Se as elaborações mitológicas diferem
às vezes bastante, num ponto elas costumam coincidir: todas ou quase todas
partem da ideia de que a criação do universo é sempre precedida por uma massa
caótica informe, intemporal, ilimitada, obscura e fria; uma espécie de
protomatéria, uma massa pastosa, quase líquida, no seio da qual se aninha
potencialmente uma possibilidade existencial. Esta possibilidade, conforme as
descrições, se manifesta por algo que aflora à sua superfície, uma flor de
lótus, uma rã, uma serpente, um montículo de terra etc., como ponto de partida
para toda a criação subsequente.
Outra característica cosmogônica
comum é a de que essa massa líquida está em permanente movimento de fluxo e
refluxo e é, enquanto duração, cíclica, isto é, alterna-se como o dia e a
noite, como a sucessão das estações. Assim, tudo tem um começo, uma duração e
um fim, este sempre um recomeço.
É do seio dessa massa líquida que a
criação procede. A massa caótica contém dentro de si um potencial criador. Uma
vez criados os corpos e as formas, sempre presente a ameaça de um retorno à
indiferenciação, de uma volta ao caos. Entre os antigos egípcios, o
desenvolvimento da criação se dá pela atividade de um demiurgo que também
emerge da matéria caótica. A ele caberá engendrar os seres divinos e outras
formas.
O uno se biparte, se torna três,
nove, se multiplica, surge o plural e com ele se chega aos milhões, número que
entre os egípcios indicava o infinitamente grande. Ao mesmo tempo, o demiurgo e
os deuses criados vão se empenhar numa luta incessante para evitar o retorno do
que foi criado ao caos, algo assim como uma inundação ou outra manifestação
catastrófica que engolirá inexoravelmente tudo o que foi criado de tempos em
tempos.
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APOPHIS |
Esta ameaça de retorno ao caos tem
como símbolo mais visível uma enorme serpente que vive no seio da massa líquida
informe. Conforme certas histórias, esta enorme serpente se acha enrodilhada
sobre si mesma, mordendo a própria cauda, lembrando um movimento de eterno
retorno. Esta serpente, entre os egípcios, tem o nome de Apophis e, a cada
noite, ela tenta impedir o avanço da barca solar em direção da alba, tentando
impedir o ciclo do tempo. Para os egípcios, no mundo que antecede a criação não
existiam as noções de espaço e de tempo. Esta imensidão não tem fronteiras nem
consistência, tudo é móvel. Temos assim um espaço líquido envolvido pelas
trevas; não podemos falar do dia ou da noite, inexistentes então.
As principais cosmogonias egípcias
que descrevem as origens do mundo são as Heliópolis, de Hermópolis e de Mênfis.
Em grandes templos como os de Edfu e de Esna também encontramos visões
cosmogônicas dos tempos originais e da criação, nas quais as divindades
atuavam. É sobre este mundo primordial, instável, ameaçado constantemente de
implosão, que se torna necessário atuar, tentar dominá-lo e mesmo preservá-lo
de algum modo por ritos precisos, organizando-o socialmente como uma pirâmide, na
qual o faraó, colocado no seu vértice, desempenha o papel de principal
sacerdote mediador entre os humanos e os deuses.
As diferentes cosmogonias egípcias
têm em comum, como origem da criação, um oceano primordial, uma imensidão de
matéria líquida e trevosa, a que dão o nome de Num, dentro da qual existe um
demiurgo que, despertando, porá a criação em movimento. Este oceano primordial
representa a origem do universo, mas também o fim dos tempos, ao qual tudo o
que foi criado retornará um dia.
Este criador não depende de nada ou
de ninguém para se
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ATUM |
manifestar. Ele se chama Atum; é único e não tem um lugar definido onde possa ser encontrado; é onipresente. A criação se mostra pelo
aparecimento de uma ponta de terra, encoberta por um papiro, sobre a massa
líquida. A partir dessa manifestação, a criação vai se fazendo por etapas.
Sendo solitário, Atum (literalmente, “o que é totalidade”, “ser completo” ou “o
que é e o que não é”) dá origem a dois princípios, um feminino (Tefnet) e outro
masculino (Shu). Estes princípios vão criar Nut (Céu) e Geb (Terra), com os
quais começa a criação “normal”, reprodutiva, sexuada.
Num é o caos ou o oceano primordial no qual
estão presentes, antes da criação, os germes de todas as coisas e de todos os
seres. Embora às vezes seja descrito como uma divindade, Num sempre foi considerado
por algumas tradições mais como uma criação intelectual (como o Brahman dos
hindus), não tendo templos nem adoradores. É representado algumas vezes por um
ser antropomorfizado, mergulhado até a cintura na água do que parece ser um
lago, com os braços levantados, nos quais sustenta os deuses que criou.
Todavia, se nos aproximarmos mais do
Egito pré-histórico teremos que admitir que a noção de Num não é simplesmente o
resultado de especulações abstratas, mas a lembrança desse recuado período que
alcança o paleolítico durante o qual os seus habitantes podiam dos terraços
desérticos contemplar o Nilo monstruoso e indisciplinado que cavava o seu leito
no território africano. Ademais, cada inundação fazia o vale retornar à sua
forma original, a de um mar imenso; para que as cidades se mantivessem quando
dessas inundações, era preciso que ás
águas fossem desviadas, contidas de alguma forma, que diques e lagoas
artificiais fossem construídos. O Num primordial, salientemos, não é o autor da
criação. Ele desempenha no processo cosmogônico um papel passivo, feminino, onde
se manifestarão as primeiras forças divinas.
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MNEVIS |
Atum, o demiurgo, conforme a
cosmogonia heliopolitana, foi logo identificado como Ra, divindade solar, sendo
o touro Mnevis o seu animal sagrado. A doutrina heliopolitana ensinava que,
antes da criação, vivia no Num um espírito ainda indefinido, que carregava
consigo a soma de todas as existências, de nome Atum. Mais tarde, este espírito
manifestou-se como Atum-Ra, dando ele origem a todos os deuses, os humanos e todos os demais seres.
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ATUM-RA |
Atum é considerado como o grande
ancestral do gênero humano; é representado sempre por uma figura humana que
ostenta a coroa dos faraós, o pschent. Deus solitário, diz-se que ele tirou
de si mesmo, sem o concurso do princípio feminino, o primeiro par divino.
Somente mais tarde ele teria se unido a Jusa ou Nebet Hotep, tornando-se pai
dos gêmeos Shu e Tefenet.
As divindades descendentes do
primeiro Demiurgo vinham defendendo o país tanto interna como externamente,
apesar das ameaças às fronteiras do sul do país. As coisas pioraram quando Seth
e Horus entraram em luta, o que só
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SET E OSIRIS |
trouxera divisão e esgotamento. O primeiro
era irmão gêmeo de Osiris, a quem assassinara, e, como tal, tido do primeiro.
As preocupações aumentaram quando um novo perigo apareceu ao norte do país.
Ninguém havia ouvido falar dele, nem se sabia de onde vinha. De certo, só a
informação de que ele não fazia parte das assembleias divinas; nenhum templo,
nenhuma estátua lhe haviam sido consagrados.
Muitos diziam que essa ameaça vinha
de lugares distantes, além do
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KHEPRI |
país onde Khepri (escaravelho, uma das formas de
Atum, como o Sol matinal; “aquele que veio à existência por si mesmo”) se
levantava, habitados por povos inimigos. Outros afirmavam que ele viera da Ásia
para atacar o delta do rio Nilo. Outros ainda diziam que ele provinha das águas
salgadas, indomáveis, nas quais as águas do rio se perdiam, onde Ísis errara
por muito tempo à procura do corpo do seu querido esposo Osíris.
O que se sabia é que os deuses da
Enéada (grupo dos nove principais deuses de Heliópolis) não gostavam das águas
oceânicas, essas imensas extensões aquáticas assoladas constantemente por
ventos e tempestades. Era difícil chegar a elas; para atingi-las tinha-se que
atravessar a zona instável e pantanosa do delta. Aquelas águas vinham de terras
ignotas onde se veneravam divindades desconhecidas. Ao mesmo tempo que
dificilmente transponível para os que quisessem chegar ao grande oceano, o
delta do Nilo, com os seus pântanos, era, entretanto, uma proteção natural
contra os ataques externos.
Eis que num determinado momento uma
força até então desconhecida, um deus diziam alguns, começou a aterrorizar os
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YAM E SEUS ASSECLAS |
pescadores que se aventuravam no alto-mar. Engolindo barcos, homens, casas,
rebanhos e plantações criados ou instalados em algumas ilhotas do delta, o
terror logo tomou conta das populações costeiras. A coisa piorou quando se
propalou uma notícia de que a tripulação de uma embarcação nunca vista havia
raptado algumas jovens diante de atônitos camponeses.
Os rumores se multiplicavam, os
temores aumentavam. Histórias
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HAPI |
narravam que um monstro surgido das profundezas
marinhas, em companhia de crocodilos e de hipopótamos,vinha, à noite, errar
pelo delta, à procura vítimas. Diante desses acontecimentos, Hapi, o deus do
rio Nilo, alertou a assembleia dos deuses. Indecisos, eles recomendaram aos
sacerdotes que solicitassem aos crentes a multiplicação das oferendas e das
procissões religiosas. Tropas militares foram deslocadas para a região do delta
do Nilo.
O que se descobriu é que as ameaças
vinham de um soturno personagem de nome Yam, que se declarou uma divindade
marinha, e que se pôs a atacar os deuses. Tal aconteceu quando uma embarcação
religiosa descia o Nilo com uma estátua do deus Hapi. Quando a embarcação se
aproximava da embocadura do rio, serpenteando entre os papiros, uma onda enorme
a atingiu, Logo, tudo parecia ter voltado ao normal, mas nenhum sinal da
embarcação e de sua tripulação foi encontrado.
O deus Hapi exigiu que lhe fosse
feito um sacrifício, um touro, no caso. Mas nada disto impediu que Yam
continuasse atacando e fazendo vítimas, cada vez mais insaciável. Dia após dia,
ele exigia cada vez mais. Os deuses acreditavam que ele acabaria se cansando,
se tornando menos ávido, e que acabaria voltando para o seu distante reino
oceânico.
Tal não aconteceu, porém. Yam, para
demonstrar a sua determinação, enviou uma tropa de vagas marinhas conquistar as
terras do delta. Sob o formidável ataque, elas logo desapareceram, o gado se
afogou, os pássaros voaram, os que puderam fugir se afastaram apavorados, as
semeaduras apodreceram, os celeiros foram invadidos, tudo sossobrou.
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NUT |
A Terra, na pessoa de Geb, pai de
Osíris e esposo de Nut, deusa do céu, dirigiu-se então à deusa das colheitas,
Renenutet, pedindo-lhe a ajuda. Esta declarou a sua impotência diante do fato e
sugeriu a Geb que para apaziguar a fome de Yam fossem-lhe oferecidos feixes de
trigo em grande quantidade, rejeitados, porém,pelo deus.
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LÁPIS- LAZÚLI |
A Enéada, depois de
discutir longamente o assunto, resolveu reunir um grande tesouro em ouro,
prata, lápis-lazúli e outras pedras preciosas. Levados numa embarcação até o
delta, os presentes foram entregues ao deus pelo faraó, prosternado diante
dele.
Yam exigiu então que fosse construído
um templo em sua homenagem, tão grandioso quanto o de Ra, em Heliópolis. O
faraó hesitou: não desejava considerar um deus estrangeiro igual aos da Enéada.
Ao mesmo tempo, os deuses irritavam-se, ofendidos, ao ver o faraó fazer
constantes oferendas a um deus estrangeiro.
Como seu santuário não era levantado,
Yam foi tomado por grande
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PTAH |
furor. Foi enviada então, sob o comando do faraó, uma
delegação para negociações. Os argumentos apresentados não satisfizeram Yam,
que exigiu um tesouro dez vezes maior. A Enéada conseguiu juntá-lo, resolvendo
que ele fosse levado ao deus por Astarte, a belíssima e irascível filha do deus
Ptah, o deus que fora capaz de retirar a Terra do Num.
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RENENUTET |
Notando o sofrimento dos homens, os
lamentos de Geb, a impotência de Renenutet e o temor dos deuses, Astarte foi
tomada de grande receio diante do que lhe era solicitado. Orgulhosa, porém, ela
resolveu atender ao pedido dos deuses; banhou-se, vestiu-se maravilhosamente,
perfumou-se, cobriu-se de joias, e com um grupo de carregadores desceu o Nilo
numa grande embarcação, levando o tesouro para Yam.
Ao vê-la, Yam desistiu do tesouro e
mandou um recado para os deuses da Enéada: que eles lhe entregassem a própria
Astarte e nada mais ele exigiria para deixar todos em paz. Assim foi decidido,
e Astarte com um grande dote voltou a se apresentar a Yam para se tornar sua
esposa. A paz voltou ao universo e os deuses da Enéada retomaram as suas
atividades habituais.
Eis, porém, que o humor instável e
colérico de Yam voltou a se manifestar. A submissão de Astarte e as riquezas
que lhe foram dadas não bastavam. Ele enviou a esposa com o pedido de mais
tributos, com a ameaça de destruir não só delta, mas as montanhas também. O
risco de um retorno ao caos era iminente. Os deuses, então, recomendaram a
Astarte que não voltasse ao esposo.
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ASTARTE |
Não tendo outro recurso, a Enéada,
com muita relutância, viu-se constrangida a solicitar que Seth, o Terrível,
deus dos desertos,
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SETH |
enfrentasse Yam, pois era o único capaz de com o seu sopro
quente combatê-lo. Como monstruoso que era, seria muito fácil para Seth lutar
contra os monstros do caos gerados por Yam. O confronto aconteceu e só a muito
custo Seth conseguiu vencer Yam. O preço pago pela Enéada e pelo sacrifício de
vidas humanas foi elevado, mas acabou valendo a pena. Apesar das doenças e da
desertificação, a vitória foi obtida. E foi assim que a Enéada, agradecida,
empurrou para os braços de Seth a maravilhosa Astarte, cujo temperamento muito se
ajustava ao dele. E foi assim também que Yam, o deus do oceano, não voltou a
perturbar a paz das terras egípcias sobre as quais velava a Enéada.