terça-feira, 14 de junho de 2011

PAI PATRÃO


O filme é de 1977, tendo em italiano o título Padre Padrone. No elenco, nos principais papéis, estão Omero Antonutti (o pai), Saverio Marconi, Marcella Michelangeli e Fabrizio Forte (Gavino). A Direção e o roteiro são dos irmãos Tavianni (Paolo & Vittorio). Música: de Egisto Macchi; fotografia: de Mario Masini. A base do filme é o livro Padre Padrone, l´educazione di um pastore, de Gavino Ledda.

Vencedor da Palma de Ouro e do Prêmio de Crítica Internacional do Festival de Cannes, em 1977, Pai Patrão é um dos filmes mais aclamados de todos os tempos, pelo que há de melhor na crítica cinematográfica mundial. Unanimemente, uma obra-prima. A direção é dos irmãos Taviani, os mesmos que nos deram outras importantes obras do cinema italiano: Sob o Signo do Escorpião, Um Grito de Revolta, Bom Dia, Babilônia, A Noite de São Lourenço, Kaos, Aconteceu na Primavera e outros mais.

A história é real, descrevendo-nos a trajetória de um menino, Gavino Ledda, que é obrigado pelo pai a abandonar os estudos para trabalhar nas montanhas, cuidando de ovelhas. As suas tentativas de mudar de vida foram sempre frustradas pelo pai, ignorante e prepotente. Com o tempo, porém, Gavino descobre que a sua única saída estava no estudo, que passa a buscar desesperadamente.

Gavino Ledda nasceu em Siligo, província de Sassari, na Sardenha, a 30 de dezembro de 1938 (Sol em Capricórnio, Lua e Saturno conjuntos em Áries, Mercúrio em Sagitário, Vênus e Marte em Escorpião, Júpiter em Peixes, Urano em Touro, Netuno em Virgem e Plutão em Leão), numa família pobre de pastores. Aos seis anos, é retirado da escola pelo pai, quando cursava o primeiro ano. O pai precisava dele, como filho mais velho que era, para auxiliá-lo no trabalho agrícola e pastoril. A escola, afirmou o pai, era um luxo que os pobres pastores não podiam pagar e, por isso, verberava as autoridades que haviam tornado a escola obrigatória. Uma frase que está no filme sintetiza este seu modo de ver: La povertà, obbligatòria è quella (A pobreza, essa é que é obrigatória).

Condenando o filho ao analfabetismo, ele fazia com Gavino o que o pai fizera com ele. A brutalidade e os espancamentos eram comuns na vida do menino e depois do jovem, enchendo-o de marcas, que chegaram mesmo a deformar o seu rosto. O fato é que Gavino passou a sua vida, da infância à adolescência, num verdadeiro estado de escravidão, submetido a trabalhos demasiadamente penosos.

No final de sua adolescência, conseguiu com muita obstinação se livrar da vida que o pai lhe impusera. Pensou em emigrar para a Holanda, mas acabou ingressando no exército. Não sabia o que responder quando era interpelado pelos seus superiores; respondia como sempre respondera ao pai: Signorsì (Sim, Senhor). Distinguia muito mal a língua italiana. Logo, porém, com o auxílio de um oficial e de um companheiro que por ele se interessaram, com uma espantosa determinação, foi superando as suas grandes deficiências. Acabou alfabetizado, com um vocabulário bem acima da média, como sargento radioperador numa escola de comunicações do exército. Em 1962, deixou o exército e voltou à Sardenha para continuar os seus estudos.

O pai e a gente de Siligo acharam-no muito pretensioso por ter abandonado a carreira militar, já que se a seguisse sua sobrevivência estaria assegurada. Gavino, porém, queria mais. Pensava então em fazer exames de conclusão do nível secundário e depois em ingressar numa faculdade. Insistiu, enfrentou o pai e a gente do lugar. A essa altura, ele já fazia parte de um outro mundo: seu patrimônio linguístico e cultural já não era o mesmo da gente de Siligo. Amava aquela gente, mas precisava ir além, interessar-se pelo mundo.

O livro de Gavino Ledda nos põe em contacto com dois mundos em contradição irredutível, o do pai e o do filho. Ao lê-lo não podemos deixar de nos lembrar de Isaac, personagem bíblico, filho de Abraão e de Sara. Os pais o tiveram já velhos. Deus testou a fidelidade de Abraão, exigindo que o filho fosse sacrificado (o teste de obediência, chamado pelos judeus de akedá). No último momento, como se sabe, o arcanjo Gabriel deteve a mão de Abraão. Este episódio bíblico dá origem ao chamado complexo de Isaac, assim configurado: filhos aos quais os pais transferem os seus problemas para que estes paguem por eles. Ou, ainda: o filho que passivamente se coloca à mercê do pai, que lhe impõe um destino, tornando-o muitas vezes seu herdeiro profissional. É o caso do descendente que assume o que o pai determina sem se revoltar. O patriarca Abraão representa nesta perspectiva o julgamento severo de Deus, o chamado julgamento divino pelo lado esquerdo. Cruel, orgulhoso, dominador, Abraão é um ser da separação, um ser que rejeita o amor à posteridade.

No ano de 1969, Gavino Ledda concluiu seu curso superior de Glotologia (gloss, glott, língua, linguagem; no caso de Gavino, o estudo dos dialetos da Sardenha e dos povos de ilhas do Mediterrâneo) na Universidade “La Sapienza”, de Roma. Em 1971, é designado para assistente de Filologia (estudo rigoroso dos documentos escritos antigos e de sua transmissão, para estabelecer, interpretar e editar esses textos) e de Linguística (estudo da linguagem humana sob o ponto de vista fonético, morfológico, sintático, semântico, social e psicológico) na Universidade de Cagliari. Ao mesmo tempo em que fazia os seus estudos superiores, escrevia Padre Padrone, publicado em 1975 (editora Feltrinelli), ganhador de um dos mais importantes prêmios literários da Itália, o “Viareggio”, logo traduzido em quarenta línguas.

O filme Padre Padrone foi lançado pelos distribuidores americanos no circuito internacional com um título meio idiota, My Father, my Master. Em 1984, Gavino Ledda dirigiu um estranho filme chamado Hybris. Nos anos seguintes, publicou romances e poemas. Em 2004, esteve em São Paulo, quando da realização da 18ª Bienal do Livro, mostrando-se muito avesso a badalações literárias dessa natureza.

A história de Hybris (1984) é curiosa. Ao voltar à vila dos seus ancestrais, o personagem (Gavino) possuía um título universitário, o que o afastava completamente das pessoas do lugar, de uns poucos amigos de infância. Sofria de uma úlcera, que conseguiu curar com a ajuda de Leonardo da Vinci, seu mentor imaginário. Refugiando-se numa pequena cabana de pastores nas montanhas, seu lar por uns tempos, é visitado tanto por deusas gregas (luz) como por demônios (trevas) que ele tem que subjugar se quiser prosseguir na sua vida de estudos. Seu orgulho (Hybris) deriva da vontade que demonstra no sentido de vencer todas essas pressões e da consequente resignação que assume diante da inevitável punição que virá por ousar enfrentar essas forças negras e luminosas, a fim de procurar por si mesmo o seu próprio caminho.

Hybris, lembremos, é palavra grega que pode ser traduzida como desmedida, excesso, uma disposição interior que leva o homem a ultrapassar limites de onde nunca deveria ter saído. Por isso, os deuses gregos punem toda hybris. Ciúme?




O filme Pai Patrão é um drama contundente ao descrever a opressão patriarcal como a encontramos em muitas sociedades humanas, fortemente marcadas pelo patriarcado, nelas aparecendo a figura paterna como um verdadeiro senhor da vida e da morte dos seus filhos. A primeira parte da vida de Gavino é uma grande ilustração dos complexos de Isaac e de Cronos, ambos de certa forma parecidos. No filme, o pai oprime o filho para transformá-lo apenas em força de trabalho servil na atividade agrícola e pastoril.


Os irmãos Taviani narram a opressão paterna através de belíssimas imagens da paisagem sarda. O pai e a própria natureza do lugar, inculta e bela, acabarão sendo superados por ele mas não eliminados de sua vida, como sugere a cena final. Eles permanecerão inscritos no psiquismo de Gavino como memória-hábito e exteriorizados na postura da vigília balanceada do gesto no pasto.




Ao que já foi dito sobre o complexo de Cronos, dentre os grandes símbolos ligados a esse deus e à sua versão romana, Saturno, não podemos deixar de incluir, retiradas do filme, referências à figura devoradora e brutal do pai, à aridez da Sardenha, às montanhas, às pedras e às ovelhas. É interessante destacar que, na origem, Saturno, o Cronos dos romanos, o dono do complexo que estudamos, foi uma divindade rústica, representada com o podão dos vinhateiros. Aos poucos, passou a representar psicologicamente o despojamento, a fatalidade, o rigor, o princípio de conservação do qual decorrem a seriedade, a vontade, a reflexão, a previdência e também a inibição e o retardamento dos reflexos.

Nos seus aspectos mais negativos, Saturno simboliza também o chamado complexo do desmame (separação da figura materna) e suas consequências: o medo da vida, a inadaptação, a solidão, a tristeza, a fixação no passado. O regime de Saturno é, como se sabe, o da inibição e o seu clima afetivo é o da falta, da privação, da frustração e finalmente o da renúncia. Os acontecimentos mais representativos de Saturno são os atrasos, os entraves, as freadas, as limitações, os abandonos, as separações, as perdas e os sacrifícios, que aparecem muitas vezes associados à pobreza, à penúria e à miséria.

No plano das correspondências, lembremos que Cronos (Saturno) admite as seguintes: a) corporais: dentes, tendões, cartilagens, pele, joelhos, ossos, unhas, cabelos, baço, resfriados em geral, paralisias, calosidades, entraves na locomoção, fraqueza das pernas, surdez; b) morais: ambição, avareza, desconfiança, misantropia, depressão e todas as provas relacionadas com as sucessivas separações pelas quais o ser humano deve passar depois do rompimento do cordão umbilical, as renúncias, abandonos e sacrifícios que a vida impõe; c) gerais: lugares ermos e desolados, desertos, ruínas, frio, nevoeiros, inverno, geada, neve, charnecas, maquis, chaparrais; d) animais: crocodilo, cabra montanhesa, camelo, urso, asno, toupeira, porco-espinho, tartaruga, sapo, licorne e todos os animais de patas fendidas; e) vegetais: cipreste, olmeiro, pinheiro, teixo, cânhamo e todas as plantas xerófitas; f) minerais: chumbo, enxofre, magnésio, rochas duras, pedras e terras negras; g) alquímicas: coagulatio, fixatio, crucifixio, mortificatio e conjunctio; h) astrológicas: Lua, ou seja, só podemos encarnar através de um útero feminino; toda forma, manifestação ou estrutura específicas que solidifiquem nossas energias vitais numa expressão particular e concreta dependem, em última instância, do princípio feminino, lunar.

Finalmente, uma palavra sobre o complexo de Cronos. Do ponto de vista paterno, esse complexo é imposto pelo princípio da autoridade paterna, isto é, no mito, o soberano que se nega a reconhecer mudanças, que não aceita que o que entra na existência passe por transformações. Fixado nas suas prerrogativas, dono das archai, ele rejeita toda a ideia de sucessão, não admitindo outra ordem que a sua, a por ele estabelecida.


Muitos que são tomados pelo complexo de Cronos não querem abandoná-lo. Apegam-se a ele porque não terão que decidir nada. Terão apenas que viver imóveis, submetidos, não reivindicando, já que tudo (um mínimo para a sobrevivência) lhes será dado. Uma espécie de perfeição estagnante, mas sempre uma contradição inelutável porque a vida não para.


Ao representar também tudo aquilo que simboliza a interdição à figura materna (complexo de desmame) e a ordenação de acesso ao mundo real, Cronos, mesmo nas suas versões mais “protetoras e bondosas” é também um modelo para o nosso vir-a-ser. Uma identificação desta natureza implica sempre uma morte (a do Pai) e um nascimento (o do nosso ego). É por essa razão que já se disse que o complexo de Cronos é o complexo de Édipo às avessas.