os meios. Não o conseguindo, suicidou-se, atirando-se numa fogueira. Eneias escapou com seus homens, retornando mais uma vez ao reino de Poseidon. Nascia aqui o terceiro Eneias.

Chegando a Cumas, na Itália, Eneias consultou a famosa Sibila que lá vivia. Seu destino foi confirmado por ela. Ela, inclusive, acompanhou nosso herói ao Hades, onde ele viu os gregos e troianos mortos; viu as almas que, quando encarnadas, tomariam parte na história do império que iria fundar; viu desde os primeiros reis até Augusto. Diante dessa visão, nosso herói soube que o reino de Príamo floresceria de novo na terra prometida.


ENEIAS  E  A  SIBILA

Retornando ao mundo dos vivos, Eneias estava preparado para se tornar o grande ancestral do genus latinum, da raça latina. Nesta nova condição, sem a proteção dos deuses, travou grandes combates contra os aborígenes, os rútulos. As vitórias se sucederam. Casou-se com Lavínia, noiva de Turno, rei dos rútulos, por ele vencido, consagrando-se definitivamente como o rei das novas terras.

O poema de Vergílio termina aqui. Mitógrafos e poetas, posteriormente, falam da fundação de Roma pelo próprio Eneias, que não teria terminado a sua vida como um mortal comum. Arrebatado pelo deuses, durante uma tempestade, passou a viver eternamente entre eles. 

Ao longo da sua história, o personagem Eneias, como se pode constatar, foi tomando forma, mudando. De um homem a princípio hesitante, não muito seguro, chegou ao final de sua vida à consagração heroica. A princípio, parecendo titubeante,  acomodado aos favores divinos e à boa vida que Dido lhe deu; ao final, um homem decidido, vencedor por seus próprios méritos. De uma cria de Afrodite a herói fundador do maior império que a Terra já conheceu. A história de uma autoconquista.


PIGMALEÃO  (PAUL  DELVAUX )

Outro mortal que recebeu os favores de Afrodite foi Pigmaleão, segundo o mito (Ovídio), escultor e rei de Chipre. Por não encontrar na ilha, então muito famosa por suas prostitutas, uma mulher que julgasse digna de seu amor, pediu a Afrodite que lhe pusesse no caminho uma mulher tão bela e elegante como a que esculpira. A deusa o atendeu, animando a estátua, uma belíssima mulher a quem Pigmaleão chamou de Galateia. Teve com ela um filho, Pafos, fundador da cidade cipriota de mesmo nome. 

Uma referência interessante a este mito foi o uso que dele fizeram alguns psicólogos americanos (Robert Rosenthal, Lenore Jacobson e Robert K.Merton). Trata-se do chamado “Efeito Pigmaleão” (também chamado Rosenthal) que consiste num realinhamento da realidade conforme as nossas expectativas. Esta tese (Efeito Pigmaleão) apareceu na pedagogia americana através de um estudo sobre o modo pelo qual as expectativas positivas dos professores afetavam o desempenho dos alunos. Professores que tivessem uma visão positiva dos alunos tenderiam a estimulá-los, ajudando-os a obter melhores resultados. De outro modo, o “Efeito Pigmaleão” nos diz que se tivermos expectativas negativas sobre os outros, não acreditando neles ou neles não achando nada de favorável, de positivo, é quase certo que colheremos dessas pessoas o pior. Se procurarmos trabalhar com expectativas positivas, os resultados serão sempre mais favoráveis. Para possíveis considerações astrológicas, deixo aqui o registro de como alguns psicólogos interpretaram o mito de que ora tratamos.

Na literatura, quando mencionamos Pigmaleão, torna-se obrigatória a referência ao escritor de língua inglesa George Bernard Shaw (1858-1950), irlandês, satírico, virulento, dramaturgo, crítico musical, autor, dentre outros textos teatrais, de Pygmalion (1912).
Com base nesse texto de Shaw, em 1964 foi lançado (USA) o filme My Fair Lady, sob a direção de George Cukor, com Rex Harrison e Audrey Hepburn nos principais papéis. O filme conta a história de uma mendiga (Eliza Doolittle) que vende flores nas ruas escuras de Londres. Numa noite, Eliza conhece um professor de fonética (Henry Higgins), um expert em descobrir muito sobre as pessoas apenas através de seu sotaque. Quando ele ouve a horrível pronúncia (cockney) de Eliza, aposta com um amigo que será capaz de transformar aquela simples e ignorante vendedora de flores  numa dama da alta sociedade londrina em apenas seis meses.  

O culto de Afrodite estendeu-se por todo o mundo antigo, seus templos e altares eram encontrados nas mais distantes colônias gregas. Suas principais festas foram as Adonias, as Anagogias, as Catagogias e as Afrodísias. Nas festas celebradas em sua honra  não se imolavam vítimas; seus altares jamais foram manchados pelo sangue. Grande parte do seu culto era constituído pela prostituição sagrada (hierodulia).


PROSTITUIÇÃO  SAGRADA

A palavra hierodulia é formada por duas, sagrado (hieros) e escrava (doulé). Assim, hierodula era a mulher que prestava serviços sexuais aos adoradores da deusa. Por estar esta atividade vinculada aos templos de Afrodite, as prostitutas eram sagradas. É de se lembrar, porém, que desde a antiga Mesopotâmia e em todas as civilizações que a adotaram religiosamente a prostituição sagrada ou templária era muito diferenciada da profana.

As meretrizes sagradas eram sacerdotisas cuja atividade estava relacionada com cultos da fertilidade, das deusas da procriação e do amor. Entre tantas divindades do mundo oriental não podemos esquecer de Ishthar-Inana, deusa do amor e do comportamento sexual; de seus rituais de adoração constavam o transsexualismo, o travestismo e  homossexualidade de ambos os sexos. Inscrições cuneiformes e imagens de Ishthar descrevem histórias da deusa como “Rainha do Céu e da Terra”, “Estrela da Manhã”, falando-nos dela como hierodula.

Lembremos que a prostituição secular e a sagrada aparecem mencionadas na Bíblia. Em Israel, as prostitutas se expunham em lugares públicos e se vestiam de modo peculiar (adornos, maquiagem etc.) para que fossem facilmente reconhecíveis. Embora  consideradas socialmente inferiores às outras mulheres,  eram admitidas na sociedade hebraica.

AFRODITE  PUDICA
Na Grécia, a distinção entre a Afrodite Urânia (Celeste) e a Afrodite Pandêmia (Popular, A de Todos) parece ter surgido no séc. V aC, com Platão, e depois muito usada pelos neoplatônicos para representar, a primeira, conforme o caso, o amor espiritual, lícito ou matrimonial, enquanto a outra representaria o amor físico, desregrado, prostituído. Na origem, a Afrodite Pandêmia representava a união dos povoados (demos) em um só corpo político, dando forma à polis ou à reunião destas em megalópolis. Nesta primeira representação política, associava-se muito Afrodite à deusa Peithó (Persuasão), que os latinos chamaram de Suadela. A adoração de Peithó, relacionada  a Afrodite, foi introduzida em Atenas, segundo o mito, por Teseu, no período em que ele promoveu a reunião dos vários demos e tribos da Ática. Aos poucos, já no período clássico da história grega, a deusa, como Afrodite Pandêmia, passou também a ter relação com o amor homossexual masculino. Afrodite era pouco cultuada pela elite grega ateniense, aristocrática. Era, pejorativamente, chamada de a “Oriental”, sinônimo de prostituta no caso, e de Vulgar ou Promíscua (Chidaios). Apenas nos bairros populares da cidade, perto da Ágora, era honrada, num templo edificado com dinheiro fornecido pelas próprias prostitutas.

A Afrodite Urânia era muitas vezes representada nua ou seminua envolvida por véus. Um de seus pés se apoiava numa tartaruga. Este animal era aqui uma representação da força tranquila e da resistência a todos os ataques. Emblema do silêncio e da introspecção, representava a tartaruga neste contexto a vida que se recolhia, reserva silenciosa que se interiorizava, que se voltava para dentro de si mesma, indicando que a vida matrimonial era algo a ser preservado, não exposto, lembrando-se sempre que conflitos conjugais deveriam ser tratados com a máxima discrição. Ao que parece, o primeiro a representar Afrodite desse modo foi Fídias, o genial escultor grego. Do culto da Afrodite Urânia, lembre-se, o vinho estava inteiramente excluído. A Afrodite Pandêmia aparecia às vezes associada ao carneiro. O escultor Scopas imortalizou-a nesta forma, mostrando-a montada nesse animal. As implicações astrológicas desse dois animais, tartaruga e carneiro, nas representações da deusa são evidentes.

 Em  Atenas,  só  os  poetas populares e cômicos compunham versos
sobre a deusa. Entretanto, nos momentos de grande perigo, como no caso das lutas contra os persas, o governo da cidade não teve nenhum problema em conclamar as prostitutas da cidade para que, com as suas preces, pedissem a proteção de Afrodite a fim de se afastar a invasão inimiga. Mesmo um poeta como Píndaro, extremamente religioso, celebrou a proteção da deusa em vitórias olímpicas de atletas.

AFRODITE  CALIPÍGIA
Dentre os vários apelidos de Afrodite, destacamos: Akidalia - a das fontes; Akraia - a do alto das montanhas (Acrocorinto); Ambologera - a que afasta a velhice - Antheia - a que faz brotar as flores; Apatouria - a enganadora; Apotrophia - a que satisfaz, acalmando os desejos masculinos, depois de tê-los atendido; Hetaira - a prostituta; Kalipigia, a de belas nádegas; Despoina, a déspota; Hekaerge - a que atinge à distância; Leminites - protetora dos portos; Melaina - a negra; Androphona - a destruidora de homens.
  

Afrodite chegou ao mundo grego como deusa da beleza, do amor sexual, da vida social, da sedução, da sensualidade, da harmonia e do sentido interno de equilíbrio que se manifesta como charme, calor, intimidade. Ela confere mobilidade ao espírito, leveza e agilidade às faculdades mentais, aos reflexos, savoir-faire, imaginação e capacidade de compreensão. 
                       Como tal, Afrodite   sempre representou  socialmente     um grande                   poder civilizador, o    desejo de
beleza e de cultura de uma civilização. É muito difícil para as três grandes religiões monoteístas, ainda presentes no mundo atual, que consideram o sexo como uma concessão à vida instintiva, entender o papel educador e civilizador da deusa. As três religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo) sempre, na realidade, excluíram o princípio feminino, associando-o ao mal ou, quando muito, o tolerando-o hipocritamente. 

Já se disse que a beleza de Afrodite ultrapassa aquilo que simplesmente agrada aos olhos. Ela é muito mais que perfeição formal, que contacto sexual ou aquilo que agrada aos sentidos. A beleza de Afrodite não é espontânea, ela pede trabalho, cultivo, pede equilíbrio entre a espontaneidade e a prática diuturna, algo semelhante ao trabalho de um jardineiro para se obter aquela beleza que se situa entre o material e o espiritual. Além do mais, Afrodite está, ao contrário de deuses como Palas Athena e Apolo, ao lado do efêmero, das artes que embelezam a vida, o cotidiano. Nada dela é produzido para passar à História, mas, sim, é feito para ser consumido aqui e agora. São de Afrodite os jardins, os perfumes e os odores agradáveis, os enfeites, as joias, os tecidos, as roupas, a estética corporal e ambiental, as boas maneiras, a arte da boa mesa e a correta escolha das bebidas. Uma das mais famosas punições impostas pela deusa consistiu em tornar malcheirosas as mulheres
de Lemnos que a haviam ofendido. Afrodite “não entende”, por exemplo, porque retirado da terra o ouro tem que ser guardado em cofres, como valor econômico. Pior ainda é o que ocorre em algumas sociedades nas quais as joias que com ele se fabricam não podem ser usadas diante do perigo de roubo que oferecem. Para Afrodite, o entesouramento do ouro é patológico. Afrodite pede que ele seja liberado, tornado visível, ostentado, como acontecia nas antigas sociedades orientais da Ásia Menor, inclusive entre os judeus (vide neste blog Os (Des)Caminhos da Sedução).

Nas mais diversas religiões, os homens santos que desejaram se aproximar do divino foram obrigados a se afastar da mulher. Por isso, foram inventados os anjos, seres desprovidos de qualquer sexualidade. A ideia das religiões é a de que os homens santos devem evitar as mulheres e menosprezar o corpo. O prazer sexual e a alegria de viver conduziriam à danação. O combate do cristianismo a Afrodite foi (é) insano. No mundo cristão, homens como Francisco de Assis, por exemplo, tiveram que se realizar sexualmente fora das instituições eclesiásticas. As palavras de São Paulo (Primeira Epístola a Timóteo) são bastante esclarecedoras: Que a mulher aprenda em silêncio, com total submissão; não permito a ela que ensine (nada), nem que tenha autoridade sobre o homem, mas (sim) que permaneça em silêncio. Bendizer a morte, evitar as mulheres e menosprezar o corpo são atitudes que possibilitarão a alguém se tornar santo nas religiões monoteístas. O prazer sexual e a alegria de viver levarão ao Inferno. 

    A maior experiência que se fez no mundo grego no sentido de se
alcançar a plenitude quanto aos ensinamentos de Afrodite nós a encontramos, historicamente, na ilha de Lesbos, com Safo (aproximadamente entre 620-570 aC), poetisa, superiora de uma escola semirreligiosa na qual se preparavam mulheres para se expressar através da arte, da música, da dança, consideradas essenciais para se viver uma vida de qualidade.


AMOR HOMOSSEXUAL MASCULINO  (CRATERA  GREGA)

Aqueles (estudiosos) que insistem em qualificar Safo de lésbica, pregadora do amor homossexual feminino, deveriam fazer o mesmo com a “obra” de Sócrates, o filósofo da pederastia, e com a obra de Platão, de modo especial com o seu Simpósio, um grande ensaio sobre o amor homossexual. A proposta de Safo tem, ao contrário das de Sócrates e de Platão, estas inquestionavelmente masculinas, um caráter feminino, universal. O Eros de Safo usava as mesmas palavras para designar (a) o amor entre duas mulheres, (b) o amor entre homens e mulheres e (c) o amor entre mãe e filho. Já o Eros que inspirava os mencionados filósofos patrocinava apenas o amor homossexual masculino. Afrodite e Safo levaram a sua influência tanto ao mundo masculino como feminino. O lesbianismo de Safo parece ter sido muito mais do que uma fixação homossexual; foi, acima de tudo, uma recusa a admitir apenas uma preferência sexual.

Não se pode esquecer que a filosofia platônica procurou por todos os meios diminuir a presença de Afrodite no mundo grego. Platão introduziu uma hierarquia entre os padrões corporal e espiritual. Sua proposta era a da submissão de Dioniso a Apolo, tornando-se, por isso, o Eros dos filósofos uma forma de amor superior à de Afrodite. A partir destas colocações platônicas, as relações entre os homens e as mulheres começaram a assumir a forma que têm até hoje. O corpo da mulher deixou de ser um dos caminhos para o sagrado e o amor de uma mulher passou a ser considerado um obstáculo para se chegar à espiritualidade.


DIONISO


Muitos helenistas modernos, adotam o preconceito platônico ao considerar que Afrodite não representa uma forma de amor superior porque dele não está excluído o sexo. Muitas mulheres que estão presas hoje a um casamento “normal”, de natureza heterossexual, portanto, não exercem quase nenhuma influência sobre seus maridos. O homem, nesse tipo de casamento, se orienta normalmente para uma carreira profissional, preferindo se fixar muito mais nas exigências dessa carreira, na sua ascensão no mundo do trabalho, na competição sob as mais variadas formas, do que nas atenções que a vida amorosa exige. Grande parte das esposas, muitas vezes com surpresa, descobre cedo que seus maridos investem muito mais no trabalho profissional e em tudo o que lhe seja correlato do que na vida matrimonial.



Tudo isto nos permite afirmar que há hoje no mundo uma homossexualidade psíquica tão grande ou mesmo maior que a homossexualidade física. Grande parte dos homens afirma hoje os seus sentimentos de virilidade tão só pela competição e por uma grande relacionamento masculino. A competitividade e a ambição masculinas (e femininas) no mundo moderno atualmente vem excluindo Afrodite, cada vez mais, já que o tempo dedicado ao trabalho, de um modo geral, esgota as energias vitais totalmente, sobrando pouco ou nada restando mesmo para Afrodite.


segunda-feira, 29 de novembro de 2010

FAUSTO & MEFISTÓFELES


O nome é proveniente do Latim, “feliz”, sendo utilizado como epíteto. Sua divulgação se deve certamente à popularidade de Fausto, herói de numerosas obras literárias e artísticas, salientando-se dentre elas a de Goethe. A raiz do nome é fau, que nos deu favor, favorável (faustus), o que favorece, o que protege (fautor). Fausto é, pois, o ditoso, o venturoso, o próspero. O verbo latino é faveo, es, favi, fautum, favere, favorecer. A palavra pode tomar também o sentido de orgulho, soberba.


Para muitos, Fausto foi um personagem historicamente determinado: um mágico que teria vivido no século XVI. A mais antiga referência que temos sobre ele talvez seja a de Trithemius (1462-1516), mago alemão, que escreveu livros sobre Geomancia, Alquimia e Feitiçaria. Neste último, ele faz referências à história de um tal de dr. Faustus. Na notícia que nos dá, Trithemius o menciona numa carta de 1507, na qual o descreve com desprezo, como um tolo, um charlatão.
Outro que o menciona também como charlatão é Mudt, um cônego da igreja alemã da época. Johann Gast, um pastor protestante da Basileia, do séc. XVI, deixa uma nota que nos permite supor que teria conhecido o dr. Fausto. Algumas outras citações nos fixam a imagem do dr. Fausto como um mágico que perambulava pelas cidades da Alemanha, sendo também apontado como um astrólogo e um necromante, isto é, um adivinho que prediz o futuro evocando os mortos, um profissional da necromancia (nekromanteia), arte que teria aprendido na Cracóvia (sul da Polônia) e que lhe dera um certo renome. Aos poucos, a fama do dr. Fausto foi se espalhando, acabando sua figura por se tornar um dos modelos do mágico medieval, podendo ser ligado seu nome desde então a personalidades como Apuleio, Vergílio, Roger Bacon, o papa Silvestre II, Paracelso e outros.

Fausto se assemelha a Lucius Apuleius Theseus (125-170), escritor latino que “esperando encontrar o segredo das coisas, abandonou-se a todos os demônios da curiosidade até os confins do sacrilégio’. Ele nos conta a sua história num texto, “Metamorfoses”, também chamado de “O Asno de Ouro”. Quando pretendeu o personagem do romance, também chamado Lucius, obter de uma feiticeira os seus conhecimentos secretos, foi transformado num asno. A forma humana só lhe seria devolvida se ele comesse as rosas que alguém estivesse levando para participar dos chamados Mistérios de Ísis. Se assim fizesse, Lucius obteria até a velhice uma vida isenta de problema e, depois, na ocorrência da morte, uma feliz estada nos Campos Elíseos.

A figura de Vergílio (Publius Vergilius Maro – 70 aC-19 dC)) é extremamente interessante quando a deslocamos da Literatura, onde a maioria só a vê, para o mundo da magia e da feitiçaria na Itália medieval. Embora a fama de Vergílio como poeta tenha praticamente apagado a sua fama de feiticeiro, sabemos que ele, na Idade Média, era muito mais conhecido como feiticeiro do que como poeta. Sua fama como necromante espalhou-se a partir do sul da Itália, principalmente do séc.X em diante. Inicialmente, Vergílio ligou-se filosoficamente ao epicurismo; aos poucos, porém, foi aderindo a uma espécie de platonismo místico através do qual aceitou e defendeu a sobrevivência da alma depois da morte do corpo. É no seu fantástico poema A Eneida que esta tese se explicita.

Quanto a Roger Bacon (1.214-1.294), teólogo franciscano, filósofo, cientista e alquimista inglês, chamado de Doctor Admirabilis, foi ele uma das mais espantosas figuras da história do pensamento e da ciência. Suas descobertas, suas especulações e suas prefigurações mentais fazem dele o modelo do mago medieval. Já o papa Silvestre II, falecido em 1003, sempre foi considerado um feiticeiro. Além de vários episódios de sua vida ligados à feitiçaria, famosa é a história do seu pacto com o Diabo para obter o papado. Paracelso (Aurelius Philippus Theophrastus Paracelsus Bombastus von Hohenheim – 1493-1541) é uma das figuras com quem Fausto parece ter maior semelhança. Alquimista, físico, médico, expoente da filosofia hermética, Paracelso sempre esteve à margem de tudo o que era ortodoxia científica no seu tempo. Sua vida nômade, antes de se fixar na Basileia, acusa passagens, algumas julgadas impossíveis, como a que teria feito pelo mundo dos tártaros, pelo interior do Egito, da Arábia e da Índia, onde mantivera contactos com xamãs, feiticeiros e mágicos.

Muitos comparam também Fausto a Lúcifer. “Mestre do dois”, símbolo do intelecto revoltado, senhor da divisão, da separação, Lúcifer foi muitas vezes considerado como o guia da humanidade, o pai da consciência humana que, para existir, tem, por sua própria natureza, a necessidade de criar uma fenda, um fosso, entre ela e as coisas que aparecem. É neste sentido que nos ocorre a frase de Hegel: “toda consciência é uma consciência infeliz”. A consciência humana não pode existir sem a interferência do Diabo (etimologicamente, o que divide, o que separa). Tomar consciência será sempre, pois, separar-se.

A função de Lúcifer é a de privar o ser humano da graça divina para submetê-lo ao seu poder e dominação. Assim, é este anjo caído que vai representar as forças da desintegração da personalidade do ser humano. Numericamente, tudo isto é representado pelo número dois, número feminino por excelência, símbolo da ambivalência, do conflito, do antagonismo, que de latente se tornou manifesto no mundo moderno através das várias formas que o ódio pode tomar. Como número de todos os desdobramentos, o dois é o número através do qual caímos na multiplicidade, na dispersão, ou seja, no diabólico.

As origens do dr. Fausto nos remetem, contudo, a um passado muito mais remoto: ao tempo de um pacto que poderia ter sido estabelecido entre o ser humano e Satã (em hebraico, o que arma ciladas), com o objetivo da obtenção, pelo primeiro, de toda a ciência do universo. Em troca, Satã se apossaria da sua alma. Este tema pertence a antigas tradições judaicas (Cabala) e cristãs. Este tema também aparece nas primeiras tradições luteranas, que dão cor a muitos episódios da crônica do dr. Fausto. O acabamento final da história é feito do século XV para o XVI quando ela toma forma definitiva, com alguns traços renascentistas.

A Cabala (Tradições), como se sabe, é a tradição esotérica e mística do judaísmo já aparecida na Antiguidade no Livro de Henoch. A Cabala seria, assim, com os textos que a ela se associam, O Livro da Claridade, séc. XII, e o Zohar, início do séc.XIV, a versão intelectual da mística judaica. Na doutrina sefirótica (emanação divina) da Cabala, encontramos a ideia de que o homem terrestre é uma sombra do homem celestial. Fausto seria, assim, uma ilustração da busca ascensional do homem terrestre para atingir o seu modelo celeste. Uma busca incessante de conhecimento que não recuasse nem diante do próprio Inferno.

Já o luteranismo, como está em O Livro da Concórdia (1577), entra no Fausto com as questões do pecado original e do livre-arbítrio, das quais o homem não pode se libertar sem a fé e a graça. O luteranismo, é bom lembrar, foi implantado sobretudo na Alemanha do norte e do centro, região do Fausto goethiano. No século XVII, o luteranismo vai receber a contribuição pietista, propagada por Jakob Spener, doutrina que propõe a transformação dos costumes através de princípios morais muito austeros.

Quanto ao componente renascentista da história, podemos caracterizá-lo como o seu elemento de choque. A Renascença foi um vasto movimento cultural conhecido na Europa ocidental no começo do séc.XV, marcado, no seus aspectos mais visíveis e talvez mais superficiais, por uma vontade de fazer “renascer” os valores da Antiguidade na civilização européia. No fundo, porém, o que se propunha não era só uma nova estética mas um novo sistema de valores. O mais importante agora era a glorificação do homem através da valorização da sua razão, num mundo cada vez mais sensível aos aspectos quantitativos da matéria, pelo aparecimento de técnicas novas, segundo um pensamento experimental e científico.

Sob um outro ângulo, não há como não deixar de se ver também em Fausto a desconfiança do “homem do povo” diante do “homem novo” nessa fase de transição do mundo medieval para o renascentista. Para o “homem do povo”, preso ainda às antigas tradições medievais, o novo tipo ficava muitas vezes entre um letrado e um charlatão já que costumava carregar livros escritos em línguas incompreensíveis sem ser um homem da Igreja e, o que era pior, procurava levar uma vida confortável sem ser nobre, não realizando também, por outro lado, nenhum trabalho manual. A explicação mais óbvia que o homem comum encontrava para tudo isto era que só com o auxílio do Diabo, mediante algum pagamento (a entrega da alma), poderia esse “homem novo” conhecer tudo o que sabia ou que alardeava conhecer.

Outra aproximação possível é a que podemos fazer entre a figura de Fausto e o mito de Prometeu. O titã grego, cujo nome significa “aquele que sabe antes”, simboliza efetivamente a afirmação do conhecimento humano diante do divino. Ao modelar os novos seres a partir da argila e ao lhes fornecer o fogo, até então um segredo dos deuses, insuflando-lhes com isso não só uma alma mas uma inteligência criadora, Prometeu proporcionou-lhes condições para que tentassem, como eles o vêm fazendo, a conquista da criação, destronando os deuses. No mito de Prometeu, a “entrega da alma ao Diabo” fica implícita na importância dada ao intelecto humano, sempre diabólico na perspectiva divina, já que é com ele, como a história no-lo demonstra, que os humanos vêm teimosamente se recusando a aceitar o seu destino, a sua posição na criação.

Mais: não só se recusando a aceitar o seu destino mas tentando obstinadamente assumir o controle de toda a criação. É por essa razão que muitos escritores desde Ésquilo, (Voltaire, Schlegel, Shelley, Herder, Byron, André Gide), que muitos artistas (Ticiano, Rubens, Böcklin) e que compositores (Beethoven, Liszt, Orff) se voltaram para o tema do filho de Jápeto, ressaltando sempre o que acima apontamos. O tema faustiano tem fortes ligações com o mito prometeico, sem dúvida. Aliás, é de se ressaltar, quanto a este aspecto, a profunda influência que um filósofo e escritor “prometeico” como Johann Gottfried Herder exerceu sobre o jovem Goethe.

É de se lembrar ainda, na perspectiva bíblica, que os frutos da árvore da ciência, que Adão ingere, por sugestão de Eva, irão causar a expulsão do casal do Paraíso, isto é, a queda. Adão podia tudo no Paraíso terrestre, vivendo num estado de graça sobrenatural. Faltava-lhe, contudo, algo, o direito de tocar na árvore do conhecimento do bem e do mal. A inobservância quanto a esta proibição trouxe a perdição do gênero humano. A ciência é demoníaca, não pode ser aqui outra a conclusão...

Foi Christopher Marlowe (1564-1593), na Inglaterra, o primeiro escritor a dar uma forma literária à história de Fausto (A História Trágica do Dr. Faustus). Marlowe, desde cedo, afirmou seu pensamento rebelde com relação às crenças religiosas e favorável quanto às especulações científicas. Sua obra desenvolve uma apologia da revolta individual e, ao mesmo tempo, nos fala do caráter trágico que ela pode tomar, em meio à temática do sobrenatural e das leis morais herdadas da Idade Média.

As origens históricas de Fausto, como ele nos aparece no séc. XVI, estão, contudo, nos registros encontrados na Alemanha, nas primeiras décadas do século, nos quais se fala da existência de um mágico errante chamado Georgius Faust ou dr. Faust, como era também conhecido. Teria nascido provavelmente em 1480, em Knittlingen (Württenberg) e falecido por volta de 1540. As referências encontradas sobre ele vão desde depoimentos de adversários a elogios de clientes satisfeitos; desde testemunhos neutros a acusações do clero protestante.

Uma das informações mais desabonadoras sobre o dr. Fausto nos é passada por Johannes Tritthein, acima referido, erudito beneditino, em 1507, numa carta que escreve a Virdung, matemático e astrólogo, que ensinava na Universidade de Heidelberg. Sabe-se que o dr. Fausto se declarava um profissional da necromancia, capaz de ver o futuro por meio de comunicação com o espírito dos mortos, e também astrólogo, isto é, alguém que sabia interpretar a influência das energias planetárias nas vidas e nas questões humanas.

Sabe-se também que o dr. Fausto se apresentava, com um discurso não muito claro, como representante de uma tradição herética, fato que o punha em conflito com o conhecimento acadêmico do tempo. O dr. Fausto se denominava como “o Fausto mais jovem”, fazendo supor com essa afirmação que haveria um outro mago, um senior, seu antecessor, e talvez um outro mais velho ainda... Admitia-se que o conhecimento dessa linhagem de sábios constituiria aquilo a que se deu o nome de prisca theologia, a mais autêntica sabedoria dos antigos, anterior à tradição cristã, que a havia condenado e proibido.

Esta sabedoria, considerada demoníaca, havia sido restaurada em grande parte pelo padre Marsilio Ficino, helenista, filósofo e humanista italiano, chefe da escola platônica de Florença, que contava entre seus discípulos e correspondentes figuras como Margarida de Navarra, Paracelso, John Colet e Lourenço de Médici, o Magnífico, seu protetor. Ficino traduziu não só os diálogos de Platão como uma boa parte do Corpus Hermeticum, as obras dos neoplatônicos e do Pseudo-Denis. Ficino e seus seguidores lançaram a tese de que o “Corpus Hermeticum” seria a fonte mais antiga desse conhecimento não contaminado pelo cristianismo. 

Pico della Mirandola ampliaria essa tradição, tornando-a mais herética, ao propor que se estabelecesse uma relação entre ela e o cristianismo. Esse grande erudito italiano do séc. XV procurou analisar a Bíblia e interpretar o cristianismo à luz da Cabala. Escreveu 900 teses sobre o tema, motivo de sua condenação pela cúria romana e da declaração pública de sua heresia.

Alguns pesquisadores entendem que, ao se considerar como um segundo Fausto, esse de que tratamos, do séc. XV, estaria se referindo a um tal de são Fausto, do século V, muito atacado por Santo Agostinho por sua ligação com a heresia maniqueia. Já outros, melhor embasados, apontam para a figura de Simão, o mago, pertencente a uma seita gnóstica no tempo dos apóstolos. A ligação da figura de Fausto à de Simão (o Fausto mais antigo) parece ser aquela que melhor a explica, “segundo as palavras do próprio dr. Fausto”.

Simão é um feiticeiro mencionado no Novo Testamento (Atos). Nascido em Chipre, vivia na Samaria. Ao observar o trabalho dos apóstolos Pedro e João, que, tendo recebido o Espírito Santo, faziam a imposição de suas mãos para a cura de doentes, Simão lhes ofereceu dinheiro para que eles lhe passassem o poder. Condenado por Pedro, o episódio deu origem àquilo que é conhecido como simonia, pecado que tanto nos fala da negociação de títulos eclesiásticos como do abuso da graça divina em proveito pessoal.

Esse conflito entre os apóstolos e Simão explica, sem dúvida, a figura de Fausto na medida em que ilustra o conflito histórico entre a religião oficial e a magia. O que a história de Simão discute é que a Igreja Católica chamou a si o controle absoluto das ligações entre o mundo real e o “outro lado”, o mundo invisível. O poder de fazer milagres é o poder que o dr. Fausto vai reivindicar no século XVI.

A História registra que Simão aprendeu a arte da magia com um personagem chamado Dositheus, contemporâneo de Cristo, que se proclamava como o Messias anunciado pelos profetas. Repelido pelos apóstolos, Simão, sedento de poder e glória, teria se posto a viajar, fazendo discursos às multidões. Em Roma, teria ele se apresentado a Nero, o imperador, a quem encenou com êxito a sua própria ressurreição, pondo assim em risco o futuro do cristianismo. Quando Simão, na sequência de sua exibição para o imperador, pulou de uma torre especialmente construída no campo de Marte, em Roma, e começou a se elevar nos ares (O Ato dos Santos Apóstolos), Pedro, o apóstolo, também presente, diante do risco que o futuro do cristianismo corria devido ao apoio que Simão recebia das forças do mal, invocou os seus poderes, ordenou que tais forças deixassem de apoiá-lo. Tal aconteceu, “sendo largado, ele caiu em um lugar chamado Via Sacra, e, partido em quatro pedaços, morreu por obra do demônio” (O Ato dos Apóstolos). Uma observação: não confundir este Simão, heresiarca judeu-gnóstico da Samaria, com Simão Stilites, que, segundo dizem, viveu trinta e sete anos no topo de uma coluna pregando o cristianismo, até a sua morte em 459 dC. Em 1959, o cineasta espanhol Luis Buñuel realizou, com o título de Simão do Deserto, um filme sobre o Stilites.

Segundo depoimentos do séc. XVI, Fausto proclamava haver dominado toda a tradição greco-romana e adquirido o conhecimento de todos os livros. Registre-se mais, segundo a lenda, que numa reunião com estudantes ele fez uma descrição completa de todos os personagens da guerra de Troia “como se dela tivesse participado”.

A feitiçaria, a partir de 1560, começou a ser atacada indistintamente por luteranos, calvinistas e católicos. Parece estar hoje suficientemente provado que foram os protestantes (Lutero e Melanchton) os primeiros a relacionar Fausto com o Diabo. A morte de Fausto, inclusive, por volta de 1540, era atribuída nos meios protestantes ao próprio Diabo. A principal fonte da versão mais próxima do séc.XVI sobre o mito de Fausto apareceu em 1587, o “Faustbuch”, de enorme sucesso na Alemanha, publicando-se logo inúmeras versões da história.

Goethe parece ter tomado conhecimento do mito faustiano em 1770, através de Herder, quando fazia o curso de Direito em Estrasburgo. Seus projetos àquela altura incluíam obras sobre figuras como Prometeu, Maomé, Júlio César e o Judeu Errante. A escolha voltou-se para o Fausto porque o tema integrava-se não só à tradição alemã como porque sua personalidade, ávida de conhecimentos, identificava-se de algum modo com ele.

Goethe começa o seu poema dramático em 1773, dá-lhe continuidade em 1790, sendo a primeira parte da obra publicada em 1806. O que se vê no Fausto de Goethe é a sedução, por ele, da inocente Margarida, que ele abandonará. Margarida, como sabemos, mata seu filho e é condenada à morte, mas seu arrependimento a salvará da danação. Quanto a Fausto, entre Mefistófeles, que jurou reduzi-lo à animalidade, e Deus, que lhe fornece meios de salvar-se através de suas próprias forças, aparece ele como um símbolo da condição humana e de sua oscilação constante entre o bem e o mal.

O Diabo, no Antigo Testamento, aparece com pouco destaque. Já no Novo Testamento ele vai adquirir muita proeminência, especialmente em uma cena que certamente antecipa o pacto de Fausto. É a cena em que o Demônio tenta Jesus Cristo, transportando-o para um monte muito alto para mostrar-lhe todos os reinos do mundo. O Demônio promete que dará a Cristo tudo o que lhe mostrava se, prostrado, ele o adorasse. Temos aqui, sem dúvida, a gênese do tema faustiano. A presunção de que só a magia diabólica poderia tanto e trazer a satisfação para todos os desejos, uma presunção que aparecerá como tentação diabólica várias vezes na história do homem, ao longo dos milênios. A resposta de Cristo é conhecida: “Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a Ele servirás”.

“O Segundo Fausto”, de 1832, ano da morte de Goethe, inacabado, apresenta problemas fundamentais de moral e de metafísica. Introduzido no mundo da Grécia antiga, tornando-se esposo de Helena de Troia, Fausto nesta obra atinge uma serenidade idealizada.
Mefistófeles, embora personagem do Fausto goethiano, já aparece na literatura desde 1587 (O Livro Popular) e na obra de Marlowe (1588). Os elementos gregos dão o sentido de “aquele que não é amante da luz” ao nome Mefistófeles, o que nos permite aproximá-lo de Lúcifer, o “portador da luz”. Outra etimologia possível seria a de se ver dentro de Mefistófeles a palavra grega mephitis, o que é nocivo à saúde, o que é tóxico, infecto. Mefitismo, lembremos, em medicina, é enfermidade provocada pela exalação fétida de matérias em decomposição. Pela vertente judaica, Mefistófeles seria uma combinação de palavras hebraicas, mephiz, mentiroso, e tofel, destruidor.

Gênio do mal, anjo caído, Mefistófeles transforma-se depois num demônio do conhecimento, cuja aspiração é a de dominar o mundo para destruí-lo. É um demônio da literatura medieval, assistente do dr. Fausto desde que ele entregou sua alma ao Diabo. Mefistófeles é amargo e sarcástico; Goethe o transformou num símbolo metafísico. Sua função, positivamente (?) no Fausto, é a de representar para a humanidade adormecida a inquietação criadora. Em que pesem as etimologias de seu nome, Mefistófeles tem um lugar importante quando pensamos na história do progresso humano, mesmo que negativamente. Em última instância, Mefistófeles simbolizaria o desafio que a própria vida nos oferece, com as suas contradições, os seus equívocos, as suas derrotas e as suas possibilidades de vitória.

A lenda de Fausto foi muito enriquecida ao longo dos séculos, desde Marlowe, merecendo a atenção de Lessing, Klinger, Lenau, Thomas Mann, Paul Valéry (Mon Faust) e outros, inclusive de cineastas, de coreógrafos e de autores de ópera. Na música, Berlioz (1846), Schumann (1853), Liszt (1854) e Gounod (1859) defenderão o tema. Na pintura, Delacroix continua sendo o intérprete mais apaixonado do mito alemão. No cinema, Fausto aparecerá, dentre outros, com Murnau (Goethe, 1926), Orson Welles (The March of Time, 1935), Claude Autant-Lara (Margueritte de la Nuit, 1955), René Clair (La Beauté du Diable, 1950), Fraz Seitz (Doktor Faustus, 1981), István Szabó (Mephisto, 1981) e Jan Svankmajer (Faust, 1994).

Goethe é, de certo modo, o responsável pelos traços que fixaram a imagem de Fausto. Como Fausto, Goethe, ao longo de sua vida, tentou experimentar tudo. Divagações, a cultura clássica, interesses múltiplos, a revolta, a política, seu grande interesse pela magia, pela astrologia, pela ciência, seus amores, tudo vivido segundo uma certa postura “olímpica”, que procurou passar para o mundo. No final, porém, um certo vazio, um gosto amargo na boca, talvez angústia. Por isso, “aceitará” aquilo que Mefistófeles lhe oferece, julgando que obterá alguma paz ou satisfação.

Particularmente importante foi a astrologia na vida de Goethe, mas igualmente negligenciada pelos que o estudaram ao longo dos últimos dois séculos. Seria ela, a astrologia, a “ponte” entre Goethe e Fausto? Lembremos que no início de Poesia e Verdade lá está, segundo as suas próprias palavras: “A 28 de agosto de 1749, mesmo ao bater do meio-dia, vim eu ao mundo em Francoforte-do-Meno. A constelação era feliz; o Sol estava no signo de Virgem e culminava nesse dia; Júpiter e Vênus olhavam-se amigáveis, Mercúrio sem hostilidade; Saturno e Marte mostravam-se indiferentes; só a Lua, que há pouco fora cheia, exercia a força da sua oposição, tanto mais que a sua hora planetária começara ao mesmo tempo. Por isso ela se opôs ao meu nascimento, que não pôde dar-se até que essa hora não passasse.” 

No poema Sentimento Humano, Goethe nos diz:

Vós, ó Deuses, grandes Deuses
No vasto céu lá em cima
Se vós nos désseis na terra
Mente firme, ânimo bom,
Oh! Como vos deixaríamos
O vasto céu lá em cima!

No segundo Fausto, já no fim da vida, com quase 83 anos, Goethe se fixará em Helena, padrão de beleza clássica, da mitologia grega. Uma tentativa, talvez, de se entregar a prazeres mais “terrestres”, isto é, a mulher, idealizada na pessoa de Helena, símbolo do eterno feminino. Se tivesse vivido um pouco mais não seria fora de propósito, acreditamos, admitir que Goethe abandonaria seu lado prometeico a favor do epimeteico. Prometeu, o filantropíssimo, como se sabe, por causa de sua revolta contra os deuses, foi punido. Já Epimeteu, “o que sabe depois”, deixou os deuses de lado e se concentrou em Pandora, na sua beleza, no seu esplendor, aceitando-a, não dando maior importância àquilo que o machismo grego (e as religiões patriarcais também) sempre atribuiu a ela, a de ser a mulher a responsável por todos os males que fazem a humanidade sofrer.

Mas no Fausto, como no mito de Orfeu, esse “feminino” (chame-se ele Pandora, Eurídice ou Helena) não será atingido, ele escapa de Goethe. Helena some, com o filho do casal, Euforion, ser fantástico, símbolo da criação poética superior. Impulsivo e exuberante, Euforion vôa, querendo ascender às alturas, como um Ícaro, mas seu corpo desaparecerá, uma existência rutilante e fugaz. Apesar de ter tentado “viver” o seu lado epimeteico e não o tendo conseguido, não lhe restou outra alternativa senão a de se voltar para Prometeu. As últimas palavras de Geethe, já moribundo, sempre citadas, foram “Mais Luz...”

No século XX, o tema faustiano ligar-se-á ao nacionalismo alemão, como símbolo de uma proposta de dominação do mundo. É muito ilustrativo dessa visão o filme Mephisto (1981), adaptação de um romance de Klaus Mann, dirigido por István Szabó, grande cineasta húngaro, estrelado por Klaus Maria Brandauer, nome maior do cinema alemão. O filme nos conta a história de Gustaf Gründgens, ator, que foi casado com Erika, irmã de Klaus, e que aderiu ao nazismo para obter benefícios profissionais e materiais.

Klaus Mann (1906-1949), escritor alemão, era filho de Thomas Mann, o grande romancista. Homossexual, sempre teve uma relação muito difícil com o pai. Quando os nazistas chegaram ao poder, com Hitler, em 1933, foi para a Suíça, indo depois para a França (Cannes) onde se suicidou, ingerindo barbitúricos.