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sexta-feira, 18 de março de 2016

MITOLOGIAS DO CÉU - SATURNO (1)

                                   


SISTEMA   SOLAR

Último planeta visível a olho nu do sistema solar, apesar de duas vezes mais distante da Terra que Júpiter, Saturno dista do Sol, em média, cerca de 1.425 milhões de km. do Sol. Leva cerca de 29 anos para percorrer a sua órbita, tendo o seu dia a duração de 10 horas, 39 minutos e 24 segundos. Por causa de sua rápida rotação, Saturno tem um notável achatamentos nos seus polos. Seu diâmetro equatorial é de 120.000 km. Sua massa é 95 vezes maior que a da Terra, seu volume 800 vezes maior e sua densidade 13% da do nosso planeta. Quanto à gravidade, 1,17 vezes a da Terra. Sua temperatura média é de -134º C. 



Saturno é um planeta gasoso, quase que totalmente composto de hidrogênio, com quantidades mínimas de hélio (4%) e de outros elementos. Até agora se descobriram 61 satélites seus, também chamados de luas. Dentre os seus maiores satélites conhecidos destacamos Mimas, Encélado, Tétis, Dione, Reia, Titã, Hiperion, Jápeto e Febe. O maior deles é Titã, com cerca de 5.280 km. de diâmetro (maior que Mercúrio). Os anéis de Saturno são constituídos por uma mistura de gelo, poeira cósmica e material rochoso, entendendo-se por cerca de 280 mil km., com 1,5 km. de espessura máxima. 


SATURNO
Segundo a teoria dos elementos, Saturno pertence ao elemento terra, tendo como princípios primitivos o frio (3,5) e o seco (3,0). Seu brilho é opaco, lívido, plúmbeo, tendo como características principais o coesivo, o estéril, o restritivo, o limitante, o obstrutivo, o impedimento, a renúncia. É por essa razão, desde a antiguidade, conhecido como Infortúnio Major ou Grande Maléfico. No mito grego, com o nome de Cronos, é considerado com toda razão como o Senhor da Terra e do Tempo ao regular o desgaste vital, a longevidade e ao exercer a sua força através da repressão, da disciplina, da coação e da interiorização.

A Saturno, astrologicamente, se atribuem os valores racionais na organização do ego, a erudição, a ambição lenta, a introversão, o
CRONOS
isolamento. Como planeta, dignificado, aponta para a perseverança, a autossuficiência e a autoridade consciente que o tempo proporciona. É, neste sentido, o planeta das archai. Suas virtudes vêm sendo sistematicamente desprezadas no mundo de hoje: responsabilidade, economia, resistência, paciência e reflexão estão hoje totalmente em baixa. Saturno reina sobre o chumbo, metal que se opõe à radioatividade. No plano fisiológico tem a ver com o cálcio, sobretudo com o seu metabolismo; são dele, no corpo humano os ossos (os joelhos especialmente), a paratireoide,  a pele, os dentes, as unhas e os cabelos.  

Saturno nos ensina que, num certo sentido, a autoridade não se transmite ou delega. É única, pois únicas são as suas virtudes, sempre associadas à solidão, à concentração, à meditação e ao poder da vontade. Negativamente, Saturno é avareza, egoísmo, intransigência, melancolia, esquizofrenia, inércia, insensibilidade e pessimismo.

As mais antigas ligações do Cronos grego e do Saturno dos romanos podem ser encontradas talvez na intuição primordial que o homem pré-histórico teve da terra como forma religiosa, como um

receptáculo de forças sagradas difusas. Neste sentido é que a terra (Geia) sempre foi considerada como fundamento de todas as manifestações, como Hesíodo nos mostra em sua Teogonia. Assim, tudo o que estivesse nela ou sobre ela, desde a castração de Urano por Cronos, passou a ser visto como um conjunto uniforme, com suas partes interdependentes, constituindo uma grande unidade, sustentáculo de tudo.

Inicialmente desordenadas, estas forças primitivas, difusas, representadas pela mistura dos quatro elementos (fogo, terra, ar e água), foram aos poucos se acomodando, cada uma delas encontrando os seus limites, um ajuste nem sempre fácil, porém. É de se lembrar que mesmo nas sociedades mais primitivas estas concepções podem ser encontradas. De um lado, pois, os chamados deuses uranianos, de ação celeste fecundante, de características masculinas, origem das forças que atuam na terra,  e, de outro, a terra, geradora, de natureza feminina.

NUN
As primeiras ideias que os egípcios formularam para representar tudo isto em termos religiosos nos falam de que no início havia um oceano primordial, informe, de nome Nun, onde, antes da criação, estavam encerrados os germes de todos os seres e de todas as coisas. Sem templos e adoradores, Nun era mais uma criação intelectual, representada muitas vezes por um ser antropomorfizado, com o corpo mergulhado até a cintura no elemento líquido, as mãos elevadas ao ar, de onde saíram as forças que viriam a atuar no espaço criado de modo radiante (fogo), coesivo (terra), expansivo (ar) e fluente (água).


ATUM
No início, pois, só um imenso oceano envolvido por trevas absolutas, que não podem ser confundidas com a noite porque o dia não existia. Nenhum movimento, nenhum ruído. No interior de Nun, imenso espaço líquido, sombrio, espesso, de contorno indiferenciado, iria se manifestar um demiurgo, de nome Atum, designado por expressões como O que é completo e O que é e não é ao mesmo tempo. 



Aos poucos, manifestando-se, impondo-se às trevas, Atum trouxe à existência um ponto luminoso, um lugar sagrado que os gregos designarão pelo nome de Heliópolis, a cidade do Sol. Isto aconteceu antes do aparecimento de outros lugares, igualmente sagrados, como Hermópolis, a cidade dos oito divindades (Ogdoade), dos  pais e das mães que estarão na origem de todas as coisas. Este lugar será ocupado depois como residência do deus Toth. 


Os egípcios identificaram, assim, o princípio maior das forças criadoras celestes sob o nome de Atum, representando-o por
MNEVIS
Mnevis, um touro divino, adorado na cidade sagrada de Heliópolis. Mais tarde, se fez de Atum uma personificação do Sol poente e do Sol antes do seu nascer. É considerado como o grande ancestral do gênero humano, usando na cabeça a dupla coroa dos faraós (pschent). Masturbando-se, juntando sua saliva e pronunciando certas palavras, Atum gerou o primeiro casal, Tefnet e seu irmão gêmeo Shu, criados sem o concurso de nenhuma entidade feminina. Assim, o
Um se tornou Três.  

Esse primeiro casal teve dois filhos, Geb, deus da terra, e Nut, deusa do céu. Sobre Geb disse Shu que seu nome seria Vida e sua filha deveria ser chamada de Maat, Harmonia. Viveram unidos até
PLUTARCO
que Shu, o pai, os separou. Plutarco, o historiador grego, identificava Geb ao Cronos grego. Como deus da terra, a base do universo, afastado da irmã, Geb vivia desolado, eternamente queixoso. Ele aparece, em muitas representações, deitado aos pés de Nut, o corpo coberto de vegetação, apoiado num cotovelo e com um dos joelhos elevado, dobrado, simbolizando assim as montanhas e as ondulações da crosta terrestre. Sobre a sua cabeça, Geb tem um ganso, que constitui o ideograma de seu nome. Geb e Nut geraram os chamados deuses osirianos, recebendo por isso Geb o título de pai dos deuses.   


NUT    E    DEUSES   
  
O ganso selvagem era como o pato e o cisne, na religião do antigo
GEB
Egito (na Índia e na China também), uma ave sagrada, de características solares, uma antítese das trevas, servindo de mensageira entre o céu e a terra. A alma de um faraó era comumente representada por um ganso. Já quando da elevação de um faraó ao trono soltavam-se quatro gansos dos quatro pontos do horizonte, acompanhada a liberação das aves por determinadas fórmulas mágicas. 

Atum, o Sol que envelhecia, foi substituído por Ra, o Sol nascente, que só poderia se mostrar quando surgisse na aurora como Khepri, sob a
KHEPRI
forma de um escaravelho alado. Com isto, instituía-se a tripla natureza do Sol,  Khepri (nascente), Ra (meio-dia) e Atum (poente), cada um deles diferente e o mesmo. O escaravelho é um símbolo cíclico do Sol, lembrando ao mesmo tempo morte e ressurreição. É a imagem do Sol que renasce por si mesmo, ao encerrar os seus ovos numa pequena bolota de terra que ele mesmo fazia e empurrava. 

Nut, que os gregos associavam a Reia, ao contrário de Geb, sempre recebeu um culto formal. Sua união com o irmão nunca foi aceita totalmente por Ra. Por isso, Ra os separou brutalmente, não permitindo que ela parisse os seus filhos em qualquer um dos 360 dias que tinha o ano.  

Felizmente, nos diz Plutarco, Thot, o escriba dos deuses, teve pena dela e, ao jogar damas com a Lua, vencendo-a, depois de muitas rodadas, obteve luz suficiente para confeccionar cinco dias. Como estes dias não apareciam na duração do ano oficial,  Nut teve condições de dar nascimento aos seus cinco filhos: Osiris (Dioniso e/ou Hades para os gregos), Haroeris (O Primeiro Horus), Seth (Tifon para os gregos), Isis (Hera, Deméter, Afrodite e Selene para os gregos)  e Nephtys (Afrodite e/ou Nike, para os gregos).

THOT
Os cinco dias fabricados por Thot têm o nome de epagômenos (literalmente, os que estão sendo acrescentados), cinco dias que escaparam ao olhar de Ra. Osíris, que se tornaria o herdeiro de Geb, foi o primeiro a nascer, de tez escura, amorenado. O dia do nascimento de Osíris é chamado de o dia do touro nos campos. O segundo a nascer foi Haroeris, Hórus, o Antigo (Primeiro); o terceiro a nascer foi Seth, que para sair mais rapidamente rasgou o ventre materno lateralmente. Sua cor lembrava os dias vermelhos, empoeirados, do deserto no período das secas. Seu nascimento foi marcado por muitas perturbações cósmicas e no país. A quarta a nascer, em Denderah, foi Ísis. Ela apareceu sob a forma de uma mulher negra , ao mesmo tempo como a noite e rosada como a aurora, cheia de doçura e amor. Diz-se que Nut, quando a filha estava nascendo, lhe disse: Por tua mãe, sê ligeira! (is, no antigo egípcio). A irmã fiel de Ísis, Nephtys foi a última a nascer.

Nut é representada normalmente por uma mulher que tem o seu corpo arqueado sobre a Terra, com seu ventre estrelado, mantida suspensa no ar por Shu, formando uma abóbada. Às vezes, ela
RA
aparece na forma de uma vaca, a forma que tomou quando, sob as ordens de Nun, colocou sobre o seu ventre seu pai Ra, as estrelas e as constelações, decidido a deixar a Terra, depois da revolta dos humanos. Nut é conhecida também como mãe de Ra, que, a cada manhã, renasce em seu ventre. Sob a  forma humana, Nut leva sobre a cabeça um vaso arredondado, que é o ideograma de seu nome. É a protetora dos mortos, que muitas vezes abraça; na cobertura dos sarcófagos, seu corpo estrelado fica acima da múmia, velando maternalmente por ela.

Shu havia, por sucessão, substituído Ra. Enquanto isso, Seth, sob o nome de Apophis, gerava um grande número de descendentes, seres dracônticos, que ameaçavam o reino de Shu, estabelecido no delta do Nilo. Os descendentes de Seth avançavam destruindo o país. Shu compreendeu tardiamente que para lutar contra as trevas a força e a inteligência humanas eram insuficientes. Os deuses se encontravam enfraquecidos, pois os humanos haviam deixado de realizar sacrifícios.


APOPHIS   E   ATUM

Era preciso, urgentemente, revigorar a fé dos humanos. Shu deu ordens nesse sentido. Uma grande resistência religiosa foi montada no país, impedindo-se, com grandes esforços e sacrifícios, que o mal triunfasse. Os descendentes de Apophis não conseguiram passar. Os problemas de Shu, entretanto, não haviam cessado. Suas indecisões, o fracasso das primeiras medidas que ordenara, estavam vivas na mente de todos. Havia muito descontentamento; Shu entendeu então que deveria renunciar. Como seu filho Geb não estava ainda preparado, decidiu que sua mulher, Tefnet, ocuparia o trono provisoriamente. 

Geb não gostou da decisão do pai. Não via com bons olhos a ocupação do trono real pela mãe. Uma noite, invadiu o palácio real e tentou violentá-la sexualmente. Ela escapou, fugiu, anunciando em seguida que renunciaria a favor do filho. Atacado pelas forças de Apophis, Geb foi ferido. Ra, que das alturas tudo via, resolveu ajudá-lo. Enviou-lhe através de um mensageiro a sua “peruca” (aura solar, luminosidade irradiante), jamais usada por alguém. Os ferimentos de Geb, milagrosamente, desapareceram.

Colocado sob a guarda de sacerdotes, o precioso talismã divino foi um dia levado para um lago sagrado para ser lavado. Ao esfregá-lo, viram, com grande espanto, que o maravilhoso talismã tomava a forma de um crocodilo. Ciente do ocorrido, Geb foi ao lago. Destemido, entrou nas águas. Um estranho ser lhe apareceu, tendo a cabeça de um falcão, com dois chifres taurinos, e o corpo de um crocodilo. Entendeu logo que Ra estava ao seu lado. Reconfortado pelo sinal divino, voltou e resolveu atacar os inimigos, vencendo-os inapelavelmente.


ÍSIS,   OSÍRIS,   ATUM   E   HÓRUS

O renome de Geb estendeu-se por todo o reino e por muitos países distantes. Adquiriu o poder de se metamorfosear, principalmente em crocodilo, forma aliás já usada por deuses que o haviam antecedido, Ra e Shu. Essa forma, um dia, seria também tomada por seu filho Osíris, que nasceria de sua união com Nut, deusa celeste. A partir de então, Geb foi reconhecido como o rei dos deuses, dos animais e dos seres humanos, de toda a criação, enfim. Ele sempre prestou muita atenção com relação ao comportamento das serpentes, seres dracônticos, muito inclinadas à revolta, conforme aliás Ra lhe recomendara. 

A serpente no Egito, no seu papel de protetora, é a encarnação da
BUTO
deusa Buto, do Baixo-Egito, que cospe fogo para proteger os que a usam como emblema. Ela figura em companhia do abutre, símbolo do Alto-Egito, na coroa dos faraós. Entre os dois símbolos, coloca-se um disco solar, que representa o poder criador. O interior da terra, lembre-se, para os egípcios (na Alquimia também) era um lugar ofídico por excelência pois era nele que ocorriam as transformações, as regenerações. No Livro dos Mortos, por exemplo, esta ideia aparece com a divisão da noite em doze horas, doze câmaras, nas quais vivem serpentes, que a barca solar tem que atravessar. 

A deusa Buto, protetora do Baixo-Egito, dava também seu nome a uma cidade do delta do Nilo. A deusa-serpente protegeu o infante Horus, filho de Ísis, recolhendo-o na ilha flutuante de Khemnis. Este acontecimento se assemelha ao do nascimento, na mitologia grega, dos luminares (Ártemis e Apolo), na ilha de Ortígia  (Delos depois). Buto é representada normalmente como uma serpente, alada ou não, e muitas vezes coroada. Às vezes, aparece como uma mulher que usa na cabeça a imagem de um abutre, a coroa vermelha do norte. Já o crocodilo aparece sempre associado a Seth como símbolo das trevas e da morte. Eterno inimigo de Osíris, o Sol fecundante, que com Ísis (a cheia do Nilo) representa a fertilidade, sendo Seth a desertificação. 

O que ficou para nós do Cronos egípcio é que ele é uma divindade da segunda dinastia, como o grego, pai dos “osirianos”, deus da substância universal, por ele coagulada e ordenada, da qual um dia saíram os humanos. Quanto ao crocodilo, animal mítico ligado às origens da terra, que apresenta quase que as mesmas características do dragão, ele foi adorado e amaldiçoado no Egito. Na cidade Schedit (Krokodilopolis para os gregos), o crocodilo era reverenciado como uma espécie de demiurgo que no dia da criação havia saído das águas primordiais para ordenar o mundo material. Noutras regiões, por causa dessa sua ligação às origens da criação, ele passou a representar as mais negativas energias do interior do homem, surgidas das profundezas de seu inconsciente. Acrescente-se ainda a este aspecto negativo o fato mítico de ter Seth, o assassino de Osíris, ter se refugiado, em sua fuga, no corpo de um desses animais.

OSÍRIS
Osíris, inicialmente reverenciado como deus da vegetação, nasceu no Alto-Egito, em Tebas. Quando de seu nascimento, uma voz misteriosa proclamou que ele seria o Mestre Universal; foi saudado com gritos de alegria e, ao mesmo tempo, com choro e lamentações, diante do destino que o aguardava. Ra se alegrou, apesar das dificuldades que havia criado quando de seu nascimento. Quando Geb se retirou para o céu, ele o sucedeu como deus do Egito, ligando-se a sua irmã, Ísis, elevada a condição de rainha.

Como rei, Osíris proibiu as práticas antropofágicas e ensinou aos humanos, ainda em estado selvagem, a arte de fabricar instrumentos, de cultivar a terra, de produzir alimentos como o pão e bebidas como o vinho e a cerveja. O culto aos deuses ainda não existia. Osíris orientou a construção dos primeiros templos e das primeiras estátuas, regulou a ordem das cerimônias e inventou instrumentos musicais. Depois disso, ele construiu cidades, deu aos humanos leis justas, recebendo, por isso, o título de Unophris (Onofre), o Ser Bom.   

Não satisfeito com o que realizou no Egito (Cronos e Saturno farão o mesmo, respectivamente, na Grécia e em Roma), Osíris decidiu levar a sua proposta civilizadora pelo mundo afora. Deixando Ísis como regente, partiu acompanhado pelo seu grão-vizir, Thot, e por seus oficiais, Anúbis e Ophois. Voltando, encontrou o Egito sabiamente administrado por sua mulher. Entretanto, pouco depois, foi vitimado por um complô armado por seu irmão Seth, invejoso de seu poder. No vigésimo oitavo ano de seu reino (número saturnino) foi assassinado e seu corpo decomposto. 

Ísis, auxiliada por Toth, Anúbis e Hórus, conseguiu, através das práticas mágicas que conhecia, trazê-lo de volta à vida. Todos
SETH
compareceram a um tribunal divino, presidido por Geb, diante do qual Osíris desmascarou Seth e refutou as acusações que este lhe fazia (usurpação do trono). Ao abrigo da morte, Osíris entregou o trono a seu filho Hórus e desceu ao mundo dos mortos, onde pontifica desde então, assumindo o controle da psicostasia. Osíris simboliza o drama da existência humana destinada à morte, mas sobre ela triunfante periodicamente.

Seth, que aparece sobretudo na forma do monstruoso Apophis (semelhante ao Typhon dos gregos), é o eterno adversário de Osiris, personificação do deserto, árido e seco, símbolo das trevas em oposição à terra fértil, à água fecundante, à luz. Tudo o que vem de bom e profícuo é de Osíris, tudo o que é perversidade e destruição vem de Seth. Seth foi expulso do panteão egípcio, tornando-se um inimigo de todos os deuses. Os asnos, os antílopes e outros animais do deserto eram de Seth, assim como o hipopótamos, o crocodilo, o escorpião e o porco, nos quais Seth se refugiou para escapar dos golpes de Horus. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

MITOLOGIAS DO CÉU - NETUNO 2 (EGITO)


     

Se as elaborações mitológicas diferem às vezes bastante, num ponto elas costumam coincidir: todas ou quase todas partem da ideia de que a criação do universo é sempre precedida por uma massa caótica informe, intemporal, ilimitada, obscura e fria; uma espécie de protomatéria, uma massa pastosa, quase líquida, no seio da qual se aninha potencialmente uma possibilidade existencial. Esta possibilidade, conforme as descrições, se manifesta por algo que aflora à sua superfície, uma flor de lótus, uma rã, uma serpente, um montículo de terra etc., como ponto de partida para toda a criação subsequente.

                             
 Outra característica cosmogônica comum é a de que essa massa líquida está em permanente movimento de fluxo e refluxo e é, enquanto duração, cíclica, isto é, alterna-se como o dia e a noite, como a sucessão das estações. Assim, tudo tem um começo, uma duração e um fim, este sempre um recomeço.

É do seio dessa massa líquida que a criação procede. A massa caótica contém dentro de si um potencial criador. Uma vez criados os corpos e as formas, sempre presente a ameaça de um retorno à indiferenciação, de uma volta ao caos. Entre os antigos egípcios, o desenvolvimento da criação se dá pela atividade de um demiurgo que também emerge da matéria caótica. A ele caberá engendrar os seres divinos e outras formas.

O uno se biparte, se torna três, nove, se multiplica, surge o plural e com ele se chega aos milhões, número que entre os egípcios indicava o infinitamente grande. Ao mesmo tempo, o demiurgo e os deuses criados vão se empenhar numa luta incessante para evitar o retorno do que foi criado ao caos, algo assim como uma inundação ou outra manifestação catastrófica que engolirá inexoravelmente tudo o que foi criado de tempos em tempos. 

APOPHIS
 Esta ameaça de retorno ao caos tem como símbolo mais visível uma enorme serpente que vive no seio da massa líquida informe. Conforme certas histórias, esta enorme serpente se acha enrodilhada sobre si mesma, mordendo a própria cauda, lembrando um movimento de eterno retorno. Esta serpente, entre os egípcios, tem o nome de Apophis e, a cada noite, ela tenta impedir o avanço da barca solar em direção da alba, tentando impedir o ciclo do tempo. Para os egípcios, no mundo que antecede a criação não existiam as noções de espaço e de tempo. Esta imensidão não tem fronteiras nem consistência, tudo é móvel. Temos assim um espaço líquido envolvido pelas trevas; não podemos falar do dia ou da noite, inexistentes então.  

As principais cosmogonias egípcias que descrevem as origens do mundo são as Heliópolis, de Hermópolis e de Mênfis. Em grandes templos como os de Edfu e de Esna também encontramos visões cosmogônicas dos tempos originais e da criação, nas quais as divindades atuavam. É sobre este mundo primordial, instável, ameaçado constantemente de implosão, que se torna necessário atuar, tentar dominá-lo e mesmo preservá-lo de algum modo por ritos precisos, organizando-o socialmente como uma pirâmide, na qual o faraó, colocado no seu vértice, desempenha o papel de principal sacerdote mediador entre os humanos e os deuses. 

As diferentes cosmogonias egípcias têm em comum, como origem da criação, um oceano primordial, uma imensidão de matéria líquida e trevosa, a que dão o nome de Num, dentro da qual existe um demiurgo que, despertando, porá a criação em movimento. Este oceano primordial representa a origem do universo, mas também o fim dos tempos, ao qual tudo o que foi criado retornará um dia. 

Este criador não depende de nada ou de ninguém para se
ATUM
manifestar. Ele se chama Atum; é único e não tem um
lugar definido onde possa ser encontrado; é onipresente. A criação se mostra pelo aparecimento de uma ponta de terra, encoberta por um papiro, sobre a massa líquida. A partir dessa manifestação, a criação vai se fazendo por etapas. Sendo solitário, Atum (literalmente, “o que é totalidade”, “ser completo” ou “o que é e o que não é”) dá origem a dois princípios, um feminino (Tefnet) e outro masculino (Shu). Estes princípios vão criar Nut (Céu) e Geb (Terra), com os quais começa a criação “normal”, reprodutiva, sexuada. 

Num é o caos ou o oceano primordial no qual estão presentes, antes da criação, os germes de todas as coisas e de todos os seres. Embora às vezes seja descrito como uma divindade, Num sempre foi considerado por algumas tradições mais como uma criação intelectual (como o Brahman dos hindus), não tendo templos nem adoradores. É representado algumas vezes por um ser antropomorfizado, mergulhado até a cintura na água do que parece ser um lago, com os braços levantados, nos quais sustenta os deuses que criou.

Todavia, se nos aproximarmos mais do Egito pré-histórico teremos que admitir que a noção de Num não é simplesmente o resultado de especulações abstratas, mas a lembrança desse recuado período que alcança o paleolítico durante o qual os seus habitantes podiam dos terraços desérticos contemplar o Nilo monstruoso e indisciplinado que cavava o seu leito no território africano. Ademais, cada inundação fazia o vale retornar à sua forma original, a de um mar imenso; para que as cidades se mantivessem quando dessas inundações, era preciso  que ás águas fossem desviadas, contidas de alguma forma, que diques e lagoas artificiais fossem construídos. O Num primordial, salientemos, não é o autor da criação. Ele desempenha no processo cosmogônico um papel passivo, feminino, onde se manifestarão as primeiras forças divinas. 

MNEVIS
 Atum, o demiurgo, conforme a cosmogonia heliopolitana, foi logo identificado como Ra, divindade solar, sendo o touro Mnevis o seu animal sagrado. A doutrina heliopolitana ensinava que, antes da criação, vivia no Num um espírito ainda indefinido, que carregava consigo a soma de todas as existências, de nome Atum. Mais tarde, este espírito manifestou-se como Atum-Ra, dando ele origem a todos os deuses, os  humanos e todos os demais seres.

 
ATUM-RA
Atum é considerado como o grande ancestral do gênero humano; é representado sempre por uma figura humana que ostenta a coroa dos faraós, o pschent. Deus solitário, diz-se que ele tirou de si mesmo, sem o concurso do princípio feminino, o primeiro par divino. Somente mais tarde ele teria se unido a Jusa ou Nebet Hotep, tornando-se pai dos gêmeos Shu e Tefenet.

As divindades descendentes do primeiro Demiurgo vinham defendendo o país tanto interna como externamente, apesar das ameaças às fronteiras do sul do país. As coisas pioraram quando Seth e Horus entraram em luta, o que só 
SET E OSIRIS
trouxera divisão e esgotamento. O primeiro era irmão gêmeo de Osiris, a quem assassinara, e, como tal, tido do primeiro. As preocupações aumentaram quando um novo perigo apareceu ao norte do país. Ninguém havia ouvido falar dele, nem se sabia de onde vinha. De certo, só a informação de que ele não fazia parte das assembleias divinas; nenhum templo, nenhuma estátua lhe haviam sido consagrados. 


Muitos diziam que essa ameaça vinha de lugares distantes, além do
KHEPRI
país onde Khepri (escaravelho, uma das formas de Atum, como o Sol matinal; “aquele que veio à existência por si mesmo”) se levantava, habitados por povos inimigos. Outros afirmavam que ele viera da Ásia para atacar o delta do rio Nilo. Outros ainda diziam que ele provinha das águas salgadas, indomáveis, nas quais as águas do rio se perdiam, onde Ísis errara por muito tempo à procura do corpo do seu querido esposo Osíris.

  
O que se sabia é que os deuses da Enéada (grupo dos nove principais deuses de Heliópolis) não gostavam das águas oceânicas, essas imensas extensões aquáticas assoladas constantemente por ventos e tempestades. Era difícil chegar a elas; para atingi-las tinha-se que atravessar a zona instável e pantanosa do delta. Aquelas águas vinham de terras ignotas onde se veneravam divindades desconhecidas. Ao mesmo tempo que dificilmente transponível para os que quisessem chegar ao grande oceano, o delta do Nilo, com os seus pântanos, era, entretanto, uma proteção natural contra os ataques externos. 

Eis que num determinado momento uma força até então desconhecida, um deus diziam alguns, começou a aterrorizar os
YAM E SEUS ASSECLAS
pescadores que se aventuravam no alto-mar. Engolindo barcos, homens, casas, rebanhos e plantações criados ou instalados em algumas ilhotas do delta, o terror logo tomou conta das populações costeiras. A coisa piorou quando se propalou uma notícia de que a tripulação de uma embarcação nunca vista havia raptado algumas jovens diante de atônitos camponeses.

Os rumores se multiplicavam, os temores aumentavam. Histórias
HAPI
narravam que um monstro surgido das profundezas marinhas, em companhia de crocodilos e de hipopótamos,vinha, à noite, errar pelo delta, à procura vítimas. Diante desses acontecimentos, Hapi, o deus do rio Nilo, alertou a assembleia dos deuses. Indecisos, eles recomendaram aos sacerdotes que solicitassem aos crentes a multiplicação das oferendas e das procissões religiosas. Tropas militares foram deslocadas para a região do delta do Nilo.


O que se descobriu é que as ameaças vinham de um soturno personagem de nome Yam, que se declarou uma divindade marinha, e que se pôs a atacar os deuses. Tal aconteceu quando uma embarcação religiosa descia o Nilo com uma estátua do deus Hapi. Quando a embarcação se aproximava da embocadura do rio, serpenteando entre os papiros, uma onda enorme a atingiu, Logo, tudo parecia ter voltado ao normal, mas nenhum sinal da embarcação e de sua tripulação foi encontrado. 

O deus Hapi exigiu que lhe fosse feito um sacrifício, um touro, no caso. Mas nada disto impediu que Yam continuasse atacando e fazendo vítimas, cada vez mais insaciável. Dia após dia, ele exigia cada vez mais. Os deuses acreditavam que ele acabaria se cansando, se tornando menos ávido, e que acabaria voltando para o seu distante reino oceânico. 

Tal não aconteceu, porém. Yam, para demonstrar a sua determinação, enviou uma tropa de vagas marinhas conquistar as terras do delta. Sob o formidável ataque, elas logo desapareceram, o gado se afogou, os pássaros voaram, os que puderam fugir se afastaram apavorados, as semeaduras apodreceram, os celeiros foram invadidos, tudo sossobrou.

NUT
 A Terra, na pessoa de Geb, pai de Osíris e esposo de Nut, deusa do céu, dirigiu-se então à deusa das colheitas, Renenutet, pedindo-lhe a ajuda. Esta declarou a sua impotência diante do fato e sugeriu a Geb que para apaziguar a fome de Yam fossem-lhe oferecidos feixes de trigo em grande quantidade, rejeitados, porém,pelo deus.
LÁPIS- LAZÚLI
A Enéada, depois de discutir longamente o assunto, resolveu reunir um grande tesouro em ouro, prata, lápis-lazúli e outras pedras preciosas. Levados numa embarcação até o delta, os presentes foram entregues ao deus pelo faraó, prosternado diante dele.


Yam exigiu então que fosse construído um templo em sua homenagem, tão grandioso quanto o de Ra, em Heliópolis. O faraó hesitou: não desejava considerar um deus estrangeiro igual aos da Enéada. Ao mesmo tempo, os deuses irritavam-se, ofendidos, ao ver o faraó fazer constantes oferendas a um deus estrangeiro. 

Como seu santuário não era levantado, Yam foi tomado por grande
PTAH
furor. Foi enviada então, sob o comando do faraó, uma delegação para negociações. Os argumentos apresentados não satisfizeram Yam, que exigiu um tesouro dez vezes maior. A Enéada conseguiu juntá-lo, resolvendo que ele fosse levado ao deus por Astarte, a belíssima e irascível filha do deus Ptah, o deus que fora capaz de retirar a Terra do Num.


RENENUTET
Notando o sofrimento dos homens, os lamentos de Geb, a impotência de Renenutet e o temor dos deuses, Astarte foi tomada de grande receio diante do que lhe era solicitado. Orgulhosa, porém, ela resolveu atender ao pedido dos deuses; banhou-se, vestiu-se maravilhosamente, perfumou-se, cobriu-se de joias, e com um grupo de carregadores desceu o Nilo numa grande embarcação, levando o tesouro para Yam.

Ao vê-la, Yam desistiu do tesouro e mandou um recado para os deuses da Enéada: que eles lhe entregassem a própria Astarte e nada mais ele exigiria para deixar todos em paz. Assim foi decidido, e Astarte com um grande dote voltou a se apresentar a Yam para se tornar sua esposa. A paz voltou ao universo e os deuses da Enéada retomaram as suas atividades habituais.

Eis, porém, que o humor instável e colérico de Yam voltou a se manifestar. A submissão de Astarte e as riquezas que lhe foram dadas não bastavam. Ele enviou a esposa com o pedido de mais tributos, com a ameaça de destruir não só delta, mas as montanhas também. O risco de um retorno ao caos era iminente. Os deuses, então, recomendaram a Astarte que não voltasse ao esposo.

ASTARTE
 Não tendo outro recurso, a Enéada, com muita relutância, viu-se constrangida a solicitar que Seth, o Terrível, deus dos desertos,
SETH
enfrentasse Yam, pois era o único capaz de com o seu sopro quente combatê-lo. Como monstruoso que era, seria muito fácil para Seth lutar contra os monstros do caos gerados por Yam. O confronto aconteceu e só a muito custo Seth conseguiu vencer Yam. O preço pago pela Enéada e pelo sacrifício de vidas humanas foi elevado, mas acabou valendo a pena. Apesar das doenças e da desertificação, a vitória foi obtida. E foi assim que a Enéada, agradecida, empurrou para os braços de Seth a maravilhosa Astarte, cujo temperamento muito se ajustava ao dele. E foi assim também que Yam, o deus do oceano, não voltou a perturbar a paz das terras egípcias sobre as quais velava a Enéada.